AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

quarta-feira, 30 de junho de 2010

NOVAS OPORTUNIDADES NO SUPERIOR?

Na tomada de posse do novo Reitor da Universidade do Porto, o Ministro Mariano Gago recordou a imperiosa necessidade de promover a qualificação de nível superior dos portugueses. Sabemos que temos metade da média europeia de licenciados. Não parece pois estranho, antes pelo contrário, que se aposte fortemente neste processo de qualificação, repito, qualificação.
Dito isto, lamento mas devo ser dos poucos cidadãos portugueses que não consegue entender como é que o estabelecimento de um contrato de confiança, na altura da assinatura questionei-me se não seria um contrato de desconfiança, vai promover em quatro anos 100 000 novos licenciados para podermos apanhar o comboio estatístico europeu. O Ministro Mariano Gago aconselha aulas ao fim de semana, à noite, em regime não presencial e outros dispositivos de que as universidades se lembrem para chegar aos 100 000.
Tenho a maior das desconfianças sobre este processo e lembro-me repetidamente do que se passa com o Programa Novas Oportunidades que, insisto, assentando num bom princípio e objectivos, rapidamente derrapou para uma cruzada estatística confundindo inaceitavelmente qualificação com certificação.
Temo que no ensino superior também se enverede por este rumo, estatística “oblige”. Imagino que se possam certificar 100 000 pessoas em quatro anos com o grau de 1º ciclo, licenciatura, ou mesmo 2º ciclo, mestrado, mas duvido que se qualifiquem, de facto, essas pessoas.
Este discurso não tem a ver com qualquer espécie de elitismo relativo ao acesso ao ensino superior. Remete exclusivamente com a imperiosa necessidade de pessoas qualificadas e não de pessoas com um papel debaixo do braço onde conste uma certificação de uma habilitação e competência que, em muitos casos, ficarão longe de possuir.
Se assim for, é grave.

O AR CONDICIONADO

Quando chega um calor mais áspero com diz o Velho Marrafa lá do meu Alentejo, a minha consciência ecológica fica pesada pois deixo-me tentar, quando posso, pela frescura do ar condicionado. Procuro descansar a culpa com a pouco habilidosa ideia de que não simpatizo com fundamentalismos.
No entanto, se olharmos com alguma atenção para o que gira à nossa volta, repararemos que o ar nem sequer é o que de mais condicionado temos.
O acesso à saúde em tempo útil está para muita gente condicionado à sua disponibilidade económica o que também se verifica, aliás, com o sistema de justiça que evidencia uma administração de justiça condicionada ao estatuto económico e social do cidadão envolvido.
Existem milhares de miúdos e adolescentes com o bem-estar condicionado por maus tratos ou negligência de origens diversas.
O envolvimento cívico dos cidadãos está fortemente condicionado pelas regras definidas pela partidocracia vigente que dificilmente aceita iniciativas fora da tutela dos aparelhos e interesses partidários.
Os níveis de bem-estar e desenvolvimento da maioria é claramente condicionado pelos modelos económicos e de desenvolvimento que privilegiam os interesses de uma minoria.
Como vêem, o ar condicionado, não é o único bem que temos condicionado, é fresquinho e logo haviam de descobrir que é um atentado ecológico.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A "MANUALIZAÇÃO" DO ENSINO

De acordo com o Público de hoje, prevê-se que o custo dos manuais escolares possa sofrer um aumento superior à inflação o que nos tempos que correm não pode deixar de ser uma má notícia para muitos agregados familiares. Sabe-se também que ao abrigo da PEC se verificaram ajustamentos nas regras e destinatários dos apoios sociais escolares e temos cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza e um terço das famílias a viver mesmo encostadas a esse limiar, como ontem foi noticiado.
Também sabemos que o investimento individual, familiar e institucional na educação é um investimento no futuro e, naturalmente, os investimentos têm custos que devem ser repartidos, tanto quanto possível de forma justa e na defesa intransigente da qualidade da escola pública mas como muita gente diariamente dá por isso o nosso modelo social, económico e também o sistema educativo não é justo.
A questão dos manuais escolares é complexa e muito importante, é um nicho de mercado no valor de muitos milhões. Depois da abolição do execrável livro único de natureza totalitária e da proliferação de manuais aos milhares parece ter-se entrado numa fase de alguma estabilidade e, sobretudo, da necessária qualidade, ainda que insuficientemente regulada.
No entanto, do meu ponto de vista, importa questionar não só o papel dos manuais mas, fundamentalmente, da quantidade enorme de outros materiais que os acompanham e que contribuem de forma muito significativa para o aumento da factura dos custos familiares com a educação potenciando injustiça e desigualdade de oportunidades. De facto, para além de imenso material de outra natureza, temos em cada área programática ou disciplina uma enorme gama de cadernos de fichas, cadernos de exercícios, cadernos de actividades, materiais de exploração, etc. etc. que submergem os alunos e oneram as bolsas familiares, até porque muitos destes materiais não são incluídos nos apoios sociais escolares. Em muitas salas de aula verifica-se a tentação de substituir a “ensinagem”, o acto de ensinar, pela “manualização” ou “cadernização” do trabalho dos alunos, ou seja, a acção do professor é, sobretudo, orientar o preenchimento dos diferentes dispositivos que os alunos carregam nas mochilas.
Esta questão, que não me parece suficientemente reflectida nas suas implicações acaba por baixar a qualidade das aprendizagens e apesar de se promover algum controlo da qualidade dos manuais, o mesmo não se verifica com os chamados materiais de apoio o que envolve custos pesados de natureza diversa.

A HISTÓRIA DO ALUCINADO

Era uma vez um homem chamado Alucinado. Na verdade, ninguém sabia como ele se chamava, mas chamavam-lhe Alucinado e assim era conhecido.
O homem, o Alucinado, via ou ouvia, quase sempre, aquilo que mais ninguém via. Quando as pessoas falavam das coisas da sua vida, o Alucinado, descrevia as mesmas coisas mas de uma forma completamente diferente, dizia que se deixavam enganar, que as coisas não eram como eles as viam. Quando as pessoas falavam dos seus desejos e anseios afirmava que estavam manipuladas para assim pensar porque aquilo que desejavam não lhes traria felicidade.
Quando ouvia muitas pessoas a falar de como tudo estava bem, gritava que se estavam a enganar e a enganar os outros porque não estava tudo bem, antes pelo contrário, muitas coisas estavam mal.
O Alucinado olhava para o que estava à sua volta e não via o mesmo que os outros, não percebia como se poderia entender a realidade assim e gritava exasperado, chamando a atenção para a sua forma de ver a realidade. Claro que as pessoas não ligavam ao que o Alucinado dizia pelas ruas, preferiam acreditar naquilo que viam e ouviam, sentiam-se mais tranquilas.
Só um velho que falava sozinho e passava o dia a escrever versos, achava que o Alucinado era o homem mais lúcido daquela terra.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

SENTIMENTO DE COMUNIDADE

Os resultados de um estudo a divulgar hoje na Gulbenkian mostram dados interessantes sobre a nossa realidade. Sem surpresa, vai ao encontro dos dados disponíveis, cerca de um quinto dos portugueses vive em risco de pobreza e com dificuldade em pagar os compromissos. É também afirmado que 57% das famílias inquiridas vive com menos de 900 euros por mês e mais de 50% considera que o ordenado que recebe é injusto. Esta situação de dificuldade em respeitar compromissos, começa também afectar agregados familiares compostos por indivíduos escolarizados com situações precárias de emprego com rendimentos globais entre 379 e 799 euros, acima do limiar de pobreza e que representam cerca de 31% dos agregados familiares.
Apesar deste quadro complicado, os inquiridos revelam-se satisfeitos, 6 num escala de 10, e felizes, 7,3 numa escala de 10. O que me parece mais interessante é que num quadro económico bem negro as fontes identificadas dos níveis positivos de satisfação e felicidade são a família e os amigos.
Este indicador é particularmente significativo se considerarmos que temos vindo a assistir a um reordenamento das relações sociais e nos estilos de vida, e a uma dispersão das famílias no sentido da família alargada. Talvez ainda não tenhamos pedido completamente o sentimento de comunidade que considero, aliás, mais um bem de primeira necessidade.
É bom.

A HISTÓRIA DO EMPROADO

Lá naquela terra onde acontecem coisas, havia um homem chamado Emproado. Sempre assim foi chamado. Em qualquer assunto que estivesse em discussão, o Emproado envolvia-se e começando com um característico "É assim ...", que também era costume naquela terra, colocava um ponto final na discussão, ou seja, a sua ideia ou conhecimento, por definitivos e inquestionáveis, tornavam desnecessário qualquer acrescento. O Emproado, levantava um pouco mais a proa, o queixo, sorria com um ar de agradecimento pela missão de esclarecimento e partia para outra exibição. Metia-se em tudo e mais alguma coisa e com o seu ar de Emproado parecia, procurava parecer, o mais importante e imprescindível personagem da história que estivesse a acontecer.
O Emproado, no seu tom de quem tem o mundo aos pés e com a inteligência de saber a quem baixar a proa, por assim dizer, foi conseguindo ocupar pequenos lugares de poder oferecidos por quem o Emproado servia com os seus discursos, lugares que, por sua vez, alimentava com o uso dos pequenos poderes que lhe eram conferidos. Assim se cumpria a vida do Emproado.
O Emproado sentia-se o mais realizado dos homens, respeitado por todos e por todos reconhecido.
Na verdade, o Emproado não percebia que era o mais desprezado dos homens, desprezado pelos que o usavam e pelos que ele achava que o ouviam.
Mesmo naquela terra onde acontecem coisas, pouca gente gosta de Emproados.

domingo, 27 de junho de 2010

FILHOS, POUCOS E TARDE

O chamado inverno demográfico parece ter chegado para ficar. A renovação geracional exige um índice sintético de natalidade de 2.1 filhos por mulher e em 2009 verificou-se 1.32. O futuro do país não parece assim muito risonho, encaminhando-se para o estabelecimento de uma reserva onde os portugueses restantes serão objecto de programas de protecção e recuperação enquanto espécie ameaçada.
Parece ser consensual que este comportamento das famílias, o abaixamento significativo ou mesmo a inexistência de filhos, estará associado a questões económicas, a situação de crise é naturalmente desfavorável, mas, sobretudo, à alteração dos estilos de vida e do quadro de valores ao que acrescentaria dimensões de natureza mais psicológica como os níveis de confiança e esperança face ao futuro.
Se as questões económicas podem ser de natureza conjuntural e minimizadas com apoios, (correctos e significativos), já me parece que as questões de valores e estilos de vida são de impacto mais significativo e de mais difícil alteração.
É conhecido, por exemplo, que as mulheres portuguesas são das que mais horas trabalham fora de casa. É conhecido que os modelos actuais de organização dos horários complicam fortemente a vida familiar. É conhecida a falta de respostas de qualidade e acessíveis à generalidade das pessoas para a guarda das crianças nos tempos laborais das famílias. O prolongamento sem fim da estadia dos miúdos na escola não é uma solução com qualidade, apesar de excelentes experiências pontuais e do empenho das pessoas envolvidas. É conhecido e afirmado por sociólogos e antropólogos que as gerações actuais parecem “amadurecer” mais tarde, o que implica alterações nos projectos de vida, que podem traduzir-se em parentalidade tardia, como o trabalho de hoje no Público ilustra, ou a não inclusão da parentalidade nesses projectos de vida.
Como referi acima, importa ainda perceber o efeito que também neste universo têm a percepção de confiança e esperança num futuro melhor. Discursos catrastrofistas e a ausência de medidas que sejam percebidas com promotoras de desenvolvimento e bem-estar acentuam a desconfiança e aumentam o receio face aos custos da maternidade.
Dada a complexidade das questões envolvidas e a importância de que se reveste o crescimento demográfico negativo, julgo que se deveria abrir um alargado debate sobre estas questões para que não fossem consideradas como uma curiosidade pouco relevante como creio que serão para muitos de nós.

sábado, 26 de junho de 2010

ESCOLAS GRANDES, ESCOLAS PEQUENAS

Como disse há algumas semanas, muitas das questões que se colocam em educação, como noutras áreas, independentemente da reflexão actual, solicitam algum enquadramento histórico que nos ajudem a melhor entender o quadro temos no momento. Durante décadas de Estado Novo, tivemos um país ruralizado e subdesenvolvido. Em termos educativos e com escolaridade obrigatória a ideia foi “levar uma escola onde houvesse uma criança”. Tal entendimento minimizava a mobilidade e a abertura sempre evitadas. No entanto, como é sabido, os movimentos migratórios e emigratórios explodiram e o interior entrou em processo de desertificação o que, em conjunto com a decisão de política educativa referida acima, criou um universo de milhares de escolas sobretudo no 1º ciclo, pouquíssimos alunos. Como se torna evidente e nem discutindo os custos de funcionamento e manutenção de um sistema que admite escolas com 2, 3 ou 5 alunos, deve colocar-se a questão se tal sistema favorece a função e papel social e formativo da escola. Creio que não e a experiência e os estudos revelam isso mesmo, escolas demasiado pequenas não proporcionam necessariamente melhores resultados. Neste quadro emerge a necessidade de redimensionar a rede de escolas.
É também verdade que muitas vezes se afirma que a “morte da escola é a morte da aldeia”. No entanto, creio que será, pelo menos de considerar, que os modelos de desenvolvimento económico e social possam começar a matar as aldeias e, em consequência, liquidam os equipamentos sociais, e não afirmar sem dúvidas o contrário.
Por outro lado, a concentração excessiva de alunos não ocorre sem riscos. Em primeiro lugar importa ponderar aspectos de natureza contextual, bem diferenciados nas diferentes zonas do país, como distância a percorrer, tipo de percurso e apoio logístico, condições obviamente importantes. Por outro lado, importa não esquecer que escolas demasiado grandes são mais permeáveis a insucesso escolar, absentismo, problemas de indisciplina e outros problemas de natureza comportamental. A perspectiva de que em resultado deste processo necessário de reordenamento da rede escolar se definam os designados mega agrupamentos com milhares de alunos e centenas de professores e funcionários, dispersos por vários edifícios ou, pelo contrário, duvidosamente concentrados, potenciando factores de risco bem conhecidos, deve ser devidamente ponderada de forma a que não se criem problemas com a solução de problemas.
Neste cenário, a decisão de encerrar escolas não deve ser vista exclusivamente do ponto de vista administrativo e económico, não pode assentar em critérios cegos e generalizados esquecendo particularidades contextuais e, sobretudo, não servir como tudo parece servir em educação, para o jogo político.
O bem-estar educativo dos miúdos é demasiado importante.

QUESTÕES DE ESTADO

Nunca como agora, nas últimas dezenas de anos, tivemos tantas preocupações da mais variada natureza. Não quero parecer excessivamente pessimista ou catastrofista, falta-me engenho e arte para poder competir com os imbatíveis Medina Carreira e Vasco Pulido Valente, mas as coisas não estão nada bem. É evidente que toda a gente procura, por um lado, encontrar explicações para os males que nos apoquentam e, por outro, encontrar os caminhos que nos levem para à melhoria.
Os portugueses tidos geralmente como um povo sério, sisudo, olham à sua volta e resumem de forma grave, cabisbaixa e derrotados, são questões de estado, é muito difícil alterar. Se bem estivermos atentos diariamente temos vários exemplos deste entendimento.
É a recorrente referência ao estado das nossas contas e ao mau estado da economia como base da crise. Toda a gente se queixa do estado da justiça, injusta e atrasada, e do estado da educação em que toda a gente grita com toda a gente.
São múltiplas as apreciações negativas sobre o estado a que a vida política chegou em Portugal, povoada de medíocres e hipotecada aos interesses dos partidos que poucas vezes parecem coincidir com os do bem comum.
Também não nos são estranhas as queixas sobre o estado, mau é claro, da nossa saúde em que até importa ter algum cuidado em saber onde se adoece e de que se adoece, não vá faltar médicos ou padecer de um problema cuja lista de espera é das grandes.
Como vêem, o espaço é breve, sobram as razões de estado para que nos não sintamos bem.
Felizmente, ao som lindíssimo das vuvuzelas caímos num breve estado de graça, devido à esmagadora vitória sobre a Coreia do Norte e à qualificação face ao país irmão, acho lindo, que nos retirou do estado miserável do nosso futebol e que, a fazer fé no estado de alma dos nossos comentadores desportivos, já nos faz imaginar campeões do mundo.
Enfim, questões de estado.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

OS DISCURSOS DA CONFIANÇA

Por diversas vezes tenho referido no Atenta Inquietude a importância de umaa dimensão psicológica, a confiança. Esta importância verifica-se em termos individuais, quando nos sentimos confiantes, sentimo-nos mais capazes, verifica-se em termos de grupo, a título de exemplo, uma equipa de futebol confiante será seguramente mais eficaz, verifica-se de forma genérica em qualquer instituição e, finalmente, poderemos também dizer que sociedades mais confiantes sentir-se-ão mais capazes de enfrentar dificuldades.
Assim sendo, parece importante que as lideranças, entre todas as suas competências e acções, sejam capazes e competentes no sentido de transmitir confiança. Acontece que as nossas lideranças, em matéria tão importante, subordinam, como sempre, as suas acções aos interesses imediatos, sobretudo partidários, ou seja, basicamente, quem governa faz discursos excessivamente optimistas, que muitas vezes parecem negar a realidade, pintando-a de rosa e quem está na oposição produz discursos e visões catastrofistas. Como é óbvio, os cidadãos têm cabeça, qualquer dos discursos por lhes não ser reconhecida credibilidade, são um péssimo contributo à confiança realista e informada que precisamos de sentir face a dificuldades e a desafios complexos.
Parece-me desejável que as lideranças entendessem esta questão que não creio, aliás, ser particularmente difícil de perceber. As recentes trocas de “opiniões” sobre a realidade portuguesa entre Governo e Presidência da República são bons exemplos do quadro que descrevi.
Para finalizar com um exemplo que transmite confiança, em 2009, um ano negríssimo, segundo o World Wealth Report, surgiram 600 novos milionários, um aumento de 6%. Convenhamos que é animador, se num ano tão complicado, produzimos umas centenas de novos milionários, imagine-se em tempos melhores.

VAIS SER UM HOMENZINHO

Nos tempos em que era miúdo, os adultos, sobretudo pais e professores, usavam com muita frequência uma expressão que de vez em quando recordo, "para ser um homenzinho" ou, na óbvia versão feminina, "para ser uma mulherzinha". Tais expressões constituíam no seu entendimento um dos grandes estímulos e incentivos ao bom desempenho escolar e, ou, ao bom comportamento definidos como requisito fundamental para se ser "alguém", um "homenzinho" ou uma "mulherzinha".
Como é evidente, para muitos de nós, tais fórmulas não eram particularmente apreciadas mas, sobretudo no que respeita a estudar, os poucos de nós que continuávamos para além da escolaridade obrigatória, percebíamos gradualmente como a escola nos leva ao futuro, ou seja, quando espreitávamos para diante, conseguia-se, com algum esforço é certo, vislumbrar lá bem à frente o "homenzinho" que poderíamos ser.
Hoje, tempos mais sofisticados ou na versão do meu sobrinho quando era pequeno, mais sofistificados, falamos de "projecto de vida" ou de "imagem criadora de futuro" algo que, mais do que nunca, é fundamental construir e perseguir.
Neste processo a escola, agora para todos, não só para alguns, tem o papel principal. Sem a escola não se chega a "homenzinho" ou a mulherzinha", não se constroem projectos de vida viáveis e positivos.
Se fizermos a experiência de inquirir adolescentes sobre o que vislumbram quando espreitam lá bem para a frente, ficamos assustados com a quantidade de nadas que obtemos como resposta. Estas nadas não são, naturalmente absolutos, são feitos de incertezas, de perplexidade e de algum receio.
Por isso a escola, não só a escola, mas muito a escola não pode falhar na sua missão central junto dos miúdos, de todos os miúdos, construir o futuro. Tal responsabilidade exige de toda a gente que proteja a escola, não destrate a escola, cuide da escola e exija da escola.
Os homenzinhos e as mulherzinhas agradecem.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

TUDO SE COMPRA E VENDE, PESSOAS TAMBÉM

Segundo o relatório do Observatório do Tráfico de Seres Humanos (OTSH), 84 pessoas foram sinalizadas no último ano em Portugal como eventuais vítimas de tráfico de seres humanos. Com alguma dramática frequência são também conhecidos casos de cidadãos portugueses que se encontram em situação de escravatura em explorações agrícolas espanholas.
Parece estranho como é possível em tempos actuais, em sociedades desenvolvidas ou consideradas como tal, a existência de tráfico de pessoas.
Este negócio, um dos mais florescentes e rentáveis em termos mundiais, alimenta-se da vulnerabilidade social, da pobreza e da exclusão o que, como sempre, recoloca a imperiosa necessidade de repensar modelos de desenvolvimento económico que promovam, de facto, o combate à pobreza e, caso evidente em Portugal, às escandalosas assimetrias na distribuição da riqueza.
As pessoas, muitas pessoas, apenas possuem como bem, a sua própria pessoa e o mercado aproveita tudo, por isso, compra e vende as pessoas dando-lhe a utilidade que as circunstâncias, a idade, e as necessidades de "consumo" exigirem.
O que parece ainda mais inquietante é o manto de silêncio e negligência com que este drama convive.

A HISTÓRIA DO RAPAZ POBRE

Era uma vez um rapaz chamado Rapaz Pobre. Era um nome um pouco estranho mas, por partida ou à procura de um destino, alguém assim tinha chamado ao rapaz.
O Rapaz Pobre pouca coisa mostrava. Nunca aparecia com brinquedos ou jogos, aliás, ele nunca aparecia com qualquer coisa como os outros rapazes tinham, além da roupa que incluía um inseparável boné por baixo do qual se abrigava das pessoas, não era muito dado a conversas.
O que se tornava mais curioso e intrigava as pessoas é que sobre qualquer coisa que perguntassem ao Rapaz Pobre, se ele queria ou precisava, a resposta era invariavelmente um envergonhado “não”, “não preciso” ou “não quero”, sempre num tom quase a pedir desculpa por existir.
As pessoas tinham dificuldade em entender porque é que um Rapaz Pobre a quem tudo parecia faltar, nada afirmava querer ou precisar. Algumas até o achavam arrogante por não aceitar ou exprimir ajuda ou necessidade.
Na verdade, as pessoas não percebiam que o Rapaz Pobre era o mais pobre dos rapazes, nem sonhos tinha.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

OS INIMPUTÁVEIS

Várias vezes aqui tenho referido os danos devastadores que causam à saúde da nossa vida cívica e política os comportamentos de muitos representantes da nossa classe política. Nem todos esses comportamentos podem ser considerados ilegais mas muitos são certamente imorais e verdadeiros atentados à ética.
Acontece que, mesmo quando os comportamentos configuram ilicitude, as condenações são raras e um manto de suave esbatimento desce sobre os envolvidos que, frequentemente, são premiados com novas colocações de que a partidocracia se alimenta e alimenta.
No plano ético o despudor está de tal modo instalado que muita gente assume com a maior desfaçatez discursos e comportamentos que verdadeiramente nos insultam, aparecendo depois com desculpas absolutamente patéticas, escudados em armadilhas legais, quando não com extrema arrogância defendendo a impossível bondade dos seus actos. Este recente episódio com o deputado Ricardo Rodrigues e a revelação hoje no CM dos vencimentos que um obscuro e pouco qualificado rapaz chamado Rui Pedro Soares obteve como administrador da PT são apenas dois de muitos exemplo.
No entanto, a maior e mais grave consequência deste despudor é a convicção que todos temos de que não acontece nada, ou seja, existe um grupo de inimputáveis a quem, façam o que fizerem, nada acontecerá.
Nada de menos saudável para a confiança em quem nos gere.

PROFESSOR E ALUNO, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

Setôra, porque é que os setôres passam TPCs?
Então Francisco, para que vocês possam aprender e melhorar o vosso trabalho.
Setôra, a Maria, o João e o Márcio aqui na aula, só com muita ajuda da setôra é que conseguem fazer alguma coisa, como é que lá em casa sozinhos vão ser capazes de fazer o TPC? Os pais deles não sabem ajudar, não estudaram.
Mas Francisco ...
Setôra, a gente pode não querer fazer o que os setôres mandam para o nosso trabalho?
Francisco, como se costuma dizer, poder podem, mas não devem. Nós sabemos que é bom para vocês.
Setôra, mas os setôres não protestam com o que o Ministério diz para fazerem no vosso trabalho?
Francisco, não é a mesma coisa, repara que ...
Setôra, quando a gente faz alguma asneira ou se porta mal com algum setôr, chamam à escola os nossos pais. Se um setôr fizer alguma asneira ou se portar mal com um aluno, a gente chama quem cá à escola?
Francisco, estás a brincar, queres ...
Setôra, os setôres são todos iguais?
Claro que não Francisco, toda a gente é diferente.
Setôra, então porque é que os setôres tratam os alunos todos da mesma forma e mandam fazer as mesmas coisas?
Francisco, o que é que andas a ler?
Nada setôra, ando só a pensar. E fico um bocado baralhado.

terça-feira, 22 de junho de 2010

POBREZA E VELHICE

Em pleno Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social sabemos de notícias que vêm ao encontro da percepção diária. Segundo o Eurostat, Portugal continua a ser o 9º país mais pobre da UE com um PIB per capita 78% abaixo da média. Dados hoje divulgados do Eurobarómetro sobre os impactos sociais da crise, mostram que os portugueses têm como preocupação fundamental dos tempos que correm a pobreza, 91% dos inquiridos, e a velhice, 69% dos inquiridos.
Se olharmos para este conjunto de dados vemos que as condições estruturais se mantêm sem alterações, estamos na mesma posição de pobreza há vários anos e, por outro lado, as condições conjunturais, a crise, acentuam a preocupação com a pobreza e com a velhice o que define um cenário altamente inquietante em termos de confiança no futuro e na desejada e necessária qualidade de vida.
Ao mesmo tempo, de há uns tempos para cá, fundamentados na imprescindível necessidade conter gastos e despesas, somos informados de cortes em dispositivos de apoio social, justamente os que poderiam contribuir para uma percepção menos negativa dos impactos sociais da crise. Já em diversas ocasiões tenho referido que sendo necessário conter a despesa pública, as políticas sociais, ainda que mais reguladas e com critérios de rigor, deveriam ser as menos penalizadas.
No entanto, continuamos a sentir que por incompetência, insensibilidade ou a vontade de manter um aparelho subserviente e garante de apoios na luta política se mantêm gastos em institutos, fundações e entidades de mais que duvidosa justificação e eficácia e se avança em medidas de corte nos apoios sociais.
Estamos a minar o futuro retirando a esperança e a confiança.

A TERRA DOS MALABARISTAS

Era uma vez uma terra, aquela terra de que às vezes falo e onde acontecem coisas, em que havia muitos Malabaristas, bons Malabaristas.
Os Malabaristas daquela terra tinham-se especializado em várias artes dentro do malabarismo.
Havia um grupo muito bom nos malabarismos com as palavras. É verdade, deixavam o povo espantado, os Malabaristas das Palavras pegavam nelas e davam-lhes tantas voltas que elas diziam uma coisa e passado pouco tempo já diziam outra, e logo depois significavam ainda outra coisa. Eram uns verdadeiros artistas com as palavras, faziam delas o que queriam para elas dizerem o que lhes apetecesse.
Havia também um grupo que fazia autênticos milagres com a verdade, com as verdades. As coisas nunca eram o que pareciam, os Malabaristas da Verdade, conseguiam que qualquer coisa que toda gente via de uma maneira fosse referida como sendo de outra. Algo que de manhã era verdade, nas mãos dos Malabaristas deixava de o ser e eles com as suas habilidades mostravam a verdade que entendiam e que depressa deixava de o ser substituída por outra verdade diferente.
Na terra dos malabaristas também existia um conjunto de Malabaristas dos Números, verdadeiros artistas a manipular números. Quando toda a gente estava convencida que os números contavam uma história simples, os Malabaristas dos Números davam-lhes umas piruetas e os mesmos números contavam outra história ou então organizavam os número de forma a contar a história que os Malabaristas queriam contar. Eram mesmo bons a mexer nos números.
O Malabaristas estavam tão convencidos da sua arte que se achavam reis daquela terra. Mas as gentes estavam mesmo fartas dos Malabaristas, de todos os Malabaristas daquela terra. Um dia os Malabaristas irão perceber.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

(DES)CONFIANÇA

Os resultados de um estudo divulgado no DN sobre os níveis de confiança dos portugueses em diferentes classes profissionais mostram que, face aos dados anteriores, não se verificam alterações significativas exceptuando a forte queda da confiança nos juízes. De resto, bombeiros, professores e carteiros são os profissionais em quem os portugueses mais parecem confiar, enquanto políticos, advogados e banqueiros acompanhados agora pelos juízes vêem a confiança em si andar pelas ruas da amargura.
É bonito sentir que os portugueses confiam genericamente em quem cuida do seu bem estar e ajuda em caso de necessidade, os bombeiros, em quem lhes constrói o futuro, os professores, cuidando do seu mais precioso bem, os filhos, e em quem lhes trás as notícias do mundo, os carteiros, provavelmente, com a secreta esperança de que sejam notícias boas.
Por outro lado, é significativo, inquietantemente significativo, que, nos que geram o nosso destino, ainda por cima por delegação cívica de nossa responsabilidade, os políticos e nos que deveriam ser os administradores e garantes dos direitos, da equidade e da justiça, advogados e juízes, a confiança é baixa, ou de forma menos simpática, a desconfiança é muita. É certo que estes grupos têm vindo a fazer um notável esforço para que a nossa confiança em si e na sua actuação atinja estes níveis. Deve dizer-se que são bem sucedidos, todos os dias temos exemplos e episódios que alimentam este sentimento.
A minha maior preocupação é que a arquitectura cívica e política que se instalou, não permite facilmente a tão necessária mudança, eles continuam sempre a perceber-se como parte da solução, quando são parte do problema.

A HISTÓRIA DOS ERRANTES

Nas escolas, em todas as escolas, existe um grupo de miúdos, sobretudo na fase da adolescência, a que podemos chamar de Errantes, não são, naturalmente, os miúdos que erram no que fazem, são aqueles miúdos que erram pela vida e pela escola numa espécie de deriva sem destino sonhado e, muito menos, com destino desejado.
Parece relativamente fácil identificar os errantes, quase sempre não têm boas notas, embora alguns, poucos, as consigam, quase sempre mostram-nos o seu Errante estado com comportamentos que nos incomodam e embaraçam, de que muitos deles também não gostam, mas que fazem questão de assumir, numa tentativa, perante si próprios, de esconder a condição de Errante e de ganharem uma identidade. Existem também alguns Errantes que parecem transparentes, transparecem tristeza, mal damos por eles de tão invisíveis.
Estes Errantes estragam as estatísticas do sucesso e da qualidade, contribuem para as estatísticas dos problemas e, por isso, não são desejados, sobretudo nas escolas muito boas, que não gostam de Errantes, preferem os Destinados, ou seja, os miúdos que já no presente carregam o destino que lhes sonharam e que eles assumem, desejando ou não.
Os Errantes que agora estão na escola, tal como aconteceu com a maioria dos Errantes que já por lá andaram, serão os Errantes da vida, seja lá o que for a vida que os espera, porque eles não esperam a vida. Imaginam apenas o amanhã, que ainda assim e como se costuma dizer, já é longe demais. E esse amanhã imaginado é rigorosamente igual ao hoje vivido.
Se nos abeirarmos dos Errantes, o que nem sempre conseguimos, sabemos, podemos ou queremos, fazer talvez possamos perceber como é difícil a história dos Errantes. Ninguém gosta de andar perdido.

domingo, 20 de junho de 2010

AS MINORIAS TRANSPARENTES

Com o país envolvido na despedida a Saramago e na habitual feira de opiniões consensuais, muitas delas evidenciando profunda hipocrisia, o JN apresenta um trabalho muito interessante sobre o tratamento televisivo dispensado a grupos sociais minoritários. De uma forma geral, a pouca programação sobre estas populações e as suas problemáticas é residual e a pouca que existe é geralmente colocada em horários completamente desinteressantes verificando-se, naturalmente, audiências residuais. A RTP1, apesar do quadro geral negativo, apresenta indicadores um pouco melhores que os outros operadores, não sendo de esquecer as suas obrigações de serviço público.
Nesta circunstâncias é tentador e fácil estabelecer comparações com os meios, os recursos e o tempo de antena destinados a assuntos da mais variada natureza explorados "ad nauseam" sem que se vislumbre interesse ou sentido. Também não podemos ser ingénuos e esperar que os conteúdos televisivos escapem ao fortíssimo controle dos critérios comerciais, ou seja, interessa o que vende e garante audiência e publicidade, não o que é importante ou útil. Por vezes, ainda que raramente, estes critérios coincidem.
Como alguns dos elementos inquiridos pelo JN, não simpatizo com as quotas obrigando a um mínimo de horas de programação, caminho que nos levaria a situações complexas, incluindo a dificuldade de estabelecer quais as matérias, para além da questão das minorias que agora estamos a considerar, que deveriam ser objecto de quota de programação.
Neste quadro, emerge, como sempre a questão dos valores e da maturidade cívica da nossa comunidade. Num tempo em que se ouvem vozes e observam comportamentos de intolerância, quer em Portugal, quer no resto do mundo, a preocupação com a informação, o acolhimento e as atitudes e comportamentos face à diversidade são absolutamente decisivos.
Muitas vezes afirmo que o grau de desenvolvimento de uma comunidade também se avalia pela forma como cuida das minorias. Mantê-las invisíveis não é, seguramente, um bom caminho.

sábado, 19 de junho de 2010

BATER NOS PROFESSORES

Os dados disponibilizados pelo Programa Escola Segura referentes ao ano lectivo passado, reportam um aumento de 37.8% de casos de agressão a docentes e um aumento da mesma ordem no que respeita a funcionários. Para João Sebastião do Observatório para a Segurança Escolar, citado no DN, o número pode não representar um verdadeiro aumento mas sim um aumento de casos participados, entendimento que me parece um pouco optimista e a carecer, naturalmente, de confirmação.
Este universo é complexo e de análise incompatível com um espaço desta natureza. No entanto, umas breves notas em torno de três eixos: a imagem social dos professores, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade, que me parecem fortemente ligados a este fenómeno.
Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso do ME, algum do discurso produzido pelos próprios representantes dos professores e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para uma desvalorização significativa da imagem social dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, designadamente de alunos e pais. Esta fragilização tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais, sobretudo porque mina a atribuição de autoridade.
Em segundo lugar, tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os professores, entre outras profissões, polícias ou médicos, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição de professores, como fontes de autoridade. Tal processo alterou-se, o facto de se ser professor, já não confere “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de agressão. O mesmo se passa, como referi, com outras profissões em que também, por razões deste tipo, aumentam as agressões a profissionais.
Finalmente, importa considerar, creio, o sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a grandes, o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.
Considerando este quadro, creio que, independente de dispositivos de formação e apoio, com impacto quer preventivo quer na actuação em caso de conflito, obviamente úteis, o caminho essencial é a revalorização da função docente tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política. É ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.

A ESCOLA ACABOU

Hoje, consegui chegar cedinho ao meu Alentejo e passei na vila para as compras. Estava a miudagem a sair da escola, hoje era o último dia de aulas.
Aqui ainda se vêem muitos avós a esperarem à porta da escola. Quando me aproximo verifico que alguns dos miúdos e miúdas iam a chorar. Como ia passando pelo meio deu para perceber, pelas palavras dos avós, que os gaiatos choravam porque a escola tinha acabado e porque no próximo ano já ali não andariam. Os avós diziam coisas como, “não chores mais, então cresces vais para outra escola”, “mas podes vir cá à mesma”, etc., coisas de avô é claro, mas os gaiatos lá iam chorando.
Deu para pensar. Na maior parte das vezes, para não dizer sempre, as referências e os discursos que se produzem sobre a escola são maus, azedos, maldispostos e, do meu ponto de vista, muitas vezes injustos e ignorantes sobre o que por lá se passa realizado por alunos, professores e funcionários.
Falam das escolas como sendo o inferno. É certo que para algumas crianças, para alguns professores, a escola é o inferno. Mas para a maioria das crianças a escola é uma coisa boa, onde gostar de estar, fazendo coisas de que gostam mais ou menos (ou até detestam) mas que no fim deixa saudades, logo no dia em que acaba.
Por isso, era bom que alguns opinadores, mais ou menos “catedráticos” que regularmente peroram sobre o inferno da escola fossem um bocadinho mais cautelosos, era bom para os miúdos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

SARAMAGO, A HIPOCRISIA DO CONSENSO

Saramago morreu. Como sempre acontece, não há como a morte para transformar um homem num consenso que ele sabia não ser.
Mas Saramago não foi, não é e não será um consenso, foi apenas um homem, um escritor, a quem devemos páginas muito bonitas.

DAR O SALTO

Era uma vez um Rapaz que vivia numa família curiosa. Desde pequeno o Rapaz começou a ouvir os pais a dizer e a esperar, que tudo o que o Rapaz fizesse deveria ser sempre muito bem feito. Era preciso dar o salto, diziam eles, querendo significar que o Rapaz não podia ser como os outros, tinha de ser melhor, sempre.
Quando entrou na escola o Rapaz ia cumprindo de forma positiva a tarefa de aprender, mas todos os dias os pais lhe lembravam que ele tinha de ser mais perfeito, de preferência o melhor, ou seja, tinha de dar o salto.
O Rapaz, como quase todos os rapazes, ia tentando corresponder e esforçava-se para melhorar o seu desempenho na generalidade das tarefas mas no fim, lá ouvia que podia fazer melhor, era preciso dar o salto.
Ao chegar à adolescência e ao tempo das escolhas, para dentro e para fora, o Rapaz começou a pensar na narrativa que o levaria ao futuro. Desde logo foi ouvindo dos pais que aquela escolha, aquelas escolhas, eram a escolha dos medíocres, dos que não chegariam a lado nenhum, dos que, claro, não davam nem nunca dariam o salto. A situação não ficou fácil, de um lado, o seu, o Rapaz sentia a pressão de escolher o caminho que queria percorrer, do outro, uma pressão cada vez mais pesada no sentido de dar o salto, a grande e contínua exigência dos pais.
Um dia, o Rapaz decidiu-se. Deu o salto, um enorme e definitivo salto.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

POBREZA E EXCLUSÃO

Como talvez se lembrem corre em 2010 o Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social. A comunicação social de hoje faz-se eco de forma generalizada da próxima entrada em vigor de ajustamentos, veja-se reduções, nos chamados apoios sociais. Em capa, o DN refere que estes cortes envolvem, por exemplo, menor comparticipação nos medicamentos, diminuição das isenções das taxas moderadoras nos serviços de saúde, limitação na acção social escolar e redução nos apoios a doentes acamados, nada de importante, como se percebe.
O JN coloca em primeira página que a "AMI já não tem alimentos para responder aos pedidos". Os dados conhecidos apontam para 10.8% de desempregados (cerca de 600 000), muitos sem subsídio, e à volta de dois milhões de portugueses em risco de pobreza dos quais 300 000 são crianças.
É neste cenário que se anunciam cortes nos apoios de âmbito social. Sabemos que existem situações neste universo que carecem de ajustamento e fiscalização.
É óbvio que importa combater desperdício e fraude mas baixar os apoios nas situações de maior fragilidade e vulnerabilidade social parece-me uma via muito arriscada, ainda que fácil.
Não se trata de criar e alimentar um quadro de "subsídiodependência", é um risco verdadeiro, mas de promover formas de justiça social que previnam e contrariem formas de exclusão que são fortemente ameaçadoras do clima social.
Por vezes, fico com a ideia de que as elites políticas, confundindo a realidade com os seus desejos e sobrevalorizando os interesses da partidocracia, não têm uma visão realista da enorme dificuldade em que muitos milhares de famílias (sobre)vivem.
Encontrar consensos e políticas ajustadas, designadamente, promovendo justiça e equidade, é mais do que uma opção positiva, é um imperativo de sobrevivência enquanto país.

OS SALTOS DOS COELHOS PEQUENOS

Era uma vez uma terra onde havia muitos coelhos, grandes e pequenos. Lá naquela terra tinham decidido que todos os coelhos pequenos deveriam aprender a dar saltos e arranjaram uns mestres de salto para ensinar os coelhos a saltar. A certa altura, para ter uma ideia se os coelhos pequenos já sabiam dar bons saltos e poder comparar uns com os outros e em todos os lugares daquela terra, mandaram que todos, no mesmo dia, dessem um salto com um comprimento que determinaram. A grande maioria dos coelhos pequenos saltou aquele comprimento, uns mais à vontade que outros. Estranhamente, em vez de felicitarem os coelhos pequenos que saltaram e tentar perceber porque é que alguns não tinham sido capazes, desataram todos a discutir em grande algazarra. Uns clamavam que o salto era muito curto e por isso muitos coelhos tinha saltado, deveriam exigir um salto maior. Outros achavam que o comprimento estava adequado e era normal haver alguns coelhos que não saltem bem.
Uns achavam que o terreno onde se davam os saltos tinha sido bem preparado para que os saltos corressem bem, outros ainda achavam que o trabalho dos mestres de saltos tinha sido bom e por isso a maioria saltou. Por outro lado, ainda havia alguns que achavam o contrário, os mestres de saltos não eram assim tão bons e, por isso, alguns coelhos não conseguiram saltar. Havia também uns, os que mandavam em tudo o que dizia respeito aos saltos que diziam que a prova de saltos estava muito bem organizada porque eles são os melhores e sabem tudo.
Era interessante notar que até apareciam uns que não percebiam nada de coelhos pequenos, de saltos ou de mestres de salto, mas que também tinham muitas opiniões sobre a matéria.
Fartos de ouvir esta confusão os coelhos pequenos não percebiam muito bem porque é sendo eles a dar os saltos, toda a gente falava do salto e ninguém ligava aos saltadores.
Parece que estou a falar dos exames nacionais mas não, é mesmo dos saltos dos coelhos pequenos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PELA NOSSA SAÚDE

A saúde é hoje matéria de primeira página em vários jornais disputando o espaço com a africana prestação da selecção de futebol. As referências à saúde são fundamentalmente centradas nos tempos de espera para consulta mas o CM titula que "Hospitais cortam na comida dos doentes" o que não deixa de ser inquietante.
Esta atenção dedicada às questões da saúde decorre da divulgação do relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde onde se pode constatar a incapacidade de cumprimento generalizado dos tempos de espera para consultas e cirurgias previstos na lei.
Mesmo nos casos de urgência, portanto, considerados prioritários, com trinta dias de espera máxima, existem especialidades em que o tempo de espera ultrapassa o dobro. Esta situação verifica-se também no que respeita a actos cirúrgicos em várias especialidades.
Numa altura em que se discutem reduções de custos no funcionamento da administração pública, que todos consideramos necessários, face ao enorme nível de despesismo e desperdício conhecido, em que também se começam a conhecer os resultados pouco positivos das parcerias público-privadas em matéria de saúde, é fundamental que não nos deixemos entrar num deriva que fragilize ainda mais o imprescindível Serviço Nacional de Saúde sem o qual a nossa saúde passará bem pior.
É também fundamental que o controlo de despesas e de investimento seja objecto de critérios racionais e não exclusivamente administrativos e económicos.
Como o povo costuma dizer, com a saúde não se brinca e na saúde não se poupa.

A HISTÓRIA DO ACOSTUMADO

Era uma vez um rapaz chamado Acostumado, um nome deveras estranho. Como todas as pessoas ficou Acostumado desde que lhe puseram esse nome. Tinha uns catorze anos e nada na sua vida o tinha surpreendido, era um Acostumado.
Sentia-se um bocado só, não falava muito e lá em casa pouca atenção lhe davam. O pouco tempo que aos pais sobrava da lida de fora, era utilizado com a irmã pequena. Ele já era um Acostumado.
Nunca teve notas que o fizessem sobressair. De vez em quando pensava que gostava de ter, assim um Bom num trabalho, ou um 90% num teste, mas nunca conseguiu. Tinha pena, mas estava Acostumado.
Não tinha muitos amigos. Aliás, podia mesmo dizer-se que não tinha amigos, ponto. Às vezes, olhava para os colegas que jogavam e estavam em grupos, tentava chegar perto, mas como não tinha muito jeito e os outros também não o chamavam, acabava por ficar de lado. Aborrecido, mas Acostumado como sempre.
Um dia, o Acostumado estava num canto a olhar para os colegas, aproximou-se a Filipa que ele conhecia do 8º B e veio falar com ele. Ficou embaraçado e sem saber muito bem o que dizer. Mais estranho achou o facto de a Filipa começar a vir ter com ele todos os dias e a todos os intervalos. Num deles, deu-lhe a mão e disse-lhe baixinho ao ouvido "Gosto mesmo de ti".
Pela primeira vez sentiu que não estava Acostumado e gostou, gostou mesmo. Nunca alguém lhe tinha dito tal coisa.

terça-feira, 15 de junho de 2010

ENCERRAMENTO DE ESCOLAS, DERIVA E DESPERDÍCIO

O Público de hoje mostra um bom exemplo do que tem sido parte substantiva da política educativa dos últimos anos em Portugal, deriva e desperdício.
A situação é de contornos simples mas elucidativos, na aldeia de Feitos em Barcelos existe uma escola que, de acordo com a notícia, serve 28 alunos mas que, por indicação do ME no âmbito da reorganização da rede escolar, irá ser encerrada. Já aqui abordei a questão do encerramento de escolas medida que em muitas circunstâncias, mais do que racional é justificada pela qualidade do trabalho que escolas com poucos (muito poucos) alunos não garante. Compreendo, no entanto, as reacções de pais e autarcas que me parecem naturais ainda que por razões diferentes.
Acontece que esta escola, tal como muitas outras, foi objecto há pouco tempo, três anos no caso, de obras de requalificação sendo actualmente uma das que melhores condições oferece no parque escolar concelhio, aquecimento, biblioteca e cantina, por exemplo.
Temos portanto que se anuncia um critério administrativo para encerramento de escolas, menos de 20 alunos, que, como seria de esperar, em termos práticos, não funciona e as pessoas não entendem e a irresponsabilidade de, por ausência de planeamento adequado, se proceder a gastos significativos e inúteis na requalificação de escolas que se encerram pouco tempo depois. Não é possível que com actuações desta natureza se consiga proceder com um mínimo de sobressaltos e eficácia ao necessário reordenamento da rede escolar.
Finalmente, chamo de novo a atenção para que, sendo verdade que escolas com pouquíssimos alunos apresentam níveis preocupantes de insucesso escolar, também é verdade que centros escolares muito grandes com elevada concentração de alunos com idades muito diferentes constituem um risco sério, quer no rendimento escolar, quer nas relações interpessoais e comportamentos.

O MACGYVER

Hoje ao fim de um dia comprido e mais uma vez absorto nas inquietações que as circunstâncias colocam na vida de muitos miúdos, dei por mim sentado a olhar, sem ver, para a televisão e começar um zapping aleatório que me levasse a algo, não importa o quê, mas que me libertasse da vuvuzela. A propósito, o Ministério do Ambiente e da Saúde não terão nada a dizer sobre este problema de saúde pública e poluição?
Como ia dizendo, no meio das imagens que se sucediam no ecrã dou de caras com um velho conhecido, o MacGyver, e não resisti, parei e fiquei a olhar, ainda sem ver, mas a pensar.
A falta que faz um MacGyver, um homem que a partir do canivete suíço não deixa problema por resolver. O MacGyver é assim uma espécie de Super Homem em versão portuguesa. Não tem super poderes, não somos dados a essas ostentações e recursos, não tem um ar sofisticado, antes pelo contrário, é o vizinho simpático que gosta de ajudar e brincar com os miúdos. O McGyver é um mestre do desenrascanço, com qualquer pedaço de nada resolve um problema, e dos grandes. No fim e com mais um problema resolvido, mantém o mesmo ar tranquilo e vai à procura de mais sarilhos para dar conta deles.
O jeito que um MacGyver daria na vida de muitos miúdos, resolvia-lhes os problemas e ainda de uma forma criativa e simples, o homem é um génio.
Já estava a imaginar um MacGyver em cada escola a tratar dos problemas dos miúdos e tudo a andar sobre rodas.
Quando acordei, olhei à volta para ver onde se tinha metido o MacGyver mas ele já tinha desaparecido, no Canal Memória, creio. É pena.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

MEU, UM GAJO TEM QUE SE SAFAR

A referência hoje divulgada no Público ao altíssimo nível de "copianço" entre os alunos do ensino superior que, de acordo com um estudo da Universidade do Minho, envolve três em cada quatro estudantes, não pode surpreender.
Já há algumas semanas, a propósito do acréscimo das situações de plágio que se verificam em todos os níveis de ensino, do básico à formação pós-graduada, doutoramentos incluídos bem como artigos científicos, me referi à natureza da relação ética que estabelecemos com o conhecimento e que os alunos replicam. Aliás, dos alunos que admitem copiar, 90% afirmam fazê-lo desde sempre.
O conhecimento é entendido como algo que se deve mostrar para justificar nota ou estatuto, não para efectivamente deter, ou seja, importante mesmo é que a nota dê para passar, que o curso se finalize, que a tese fique feita e eu seja doutorado ou que possa acrescentar mais um artigo à minha produção científica. Que tudo isto possa acontecer à custa da manhosice, do desenrasca mais ou menos sofisticado, são minudências com as quais não podemos perder tempo.
No entanto, é bom termos consciência que esta questão não é um exclusivo nosso, a experiência mostra-me isso com clareza. De qualquer forma, não deixa de ser uma preocupação e justifica que as escolas, do básico ao superior, se envolvam nesta tentativa de construção de relação com o conhecimento mais sólida em termos éticos.
O caminho passa pelo estabelecimento obrigatório de códigos de conduta com implicações sancionatórias severas e com uma atitude formativa e preventiva durante as aulas.
O trabalho será sempre difícil pois o contexto global ao nível dos valores e da ética dos comportamentos e funcionamento social é, só por si, um caldo de cultura onde o copianço e o plágio, por vezes, não passam de "peanuts", é a cultura do desenrascanço, não importa como.

A "RE-HUMANIZAÇÃO" NECESSÁRIA

Há umas semanas escrevi aqui, "Ouvi num noticiário televisivo e não percebi se era intenção do governo e a nível nacional ou se apenas uma iniciativa da Misericórdia de Lisboa, a ideia de apoiar famílias que acolhessem idosos. Assim, o apoio e parte do valor da pensão dos idosos seriam direccionados para famílias que o recebessem evitando que sejam emprateleirados em lares ou permaneçam isolados a morrer devagarinho de solidão. Também não consegui perceber se esta iniciativa poderia envolver a família do próprio idoso. Neste quadro, creio que poderia ser estudado no âmbito da Segurança Social a possibilidade, generalizada ao país, de que a própria família do idoso pudesse ser subsidiada se mantivesse a pessoa consigo. Esse subsídio seria calculado com base nos apoios que o estado destina às instituições de solidariedade social que recebem idosos. Quero acreditar que muitas famílias tendo algum apoio que lhes permitisse, por exemplo, pagar algumas horas a alguém, quereriam ter os seus velhos consigo".
Hoje e a propósito de um trabalho do Público evidenciando o crescimento do número de famílias que se disponibilizam para ficar com os seus idosos porque a respectiva pensão é fundamental para o equilíbrio do orçamento familiar, creio que apesar deste risco, os idosos constituírem uma fonte de rendimento e não verem assegurados níveis mínimos de bem-estar, a via de manter os idosos em família deve ser incentivada.
Por um lado, porque o facto de estar em instituições não garante só por si qualidade no cuidados e, por outro lado, sendo optimista, ou eventualmente ingénuo, continuo a acreditar que a generalidade das famílias quer bem aos seus velhos.
É óbvio que se exige serviços de regulação e supervisão desta situações, tal como em situações de violência doméstica, maus tratos a crianças, etc., mas este é um caminho para, desculpem a invenção, a "re-humanização" necessária.

QUANDO OS SANTOS ERAM POPULARES (MAIS)

Há muitos anos, no tempo em que eu era miúdo e este subúrbio era ainda feito de poucas casas e algumas quintas, a época dos santos era esperada com alguma excitação por nós, os mais pequenos, mas não só.
Aqui na zona o santo que nos pertence é o S. João, mas todos nos serviam, o S. António em Lisboa e o S. Pedro no Seixal também eram populares pretextos.
Os adultos organizavam umas festas nas ruas com bailarico e as incontornáveis sardinhas e bifanas com rega, é claro, que os organizadores vendiam para financiar uma excursão ao estrangeiro, a Badajoz quase sempre, que naquele tempo o estrangeiro era perto e o dinheiro sempre curto.
Mas para nós, para além de uns desaparecidos "pirolitos" em garrafas que tinham um berlinde de vidro, os santos eram sobretudo as fogueiras, isso sim, as fogueiras.
Uns dias antes de cada santo, por assim dizer, e por zonas começávamos a juntar lenha. Para tal, fazíamos umas visitas às quintas da terra, ainda havia muitas que agora têm prédios plantados e, sobretudo, organizávamos umas expedições às obras em curso e "recolhíamos" toda a madeira que conseguíssemos e que acumulávamos procurando tê-la sempre debaixo de olho, porque a carne do pessoal das outras zonas era fraca e poderia não resistir à tentação de "levar" a nossa lenha.
Nos dias da celebração a fogueira durava enquanto houvesse lenha e vontade de saltar por cima dela. Tratava-se então de saber quem era mais corajoso e enfrentava as chamas mais altas. À custa destas exibições sempre conseguíamos umas vistosas aterragens falhadas do outro lado ou uma roupa chamuscada. Havia sempre o espectáculo extra de alguns dos adultos já com algum lastro alcoólico, digamos assim, tentarem mostrar dotes de saltadores que muitas vezes também não acabavam bem.
Quase sempre e como número extra, tínhamos direito a uma cena de lambada, sem grandes consequências porque festa é festa, provocada por uma figura mítica da minha terra, o meu saudoso amigo Pedro, mais conhecido pelo Sucata. Era homem que andava por um enorme metro e sessenta, mas era a pessoa mais amiga de arranjar uma confusãozinha de onde saía, invariavelmente, com mais umas lambadas e, é verdade, mais uns amigos que lhe pagavam um copito. Tenho saudades do velho Sucata.
Os santos na minha terra já não são tão populares, limitam-se a oferecer feriados, à vez.

domingo, 13 de junho de 2010

FAZER AS COISAS CERTAS E FAZER CERTAS AS COISAS

No universo da educação em Portugal depois de Abril de 74, instalou-se uma das mais generosas e ingénuas ideias que o tempo das utopias gerou, todos os indivíduos devem ter formação universitária. Esta ideia, de trágicas consequências, quis combater a marca de classe presente nas escolhas entre liceu e escolas industriais e comerciais e, sobretudo, o baixo número de alunos que continuavam a estudar. O resultado foi criar um percurso que todos deveriam seguir e que só terminaria no fim do ensino superior universitário.
Com o aumento da escolaridade obrigatória e o aumento exponencial do número de alunos começou a perceber-se o erro trágico de um só percurso, muitos alunos chumbavam e abandonavam saindo do sistema sem qualquer tipo de qualificação. Aliás, mesmo completando o ensino secundário, o 12º ano, as competências profissionais eram nulas, isto é, o 12º apenas ensinava, e mal, a continuar a estudar, coisa que entretanto era dificultada com a figura (lembram-se?) do "numerus clausus".
A partir de certa altura, timidamente, começaram a surgir ofertas de vias profissionais que, por má explicação política, foram sobretudo entendidas como a estrada por onde vai quem não tem "jeito" ou competência para estudar. Neste contexto, famílias e alunos sentiram dificuldade em aderir a algo percebido como sendo de segunda. E o nível inaceitável de chumbos e abandono no secundário continuava a envergonhar-nos.
Nos últimos anos, temos finalmente assistido a uma significativa diferenciação da oferta educativa, sobretudo depois do 9º ano, essa oferta começa agora e ainda de forma ténue a perceber-se como uma alternativa à continuação de estudos mais prolongados, o ensino superior politécnico ou universitário. A questão é que em muitas escolas esta oferta diversificada é ainda gerida de forma classista, ou seja, os bons alunos são os que se encaminham para os cursos gerais e os outros são encaminhados para os cursos profissionais que assim continuam percebidos como de segunda.
O nível de desenvolvimento das sociedades actuais exige níveis de qualificação profissional sem os quais o risco de exclusão social é enorme, sempre digo que a exclusão escolar é a primeira etapa da exclusão social. Assim, conseguir que os alunos, todos os alunos, cumpram a etapa escolar saindo com qualificações profissionais é o grande desafio que o nosso sistema educativo enfrenta e para cujo sucesso é fundamental a oferta de percursos formativos diferenciados, mas sérios e com qualidade.
Na tentação de torcer a realidade até que esta diga aquilo que se pretende, o ME tortura os números para os transformar em sucessos que componham as estatísticas, confunde certificar com qualificar, um equívoco de consequências trágicas e que, com o pomposamente chamado "contrato de confiança", vai estender o "novas oportunidades" (versão embuste) para o ensino superior.
Não basta tentar fazer as coisas certas, é também necessário tentar fazer certas as coisas.

sábado, 12 de junho de 2010

OS TRABALHOS DOS MIÚDOS

A agenda das consciências determina para hoje o Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil. Apesar da tragédia que esta questão ainda constitui no mundo actual, a situação em Portugal experimentou melhorias significativas embora ainda se verifiquem alguns casos.
No entanto, apesar de menos explorados enquanto mão-de-obra barata, os miúdos não estão livres dos trabalhos, havendo muitos cuja vida é mesmo, como diz o povo, o cabo dos trabalhos.
Vejamos o trabalho da escola. Apesar de procurar responder a um problema importante que muitas famílias sentem, a guarda das crianças nos períodos laborais, o sistema educativo tem procurado resolvê-lo da pior da maneira, prolongando inaceitavelmente a estadia das crianças na escola. Creio que nem toda a gente tem consciência de que, de acordo com a lei uma criança, por exemplo do 5º ano, pode passar 11 horas por dia na escola, ou seja, 55 horas por semana. Esta overdose de estadia institucional na escola, com o tempo muitas vezes preenchido com actividades de duvidosa qualidade, não pode deixar de ter consequências na relação que os miúdos estabelecem com a escola e com as actividades de escola.
Por outro lado, muitos miúdos, vivem institucionalizados ou em famílias que não os merecem e que deles cuidam mal, por negligência ou incompetência. Tal situação torna os trabalhos de crescer, ser gente e construir um futuro com sentido, um conjunto de tarefas que não é muito fácil embora, felizmente, a maioria dos miúdos cumpram esses trabalhos de forma tranquila e com bons resultados.
Pois é, o trabalho infantil e juvenil continua a pesar, temos que melhorar o trabalho dos mais crescidos.

OS EFEITOS TERAPÊUTICOS

De há uns anos para cá têm surgido referências ao bem-estar, ao efeito terapêutico, até quase ao nível do milagre que muitíssimas fontes nos podem proporcionar e aos mais variados níveis.
Multiplicam-se as chamadas de atenção para actividades de proveniência mais ou menos exótica que fazem bem a tudo e mais alguma coisa.
Descobrem-se as inúmeras propriedades terapêuticas ou, mais simplesmente, promotoras de bem-estar de mil e uma plantas ou produtos mais ou menos sofisticados e com as mais diversas origens.
Apregoam-se a os efeitos extraordinários de aromas e objectos.
Todos os dias conhecemos novas propostas à nossa disposição em requintados espaços que criam um menu infindável de cuidados com lamas e águas e uma combinação inesgotável de soluções que nos transformam noutros seres.
Dizem-nos que os animais têm uma enorme capacidade de nos fazer melhores em múltiplos aspectos. Conhecem-se, por exemplo, referências aos golfinhos, cavalos e a outros animais de companhia.
Uma primeira nota que ao ir constatando tamanha oferta sempre me ocorre e me faz pensar, é sobre o que temos vindo a fazer dos nossos estilos de vida que nos tornou permeáveis e instalou em nós a necessidade de nos envolvermos e nos convencermos de que tudo isto, no todo ou em parte, é A solução, seja para o que for.
Uma outra nota que me parece importante, independentemente do recurso a tal oferta, é não esquecer o papel das pessoas no nosso bem-estar. Tendemos a viver cada vez mais isolados ainda que escondidos em imensa redes sociais com inúmeros amigos. Parece importante não esquecer que o essencial do nosso bem-estar advém das relações com os outros, gostar e ser gostado, respeitar e ser respeitado, ser conhecido e reconhecido, conhecer e reconhecer, ajudar e ser ajudado, falar e escutar, estar atento e receber atenção, manter a dignidade e proteger a dignidade dos outros, etc.
O resto, desculpem lá, é ocupação de tempos livres, de melhor ou pior qualidade.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A DIMENSÃO DAS TURMAS

O Público volta à questão do número de alunos por turma na sequência da apresentação da petição desencadeado pelo Movimento Escola Pública, no sentido de se estabelecer que na constituição das turmas do pré-escolar e 1º ciclo, o número máximo de alunos passe de 24 para 19 e no 2º, 3º ciclo e ensino secundário diminua de 28 para 22. É ainda solicitado que cada professor não leccione para mais do que 110 alunos, ou seja, 5 turmas com o máximo de alunos que a petição propõe.
Não são conhecidas as disponibilidades físicas do parque escolar no sentido de suportarem o acréscimo de turmas que a medida proposta implicaria, até porque o número de alunos por turma não se coloca da mesma forma em todas as escolas e agrupamentos, mas esta questão que está permanentemente em cima da mesa.
Por princípio, turmas menores, dentro de parâmetros razoáveis, favorecem a qualidade do trabalho dos professores e dos alunos com naturais consequências nos resultados escolares e no comportamento. No entanto, é também necessário considerar as diferenças de contexto, isto é, a população servida por cada escola, as característica da escola, a constituição do corpo docente, etc. Tal significa que, apesar da concordância genérica com o princípio de reduzir o número de alunos por turma em algumas escolas e agrupamentos, pode e deve admitir-se alguma flexibilidade. Parece ainda de sublinhar que a qualidade e sucesso do trabalho de professores e alunos depende de múltiplos factores, de que a dimensão do grupo é apenas um, ou seja, mesmo que se reduzam turmas consideradas demasiado grandes, se não se verificarem alterações ao nível de prática e processos de organização e funcionamento da sala de aula, o impacto na qualidade e nos resultados será, certamente, baixo como, aliás, muitos estudos e a experiência mostram.
Já a ideia de reduzir o número máximo de alunos com que cada professor trabalha só peca por tardia e com um impacto potencial mais significativo. Parece óbvio que menos alunos permite melhor conhecimento de cada um, menos turmas permitiria, por exemplo, que um professor no seu horário pudesse assegurar duas disciplinas do seu grupo científico na mesma turma (existem casos em que é possível e muitas escolas já praticam) aumentando o tempo de contacto do professor com os mesmos alunos com naturais reflexos positivos.
O actual modelo de organização das escolas e do trabalho dos professores leva a que um número extraordinário de horas de trabalho docente seja dedicado a tarefas sem fim na escola, em inúmeras tarefas de natureza quase administrativa, para além das reduções inerentes à progressão na carreira e de outras funções não lectivas. Tudo isto contribui para que em termos práticos tenhamos um modelo menos eficiente e facilitador do trabalho dos alunos e os próprios professores, cujo empenho e profissionalismo esbarra muitas vezes com modelos inadequados de organização e funcionamento das escolas.
Temo pois, que a discussão fique centrada nos aspectos logísticos e menos nos aspectos essenciais, as práticas que se desenvolvem, os modelos (no plural) de organização e do trabalho em sala de aula, os modelos de organização e funcionamento das escolas, etc.

OS DESATINOS DOS MIÚDOS

Ontem numa conversa com gente da educação, profissionais e amadores, ou seja, educadores e pais, dizia-se que os miúdos andam muito “indisciplinados”, logo no jardim-de-infância, acrescentavam preocupados com os desatinos dos miúdos.
Não tenho nenhuma certeza de os miúdos estejam a vir com mais defeitos de origem do que é habitual, além de que não se podem trocar, uma vez que são fornecidos sem garantia e também sem manual de instruções. Pode acontecer, naturalmente, que o desatino venha de dentro deles, mas talvez não tenham nascido com ele. Talvez para os perceber a eles tenhamos que olhar para nós.
Pode ser que eles gritem tanto e em qualquer circunstância porque nós estamos a ficar mais surdos, ou seja, ouvimo-los pouco, falamos para eles, mas não os ouvimos. Pode até acontecer que eles aprendam também a ficar surdos e depois também já não nos ouvem.
Pode ser que eles pareçam não aceitar regras e se comportem de forma desregulada porque nós, pelas mais variadas razões, começámos, de mansinho, a ter medo de dizer Não. Eles aprenderam que tudo, ou quase tudo, pode ser sim e mesmo que digamos não, com uma birrazinha bem feita, esse não transforma-se em sim, é uma questão de tempo.
Pode ser que os miúdos façam asneiras grossas porque nós nem reparámos muito bem quando eles começaram a fazer asneiras pequenas e agora já estamos tão aflitos que nem sabemos o que fazer.
Pode ser que muitos miúdos tenham coisas e actividades de mais e atenção de menos, servindo-se então do que fazem e como fazem, para solicitar a atenção que é um bem de primeira necessidade e não substituível por “montes” de coisas e actividades “fantásticas”.
Pode até acontecer que os desatinos dos miúdos façam parte do kit de sobrevivência com que todos nascemos, e que os faz emitir sinais alertando para que alguma coisa não vai bem.
Finalmente, talvez esta conversa seja ela própria um desatino. A gente aprende com os miúdos o que eles aprendem connosco.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

ESSA ROUPA, NA ESCOLA NÃO

Num país onde sempre se nota a falta de assunto de discussão e alarido, de vez em quando aparecem episódios deste tipo relatados na imprensa, eventualmente haverá outros não publicitados. Depois de há algum tempo, uns três anos, se me não falha a memória, uma escola da zona de Sintra ter decretado um “dressing code”, surgiu depois a Escola 2, 3 José Maria dos Santos, em Palmela temos notícia agora da Escola Dr. Jorge Gouveia, Tavira, a proibir a alunos, professores e funcionários o uso de minissaias, decotes excessivos, calças descaídas, havaianas, etc. As reacções são as do costume. “Atentado aos direitos individuais” dizem uns, “que parvoíce” acham outros, “aceita-se” sustentam outros ainda, pais por exemplo, caso de elementos da Confap, embora a Dra. Maria José Viseu, presidente da CNIPE entenda que recomendar cuidados no uso das roupas nas escolas seja uma atitude “castradora”, “é preciso decoro” clamam mais alguns ou, argumento final, “farda é que é”.
Peço desculpa, mas esquece-se algo que me parece essencial. Os miúdos nesta fase, pré-adolescência e adolescência, estão a construir uma identidade, a sua. Tal “trabalho” passa, em todas as épocas (lembremo-nos da recusa da gravata nos anos 50, das minissaias dos anos 60, dos cabelos às cores dos anos 80, dos piercings a seguir, etc.), pela tentação de andar nos limites do instituído, linguagem, vestuário, “aspecto visual”, música, consumos, etc. Este tipo de funcionamento, quase sempre transitório, presente, de forma mais ou menos evidente, na generalidade dos adolescentes levanta algumas inquietações aos adultos que, à falta de melhor solução, têm a tentação de proibir, o que se compreende. Também me lembro de me terem proibido socas, a camisa por fora das calças e cabelo comprido. Mas só proibir é tapar o Sol com a peneira. Claro que muitos pais ficam contentes com o facto de a escola proibir algo que eles gostavam de proibir mas que não se sentem capazes, assim a escola compra, por eles, a “briga” com os filhos.
Por outro lado, é fundamental para os próprios adolescentes que percebam claramente que “não vale tudo” ao abrigo de discursos como, são direitos individuais, veste-se, fala-se e faz-se o que se quer, é um caso de liberdades individuais, considero este argumentário uma espécie de delinquência educativa. A vida em sociedade e o respeito por regras sociais obriga a que ninguém de nós possa fazer sempre o que quer, quando quer, onde quer, da forma que quer, etc. Construir de forma sensata estas balizas reguladoras é uma tarefa indispensável ao desenvolvimento e à formação.
O que quero simplesmente dizer é que, muito para lá das proibições, ou em vez das proibições, trata-se de construir valores, capacidade de auto-regulação dos comportamentos por parte dos jovens, de construção conjunta dos necessários códigos de conduta e de sermos capazes de discriminar o essencial do acessório.
Não é o tamanho da saia que previne a vitimização, não é a calça descaída que determina a indisciplina.

PAI E FILHA, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

Pai, vais sair assim?
Sim Joana, porquê?
Achas que essa roupa é adequada para quem vai trabalhar? Não te dizem nada?
Claro que não, todos os meus colegas vestem assim, bem, todos não, mas muitos vestem-se assim, o que é que tem?
Não acredito que os responsáveis lá no teu trabalho gostem que vocês se apresentem assim. Também não me parece adequado que uses essas coisas.
Isso é porque não és da minha idade Joana.
Não pai, não é por não ser da vossa idade, é uma questão de bom gosto e bom senso. Onde já se viu alguém trabalhar nessa figura.
Deve ser por causa de filhas como tu que se fala de nos irem obrigar a vestir todos da mesma maneira e proibir algumas coisas.
Pai, se queres saber, acho bem, já que vocês não têm modos, que as outras pessoas decidam como deve ser.
Joana, quando um dia chegares à minha idade, vais perceber que eu tenho razão, a gente deve usar o que achar por bem.
Vocês pais são todos iguais, até parece que andam todos na mesma escola. Ainda por cima julgam que têm sempre razão, é preciso cá uma paciência.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

OS BONS ALUNOS TAMBÉM SÃO VULNERÁVEIS

Em tempo de exames são recorrentes as abordagens na imprensa às implicações e dificuldades que a época traz para alunos e famílias.
O Público trata a questão de um ângulo menos habitual, a "pressão" sentida pelos bons alunos e que o trabalho procura evidenciar.
Não há exames sem ansiedade, aquela pontinha de ansiedade que nos faz estar super atentos e que, por outro lado, não pode ser excessiva de forma a inibir o nosso rendimento. As fontes de pressão e natureza dessa pressão é que pode variar. Os bons alunos são, naturalmente, aqueles que melhor correspondem, com mais ou menos esforço, às expectativas que, designadamente os pais, mas também os professores, constroem e decorrem frequentemente de contextos altamente competitivos em que apenas a excelência é bem aceite.
De uma forma geral, quanto mais desenvolvidas são as comunidades e mais escolarizadas as famílias, maior a pressão para a excelência e, em muitos casos, a pressão para que se construa determinado percurso, por exemplo, é um clássico, a entrada em medicina nas universidades portuguesas, que, para complicar, se decide, por vezes, na décima.
A questão é a forma individual como cada adolescente ou jovem lida com esta pressão, por vezes excessiva, e que decorre mais da família e do contexto do que da situação de exame propriamente dita. São conhecidas situações em que a pressão ficou insuportável levando a processos de fragilização da saúde mental e, em alguns casos a comportamentos auto-destrutivos. Sabe-se que este tipo de comportamentos é mais frequente em comunidades de países mais desenvolvidos, porque mais competitivos, mas também se verificam muitos casos entre nós.
Como sempre, é fundamental que se esteja atento e não facilitar, os bons alunos também são vulneráveis e podem sofrer.

A MENINA COM TRÊS FAMÍLIAS

E pronto, o Tribunal decidiu. Ao fim de vários anos de disputa, a “pequena Esmeralda”, também conhecida pela “menina de Torres Novas” ficou a saber que tem várias famílias, é bonito, tantas crianças sem nenhuma e esta terá três, o pai Baltazar Nunes, também conhecido por “pai biológico”, a mãe Aidida Porto, também conhecida por “mãe biológica” e o casal Luís Gomes e Adelina Lagarto, também conhecido como “os pais afectivos”.
Chama-se então a isto a regulação do poder paternal. Não tenho nenhuma certeza, antes pelo contrário, se se poderá considerar regulação do interesse “criançal” embora, como é frequente, tudo seja decidido em nome do “supremo interesse da criança”, seja lá isso que for.
Este processo arrastou-se anos e não sabemos que consequências poderá ter tido para a pequena Esmeralda. No entanto, seria absolutamente imprescindível que processos desta natureza fossem céleres de forma a produzir o mínimo de alterações nas circunstâncias de vida dos miúdos.
Este processo também me pareceu paradigmático sobre a forma como boa parte da comunicação social trata este tipo de questões, ou seja, dirigida para a faceta ou facetas que mais “vendem” e menos para a forma como a matéria se pode tratar acautelando os interesses e bem-estar da criança. Lembro-me, por exemplo, de jornalistas a correrem atrás do carro ou das pessoas que transportavam a menina nas suas imensas deambulações processuais.
Também me parece de referir a facilidade excessiva com que imensos especialistas, não especialistas e outros opinadores tomaram partido e defendiam decisões como se tudo se resumisse a uma “simples” matéria de opinião.
Pode ser que a miúda passe a ter uma vida mais tranquila ainda que “espalhada” por três famílias. E que nós tenhamos aprendido alguma coisa.

PORTUGALIDADE

Nem a propósito do alarido típico da nossa aldeia desencadeado pelo presidencial conselho de que as feriazinhas se deveriam passar em Portugal para poupar nas importações, a que se seguiu o cauteloso e lúcido alerta do ministro da economia para o facto de os outros senhores presidentes e primeiros-ministros poderem aconselhar o mesmo aos seus respectivos povos, hoje aconteceu-me um episódio que acho interessante.
De há muito que aqui em casa procuramos consumir, fundamentalmente ao nível dos bens alimentares frescos que não vêm do meu Alentejo, o que é produzido em Portugal, é bonito e patriótico, já que não nos envolvemos com a selecção de futebol que, no mínimo, vai ser campeã mundial com a banda sonora fornecida pela insuportável e portuguesa vuvuzela, compramos nacional, sempre que podemos.
Então, como ia contando, hoje, no minimercado do costume aqui no bairro, ocorreu este diálogo delirante.
Sr. Leonel, estão aqui estes pêssegos espanhóis e ali uns que são portugueses, pode dar-me um quilo desses que eu não lhes chego bem e prefiro os portugueses, se faz favor.
Mas estes pêssegos não são portugueses.
Mas está escrito que são.
Mas não são, se quer fruta portuguesa leve estes damascos.
Mas Sr. Leonel, diz no papel que são espanhóis.
E eu ligo lá a isso.
Notável. Como diz a publicidade, poderíamos viver sem estas cenas, mas não era a mesma coisa.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A INJUSTIÇADA CLASSE

Estava a pensar referir-me a recentes exemplos da excelência e do nível de parte substantiva dos discursos políticos em Portugal a propósito do fait-divers sobre o local de férias dos portugueses e as declarações do PR e do Ministro da Economia ou das respostas mal educadas e arrogantes de José Lello, cuja fidelidade à voz do dono ultrapassa a do meu Faísca, mas alguns inquietos que por aqui vão passando têm-me feito notar que as minhas falas não parecem evidenciar especial consideração pela classe dos dirigentes políticos, é que utilizo muito frequentemente um registo negativo. Creio que não sou só eu, os estudos no âmbito da sociologia mostram que para o cidadão comum a confiança na classe política anda pela ruas da amargura. Estaremos certamente errados, até porque o mais eclético e isento dos opinadores profissionais, o iluminado tudólogo Pacheco Pereira, considera demagógico e populista o ataque aos políticos. Apesar de tudo e aceitando o risco de que, imponderado, desajeitado, populista ou demagógico, possa estar a ser injusto, proponho-vos, em jeito de expiação, um texto interactivo que completarão com as referências que entenderem por bem.
Assim, enquanto cidadão, quero expressar formalmente o meu reconhecimento a todos aqueles que:
. Depois de carreiras profissionais de sucesso e reconhecidas pela comunidade, entendem colocar essa experiência ao serviço do bem comum, como por exemplo, …
. Não ascenderam a lugares políticos tendo uma carreira exclusivamente dentro do aparelho dos partidos, começando logo nas jotas como, por exemplo, …
. Não utilizaram o desempenho de cargos políticos para acederem a colocações profissionais, às quais nunca teriam acesso se não tivessem um passado político como, por exemplo, …
. Fazem do desempenho político uma prova de seriedade sem demagogias ou falsas promessas como, por exemplo, …
. Reconhecem tão facilmente um erro seu, como a virtude de outra opinião ou ideia como, por exemplo, …
. Recusam utilizar o peso político para benefício pessoal, ou dos que lhe estão próximos, sem a utilização de critérios transparentes assentes no mérito como, por exemplo, …
. Entendem que na história fica a obra e não o autor como, por exemplo, …
. Nunca se esquecem que os eleitores são pessoas e não votos como, por exemplo, …
. Resistem à pressão dos sindicatos de interesses que conflituam com o bem comum como, por exemplo, …
Se quiserem ter a gentileza de partilhar as vossas escolhas, poderia ser interessante.

A HISTÓRIA DO JAIME

Era uma vez um rapaz chamado Jaime que não gostava muito de si.
O Jaime olhava para os seus colegas e pensava que nunca seria tão bom nem tão conhecido na escola pelas notas altas como a Joana, uma excelente aluna.
O Jaime olhava para os seus colegas e pensava que nunca seria tão bom jogador de futebol e até de basquetebol como o Mário que era o melhor da escola a praticar desporto.
O Jaime olhava para os seus colegas e pensava que nunca seria tão bom a tocar guitarra como o Fábio que até estava a pensar ter uma banda quando ficasse mais velho.
O Jaime olhava para os seus colegas e pensava que nunca as raparigas gostariam tanto de si como do João.
Quanto mais olhava para os seus colegas mais pensava que não gostava de si, não era bom a fazer nada.
O Jaime ia andando com estes pensamentos na cabeça e de mansinho começou a tentar resolver estas inquietações. Quase sem se dar conta algumas coisas foram mudando, e muito, achavam as pessoas.
Um dia, ao olhar para os seus colegas pensava que nenhum deles se portava pior nas aulas do que ele, era mesmo bom nisso.
O Jaime, ao olhar para os seus colegas, pensava que nenhum deles aborrecia tanto os professores como ele, era mesmo bom nisso.
O Jaime, ao olhar para os seus colegas, pensava que nenhum era tantas vezes chamado ao director da escola como ele, era mesmo bom nisso.
O Jaime, ao olhar para os seus colegas, pensava que nenhum deles tinha tantas faltas, de atraso, de material, de indisciplina, como ele, era mesmo bom nisso.
Assim, finalmente, o Jaime pensou, "Já sou bom, um dos melhores".
E continuou infeliz, como sempre foi.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

DOPING MENTAL

É cíclico. Ao aproximar-se a época de exames aparecem referências ao consumo de substâncias que supostamente ajudam a aumentar o desempenho escolar, combatendo o cansaço e estimulando a capacidade intelectual, a capacidade de atenção e concentração, enfim, "garantem" o sucesso escolar.
O recurso a este tipo de substâncias terá aumentado 66% face aos dois últimos dois anos segundo o DN e os médicos revelam-se, naturalmente, preocupados com este quadro. A questão é que este tipo de comportamento não pode ser visto de forma descontextualizada dos estilos de vida, quer de jovens, quer de adultos. Vejamos algumas notas.
Em primeiro lugar, a pressão para o desempenho que está presente em variadíssimas áreas para além  do desporto, situação mais conhecida. A título de exemplo, há poucos dias foi notícia o aumento de consumo de Viagra misturado com outros compostos químicos para garantir a performance sexual entre os mais jovens o que, aliás, é uma mistura altamente arriscada em termos de saúde.
Por outro lado, são também conhecidos os excessos no consumo de álcool entre os adolescentes que entre si não aceitam facilmente ter um desempenho "inferior" ou medíocre em situações de grupo.
A esta pressão para o "alto rendimento" acresce a facilidade de acesso aos medicamentos e a atitude de automedicação que nos leva a sermos um dos países em que este comportamento mais prevalece e em que se consomem mais psico-fármacos.
Finalmente, uma atitude genérica face ao trabalho, neste caso, o trabalho escolar, que nos faz remeter para a véspera o que deveria ser realizado de forma mais regular e espaçada no tempo. Tal facto, aumenta a sobrecarga e a pressão em curtos períodos de tempo que solicita então uma "ajudinha milagrosa" que algum colega sempre sugere e sempre se consegue.
O "doping mental" não é, assim, um problema dos estudantes, é, apenas, uma das muitas faces daquilo que são os nossos estilos de vida que, estes sim, deveriam merecer alguma atenção, designadamente nos programas educativos.

HISTÓRIA DE VIDA

Ontem ao fim da tarde no meu Alentejo, cumprido o trabalho de preparar a rega dos pomares, pois vai sendo tempo de começar, estava a regar a sede com o Mestre Zé Marrafa e, claro, nas lérias.
Às tantas a conversa ficou mais séria, começámos a falar da idade, das idades. O Velho Marrafa já leva uma narrativa longa, vai com sessenta e nove anos. É certo que quando ando a trabalhar ao lado dele a minha auto-estima fica pelas ruas da amargura, a sua resistência e capacidade, apesar de eu ter uma mão cheia de anos a menos, envergonha-me.
Dizia eu que ele já merecia descansar mas o Velho Marrafa acha que não sabe como é que se descansa, ainda tinha que ir aprender. Embora já reformado, o valor da pensão é tão alto que ele continua a trabalhar, à semana numa herdade grande e ao sábado no monte pequeno, o meu Alentejo.
Acontece ainda que começou a trabalhar aos nove anos, ganhando dinheiro, insiste o Mestre porque sem ganhar foi desde sempre. Iniciou-se a guardar porcos. Talvez se lembrem, já contei, que se calhava apanhar uma molha, à noite ficava à fogueira, atrás que a linha da frente era para os homens, à espera de poder secar a roupa. Muitas vezes o sono era mais forte e na madrugada seguinte os porcos esperavam, com roupa seca ou com roupa molhada. Pois é, trabalha há sessenta anos e diz que não quer parar, também porque não pode.
Nunca vi na cara deste Homem uma expressão de enfado, de cansaço sim, que um homem não é de ferro. De tudo o que o monte dá e que o Velho Marrafa também leva, ainda vai parar uma parte à mesa dos filhos, "somos pais para isto não é verdade" diz ele sempre com o mesmo ar.
Ainda arranja tempo para cantar num dos grupos de cante alentejano lá da vila e colabora nas festas da Senhora D'Aires.
Se eu pudesse e soubesse como, ensinava o Velho Marrafa a descansar, ele merece. Enquanto não, ficamo-nos por umas lérias e umas cervejas ao fim da tarde, especialmente nos dias de calmaria.