“Violência doméstica matou 25 pessoas no ano passado, 2025 é o ano com mais homicídios voluntários em contexto de violência doméstica desde 2022, ano em que foram registadas 28 mortes.” (DN)
“Quase 20% das mulheres em
Portugal sofreram violência física ou sexual”. (Público)
“709 mulheres foram
assassinadas em Portugal entre 2002 e 2025. Nos últimos 22 anos, registou-se
uma média de 32 homicídios de mulheres por ano. "A casa continua a ser o
lugar mais inseguro para as mulheres”, dados da UMAR no DN.
“APAV apoiou 50.495 mulheres
nos últimos quatro anos, maioria por violência doméstica”. (Público)
Estes dados que marcam tragicamente
a vida de muitas mulheres, sublinham mais uma vez que a violência doméstica tem
de ser uma das prioridades das políticas públicas e da cidadania e não uma
referência que sempre emerge a cada 8 de Março, Dia da Mulher, ou quando na imprensa se divulga mais um caso.
São dados impressionantes e os
tempos que vivemos não permitem grande optimismo. Acresce que, para além de
sabermos que a violência doméstica está habitualmente no topo das
participações, este mundo é bem mais denso e grave que a realidade que
conhecemos, ou seja, aquilo que se conhece, apesar de recorrentemente termos
notícias de casos extremos, é "apenas" a parte que fica visível de um
mundo escuro que esconde muitas mais situações que diariamente ocorrem numa
casa perto de nós.
Por outro lado, para além da
gravidade e frequência com que continuam a acontecer episódios trágicos de
violência doméstica e como recorrentemente aqui refiro, é ainda inquietante o
facto de que alguns estudos realizados em Portugal evidenciam um elevado índice
de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando
mais qualificada. Muitos dos intervenientes remetem para um perturbador
entendimento de normalidade o recurso a comportamentos que claramente
configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.
Importa ainda combater de forma
mais eficaz o sentimento de impunidade instalado, as condenações são bastante
menos que os casos reportados e comprovados, bem como alguma “resignação” ou
“tolerância” das vítimas face à situação de dependência que sentem relativamente
ao parceiro, à percepção de eventual vazio de alternativas à separação ou a uma
falsa ideia de protecção dos filhos que as mantém num espaço de tortura e
sofrimento. Felizmente este cenário parece estar em mudança, mas demasiado
lentamente. Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais
lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores
sociais presentes em cada época.
Torna-se criticamente necessário
que nos processos de educação e formação dos mais novos possamos desenvolver
esforços que ajustem quadros de valores, de cultura e de comportamentos nas
relações interpessoais que minimizem o cenário negro de violência doméstica em
que vivemos. A educação, a cidadania e o desenvolvimento que sustentam
constituem a ferramenta de mudança mais potente de que dispomos.
É uma aposta que urge e tão
importante como os conhecimentos curriculares. Percebe-se, também por estas
questões, a importância da abordagem do universo da “Cidadania e
Desenvolvimento” na educação escolar e para todos os alunos. Seria ainda
desejável que a ignorância e o preconceito não inquinassem a discussão.
Entretanto, torna-se fundamental
a existência de dispositivos de avaliação de risco e de apoio como instituições
de acolhimento suficientes e acessíveis para casos mais graves, um sistema de
protecção e apoio eficiente aos menores envolvidos ou testemunhas destes
episódios, e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere.
A omissão ou desvalorização
destas mudanças é a alimentação de um sistema de valores que ainda “legitima” a
violência nas relações amorosas, que a entende como “normal”. Tudo isto tem
como efeito a continuidade dos graves episódios de violência que regularmente
se conhecem, muitos deles com fim trágico.
Apesar da natureza estranha e
complexa dos dias que vivemos, é fundamental não esquecer que questões como
estas devastam o quotidiano ou a vida de muita gente. Pode estar a acontecer
numa casa ao nosso lado.
Neste contexto, é também de
registar a iniciativa há tempo divulgada de criar um primeiro instrumento legal
de âmbito europeu para combater a violência doméstica e contra as mulheres. No
entanto, não conheço eventual desenvolvimento.
No entanto, a violência doméstica
é um dos pesados fardos que a metade do céu, as mulheres carregam. Existem
muitos mais.
Mantém-se a diferença de
oportunidades e a desigualdade salarial apesar das mudanças legislativas.
Segundo alguns dados serão precisas décadas para atingir equidade no estatuto
salarial.
Mantém-se a dificuldade que
muitas mulheres em Portugal têm em conciliar maternidade com carreira, adiando
ou inibindo uma ou outra, sendo cada mais preterida a maternidade. A intenção
expressa de ter filhos é um obstáculo no acesso ao emprego.
As mulheres portuguesas são das
que na Europa mais horas trabalham fora de casa e a tempo inteiro e também das
que mais trabalham em casa.
Mantém-se a necessidade de
imposição legal de quotas para garantia de equidade que mesmo assim não se
verifica.
Mantém-se a desigualdade no que
respeita à ocupação de postos de chefia.
Mantêm-se os números elevados do
tráfico e abuso de mulheres que também passa por Portugal.
Mantém-se a criminosa mutilação
genital feminina, também realizada em Portugal.
Reparemos como a igreja continua
a discriminar as mulheres.
É muito grande o número de mulheres
idosas que vivem sós, sobrevivem isoladas e acabam por morrer de sozinhismo sem
que ninguém, quase, se dê conta.
Mantém-se o tanto que ainda está
por fazer.
Provavelmente, ainda assim será
no próximo ano como tem sido nos anos anteriores.
Provavelmente, voltarei com um texto semelhante no próximo ano.
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