AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

VULNERABILIDADES

A “comunicação ao país” do Presidente Cavaco Silva ansiosamente esperada por imperiosa necessidade de esclarecimento do famoso “caso das escutas” implodiu. Em primeiro lugar, ainda não foi desta vez que o Presidente surpreendeu o país, isto é, continuou a comunicar sem dizer nada. Usando a fórmula notável e para mim imperceptível de falar de si na terceira pessoa acusou alguns elementos do PS de o tentar “encostar” ao PSD e descobriu ontem que os computadores da presidência são vulneráveis. Os comentaristas dos partidos, de todos os partidos, ao serviço da pequena política e à falta de substância da comunicação mostraram, sem excepção, uma “fortíssima preocupação” com o facto dos computadores da presidência apresentarem “vulnerabilidades”. Vejamos algumas notas sobre vulnerabilidades.
No que diz respeito às vulnerabilidades informáticas, qualquer utilizador minimamente informado saberá dizer que não existem computadores virtualmente “invulneráveis”. Qualquer computador em qualquer parte do mundo não tem garantida a inviolabilidade. Assim sendo, resta tentar que os dispositivos de protecção sejam o mais eficazes possíveis e que a utilização seja prudente e com dispositivos ela própria de protecção, como linguagem codificada, por exemplo.
Mas no que respeita a vulnerabilidades, estou bem mais preocupado com as vulnerabilidades económicas de uma boa parte dos portugueses. Estou preocupado com a vulnerabilidade do sistema de justiça. Estou preocupado com as vulnerabilidades e os riscos que afectam boa parte das crianças em Portugal. Estou preocupado com as vulnerabilidades do sistema educativo ainda com taxas altas de abandono e insucesso escolar. Estou preocupado com a vulnerabilidade do Sistema Nacional de Saúde que afecta milhares de cidadãos. Estou preocupado com as vulnerabilidades criadas pelo desemprego. Estou preocupado com a vulnerabilidade do da cena política actual que a expõe à mediocridade e aos jogos de poder de parte substantiva da classe política.
Vamos lá a coisas sérias.

UM HOMEM CHAMADO DIFERIDO

Era uma vez um homem chamado Diferido. Tinha uma forma muito curiosa de funcionar e sempre assim tinha sido. Nunca respondia directamente ao que lhe perguntavam. Enredava-se em desculpas, discursos de divagação e raramente conseguia alinhar uma resposta no momento em que era interpelado. As pessoas não percebiam mas ele assustava-se com a ideia de agir de imediato, era tremendamente inseguro. Nas tarefas que tinha de executar assumia o mesmo estilo. O Diferido fazia sempre os possíveis e os impossíveis para não fazer imediatamente o que lhe era solicitado. Já na escola, em miúdo, assim procedia, o trabalho aparecia feito, umas vezes melhor, outras vezes pior, mas sempre depois da altura pedida. Os professores bem insistiam mas o Diferido, por insegurança, preferia, sempre que possível, fazer as suas tarefas lá num canto e só depois aparecia com elas realizadas.
O Diferido não era assim muito bem entendido por aqueles que o conheciam. Achavam que ele não se organizava bem para o que fosse necessário, nunca dava respostas na altura certa, aparecia sempre tarde, etc.
Um dia, pela primeira vez, esteve presente no tempo certo, com a tarefa cumprida e com as respostas dadas. Não conseguiu escapar, como quase sempre tinha acontecido.
Os poucos presentes estranharam. Foi um funeral discreto.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O CIRCO E A FALTA DO PÃO

Duas referências que evidenciam algumas das características marcantes do nosso país. Sendo de natureza bem diferente ambas sustentam a imprescindível e urgente mudança. A primeira nota, menos relevante mas curiosa para registar que no âmbito da campanha eleitoral para as autárquicas, o mítico Major Valentim Loureiro que contra tudo o que a decência, o pudor e a ética aconselham, continua em acção, boa acção, aliás. Desta vez, arrumados os electrodomésticos e as viagens de avião, o Major aproveita o concerto de Tony Carreira organizado pela autarquia para distribuir pessoalmente bilhetes para o concerto às muitas pessoas que se dirigem ao seu gabinete e revelam a sua aprovação pelo gesto simpático. Esta mudança do Major, da economia para a “cultura”, é caracterizada pela oposição como a “sul-americanização absoluta” da política. Lamentavelmente, qualquer de nós vai encolher os ombros de indiferença e pensar algo como, “coisas do Major”. É o Portugal dos Pequeninos no seu melhor.
A outra referência, com implicações bem mais significativas, remete para um estudo sobre os sistemas de saúde que nos colocam em 25º lugar entre 33 países europeus comparados. O estudo contempla várias dimensões sendo que os piores resultados do nosso sistema se verificam no acesso a consultas de especialidade, no acesso a médico de família e o tempo de espera para cirurgias.
Estas duas referência ilustram, creio, o muito por onde precisamos de caminhar, a requalificação da nossa vida política, uma espécie de Programa Polis político, e a imperativa necessidade de melhorar áreas essenciais da vida da comunidade, neste caso a saúde, mas também a educação, a justiça e a segurança social.

UM CARREGO MUITO GRANDE

Na minha terra usa-se o termo carrego com frequência. Estava até há pouco a passar os olhos por alguns recortes de imprensa que, hábito antigo, vou guardando e dei com duas ou três referências às preocupações expressas, designadamente, por pais e professores sobre o peso excessivo que as mochilas escolares dos miúdos carregam. É verdade, torna-se necessário estar atento a este problema pelas óbvias consequências que daí poderão advir.
Há alguns dias falei aqui de outros elementos constantes nas mochilas dos miúdos que não parecendo fisicamente pesados não deixam de conter riscos que devem ser seriamente considerados, falava eu dos medos que muitos miúdos transportam consigo.
Sobre o carrego das mochilas gostava ainda de chamar a atenção para um outro componente também presente muitas vezes, e que, igualmente, solicita atenção. Refiro-me à pressão, às pressões, que muitas vezes são colocadas nas mochilas. Pressão para a excelência escolar, pressão para um comportamento irrepreensível, pressão para corresponder às expectativas de pais ou professores, etc.
Como é óbvio, é importante que os miúdos e adolescentes sintam que existe interesse e empenho dos adultos nos seus desempenhos, em qualquer área, mas também é verdade que uma pressão excessiva pode ter efeitos bastante negativos. Existem muitas crianças e jovens que, por razões diferentes, não lidam bem, não é fácil, com níveis de pressão demasiado altos. Uma sociedade que está a ficar hiper-competitiva é, por si só, um enorme factor de pressão que contamina os adultos, pais e professores, que fazem, muitas vezes de forma bem intencionada, derivar para os mais novos essa pressão para o sucesso.
Pode ser um carrego muito grande.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

VOLTEMOS ENTÃO ÀS PESSOAS

Depois da ressaca geral, lembremo-nos que, como de costume, todos os partidos ganharam, e não esquecendo que hoje se inicia mais um tempo de campanha, creio que vai sendo tempo de voltar às pessoas e aos seus problemas que a aritmética política e as suas combinações, só por si, não resolvem.
Cerca de seiscentos mil desempregados e muitos outros em risco, os seus problemas e o das suas famílias, constituem o maior desafio imediato.
Milhares de pessoas sem médico de família e listas de espera enormes para muitos actos médicos, designadamente, consultas de especialidade e cirurgia chamam por iniciativas eficazes e urgentes.
Um sistema educativo crispado, com os professores divididos por um estatuto de carreira com aspectos incompreensíveis, inibe desejáveis e imprescindíveis melhorias.
Uma desigualdade social que nos envergonha, com milhares de idosos com pensões miseráveis e muitos milhares de portugueses em situação de pobreza gritam por políticas sérias e eficazes que regulem os excessos e abusos e protejam os mais vulneráveis e excluídos.
Um sistema de justiça moroso, ineficaz e sem equidade é insustentável pelas consequências imediatas e mediatas ao nível da confiança dos cidadãos.
Um desinteresse crescente dos cidadãos pela participação cívica, quase que exclusivamente entregue aos aparelhos partidários exige mudanças no quadro normativo que regula este universo.
Este um dos enunciados possíveis sobre o que me parece ser a essência da actividade política, a promoção do bem-estar das comunidades.

LANÇAR O BARCO À ÁGUA

Numa das maiores rotundas da minha terra, sim também temos muitas rotundas, foi instalado um conjunto escultórico de grandes dimensões dedicado à construção naval, uma das actividade emblemáticas do concelho de Almada, com o extinto estaleiro da Parry & Son, do Arsenal do Alfeite, ao que parece em vias de extinção e da mais recente Lisnave, também em maus lençóis.
Na minha família, o meu pai como serralheiro, o meu sogro como caldeireiro e vários tios, para além de muita gente conhecida, foram operários da construção naval pelo que aquele monumento acorda ressonâncias e, mais do que isso, acho-o bonito. Um dos seus elementos de maior dimensão representa um barco no plano, aprendi desde miúdo que o plano é o local seco, não uma doca, inclinado, onde os barcos são construídos e reparados. Quando prontos procedia-se ao seu lançamento à água, partiam-se as cordas que seguravam o barco no plano e este deslizava, ganhava velocidade e entrava na água levantando um enorme cachão, ficava a flutuar ganhando a sua condição de barco.
Nos idos de 50 e 60 o meu pai tentava, por vezes, conseguia, com a conivência dos guardas que eu, miúdo, umas vezes só, outras com o meu primo, passasse o mítico Portão Verde para assistir ao lançamento de um barco.
Nem dormia, era algo que me impressionava e ainda hoje está bem vivo na memória, no lado das coisas mais bonitas que carrego na mochila já bem composta pela estrada andada.
Lamentavelmente, hoje na minha terra, estão acabar com os lançamentos dos barcos à água.
Parece que a minha terra, ela própria, anda à deriva.

domingo, 27 de setembro de 2009

TEMOS OS RESULTADOS, FALTAM AS POLÍTICAS

Como não podia deixar de ser, uma nota sobre os resultados eleitorais. Sem qualquer estranheza, como é hábito ganharam todos.
O PS ganhou porque teve mais votos que os outros concorrentes e formará governo, os outros quatro partidos ganharam porque tiraram a maioria ao PS, sendo que Bloco, CDU (PC) e PP subiram em votação e em deputados. Desculpem, já me esquecia, os abstencionistas também ganharam. Aí está a gente feliz no país feliz.
No entanto, é útil não esquecer que as eleições se realizam como instrumento de aferição da vontade dos eleitores para que, caso não haja maioria absoluta, o partido mais votado, só, coligado ou com acordos pontuais forme um governo, defina um programa político que, depois de aprovado na Assembleia da República, se traduzirá nas medidas políticas que nos guiarão nos próximos quatro anos.
Esta é que é, do meu ponto de vista, a questão essencial, que políticas? Face ao que foi esta legislatura e os discursos de campanha as dúvidas são mais que muitas. Mudar ministros é irrelevante, mudar de estilo é forma não é conteúdo. A substância é que políticas, que prioridades. E sobre isso sabemos muito pouco.
Apenas temos uma certeza, que, apesar de tudo é importante. Sejam quais forem as políticas terão de passar por negociação. Continuará tudo na mão dos partidos, dos respectivos aparelhos, mas inibe tentações de autoritarismo e tiques de absolutismo.

ELEIÇÕES

Dia de eleições. Durante a campanha para as eleições de hoje falou-se muito, demais e em termos no mínimo de estranhos, de outros tempos. Comentei aqui esse tipo de referências fazendo apelo à memória.
De novo a lembrança. Não consigo evitar que em todos os dias que se realizam eleições me lembre dos dois primeiros actos eleitorais em que me envolvi. Em primeiro lugar, as eleições para a então chamada Assembleia Nacional em Outubro de 1969, durante “Primavera” Marcelista, tempo que aparentava uma pequena abertura no regime. Concorreram a União Nacional, a Comissão Eleitoral de União Democrática, a Comissão Eleitoral Monárquica e a Comissão Democrática Eleitoral. Participei em algumas acções durante esta campanha embora ainda não pudesse votar. Lembro-me de assistir a alguns comícios muito bem vigiados pela polícia política e enquadrados pelas forças policiais, lembro-me por exemplo da interrupção, por decisão policial, de um acção em Almada em que participava José Afonso, lembro-me de alguns “incómodos” na família e em famílias conhecidas causados pelo envolvimento nestas actividades. Não sei se será isto a que se pode chamar “asfixia democrática” mas não posso deixar de recordar. Por curiosidade e para os mais novos, a União Nacional, o “partido” do regime ficou “surpreendentemente” com a totalidade dos 120 deputados eleitos.
O segundo acto eleitoral de que sempre me lembro foi o que se realizou em 1975 para a Assembleia Constituinte, as primeiras eleições livres. Um dia absolutamente inesquecível, já aqui uma vez referi, passei uma manhã inteira numa interminável fila para, finalmente, poder votar, pela primeira vez, sem constrangimentos. Na rua, a gente falava de votar como de algo mágico. Desde esse tempo muita coisa se passou, umas mais bonitas, outras menos bonitas, os últimos tempos têm sido particularmente feios, mas é bom não esquecer.
Façam o que quiserem com o voto, e esta é a questão essencial, eu faço o que quero com o meu voto. Também me parece que seria bom que os partidos que têm vindo a transformar a democracia numa partidocracia não se esquecessem. Pouco a pouco começamos a guardar os nossos votos e decidimos não os dar a ninguém, sobe a abstenção, ainda assim uma decisão nossa.

sábado, 26 de setembro de 2009

REFLECTIR

Manda a organização dos processos eleitorais que o dia antes se dedique à reflexão. O day after dedicar-se-á ao “e agora?”. Mas deixemos o futuro para depois, como deve ser.
Tratemos então de reflectir. Creio que a maioria das pessoas que irá votar já decidiu em quem, provavelmente, a dúvida estará em ir votar, ou não. Veremos o resultados, quem ganha, que tipo de vitória e o nível de abstenção.
De qualquer forma, julgo que cenário político entre nós, incluindo, a campanha eleitoral deveria merecer séria reflexão.
Importa reflectir, por exemplo, porque é que esta campanha eleitoral foi, do meu ponto de vista, uma das de mais baixo nível de discurso político da nossa história recente. Nem os crispados anos políticos de 70 e início de 80 com discussões de forte carga ideológica produziram campanhas eleitorais tão despudoradas de princípios, carregadas de ataques pessoais e de “trabalho sujo” para substituir a discussão de ideias e projectos como esta.
Não me lembro de uma campanha eleitoral em que tantas referências se direccionassem para comparações, quase sempre disparatadas, com o passado em vez de assumirem propostas para o futuro.
Nestas eleições cerca de 700 000 jovens poderão votar pela primeira vez. Como terão visto os últimos meses da vida política em Portugal? Como terão entendido os discursos em que eles, o futuro, só na retórica parecem ser lembrados?
Também me parece que vai sendo tempo de reflectir se o modelo actual de organização da actividade política, alimentador da partidocracia instalada e inibidor da participação cívica fora dos aparelhos partidários, é o que melhor se adequa à construção de sociedades modernas, abertas, participativas e preocupadas com a vida colectiva.

AS NOZES E A MEMÓRIA

Este fim-de-semana há festa no meu Alentejo, as Festas da Sra. D’ Aires. Como quase todos os anos acontece é também neste fim-de-semana que colho as nozes. No entanto, não sei bem explicar a razão, as nozes ainda não estão tão abertas como desejável pelo que, a conselho do Mestre Zé Marrafa, vão ficar mais uma semana nas árvores. Como o trabalho não falta, rapidamente se decidiu que então colheríamos alguma azeitona mais grada para pisar, costuma ficar tão boa que nem vos conto, e pela preparação da massa de pimento para temperar a carne. Foi este o programa da tarde e do serão, eu a pisar azeitonas e a minha companheira de estrada a cortar pimentos vermelho às tiras para pôr em sal.
Nem a propósito do texto que coloquei no Atenta Inquietude sobre o medo, as sociedades com medo, gostava de contar uma história que o velho Marrafa me contou à tarde estávamos ainda a falar das nozes. Dizia ele que há uns quarenta ou cinquenta anos trabalhava para um lavrador muito velhaco, naquele tempo havia muitos, sublinhou, que obrigava as moças que trabalhavam na herdade a colher as nozes sempre no dia antes de começar a festa da Sra. D’ Aires, estivessem ou não prontas para colher. Face à minha estranheza explicou que naquele tempo não se usavam luvas e que as mãos ficam tão negras e impregnadas com o óleo do invólucro das nozes que as moças tinham que ir à festa com as mãos num estado lastimoso. É verdade, não sei se já passaram pela experiência, por isso eu uso luvas de trabalho para tal tarefa. Esse mesmo lavrador para castigar os homens obrigava-os a semear cal à mão, alguns acabavam mesmo por ficar com as mãos queimadas.
É por estas e outras que me incomoda, como disse no texto Medo, a banalização da referência a sociedades com medo, à asfixia democrática, ao tempo da “outra senhora” e outros disparates produzida pelos partidos nesta campanha eleitoral, por todos. Parece não haver memória, mas o Velho Marrafa não esqueceu.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

MEDO

Esta campanha eleitoral tem sido fértil em referências ao período do Estado Novo o que só, por si, me parece solicitar uma análise de natureza psicossociológica para a qual não estou habilitado. Sucedem-se referências aos tempos da “outra senhora”, ao discurso “salazarento”, a citações de Salazar que se conjugam com discursos actuais, etc. Tudo isto partiu, creio, da famosa “asfixia democrática” que é fruto de uma evolução somatizada da “claustrofobia democrática” assinada por Paulo Rangel. Os discursos em torno da ideia do medo e da asfixia atingiram níveis inimagináveis. Ferreira Leite consegue afirmar hoje que “as pessoas têm tanto receio de falar que já nem aos técnicos de sondagens respondem a verdade” e explica assim os menos simpáticos indicadores. Eu oiço estas referências e fico perplexo.
A maioria dos que produzem afirmações deste tipo conheceram e experienciaram o que é viver numa sociedade de medo, o período do Estado Novo. Eu lembro-me bem e acho absolutamente patético e despudorado que se compare a situação actual com aqueles tempos. É um insulto a quem foi preso, torturado, proibido de prosseguir carreira profissional e até assassinado. Também sei que em todos os tempos, nestes também, se geram relações de poder que alimentam clientelas que vivem do conformismo acrítico, é a partidocracia instalada. No entanto, não pode valer tudo em política. Eu posso, sem correr riscos de prisão ou outros incómodos dizer tudo isto assinando por baixo, posso criticar o poder, seja ele qual for, tenho-o feito frequentemente aliás mas, sobretudo, tenho memória. E não esqueço, repito, o que é uma sociedade de medo.

A HISTÓRIA DO ACHADOR

Era uma vez um homem que se chamava Achador. Curiosamente o seu nome ia bem com a sua pessoa, o homem dedicava-se a achar. É verdade, e há muito tempo. Logo de novo, não havia conversa onde não entrasse para, sobre qualquer assunto, deixar bem expressa a sua opinião. Era engraçado que o Achador até ganhou o hábito de começar as frases por “eu acho”. Também não ficava mal a um Achador.
Essa sua atitude de, sobre tudo e em qualquer circunstância, emitir com ar sério e seguro uma definitiva opinião apesar de, muitas vezes, quase sempre, banal, foi-se colando a si de tal maneira, que estudou sem grande brilho mas com milhares de opiniões e acabou por se dedicar à profissão de Achador. É de facto curioso como o nome criou a personagem.
Hoje, o Achador tem uma próspera carreira profissional. Continua a começar as suas frases por um incontornável “Eu acho”, tem assento em diferentes televisões onde sobre qualquer tema intervém com as suas bem embrulhadas opiniões a que poucas pessoas parecem ligar, mas sendo o Achador uma figura conhecida a sua presença é tolerada com ar de que o levam a sério. Escreve também em diversos jornais artigos de opinião, naturalmente sobre as mais variadas matérias. Como é previsível, de tanta produtividade o Achador muitas vezes contradiz-se, acha uma coisa e logo o seu contrário. As pessoas têm a generosidade de não o lembrar desses pormenores, as contradições.
O Achador, achou assim a sua obra-prima, viver de achar, não importa o quê, sobre o que quer que seja.
Tal só foi possível porque o Achador vive numa terra de achistas, a nossa. Acho eu.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O MAGALHÃES A PATINAR

Com a campanha a dar as últimas e todos os concorrentes confiantes de que o povo português saberá decidir “em consciência”, ou seja, que vota neles, e que todos vão subir, é melhor não falar sobre esta matéria.
As águas têm-se agitado com a situação do Magalhães. Não se entende muito bem se continua a ser distribuído, pois existem alunos que ainda não receberam e entraram novos alunos para as escolas. Não se percebe se as dúvidas, que o ME não esclarece devidamente, radicam em questões de decisão política, parece que não, mas não é certo, ou se decorrem de questões económicas relativas ao acordo com as operadoras de comunicações móveis que, financiando a famosa Fundação das Comunicações Móveis, suportam a diferença entre os custos reais do programa e o pagamento de alunos e professores.
Esta situação é um bom exemplo do que não deve acontecer em política educativa. Como aqui disse várias vezes sou dos que defende a iniciativa de fazer chegar a todos os alunos ferramentas informáticas. Discordo em absoluto da propaganda montada em torno do Magalhães, acho que não foi suficientemente acautelada a formação dos professores para a sua utilização no contexto educativo e de sala de aula, tenho sérias reservas ao negócio montado com a empresa fornecedora, mas continuo a achar que é bom promover e facilitar o acesso de todos a estas ferramentas.
Sendo óbvio que o ME considera fundamental esta iniciativa, não se entende que o seu desenvolvimento não esteja devidamente planeado e que surjam estas dúvidas que acabam por cair, como sempre, na agenda política e a ser objecto da partidarização dos interesses criando ruído e dúvidas desnecessárias com impacto negativo. Definir políticas, também em educação, é, de certa forma, antecipar o caminho para o futuro, não é “faz-se agora e amanhã logo se vê”.

O MIÚDO COM OS OLHOS VAZIOS

Estava o Professor Velho o que já não dá aulas, está na biblioteca e fala como os livros, na sua tarefa, falar com os livros, para poder contar mais histórias aos alunos e professores que se acolhem na biblioteca quando entrou a Professora Maria.
Olá Velho tudo bem contigo? Venho aqui ver se encontro uns materiais para fazer uns trabalhos com os alunos.
Queres ajuda Maria?
Não Velho, obrigado, eu procuro, mas antes gostava de te falar de um menino, o Tiago, tem oito anos, que veio este ano para o meu grupo e que me inquieta um pouco. Na verdade, inquieta-me muito. O Tiago passa o tempo quase sem falar, apenas se eu ou um colega o interpelamos directamente responde de forma breve, com ar ausente e desinteressado. Não se envolve nas tarefas, olha para fora, já o mudei de lugar para não estar perto da janela, fica como os outros dizem, “na dele”. Ainda não consegui descobrir algo que o possa interessar e por aí construir uma ponte para falarmos e nos entendermos. Procuro que ele me conte uma história, alguma coisa sobre a vida dele, do sítio donde veio, da escola onde andou, mas nada. Também ainda não consegui falar com os pais, mandaram um bilhete a dizer que trabalham muito cedo e até tarde, não podem faltar para vir à escola. Estou mesmo preocupada e sabes o que me inquieta mais, Velho? Quando me aproximo e olho nos olhos do Tiago para tentar lê-lo, como tu costumas dizer, os olhos dele parecem uma página em branco, não dizem nada, nem tristeza.
Velho, será por ele estar a chegar?
Não Maria, acho que é por estar a partir. Está a ir-se embora dele, sem perceber para onde nem por onde. Não sabemos porque razão, mas certamente estará só. Acho que o podes ajudar, aproxima-te dele e dá-lhe a mão. Mesmo que ele não te diga nada, fala com ele, quando puderes, sempre que puderes. Sabes Maria, mesmo os barcos à deriva quando, por acaso, entram num porto de abrigo acolhedor se aquietam e, às vezes, encontram um rumo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

VIVO NA CRECHE

Felizmente que parte da comunicação social não se centra exclusivamente na pequena e média cena política. O JN apresenta um trabalho sobre uma questão que com frequência refiro no Atenta Inquietude, o tempo excessivo que muitas crianças passam nas instituições educativas, sobretudo a propósito do que acontece no âmbito da iniciativa Escola a Tempo Inteiro. A peça refere-se a creches, portanto, aos mais pequenitos e a situações em que as crianças passam 11 ou 12 horas na instituição. O trabalho contém opiniões de profissionais ligados à infância que alertam para alguns riscos designadamente na fragilização das relações familiares, na construção de uma percepção de abandono e os decorrentes da eventual falta de qualidade no trabalho de algumas instituições, levando, por exemplo, a que algumas crianças passem demasiado tempo num berço sem estímulo ou interacção.
Com o estilo de vida que genericamente assumimos, com a precarização das relações laborais e os níveis de desemprego atingidos que “obrigam” à aceitação de más condições e à diminuição de direitos, estas situações tendem a aumentar. Existem já creches com horários alargadíssimos, encerrando muito tarde ou abrindo muito cedo.
É óbvio que a esmagadora maioria dos pais não escolhe colocar dos filhos nestas condições, pelo contrário, muitos incomodam-se, não gostam, mas não têm alternativa.
É por isso que precisamos de ter cautela com os discursos produzidos sobre questões deste tipo para não sublinhar um sentimento de culpa que muitos pais sentem.
À semelhança do que se passa noutros países urge que comecemos a equacionar outros modelos de organização do trabalho, flexibilizando, quando possível, os horários, ainda excessivamente concentrados. Podemos pensar em respostas mais informais na comunidade, menos institucionalizadas, recorrendo, por exemplo, a gente sénior, os idosos, que com supervisão poderiam acompanhar as crianças pequenas com vantagens para ambos.
Não temos que aceitar condenar as crianças logo de muito novos a passar 12 horas por dia numa instituição, podemos explorar outros caminhos de compatibilização entre a qualidade de vida dos miúdos e as necessidades profissionais dos pais. Mas temos de querer.

A PEQUENA E MÉDIA POLÍTICA

Já se torna difícil aguentar a pequena e média cena política que os pequenos e médios políticos do nosso pequeno ou médio país promovem. A sua pequena e média mediocridade genérica, a pequena e média seriedade com que abordam os problemas gravíssimos que atravessamos são um mau prenúncio para o futuro próximo.
Todos os dias somos inundados com pequenos e médios incidentes que mascaram o que verdadeiramente nos deveria preocupar.
Muitos de nós vivem diariamente com uma pequena e média esperança em dias melhores, mas os pequenos e médios discursos dos pequenos e médios políticos nesta pequena e média campanha não são animadores. A nossa pequena e média confiança na sua pequena e média capacidade de resolver ou minimizar os verdadeiros problemas não ajuda. E logo de seguida teremos uma nova campanha, as autárquicas que, provavelmente, nos fará continuar no meio deste pequeno e médio cenário político.
Definitivamente, uma pequena ou média paciência não é suficiente para suportar este pequeno ou médio clima que se instalou.

A MOCHILA DOS MEDOS

Neste início de ano lectivo uma das rotinas a iniciar ou a retomar, sobretudo para os mais novos, é a organização da mochila. Como é sabido, as mochilas dos miúdos andam de tal maneira carregadas que o seu transporte configura um exercício físico que disfarça a ausência de espaços e equipamentos adequados em muitas das nossas escolas, a troco, é certo, de uma coluna castigada.
A maioria dos pais é cuidadosa com a ajuda aos filhos na tarefa de organização da mochila. No entanto, esquecem-se, por vezes, de algo que os miúdos carregam que só com alguma atenção se nota e pode causar algumas dificuldades. Estou a referir-me aos medos que os muitos gaiatos transportam.
O medo de não ser capaz de aprender, o medo de não corresponder às expectativas, por vezes demasiado altas, dos pais, o medo das comparações com os outros, o medo das brincadeiras que adultos ansiosos lhes incutem, o medo induzido por discursos ligeiros sobre os riscos e perigos que espreitam por todo lado. O medo de futuro que não controlam e não antecipam. Entre outros.
Parece-me, por isso, que os adultos andarão bem se estiverem atentos ao que os miúdos carregam nas suas mochilas para além dos inúmeros materiais. Muitas crianças e adolescentes sentem uma enorme dificuldade em lidar com os medos, sobretudo quando se sentem sós. Por vezes, acabam por se juntar a outros tão assustados quanto eles. Quase nunca dá bom resultado.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

POUPANÇAS

Neste olhar diário sobre a realidade, parece difícil fugir ao alarido da campanha eleitoral agora temperada com a saída do assessor do Presidente da República. Creio que esta campanha tem sido um terreno apetitoso para essa emergente classe profissional, os politólogos, que juntos aos já existentes opinadores profissionais e amadores ganharam uma presença e um espaço notáveis. Eu, como uma parte significativa da população portuguesa, começo a ter dificuldades em estar atento e interessado numa circunstância que é obviamente importante, campanha eleitoral, mas que se tem transformado num carrossel de incidentes, ataques, insultos, ausência de ideias, etc. Cansa.
Por isso, para hoje, uma referência a uma nota inserta no CM que creio interessante. Não sou especialista em economia, parece que também não adianta muito, a ver o que fizeram para nos trazer até à crise, e por isso não sei que consequências pode ter, mas julgo interessante saber que as poupanças dos portugueses têm vindo a aumentar 33 milhões de € ao dia no último ano, apesar ou, provavelmente, devido à crise.
Como dizia, pode acontecer que a poupança possa implicar menor consumo das famílias, portanto, menor investimento com repercussões no relançamento da economia.
No entanto, também penso que aproveitar a crise para refrear uma onda de consumismo excessivo em que tudo é breve e descartável é uma correcção positiva, do meu ponto de vista, a um estilo de vida instalado.
Assim as elites políticas se envolvessem nesta onda de poupança e nos poupassem ao indecoroso espectáculo que por aí vai e que não acaba a 27 de Setembro, seguem-se as autárquicas e tudo o resto, o habitual no Portugal dos pequeninos.

DESCOBRI

(Foto de joaopires)

Uau!!! Descobri. Tenho que ir chamar os outros.
O caminho é por ali e vamos conseguir chegar lá.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

CONCUBINAGEM

Como tenho referido no Atenta Inquietude, um dos mais sérios problemas que a educação atravessa em Portugal é a excessiva partidarização das políticas educativas nacionais que, face às enormes dificuldades e atraso, exigiria um plano mais elevado de abordagem e decisão.
Neste quadro, começou a ser demasiado evidente e inaceitável o envolvimento do eterno Albino Almeida, presidente da CONFAP, na PEC – Política Educativa em Curso. Lembro-me de o ter ouvido referir-se à “nossa Ministra” num evento público em Gondomar e de aparecer sistematicamente em iniciativas do PS. O Sr. Dr. tem, obviamente, o direito de assumir opções político-partidárias e até de ter uma agenda pessoal, a vida está difícil, no entanto, arrastar a CONFAP para esse terreno é, do meu ponto de vista, um contributo para o enfraquecimento do movimento associativo dos pais e encarregados de educação. A definição e desenvolvimento de políticas educativas adequadas precisam de uma posição forte e com apoio social dos representantes dos pais. Assim, creio que não se consegue.
No mesmo âmbito, pode colocar-se a posição de Mário Nogueira. O líder da Fenprof e da Plataforma Sindical tem, sem sombra de dúvida, o direito e a legitimidade da militância partidária e não tem que a esconder, pelo contrário, a transparência é um bem. No entanto, o seu envolvimento partidário no PCP e nas suas iniciativas, tal como no caso de Albino Almeida, compromete a justeza das posições da Fenprof, pois pode sempre duvidar-se se se trata da defesa dos professores e da educação ou de servir os interesses partidários de ocasião. E em caso de conflitualidade de interesses qual a posição assumida?
É minha convicção que a educação, ou seja, os miúdos, os pais e os professores, sai a perder desta concubinagem.

VIVER NA RUA, O QUE NÃO VEMOS

Há dias, num texto colocado aqui no Atenta Inquietude, referi um debate realizado no Porto sobre a pobreza em Portugal que afecta 18% da população. Desculpem, é incómodo mas retomo a matéria.
O I apresenta hoje um trabalho sobre a gente que vive na rua. De acordo com os técnicos ouvidos, aumenta o número de pessoas que vive na rua e sublinham o aumento de situações envolvendo famílias. Na peça referia-se um caso de uma família com três crianças de 2, 6 e 9 anos que vivem numa carrinha para além de outros casos referenciados.
Eu sei que é fácil cair na demagogia se recordar que a primeira página do CM se refere aos prémios de gestão obtidos pelos administradores da REN. Eu sei que é fácil ser populista se atentar nos discursos da campanha política em curso centrados no acesso ao poder e não no que fazer com esse poder, nos cenários políticos posteriores, nas questões pessoais e em fait divers para todos os gostos.
Mas também sei que uma família com três miúdos a viver numa carrinha abandonada é um murro no modelo de desenvolvimento económico que se instalou, é um murro na gestão autárquica, é um murro nas políticas sociais.
Sei também que a desesperança mata a vida.
Sei também que a indiferença cria um olhar que torna transparente este tipo de situações. Sabemos que existem, estão à nossa frente e não as enxergamos.
Sei finalmente que não vemos tudo o que os olhos mostram, vemos apenas o que queremos ver.

OUTONO

Hoje começa o Outono. No sábado ao fim da tarde lá no meu Alentejo, depois de colhermos as cebolas, eu e o mestre Zé Marrafa estávamos nas lérias e veio à conversa o tempo, ainda estava quente e não parecia o fim do verão. Como vai sendo hábito, concluímos que o tempo anda estranho, já não é como antigamente, diz-se.
Pois é, hoje começa o Outono e o tempo continua de Verão, quente e ensolarado. Mas reparem bem no clima entre as pessoas neste nosso canto, designadamente entre as pessoas que se batem por nos governarem. Parece que já estamos entre o Outono e o Inverno e tal como os dias, as pessoas ficam mais sombrias, mais pequenas, mais frias. Quando as ouvimos chovem insultos e mediocridade que inundam a nossa paciência. Tropeçamos continuamente com vendavais de discursos e afirmações que não passam disso mesmo, vento, e do que não faz andar os moinhos.
Tenta-se criar um espesso manto de nevoeiro de onde surgirá o salvador da pátria, todos o querem ser, esquecendo que a pátria não é mais do que as pessoas em quem muitas vezes não parecem genuinamente interessados. De quando em quando abatem-se uns aguaceiros de água de pedra, como se diz no meu Alentejo, que deixam marcas na ética e nos valores. Pensando melhor, o mestre Zé Marrafa e eu afinal estamos enganados, este Outono e Inverno prometem ser como os de antigamente.
A minha esperança é que nos Invernos aparecem sempre uns dias de sol que aconchegam as almas. E as noites podem sempre começar, sorte a minha, em frente a um fogo que só de olhar faz bem.

domingo, 20 de setembro de 2009

AGENDA POLÍTICA

Antes de me referir ao que aqui me trouxe, uma pequena nota sobre o tema da agenda, o indecoroso episódio das alegadas escutas. Achei interessante o Provedor do Público, Joaquim Vieira, colocar no seu texto semanal a hipótese de o jornal ter uma agenda política oculta face aos procedimentos que tem observado. Sou um leitor diário do Público desde o primeiro número e, portanto, tenho acompanhado posição editorial do jornal. Uma das coisas que me agrada é o pluralismo de opiniões patente nos trabalhos publicados no jornal, quer pelos jornalistas, quer pelos opinadores regulares. Registo, gosto e faz-me continuar leitor. Agora é óbvio que, de há uns tempos para cá, é patente no discurso e textos do director do Público uma agenda política com contornos que, mais cedo ou mais tarde, ficarão claros. Por isso uma pequena correcção ao Provedor, provavelmente, tratar-se-á mais da agenda de José Manuel Fernandes em cruzada neo-liberal do que a agenda política de um jornal que acolhe opiniões diversas.
Agora o que verdadeiramente interessa, Portugal apresenta uma inaceitável taxa de 18% de pobreza. A questão da pobreza no nosso país foi objecto de um debate na Faculdade de Economia do Porto no âmbito do qual os especialistas identificaram alguns aspectos que podem contribuir seriamente para minimizar a gravidade da situação.
Aqui fica o registo de algumas áreas de intervenção propostas. Acentuar e promover a responsabilidade social das empresas e aprofundar o combate pela educação e formação, sabe-se que quanto maior é a instrução, menor é o risco de pobreza. Fomentar o microcrédito como instrumento de desenvolvimento pessoal e familiar e políticas sociais que envolvam uma base menos assistencialista e mais capacitadora do indivíduo. Embora não seja obviamente um especialista parece claro que medidas desta natureza podem contribuir para quebrar o ciclo da pobreza.
Para além da habitual retórica, talvez os partidos políticos ainda fossem a tempo de se pronunciarem sobre estas questões o que constituiria, isto sim, uma agenda política mobilizadora. Apesar de, ao que parece, o voto também se comprar, é bom não esquecer que os pobres também votam.

sábado, 19 de setembro de 2009

A FERIDA NO JOELHO

O Público de hoje, pelo teclado da jornalista Bárbara Wong e a propósito da gripe A apresenta um trabalho que me parece bastante oportuno e para o qual dei um pequeno contributo.
Para além da recente onda de alarme decorrente da gripe A, tenho assistido nos últimos anos à instalação de um clima que me parece excessivo relativo à preocupação com a segurança dos mais novos.
Não esqueço que somos um dos países com mais casos de acidentes domésticos com crianças, não esqueço dos riscos de natureza variada que espreitam os miúdos. Sublinho que é imprescindível supervisão, atenção e prevenção dos riscos por parte dos adultos, pais, professores e restante comunidade.
Dito isto parece-me de sublinhar que uma excessiva e, como lhe chamei, “fundamentalista” atitude de protecção das crianças, inibe-as de perceber e lidarem com os riscos, inibe-as de experiências e actividades que ajudam a entender e a estabelecer os limites.
Este envolvimento das crianças numa redoma, que a vida real está longe ser, não fomenta a sua autonomia, não favorece o seu desenvolvimento pelo contacto com os outros, favorece a dependência e a insegurança que, é bom ter consciência disso, também se reflecte nas aprendizagens escolares. Crianças seguras, confiantes organizam-se melhor para aprender. Aprender algo pode ser uma “ameaça”, estamos a confrontarmo-nos com o que não sabemos, por isso temos que ter confiança para lidar com essa “ameaça” à nossa confiança.
Um tombo ali, uma ferida no joelho acolá, a camisola que se rasgou de um puxão no meio do jogo, as calças sujas da lama que estava no parque, etc., são imprescindíveis aos miúdos. Deixem-nos ser miúdos.

E SE ALGUÉM, DE REPENTE, NOS OFERECE UM SORRISO

Vamos estranhar certamente. Estamos num tempo em que poucas coisas se recebem dadas e em que damos quase nenhumas.
A trama das relações sociais tece-se numa permanente tentativa de equilibrar o deve e o haver, no melhor dos casos ou, por vezes, na sobrevalorização do haver.
A oferta inesperada de um sorriso, de um elogio ou de um bem é recebida com desconfiança por quem lhe parece que o gesto é a antecâmara de um pedido, um investimento de que se espera o retorno.
Educamos os miúdos na troca de comportamentos por bens, o afecto é também moeda de troca, gosto mais de ti se...
O tempo é um bem de primeira necessidade e, como tal, não pode ser esbanjado, gasto, sem que possa ser rentabilizado. Por isso, damos tão pouco tempo aos outros, até a nós.
“E que eu ganho com isto?” é uma interrogação que nos colocamos demasiadas vezes e para a qual precisamos de resposta.
O presente quase se transformou num ritual que se realiza ao sabor do calendário e que, por vezes, se destina, sobretudo, a comprar a tranquilidade da consciência de um dever cumprido.

Mas quando no fim do verão chegarem as primeiras chuvas ao meu Alentejo, elas vão ser mesmo uma dádiva para a terra, e para mim. Fico melhor, invento uma história com final feliz e dou-a a quem a quiser.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

ESCUTA-SE POUCO

Voltaram, com dados novos, como se diz em jornalismo. As escutas, quem escuta quem, Belém, S. Bento, até o Público acha que está ser escutado. Os opinadores amadores e encartados atropelam-se sobre as escutas e eu, atento e inquieto, também comento e é verdade, as escutas também me preocupam seriamente.
Existem milhares de pessoas com uma voz que ninguém escuta. Provavelmente nem voz têm.
Escuta-se pouco os velhos sós que sobrevivem com pensões de miséria.
Continuo a achar que existem demasiados putos que, por mais alto que gritem, ninguém os escuta.
Sabemos dos milhares de crianças maltratadas e de mulheres vítimas de violência a que damos pouca escuta.
É preciso escutar milhares de desempregados sem acesso a subsídios de desemprego ou a outras formas de apoio.
E que dizer de milhares de jovens com dificuldades enormes para entrar no mercado de trabalho e que vêem comprometida a possibilidade de um projecto de vida.
E a incapacidade de escuta de muitos políticos face à realidade difícil em que muitas famílias vivem.
É preciso escutar os milhares de pessoas sem médico de família e em listas de espera intermináveis para a prestação de cuidados de saúde.
É necessário escutar os injustiçados por um sistema de justiça ineficaz, moroso e desigual.
Como vêem, contrariamente, às vozes que clamam contra a existência de escutas, mantenho a convicção de que cada vez nos escutamos menos.

NÃO SABES, NÃO ÉS

Agora que a faina começou, rapidamente se evidenciarão as diferenças entre os alunos. Os que já andam há mais tempo na escola, são já conhecidos, carregam um passado que define o presente e prepara o futuro sem grandes oscilações. Quero dizer com isto que a generalidade dos que têm sido bons alunos, vão estar bem no presente e, muito provavelmente, terão também um futuro escolar de alguma tranquilidade, não estou a falar de facilidade. Por outro lado, os que carregam um passado de dificuldades, terão um presente com dificuldades e do ponto de vista escolar, talvez o futuro passe por uma qualquer alternativa que mascare o insucesso e, pelo menos, evite o abandono.
Mas é importante não esquecer que existem muitos milhares de crianças que estão a começar. Não têm história escolar mas têm história de vida e para muitos essa história de vida vai dar um contributo fortíssimo, embora não seja o único, para que as diferenças comecem rapidamente a emergir. Da forma como este processo decorrer dependerá se os que estão a entrar agora se integrarão no primeiro grupo que referi em cima, os que se diferenciam pelas características positivas, ou se cairão no segundo, os que se distinguem pela negativa.
Neste contexto, gostava de sublinhar a necessidade de contrariar um equívoco que, com alguma frequência, se instala na forma como a escola (os professores, alguns) vêem os alunos e que se pode resumir no enunciado, “não sabes, não és”, ou seja, confundir o saber com o ser. Dito por outras palavras é assim como se eu, por não saber falar alemão, se assumisse que não seria capaz de o fazer.
A esmagadora maioria dos alunos que experimentam dificuldades nas aprendizagens ou evidenciam problemas no seu comportamento são, obviamente, capazes de aprender e capazes de se comportar dentro dos limites e regras adequados.
Ajudá-los nisto é a grande e difícil tarefa da escola, dos professores. E tal como os miúdos, quase todos, são capazes, também os professores, quase todos, são capazes.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

JUNTA-TE AOS BONS E SERÁS COMO ELES, JUNTA-TE ...

O DN coloca em primeira página a decisão da Escola José Ruy na Damaia, pertencente ao Agrupamento de Escolas Dr. Azevedo Neves, de constituir as suas turmas por nível de competência escolar. Assim, definiram-se três turmas, os “bons”, os “médios” e os "fracos”. O Sr. Director da Escola afirma tratar-se de um projecto pedagógico já utilizado no agrupamento mas sem a contestação que os pais estão a levantar nesta escola. O ME não defende a prática e aconselha cautela na constituição de turmas de nível, como se chamam.
Ao que o trabalho jornalista também adianta, alguns pais, quer de bons alunos, quer dos menos bons, contestam a medida por a considerarem discriminatória recorrendo até a expedientes como o atestado médico para tentar travar a colocação dos seus filhos nas respectivas turmas.
Em primeiro lugar, convém ser claro, turmas constituídas com base no rendimento escolar, no comportamento ou na origem social e familiar, não são raras nas nossas escolas, é do conhecimento da tutela que tolera o procedimento, as escolas têm autonomia nesta matéria. Sabemos todos de turmas maioritariamente constituídas por repetentes ou oriundos de alguns bairros, bem como, pelo contrário, turmas maioritariamente constituídas por bons alunos, filhos de docentes ou de funcionários ou de alguém com “capacidade” para influenciar a definição da turma para o seu filho. Nada de novo portanto.
A questão central coloca-se em dois patamares, a eficácia e o impacto nos alunos. Vamos por partes. A experiência e os estudos realizados sobre estas questões mostram que se os “bons” continuam bons os “maus” também continuam maus, apenas deixam, crê-se, de atrapalhar o trabalho dos bons. O trabalho dos maus, sendo nivelado por baixo introduz um tecto nas aprendizagens que inibe um percurso do mesmo tipo e qualidade que o dos bons mesmo que sejam bem sucedidos, o que não acontece na maioria dos casos. Nós aprendemos mais e melhor com quem sabe mais que nós. O povo diz que “junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior do que eles”.
Quanto ao impacto, parece óbvio que a diversidade é sempre preferível a uma falsa homogeneidade. As atitudes de discriminação negativa não apresentam nenhuma espécie de vantagem pessoal ou social, guetizam, estigmatizam e promovem quer nos bons, quer nos maus, uma relação desconfiada e tensa facilitadora de problemas.
As dificuldades escolares gerem-se com apoios e recursos que terão certamente de ser diferenciados mas não podem, não devem, implicar a criação de reservas para os “maus”.
Se não for a escola, a educação, a promover equidade de oportunidades e a combater a exclusão não restará nada nem ninguém que o faça.

OS MIÚDOS A QUEM DÓI A ALMA

Com o início do ano lectivo começarão, naturalmente, os problemas nas escolas. Não estou a falar das questões decorrentes das opções, más algumas delas, em matéria de política educativa. Estou a referir-me aos problemas que os miúdos, alguns, vão deixar à vista.
Os tempos estão difíceis e crispados para os adultos, seguramente para boa parte dos adultos, e para os miúdos a estrada também não está fácil de percorrer. Alguns vivem, sobrevivem, em ambientes familiares disfuncionais que comprometem o aconchego do porto de abrigo, afinal o que se espera de uma família. Alguns percebem, sentem, que o mundo deles não parece deste reino, o mundo deles é um bairro insustentável que, conforme as circunstâncias, é o inferno onde vive ou o paraíso onde se acolhe e se sente protegido. Alguns sentem que o amanhã está longe de mais e um projecto para a vida é apenas mantê-la. Alguns convencem-se que a escola não está feita para que nela caibam. Alguns sentem que podem fazer o que quiserem porque não têm nada a perder e muito menos acreditam no que têm a ganhar.
Alguns destes miúdos vão carregar para a escola uma dor de alma que sentem mas não entendem, por vezes.
Não, não tenho nenhuma visão idealizada dos miúdos, nem acho que tudo lhes deve ser permitido ou desculpado e também sei que alguns fazem coisas inaceitáveis e, portanto, não toleráveis. Só estou a dizer que muitas vezes a alma dói tanto que a cabeça e o corpo se perdem e fogem para a frente atrás do nada que se esconde na adrenalina dos limites.
Espreitem a alma dos miúdos, sem medo, com vontade de perceber porque dói e surpreender-se-ão com a fragilidade e vulnerabilidade de alguns que se mascaram de heróis para uns ou bandidos para outros, procurando todos os dias enganar a dor da alma.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A DIGNIDADE AMEAÇADA

Como todos reconhecemos, a tragédia do desemprego é face mais tenebrosa da crise. A previsão da OCDE estimando que Portugal terá 650 000 desempregados em 2010 é algo que deveria suscitar a necessidade de estabelecer, não gosto do termo, uma espécie de pacto de regime sobre a melhor forma de lidar com esta situação e minimizar os seus efeitos. Já aqui me referi a um lado oculto e menos abordado do desemprego, os efeitos na dinâmica familiar. Na maioria dos casos um desempregado tem atrás de si uma família que não pode deixar de sentir os efeitos da situação. Nem sequer refiro situações em que mais do que um dos elementos está no desemprego, quadro relativamente frequente em meios mais pequenos em que os poucos empregadores locais absorvem famílias inteiras.
Sendo certo que alguns passos positivos são dados no âmbito das chamadas políticas sociais, também se sabe que existem milhares de desempregados sem acesso a subsídio de desemprego o que, obviamente, complica a situação, colocando-a no limite da sobrevivência e da dignidade.
Choca-me que muitos comentários a esta situação, quer por parte dos opinadores anónimos, quer dos opinadores encartados, políticos incluídos, se centrem na utilização deste drama como arma de arremesso na medíocre luta político-partidária em que a partidocracia instalada transformou a vida política nacional. Esta utilização representa, do meu ponto de vista, o definitivo ataque à dignidade já ameaçada dos homens e das mulheres sem emprego. Choca-me ainda que se questione a necessidade de políticas sociais.
Se houvesse pudor ético e verdadeiro interesse no bem-estar dos cidadãos, esta situação exigiria que as elites políticas e económicas fossem capazes de estabelecer um conjunto de princípios e de programas que contribuíssem para minimizar os efeitos do desemprego. Não sou ingénuo e sei que é difícil, mas também sei, como se provou pelos acontecimentos dos últimos anos, não se pode confiar exclusivamente ao mercado a regulação do trabalho, por isso, as políticas sociais garantes de dignidade para todos são, serão, imprescindíveis. E sobre isto teríamos que nos entender.

GEOMETRIA VARIÁVEL

Com alguma regularidade emergem na criativa terminologia política algumas expressões que acabam por se fixar nos discursos e adquirir a extraordinária capacidade de para tudo servirem. Um dos bons exemplos destas expressões é a famosa “geometria variável” que continua a fascinar-me.
Os valores em política são de geometria variável. Isto significa se pode defender um conjunto de valores e o seu oposto de acordo com os contextuais interesses políticos. O mesmo se passa com as ideias, são de geometria variável, ou seja, no governo defende-se uma ideia ou um projecto e quando se passa a oposição assume-se a posição contrária. O cenário político actual é fértil em exemplos desta geometria variável. Muitos de nós face aos comportamentos e atitudes também nos colocamos numa postura de geometria variável. Se somos nós a desempenhar esses comportamentos ou a evidenciar determinadas atitudes, estamos obviamente certos, pelo contrário, outra pessoa que faça ou pense o mesmo está, naturalmente, errada.
O nosso país ainda se caracteriza por uma excessiva e insustentável assimetria na distribuição social da riqueza, trata-se de mais um caso de geometria variável. O tratamento dado pelo sistema de justiça não é, frequentemente justo e defensor da igualdade dos cidadãos perante a lei o que se explica, provavelmente, por, claro, os procedimentos processuais e legislativos serem de geometria variável.
Na actual campanha eleitoral, a contínua construção de cenários, alianças à direita ou à esquerda, o “eu disse isso mas queria dizer aquilo”, o “mas já defendeu e agora não defende”, etc., continuam a mostrar como corremos o risco de ficar com geometria variável, ou seja, desculpem a deselegante crueza, sem espinha.

PAI, PÁRA A CHUVA

Enquanto a lida permite e os dias ainda vão compridos, troco a corrida antipaticamente cedo por uma ao fim da tarde num espaço fantástico, o Parque da Paz, aqui em Almada. Hoje, durante o vertiginoso treino, passei por uma zona que tinha o dispositivo de rega em funcionamento e perto, num banco, estava um pai com uma gaiata de três ou quatro anos que lhe dizia aflita que não podia ir brincar para ali que estava a chover e ele tinha que ir parar a chuva.
Ao ouvir isto, senti saudades de quando o meu filho, naquela fase em que se acredita na capacidade mágica dos adultos, achava que eu conseguia fazer e resolver qualquer coisa e qualquer problema. Lamentavelmente, para nós adultos é claro, este tempo passa depressa e a miudagem rapidamente percebe quanto limitados nós somos e lá se vai um pai mágico. Acredito, no entanto, que com um bocadinho de jeito e atenção conseguimos que os miúdos continuem a acreditar que os pais serão sempre parte da solução dos problemas que a estrada da vida lhes irá revelar. É bom estar atento para que não sejamos parte do problema.
Mas lá que é bonito pedir ao pai que pare a chuva, é.
Continuei a minha corrida a desejar o fim da rega para que a miúda olhasse espantada e agradecida para o seu super-pai.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

E MEIA DOSE NÃO CHEGARÁ?

Há uns meses atrás, quando se começou a assumir o risco pandémico da gripe A e a necessidade de uma campanha de vacinação global, desencadeou-se por parte dos diferentes países a reserva de vacinas junto dos laboratórios produtores. Na altura a ministra da Saúde anunciou a dimensão da reserva para Portugal e ouviram-se algumas vozes a afirmar que a definição de necessidades estava subdimensionada as necessidades. Ana Jorge, argumentou com as recomendações da OMS e com a definição dos grupos de risco. Actualmente, os laboratórios parecem concluir que, em vez das duas previstas, apenas uma dose da vacina garantirá a imunidade pelo que se duplica automaticamente o número de cidadãos vacinados. A ministra revelou visão na decisão sobre a reserva das vacinas mas creio que ainda podemos ir mais longe.
Os últimos anos têm contribuído para o fortalecimento do sistema imunitário dos portugueses. Estamos mais do que habituados a lidar com variadíssimas estirpes de vírus e de diferentes naturezas. Este permanente convívio com ameaças virais produz sistemas de defesa mais eficazes e resistentes.
Assim sendo, acho que também na vacina contra a gripe A se poderá colocar aquela questão tão frequente nos restaurantes em Portugal, “acha que meia dose chegará?”. Na volta chega mesmo e poderemos ser o único país com vacina para todos.

UM FINAL FELIZ

A partir de amanhã é a sério. Começa a escola. Cerca de um milhão e meio de alunos vão iniciar a lida.
Para uns será a primeira vez da escola, mesmo escola. Destes alguns chegarão assustados, não conhecem professores e colegas, o espaço é novo, as rotinas são outras e vão começar a sentir aquilo que os adultos lhe prometeram nas férias, “a partir de agora, acabou-se a brincadeira, nesta escola tens de trabalhar, tens que aprender, tem que estar calado, tens que estar sentado, tens que te portar bem, tens que …, tens que …, etc”. Podem ser demasiados “tens que” para quem tem seis anos e às vezes não tem a certeza se é capaz de fazer bem aquilo tudo que lhe dizem que deve. De tal modo se assustam que até, de mansinho, procuram não fazer o que lhes é pedido, assim não correm o risco de falhar, têm medo. É preciso ler os miúdos e perceber se falta um aconchego. E o melhor aconchego é ajudar a que se sintam bem na sua escola. É preciso dar-lhes algum tempo para que também eles leiam a escola e se sintam em casa. Como ainda não sabem ler, pode não ser fácil.
Alguns outros voltam a algo de que não gostam e onde não se sentem bem. O novo ano não traz novidade, às vezes até estão a repetir, não traz descoberta, começa-se com o cansaço já instalado. Estes alunos não são estudantes, são os escolantes, os que só vão à escola porque lá estão os amigos. Mais um empurrãozinho e nem isso os atrairá. É preciso agarrá-los e, estranhamente para alguns adultos, eles querem ser agarrados, muitas vezes não percebemos que eles estão a fugir para a frente, cheios de medo também.
Finalmente, a maioria dos que regressam, fazem-no de forma tranquila, têm as rotinas instaladas e o ano vai correr com maior ou menor dificuldade, mas com final feliz.
É isso que gostava que acontecesse a toda esta gente que agora começa mais um capítulo da sua história, um final feliz neste entretanto.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

ELES ANDAM AÍ

E pronto. Como se não chegassem os problemas internos, ainda se convocam os espanhóis para o alarido eleitoral. A virtuosa Ferreira Leite acusa o delicado Sócrates de estar a fazer um jeito aos espanhóis com o projecto do TGV e clama, qual padeira de Aljubarrota, que Portugal não é uma província espanhola. No estado actual da União Europeia, é curiosa esta preocupação com os interesses dos espanhóis em Portugal que aliás a virtuosa Ferreira Leite já defendeu quando, curiosamente depois de ter sido ministra das Finanças com Durão Barroso, entrou para a administração do Banco Santander. As voltas que a vida dá, mesmo para as virtuosas pessoas.
No meio desta trovoada, o CM coloca como título a existência de um gang luso-espanhol que montou uma fraude no negócio das sucatas que terá lesado o estado em 105 milhões. Mais uma vez, a colaboração de alguns “Miguel de Vasconcelos” permite que os espanhóis venham ganhar em Portugal, até com a sucata. Estas coisas deixam-me com a auto-estima em baixo, delinquência no negócio das sucatas. Ao menos que os interesses espanhóis fossem acautelados em áreas de negócios limpas, como a banca com a virtuosa Ferreira Leite ou a energia com o cardeal Pina Moura na Iberdrola. Como ambos foram ministros nestas áreas podem, com qualidade e eficiência e dentro da legalidade, defender os interesses de quem lhes paga, os espanhóis.
Eles andam aí, os espanhóis. Defenda-nos Dra. Manuela Ferreira Leite. E já agora, proteja-nos também dos interesses dos alemães, dos franceses, dos ingleses, dos americanos, dos chineses, dos finlandeses, enfim, de todos os que querem ganhar alguma coisa em Portugal. Mantenha-nos orgulhosamente sós. Livre-nos dos Miguel de Vasconcelos instalados nos gabinetes ministeriais.

OS PROFESSORES QUE NOS MARCAM

Ontem, enquanto comprávamos umas castanhas a dois miúdos, irmãos, que tinham sido alunos do meu amigo Fernando na, entretanto fechada, escola do 1º ciclo de S. Bento da Porta Aberta, no Gerês, um dos gaiatos falava do professor como um que os “tinha marcado”. Achei curiosa a expressão vinda de alguém que ainda não leva mais do que quinze anos de estrada e veio ao encontro do que muitas vezes afirmo.
Todos sabemos a importância imprescindível dos saberes escolares e, portanto, da crucial responsabilidade que os professores assumem no processo de aprendizagem desses saberes por parte dos alunos. A esmagadora maioria dos professores é competente e empenhada nesse trabalho, procurando desenvolvê-lo com qualidade, rigor e eficácia sem facilitismos, como agora se diz.
No entanto, quando qualquer de nós faz um esforço para recuperar lembranças positivas sobre os professores, poucos ou muitos, com que nos cruzámos durante o nosso trajecto escolar, creio que quase todos nos lembramos de professores que continuam na nossa lembrança não só pelos saberes escolares que nos ajudaram a adquirir mas, sobretudo, por aquilo que representaram e foram para nós ou, como diria o Rui, lá do Gerês, pela forma como nos marcaram.
Por isso, muitas vezes digo que os professores, tanto quanto ensinar o que sabem, ensinam o que são, ou seja, existem muitos que nos ensinam coisas, o que é bom e indispensável, mas nem todos permanecem com a gente.
Nesta altura que se inicia mais um ano lectivo que se espera mais tranquilo que o anterior, é fundamental que esta dimensão mais ética e afectiva do ensino seja assumida, valorizada e estimulada para que os miúdos possam, posteriormente, falar dos professores que os marcaram e que, por essa razão, continuaram com eles.

domingo, 13 de setembro de 2009

PERDEDORES

Não resisti à tentação e acabei por assistir ao debate, aquele que se definia como O debate, Sócrates vs Ferreira Leite. No final de debates deste tipo coloca-se a incontornável questão sobre quem venceu. As opiniões dividem-se, naturalmente, e relativizam-se à “mochila” que cada um carrega, seja um opinador anónimo e amador, basta ver os imediatos comentários on-line que, entre o disparate, o insulto e engraçadismo, mostram vitórias esmagadoras de qualquer das partes, seja o dos opinadores profissionais, alguns apresentados como politólogos, que procuram explicar com base numa qualquer verdade científica como um dos interlocutores “venceu” o debate sendo que alguns, à cautela, defendem o empate.
Pessoalmente, não me preocupa muito encontrar um vencedor do debate porque se tudo isto fosse sério, o vencedor do debate, seria qualquer eleitor que através dele ficasse esclarecido e convicto sobre o que fazer com o seu voto. Como isto raramente acontece, e o de ontem entre Ferreira Leite e Sócrates não foi excepção, não haverá, vencedores. No entanto, houve perdedores. Os intervenientes perderam mais uma oportunidade de contribuírem para a qualidade da democracia ao centrarem os seus discursos em questões acessórias de tácticas e estilos, ao procurarem contradições recíprocas (como se alguém inteligente nunca tivesse mudado de opinião), ao recorrerem à demagogia e à meia frase que insinua mas não explicita, etc. Nós, eleitores, perdemos também uma oportunidade para perceber com clareza as ideias e projectos que quem seguramente nos irá governar entende contribuírem para o bem-estar dos portugueses nos próximos quatro anos.
Finalmente uma nota de espanto que, reconheço, não deveria acontecer. Que se passará na cabeça de alguém que para terminar um debate político que, dizia-se, poderia ser decisivo, resolve afirmar que o seu oponente é o “género de pessoa que mata pai e mãe para dizer que é órfão”.
É verdade, não terá havido vencedores mas houve perdedores.

sábado, 12 de setembro de 2009

POSTAL FELIZ

Peço desculpa do tom excessivamente pessoal deste texto mas não posso deixar de partilhar convosco duas ou três notas e sublinho que não vos quero fazer inveja.
Para começar o dia, um passeio pedestre a começar na Pedra Bela com a minha companheira de estrada e um amigo de sempre, militante fundamentalista pela causa do Parque Nacional Peneda Gerês e bom conhecedor dos trilhos e tesouros do Parque, o bracarense Fernando. Como alguns saberão, o Parque do Gerês é daqueles cenários que não tem tempo privilegiado para ser bonito, é sempre, hoje também.
Uns quilómetros de caminhada constituem o melhor dos pretextos para um petisco e teve que ser. Num aconchegado restaurante em Vessadas, perto da Caniçada, com gente simpática, conhecida do Fernando, claro, tropeçámos com um cabrito assado com batata também assada e grelos salteados que só por pudor não vos digo que estava divinal, oops, já disse, desculpem, é que estava só excelente. Depois do almoço comprido, por causa das lérias, expressão que vem lá do meu Alentejo, uma passagem por S. Bento da Porta Aberta para trazer a inevitável e pesada broa, melão para o jantar e umas castanhas com um convidativo aspecto compradas ao Rui e ao João, antigos alunos do Fernando. Há alguns anos ensinou mundos aos miúdos de S. Bento numa escola, em que, para além das letras e dos números, havia grupos de alunos atentos ao lixo e aos fogos e outros responsáveis por alimentar os pássaros que visitavam a escola, mesmo durante as férias.
No regresso ao Campo do Gerês umas cervejas geladas e mais umas lérias. Pronto, vou acabar, renovo o pedido de desculpas, mas como nos tempos que correm não temos muitas oportunidades de nos sentirmos bem, não podia deixar de dizer para fora, hoje senti-me bem.
Acho que nem sou capaz de assistir ao debate entre o delicado Sócrates e a virtuosa Manuela.

SE FORES DIFERENTE JÁ NÃO ÉS TU

No primeiro dia de aulas deste ano, ainda dedicado mais a conversas sobre férias e sobre a organização do trabalho que está a iniciar-se, os livros novos, os materiais, etc. a Maria ia a passar num corredor da escola e quase que esbarrava com o Professor Velho, aquele que está na biblioteca e fala com os livros.
Olá Velho, já estás na biblioteca, a gente ainda não começou a ir lá.
Eu sei, mas tenho que arrumar uns livros novos e uns CDs que chegaram para quando vocês forem à biblioteca já possam trabalhar com eles. E tu, estás bem?
Estou, mas agora na aula fiquei com a impressão de que a Setora Joana não gosta de mim.
Porque é que dizes isso?
Disse-me que eu tenho de ser diferente.
Então e porque é que tu achas que isso significa que não gosta de ti?
Velho, se tu fosses diferente já não eras como és, não é?
Bem, de certa forma tens razão, se eu fosse diferente, não poderia ser como sou.
Vês, eu gosto de ti porque tu és assim. Se fosses diferente eu não sei se gostaria de ti. Por isso não quero que sejas diferente do que és. A Setora Joana quer que eu seja diferente, é porque não gosta de mim.
Não Maria, é que …
Olha Velho está a tocar, tenho que ir para a aula. Até logo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O FOGO QUE ARDE E SE VÊ

Continuando estes dias, pelo Minho, passei há pouco e ainda não estou longe de uma das maiores tragédias do verão à portuguesa, e não só, os fogos florestais. Entre Braga e o Gerês passei por três, um deles parecia bastante extenso e no sítio onde estou, Campo do Gerês, está mais um que parece bravo, os chamados meios aéreos marcam a sua presença circulando aqui por cima.
Não consigo entender. Sabendo-se que a combustão espontânea explica um reduzido número de casos, como é possível esta quantidade de incêndios. Também é sabido que alguns episódios são da responsabilidade de pessoas com perturbação de natureza psicológica, mas a grande maioria dos fogos florestais é devida a negligência e ou crime.
O poeta falava de um fogo que arde sem se ver, é bonita a imagem. Mas quando um fogo arde e se vê os seus efeitos devastadores dói mais e não se perdoa.

O TEMPO PARADO

As voltas da vida trouxeram-me estes dias para o Minho. Uma quentura que, como diria o Rui Veloso, me traz à lembrança o Alentejo, o encanto dos amigos, dos petiscos e de algum verde de que lá para baixo já temos saudade, aconchegam o estar.
No entanto, algo me deixou intrigado e curioso. Não sendo de todo um especialista, acho interessante a arquitectura religiosa e por isso o meu olhar sempre se fixa nas igrejas, muitas, que se vão vendo por aqui. Reparei que em algumas, que tinham relógio à vista, este se encontrava parado, não fixei em que horas, mas tenho ideia de que, obviamente, seria em horas diferentes. Como poderemos interpretar uma igreja com o tempo parado?
Estará o tempo a andar demasiado depressa para o tempo da igreja? Alguém se esqueceu de dar corda para que o tempo da igreja acompanhe o tempo? Estará o tempo da igreja à espera que o tempo volte para trás e voltem a estar certos, simultâneos? E os tempos diferentes das igrejas, porquê? Será que o tempo da igreja, de algumas igrejas, já não conta?
Como por aqui vou estar mais algum tempo, tentarei saber o porquê do tempo parado, das igrejas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

NOVO ANO. EDUCAÇÃO NOVA?

Arranca hoje mais um ano lectivo. Dois ou três desejos.
Gostava que corresse melhor que o último, com mais tranquilidade. Gostava que se percebesse definitivamente que a excessiva politização, no sentido de política partidária não no sentido de coisa pública, prejudica a qualidade e a definição de um rumo em matéria de educação o que condiciona o futuro. A educação, tal como outras áreas, é demasiado importante para que se não consigam estabelecer algumas áreas de consenso e desenvolvimento. Gostava que se percebesse que a qualidade da educação é um bem de primeira necessidade que não se pode dispensar. Gostava que se percebesse que estruturas do ME, escolas e professores, alunos e pais, bem como outros elementos e instituições das comunidades são viajantes no mesmo barco e no mesmo rumo apesar de da natural discordância e conflito de interesses em algumas matérias. Gostava que os miúdos percebessem que pela cabeça e pelas mãos deles passa o futuro e que também professores e pais percebessem que o insucesso é sempre uma excepção não a uma condição ou regra. Gostava que o ME, qualquer que seja a equipa ocupante, assumisse que tem a responsabilidade ética de entender que as políticas são para servir a educação e não para servir o poder partidário e que demagogia, propaganda e facilidade são um mau contributo.
Uma última palavra para quem começa, os miúdos que entram pela primeira vez, os do 1º ano. A entrada na escola é das poucas situações da nossa vida que se tornam irreversíveis, ou seja, quando a entrada na escola não corre bem, não é possível voltar para trás, entrar de novo, e esperar que então corra melhor. Porque de pequenino se torce o pepino, uma má experiência deixa marcas de difícil ultrapassagem. Dito de outra forma, um estudante com bom desempenho, eu diria um cidadão, ganha-se nos primeiros anos de escolaridade. Por isso, não podemos correr o risco de que os miúdos que vão a partir de hoje começar o seu trajecto escolar não sejam bem acolhidos, bem tratados e bem sucedidos.
Bem vindos e bom trabalho.

TOMAR CONTA DA CABEÇA

O Francisco entrou na escola para ir saber algumas coisas sobre o início das aulas, ver se encontrava colegas e novidades das férias.
Encontrou o Professor Velho, aquele que está na biblioteca e fala com os livros e ficaram um bocado de conversa, naturalmente sobre o fim das férias e o próximo começo das aulas. O Francisco de vez em quando tem assim uns comportamentos na sala de aula pouco apreciados, sobretudo fala e sai-se com umas frases a despropósito que fazem rir os colegas e aborrecer os professores.
O Velho aproveitou a conversa para abordar o comportamento do Francisco tentando que as coisas possam correr melhor no novo ano.
Velho, eu percebo isso que estás a dizer, mas explica-me uma coisa. Quem é que manda na tua cabeça, quer dizer, no que tu pensas e no que tu dizes?
Bom Francisco, cada pessoa é capaz de pensar por si e decidir as coisas na sua cabeça.
Então nunca te acontece pensares coisas que não querias pensar e dizeres coisa que não querias dizer?
Claro que acontece Francisco, por isso …
Vês, tu és Velho, és Professor e às vezes pensas coisas que não queres e também dizes coisa que não queres. Para mim que sou mais pequeno e não sou professor ainda é mais difícil tomar conta da minha cabeça. Os mais velhos deviam saber isso.
Sim, mas repara que …
Adeus Velho, vai ali o Manel, tinha-me dito que trazia a consola dele, tenho que ir ter com ele. Vê lá se aprendes a tomar conta de ti.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

NÓS E OS CENTROS COMERCIAIS

Deixando de lado esta espécie de estação de compostagem em que se transformou o debate político em Portugal, recebendo toda a gama de resíduos e lixo discursivo que as centrais partidárias insistem em produzir, mas sem grande esperança na sua reciclagem, achei curioso um estudo de uma consultora europeia divulgado no DN sobre os centros comerciais.
Diz o estudo que Portugal é o quinto país da Europa que mais área comercial inaugurou no 1º semestre deste ano e que em 2008 bateu um recorde de crescimento. De sublinhar que estamos em plena crise e que, enquanto no resto da Europa se verifica uma baixa no investimento neste sector, em Portugal aumenta. Estes dados podem causar alguma perplexidade mas apenas a quem não nos conheça. Vejamos.
Para nós portugueses um centro comercial não é apenas um espaço, maior ou menor, onde se realizam compras. Aliás, comprar o que quer que seja, está cada vez mais difícil por razões óbvias, daí as lojas com pouca gente e os corredores cheios. Um centro comercial é um espaço de ocupação de tempos livres. Como vários estudos mostram, Portugal tem um baixo consumo de actividades de lazer no exterior, de actividades desportivas e de actividades culturais. É nos centros comerciais que gastamos boa parte dos nossos tempos livres o que os transforma em excelentes ATLs. Para os reformados e, sobretudo, para a população escolar em tempo de férias são uma excelente alternativa para as famílias e com custos relativamente baixos, o hamburger e a cola para o almoço e a miudagem passa lá o dia. Com o fim dos cafés tradicionais os centros comerciais ocupam também uma boa parte desse espaço de convívio e tertúlia, quando precisamos de nos encontrar com alguém á fácil marcar o encontro para qualquer espaço no centro comercial com a enorme vantagem de ter estacionamento disponível.
Uma outra razão prende-se com a falta de qualidade genérica da construção para habitação em Portugal. As nossas casas estão mal preparadas, quer para o frio, quer para o calor. Assim sendo, que melhor e mais confortável espaço para se passar o tempo que um climatizado centro comercial, com bancos para descanso, palmeiras em plástico, água a correr em fontes, sempre fresquinho no verão e quentinho no inverno.
Por estas e outras razões se percebe que para 2010 se preveja a continuação do investimento em novas superfícies comerciais. Ainda bem.

A VIDA EM SURDINA

Como cidadão que procura estar minimamente atento, tenho procurado assistir ao que chamam de debates entre os líderes partidários. De vez em quando lá se verifica algum debate, mas a maioria do tempo gasta-se em monólogos com que cada um dos intervenientes pensa convencer o potencial eleitor da bondade do seu produto.
Quando começam sento-me no meu sofá e o meu Faísca deita-se aos meus pés. Já vos falei do meu Faísca, um pequeno rafeiro puro, que não fora a provecta idade de 16 anos, ainda teria tentado encetar uma carreira diplomática na Casa Branca onde acabou por ser substituído por um vulgar cão de água.
Pois quando os debates decorrem e vem um que usa a maior das demagogias e vem outro que fala de um país em que seguramente não vive, começo a incomodar-me. Depois aparece ainda alguém que fala dos eleitores e para os leitores como se estes fossem néscios, ou alguém que defende valores que tresandam a bafio, remexo-me no sofá mais agitado. Por vezes, o meu Faísca, provavelmente, porque a minha agitação o acordou, olha para mim com aquele ar canino, tranquilo, como quem me diz “calma companheiro” e volta a pousar a cabeça no chão continuando o sono.
E os debates sucedem-se e a minha agitação aumenta, falam por meias palavras, prometem o que nunca vão cumprir, porque não podem ou não querem, falam das pessoas desconhecendo, parece, as dificuldades devastadoras que muitos atravessam e eu pergunto-me porque estarei a presenciar este espectáculo. E o meu Faísca continua o seu tranquilo sono apenas eventualmente agitado pelo sonho de um prato com massa e carne.
Quando me levanto e lhe pergunto “Então Faísca, que me dizes desta gente” é que me lembro que o meu Faísca está completamente surdo. Tal como David Lodge, leva “a vida em surdina”. É por isso que ele consegue dormir durante os debates, não se exaspera nem ganha náuseas.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

QUALIFICAÇÃO E DESEMPREGO NOS JOVENS

Regularmente são produzidos trabalhos centrados no desemprego entre os jovens e a sua relação com o nível de qualificação. Na imprensa, de uma forma geral, os títulos destas peças são construídos, não acredito que intencionalmente, induzindo a ideia de que “não vale a pena estudar”, pois está-se “condenado” ao desemprego o que, naturalmente, passa a mensagem errada. Já por aqui tenho referido a esta questão e hoje, a propósito do Relatório Education at a Gance da OCDE e do trabalho no Público, creio que se justificam algumas notas.
O Relatório diz-nos que o desemprego entre jovens licenciados em Portugal é mais alto que noutros países, certo, mas entre os jovens não qualificados, menos que o secundário, também é. Aliás, o relatório mostra que ter o secundário completo reduz em 6.7% o risco de desemprego pelo que afirma “a ausência de secundário é um impedimento sério na obtenção de emprego”. Donde, a questão não está na qualificação mas, pelo contrário, na sua ausência.
Por outro lado, dados sobre o mercado de trabalho em Portugal mostram que um licenciado ganha, em média, significativamente acima de um não licenciado e, também em termos médios, demora menos tempo a encontrar emprego.
Neste contexto colocam-se duas questões que me parecem pertinentes. Em primeiro lugar a dificuldade de absorção de mão-de-obra qualificada é uma consequência do nível de desenvolvimento do país, Quanto mais elevado for maior é a exigência de qualificação das pessoas. Assim sendo, o caminho é assumir políticas sérias e eficazes de desenvolvimento e não produzir discursos que possam sugerir a dispensa de níveis de qualificação mais elevados.
A segunda questão remete para os percursos de qualificação. Embora nos últimos anos se assista a mudanças significativas, a qualificação em Portugal esteve durante demasiado tempo centrada na formação no ensino superior, ou seja, o ensino básico e o ensino secundário pareciam ter como função essencial preparar (mal) o jovem para entrar no ensino superior, sobretudo universitário. Além disso, por demissão da tutela com base na autonomia universitária, verifica-se uma completa desregulação da oferta de formação e da sua qualidade. Actualmente, e bem, criou-se uma oferta bastante mais diversificada ao nível do secundário possibilitando a muitas jovens completar este nível de ensino com competências profissionais. Também ao nível do ensino superior com o trabalho no âmbito do ensino politécnico se criam condições para processos de qualificação mais curtos e mais diversificados.
Por isto tudo, entendo que sempre que se abordam estas questões, desemprego entre os jovens, não se pode, de forma alguma, possibilitar que a ideia “talvez não valha a pena estudar” se instale em jovens e famílias.

A ESCOLA DO MEU TEMPO

Estamos à beira de começar mais um ano lectivo, é o tempo do regresso e das conversas sobre a escola. Em muitas destas conversas sobre a escola e as dificuldades que atravessa, envolvendo alunos, pais e professores, aparecem com alguma frequência alusões ao “antigamente a escola era melhor”, aliás, este tipo de discurso não é só dirigido à escola. Eu sei que a escola, a educação, atravessa tempos muito complicados e problemas sérios, mas só a falta de memória ou o desconhecimento sustentam o “antigamente era melhor”. Vou-vos falar um pouco da escola do meu tempo, conversa de velho, já se vê.
Na escola do meu tempo nem todos lá entravam e muitos dos que conseguiam saíam ao fim de pouco tempo, ficando com a segunda ou terceira classe, como então se chamava. Chegava.
Na escola do meu tempo os rapazes estavam separados das raparigas.
Na escola do meu tempo havia um só livro e toda a gente aprendia apenas o que aquele livro trazia.
Na escola do meu tempo levava-se muitas reguadas, quase sempre por dois motivos, por tudo e por nada.
Na escola do meu tempo, ensinavam-nos a ser pequeninos, acríticos e a não discutir, o que quer que fosse.
Na escola do meu tempo eu era “obrigado” a ter catequese e missa.
Na escola do meu tempo aprendia-se que os homens trabalham fora de casa e as mulheres cuidam do lar e dos filhos, com carinho e desvelo.
Na escola do meu tempo não era grave não aprender, quem não “tinha jeito para a escola, ia para o campo”.
No tempo da minha escola, quem mandava no país achava que muita escola não fazia bem às pessoas, só a algumas.
Na escola do meu tempo não se falava do lado de fora de Portugal. Do Portugal do lado de dentro só se falava do que era cinzento e pequenino. Na escola do meu tempo eu era avisado em casa para não falar de certas coisas na escola, era perigoso. As pessoas até podiam ser presas.
Sim, eu sei, não precisam de me dizer que a escola deste tempo ainda tem muitas coisas parecidas com a escola do meu tempo. Mas o caminho é melhorar a escola deste tempo não é, não pode ser, querer a escola do meu tempo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

UMA QUESTÃO DE PESO

Já em algumas ocasiões me referi neste espaço a uma questão que me parece importante e a que, creio, não estamos a dar a devida atenção. Trata-se de saúde infantil e, obviamente, não pode competir com o triste episódio do Jornal de 6ª da TVI ou com as incidências políticas do Portugal dos Pequeninos.
Um estudo que tem indo a ser desenvolvido pela Universidade de Aveiro, de que alguns dados são hoje divulgados no JN, traça um retrato preocupante. Da população de escolas do 1º ciclo avaliada, trata-se portanto de uma população muito nova, 30 % apresenta peso a mais, sendo que 12 % desta é obesa. Regista-se uma situação de hipertensão em 40 % dos casos de crianças com peso a mais, um nível de 25 % com colestrol elevado e 8 % em risco sério de diabetes. Estes números são absolutamente preocupantes.
Para além do efeito óbvio na qualidade de vida actual destas crianças, estes indicadores sugerem o risco enorme de um futuro comprometido no seu desenvolvimento.
Não sou particular adepto de teses fundamentalistas sobre “comportamento saudável”, em que tudo deve ser inócuo, limpo e saudável nem, pelo contrário, de que se trata de matéria da exclusiva responsabilidade individual em que cada um deve fazer o que bem entender.
Considero que as escolas, na oferta em matéria de produtos alimentares, assumem uma enorme responsabilidade na gama que coloca à disposição dos miúdos, que os conteúdos curriculares das áreas da educação para a saúde devem dar uma importância sólida às questões alimentares e, finalmente, que o trabalho com os pais deve envolver estas matérias tanto quanto as questões de natureza mais escolar. Há uns meses contei aqui no Atenta Inquietude a situação em que um pai proporcionava a um gaiato de uns 8 ou 9 anos um pequeno-almoço constituído por três salgados diferentes e um lata de Cola.
Não se trata de gastar mais ou comer menos, trata-se de tentar, insisto, tentar viver melhor.

O VENDEDOR DE CONVERSAS

O Homem veio viver para aquela terra. Nunca lá tinha passado e não conhecia muito sobre ela. Amigo de conversar começou a notar que as pessoas não eram assim muito interessadas em passar algum tempo a falar uns com os outros. De início pensou que se deveria ao facto de ser ainda um estranho mas foi percebendo que, mesmo entre as pessoas da terra, conversar não fazia muito parte dos seus hábitos. Por onde andasse conversa era coisa que não se encontrava.
Como sempre gostou e achava que era bom, imaginou que poderia tentar fazer alguma coisa para alterar a situação. A ausência de conversas poderia dever-se ao facto de não terem conversas para usar e, por isso, talvez pudesse fabricar conversas. Como sempre falou imenso, o Homem guardava na memória muitas conversas interessantes. Sabia que nos livros também se encontram muitas conversas pelo que procurava nos muitos que leu conversas que pudessem ser interessantes.
Começou então a juntá-las e por já serem muitas, organizava-as por assuntos, mais específicos ou mais gerais, por exemplo, pela natureza, mais séria ou mais divertida, e até pelas pessoas a quem se destinavam, mais miúdos, mais graúdos ou para gente de todas as idades. O Homem estava mesmo entusiasmado com a loja de conversas que ia abrir.
De repente, percebe a cara da sua mulher a olhá-lo com ar admirado, “Estavas a sonhar? Falavas imenso”. O Homem tinha acabado de despertar do seu sonho de vender conversas na terra das pessoas caladas.

domingo, 6 de setembro de 2009

E NÃO ACONTECE NADA

Ao que informa o CM, o Departamento Central de Investigação e Acção Penal tem em investigação 700 casos de corrupção. É frequente o entendimento de que apesar dos muitos casos em investigação ainda restam muitas outras situações que não são denunciadas e, sobretudo, instalou-se a convicção da impunidade, o que poderíamos chamar o Síndrome Vale e Azevedo. De acordo com a Direcção-geral dos Serviços Prisionais no início do ano cumpriam pena de prisão por corrupção activa e passiva e peculato 28 indivíduos. Este número parece indiciar uma percentagem baixíssima de condenações o que acentua o tal Síndrome Vale Azevedo, o não acontece nada. Além disso e aos olhos da comunidade, esta impunidade tem uma distribuição social assimétrica, ou seja, quanto mais importante menores são as consequências. Nas autarquias e nos aparelhos partidários os exemplos são mais que muitos e bem actuais. Acontece ainda que parece continuar a prevalecer uma forte hipocrisia entre os sucessivos poderes políticos que, por um lado, enunciam a retórica do combate à corrupção, mas por outro lado, não permitem os ajustamentos legais e processuais que efectivamente pudessem contribuir para minimizar os episódios de corrupção. Veja-se a forma como o chamado “pacote Cravinho” foi tratado pelo actual governo.
Seria interessante saber quantos destes 700 casos em investigação acabarão em condenação e quem serão esses condenados. Considerando a saúde da nossa vida cívica a expectativa é baixa.

sábado, 5 de setembro de 2009

CHEGAR A VELHO

Nos últimos tempos têm sido recorrentes as notícias sobre os tratos aos velhos, aos seniores, como agora se diz. Estou a falar de maus-tratos com será de antecipar. Quer no seio das famílias, quer em instituições, algumas encerradas compulsivamente, tal é a gravidade das situações, multiplicam-se as referências à forma inaceitável como os velhos estão a ser tratados. Começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis transforma os velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência. As famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades, não se constituem como um porto de abrigo e as instituições, muitas delas, subordinam-se ao lucro e escudam-se numa insuficiente fiscalização.
É certo que existe, felizmente, um pequeno número de idosos que além do apoio familiar, ainda possuem meios que lhes permite aceder a bens e equipamentos que contribuem para uma desejável e merecida qualidade de vida no fim da sua estrada.
Lamentavelmente, a garante maioria dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice. Não é um fim bonito para nenhuma história.

HISTÓRIA DO HOMEM CHAMADO ESTRANHO

Era uma vez um homem, chamava-se Estranho, isto é, as pessoas achavam que ele era Estranho. Quando chegou àquela terra onde nunca tinha estado, não conhecia ninguém e ninguém o conhecia, o homem vinha para descansar da estrada grande que já tinha andado. Passava algum tempo no café da terra a ler os jornais ou um livro, trazia sempre um consigo, e quando alguém falava com ele, o que acontecia poucas vezes, respondia simpaticamente mas usava algumas palavras diferentes das palavras usadas pelas outras pessoas. O Estranho quando conversava sobre alguma coisa também, por vezes, não pensava da mesma maneira que as pessoas daquela terra que falavam com ele.
O Estranho deitava-se sempre tarde, os vizinhos comentavam como as luzes da casa pequena que tinha alugado ficavam acesas pela noite dentro. Ele dizia que ficava muito tempo a ler mas, para admiração das pessoas, era dos primeiros a vir para a rua. Gostava do cheiro da madrugada, dizia ele, é Estranho, pensavam os vizinhos.
As pessoas relacionavam-se com o Estranho com alguma reserva e ele mantinha-se sempre com os livros, as suas falas, às vezes estranhas, e com ideias diferentes.
Um dia o Estranho, bem cedo, foi visto com a mala a apanhar o comboio e não voltou. Mais.
As pessoas da terra ficaram aliviadas, no fundo era um Estranho. E o Estranho fez-se de novo à sua estrada, agora já mais longa. Ainda não era naquela terra que ficaria a descansar.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

MAIS DO QUE PROPAGANDA, É CRIME ÉTICO

Como ontem antecipei o Dr. Lemos veio hoje anunciar o sucesso das mudanças na política de apoios educativos. Para além de um problema de competência, o Secretário de Estado revela, obviamente, um problema de seriedade política e de criminoso desrespeito pelas muitas crianças e jovens que não têm os apoios educativos de que necessitam, situação reconhecida por quem mais de perto convive com as escolas, a realidade, e não a ficção que habita a mente do Dr. Lemos. Isto acontece por duas ordens de razões. Em primeiro lugar, porque à luz dos critérios contidos na inadequada Classificação Internacional de Funcionalidade, muitos alunos não são elegíveis para apoio e, depois, porque as escolas não têm meios para responder às necessidades sérias de alunos que não passam pelo crivo da CIF ainda que o delinquente Lemos afirme o contrário. Mesmo nas medidas tomadas para as crianças e jovens elegíveis, existem muitíssimos casos de desajustamento na cobertura geográfica e na qualidade dos recursos materiais e humanos à disposição.
Negar esta realidade afirmando o sucesso das mudanças introduzidas, mais do que um mero exercício de propaganda, já por si grave, torna-se uma vez mais um caso de delinquência ética que, vindo de quem vem, não se estranha, mas que se torna insuportável.

O RATINHO, A VACA E O GATO MAU

Não sei bem a que se deverá tal situação mas as relações entre as pessoas não andam bem, estão crispadas, desconfiadas. Não sei se este clima se deverá às alterações provocadas pelo aquecimento global, se á crise e ao mal-estar decorrente, se à expectativa assustadora da pandemia de gripe A, mas a coisa não está bem.
Quando penso nas relações entre as pessoas lembro-me frequentemente de uma história que há muito me contaram, eventualmente alguns conhecerão, que vou partilhar convosco pedindo desculpa da deselegância dos termos utilizados. A história, como todas as histórias antigas, passou-se no tempo em que os animais falavam e tem, como se costuma dizer, uma moral.
Numa rua morava um Ratinho pequenino cuja mãe nunca o deixava brincar na rua porque havia um Gato Mau que comia os ratinhos que apanhava. Um dia o Ratinho saiu um pouco e encontrou uma Vaca que também morava naquela rua. A Vaca admirou-se de nunca encontrar o Ratinho e ele explicou-lhe os motivos. Com uma forte empatia a nascer entre os dois a Vaca combinou com o Ratinho encontrar-se com ele e como ela era grande, estava atenta, percebia se o Gato Mau aparecia e avisava o Ratinho para fugir a tempo. E assim se realizavam os frequentes encontros entre aqueles dois que se tornaram excelentes amigos.
Mas um dia, de tão entretidos que estavam na conversa, não deram pela aproximação do Gato Mau e a Vaca pôs-se à frente do Ratinho e numa tentativa desesperada de o esconder, despejou uma enorme bosta sobre o Ratinho. No entanto, lamentavelmente o Ratinho ficou com o rabo de fora e o malvado do Gato Mau comeu o Ratinho.
E agora a moral da história. Nem sempre quem te põe na merda é teu inimigo, nem sempre quem te tira da merda é teu amigo, e há alturas em que quanto mais merda melhor.
Não é muito elegante mas aqui fica.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

MAIS UM SUCESSO MAL COMUNICADO

Antecipando os resultados do estudo, apresentar nos próximos dias, sobre o impacto de utilização da CIF como critério de elegibilidade para apoio educativo, cautelosamente coordenado pelo seu autor e defensores assumidos, a comunidade educativa irá ser informada de mais um estrondoso sucesso da PEC – Política Educativa em Curso. O Dr. Lemos continua a não entender, não vai fazê-lo nunca, que o problema não está na CIF, mas sim no estabelecimento de um critério de elegibilidade para apoio educativo.
Nos processos educativos, quando emergem dificuldades, não podemos ir verificar se o aluno que as experimenta é elegível, ou não, para ter apoio. Devem ser avaliadas as dificuldades, a sua natureza e complexidade e desencadeados os dispositivos de apoio necessários, ou seja e dito de outro modo, dificuldades existentes são sempre elegíveis para apoio, variando este em função da avaliação realizada. Por outro lado, o ME definiu uma inaceitável e não fundamentada percentagem 1.8% até 2.2% da população das escolas com dificuldades susceptíveis de apoio. O resultado óbvio foi o elevadíssimo número de alunos com dificuldades educativas que não acedem aos apoios necessários. Tal situação é conhecida de todos quantos se movem no mundo das escolas.
Este anunciado aumento do número de professores para o ensino especial, parece ser, justamente, o reconhecimento da falência dos indicadores sempre defendidos pelo Dr. Lemos.
No fundo, deve tratar-se de mais um problema de comunicação, eu não entendo o Dr. Lemos, pelo menos da forma que ele desejava.

A CONSCIÊNCIA

Um diálogo, algures.
Já reparou na quantidade de gente que está sem emprego, meio milhão, é um número muito alto.
É verdade, não tinha consciência disso.
Parece que nas escolas se verifica que muitos miúdos passam dificuldades em casa, miúdos que até comem mal e pouco.
Não tinha consciência de que houvesse problemas desses neste tempo no nosso país.
Até há muitas pessoas que estão sem emprego e não têm subsídio de desemprego.
Mas o subsídio de desemprego não é para todos os desempregados? Não tinha consciência disso.
E este problema com a justiça, o tempo que tudo demora. E em muitos casos não acontece nada, só aos mais pequenos, os grandes safam-se quase sempre.
Está então a dizer que a justiça não funciona e não trata toda a gente da mesma forma. Não tinha consciência disso.
É, há muitos problemas, veja lá o das pessoas idosas que têm pensões muito baixas e que, às vezes, têm de optar entre comprar o que comer ou comprar os medicamentos de que precisam.
Se assim é, é grave. Não tinha consciência disso.
Além disso, ainda há milhares sem médico de família, fica difícil arranjar consultas, é preciso ir de madrugada e nem sempre se consegue.
Não tinha mesmo consciência disso.
Coisa esquisita, o senhor não vive cá? Não tem consciência?
Não, eu vivo cá e tenho consciência, mas sabe, tenho-a sempre em casa, dentro de uma gaveta. É que utilizar a consciência torna-me muito infeliz e sempre preocupado.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

ENTENDEM?

Lamentavelmente, ao fazer-se um balanço da política educativa nesta legislatura, que tem, naturalmente aspectos positivos, não é possível considerar que os problemas surgidos e que desencadearam reacções fortíssimas por parte dos professores se tenham devido fundamentalmente a problemas de comunicação. Para além das incidências da agenda política de que procuram servir-se governo, oposição e sindicatos, sabemos todos como a questão da comunicação é importante e pode sempre ser mais eficaz mas as grandes questões levantadas prendem-se com a qualidade intrínseca das medidas, não com a forma como foram “comunicadas”, designadamente o estatuto da carreira docente e a avaliação. Continua a não haver nenhuma justificação plausível para dividir os professores em dois grupos, existem muitíssimas outras opções que salvaguardam uma carreira assente no mérito e na experiência. O mérito prende-se com a outra grande questão, a avaliação. Como é óbvio a avaliação de desempenho é uma ferramenta fundamental na promoção da qualidade e na defesa do mérito. Por isso, não pode ser o modelo completamente desajustado que o ME propôs e que, apertado pelas reacções, entrou numa espiral patética e incompreensível de simplificação chegando a coisa nenhuma.
De facto, não é uma questão de comunicação, é a substância, o conteúdo das medidas políticas. Toda a gente entendeu muito bem a legislação produzida. Por isso se percebe que é má. Ponto.