AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

sexta-feira, 31 de março de 2023

AS CONTAS QUE NUNCA DÃO CERTO. MAIS UMA VEZ

 Leio no Público que um estudo realizado pela Associação Nacional de Directores Escolares demonstra que a resolução das questões decorrentes do congelamento da carreira dos docentes apresentada pelo ME abrange apenas 12626 professores em vez dos 60 000 referidos. Também o custo apurado é de 46,35 milhões não de 161 milhões conforme as contas do ME.

É notável que numa área como a educação e seja qual for a matéria em análise, as contas quase nunca batam certo, tal como as realidades descritas nem sempre coincidem com as realidades observadas. A justificação que me ocorre é …, não pode ser, seria mau demais

Talvez seja de relembrar que a qualidade da educação e da escola, pública ou privada, tem como um dos eixos críticos o trabalho dos professores que, por sua vez, exige serenidade e confiança.

A defesa da qualidade da educação e da escola, pública e também privada, passa incontornavelmente pela defesa e valorização das condições de trabalho, em diferentes dimensões, que possibilitem que o desempenho de escolas, professores, directores, técnicos, funcionários, alunos e pais tenha o melhor resultado possível.

De uma vez por todas, é necessário contenção e combate ao desperdício, mas em educação não há despesa há investimento. Aguardemos o resultado das contas.

quinta-feira, 30 de março de 2023

PARTIU JOSÉ DUARTE, O JAZZÉ

 Partiu José Duarte, Jazzé, e na verdade o Jazz em Portugal é José Duarte como também foi Luís Villas-Boas.

Para a grande maioria dos que gostam de Jazz, José Duarte é uma das figuras que nos ajudaram a definir a banda sonora da nossa vida.

O incontornável “5 Minutos de Jazz” em antena desde 1966 foi para muitos a porta de entrada e de aprendizagem do Jazz. A sua participação também em programas memoráveis como “Pão com Manteiga” ou “À Volta da Meia-noite” obrigam ao reconhecimento, obrigado Jazzé.



quarta-feira, 29 de março de 2023

A PROPÓSITO DO PROLONGAMENTO DO PLANO DE RECUPERAÇÃO DAS APRENDIZAGENS

 Lê-se no Público que os directores escolares consideram necessário que o ME prolongue o plano de recuperação de aprendizagens (Plano 21/23 Escola +) que foi desenhado para três anos. A situação actual das escolas e a falta de docentes que se tem prolongado e ainda os efeitos da pandemia justificam essa solicitação que também foi discutida e recomendada no Parlamento.

Já no final da avaliação do 2º ano de existência do Plano se considerava a necessidade de o prolongar.

Retomo algumas notas sobre esta questão.

Parece ser consensual que o maior ou menor impacto nas aprendizagens que possam estar a acontecer, é extremamente diversificado em cada aluno. Parece razoavelmente claro que a diversidade de situações, o seu número, os anos de escolaridade dos alunos, as variáveis contextuais relativas a cada comunidade escolar, recursos disponíveis em cada comunidade, as necessidades específicas de muitos alunos, os seus contextos familiares, etc., etc., sugerem que devem ser as escolas a avaliar as necessidades, identificar os recursos necessários, estabelecer objectivos, definir metodologias e dispositivos de regulação e avaliação.

Os professores sabem como avaliar e identificar as dificuldades dos alunos. O que verdadeiramente é imprescindível é dotar as escolas dos recursos necessários para minimizar tanto e tão rápido quanto possível as dificuldades que identificam. Recursos suficientes para recorrer a apoios tutoriais ou ao trabalho com grupos de alunos de menor dimensão, apoios específicos a alunos mais vulneráveis, técnicos, psicólogos, por exemplo, num rácio que possibilite um trabalho multidimensionado como é exigido, etc., são essenciais. Torna-se também necessária a existência de dispositivos de regulação que sustentem o trabalho desenvolvido e de processos desburocratizados.

Para além das narrativas institucionais mais “simpáticas”, por assim dizer, o que se vai sabendo das escolas mostra, sem surpresa, o conjunto de dificuldades que se continuam a sentir.

Por outro lado, considerando os indicadores relativos ao impacto das variáveis relativas ao contexto sociofamiliar e económico dos alunos nos seus trajectos de aprendizagem é preciso considerar que não é uma questão compatível com um Plano de curto prazo que está em desenvolvimento e com sobressaltos conhecidos.

É importante recordar que, como já aqui afirmei, um trabalho divulgado em Maio de 2021 pela Human Rignts Watch sobre os efeitos da pandemia na população escolar e com dados da ONU afirmava que “Uma em cada cinco crianças estava fora da escola antes mesmo da covid-19”.

Como já tenho escrito simpatizo pouco com narrativas sobre perdas irreparáveis, gerações perdidas ou outros discursos da mesma natureza. No entanto, a verdade é que muitos alunos incluindo alunos com necessidades especiais, independentemente da avaliação registada nas grelhas ou nas pautas de avaliação passaram e passam por sobressaltos e dificuldades no seu percurso escolar.

Neste contexto, a questão central não deve ser definida em torno da recuperação dos efeitos da pandemia nas aprendizagens ou no bem-estar através de planos de recuperação finitos, mas sim, na mudança ao nível das políticas públicas dos diferentes países, incluindo Portugal, que, para além de forma mais imediata “recuperarem aprendizagens”, tenham impacto a prazo através de recursos suficientes e competentes, definição de dispositivos de apoio eficientes e de acordo com as necessidades, apoios sociais que minimizem vulnerabilidades que a escola não suprime, valorização da educação e dos professores, diferenciação e autonomia nas respostas das instituições educativas, etc.

Acresce que o relatório da primeira monitorização feita pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência ao Plano de Recuperação das Aprendizagens 21/23 Escola+ evidenciou uma impressionante multiplicidade de processos, situações, medidas, iniciativas, designações, acções, actividades, em que se enredam os processos educativos escolares.

A esta dimensão do trabalho das escolas e agrupamentos junta-se a gama sem fim de Planos, Projectos, Programas, Iniciativas, as combinações são múltiplas, destinados a tudo e mais alguma coisa, certamente relevantes e, sobretudo, sempre, sempre, inovadores.

Mais uma vez insisto na necessidade de que o ME estabeleça a simplificação, não o chamado facilitismo, como orientação central nas diferentes dimensões das políticas públicas de educação.

Seria desejável e necessário que o trabalho a desenvolver, os conteúdos envolvidos, os dispositivos em utilização, a organização de tempos e rotinas, etc., tivessem como preocupação a simplificação, professores alunos e famílias ganhariam. Esta simplificação deve incluir a avaliação e registos. Seria positivo que, tanto quanto possível, se aliviasse a pressão “grelhadora” e a burocracia asfixiante a que habitualmente escolas e professores estão sujeitos.

Como é evidente, este apelo à simplificação não tem a ver com menos rigor, qualidade, intencionalidade educativa ou não proporcionar tempo de efectiva aprendizagem para todos. Antes pelo contrário, se conseguirmos simplificar processos e recursos, alunos, professores e famílias beneficiarão mais do esforço enorme que todos têm que realizar e estão a realizar.

Sintetizando, para além da conjuntura próxima, cuidar dos danos da pandemia, importa considerar o que é estrutural e imprescindível em nome do futuro, a qualidade da educação e uma educação de qualidade para todos.

terça-feira, 28 de março de 2023

"ESPECIAL INCLUSÃO: ATÉ QUE PONTO A FRASE "TODOS DIFERENTES TODOS IGUAIS" SE SENTE NA LEI E NO QUOTIDIANO DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA?"

 No Expresso encontra-se um podcast da série a Beleza das Pequenas Coisas com título “Especial Inclusão: até que ponto a frase “todos diferentes, todos iguais” se sente na lei e no quotidiano das pessoas com deficiência?. É centrado na questão da inclusão e das condições de vida das pessoas com deficiência. Merece atenção e ajuda a compreender o que está por fazer para cumprir os direitos inalienáveis de todas as pessoas.

Os problemas que afectam as minorias dificilmente deixarão de ser problemas percebidos como minoritários e em tempos de maiores dificuldades os mais vulneráveis estão ainda mais expostos. Algumas notas em linha com o que muitas vezes aqui escrevo.

Na verdade, boa parte dessas dificuldades decorre do que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo, entendem ser os direitos, o bem comum e o bem-estar das pessoas, de todas as pessoas.

Também para as crianças com necessidades especiais e respectivas famílias, área que melhor conheço, a vida é muito complicada face à qualidade e acessibilidade aos apoios e recursos educativos e especializados necessários. Não esqueço os bons exemplos e práticas que conhecemos, assim como sei do empenho e profissionalismo da maioria dos profissionais que trabalham nestas áreas.

Uma referência ainda ao que deve ser um princípio não negociável, a inclusão em todos os domínios da vida das comunidades.

É verdade que a questão da inclusão, em particular da inclusão em educação, é presença regular nos discursos actuais. É objecto de todas as apreciações, ilumina todas as perspectivas e acomoda todas as práticas, incluindo a “entregação” que manifestamente não promove inclusão, antes pelo contrário. Apesar do bom trabalho que existe e deve ser sublinhado, por vezes, demasiadas vezes, confunde-se colocação educativa, crianças com necessidades especiais na sala de aula regular, com inclusão. Aliás, até a exclusão de muitos alunos da sala de aula e das actividades comuns é frequentemente realizada … em nome da inclusão. E não acontece nada. A situação dura e já longa que atravessamos veio agudizar a situação.

O termo está tão desgastado que já nem sabemos bem o que significa. Não esqueço o que positivo se faz, mas também não esqueço tantas práticas e tantos discursos que alimentam exclusão e que são desenvolvidas e enunciados ... em nome da inclusão. Tantas vezes me lembro do Mestre Almada Negreiros que na "Cena do Ódio" falava da "Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões".

A inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.

Não é por muito afirmar a a inclusão que a educação ou o quotidiano se tornam inclusivos, o pensamento mágico tantas vezes expresso não é a realidade.

As pessoas com deficiência não precisam de tolerância, não precisam de privilégios, não precisam de caridade, precisam só de ver os seus direitos considerados. Os direitos não são de geometria variável cumprindo-se apenas quando é possível.

Este é o caderno de encargos que nos convoca a todos, todos os anos, todos os dias. 

segunda-feira, 27 de março de 2023

ESCOLA MAIS TARDE OU MAIS E MELHORES HORAS DE SONO?

 No Público entra-se uma peça interessante na qual, citando alguma evidência, se associa um melhor desempenho escolar a um começo mais tardio das aulas, sobretudo no que respeita a adolescentes e jovens adultos.

Pensando sobretudo nos mais novos creio que a questão mais relevante se prende com as horas e qualidade do sono e menos com a hora a que as aulas começam. No entanto, parece claro que, dou o exemplo do meu neto que no 1º ano e frequentando uma escola em funcionamento desdobrado entrava às 8h o que não é uma situação favorável ao bem-estar e disponibilidade para a aprendizagem e para a ensinagem.

Também sabemos que a cultura e a geografia se relacionam com as rotinas diárias pelo que fixar uma hora “ideal” para iniciar as aulas não parece uma tarefa fácil.

Do meu ponto de vista a questão mais relevante será as horas de sono e a sua qualidade que crianças adolescentes e jovens usufruem e é, como muitas vezes aqui tenho referido, uma questão negligenciada em muitas famílias e com impacto no rendimento e comportamento escolar dos mais novos.

Retomo algumas notas que há pouco tempo aqui deixei a propósito do por aqui tenho referido e que também abordo em muitas conversas com pais.

Em 2021 foi publicado na "Sleep Medicine" o estudo, “Home vs. bedroom media devices: socioeconomic disparities and association with childhood screen-and sleep-time”, realizado Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da U. de Coimbra.

A investigação envolveu 8.430 crianças, entre os 3 e os 10 anos de escolas públicas e privadas e evidenciou, em linha com o que já se conhece, que a presença de dispositivos electrónicos no quarto das crianças ou a sua utilização diária prolongada provocam uma diminuição significativa no tempo de sono das crianças.

Um dado relevante é que, apesar de serem as famílias com mais elevado estatuto socioeconómico as que detêm mais recursos digitais é nas famílias menos favorecidas que predomina o seu uso no quarto. Uma hipótese explicativa, segundo os autores, remeterá para uma menor literacia digital destas famílias e menor conhecimento dos riscos associados à utilização excessiva.

A qualidade e higiene do sono são, de facto, matérias de grande importância no bem-estar e qualidade de vida das pessoas e em todas as idades. No entanto nem sempre têm a atenção devida, sobretudo no que respeita aos mais novos.

Recordo um estudo, já de 2016, realizado pela Universidade do Minho que sugere que cerca de 72% de mais de quinhentas crianças e adolescentes inquiridos, dos 9 aos 17, dormem menos do que seria recomendável para as suas idades. Aliás, estudos liderados pela Professora Teresa Paiva, uma conhecida especialista nesta área, vão no mesmo sentido.

E, de uma forma geral, para além das questões ligadas aos estilos de vida e às rotinas, uma das causas apontadas é a presença de aparelhos como computadores, tablets ou smartphones no quarto.

O período de confinamento e sobrevalorização da presença dos dispositivos digitais no dia-a-dia que continua a acentuar-se coloca algumas preocupações que este estudo vem de novo sublinhar.

Em 2013, um trabalho da University College of London mostrava o impacto negativo que a ausência de rotinas como deitar à mesma hora podem ter no bem-estar e saúde das crianças afectando, por exemplo, o processamento da aprendizagem.

Esta questão, os padrões e hábitos de sono das crianças e dos adolescentes, é algo de importante que nem sempre parece devidamente considerada como se constata em muitas conversas com pais de crianças e adolescentes.

A falta de qualidade do sono e do tempo necessário acaba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes, incluindo o rendimento e comportamento escolar. Todos nos cruzamos frequentemente nos Centros Comerciais, por exemplo, com crianças, mais pequenas ou maiores, a horas a que deveriam estar na cama e que, penosa, mas excitadamente, deambulam atreladas aos pais.

Alguma evidência sugere que parte das alterações verificadas nos padrões e hábito relativos ao sono remete para questões ligadas a stresse familiar e sublinha o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.

As situações de stresse familiar serão importantes, mas parece-me necessário não esquecer alguns aspectos relacionados com os estilos de vida, com as rotinas ou com a utilização nem sempre regulada das novas tecnologias. Muitos trabalhos mostram também que boa parte das crianças e adolescentes que acedem a computador ou smartphone o fazem no quarto como também o sugere o trabalho agora divulgado.

Assim, acontece que durante o período que seria dedicado ao sono, sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes continuam diante de um ecrã. Como é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.

Creio que, com alguma frequência, alguns comportamentos e dificuldades escolares dos miúdos, sobretudo nos mais novos que por vezes, sublinho por vezes, são de uma forma aligeirada remetidos para problemas como hiperactividade ou défice de atenção, podem estar associados aos seus estilos de vida ou aos modelos educativos, universo onde se incluem os hábitos e padrões de sono como, aliás, alguns estudos e a experiência de muitos profissionais parecem sugerir.

Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para estas questões e que apesar a utilização imprescindível e útil destes dispositivos seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.

A experiência diz-me que muitos pais desejam e mostram necessidade de alguma ajuda ou orientação nestas matérias.

domingo, 26 de março de 2023

MERECE LEITURA, "DA ENGRENAGEM QUE ISOLOU OS PROFESSORES"

 Merece leitura e, sobretudo, reflexão o texto de Paulo Prudêncio no Público, “Da engrenagem que isolou os professores”.

Não há volta a dar, o futuro da educação passa inevitavelmente pela revalorização da função docente em todas as suas dimensões. Trata-se de uma tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política.

Esta valorização é uma ferramenta imprescindível e constitui-se como uma das variáveis contributivas para a qualidade dos sistemas educativos.

sábado, 25 de março de 2023

DO FESTIVAL DA GRELHA

 Por aqui no Alentejo vive um dos primeiros dias de calor ainda manso, mas saboroso. Esperemos que não anuncie um tempo longo sem chuva.

Com o aproximar do Verão acentua-se o recurso a algo de grande consumo que, felizmente, não existe qualquer dificuldade em conseguir, as fontes são imensas. Refiro-me a grelhados, ao festival da grelha que acontece permanentemente  nas nossas comunidades.

Somos um país especialista na utilização da grelha e temos muitos mestres de feitura de grelhas, desde as mais simples que servem para grelhar pouca coisa, até às mais complexas que conseguem grelhar o que quer que seja.

Apesar de toda a gente se queixar do excesso de grelhados, do trabalho e do tempo que o uso das grelhas consome, a verdade é que por várias razões não conseguimos passar sem elas. Ao fim e ao cabo são muitos anos a assar, perdão a grelhar …

Como sempre, não haverá nada ou que não possa caber numa grelha, as grelhas acomodam tudo, são verdadeiramente inclusivas.

Algumas acomodam produtos universais e têm grande divulgação, outras são um pouco mais selectivas, grelham produtos mais particulares. Para que tudo possa ser grelhado ainda existem grelhas mais dirigidas a produtos adicionais, são de natureza mais específica e não cabem nas outras grelhas.

Os produtores de grelhas inovam diariamente, de forma criativa e desenvolvem uma azáfama sem fim e depois, bom depois é grelhar, grelhar, grelhar. Dos mais pequenos aos maiores todos têm de grelhar ou ser grelhados.

No entanto, em nome do bem-estar seria desejável que não exagerássemos no recurso aos grelhados até porque ... nunca se consegue grelhar tudo o que se acredita que deve ser grelhado, nem que se entende que deve ser grelhado.

Será que conseguimos?

 

PS – Se estas notas sugerirem a pressão “grelhadora” e a burocracia asfixiante a que habitualmente escolas e professores estão sujeitos não é coincidência.

sexta-feira, 24 de março de 2023

A QUALIFICAÇÃO É IMPRESCINDÍVEL, MAS ESTUDAR É MUITO CARO

 A propósito do Dia Nacional do Estudante, há um sempre uma marca no calendário para alertar as consciências, na imprensa encontram-se várias referências à enorme dificuldade sentida pelos alunos do superior e respectivas famílias para frequentar o ensino superior. Para além do montante das propinas, os custos com alojamento e alimentação atingem valores impossíveis de aceder para muitas famílias. O cenário é de falta de oferta, o mercado turístico é bem mais atractivo mais atractivo e sendo geral é ainda gravoso em Lisboa e Porto.

É também sabido que atravessamos um período muito duro para as famílias com impacto significativo em termos económicos pelo que podemos falar de “tempestade perfeita”.

Neste ano lectivo registou-se no ensino superior o segundo maior contingente de alunos colocados o que é de sublinhar. No entanto, verificou-se que 10% dos alunos colocados não se inscreveram.

Também sabemos que o abandono escolar no final do 1º ano no ensino superior aumentou em 20/21. Dos alunos que ingressaram num curso técnico superior, 24,4% tinham abandonado no final do primeiro ano face a 18,7% no ano anterior. Nas licenciaturas passou de 9,1% para 10,8%.

Todo este contexto vem mostrar que, apesar da qualificação ser um bem de primeira necessidade e um forte contributo para projectos de vida bem-sucedidos, existe uma questão de natureza estrutural, estudar no ensino superior é muito caro em Portugal. A recente alteração do regulamento de atribuição de bolsas não minimizou esta situação.

Algumas notas começando por alguns dados que já aqui tenho citado.

De acordo com Relatório do CNE, "Estado da Educação 2019", a percentagem de alunos que em Portugal acede a bolsas de estudo para o 1º ciclo está no segundo escalão mais baixo da análise, entre 10 e 24,9%. Para comparação, Irlanda, Países Baixos estão no intervalo entre 25% e 49,9% e a Suécia no superior a 75%. Países como Espanha, França, Reino Unido e muitos outros têm percentagens de alunos com apoio superiores a nós e, sem estranheza, também maior nível de qualificação.

Em 2018 foi divulgado um estudo já aqui citado, “O Custo dos Estudantes no Ensino Superior Português” da responsabilidade do Instituto de Educação da U. de Lisboa, relativo ao ano lectivo de 2015/2016 mostrando que cada estudante universitário gastou em média 6445€ em despesas como propinas, material escolar, alojamento ou alimentação. Os alunos de instituições universitárias privadas têm uma despesa perto dos 10000€ e nos politécnicos privados o custo será de 8296€. De facto, sendo a qualificação superior um bem de primeira necessidade para os cidadãos e para o país, é um bem muito caro, demasiado caro para muitas famílias e indivíduos.

Estudos comparativos internacionais, “Social and Economic Conditions of Student Life in Europe” por exemplo, também mostram que as famílias portuguesas são das que suportam uma fatia maior dos custos de frequência do superior sendo que ainda se verifica uma forte associação entre a frequência do ensino superior e nível de escolarização e estatuto económico das famílias.

Apesar de um abaixamento do valor as propinas no ensino público, as dificuldades sentidas por muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado com valores bem mais altos de propinas, são, do meu ponto de vista, consideradas frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.

A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.

quinta-feira, 23 de março de 2023

NOTÍCIAS DA CHAMADA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

 O Ministro da Educação em intervenção recente na comissão parlamentar de Trabalho, Segurança Social e Inclusão sobre a situação da designada educação inclusiva, a operacionalização do incontornável DL 54/2018, desenhou um quadro muito positivo do trabalho realizado pelo ME permitindo que nas escolas as coisas corram bem. Algumas notas arrumadas em lado A e lado B.

De acordo com o Ministro, mais de metade das turmas, 55,6%, têm 20 alunos, foram criadas mais 4959 turmas devido à redução do efectivo de turma, aumentaram substantivamente o número de professores de educação especial, de psicólogos e outros técnicos e estão em curso mudanças que optimizarão o processo de transição pós cumprimento da escolaridade obrigatória. Fiquei entusiasmado e com interesse em ver as fontes destes indicadores.

Em Abril de 2022 foi divulgado pela OCDE o trabalho, “Review of Inclusive Education in Portugal” que, com base numa análise a seis agrupamentos e a que na altura fiz referência, encontrou “um ambiente genuinamente inclusivo” e em linha com a apreciação de que a legislação portuguesa relativa à promoção de educação inclusiva é “das mais abrangentes dos países da OCDE. Pensei naqueles agrupamentos e escolas onde tudo vai bem, muito bem. Só lamento pelos outros.

Aliás, recupero o que será certamente uma fonte de inspiração para o ME. No 2.º Encontro Nacional de Autonomia e Flexibilidade Curricular realizado em Abril de 2022, Amapola Alama, especialista da UNESCO, afirmou, "Vocês são o 'Rolls-Royce' dos sistemas de educação. Estão entre os 40 países de topo no mundo da educação". É bonito e gosto da imagem. A questão é que se, felizmente, muitos alunos andarão no “Rolls Royce”, muitos outros andam de bicicleta ou a pé, mas será, provavelmente, por razões ambientais.

Vejamos agora o lado B.

Num levantamento realizado no início deste ano lectivo pela Fenprof com a colaboração de direcções de agrupamentos e de acordo com a Fenprof foram referenciadas diferentes questões. Existirão múltiplas situações em que o limite de alunos com necessidades educativas especiais por turma não é cumprido, sendo que em turmas de 1º ciclo com diferentes com alunos de diferentes anos de escolaridade as dificuldades agravam-se.

É referida a insuficiência e docentes, de técnicos (psicólogos e terapeutas) e mantém-se a carência de auxiliares que acompanhem os alunos “dentro e fora da sala de aula”.

Também é questionado o modelo de funcionamento e financiamento dos Centros de Recurso para a Inclusão.

Ainda considerando dados divulgados também pela Fenprof em Julho de 2022 e recolhidos junto  de 80 agrupamentos de escolas, cerca de 10% do total dos estabelecimentos de ensino, regista-se que entre os mais de 89 mil alunos das escolas inquiridas, 5544 beneficiam de medidas selectivas ou adicionais e a maioria (81,7%) passa mais de 60% do tempo lectivo em sala de aula. O problema é que muitos não têm apoio especializado.

De acordo com os resultados do inquérito, 40% dos alunos com necessidades especiais não têm qualquer apoio directo do docente de educação especial, que apenas aconselha o professor da turma.

Também um relatório da Inspecção-Geral de Educação e Ciência, “Organização do ano lectivo 2020-2021”, que na altura aqui referi, realizado em 97 escolas ou agrupamentos mostrou que em 30,8% das turmas de 5º ano com alunos com relatório técnico-pedagógico o limite de dois alunos por turma não era cumprido. Também 12,4% das escolas avaliadas não conseguem operacionalizar todas as medidas de apoio definidas nos relatórios técnico-pedagógicos. As direcções referem a insuficiência de recursos humanos adequados.

Como tenho afirmados e escrito inúmeras vezes, acompanhei com esperança e expectativa a mais do que necessária, reafirmo, mudança legislativa desencadeada no âmbito da Educação Inclusiva que se traduziu no DL 54/2018 ele próprio associado a todo um quadro de mudança envolvendo, designadamente a definição do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, das Aprendizagens Essenciais ou o Decreto-Lei n.º 55/2018 relativamente ao currículo. Todo este edifício potenciaria a inovação, a mudança de paradigma, de vários paradigmas aliás, e alguns falavam mesmo da revolução que estava em marcha e anunciavam os amanhãs que cantam que se foram encontrando, aparentemente, em algumas escolas visitadas pelo Senhor Ministro.

Com confiança em algumas virtudes do novo quadro aguardei expectante pela revelação da escola inclusiva de 2ª geração. No entanto, para meu desconforto e cansaço, o que fui conhecendo e vai sendo divulgado não me ajudou a perceber o que seria.

Continuo a verificar que, tal como aconteceu com o velho 319/91, (nesta altura eu já trabalhava neste universo há 15 anos), quer com o 3/2008 e depois com o  actual 54/2018 existiam e existem professores e escolas a realizar trabalhos notáveis que devem ser conhecidos e reconhecidos.

A avaliação dos alunos, a definição dos apoios nas diferentes tipologias (já usadas como categorização uma vez que a outra categorização já não existe), o funcionamento das Equipas, os recursos disponíveis, a organização da intervenção, os papéis ou a articulação dos intervenientes continuam com inúmeros sobressaltos. Recebo muitos testemunhos e dados mais robustos conhecidos também não são particularmente animadores como relatórios da IGEC.

Apesar de agora estar mais desligado em termos profissionais, o interesse e a paixão por este universo mantêm-se e apesar do cansaço, sempre me animo quando conheço situações muito positivas que, felizmente, acontecem todos os dias em tantas escolas.

Não quero fazer o papel do miúdo que diz que o “rei vai nu”, primeiro porque já não tenho idade para isso e, segundo, porque não seria de todo justo.

Não queria repetir, sei existem muitas coisas muito bonitas, mas … nem tudo vai bem. Não torturem a realidade que ela não vai confessar.

Há muito que fazer, muito para caminhar.

PS - Talvez já vá sendo tempo de não insistir no uso da designação "educação inclusiva" para referir a educação dos alunos que têm algum tipo de dificuldade e que se encaixam nas novas "categorias", os "universais", os "selectivos" e os "adicionais" criadas pelo DL 54, a educação inclusiva é de todos e, portanto, deveria ser “apenas” educação.

quarta-feira, 22 de março de 2023

TELEMÓVEIS E BEM-ESTAR

 No DN encontra-se a referência a um trabalho interessante realizado por investigadores do ISCTE e do Instituto Cultura y Sociedad da Universidade de Navarra, sobre a utilização do telemóvel por jovens adultos.

Um primeiro dado relevante mostra, sem surpresa, uma maior propensão dos mais jovens para a utilização do telemóvel para fins sociais o que poderá associar-se ao desenvolvimento de comportamentos aditivos que já surgem de forma significativa e preocupante.

É também de considerar que 30,1% dos inquiridos revelam ter uma utilização problemática do telemóvel e destes,  41,9% expressam níveis de bem-estar baixos.

O trabalham revelou o utilização média diária do telemóvel durante 5 horas e 35 minutos, e a troca de mensagens é a actividade mais recorrente, 2 horas e 27 minutos.

São múltiplos os estudos que evidenciam indicadores desta natureza o que pode ser considerado mais um sinal dos tempos e sublinham a necessidade de estarmos atentos à utilização excessiva destes equipamentos e aos riscos associados.

Apesar deste aparato comunicacional e sem querer minimizar os óbvios e imensos lados positivos deste fenómeno creio, no entanto, que muitas crianças, adolescentes, jovens e adultos, mascaram o mal-estar e a solidão em que vivem e ou que sentem através, por exemplo, da troca de centenas de SMS que, em algumas circunstâncias, são mais SOS que SMS, ou seja, no fundo dirão "Sinto-me Muito Só e tu?"

Creio que precisamos de estar mais atentos para que o mundo da comunicação através de SMS, ou das redes sociais da net, não substitua o mundo da comunicação real, entre pais e filhos, por exemplo, ou entre as pessoas de uma forma geral. Os riscos, conforme o estudo citado acima, são claros.

terça-feira, 21 de março de 2023

TEMPOS ESTRANHOS E INQUIETANTES

 Vão estranhos e inquietantes os tempos da educação. A tempestade que de há muito se anunciava e o falhanço de muitas dimensões das políticas públicas de educação e das que interagem com a educação produziram este cenário.

Desde Setembro que vamos assistindo a um processo de reivindicação por parte dos professores por razões que claramente deveriam estar resolvidas há tempo, São justas, são imprescindíveis à valorização necessária da carreira docente e à capacidade de atrair novos actores que compensem o abandono e o envelhecimento que se verifica.

Contrariamente a muitas expectativas pais e encarregados de educação têm vindo a manifestar solidariedade para com este processo apesar das alterações que a sua vida familiar e a guarda dos filhos em tempos de greve vai conhecendo.

As greves desenvolvem-se em modelos pouco habituais e imprevisíveis.

As negociações parecem negar aquilo que é central numa negociação, ou seja, desculpem, negociar.

Sucedem-se diariamente as manifestações que sublinham o enorme desencanto e mal-estar da classe docente.

O ME parece comprometido com o arrastar da situação esperando, desejando, eventualmente, que o cansaço e a falta de apoio que possa ser gerado travem, esvaziem, o processo em curso. O ME sabe que se existe algo difícil de travar é o ter razão.

De forma bizarra, mas que me parece claramente intencional, o ME delega nos directores escolares a agenda da próxima reunião, ia escrever de negociação, mas não me atrevo.

Os miúdos vão andando por aí, entre as aulas que não têm, as que têm fruto de uns serviços mínimos para cujo cumprimento os directores reclamam apoio jurídico, expectativa sobre as avaliações que podem não ter, o apoio e aos professores que os mais velhos subscrevem.

A imprensa, genericamente, trata tudo isto em modo A (Agenda) embora tenham surgido algumas vozes fora do alinhamento mais habitual, o que se saúda.

Escrevi o texto nestes termos depois de ontem, ao passar pelo Pragal e comentar o que estava a acontecer, ter de montar uma sessão de esclarecimento para o meu neto, aluno do 4º ano. Não foi fácil.

Não sei o que vai acontecer nos próximos dias, mas como já escrevi, as políticas públicas são para as pessoas, para as comunidades. A história não vos absolverá, nem que cheguem a reitores ou reitoras.

segunda-feira, 20 de março de 2023

DA CORRIDA DE OBSTÁCULOS. MAIS UMA VEZ

 No JN encontra-se uma peça com um expressivo título, “Cidades pouco inclusivas aprisionam cegos em casa

Existem matérias que muito provavelmente nunca sairão da agenda de preocupações. As dificuldades sentidas por pessoas com deficiência na sua vida diária e em múltiplas dimensões constituem uma dessas questões.

Como tantas vezes aqui tenho escrito e certamente voltarei a fazê-lo, o quotidiano de muitos cidadãos com deficiência e, em particular, com mobilidade reduzida transforma-se numa contínua corrida de obstáculos na generalidade dos nossos espaços urbanos.

De facto, é recorrente a chamada de atenção para estas questões por parte de cidadãos e associações, mas apesar de algumas mudanças e da existência de enquadramento legislativo mais adequado, a realidade é ainda muito pouco amigável para a qualidade de vida de muitas pessoas.

Recordo que em Fevereiro de 2020 foi divulgado um relatório sobre acessibilidades em edifícios públicos elaborado pela Comissão para a Promoção das Acessibilidades e os dados mostraram como, apesar da legislação, são múltiplas as dificuldades no acesso de pessoas com mobilidade reduzida aos edifícios em que funcionam serviços públicos.

Como exemplo, em 45% dos edifícios públicos com mais do que um andar não há elevadores ou plataformas elevatórias, 42% destes edifícios não têm lugar reservado para pessoas com deficiência e apenas 64% têm balcões de atendimento adaptados do ponto de vista da altura.

Como referi em cima e acontece em outras áreas, a legislação portuguesa é positiva e promotora dos direitos das pessoas com deficiência, mas a sua falta de eficácia e operacionalização é bem evidenciada na tremenda dificuldade que milhares de pessoas experimentam no dia-a-dia que decorre, frequentemente, da falta de fiscalização relativa às questões das acessibilidades e barreiras nos edifícios. O relatório citado confirma-o.

Os problemas das minorias são, evidentemente, problemas minoritários.

Para além dos edifícios a questão da mobilidade e das acessibilidades que afecta muitos cidadãos com deficiência envolve áreas como vias, transportes, espaços, mobiliário urbano e, sublinhe-se, a atitude e comportamento de muitos de nós.

Boa parte dos nossos espaços urbanos não são amigáveis para os cidadãos com necessidades especiais mesmo em áreas com requalificação recente. Estando atentos identificam-se inúmeros obstáculos.

Quantas passadeiras para peões têm os lancis dos passeios rampeados ou rebaixados ajustados à circulação de pessoas com mobilidade reduzida que recorrem a cadeira de rodas?

Quantas passadeiras possuem sinalização amigável para pessoas com deficiência visual?

Quantos obstáculos criados por mobiliário urbano desadequado?

Quantas dificuldades no acesso às estações e meios de transporte público?

Quantas caixas Multibanco são acessíveis a pessoas com cadeira de rodas?

Quantos passeios estão ocupados pelos nossos carrinhos, com mobiliário urbano erradamente colocado, degradado, que criam dificuldades enormes e insegurança a toda a gente e em particular a pessoas com mobilidade reduzida ou com deficiência visual?

Quantos programas televisivos ou serviços públicos disponibilizam Língua Gestual Portuguesa tornando-os acessíveis à população surda?

Quantos Centros de Saúde ou outros espaços da Administração central ou local criam problemas de acessibilidade?

Quantos espaços de lazer ou de cultura mantêm barreiras arquitectónicas?

Quantos estabelecimentos comerciais de múltipla natureza são, na prática inacessíveis a pessoas com mobilidade reduzida?

Reafirmo algo que recorrentemente subscrevo, os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com as minorias e as suas problemáticas. Por quanto tempo precisaremos de o relembrar?

domingo, 19 de março de 2023

PORQUE HOJE ... É HOJE

 Porque hoje … é hoje. Ao longo da narrativa que vamos escrevendo creio que todos já nos cruzámos com pessoas que, por uma razão ou por outra, ficam para sempre connosco.

Por vezes, acho que nem sabemos explicar porquê, apenas sentimos que são boas para nós, fazem-nos bem. Existe uma espécie de indizível razão, ou razões, para que isso aconteça. Chamo-lhes Pessoas Sol.

Apesar da banalidade da imagem, peço desculpa, quase sempre têm a enorme capacidade de tornar claro, de iluminar o mundo através dos seus olhos e das suas falas. São assim uma espécie de bússola ou, quando à distância, uma espécie de farol que baliza o rumo. Também funcionam como porto de abrigo a que voltamos quando as águas da vida andam mais turbulentas.

São pessoas que sempre nos ocorrem quando o mundo pesa e pensamos, fazia-nos falta a Pessoa Sol. Acontece até que talvez nem precisassem de falar, bastava que estivessem e o mundo pareceria melhor.

Tenho a certeza que as Pessoas Sol para conseguirem iluminar por fora, para fora, são iluminadas por dentro, são sábias, são mestres, são serenas. São tão sábias que são capazes de nos mostrar o que nunca viram.

Hoje, sem ser por acaso, lembrei-me do meu pai e da minha avó Leonor, duas Pessoas Sol que me mostraram a minha estrada e há muito que cumpriram a sua.

sábado, 18 de março de 2023

DA DESMATERIALIZAÇÃO NO ENSINO

 A propósito da transição digital, da desmaterialização na área da educação, trajecto que, do meu ponto de vista, deve ser ponderado, tranquilo, com recursos atempados e não à boleia do deslumbramento, uma história.

Um dia destes a Sara, professora de gente pequena, encontrou-se no bar da escola com o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros. A conversa, para não variar, foi sobre o trabalho de ensinar e aprender.

Estava a lembrar-me da reunião que ontem tivemos. Velho, que me dizes sobre a utilização cada vez mais presente dos computadores com os gaiatos pequenos, agora até as provas de aferição serão em formato digital? Estás contra ou a favor?

Na minha idade já nem sempre consigo estar de forma definitiva, contra ou favor de muitas coisas. A questão dos computadores na sala de aula com os miúdos pequenos é um exemplo, acho que não se pode discutir assim.

Então?

Como é evidente os computadores e os recursos digitais fazem parte da nossa vida em múltiplas dimensões. Assim sendo, considerando que a escola deve lidar e colocar os miúdos a lidar com as coisas da vida, os recursos digitais devem aparecer e integrar-se, no trabalho "sério" ou nas brincadeiras, é uma questão de bom senso e de mudança necessária e é fundamental que envolva todos os alunos, que os recursos sejam suficientes. Por outro lado, quando se começa a mexer nas letras, a juntá-las e a escrever, parece-me muito importante que as mãos escrevam, desenhem as letras, construam as histórias. Às vezes dizem que os miúdos se motivam mais porque os computadores são inovadores. É um equívoco, os miúdos motivam-se por aquilo que gostam e aprendem a gostar. E para aprender a gostar também é preciso saber fazer. Repito, parece-me essencial que as mãos conheçam as letras, como elas se desenham, como elas se juntam e o que elas são capazes de dizer. Utilizar o computador será útil para algumas outras tarefas ou actividades que não substituem escrever e construir textos com as mãos. Aliás creio que mesmo nós, adultos, ainda utilizamos o escrever à mão em múltiplas situações.

Sabes que tanto como a cabeça ensina as mãos, as mãos ensinam a cabeça. Quando as mãos e a cabeça aprendem e sabem, então o computador também já pode ser uma caneta. Dá para entender Sara? É por isso que estou contra e a favor do uso dos computadores pelos gaiatos pequenos ou, se preferires, a favor e contra.

Parece simples Velho.

Mas não é, temos de procurar equilíbrio e os recursos para que ferramentas que se integram no processo de ensino e aprendizagem não criem problemas à aprendizagem e ao ensino.

sexta-feira, 17 de março de 2023

MIÚDOS COM SONO

 Na passagem de olhos pela imprensa dei conta de que no calendário das consciências se assinala hoje o Dia Mundial do Sono. Porque assim é, algumas notas sobre os hábitos de sono dos mais novos matéria que me parece importante e que nem sempre tem a atenção que deveria. Retomo algumas notas que por aqui tenho referido e que também abordo em muitas conversas com pais.

Em 2021 foi publicado na "Sleep Medicine" o estudo, “Home vs. bedroom media devices: socioeconomic disparities and association with childhood screen-and sleep-time”, realizado Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da U. de Coimbra.

A investigação envolveu 8.430 crianças, entre os 3 e os 10 anos de escolas públicas e privadas e evidenciou, em linha com o que já se conhece, que a presença de dispositivos electrónicos no quarto das crianças ou a sua utilização diária prolongada provocam uma diminuição significativa no tempo de sono das crianças.

Um dado relevante é que, apesar de serem as famílias com mais elevado estatuto socioeconómico as que detêm mais recursos digitais é nas famílias menos favorecidas que predomina o seu uso no quarto. Uma hipótese explicativa, segundo os autores, remeterá para uma menor literacia digital destas famílias e menor conhecimento dos riscos associados à utilização excessiva.

A qualidade e higiene do sono são, de facto, matérias de grande importância no bem-estar e qualidade de vida das pessoas e em todas as idades. No entanto nem sempre têm a atenção devida, sobretudo no que respeita aos mais novos.

Recordo um estudo, já de 2016, realizado pela Universidade do Minho que sugere que cerca de 72% de mais de quinhentas crianças e adolescentes inquiridos, dos 9 aos 17, dormem menos do que seria recomendável para as suas idades. Aliás, estudos liderados pela Professora Teresa Paiva, uma conhecida especialista nesta área, vão no mesmo sentido.

E, de uma forma geral, para além das questões ligadas aos estilos de vida e às rotinas, uma das causas apontadas é a presença de aparelhos como computadores, tablets ou smartphones no quarto.

O período de confinamento e sobrevalorização da presença dos dispositivos digitais no dia-a-dia que continua a acentuar-se coloca algumas preocupações que este estudo vem de novo sublinhar.

Em 2013, um trabalho da University College of London mostrava o impacto negativo que a ausência de rotinas como deitar à mesma hora podem ter no bem-estar e saúde das crianças afectando, por exemplo, o processamento da aprendizagem.

Esta questão, os padrões e hábitos de sono das crianças e dos adolescentes, é algo de importante que nem sempre parece devidamente considerada como se constata em muitas conversas com pais de crianças e adolescentes.

A falta de qualidade do sono e do tempo necessário acaba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes, incluindo o rendimento e comportamento escolar. Todos nos cruzamos frequentemente nos Centros Comerciais, por exemplo, com crianças, mais pequenas ou maiores, a horas a que deveriam estar na cama e que, penosa, mas excitadamente, deambulam atreladas aos pais.

Alguma evidência sugere que parte das alterações verificadas nos padrões e hábito relativos ao sono remete para questões ligadas a stresse familiar e sublinha o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.

As situações de stresse familiar serão importantes, mas parece-me necessário não esquecer alguns aspectos relacionados com os estilos de vida, com as rotinas ou com a utilização nem sempre regulada das novas tecnologias. Muitos trabalhos mostram também que boa parte das crianças e adolescentes que acedem a computador ou smartphone o fazem no quarto como também o sugere o trabalho agora divulgado.

Assim, acontece que durante o período que seria dedicado ao sono, sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes continuam diante de um ecrã. Como é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.

Creio que, com alguma frequência, alguns comportamentos e dificuldades escolares dos miúdos, sobretudo nos mais novos que por vezes, sublinho por vezes, são de uma forma aligeirada remetidos para problemas como hiperactividade ou défice de atenção, podem estar associados aos seus estilos de vida ou aos modelos educativos, universo onde se incluem os hábitos e padrões de sono como, aliás, alguns estudos e a experiência de muitos profissionais parecem sugerir.

Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para estas questões e que apesar a utilização imprescindível e útil destes dispositivos seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.

A experiência diz-me que muitos pais desejam e mostram necessidade de alguma ajuda ou orientação nestas matérias.

quinta-feira, 16 de março de 2023

AGRESSÃO A UM PROFESSOR, ENÉSIMO CASO

 Com alguma frequência, demasiada frequência, aqui escrevo sobre ou a propósito de situações de violência dirigida a professores realizada por alunos ou encarregados de educação (serão mesmo de educação?!). Desta vez aconteceu na Escola EB 2,3 e Secundária de Baião. O director-adjunto foi agredido com severidade por um aluno de 14 anos quando procurava evitar que este agredisse um outro professores.

Andam negros os tempos para os professores. Sempre que escrevo sobre esta questão, agressões ou insultos a professores e dadas as circunstâncias faço-o com regularidade, é sempre com preocupação e mal-estar, mas creio que é preciso insistir.

As notícias sobre agressões a professores, cometidas por alunos ou encarregados de educação, continuam com demasiada frequência embora nem todos os episódios sejam divulgados. Aliás, são conhecidos casos de direcções que desincentivam as queixas dado o “incómodo” e “publicidade negativa” para a escola que trará a divulgação.

Os testemunhos de professores vitimizados são perturbadores e exigem atenção e intervenção.

Cada um dos recorrentes episódios é, obviamente, um caso de polícia, mas não pode ser “apenas” mais um caso de polícia e julgo que, mais do que ser notícia, importaria reflectir nos caminhos que seguimos.

Esta matéria, embora seja objecto de rápidos discursos de natureza populista e securitária, parece-me complexa e de análise pouco compatível com um espaço desta natureza. Apenas umas notas repescadas.

Começo por uma breve reflexão em torno de três eixos: a imagem social dos professores, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade que me parecem fortemente ligados a este fenómeno.

Já aqui tenho referido que os ataques, intencionais ou não, à imagem dos professores, incluindo parte do discurso de gente dentro do universo da educação que tem, evidentemente, responsabilidades acrescidas e também o discurso que muitos opinadores profissionais, mais ou menos ignorantes ou com agendas implícitas, produzem sobre os professores e a escola, contribuíram para alterações significativas da percepção social de autoridade dos professores, fragilizando-a seriamente aos olhos da comunidade educativa, sobretudo, alunos e pais. Os últimos tempos têm sido, aliás, elucidativos.

Esta fragilização tem, do meu ponto de vista, graves e óbvias consequências, na relação dos professores com alunos e pais.

No entanto, importa registar que a classe docente é dos grupos profissionais em que os portugueses mais confiam o que me parece relevante.

Em segundo lugar, tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade. Os professores, entre outras profissões, polícias ou profissionais de saúde, por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição de professores, como fontes de autoridade. Tal processo alterou-se, o facto de se ser professor, já não confere, só por si, “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de desrespeito ou de agressão. O mesmo se passa, como referi, com outras profissões em que também, por razões deste tipo, aumentam as agressões a profissionais da área da saúde, médicos e enfermeiros.

Finalmente, importa considerar, creio, o sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a grandes, o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”.

Considerando este quadro, creio que, independente de dispositivos de formação e apoio, com impacto quer preventivo, quer na actuação em caso de conflito, obviamente úteis, o caminho essencial é a revalorização da função docente tarefa que exige o envolvimento de toda a comunidade e a retirada da educação da agenda da partidocracia para a recolocar como prioridade na agenda política.

Definitivamente, a valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade sendo esta valorização uma das dimensões identificadas nos sistemas educativos mais bem considerados

É ainda fundamental que se agilizem, ganhem eficácia e sejam divulgados os processos de avaliação ou julgamento e a punição e responsabilização sérias dos casos verificados, o que contribuirá para combater, justamente, a ideia de impunidade.


quarta-feira, 15 de março de 2023

DO ARRASTAMENTO

 Leio no Público que não existe data marcada para continuação do processo negocial entre o ME e os representantes dos professores que, entretanto, divulgam novos calendários de prováveis paralisações.

Aparentemente, o arrastar deste processo é incompreensível… ou não.

Embora o ME não tenha um currículo sólido na realização de contas, parece claro que o tempo já passado seria mais do que suficiente para se perceba de forma clara o que em termos de custos será o impacto do que que é solicitado pelos professores, incluindo as alterações advindas da reforma de muitos milhares de professores que serão, seriam, substituídos por docentes mais novos e com estatuto salarial também ele mais baixo.

Não é conhecida a intenção por parte dos professores de não negociarem, é justamente o que têm afirmado continuam a afirmar.

A continuidade do processo de reivindicação tem impactos óbvios e de diferente natureza. para as comunidades educativas, professores, pais, técnicos e alunos.

Parece razoavelmente evidente que a situação de prolongamento “enrolado” não serve a ninguém, mas … pode servir ao ME.

Em 1 de Fevereiro, o Presidente da República, a propósito do processo de contestação já em curso, afirmou, “Há um momento em que a simpatia quanto à causa pode virar-se contra eles. Como se sabe, alguns trabalhos divulgados na imprensa referiam sondagens em que as reclamações dos docentes mereciam apoio por franja significativa dos inquiridos

Talvez possa ser este entendimento o orientador da gestão do processo negocial. Dito de outra maneira, com o tempo os professores poderão começar a ser mais fortemente criticados pela sua persistência e acabarão por ceder à pressão que a chamada “opinião pública” possa criar sobre a classe.

Teríamos assim um momento 2.0 do famigerado “Perdi os professores, mas ganhei os pais e a população”, proferido em 2006 pela então Ministra Maria de Lurdes Rodrigues também num contexto de contestação da classe docente.

Não gosto da ideia de que esta seja uma forma séria e responsável de gerir políticas públicas de educação.

Mas que as dúvidas são mais que muitas … são, lamentavelmente para toda a comunidade.

terça-feira, 14 de março de 2023

A LETRA BONITA

 Era uma vez uma Menina que, como todas as meninas, era diferente. Esta era mais diferente do que as outras, por assim dizer. Tinha mais dificuldades em aprender as coisas da escola, às vezes não se percebia logo o que queria dizer e muitas coisas não fazia mesmo ou fazia a muito custo e sem que fiquem muito perfeitas.

Porque a Menina cresceu, mudou de escola e na escola nova os professores e os colegas começaram a perceber que a Menina era um pouco diferente das outras. Quase sempre os miúdos percebem que ninguém é igual a ninguém e não estranham muito. Os mais crescidos assustam-se por vezes, porque acham que não saberão o que fazer com os meninos e meninas que são diferentes, mais diferentes. Às vezes também não sabem muito bem o que fazer com os que não são tão diferentes, mas isso é de outra história.

A Menina gostou imenso de mudar de escola, sentiu-se bem com os colegas e com os professores o que até surpreendeu um pouco pois esperava-se que se pudessem criar algumas dificuldades.

Um dia destes, uma das professoras da Menina sem se lembrar que ela era diferente, pediu-lhe para escrever qualquer coisa no caderno, tarefa que só com alguma ajuda poderia ser desempenhada. No entanto, muito tranquilamente, a Menina pediu à professora que escrevesse ela o que era solicitado. É que "a letra da professora é mais bonita" disse a Menina à sua maneira, sorrindo.

Os miúdos diferentes são inteligentes, nem sempre sabemos quanto.

segunda-feira, 13 de março de 2023

A LER, "PROFESSORES NOS CUIDADOS INTENSIVOS"

 Merece leitura e reflexão, em particular da tutela da Educação, o texto de Marco Bento no Público, “Professores nos cuidados intensivos”.

“(…) Para isso, na urgência da Educação em Portugal, que se ouçam e reconheçam os professores como profissionais qualificados, de forma a atrair jovens talentosos para a carreira docente e aumentar a motivação e satisfação dos professores que exercem a arte de educar com ética e sentido profissional. (…)”

Reafirmo o que por aqui tenho escrito. Os sistemas educativos considerados como tendo melhor qualidade, independentemente dos critérios de análise, são, em regra, os que mais valorizam os professores, em termos sociais, em termos profissionais e também no estatuto salarial.

A defesa da qualidade da educação e da escola, pública e também privada, passa incontornavelmente pela defesa e valorização das condições de trabalho, em diferentes dimensões, que possibilitem que o desempenho de escolas, professores, directores, técnicos, funcionários, alunos e pais tenha o melhor resultado possível.

O futuro passa pela educação e pela escola, donde ... abandonemos um tempo de serviços mínimos e criemos um tempo de entendimento, não precisa de ser máximo, apenas um entendimento justo.

domingo, 12 de março de 2023

JÁ NÃO AGUENTO

 

No Expresso encontra-se uma peça  inquietante sobre  o mal-estar entre os adolescentes.

De acordo com os indicadores registados no Hospital Dona Estefânia registaram-se 1116 tentativas de suicídio entre 2018 e 2021, sendo que em 2018 foram 226, em 2019 foram 237, baixaram no ano mais pesado da pandemia, 2020 com 129 e em 2021 subiram 464. Os indicadores para 2022 sugerem uma nova subida.

De acordo com os estudos da equipa clínica, os episódios envolvem sobretudo adolescentes com 15 e 16 anos, mas registam-se casos com crianças de 11 anos.

Todos os casos revelam, evidentemente, situações de mal-estar e em 33% parecem apresentar, de facto, ideação suicida.

São dados que requerem a maior atenção e estão em linha com outros indicadores de mal-estar entre os mais novos que tenho abordado com alguma regularidade e de que retomo algumas notas.

O mais recente estudo "A Saúde dos adolescentes Portugueses", o de 2022, que integra o estudo internacional Health Behaviour in School-aged Children, da responsabilidade da OMS, realizado de quatro em quatro anos e coordenado em Portugal pela excelente equipa da Aventura Social, de que destaco Margarida Gaspar de Matos e Tânia Gaspar foi divulgado no final de 2022 e envolveu 5809 alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos, uma amostra representativa destes anos de escolaridade. A natureza e diversidade dos dados encontrados justifica várias análises, mas recupero os indicadores relativos a adolescentes que se magoam a si próprios num quadro de mal-estar. Este comportamento é referido por 24,6% dos inquiridos, maioritariamente raparigas. Em 2018, último estudo, a percentagem era de 19,6%. Trata-se, de facto, de um dado inquietante e reflexo do mal-estar em muitos adolescentes que é coerente com outros indicadores do trabalho.

Alguns estudos internacionais apontam para cerca de 10% da população em idade escolar com comportamentos de automutilação pelo que os dados encontrados em Portugal são, de facto, preocupantes. Conheceremos melhor a situação comparativa quando estes dados forem cruzados com os de outros países envolvidos

Na verdade, os comportamentos de automutilação em adolescentes são mais frequentes do que muitas vezes pensamos e devem ser encarados com preocupação. E os casos que vão sendo conhecidos são apenas isso, os conhecidos, a ponta do iceberg.

É justamente por esta dimensão e as suas potenciais consequências que me parece fundamental entender tudo isto como um sinal muito forte do mal-estar que muitos adolescentes e jovens sentem e a verdade é que em muitas situações não conseguimos estar suficientemente atentos. Este mal-estar e o que daí pode emergir decorrem de situações de sofrimento com as mais diversas origens, relações entre colegas, bullying por exemplo nas suas diferentes formas ou relações degradadas na família que facilitam a instalação de sentimentos de rejeição, ausência de suporte social que serão indutoras de comportamentos autodestrutivos.

Começa também a surgir como causa deste mal-estar a dificuldade que algumas crianças e adolescentes sentem em lidar com situações de insucesso escolar. Estas dificuldades são frequentemente potenciadas pela pressão das famílias e pelo nível de competição que por vezes se instala.

Os tempos estão difíceis e crispados para muitos adultos e também para os miúdos a estrada não está fácil de percorrer.

Como disse, alguns vivem, sobrevivem, em ambientes familiares disfuncionais que comprometem o aconchego do porto de abrigo, afinal o que se espera de uma família.

Alguns percebem, sentem, que o mundo deles não parece deste reino, o mundo deles é um espaço, nem sempre um espaço físico, insustentável que, conforme as circunstâncias, é o inferno onde vivem ou o paraíso onde se acolhem e se sentem protegidos, mas perdidos.

Alguns sentem que o amanhã está longe de mais e que um projecto para a vida é apenas mantê-la ou que nem isso vale a pena.

Alguns convencem-se ou sentem que a escola não está feita para que nela caibam e onde podem ser vitimizados.

Alguns sentem que podem fazer o que quiserem porque não têm nada a perder e muito menos acreditam no que têm a ganhar fazendo diferente.

Alguns transportam diariamente um fardo excessivamente pesado e que os torna vulneráveis.

Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa, mas é necessário pois muitos destes adolescentes e jovens terão evidenciado no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa ou na escola, espaço onde passam boa parte do seu tempo. Aliás, alguns testemunhos ouvidos no âmbito dos recentes e mediatizados casos mostram isso mesmo.

De facto, em muitos casos, designadamente, em comportamentos de automutilação ou estados mais persistentes de tristeza e isolamento, pode ser possível perceber sinais e comportamentos indiciadores de mal-estar. Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. É também importante que pais e professores atentos não hesitem nos pedidos de ajuda ou apoio para lidar com este tipo de situações.

O sofrimento e mal-estar induzem uma espiral de comportamentos em que os adolescentes causam sofrimento a si próprios o que promove mais sofrimento num ciclo insuportável e com níveis de perplexidade, impotência e sofrimento para as famílias também extraordinariamente significativos.

Não, não tenho nenhuma visão idealizada dos mais novos nem acho que tudo lhes deve ser permitido ou desculpado. Também sei que alguns fazem coisas inaceitáveis e, portanto, não toleráveis. Só estou a dizer que muitas vezes a alma dói tanto que a cabeça e o corpo se perdem e fogem para a frente atrás do nada que se esconde na adrenalina dos limites.

Alguns destes miúdos carregam diariamente uma dor de alma que sentem, mas nem sempre entendem ou têm medo de entender.

Espreitem a alma dos miúdos, sem medo, com vontade de perceber porque dói e surpreender-se-ão com a fragilidade e vulnerabilidade de alguns que se mascaram de heróis para uns ou bandidos para outros, procurando todos os dias enganar a dor da alma.

Eles não sabem, eu também não, o que é a alma. Um adolescente dizia-me uma vez, “dói-me aqui dentro, não sei onde”.

Muitos pais, mostra-me a experiência, sentem-se de tal forma assustados que inibem um pedido de ajuda por se sentirem impotentes e perplexos.

O resultado de tudo isto pode ser trágico e obriga-nos a uma atenção redobrada aos discursos e comportamentos dos adolescentes e dos jovens."

sábado, 11 de março de 2023

SOBRESSALTOS DA DESMATERIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO

 Como sabemos foi decidido que as provas de aferição do 2º, 5º e 8º ano deste ano lectivo serão realizadas por todos os alunos em formato digital. De acordo com o Público os alunos serão distribuídos por dois turnos em cada dia para que haja equipamentos para todos.

Confesso alguma perplexidade e inquietação. Parece depreender-se desta decisão que não existem recursos nas escolas para que os alunos de três anos de escolaridade acedam em simultâneo a equipamentos digitais. Não que me surpreende a insuficiência, preocupam-me os meandros da desmaterialização. Algumas notas.

Em primeiro lugar parece claro que em múltiplas áreas e, naturalmente, também na educação, a transição digital parece incontornável e torna necessária a utilização das ferramentas digitais de forma generalizada e integrada nos processos de ensino e aprendizagem, bem como em todos os processos relativos à organização e funcionamento escolar e do sistema no seu todo. Nenhuma dúvida sobre isso. Sem meios digitais não podia estar a escrever este texto.

Em segundo lugar é fundamental que a transição digital não faça parte do problema, mas da solução o que, por exemplo, a burocratização “platafórmica” que se verifica na vida de escolas e professores parece sugerir.

E a verdade é que existem queixas frequentes relativas ao acesso a equipamentos atempado por parte dos alunos, à qualidade dos equipamentos, que, de acordo com os directores de escolas e agrupamentos não parece ser a sua especificação mais relevante, os recursos necessários à adequada utilização dos equipamentos, mas escolas, em particular nas salas de aulas, infra-estruturas eléctricas e rede de net eficientes, por exemplo. Deste cenário podem decorrer situações sérias de desigualdade entre escolas e entre alunos.

Por outro lado, por razões e responsabilidades conhecidas, estão a chegar às escolas cidadãos com formação científica em diferentes domínios, mas sem formação para a docência. Chama-se “desprofissionalização” que se atenuará com uma onda de “capacitação” e com o jeito e boa vontade que, obviamente, todos terão. Professor é uma profissão fácil como se sabe.

Temo que este movimento imparável de desmaterialização da educação possa vir a envolver a desmaterialização dos professores, substituindo-os algo como   uns(umas) Siri(s).

Quanto aos alunos, bom, a esses parece impossível desmaterializá-los.

Estamos e vamos certamente continuar perante uma realidade que se pode chamar de desafiante.

Como por aqui dizemos, deixem lá ver.

sexta-feira, 10 de março de 2023

DA FALTA DE PROFESSORES

 Merece leitura e, sobretudo reflexão, o texto de Carlos Ceia no Público, “A falta de professores como ameaça de colapso do sistema educativo”.

Lamentavelmente a questão não é nova. Há anos que sucessivos relatórios nacionais e internacionais têm alertado para gravidade do envelhecimento da classe docente, dos efeitos associados, e da certeza da falta de docentes a curto prazo como já está a acontecer dramaticamente. Algumas notas repescadas.

O envelhecimento da classe docente não é um problema exclusivo do nosso sistema, mas é particularmente grave sendo que alguns países também afectados têm iniciativas já em desenvolvimento no sentido de o minimizar o que não parece acontecer entre nós.

Ao perfil dos docentes em termos de idade acresce que, como é reconhecido em qualquer país, a profissão docente é altamente permeável a situações de burnout, estado de esgotamento físico e mental provocado pela vida profissional, frequentemente associado a níveis pouco positivos de satisfação profissional. Acresce que nos últimos cinco, seis anos a inscrição de alunos em cursos de formação para a docência baixou para metade, os cursos de formação de professores, de uma forma geral, perderam atractividade, menos 70% desde o início do século.

Na verdade, este cenário só pode surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam na comunicação social e dos comentários nas redes sociais dirigidos à educação e aos professores.

Também se sabe que as oscilações da demografia discente não explicam a saída de milhares de professores do sistema, novos e velhos, como também não explicam a insuficiente renovação, contratação de docentes novos.

Não esqueçamos ainda a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. Acresce que sucessivas equipas ministeriais têm desenvolvido políticas que contribuem para a desvalorização dos professores com impacto evidente no clima das escolas, nas relações que a comunidade estabelece com estes profissionais e reforça a a baixa atractividade da carreira.

Este cenário revela uma das dimensões mais frágeis das políticas públicas de educação nos últimos anos em que sempre se insistia na narrativa dos professores a mais com resultados que estão à vista.

Parece clara a necessidade inadiável de definir uma resposta oportuna e consistente a este trajecto.

Sabemos que os sistemas educativos com melhor desempenho são também os sistemas em que os professores são mais valorizados, reconhecidos e apoiados.

quinta-feira, 9 de março de 2023

A FESTA DAS LETRAS

 A escola vive dias conturbados, mas mantém todos os dias o seu lado mais bonito. Num dos últimos dias, o meu neto Tomás, 1º ano de escolaridade, anunciou que iria haver festa na escola para a qual teria de levar um bolo.

Não vislumbrando de imediato o que motivaria a festa preguntámos a razão.

“Vai haver a festa das letras, já acabámos o alfabeto todo”.

De acordo com o relato a festa foi divertida, só podia.

Acho muito bonita a ideia de comemorar a aquisição de todas as letras, uma ferramenta extraordinária. O Tomás, os colegas, e todos os miúdos que já sabem as letras todas estão preparados para conquistar o mundo construindo o seu futuro.

Sabendo todas as letras conhece-se tudo.

É também por isto que importa considerar e valorizar em todas as dimensões o trabalho dos professores, são eles que entregam aos miúdos as letras que lhes permitirão  ser gente.

Quem não perceber isto talvez não saiba ler o mundo com as letras do alfabeto, lê com outras letras. Mas isto é uma outra história, mais feia.

quarta-feira, 8 de março de 2023

MULHERES

 Não há volta a dar, 8 de Março, o calendário das consciências manda reparar nas mulheres, no seu universo, nos seus problemas. Para além das iniciativas, discursos e referências na imprensa que fazem parte da liturgia comemorativa, reparemos então.

Reparemos como se mantêm em níveis dramáticos e inaceitáveis os episódios de violência doméstica incluindo homicídios. Acresce que ainda existem muitíssimas situações que não são do conhecimento público e, portanto, boa parte dos episódios não são sequer objecto de procedimento.

Reparemos como se mantém a diferença de oportunidades e a desigualdade salarial apesar das mudanças legislativas. Segundo alguns dados serão precisas décadas para atingir equidade no estatuto salarial.

Reparemos na dificuldade que muitas mulheres em Portugal têm em conciliar maternidade com carreira, adiando ou inibindo uma ou outra, sendo cada mais preterida a maternidade. A intenção expressa de ter filhos é um obstáculo no acesso ao emprego.

Reparemos em como as mulheres portuguesas são das que na Europa mais horas trabalham fora de casa e também das que mais trabalham em casa.

Reparemos na necessidade de imposição legal de quotas para garantia de equidade.

Reparemos na desigualdade no que respeita à ocupação de postos de chefia.

Reparemos nos números do tráfico e abuso de mulheres que também passa por Portugal.

Reparemos na criminosa mutilação genital feminina, também realizada em Portugal.

Reparemos como a igreja continua a discriminar as mulheres.

Reparemos na quantidade de mulheres idosas que vivem sós, sobrevivem isoladas e acabam por morrer de sozinhismo sem que ninguém, quase, se dê conta.

Reparemos, finalmente, no que ainda está por fazer.

Na verdade, a metade do céu que as mulheres representam carrega um fardo pesado.

Provavelmente ainda assim será no próximo ano como tem sido nos anos anteriores.

Provavelmente voltarei com este texto no próximo ano.

terça-feira, 7 de março de 2023

CADERNO DE ENCARGOS

 João, são horas de te deitares. Já sabes.

Fizeste os trabalhos de casa?

Estudaste para o teste de história?

Já tens a mochila arrumada?

Não te esqueças da roupa para Educação Física.

Toma atenção nas aulas, não estejas de conversa e distraído.

Porta-te como deve ser.

Não gastes o dinheiro em porcarias no bar, come coisas de jeito.

Toma cuidado com a roupa, não a estragues nem sujes.

Não te esqueças de material na escola que está tudo muito caro.

Não andes com aquele Tiago que se só faz asneiras e depois tu vais atrás dele.

Tens o passe do autocarro? Toma cuidado, não o percas.

Pergunta à directora de turma se posso ir lá falar com ela.

Está ali o papel assinado para ires à visita de estudo, não te esqueças dele e pergunta a que horas é preciso estar na escola na escola.

Vê lá se não passas o tempo a brincar, sem trabalho não se vai a lado nenhum. Vê lá o que aconteceu ao Rui do 3º andar, já chumbou três vezes.

Não leves o relógio para a escola, podem roubar-to.

No caminho da escola não fales com gente que não conheces.

Olha que não quero receber outro recado da Professora de Inglês porque lhe respondeste torto.

Vê como a tua prima Carolina é arrumada e se porta sempre bem.

Agora João, dorme descansado, amanhã é dia de escola.

segunda-feira, 6 de março de 2023

MIMO A MAIS É COISA QUE NÃO EXISTE

 No Expresso encontra-se um trabalho interessante sobre as mudanças que aparentemente se estão a verificar nos modelos de educação parental dos pais mais novos.

Afirma-se que, “Palmada educativa' é coisa do passado: respeito, carinho, autonomia e liberdade são pilares para os novos pais”.

Os que mais acompanham este espaço sabem que muitas vezes aqui abordo esta questão, a educação familiar, e a forma como os pais questionam, agem e pensam esta matéria o que também acontece em trabalho com grupos de pais.

As mudanças que, felizmente, se vão verificando nas práticas familiares levam a que, por vezes se refira a ideia, também enunciada no trabalho do Expresso sobre a ideia dos “mimos a mais”.

De facto, é que com demasiada frequência se afirma que eventuais comportamentos inadequados de crianças e adolescentes se devem a “mimos a mais”. Como também já referi em colaborações com a imprensa, designadamente num texto para a Visão, tal entendimento “tira-me do sério”, não existem "mimos a mais". Ponto.

Tal justificação costuma servir depois para se afirmar a ideia de que as crianças hoje em dia têm muitos mimos que as “estragam”, dito de outra maneira, têm “afecto” a mais ou ainda “gosta-se de mais” das crianças. Estes discursos, que alguns profissionais destas áreas também subscrevem, merecem-me alguma reserva pois assentam, do meu ponto de vista, num equívoco.

De uma forma geral, as crianças não terão afecto, mimos, a mais, poderão, isso sim, ser objecto de “mau afecto” ou se quiserem, de "maus mimos". É essa falta de qualidade que lhes poderá ser prejudicial. Não é mau por ser muito, é mau porque asfixia, é tóxico, não deixa que os miúdos cresçam, distorce a percepção da criança de si própria e do seu funcionamento, não permite o estabelecimento de uma relação saudável, protectora e promotora da autonomia das crianças, uma condição fundamental para o seu desenvolvimento positivo. No entanto, não é este tipo de reflexão que leva muitos de nós a falar dos “mimos a mais”.

Insisto, as crianças não têm elogios ou mimos a mais. O que se passa mais frequentemente é que recebem “nãos” de menos. Na verdade, muitos adultos, pais, sendo quase sempre capazes de dar os mimos, mostram-se muitas vezes incapazes de dar os “nãos”, de estabelecer os limites e as regras que, como sempre digo, são tão necessárias às crianças como respirar e alimentar-se. Estes “nãos” e para utilizar a mesma terminologia, são outros mimos imprescindíveis na educação de crianças e adolescentes nos seus diferentes contextos de vida.

As regras e os limites são bens de primeira necessidade. Tal como com os afectos, nenhuma dieta educativa pode prescindir de regras e limites.

Ficando sem “nãos” muitas crianças, a coberto da ideia dos “mimos a mais”, transformam-se em pequenos ditadores que infernizam a vida de toda a gente, a começar pela sua própria vida. Não crescem saudavelmente.

Neste contexto, apoiar e ajudar os pais a desenvolverem de forma confiante comportamentos de disponibilidade e escuta de crianças e adolescentes, a assumirem com firmeza e sem culpa a necessidade de definir regras e limites, de mostrar afecto sem que se sintam a dar “mimos” a mais que “estragam” os filhos, só pode resultar em bom trabalho, para os pais e para os filhos.

De pequenino é que se constrói … o destino.

domingo, 5 de março de 2023

NO TEMPO DOS CARAPAUS DE CORRIDA

 Volta e meia, as mais das vezes sem motivo aparente, lembro-me de algumas expressões que fazem parte da minha história, mas que, por uma razão ou por outra, quase desapareceram de circulação.

Hoje apareceu vinda lá de longe uma designação que era muito do agrado da minha professora da Primária, a D. Conceição e de outros adultos da altura, os "carapaus de corrida". Devo confessar que não me passa pela ideia a origem de tal pérola, mas que nos enchiam os ouvidos com ela, lá isso enchiam.

Perante qualquer comportamento ou atitude menos conforme o espírito submisso e aquietado da época, lá vinha um "não te armes em carapau de corrida" seguido, quase sempre, de uma ameaça que naquele tempo era para levar a sério, vinda de pais ou professores.

Na minha turma o destino juntou um bom número de "carapaus de corrida". Como o povo costuma dizer, não é para me gabar, mas fazíamos uns disparates dos bons e, claro, a D. Conceição lá vinha com a sua apreciação e com alguma frequência, os "carapaus de corrida" corriam para a frente da secretária para um pequeno e acalorado encontro com a régua que descansava na gaveta de cima. Enquanto ouvíamos qualquer coisa como, "para não te armares em carapau de corrida" as barbatanas, perdão, as mãos, ganhavam um tom avermelhado e um calor que nos dava frio.

Um dia, o Fernando, já vos falei dele, um dos nossos heróis quando roubou a régua que fomos partir para fora da escola e talvez o melhor "carapau de corrida" do grupo teve mais uma das suas muitas obras primas. Quando pela enésima vez a D. Conceição referiu os inevitáveis "carapaus" retorquiu que aquela sala parecia mesmo um aquário. Antes que a professora reagisse explicou que com "tantos carapaus e uma baleia" aquilo já era um aquário não era uma escola.

Naquele dia, quando fomos para o recreio o Fernando, o herói, ainda tinha dificuldade em segurar os berlindes, tal o ardor das mãos.

Mas isto é uma história do tempo em que havia "carapaus de corrida".