AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A SOBERANIA É UMA TRETA

Em entrevista ao I no início de Setembro passado, Miguel Beleza, um dos muitos e iluminados economistas que peroram sobre a nossa desgraça, sempre com algumas receitas em que não é possível depositar confiança, afirmou "a soberania é uma treta", acrescentando que “se o Banco de Portugal não fizesse o que queria a Alemanha estava feito”.
Hoje, Marques Mendes, alguém que se costuma designar por fonte geralmente bem informada, referiu na TVI que os técnicos do FMI já estão em Portugal a preparar a reforma do estado. O Dr. Marques Mendes avança mesmo com conteúdos e calendário.
A afirmação de Miguel Beleza ganha especial acuidade, "a soberania é uma treta". Cá estão de novo os burocratas ignorantes da vida e das pessoas a decidir sobre a nosso país e a nossa vida.
O Governo, feitor sem mandato desta feitoria em que nos transformámos,  tem-se esforçado denodadamente para mostrar que os desejos dos feitores são ordens e o resultado é o que bem sabemos, sentimos.
Miguel Beleza tem razão, a soberania é uma treta. No entanto, a feitoria é uma tragédia.
E a gente aguenta?

O MUNDO É ASSIM, NÃO HÁ NADA A FAZER

O Público de hoje apresenta um trabalho interessante sobre a generosidade dos mais ricos em Portugal. Retirando algumas honrosíssimas excepções, aparentemente, os cidadãos mais ricos do país não têm por hábito a generosidade da dádiva individual, embora alguns o façam através das empresas ou de Fundações a que estão ligados o que, como é reconhecido, oferece benefícios fiscais, uma irrelevante compensação da sua desinteressada generosidade. A este propósito, generosidade e fundações, relembro que no amargo 1º de Maio do Pingo Doce, proporcionado, foi afirmado na altura, para ajudar  e defender as famílias e a suas dificuldades, o Grupo obteve um ganho estimado em 25 a 27 milhões de euros apesar de ter sofrido uma multa de 30 000 € o que não está certo pois é injusto penalizar a ajuda às famílias.
Na verdade, os tempos estranhos e pesados que atravessamos mostram um quadro paradoxal de excessos, a exclusão e a pobreza por um lado e a acumulação obscena de riqueza e desperdício por outro, levantam uma questão que, do meu ponto de vista, nem sempre é suficientemente ponderada, a questão da pobreza não pode ser gerida e resolvida ou minimizada, sem se considerar a questão da riqueza. A recente crise económica colocou a nu muitos dos excessos nascidos do interior dos modelos económicos que têm sido seguidos. Ouvem-se algumas referências e intenções, por exemplo da UE, de prevenir os excessos, mas provavelmente não passarão de intenções que logo que a poeira assente, ou seja, as economias recuperem, se esfumarão esquecidas.
Voltaremos com a habitual tranquilidade à geografia dos excessos, a coabitação da fome e da exclusão com os excessos e o desperdício, das obscenas e delinquentes remunerações e lucros com a insuficiência de apoios sociais e com o desemprego, da mansão inacreditavelmente luxuosa com os sem abrigo, etc.
Nada de estranho, portanto, o mundo é assim, diremos.

TDT - Tudo Dentro da Tradição

Já durante o processo de fecho das emissões analógicas e da sua substituição em todo o país pela TDT, tive oportunidade de ouvir em alguma comunicação social o investigador Sérgio Denicoli, da Universidade do Minho, que alertava para aspectos discutíveis e pouco transparentes desse processo. Em trabalho hoje divulgado é patente de forma mais clara o favorecimento da Portugal Telecom, a incompetência e defesa de interesses que não os dos consumidores por parte da Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom), a publicidade enganosa que acabava por pressionar as pessoas a aderir à televisão paga, etc.
Acresce que depois de terminado o processo de migração, continuamos com um dos piores serviços de televisão digital da UE e ainda existem no território muitas zonas sombra em que muita gente continua privada de televisão, apesar de ter realizado os investimentos no equipamento necessário, sendo que parte dessas pessoas são justamente idosos com baixo nível económico em zonas desertificadas. Noutras zonas são as autarquias que a expensas próprias minimizam a incompetência e delinquência dos responsáveis pelo processo.
Como é previsível, esta denúncia sustentada não terá qualquer tipo de consequências ou responsabilização sobrando, como de costume, para os consumidores os efeitos da incompetência dos decisores e dos negócios obscuros que nos impingem e a que nos obrigam de forma manhosa e despudorada.
Na verdade e para não variar em Porugal, o processo da instalação da televisão digital terrestre corresponde, lamentavelmente à sua sigla, TDT - Tudo Dentro da Tradição.

O MUNDO ÀS AVESSAS. Outro diálogo improvável

Setôra?
Sim, Francisco.
Posso dizer uma coisa?
Claro que podes, o que é?
A Setôra fala muito depressa e a gente não consegue perceber tudo.
Sim, às vezes também noto isso, vou fazer um esforço para falar mais devagar.
Setôra, posso dizer outra coisa?
Sim Francisco, tens mais alguma crítica?
Setôra, eu acho que a Setôra devia dar mais exemplos, assim tipo coisas mais práticas para a gente perceber melhor.
Achas que não dou exemplos que vocês percebam?
Acho que devia dar mais. Setôra, posso dizer mais uma coisa?
Bom, agora que começaste podes dizer o que quiseres.
Setôra, eu acho que sobre algumas coisas que a Setôra ensina, a gente podia falar nas aulas, discutir, assim tipo, um debate. Acho que era fixe para a gente aprender.
É uma ideia, quando tiver tempo podemos experimentar.
Setôra, posso dizer outra coisa?
Será que não te vais calar com críticas?
Setôra, a Setôra é DT podia pedir aos outros professores para não passarem tantos TPCs, a gente às vezes quase não tem tempo para fazer todos e às vezes também não sabemos e não ficam feitos.
Está bem, vou falar com os meus colegas e ver o que podemos fazer. Olha Francisco, agradeço as tuas sugestões.
Não é preciso Setôra, a gente tem que ajudar os Setôres a aprender.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O PAÍS AGUENTA, OS PORTUGUESES ... NÃO SEI

Fernando Ulrich, o homem forte do BPI afirmou, “O país aguenta mais austeridade? ... Ai aguenta, aguenta”.
Claro que das pessoas que pairam sobre a austeridade percebo afirmações desta natureza. Aliás, acho mesmo que Fernando Ulrich tem razão, Portugal aguenta esta e todas as austeridades. A minha dúvida e enorme receio é se os portugueses, muitos dos portugueses, cerca de três milhões de pobres e em risco de pobreza acrescido, aguentam mais austeridade nos moldes em que a austeridade tem sido delineada e imposta, sem equidade e com insensibilidade social, penalizando de forma inaceitável as famílias de classe média e com mais baixos rendimentos.

OS BRANDOS COSTUMES REVISTOS EM BAIXA

Segundo a imprensa, um responsável do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT) admite que a próxima visita da chanceler Ângela Merkel possa desencadear fortes manifestações de protesto aumentando significativamente o risco de violência nas ruas.
Na verdade, nos últimos tempos têm-se sucedido episódios que apesar de frequentes noutras paragens, são relativamente raros entre nós, embora também não inéditos, isto é, reacções significativas de hostilidade face aos representantes do poder político. Estes episódios têm envolvido ministros, o Primeiro-ministro e até mesmo o Presidente da República. Em algumas situações tem-se verificado saídas precipitadas, alteração de agenda, etc.
Estas manifestações, que a retórica política manda designar como descontentamento normal em democracia, mas que as condições de vida, ou melhor, a falta delas, sugerem que se pense em indignação e revolta por se sentirem ultrapassados os limites.
Não adianta sucessivos elogios que os líderes políticos fazem aos portugueses, “o melhor povo do mundo” como nos designou Vítor Gaspar.
A brutal deterioração das condições de vida dos portugueses, a percepção de assimetria nos sacrifícios e a ausência de esperança, as constantes e pesadíssimas medidas, chamadas de austeridade, conjugadas com as dificuldades decorrentes da própria situação económica estão a colocar a resistência de muitas pessoas nos limites ou para além dos limites. O desemprego atingiu um nível recorde, prevendo-se ainda o seu crescimento, o que representa uma fortíssima ameaça à dignidade das pessoas e testa fortemente a sua paciência e a contenção da indignação e revolta.
A desesperança e a luta diária pela sobrevivência contribuem para instalar um perigosíssimo sentimento de “já não há nada a perder”, perdemos, roubaram-nos, tudo. Este sentimento de já não tenho nada perder pode ser um “gatilho” que a presença da chanceler Merkel, alguém que é associado, não certamente por acaso ou pela cor dos olhos, à condição que temos, que desencadeie um movimento muito forte de contestação e protesto ou mesmo de violência.
Tudo isto gera um caldo de cultura em que se corre o risco de diluir os brandos costumes com que nos costumam identificar e nos quais as lideranças políticas querem desesperadamente acreditar. Como o povo diz, “quem semeia ventos, colhe tempestades".
Na verdade, dizem que somos reconhecidamente um povo de brandos costumes, dizem. Não abusamos da violência e quando o fazemos é no recato do lar, quando muito, no quintal ou num desaguisado de trânsito, nada que possa configurar violência pública ou convulsão social graves. A nossa violência, é uma violência de proximidade.
Somos mesmo um povo tranquilo e de brandos costumes, uma das apreciações que os estrangeiros quase sempre referem como característica dos portugueses.
A questão é que, como dizia Camões, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Um dia cansamo-nos de ser bons rapazes.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

LITERACIA ECONÓMICA EM FAMÍLIA. Outro diálogo improvável

João, vamos lá conversar. Se tu ..., eu ...
Não Pai, assim não dá, se eu ..., tu ...
Acho que deves pesar melhor. Se tu ..., eu ...
Tu insistes Pai, assim não nos entendemos. Se eu ..., tu ...
Não é fácil João. Penso que o melhor será que se tu ..., eu ...
Já te disse Pai. Ou eu ... e tu ... ou não temos acordo.
Bom, acho que é importante que nos possamos entender e portanto se tu ..., eu ...
E tu ainda estás sempre a dizer que eu sou teimoso. Desculpa lá Pai, mas tem que ser assim, eu ... e tu ...
És tal e qual a tua mãe João, querem sempre que tudo seja como vocês acham. Mas neste caso  tenho que insistir, se tu ... eu ...
Não Pai, se tu não ... eu não ...
Pronto, já estou cansado e já percebi que não mudas. Está combinado, se tu ..., eu ...
Assim está bem Pai, está combinado. Se eu ..., tu ...
Certo João, eu sabia que acabaríamos por nos entender.

A ÉPOCA DO TIRO AO ESTADO SOCIAL

Não acompanho suficientemente de perto a situação noutros países para ter uma perspectiva comparativa, mas existe uma espécie de síndrome em Portugal que afecta a classe política com experiência de poder. Esta síndrome, a que poderemos chamar “sei muito bem o que deveria ser feito, mas quando fui ministro esqueci-me” é patente em muitíssimos ex-governantes oriundos dos partidos que já assumiram responsabilidades de governo.
O último exemplo é de Roberto Carneiro que entende hoje que pode ser benéfico "reavaliar as funções do estado na área da educação" embora, claro, ainda é cedo, não adiante muito sobre o quer exactamente dizer "reavaliar as funções do estado". Só faltava a imprescindível opinião de Roberto Carneiro que foi ministro da educação entre 1987 e 1991 e não "reavaliou" as funções do estado nesta área mas agora, os ventos são outros, os interesses também e torna-se necessário "reavaliar" as funções do estado. Parecer-me-ia mais interessante reavaliar as políticas educativas que nas últimas décadas têm sido seguidas.
Roberto Carneiro sustenta as suas ideias referindo, tinha que ser, o Relatório do Tribunal de Contas sobre o custo dos alunos no sistema público ou no sistema privado que está de tal modo desactualizado, o próprio TC afirma-o, que não vale a pena considerá-lo, algo que, obviamente, Roberto Carneiro sabe mas não refere. Tudo bem, também não estranho, utilizamos o que podemos na defesa das nossas ideias.
De mansinho, as vozes vão-se ouvindo e as ideias fazendo o seu caminho no sentido de questionar as funções do estado em áreas como educação, saúde, apoios sociais, o que num país pobre como o nosso, assimétrico como poucos na Europa no que respeita à equidade de oportunidades e à distribuição de rendimentos e riqueza, equivale, do meu ponto de vista, certamente conservador e imobilista, a um risco de pobreza e exclusão acrescido. Está oficiosamente aberta a época do tiro ao estado social.
Continuo, de forma obviamente estúpida e fora do tempo, a defender um estado social que deve ser racionalizado e eficiente, sem desperdícios ou excessos e mordomias, mas que não pode ser "refundado" seja lá isso o que for, para não alienar o acesso de todos os cidadãos a direitos básicos como saúde, educação, justiça e protecção social.

PRECÁRIA DE VIDA

O Público aborda a situação de alguns jovens que dramaticamente ilustra a informação de um relatório da Comissão Europeia, há dias divulgado e segundo o qual, Portugal terá cerca de 260 000 jovens entre os 15 e 29 anos que não estudam, não trabalham e nem estão a receber formação, a designada situação “nem, nem”. No entanto, dados de há meses do INE referiam 314 000 jovens nesta situação. Este cenário não é mais grave porque 100 000 jovens, sobretudo qualificados, estão a sair do país, emigrando para outras paragens e tem um custo brutal, cerca de 2 700 milhões de euros, 1,57 % do PIB. Creio justificar-se retomar as notas que na altura aqui coloquei sob o mesmo título, precária de vida.
Acresce que de acordo com um Relatório da Organização Internacional do Trabalho em 2011, 56 % dos jovens portugueses com trabalho têm contratos a prazo. Há algum tempo uma informação do Banco de Portugal referia que em cada dez empregos novos para jovens, nove são precários. Por outro lado, a taxa de desemprego entre os mais novos está acima dos 35.5 %, a terceira taxa mais alta da UE.
Segundo um estudo da CGTP, 51% dos jovens com menos de 25 anos ganha menos de 500 € e 24,5% dos jovens entre os 25 e os 35 recebe também menos de 500 €. Este cenário evidencia a enorme precariedade do trabalho e baixa qualificação do mesmo.
A precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Por outro lado, as políticas de emprego em curso incluem maior flexibilização das relações laborais o que, naturalmente, é coerente com os ventos neo-liberais e o endeusamento do mercado que tudo permite, incluindo roubar a dignidade às pessoas e promover exclusão.
Deste cenário e dos números do desemprego, resulta que os mais novos à entrada no mercado de trabalho são os mais vulneráveis ao desemprego e à precariedade quando, apesar das dificuldades, acedem a algum emprego.
Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem, obviamente, sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão, os indicadores mostram-no, o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se repercutem no inverno demográfico que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira profissional.
No entanto, um efeito muito significativo mas menos tangível desta precariedade no emprego, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no seu todo e que, com alguma frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, está a instalar-se, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra saída motivadora e que recompense.
Este problema que não é um exclusivo português, longe disso, exige uma visão e um conjunto de políticas que não se vislumbram e cuja ausência compromete a construção sustentável do futuro.
Podemos estar perante a tragédia das gerações perdidas de que há algum tempo se falava.

domingo, 28 de outubro de 2012

QUENTES E BOAS

Apesar da chuva que já se anuncia, informação sempre útil a quem, como eu, anda de mota para fugir às agruras do trânsito na Ponte sobre o Tejo, anda de mota, estes dias mais frios e a noite que chega mais cedo, associam-se a um odor que com o frio começa a invadir algumas das nossas ruas, o perfume das castanhas assadas.
Parece que estão caras, embora a produção deste ano, ao que ouvi, foi boa, coisa dos malvados mercados, já se vê, têm razões que a razão desconhece.
Apesar dos orçamentos se apertarem dramaticamente, julgo que ainda faremos um esforço para aceder às castanhas assadas. É a única coisa que nos chega embrulhada num agradável "quentes e boas" o que na verdade merece saudação.
Em tempos frios como os que vivemos em que a cada notícia sobre a nossa vida nos deixa mais gelados e tão amargos no sabor que colocam nos dias que nos acolhem, é bom chegarem as castanhas, "quentes e boas". Se calhar é isso que lhes dá o valor e daí serem caras.
Parece que já não podem ser vendidas embrulhadas em jornal ou nas infindáveis páginas das listas telefónicas. Coisas da segurança alimentar ao que dizem, mas não é a mesma coisa.
Podemos tentar reproduzir em casa com equipamentos mais sofisticados umas castanhas assadas mas nunca ficam ou eu nunca consegui que ficassem ... quentes e boas, como as que se vendem na rua. Nem com o mesmo cheiro a Inverno.

NO BOM CAMINHO

Há poucos dias, o Cardeal Patriarca de Lisboa sustentava que as manifestações e os protestos não resolvem nada.
Hoje, o Ministro da Defesa afirma que os comentadores que discutem a política de defesa e, presumo, os que manifestam alguma forma de crítica são tão "perigosos para a segurança nacinal como qualquer ameaça externa". Ao que parece, o Ministro estava a falar a sério.
Estamos no bom caminho, pobrezinhos, honrados pois pagamos as dívidas com o mal que passamos e caladinhos. Assim sim, somos o melhor do povo do mundo. Não é Senhor Professor Vítor Gaspar?

OS NOVOS RESPIGADORES DE UM TEMPO MUITO FEIO

A propósito da decisão do Governo Grego anunciar a possibilidade de serem comercializados alimentos fora do prazo de validade, o Público de hoje analisa o quadro legal português e chama a atenção para a rotulagem dos bens, estabelecendo a diferença entre "consumir até ..." e "consumir de preferência antes de ..." sendo que na primeira os alimentos NÃO devem ser consumidos e comercializados, enquanto que na segunda hipótese, não estando em condições óptimas, podem ser consumidos sem riscos. Talvez possam ser vendidos mais baratos aos mais pobres, que não podem ser tão exigentes com a qualidade dos alimentos desde que não sejam intoxicados. Como todos sabemos, a pobreza tem um preço muito alto. Tão alto que, aparentemente, não há riqueza que chegue para comprar a pobreza, só para a produzir.
No entanto e ao que parece, um consumo mais racional relativamente à validade, entendem alguns, poderia combater desperdícios e minimizar dificuldades embora, em caso algum, se deva minimizar a segurança alimentar.
Há pouco tempo, Parlamento Europeu aprovou um relatório segundo o qual a União Europeia que tem 79 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, 15,8% da população, e desperdiça anualmente cerca de metade do que consome em alimentos. Este desperdício corresponde a 89 mil milhões de toneladas, um número verdadeiramente assombroso. O Parlamento Europeu estabelece como objectivo para a Comissão reduzir em 50% o desperdício até 2025.
Relembro que 2010 foi o Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão e o resultado está à vista, 79 milhões de pobres, cerca de 3 milhões em Portugal. Parece-me também oportuno recordar que recentemente também a Comissão Europeia publicou um relatório mostrando como as medidas de austeridade em Portugal estão a agravar as assimetrias sociais e, de forma extraordinária, o Primeiro-ministro avisou desde sempre que o caminho é o empobrecimento.
Quando tanto se fala de produtividade, em nome da qual, se ameaça a dignidade das pessoas e se lhes piora as condições de vida talvez fosse altura de também nos centrarmos no desperdício e nos seus efeitos devastadores. Começa a ser cada vez mais frequentemente assistir-se à coreografia da fome protagonizada por personagens de um filme negro que deambulam junto dos caixotes do lixo dos supermercados, catando os restos e sobras de alimentos que, no espaço da UE, representam metade do que se consome, numa dramática representação real do  notável e lindíssimo “Os Respigadores e a Respigadora”, de Agnès Varda, sendo que aqui não é uma obra de arte, é uma acusação pesadíssima.
Neste quadro releva a necessidade urgente de ponderar os modelos de desenvolvimento económico e social, combater desperdícios consequência desses modelos, diminuir efectivamente o fosso intolerável entre os mais ricos e mas pobres, caminhar no sentido da construção de uma dimensão ética que seja reguladora da atribuição de privilégios incompreensíveis e obscenos para poucos e tolerância face a situações de exclusão extrema para bastantes outros.
Talvez também sejam de repensar os modelos de desenvolvimento e a cultura em matéria de produção e consumo de produtos alimentares, em vez de uma discussão, ainda que importante sobre a interpretação e alcance dos prazos de validade, que, para além das questões de saúde, se relativizam fortemente a estratégias de mercado, sempre o mercado.
Provavelmente, escrever sobre estas questões em espaços desta natureza tem alcance zero, mas continuo convencido que é fundamental não deixar cair a preocupação, talvez seja melhor chamar-lhe a indignação, com a pobreza e exclusão para as quais os níveis inaceitáveis de desperdício dão um forte contributo. 

sábado, 27 de outubro de 2012

UMAS AFIRMAÇÕES ASSIM TIPO SEI LÁ

O fim de semana tem sido fértil e muito estimulante em declarações de ministros na sessão de catequese junto dos deputados da maioria que receberam as necessárias lições sobre o que dizer, como se comportar e como é importante que sejam amiguinhos.
Tivemos as afirmações da Ministra da Justiça, que catequisou sobre a importância de os políticos se assumirem como referências sendo que, provavelmente por distração, ter-se-á esquecido de um colega o "Dr." Relvas, uma verdadeira e inspiradora referência.
Também o catequista Miguel Relvas, ele próprio, afirmou algo de surpreendente, disse estar de "consciência tranquila" o que é um profundo desafio intelectual.
O Professor Nuno Crato na sua prédica identificou como uma das prioridades para 2013, "moralizar a admissão de professores".
Como estas coisas da educação me interessam particularmente e não tenho informação complementar, não sei muito bem como entender a "moralização" da admissão de professores e surgem-me várias dúvidas.
Será que o MEC que geriu e gere da forma caótica o processo de colocação e contratação e docentes no ano em curso, promoveu e aceitou "imoralidades"? Sim, creio que se verificaram imoralidades, falhas nas orientações, nos prazos, que existem ainda situações por resolver, atropelos nas colocações, processos anedóticos e tragédias pessoais, etc., que resultaram da incompetência. Fica então por definir e imputar responsabilidades, que, do meu ponto de vista, é um processo claro, cabem ao Ministro Nuno Crato. Resultado, para o ano Nuno Crato vai "moralizar" o sistema.
Será que o Ministro não queria ter dito que para o ano tem como objectivo "moralizar" a demissão, em vez de admissão, de professores já que este ano ficaram sem horários ou trabalho professores altamente experientes e competentes? Mais uma vez, de quem é a responsabilidade? Do Ministro Nuno Crato, claro. Resultado, para o ano o MEC quer "moralizar" a admissão de professores.
A fechar, o Primeiro-ministro anunciou ser necessário uma  "refundação" o acordo com a troika. Existe apenas um pequeno pormenor com esta extraordinária ideia, Passos Coelho disse nada sobre o que entende por "refundação". Aqui para nós, eu acho que ele não tem mesmo ideia sobre o que tal coisa possa significar, mas achou que era interessante produzir uma afirmação "assim tipo sei lá". Claro que a rapaziada que estava na catequese, deve ter batido palmas, abanaram a cabeça, não perceberam o que Passos Coelho quis dizer, mas também ninguém pergunta, fazer perguntas não faz parte da função dos deputados, a não a ser que saibam a resposta, o que, obviamente, não era o caso.
Eu sei que este tipo de eventos, uma sessão de catequese política, obedece a uma retórica particular e quase sempre irrelevante, é um fingimento no qual nem os que lá estão acreditam.
Mas, por favor, deveriam poupar-nos. Que moralizem o discurso, as decisões políticas, os comportamentos, a solidez ética  e a qualidade das decisões que tomam, mas poupem-nos a este deprimente espectáculo de uma catequese realizada por catequistas que seriam excomungados à primeira confissão que realizassem.

UM GRANDE BEM HAJA, SENHORA MINISTRA

Quando li pensei que talvez fosse um momento de humor introduzido nas Jornadas Parlamentares conjuntas do PSD e do CDS, mas depois percebi que era de facto uma afirmação séria e entendi o seu enorme alcance e oportunidade.
A Ministra da Justiça afirmou, cito, "os políticos têm que ser o exemplo, têm que ser absolutamente o exemplo”. Para que ficasse mais claro, acrescentou, "Se nós não formos referências, dificilmente os portugueses aceitarão sacrifícios. A classe política tem de ser exemplar, se não for perdemos legitimidade. Nessa medida, todos e cada um de nós, no seu local, tem de ser essa referência".
Não existem relatos mas creio que como é hábito na vida parlamentar muitos deputados terão exclamado um vibrante e emocionado "Muito bem".
O Ministro Miguel Relvas abanava a cabeça de forma afirmativa numa profunda e convicta concordância com a sua colega Ministra.
Como é evidente as afirmações da Dr. Paula Teixeira da Cruz são apenas um redundante e dispensável reconhecimento que devemos a uma boa parte da classe política que nos últimos anos nos têm generosamente fornecido exemplos de referência.
São um farol, por assim dizer, que nos indica o rumo de uma via de seriedade, de mérito e competência, de missão, de zelo e preocupação com o bem comum.
Obrigado a todos por serem o que são e como são, uma inspiração que nos ajuda e dá alento para as agruras de uma vida a que eles, naturalmente, são alheios mas que com o maior dos despreendimentos nos ajudam a ultrapassar.
Correndo o risco de uma enorme injustiça pelo esquecimento de alguns,  um grande bem haja a referências como Miguel Relvas, a Dias Loureiro, a Isaltino Morais,  a Armando Vara, a Oliveira e Costa, a Fátima Felgueiras e a todos os outros que só por exaustão e cansaço deixaram uma vida de sacrifício pela causa pública, para seguirem carreiras profissionais sem futuro e mal pagas, afinal a mão cheia de nada que lhes sobrou da referência em que se constituem e da ingratidão de que são vítimas.

ESTADO SOCIAL? ESQUEÇAM

A imprensa de hoje dá conta de duas situações que julgo merecerem alguma reflexão, não tanto pelo seu significado económico, mas mais pelo que representam em termos de ética e decisão política no estabelecimento de prioridades.
O primeiro caso remete para a situação relatada e confirmada junto de vários estabelecimentos hospitalares, de uma vítima de assalto com agressão física ser notificada para pagar os custos dos serviços hospitalares. Se referir por exemplo, uma queda, apenas lhe é cobrada a taxa moderadora, se for o caso. A notícia foi construída em cima de um episódio ocorrido com uma idosa vítima de assalto com agressão, que deveria pagar 108 € no hospital, mas que referindo embaraçosamente a mentira de uma "queda", apenas pagou 17.5 € de taxa moderadora.
A outra situação refere a decisão do Ministério da Saúde de suspender os "cheque-dentista" para crianças e adolescentes mantendo para idosos beneficiários de complemento solidário, grávidas e portadores de HIV/SIDA.
Sabemos, estamos cansados de o saber que importa racionalizar meios, optimizar recursos e combater desperdício, mas começa a ser difícil perceber onde se situarão os limites.
Um pessoa, idosa, é assaltada e agredida, não reconhece e provavelmente nunca se saberá quem cometeu o crime, a pessoa é vitimizada duplamente no âmbito de algo a que se chama Serviço Nacional de Saúde. Torna-se difícil entender a justificação destes entendimentos.
Por outro lado, cortar o acesso de milhares de crianças a cuidados e intervenções no âmbito da saúde oral que obviamente terão um fortíssimo impacto futuro pela prevenção que permitem e que, é conhecido, terão custos muito mais baixos que intervenções remediativas em situações que na altura já serão bem mais graves.
Eu sei que existe um discurso muito insistente no retirar o estado e do estado, de muitas funções em diferentes áreas do nosso funcionamento, o Ministro Vítor Gaspar trouxe a questão de forma clara para a agenda. Este caminho pode ser entendido em algumas dimensões mas no que respeita, por exemplo, à saúde, à educação, à justiça, ao apoio social nos casos de exclusão e pobreza, retirar o estado da vida das pessoas corresponderá muito provavelmente a retirar a vida às pessoas no seu valor mais elevado, sobrevivência e dignidade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

PRENDER NÃO BASTA

Segundo dados divulgados num Fórum hoje realizado em Lisboa sobre segurança urbana, a delinquência urbana aumentou significativamente nos últimos anos e é operada de forma esmagadora, 86 %, por gente jovem, dos 16 aos 35 anos.
Neste evento foi também acentuada a importância da prevenção e da integração comunitária  como eixos centrais na resposta a este problema sério das sociedades actuais.
Parece ser cada vez mais consensual que mobilizar quase que exclusivamente dispositivos de punição, designadamente a prisão, parece insuficiente para travar este problema e, sobretudo, inflectir as trajectórias de marginalização de muitos dos envolvidos mais novos em episódios de delinquência.
No entanto a discussão sobre estas matérias é inquinada por discursos e posições frequentemente de natureza demagógica e populista alimentados por narrativas sobre a insegurança e delinquência percebida, alimentadora de teses securitárias.
Em Portugal existem altíssimos níveis de prisão, é conhecida a situação de sobrelotação nos estabelecimentos prisionais. São também constantes e públicos os apelos ao aumento de penas e da prisão de mais gente, provavelmente, devido a uma devastadora percepção de impunidade e insegurança que tem vindo a instalar-se na sociedade portuguesa. É ainda frequente reclamar o abaixamento da idade susceptível de prisão que actualmente se situa dos 14 aos 16 anos, internamento fechado em Centro Educativo e a prisão comum a partir dos 16, como subscreve, por exemplo, o CDS-PP.
A questão central, do meu ponto de vista, é que, sobretudo no caso de gente mais nova, a prisão não pode ser a única solução.
Segundo dados da Direcção-Geral de Reinserção, cerca de 40% dos adolescentes internados voltam aos Centros Educativos ou às prisões após os 16 anos. Os estudos sobre a reincidência em diferentes idades, sugerem que as medidas de restrição de liberdade quando não acompanhadas por outro tipo de intervenção não a minimizam significativamente. Também se reconhece que frequentemente o universo prisional é uma escola e um factor de risco de agravamento de comportamentos de delinquência.
Esta altíssima taxa de reincidência, mostra a falência do Projecto Educativo obrigatoriamente definido para todos os adolescentes internados. Este Projecto Educativo assenta em dois eixos fundamentais, formação pessoal e formação escolar e profissional. É neste âmbito que o trabalho tem que ser optimizado. É imprescindível que os meios humanos e os recursos materiais sejam suficientes para que se minimize até ao possível os riscos de reincidência. Ao que é conhecido, um dos jovens agora detidos já tem antecedentes criminais. Mesmo entre a população mais jovem, com mais de 16 anos e, portanto, a cumprir penas em estabelecimentos prisionais para adultos, a taxa de reincidência é enorme e a prisão, sabe-se, funciona frequentemente como escola para certificação e aquisição de competências.
Fica certamente mais caro lidar com a delinquência provavelmente praticada por estes jovens reincidentes em adultos do que investir na qualidade dos Centros Educativos para que sejam, de facto, educativos. É neste contexto que, do meu ponto de vista se deve colocar a análise da proposta agora elaborada, ou seja, é imprescindível um redimensionamento da rede de Centros Educativos e um forte investimento nos recursos técnicos de que dispõem, nos meios, espaços e equipamentos. Só assim poderão cumprir a sua função, proporcionar a jovens em privação de liberdade a construção de um Projecto de vida, com qualificação escolar e profissional, formação pessoal e uma ideia de futuro que minimize o risco de reincidência.
Apesar de, repito, a punição e a detenção constituírem um importante sinal de combate à sensação de impunidade instalada, é minha forte convicção de que só punir e prender não basta.
Assim, sabendo que prevenção e programas comunitários e de integração têm custos, importa ponderar entre o que custa prevenir e os custos posteriores da delinquência continuada e da insegurança.

AS CONTAS QUE NUNCA DÃO CERTAS

Uma das questões que no universo da educação está permanentemente em discussão é o custo por aluno no sistema público e no sistema privado.
É evidente que conhecer com algum rigor e actualidade estes custos é importante, mas na verdade a questão é que o valor que se pretende encontrar tem de ser "trabalhado" até servir para sustentar a argumentação de diferentes pontos de vista sobre o ensino público e privado, a liberdade de escolha e, finalmente, o próprio questionar do sistema público de educação tal como o conhecemos.
Nesta "guerra" de números e, como disse, dependendo dos pontos de vista, temos tido valores para todos, o custo por aluno no sistema público é mais caro logo seria desejável abrir a possibilidade de escolha, o estado só poupava. No entanto, também se argumenta que se forem utilizados exactamente os mesmos critérios de cálculo, o ensino privado fica mais caro.
O Tribunal de Contas também fez contas, com dados absolutamente desatualizados e conclui que o ensino público fica mais caro, mas que com dados actualizados a realidade pode não ser essa e ainda aconselha a que se reavalie o modelo dos contratos de associação que, conhecem-se situações, vigoram quando os pressupostos da sua definição, não se verificam, pois existe resposta em estabelecimentos públicos.
E voltamos ao início. Qual é a realidade? Nos tempos que correm, com os modelos de funcionamento e financiamento das escolas em vigor, quanto custa na verdade ao estado cada aluno nos diferentes sistemas?
Creio que na verdade dificilmente conseguiremos uma resposta rigorosa e clara. Porquê? Porque é difícil fazer as contas? Claro que não.
Porque não se conhecem os dados? Claro que não.
Por que falta metodologia e conhecimento para o fazer? Obviamente que não?
É a política estúpido, é porque, como quase sempre no universo da educação, a discussão é contaminada por interesses outros.
Confesso que já me cansa esta discussão a que darei mais atenção quando ouvir afirmar com toda a clareza aos defensores da liberdade de escolha que o sistema privado assume ser obrigado a aceitar TODAS as crianças que lhe batam à porta com um financiamento debaixo do braço, por exemplo, crianças com necessidades especiais, crianças com trajectórias de insucesso ou problemas no comportamento, etc, etc. Nessa altura poderemos voltar a esta discussão aos custos e ao que melhor possa defender os interesses dos miúdos e das famílias.

OS PROBLEMAS ESPECIAIS DOS MIÚDOS ESPECIAIS

Dada a deriva em que se transformou o processo de colocação de professores e os milhares de desempregados  que a classe conhece, emergem situações complexas e graves considerando vários ângulos de análise.
Está a acontecer com excessiva frequência que lugares de docentes de educação especial sejam ocupados por docentes que ainda que tenham mais tempo de serviço na profissão, não têm muita experiência e, ou formação para o trabalho específico com os grupos de alunos ou alunos com necessidades educativas especiais. Como é evidente é legítimo que docentes não contratados e com a espera do desemprego por cima de si procurem qualquer lugar de desempenho que lhes garanta colocação e salário. Por outro lado, temos docentes com formação especializada e experiência na função que se vêem preteridos com base em critérios que não consideram devidamente estas condições.
Está assim instalada a controvérsia de que hoje o Público faz eco e que constitui mais um exemplo de decisões e processos que sendo de natureza administrativa não são pensados e decididos de forma a acautelar os interesses mais importantes de todos os que estão envolvidos neste universo, os dos miúdos com necessidades especiais e das suas famílias.
Lamentavelmente, não estranham, estão habituados, é apenas mais um problema.

AS MANHAS QUE BOLONHA ABRIU

O MEC determinou que a Universidade Lusófona procedesse à reapreciação dos casos de creditação de competências profissionais que levaram à atribuição de graus académicos e retirar as devidas consequências incluindo, se for o caso, a "nulidade dos graus académicos atribuídos". Confesso que a minha expectativa sobre os efeitos desta decisão é nula, destina-se apenas a permitir que tudo fique por assim mesmo, como se costuma dizer, designadamente no escandaloso caso de Miguel Relvas cujos contornos são públicos.
Também e conforme já tinha sido anunciado, o MEC irá proceder à uma revisão dos conteúdos da Declaração de Bolonha no que respeita à condições de creditação de competências profissionais. Por me parecer oportuno, retomo umas notas antigas sobre esta matéria.
Em primeiro lugar, devo dizer que estou ligado profissionalmente a uma instituição de ensino superior privado, creio que a mais antiga do país, com 50 anos, o que de alguma forma me envolve nesta questão, mas, por outro lado, me permite falar com algum conhecimento.
Como já o tenho referido, o aumento exponencial da procura do ensino superior durante os anos 70 e 80 não encontrou resposta na rede existente fundamentalmente pública. Nesse contexto emergiu rapidamente uma enorme quantidade de estabelecimentos de ensino superior privado e, naturalmente, também no ensino público com novas universidades e a explosão do ensino politécnico.
Este aumento foi completamente desregulado, por responsabilidade da tutela com a justificação da autonomia universitária, o que gerou uma rede sobredimensionada, enviesada na oferta, com corpos docentes em muitos casos manifestamente pouco qualificados e, portanto, com compromissos severos de qualidade.
Por outro lado, a decisão política, de base económica, que justificou o processo de Bolonha, introduziu uma outra variável neste universo, as licenciaturas de curta duração, o 1º ciclo, que em algumas áreas passaram a ser a formação de base substituta da anterior formação de 5 anos. O Processo de Bolonha abriu ainda portas ao reconhecimento académico de competências profissionais o expediente de que Relvas e a Universidade Lusófona se serviram e daí a sua reclamação de “legalidade” já reconhecida pela Procuradoria-geral embora, obviamente, essa nunca tenha sido a questão central.
Um cenário desta natureza num contexto praticamente desregulado, apesar de algumas inspecções inconsequentes, como a imprensa referiu, conhecendo-se a falta de arquitectura ética de boa parte das nossas lideranças bem como a importância social atribuída ao "canudo de DR." e menos ao conhecimento, a promiscuidade de interesses e dos lóbis (aliás, uma das 4 cadeiras feitas por Miguel Relvas) motivou muitos casos de trânsito entre universidades privadas, e não só, e a classe política, sendo muito frequente que uma figura qualquer com currículo partidário ou a ocupação de um cargo político passe em seguida a “Professor universitário” sem currículo nem competência que o justifique, mas de cuja ligação se espera que todos ganhem, seja lá o que for.
É neste caldo que se geram as situações como a do Ministro Miguel Relvas e de mais algumas situações menos mediatizadas mas conhecidas.
Lamentei e lamento todo este episódio, que mina a credibilidade do ensino superior privado e faz duvidar de um princípio que por si é importante, o reconhecimento pela academia de que existem saberes e competências que podem ser adquiridas fora da universidade, mas trabalhando mesmo e fazendo prova desses saberes e competências. Fico triste com esta situação mas não surpreendido e por isso entendo a decisão da sua revisão por parte do MEC. Não deveria ser necessário mas é como se passa com os miúdos, quando eles não sabem tomar conta deles, alguém tem que o fazer.
É evidente que a figura menor de Miguel Relvas, se lhe restasse uma ponta, mesmo que residual, de sentido ético e dignidade, já teria pedido há muito a demissão.
Mas esta coisa de sentido ético e dignidade nem sempre se aprende na universidade, muito menos em meteóricas licenciaturas de um ano.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

OS TRABALHOS DOS ESTUDANTES

Em estudo hoje apresentado e realizado por João Maroco, do Instituto Superior de Psicologia Aplicada - IU, centrado na população estudante do ensino superior conclui-se que cerca de 15 % da população inquirida está em situação de exaustão, cansaço e stress insustentáveis o que promove em boa parte destes estudantes o consumo de fármacos, álcool ou outros produtos que tornem mais suportáveis as circunstâncias de vida.
As causas deste quadro significativo parecem assentar na dificuldade de responder às exigências académicas, às circunstâncias de vida actuais e às dificuldades decorrentes da ausência de perspectivas e confiança no futuro.
Tudo isto compõe um caldo em que facilmente germina o mal-estar, o burnout ou mesmo a doença mental.
Creio que muita gente não valoriza de forma adequada as circunstâncias de vida actuais para muitos dos jovens estudantes que, tendencialmente, são vistos como um grupo de privilegiados que anda permanentemente em festas e em divertimento. Aliás, é curioso ler ou ouvir muitos comentários sobre este universo.
Na verdade, a maioria dos estudantes vive como costumo dizer “entalada”. Vive entalada pela pressão familiar decorrente do esforço que a maior parte das famílias realiza para que possam estudar. Relembro que estudar é caro e as famílias portuguesas são das que na EU mais esforço têm que fazer para proporcionar aos seus filhos a frequência do Ensino Superior.
Os estudantes vivem ainda entalados por uma quantidade enorme de trabalho que muitas vezes lhe é pedido e a percepção de que dada a competitividade é necessário que as notas sejam elevadas.
Finalmente, vivem ainda entalados com a enorme dificuldade de perceber o seu futuro, construir um projecto de vida, autónomo, com níveis satisfatórios de realização pessoal e profissional.
Eu sei, que os estudantes do ensino superior estão, potencialmente, em melhores condições que os cerca de 360 000 outros jovens da sua idade que não trabalham, não estudam e não estão a receber formação, mas sei também que a sua vida não é fácil.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

OS DEUSES ESTÃO ZANGADOS

Agora que me sentei para tentar que as letras se juntem em torno de algo com sentido noto, oiço, a trovoada que lá vai fora. No espaço onde escrevo, um sótão, já mais perto do céu, a trovoada fica mais próxima.
Lembrei-me de quando era miúdo e do pavor que sentia nas noites de trovoada. Diziam-me lá em casa que era deus que estava zangado e eu, não sei se por medo de deus, por alguma culpa que me pesasse face às diabruras com que me entretinha ou se "apenas" por medo do barulho e dos relâmpagos, ficava assustado com a cabeça debaixo da almofada, de olhos muito fechados, à espera que a trovoada se afastasse para só então ser capaz de dormir.
Eu acho que a trovoada de hoje deve ser também porque os deuses estão zangados, muito zangados. Os deuses inventaram-se para que as pessoas se sintam mais felizes e as pessoas, a maioria das pessoas, estão infelizes, muito infelizes. Eu acho que os deuses não gostam de ver tanta gente infeliz e estão zangados, ralham com a gente que faz infeliz a outra gente.
Será que alguém os ouve?
Mais provavelmente sou eu, e só eu, que ainda tenho medo da trovoada.

SEMPRE A PROTESTAR, SEMPRE A PROTESTAR

Não acredito. Então não é que uns malandros foram protestar para as galerias da Assembleia da Républica contra a não aprovação pelos feitores do PSD e CDS do abaixamento do IVA a restauração?
Onde é que já se viu? O Parlamento, espaço que se requer tranquilo, respeitado e sereno, sem gritaria nem peixaradas de rua, virar palco de manifestações!
Essa malandragem que protesta, é certo que apenas por dois motivos, por tudo e por nada, deveria saber que protestar não resolve nada. Devemos ser resignados, calmos e aguardar serenamente e com confiança que os deputados, pessoas que estudaram muito, que são inteligentes, bondosas e preocupadas com o nosso bem-estar, decidam, sem alarido e  manifestações, o que é melhor para nós todos e para Portugal.
Vêem muita televisão, é o que é, e depois aprendem o que não devem com gregos e espanhóis, uns mal-educados que não respeitam nada nem ninguém.
Mas desta gente assim da restauração, ainda vá que não vá. Agora o que espanta mesmo é os Directores da escolas e agrupamentos protestarem com o MEC por causa dos processo de colocação de professores. Mais uma enorme injustiça. É certo que o processo de colocação foi uma enorme trapalhada, cheio de incidentes, falhas de orientação, falhas no sistema informático de suporte, informação contraditória, etc., etc. É também certo que alguns directores terão feito umas interpretações "elásticas" dos critérios que iam sendo estabelecidos e que o processo está inquinado, em alguns casos ainda não terminado e em averiguação de eventuais ilegalidades. Mas, com os diabos, também não é razão para virem logo protestar contra o Mnistério. O Professor Nuno Crato e as outras pessoas fazem o que podem e por acaso até são pessoas muito conhecedoras e geniais mas às vezes as coisas também não correm bem. É preciso ser tolerante, aprender om os erros e não desatar logo a protestar. Os senhores Directores de escola e agrupamentos são pessoas que têm de dar bons exemplos aos alunos, aos professores e aos pais, não podem também ser uns protestantes.
E ainda por cima não resolvem nada, que chatice.

OS LIMITES DA DIGNIDADE HUMANA

Começa a ser difícil encontrar alguma racionalidade em muitas das decisões do Governo nestes conturbados tempos.
Às continuadas exigências de todos os quadrantes de que a austeridade, tal como consta no negócio ruinoso assinado com a troika, a que de forma sádica chamam de programa de ajuda ou resgate, se opere mais pelo lado da despesa que através da receita, o Governo tem decidido em sentido contrário promovendo o crescimento da receita através de um sucessivo, brutal e insustentável  aumento de impostos.
No entanto, ontem avançou com uma proposta de corte na despesa. Assim, o Governo propõe um corte de 10 % nos valores mínimos do subsídio de desemprego, de 6 % no Rendimento de Inserção Social e de 2,25 % no Complemento Solidário para Idosos.
Como certamente alguém no Governo saberá, as pessoas atingidas por esta medida são justamente os mais pobres e excluídos da nossa sociedade. Já sei, não precisam de dizer, que, sobretudo no RSI se verificam ainda situações de fraude. Certo, mas são, obviamente, uma minoria o que não sustenta a ideia de o reduzir.
Esta proposta é apenas mais um exemplo da delinquência ética de muitas das decisões tomadas neste âmbito. Acentuam desigualdades, não têm rigorosamente nada a ver com equidade na repartição de sacrifícios, são de uma insensibilidade criminosa. Como disse no início, podemos estar perante decisões com as quais não concordamos mas entendemos porque são tomadas. No entanto, esta última proposta é algo em que nem se consegue perceber do ponto de vista racional o alcance da medida, até pelo seu impacto económico e orçamental.
O presidente da União das Misericórdias alerta para a imperiosa necessidade de que o Governo "respeite os limites da dignidade humana".
É justamente esta a questão essencial, o respeito pelos limites da dignidade humana. As pessoas atingidas por estas medidas vão viver de quê e as pessoas que tomam estas decisões são feitas de que matéria?
Estamos no fundo.

EM PILOTO AUTOMÁTICO

É com relativa frequência que usamos a expressão piloto automático significando a realização de algo ou de um comportamento que já executamos sem grande esforço ou atenção, trata-se de uma tarefa tão familiar que a realizamos de forma “automática”.
Na verdade existem muitos aspectos e comportamentos na nossa vida pessoal, social, profissional, etc, que executamos em “piloto automático”. Ainda bem que o fazemos porque nos cria mais disponibilidade para atentar e pensar no enorme conjunto de decisões que necessitamos de tomar e para as quais é exigido tempo, análise, flexibilidade, informação diferenciada, antecipação de consequências, etc., etc., que não compatíveis com a atitude de “piloto automático”.
No entanto, é com inquietação crescente que me parece que cada vez mais tendemos a viver em piloto automático, seja numa perspectiva mais pessoal, seja numa dimensão mais colectiva. Vejamos alguns exemplos, apenas alguns, sem nenhuma ordem de importância, apenas a ordem da lembrança.
Achamos que devemos ensinar e avaliar os miúdos, todos os miúdos da mesma maneira, ao mesmo ritmo, ou seja, em piloto automático.
Decidem-se as políticas que se executam, custe o que custar, sem flexibilidade, sem atenção às consequências, ou seja, executam-se em piloto automático.
Entendemos as nossas ideias e valores como os definitivos e indiscutíveis, não nos questionamos e fugimos das dúvidas, ou seja, funcionamos em piloto automático.
As nossas relações pessoais, mesmo dentro da estrutura familiar, com alguma frequência e por muitas razões, decorrem de forma absolutamente rotineira, sem chama, ou seja, em piloto automático.
A exclusão e a pobreza banalizaram-se, tornaram-se transparentes, cruzamo-nos com estas situações e nem as “vemos”, ou seja, andamos em piloto automático, nem precisamos de olhar, ver.
Para muitos de nós o quotidiano, mais pesado ou mais leve, é um calendário que apenas emergem os dias em que não trabalhamos, mas que também decorrem da mesma forma, com os mesmos gestos, as mesmas falas ou silêncios, sempre da mesma forma, ou seja, em piloto automático, traduzido num "cá vamos", envolvido coreograficamente num encolher de ombros.
Na verdade, como é sabido, os dispositivos de pilotagem automática foram inventados para facilitar a vida das pessoas e viver a vida em piloto automático é muito mais fácil. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

EDUCAÇÃO, INVESTIGAÇÃO E DESENVOLVIMENTO

Um grupo muito significativo de bolseiros de investigação, cerca de 3200, assinou uma carta aberta dirigida ao Ministro da Educação e da Ciência contestando o novo Estatuto do Bolseiro que, do seu ponto de vista, alimenta a precariedade e diminui a qualidade das condições gerais para o seu trabalho de produção científica.
Conheço pessoalmente muitos casos de jovens (e não só), altamente qualificados, que têm como expectativa de vida saltitar pela sobrevivência de projecto em projecto, gerindo os atrasos e as alterações, desempenhando muitas vezes tarefas que não deveriam ser suas, ou integrarem o contingente dos 100 000 jovens que anualmente “fogem” do país correndo atrás de um futuro que aqui lhes é negado. O peso da educação no próximo OGE será abaixo do verificado em 2010 o que é sintomático, embora deve dizer-se que a ciência e o ensino superior têm um aumento previsto de 5 % face à estimativa de despesa real deste ano.
Acresce neste cenário que depois da Direcção do Técnico admitir a impossibilidade de um funcionamento normal, também o Reitor da Universidade do Algarve afirma não poder assegurar o seu normal funcionamento durante 2013. Nesta situação existem ainda outros estabelecimentos de ensino superior.
Curiosamente esta posição dos bolseiros e esta informação sobre a asfixia do ensino superior surge quando é conhecida uma tomada de posição de 42 personalidades com Prémios Nobel, alertando as autoridades da Comissão Europeia para os riscos do desinvestimento na ciência.
Está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.
Como em quase tudo é uma questão de escolhas e prioridades de quem lidera. 

PRECÁRIA DE VIDA

Na imprensa de hoje pode ler-se que segundo dados da Comissão Europeia, Portugal terá cerca de 260 000 jovens entre os 15 e 29 anos que não estudam, não trabalham e nem estão a receber formação, a designada situação “nem, nem”. No entanto, dados de há meses do INE referiam 314 000 jovens nesta situação.
Este cenário não é mais grave porque 100 000 jovens, sobretudo qualificados, estão a sair do país, emigrando para outras paragens e tem um custo brutal, cerca de 2 700 milhões de euros, 1,57 % do PIB.
Acresce que de acordo com um Relatório da Organização Internacional do Trabalho em 2011, 56 % dos jovens portugueses com trabalho têm contratos a prazo. Há algum tempo uma informação do Banco de Portugal referia que em cada dez empregos novos para jovens, nove são precários. Por outro lado, a taxa de desemprego entre os mais novos está acima dos 35.5 %, a terceira taxa mais alta da UE.
Segundo um estudo da CGTP, 51% dos jovens com menos de 25 anos ganha menos de 500 € e 24,5% dos jovens entre os 25 e os 35 recebe também menos de 500 €. Este cenário evidencia a enorme precariedade do trabalho e baixa qualificação do mesmo.
A precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Por outro lado, as políticas de emprego em curso incluem maior flexibilização das relações laborais o que, naturalmente, é coerente com os ventos neo-liberais e o endeusamento do mercado que tudo permite, incluindo roubar a dignidade às pessoas e promover exclusão.
Deste cenário e dos números do desemprego, resulta que os mais novos à entrada no mercado de trabalho são os mais vulneráveis ao desemprego e à precariedade quando, apesar das dificuldades, acedem a algum emprego.
Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem, obviamente, sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão, os indicadores mostram-no, o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se repercutem no inverno demográfico que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira profissional.
No entanto, um efeito muito significativo mas menos tangível desta precariedade no emprego, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no seu todo e que, com alguma frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, está a instalar-se, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra saída motivadora e que recompense.
Este problema que não é um exclusivo português, longe disso, exige uma visão e um conjunto de políticas que não se vislumbram e cuja ausência compromete a construção sustentável do futuro.
Podemos estar perante a tragédia das gerações perdidas de que há algum tempo se falava.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

OS FUTUROS. Outro diálogo improvável

Boa tarde, Maria, venho tão cansada.
Boa tarde Sra. Dra. Está mesmo com um ar cansado.
E a Maria parece triste, passa-se alguma coisa?
É o meu Mário. A Sra. Dra. sabe, ele não é bom aluno, já perdeu o ano duas vezes e lá na escola disseram-me que o queriam pôr numa turma diferente, assim para aprender uma profissão.
Mas isso é bom Maria, ela aprende uma profissão e pode ter uma vida boa. Se não gosta de estudar ...
Pois é Sra. Dra. mas eu gostava tanto que ele estudasse. Eu e o pai, a gente farta-se de trabalhar para ver se ele e a irmã estudavam e tirassem um curso. Nós não estudámos e gostávamos que os nossos filhos fossem alguém.
Ora Maria, para ser alguém não é preciso ter estudos. Aprende uma profissão e pode ganhar um dinheirão. A Maria não vê o que qualquer pessoa pede para vir aqui a casa arranjar qualquer coisa, às vezes é demais.
Eu gostava que o meu Mário fosse assim como o filho da Sra. Dra., o Martim é muito bom aluno e vai estudar até tirar um curso.
É verdade, o Martim é muito bom aluno. Também anda numa escola fantástica, muito boa. É verdade que é cara, mas ele tem muito bons resultados.
Pois é, eu gostava que o meu Mário fosse assim.
A Maria sabe que as crianças não são todas iguais e o Martim sabe que tem de estudar. O pai já lhe disse que precisa dele na empresa para colaborar na direcção. Felizmente que o Martim está a fazer como nós desejamos.
É assim a vida, ela não é sempre como nós gostamos. Olhe Sra. Dra. se o Mário se fizer uma pessoa séria já fico contente. Com tanta desgraça que se vê por aí.
...

E SEGUE A DANÇA DAS CADEIRAS

Com a maior das "surpresas" Luís Filipe Menezes anunciou há umas semanas ser candidato à Câmara do Porto. Estando impedido de concorrer de novo a Gaia e Rui Rio, pelas mesmas razões, impedido de concorrer ao Porto, a que acresce o enorme espírito de missão e sacrifício de Menezes e a nunca escondida apetência pela liderança da Invicta, Menezes não resistiu ao apelo, ninguém o agarrou e pronto, é candidato a transformar o Porto numa das mais endividadas autarquias do país como conseguiu com Gaia. Ao que parece, o desinteressado espírito de missão do Dr. Menezes não convenceu CDS, o habitual parceiro de coligação do PSD no Porto que acaba de anunciar que não apoia esta candidatura. A coligação também por aqui está a tremer e mesmo dentro do PSD não é consensual a aceitação do missionário Menezes.
À medida que se aproxima o período de lançamento das próximas autárquicas, os aparelhos da partidocracia vão definindo estratégias de regulação da dança das cadeiras. Devo confessar que acho um espectáculo absolutamente deprimente e despudorado que também pode ilustrar-se com a contratação em final de época, por parte da estrutura concelhia do PSD de Oeiras, do Dr. Moita Flores, um conhecido entertainer e escritor medíocre, criminólogo, comentador televisivo, etc., etc., e também presidente da Câmara de Santarém na qual também consegiu um excelente nível de endividamento. Não se conhecem os valores do contrato, mas sabe-se que, obviamente, Moita Flores é um profundo conhecedor do concelho vizinho de Santarém, o de Oeiras, pelo que se percebe a bondade e acerto da escolha.
No entanto, exemplos destes são muito comuns.
Há tempos a imprensa referia, apesar das eleições ainda virem longe, que o PSD se prepara para, apesar da oposição do CDS, aprovar a “clarificação” legal que permite que um cidadão que já cumpriu três mandatos à frente de uma estrutura autárquica possa concorrer … a outro município. A jogada manhosa prendia-se, pelo menos, com a intenção já explícita de apresentar o “action man”, Dr. Luís Filipe Menezes, que já não pode concorrer a Gaia, à Câmara do Porto, dado que Rui Rio também já está no fim do “contrato” dos três mandatos. Evidentemente que não é caso único, há umas semanas ouvi o senhor presidente da Câmara de Vila Nova de Poiares, o Sr. Jaime Soares, também conhecido pela sua ligação ao universo dos bombeiros, já impedido de concorrer ao mesmo município, admitir a possibilidade de se candidatar a Coimbra. São uns empreendedores, sempre a bombar.
De acordo com o quadro legal, para esta mudança normativa o PSD não precisa dos votos do CDS, basta que um dos partidos da oposição se abstenha.
Aqui surge a posição do PS em que, por exemplo, Francisco Assis é absolutamente fiel ao espírito da lei, a renovação política, o combate à eternização no poder, mas desconhece-se a posição que virá a ser adoptada por António José Seguro. Em todo o caso, também no PS há quem já vá afirmando que não vê “qualquer razão para que um autarca que atinja um limite de mandatos numa autarquia não possa candidatar-se a outra”, o que também não estranho. Por coincidência e só para exemplo, o PS tem um autarca em fim de mandato em Loures, Joaquim Raposo, que entende como uma boa candidatura para disputar a Câmara de Sintra a Fernando Seara, se este, entretanto, não se “interessar” pela Câmara de Lisboa. É um susto a dança das cadeiras.
E é assim que esta choldra, como diria o eterno Eça, funciona. A lei é clara na sua intenção e formulação mas, como sempre, se não serve os interesses partidários de ocasião, muda-se a lei, é simples e aparentemente barato. No entanto em termos de saúde ética da nossa vida cívica o preço deste pântano é altíssimo.
O despudor e a partidocracia capturaram e debilizaram a qualidade da democracia e confiança e envolvimento cívico dos cidadãos.
Este é, também, uma dimensão enorme da crise, das crises.

A PERVERSIDADE DA PROLETARIZAÇÃO DA ECONOMIA

Em Julho noticiava-se, se estão recordados, que existiriam cerca de 147 mil trabalhadores a receber menos de 310 €, relembro que o salário mínimo é 485 €,  e na altura o Primeiro-ministro considerou "perverso" o recurso a trabalho temporário, reportando-se ao caso da contratação de diferentes técnicos, enfermeiros e médicos, para desempenho de funções no SNS. Como é conhecido, esta é uma situação que não existe apenas o âmbito da Saúde. Existem, por exemplo, muitos professores a trabalhar nas chamadas Actividades de Enriquecimento Curricular pagos pelas Câmaras Municipais por valores semelhantes.
Hoje a imprensa faz eco da existência de docentes universitários, em estabelecimentos de ensino superior privado e também públicos, cujo pagamento por hora de aula é de cinco euros ou menos, sendo que alguns ainda terão que assegurar a preparação das aulas e avaliações sem remuneração acrescida. Os cincos euros por hora parecem ter-se transformado na unidade de conta dos salários neste processo de empobrecimento e proletarização da nossa economia empreendido pelos feitores da troika que nos governa e afunda.
Importa contextualizar as relações laborais num universo com mais de 16% de desemprego, 36,2% de desemprego jovem e a segunda mais alta taxa de precariedade da Europa.
A estabilidade no mundo laboral é espelhada num léxico que só de ouvir embaraça. São frequentes as referências a excedentários, as pessoas são excedentárias, não fazem falta, há que libertar o mercado desse peso, o das pessoas excedentárias. Um outro termo é o trabalho precário, flexível, dizem, que torna precária uma vida sem a confiança no amanhã.
Também me parece curiosa a ideia de rescisão amigável que, amigavelmente é claro, manda milhares para o desemprego. No fundo, as pessoas deixam de ser pessoas, são activos que como tal devem ser geridos em função do mercado, adquirem-se, dispensam-se, descartam-se, gerem-se e, finalmente, abandonam-se.
Neste cenário, os desequilíbrios fortíssimos entre oferta e procura em diferentes sectores, a natureza da legislação laboral favorável à precariedade e insensibilidade social e ética de quem decide, promovem a proletarização do mercado de trabalho mesmo em áreas especializadas.
Alguns dos vencimentos que se conhecem, atingindo também camadas altamente qualificadas, não são um vencimento, são é um subsídio de sobrevivência. É exactamente a luta pela sobrevivência que deixa muita gente, sobretudo jovens sem subsídio de desemprego e à entrada no mundo do trabalho sem margem negocial, altamente fragilizadas e vulneráveis que entre o nada e a migalha "escolhem amigavelmente" a migalha". Como é evidente esta dramática situação vai de mansinho alargando e numa espécie de tsunami vai esmagando novos grupos sociais e famílias que se julgavam razoavelmente protegidas nos seus empregos e salários.
E um escândalo. Grave e dramático é que as pessoas são "obrigadas" a aceitar. Os mercados sabem disso, as pessoas são activos descartáveis.

domingo, 21 de outubro de 2012

PREVISÕES

Há pouco, ao finalizar a leitura diária do jornal, hábito que não dispenso por mais apostas que possam ser feitas na actualmente imprescindível versão on-line, parei os olhos, creio que como quase toda a gente, nas previsões dos astros ou cartas, para o efeito tanto faz.
Ainda bem que o fiz, espera-me uma semana fantástica, o que aquietou a expectativa de uma semana comprida, preenchida e mergulhada num clima pouco saudável que nos desespera e corrói.
Em síntese e só para que percebam a minha entusiasmante satisfação com o que me aguarda leiam, "Conseguirá profundas e sólidas evoluções".
Vou estar muito atento aos próximos dias e tentar fazer a minha parte. Depois conto-vos sobre as minhas "profundas e sólidas evoluções".
Se se confirmarem, como espero com a mais profunda convicção, desencadeio de imediato uma petição on-line, uma campanha no Facebook, outra aqui no Atenta Inquietude, em todas as redes sociais, virtuais ou nem por isso, enfim, em tudo o que possa servir de divulgação da ideia de substituir de imediato os construtores de previsões que nos governam, não acertam uma. Por mais estudos que tenham, por mais geniais que sejam, por mais competentes que se assumam, não acertam uma, é falhanço atrás de falhanço em todas as previsões que se atrevem a enunciar.
Quantas vezes não previram "sólidas evoluções" e o resultado é "apenas" o contrário, involução.
Bom, recordando uma velha e icónica música de Roberto Carlos, o Calhambeque, tenho de ir andando, existem mil coisas fantásticas à minha espera, tudo por causa das previsões.

PÁ, DEIXAR O CARRINHO NO PARQUE É UM BALÚRDIO E NÃO DÁ JEITO NENHUM

No Domingo dia destinado ao descanso nas nossas agendas mal parece falar de produtividade mas, desculpem lá, é só uma nota pequenina.
Os funcionários da Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa - EMEL, aquela rapaziada que aparece sempre onde não deve, quando não deve, só para nos arreliar, têm tido um modelo de construção do seu salário de que faz parte um acréscimo por zelo, ou seja, por produtividade, como agora se diz.
Tal modelo incentivava os fiscais a tornarem-se, por assim dizer, menos amigáveis para com o cidadão lisboeta. Carrinho em cima do passeio, é carrinho rebocado e quanto mais melhor. Carrinho deixado em frente à placa "Proibido estacionar" é carrinho multado. Carrinho sem o ticket com o horário ajustado e a tarifa paga, é carrinho multado, carrinho deixado em segunda fila, é carrinho rebocado. E mais nada.
Ao que parece esta zelosa rapaziada que estava a fazer pela vida, mais serviço, mais ordenado, teve azar, multaram indecentemente  algumas figuras que não deviam, gente ligada à própria autarquia e até, imagine-se, tiveram a atrevida ousadia de se meterem com o Dr. Miguel Sousa Tavares, ainda por cima, ao que parece, em situações de excesso de zelo. Das duas uma, ou os incomodados não estavam a prevaricar e é estranha a multa, ou os incomodados estavam a prevaricar mas era pouco e por pouco tempo e eles, malandros caça multas logo viram ali mais uns euros de ordenado que, tal como o nosso, tem vindo a encolher e pumba, não perdoaram. Que malandragem.
É claro que as pessoas incomodadas não gostaram e apresentaram as suas inquietações a quem de direito, o vereador responsável.
Ainda bem que o fizeram,  Senhor Vereador Nunes da Silva insurgiu-se contra tal situação, o acréscimo de ordenado por produtividade, número de multas e carros rebocados, e acabou com tal desvario.
Não sei como irão reagir os funcionários da EMEL. Por um lado, o respeito pela sua função e respeito pela deontologia sugere que actuem quando entendam que tal se justifica. Por outro lado, podem começar a formular um juízo arbitrário sobre quem, estando em prevaricação, deve, ou não, beneficiar da sua benevolência e generosidade, sobretudo gente conhecida não vá a coisa complicar-se. Ainda uma terceira hipótese, estando o ordenado garantido e definido sem relação com a produtividade, podem adoptar uma atitude negligente e laxista provocando um abaixamento das receitas da autarquia.
É um problema, havendo tanta gente  fazer o que quer, como quer, porque é que nós, lisboetas motorizados, não podemos deixar os carrinhos onde precisamos sem estar com medo das multas ou, pior, de ter que ir levantar o carrinho e gastar uma pipa de dinheiro. Se todos dermos um jeitinho, a coisa funciona bem, temos que ser uns p'rós outros. Andamos armados em estrangeiros, uns tótós que têm a mania de deixar os carros só onde podem.

OS ESTUDOS DO ESTADO E A AJUDA DA TROIKA

Depois de ver a imprensa de hoje, no caso o CM, percebi melhor a afirmação de Vítor Gaspar quando afirmou estar no Governo para retribuir o investimento enorme que o Estado realizou na sua educação, nos seus estudos. Ao que parece continua a realizar, Orçamento Geral do Estado para 2013 contempla uma verba de 86 milhões de euros para a execução de estudos. É obra. Por outro lado, com tanto dinheiro investido nos estudos já era altura de se ter aprendido alguma coisa, ou é cabulice ou dificuldades de aprendizagem.
Também me pareceu curiosa a informação constante no I de ontem, em 1ª página, de que a Troika cobra juros a Portugal por verbas não utilizadas. Ainda bem que se trata de um Plano de ajuda, se fosse um negócio ainda estaríamos em pior situação.
Obrigado senhores da Troika pela vossa desinteressada ajuda cá aos lusitanos, como já deram por isso, somos bons alunos e cumpridores.

sábado, 20 de outubro de 2012

ESCUTA-SE DE MENOS

A agenda dos últimos dias volta a contar com um dos seus temas mais recorrentes, as escutas. Na verdade com uma regularidade impressionante vamos sendo bombardeados com episódios de escutas, envolvendo as mais diversas pessoas e em diferentes circunstâncias. Agora chegou a vez a essa personagem chamada Miguel Relvas, mais conhecido pelo “Dr.” e também tocou a Passos Coelho ser escutado, algo que ele bem quereria, noutras circunstâncias, evidentemente.
Sempre que estas coisas são faladas, emergem opiniões sobre as escutas e a excessiva facilidade com que se produzem. Confesso que também eu, que procuro estar atento e inquieto, me sinto preocupado.
A minha preocupação advém do entendimento de que, contrariamente ao discurso mais generalizado, me parece que se escuta de menos. Diria mesmo que enquanto sociedade e considerando sobretudo os tempos actuais, apresentamos um sério problema de surdez, não escutamos. De forma mais adequada, poderíamos até dizer que revelamos o que se chama uma surdez selectiva, só escutamos o que queremos. Vejamos alguns, só alguns, dos nossos problemas de escuta.
Existem milhares de pessoas cuja voz que ninguém escuta. Os últimos tempos têm sido bem elucidativos sobre o não escutar da voz das pessoas. É certo que muitas nem voz têm. No entanto, em alturas como campanhas eleitorais fica bem escutá-los, de passagem é claro, sempre poderão render uns votos.
Escuta-se pouco os velhos sós, que vivem isolados e que sobrevivem com pensões de miséria.
Continuo a achar que existem demasiados putos que, por mais alto que gritem, ninguém os escuta.
Sabemos dos milhares de crianças maltratadas e de mulheres vítimas de violência a que damos pouca escuta.
É preciso escutar milhares de desempregados sem acesso a subsídios de desemprego ou a outras formas de apoio.
E que dizer de milhares de jovens com dificuldades enormes para entrar no mercado de trabalho e que vêem comprometida a possibilidade de um projecto de vida.
A insensível e delinquente incapacidade de escuta de muitos políticos face à realidade difícil em que muitas famílias vivem é assustadora.
É preciso escutar os milhares de pessoas sem médico de família e em listas de espera intermináveis para a prestação de cuidados de saúde.
É necessário escutar os injustiçados por um sistema de justiça caro, ineficaz, moroso e desigual.
Como vêem, contrariamente, às vozes que clamam contra a existência ou o excesso de escutas, mantenho a convicção de que cada vez se escuta menos.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A HISTÓRIA DO RAPAZ CHAMADO TEMAMANIAQUÉESPERTO

Era uma vez um rapaz chamado Temamaniaquéesperto. Tinha catorze anos e as pessoas não simpatizavam muito com ele. O Temamaniaquéesperto fazia questão de ter opiniões e ideias sobre qualquer assunto que estivesse em discussão. Além de ter e expressar as suas opiniões, estas, frequentemente, não eram coincidentes com as da maioria. Nessa altura, o que muitas vezes acontecia, o Temamaniaquéesperto conseguia utilizar mil e um argumentos para, persistentemente, defender os seus pontos de vista, sem desistência.
Como é de prever, este comportamento exasperava as pessoas que pouco a pouco se foram afastando do Temamaniaquéesperto. Todas as conversas que estivessem a acontecer diluíam-se imediatamente sempre que ele se aproximava e, com ele presente, o silêncio passou a ser regra. O rapaz começou sentir-se distante e, finalmente, só. Esta situação foi-se tornando insustentável para alguém que precisava desesperadamente da relação com os outros para se sentir bem.
Uma noite, mais uma sem dormir, pensou descobrir a solução, o que aliás era de esperar em alguém que sempre tinha ideias. A partir da manhã seguinte, devagarinho, começou a concordar com tudo o que ouvia. Opiniões ou ideias, todas repetia e todas apreciava.
Como ele previra tudo mudou. As pessoas que antes o rejeitavam, passaram a mostrar o maior dos apreços pela sua presença e, algumas, até achavam que ele em vez de se chamar Temamaniaquéesperto deveria chamar-se Inteligente.
E, assim, viveu infeliz para sempre.

PORTUGAL HIGH TECH

No meio da atribulação angustiante destes dias de chumbo é sempre reconfortante algo de positivo.
Segundo dados hoje divulgados numa Conferência realizada em Lisboa, apesar das dificuldades económicas os portugueses continuam a apostar nas novas tecnologias.
Manteve-se estável a percentagem de cidadãos com telemóveis, os muito bons 97%, aumenta o uso de iPad, de PCs portáteis, do consumo de internet móvel, bem como de outros equipamentos do domínio do audiovisual na área do entretenimento.
Ainda bem, fiquei satisfeito. Foi bom saber que mesmo em tempos de crise a nossa sociedade não abdica da comunicação e da comunicação com meios bastante mais actualizados.
Se associarmos a esta frenética e enorme adesão aos telemóveis, ao uso em crescimento da net e todas as suas possibilidades de comunicação incluindo as redes sociais, dificilmente teremos um minuto em que não estejamos em contacto com alguém, algures.
Só não percebo a razão porque me parece que as pessoas vivem, de uma forma geral, cada vez mais sós no meio de tão sofisticada tecnologia.

HOJE, A IMPRENSA É A NOTÍCIA

A imprensa é hoje notícia. Ao que parece, um grupo angolano vai comprar, entre outros títulos, os históricos Diário de Notícias e Jornal de Notícias para além da TSF. Os trabalhadores da Lusa estão em greve como protesto contra decisões da tutela que, do seu ponto de vista, para além de implicações profissionais, se reflectirão na qualidade e no direito à informação. Finalmente, os trabalhadores do Público também cumprem hoje greve contra o plano de restruturação apresentado pelo acionista que, afirmam, comprometerá o projecto de qualidade jornalística.
É recorrente, não só em Portugal, a questão da sobrevivência da imprensa e, naturalmente, da sua independência face aos poderes, político e económico, designadamente. Sabemos das tentativas de controlo político da imprensa, há pouco tempo ocorreu o deplorável episódio envolvendo o Público e o Ministro Miguel Relvas, como também sabemos da eventual agenda implícita dos investimentos dos grupos e poderes económicos na imprensa, veja-se os investimentos angolanos na comunicação social em Portugal.
Por outro lado, a evolução do próprio mundo dos jornais, a evolução exponencial do universo do on-line, a conjuntura económica inibidora de gastos das famílias em bens “não essenciais” e, caso particular de Portugal, o baixo nível de hábitos de leitura e consumo da imprensa escrita, produzem dificuldades de sobrevivência de títulos de qualidade, chamados de referência, abrindo caminho à chamada imprensa tablóide que, apesar das oscilações, se mantém relativamente saudável, o que se entende. São também tablóides os tempos.
Como leitor de jornais desde muito novo, é sempre com inquietação que leio estas notícias. Numa entrevista ao Público de há algum tempo, um especialista, Tom Rosenstiel afirmava que se o jornalismo, (os jornais), deixar de ser rentável e, como tal, corra o risco de desaparecimento, as democracias poderão sofrer um "cataclismo cívico". Creio que a cidadania de qualidade exige uma imprensa não só voltada para o imediatismo da espuma dos dias e acredito que apesar das mudanças em tecnologia e das incidências do mercado a que os jornalistas e os jornais deverão adaptar-se, os jornais em papel são como os dias, nunca acabam. Se forem jornais, bons jornais. Quando escrevo sobre estas matérias recordo-me sempre de jornais e jornalistas que me têm acompanhado ao longo da vida e que me fazem manter leitor diário de jornais em papel. É que, apesar de também consumir informação noutros suportes, não é a mesma coisa.
Sem a preocupação de ser exaustivo ou seguir qualquer ordem que não seja a memória, algumas referências que estão dentro da minha mochila. Quando era miúdo aguardava com a maior das ansiedades que o meu pai chegasse do trabalho no Arsenal do Alfeite para trazer a Bola já lida por muitas mãos e onde se "aprendia" a ler com o Vítor Santos ou o Aurélio Márcio.
Lembro-me como a adolescência e juventude ficaram ligadas a títulos como o Comércio do Funchal com Vicente Jorge Silva, o Jornal do Fundão com o António Paulouro ou o Notícias da Amadora, janelas, frestas, por onde se espreitava a realidade que um regime espesso e fechado teimava em esconder e censurar.
Recordo com saudade o Diário de Lisboa com o suplemento A Mosca com Luís Sttau Monteiro ou as ilustrações do Abel Manta ou o Diário Popular com o Baptista Bastos que ainda anda por aí. A circunspecção formal e competente do Diário de Notícias com Mário Mesquita e o outro Mário, o Bettencourt Resendes ou a inovação e agitação trazida pelo Independente de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. Não esqueço a abertura possível verificada com a "ala liberal" de Pinto Balsemão ou Sá Carneiro ligada ao Expresso que mexeu seriamente com o jornalismo em Portugal. Relembro o espaço que o Jornal de Letras veio ocupar com José Carlos Vasconcelos.
Finalmente, o registo do aparecimento do Público, um companheiro com quem me zango tantas vezes mas que continua a entrar diariamente cá em casa na versão papel.
A imprescindível sobrevivência dos jornais, dos bons jornais, garante-se na escola, nos hábitos de leitura, na educação. Na cidadania.