AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

sexta-feira, 30 de abril de 2021

OS CUSTOS DO ENSINO SUPERIOR

 Devo dizer que foi com alguma perplexidade que li o anúncio pela Ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, Alexandra Leitão, da criação de uma residência universitária para filhos de funcionários da administração pública.

Do meu ponto de vista, o facto das instalações a utilizar serem públicas ou se há cobertura legal para esta medida será irrelevante. Parece-me claramente uma medida que potencialmente não promove equidade e é discriminatória.

Não está em causa a necessidade de apoio de muitas famílias que incluem funcionários da administração pública, mas talvez seja de recordar que, de acordo com os indicadores, o grupo dos funcionários da administração foi dos menos afectados com a perda de rendimentos que a pandemia implicou para muitos milhares de famílias e que quem conhece o ensino superior sabe como isso afectou milhares de alunos.

Permitam que recupere alguns dados. Em 2018 foi divulgado um estudo, “O Custo dos Estudantes no Ensino Superior Português” da responsabilidade do Instituto de Educação da U. de Lisboa, relativo ao ano lectivo de 2015/2016 mostra que cada estudante universitário gastou em média 6445€ em despesas como propinas, material escolar, alojamento ou alimentação. Os alunos de instituições universitárias privadas têm uma despesa perto dos 10000€ e nos politécnicos privados o custo será de 8296€. De facto, sendo a qualificação superior um bem de primeira necessidade para os cidadãos e para o país, é um bem muito caro, demasiado caro para muitas famílias e indivíduos.

Também dados de um trabalho conhecido em 2018 realizado pelo Projecto Eurostudent “Social and Economic Conditions of Student Life in Europe” mostra um extenso quadro das condições de frequência do ensino superior em muitos países da Europa com base em dados de 2016 a 2018.

Da imensidade de dados disponíveis releva que Portugal é o quarto país em que as famílias assumem maior fatia dos gastos com a frequência do ensino superior. Verifica-se ainda uma forte associação entre a frequência do ensino superior e nível de escolarização e estatuto económico das famílias.

São conhecidas as dificuldades de promoção de mobilidade social que o sistema educativo português, e não só, atravessa registando ainda níveis baixos de qualificação e perto de 160 000 jovens que não estudam nem trabalham.

Por outro lado, talvez seja de recordar no que respeita aos custos de frequência do ensino superior que muitos jovens portugueses têm emigrado para realizar os seus estudos superiores em países em que as propinas são mais baratas que em Portugal, não existem de todo ou são financiadas, casos da Dinamarca, Reino Unido ou o Canadá e a Austrália fora da Europa.

Recordo que também em 2014 um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos, mas não tem meios para os pagar.

De acordo com o Relatório da OCDE, “Education at a Glance 2015”, os custos da frequência de ensino superior em Portugal suportados pelo universo privado, sobretudo as famílias, era o mais alto da União Europeia, 45.7%.

Segundo o relatório "Sistemas Nacionais de Propinas e Sistemas de Apoio no Ensino Superior 2015-16", da rede Eurydice da União Europeia apenas Portugal e a Holanda cobram propinas a todos os alunos do ensino superior, sendo também Portugal um dos países com valores de propina mais altos. Já em 2011/2012 dados também da rede Eurydice mostravam que Portugal tinha o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerassem as excepções criadas em cada país, tem efectivamente o terceiro valor mais alto de propinas.

Recordo que no início de 2014 um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos, mas não tem meios para os pagar.

Apesar de um abaixamento do valor as propinas no ensino público. As dificuldades sentidas por muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado com valores mais altos de propinas, são, do meu ponto de vista, consideradas frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.

A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.

Neste contexto menos encontro alguma explicação plausível para a decisão anunciada pela Ministra Alexandra Leitão.


quinta-feira, 29 de abril de 2021

DO SABER DOS PAIS E DO SABER DOS FILHOS

 

Um dia destes aconteceu-me, mais uma vez, ficar envolvido numa conversa sobre a recorrente ideia da "ignorância da juventude".

Confesso que já não tenho grande paciência para esta discussão.

Eu fui ignorante para a geração do meu pai, que foi ignorante para a geração do pai dele que ... etc. É verdade, antes que me esqueça, a geração do meu filho é mais ignorante do que a minha, claro.

Esta definição de ignorância a partir do que alguém define como o "saber", é razoavelmente disparatada e não passa de um fait-divers. A questão mais curiosa, do meu ponto de vista, é que cada vez que se faz este tipo de discursos se dá um tiro pé, ou seja, a alegada ignorância dos mais novos é, obviamente fabricada pela geração (mais "culta" evidentemente) que os educa e forma.

Do meu ponto de vista, a questão mais importante e não é um exclusivo dos mais novos, longe disso, é o tempo light que atravessamos. Tempo light na cultura, tempo light nos valores, tempo light na relação entre as pessoas, tempo light também na relação com o saber, etc.

Ainda a propósito do saber e da ignorância, também me parece curioso chamar a atenção para a profunda ignorância que muitos opinion-makers, já nada novos aliás, demonstram quando se propõem falar do que não sabem, e todos os dias temos bons exemplos. Curiosamente falam de tudo, são uns “tudólogos”, acham que sabem, são uns achistas que só produzem achismos.

A minha vida passa pelo contacto regular com jovens universitários e sempre encontro gente que sabe e mostra que sabe mesmo quando o saber é diverso como sempre será.

Como disse, não há saco para estas coisas.

Recordo Bateson nos seus Metadiálogos “Conheci uma vez em Inglaterra um rapazinho que perguntou ao pai: “Os pais sabem sempre mais que os filhos?”, e o pai respondeu: “Sim.” A pergunta seguinte foi: “Pai, quem inventou a máquina a vapor?”, e o pai disse: “James Watt.” Então o filho respondeu: “Mas então porque é que não foi o pai dele que a inventou?

quarta-feira, 28 de abril de 2021

QUERIDA FAMÍLIA, AMIGOS E PROTECTORES

 

Com alguma regularidade continuam a ser conhecidas situações de abusos sexuais sobre crianças e adolescentes, a maioria em situações envolvendo familiares, amigos ou conhecidos da criança ou famílias e também instituições que lidam com menores.

De acordo com um relatório recentemente divulgado pela APAV são denunciados mensalmente cerca de 27 casos de abusos contabilizando apenas os que são sinalizados a esta instituição.

O relatório considera que o número real de situações pode ser bem mais elevado, representará apenas 30 a 40% do total de casos de “abusos sexuais, violações ou importunações sexuais de menores

Os dados são recolhidos pela rede CARE, uma estrutura especializada da APAV, e sugerem que em 90% dos casos o agressor é próximo da vítima e mais de metade dos episódios acontecem em contexto familiar e não são pontuais, são regulares.

São dados impressionantes e inquietantes, citando Manuel Coutinho do Instituto de Apoio à Crianças, "A família deve ser o local mais seguro que a criança tem e por vezes é lá que corre os maiores perigos".

Apesar das mudanças verificadas em termos legais e processuais, a fragilidade ainda verificada na criação de uma verdadeira cultura de protecção dos miúdos leva a que muitos estejam expostos a sistemas de valores familiares que toleram e mascaram abusos com base num sentimento de posse e usufruto quase medieval.

Muitas crianças em situação de abuso no universo familiar ou por pessoas conhecidas ainda sentem a culpa da denúncia das pessoas da família ou amigos, a dificuldade em gerir o facto de que pessoas que cuidam delas lhes façam mal e a falta de credibilidade eventual das suas queixas bem como das consequências para si próprias, uma vez que se sentem quase sempre abandonadas e sem interlocutores em que possam confiar ou ainda o medo das consequências da denúncia.

A este cenário acrescem os riscos que as novas tecnologias vieram introduzir, sendo conhecidos cada vez mais casos em que a internet é a ferramenta utilizada para construir o crime.

Neste quadro, para além da eficiência do sistema de justiça, continua a ser absolutamente necessário que as pessoas que lidam com crianças, designadamente na área da saúde e da educação, sejam capazes de “ler” os miúdos e os sinais que emitem de que algo de menos positivo se passa com eles. Na verdade, os professores e os técnicos das escolas, incluindo os auxiliares, são muito frequentemente quem se apercebe de situações de mal-estar das crianças, “são os olhos do sistema de protecção”.

Esta atitude de permanente, informada e intencional atenção aos comportamentos e discursos dos miúdos é, do meu ponto de vista, uma peça chave para minimizar a tragédia dos abusos sobre as crianças e o enorme sofrimento provocado.

Neste cenário importa ainda ter em atenção o impacto que manutenção das crianças em casa nos períodos de confinamento poderá implicar, preocupação expressa por muitos técnicos.

Como é evidente não se trata de uma situação fácil. Sabe-se que situações de isolamento potenciam o aumento de casos de violência doméstica como de maus tratos a crianças, a possibilidade de denúncia diminui, o medo prevalece e a própria situação, só por si, é geradora de risco.

No entanto, de uma forma alargada e com a colaboração da comunicação social e com os serviços de proximidade, autarquias por exemplo, talvez fosse possível promover a atenção das comunidades próximas, das relações de vizinhança, para o que pode estar a acontecer na casa ao lado e recorrer aos canais de informação disponíveis.

Sabemos que os riscos são grandes e a cada dia podem aumentar as situações de sofrimento e negligência que envolvem milhares de crianças.

terça-feira, 27 de abril de 2021

NÃO MATEM O FUTEBOL

 Não é matéria que aqui aborde com frequência, mas é umas das minhas paixões, o futebol. Desde que aprendi a andar que me tornei fanático pelo jogo. Na primária dormia com a bola ao pé da cama e todo o tempo era para … jogar à bola. Só duas lesões graves impediram uma carreira bem-sucedida provavelmente em Itália ou Espanha, mas a paixão continuou sempre, ainda hoje.

Talvez por isso me inquiete a vontade que parece existir de liquidar o futebol. Deixando de lado a disparatada ideia da superliga europeia, não há fim-de-semana que não seja marcado por incidentes com adeptos, árbitros, jogadores, treinadores e direcções num crescendo de agressividade física e verbal com ofensas nos comentários. Tudo o que parece ter vindo a ser anunciado e que não ficará certamente por aqui.

Em tempos, a propósito de um apelo de contenção do presidente da Federação Portuguesa de Futebol dirigido aos responsáveis clubísticos escrevi que o alerta vinha tarde, as estruturas directivas e reguladoras são parte do problema embora, evidentemente, se espere que façam parte da solução.

Na verdade, também no desporto, em particular no futebol, os tempos andam feios, por cá e por fora. Estranho seria se assim não fosse.

A minha paixão pelo futebol vai resistindo mal aos maus tratos que vai recebendo. São recorrentes e progressivamente mais radicalizados e violentos os comportamentos e discursos que o envolvem, para além da componente negócio, uma variável fundamental contributiva para o clima criado.

A espiral de gravidade dos episódios que já se anunciava começa a confirmar-se da irracionalidade e do ambiente de hostilidade e ódio instalados. Os recorrentes episódios envolvendo as claques e as direcções dos chamados clubes grandes, mas não só, mostram como podem ser graves as consequências deste clima e da escalada de violência associada.

Há algum tempo a imprensa referia (desejava) que os clubes, leia-se as suas direcções, pudessem tomar medidas face ao comportamento de alguns, muitos, energúmenos que fazem parte das suas claques.

É no mínimo ingénuo acreditar nisto. As direcções e os seus empregados e porta-vozes, os seus discursos, comportamentos e decisões são também parte substantiva do problema, não podem ser parte da decisão e solução.

A mediocridade da generalidade dos dirigentes produz discursos e comportamento que inflamam muitos dos apoiantes, apoiam e organizam as suas actividades. Servem-se deles para os jogos de poder e devem-lhes isso.

O futebol de alto nível é um mundo em que não existem santos e pecadores. Talvez a bola seja o elemento mais são deste universo apesar de tantas vezes também ser maltratada e sempre a pontapé.

Já dificilmente me mobilizo para ir a um estádio, não consigo assistir aos milhentos programas televisivos onde opinadores avençados, salvo algumas raras excepções, vão papagueando agendas encomendadas e se envolvem em obscenas trocas de agressões e boçalidades que são mais um alimento para o clima instalado de ódio, hostilidade e agressividade.

O problema é que não consigo não continuar fascinado com esse jogo estranho chamado futebol. Por isso me inquieta tudo isto. Não matem o futebol.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

COMO SE DESENHA UMA FLOR

 

A propósito de uma conversa que há dias tive com o meu neto Simão (ele chama-lhes conversetas) sobre os desenhos que faz e dos discursos que vou ouvindo sobre diversidade, criatividade, inovação, etc. e da forma como muitas vezes ainda se aprecia o que as crianças pequenas realizam, lembrei-me de Almada Negreiros num texto que, aliás, já por aqui passou.

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

 José de Almada Negreiros

Obras Completas, 4, Poesia

domingo, 25 de abril de 2021

DO 25 DE ABRIL, A ESCOLA

 

Não pode deixar de ser, é dia 25 de Abril. É o dia em que toda a gente, quase, fala daquele 25 de Abril, o de 74.

Quase sem nos darmos conta os anos passam, já lá vão 47 anos. Actualmente, boa parte da população portuguesa não viveu o 25 de Abril de 1974, nem o 24 de Abril com tudo o que continha. Talvez por isso e sem esquecer tudo o que aconteceu nestes 47 anos de bom e de menos bom valha a pena olhar um pouco para o 24 de Abril de 74 e que sustentou o desencadear da mudança. 

É verdade que a história tende a ser uma espécie de adereço, tal como a generalidade das ciências sociais e não uma potente ferramenta de desenvolvimento das comunidades. Estamos num tempo em que à história se dá pouca atenção e o futuro é percebido como muito longe, vive-se a urgência do hoje. No entanto, perceber e conhecer o que foi a estrada que percorremos é fundamental para viver e conhecer o presente e querer construir um futuro com uma visão escolhida por nós.

É verdade que temos vivido tempos difíceis, mas também é verdade que não é sequer possível comparar o país de hoje com o país de 1973. Já passaram 47 anos, para refrescar algumas memórias ou contar alguma história aos mais novos, deixem que vos fale um pouco da escola do meu tempo, o tempo dos anos cinquenta e sessenta. Escolho falar da escola porque é um universo que conheço um pouco melhor, mas poderia fazer o mesmo exercício em muitas outras áreas de funcionamento da nossa sociedade. Não me esqueço, antes pelo contrário, que a nossa educação, a escola, como tudo o resto, também tem atravessado, atravessa e provavelmente sempre viverá dificuldades e problemas sérios, mas só a falta de memória, uma qualquer agenda ou o desconhecimento sustentam o “antigamente era melhor” e inquietam-me discursos que emergem defendendo “aquela” escola, “aquela” educação, a de “antigamente”. Já não é a primeira vez que falo disto e não será certamente a última. Vejamos, pois, um pouco da escola do meu tempo, conversa de velho, já se vê.

A escola que havia lá para trás no tempo não era grande, nem pequena, era triste. A maioria das pessoas que por lá andavam era, naturalmente, triste. É claro que nós miúdos também nos divertíamos e ríamos, os miúdos são resilientes e … são miúdos.

As pessoas que mandavam na escola estabeleciam o que toda a gente tinha de aprender, fazer, dizer e pensar. Quem pensasse, dissesse ou fizesse diferente podia até sofrer algum castigo, mesmo os professores, não eram só os alunos. Não se podia inventar histórias, as pessoas contavam só histórias já inventadas. Às vezes, os miúdos e os professores, às escondidas, inventavam histórias novas.

Eu andei nesta escola lá para trás no tempo.

E na escola do meu tempo nem todos lá entravam e muitos dos que o conseguiam saíam ao fim de pouco tempo, ficando com a segunda ou terceira classe, como então se chamava, outros completavam a quarta classe, a escolaridade obrigatória naquela altura. Chegava.

Alguns outros, nem se entendia que deveriam estar na escola, eram pessoas com deficiência, ainda não sabíamos falar de necessidades educativas especiais nem de inclusão, que iriam fazer para a escola.

E na escola do meu tempo os rapazes estavam separados das raparigas.

E na escola do meu tempo havia um só livro e toda a gente aprendia apenas o que aquele livro trazia.

E na escola do meu tempo levavam-se muitas reguadas, basicamente por dois motivos, por tudo e por nada.

E na escola do meu tempo ensinavam-nos a ser pequeninos, acríticos e a não discutir, o que quer que fosse.

E na escola do meu tempo eu era “obrigado” a ter catequese, religiosa e política.

E na escola do meu tempo aprendia-se que os homens trabalham fora de casa e as mulheres cuidam do lar e dos filhos.

E na escola do meu tempo não aprender não era um problema, quem não “tinha jeito para a escola, ia para o campo”. Quanto menos estudassem, menos perguntas e dúvidas teriam.

E na escola do meu tempo não se falava do lado de fora de Portugal. Do lado de dentro só se falava do Portugal cinzento e pequenino.

Na escola do meu tempo eu era avisado em casa para não falar de certas coisas na escola, era perigoso.

Quem mandava no país achava que muita escola não fazia bem às pessoas, só a algumas. Ao meu pai perguntaram porque me tinha posto a estudar depois da quarta classe, não era frequente naquele meio, para ser serralheiro como ele não precisava de estudar mais.

Sim, eu sei, não precisam de me dizer que a escola deste tempo tem muitas coisas, embora com outras vestes e discursos, que nos recordam a escola do meu tempo. Nem tudo está bem, longe disso e algumas questões não mudaram na substância apenas se actualizaram. No entanto, o caminho é melhorar a escola deste tempo não é, não pode ser, querer a escola do meu tempo.

Eu andei naquela escola lá para trás no tempo.

Por isso, quando falam da escola hoje, penso, nunca mais voltarei a andar naquela escola. E não quero que os meus netos e os outros miúdos andem numa escola como aquela, a minha escola, lá para trás no tempo.

Também por isso hoje falamos do 25 de Abril de 1974 e do que os tempos nos trouxeram.

sábado, 24 de abril de 2021

O TEMPO DO SOBREIRO

 

Não tardar e chegam os dias mais quentes a partir de Maio. O ano tem sido bom de água aqui pelo Alentejo, mas ainda assim chegará o tempo da rega.

Hoje começámos a prepara as caldeiras das árvores que terão de regadas.

Para além das árvores de fruto, resolvemos também preparar caldeiras de meia dúzia de sobreiros ainda pequenos. Foram plantados há poucos anos por mim e pelo Mestre Marrafa, mas agora também temos a ajuda do nosso novo companheiro aqui no Monte, o Valter, outro alentejano apaixonado pelo campo. Os oitenta anos do Mestra Marrafa já vão pesando e como ele não quer parar, vamos tentando tirar-lhe a lida mais pesada.

Enquanto fazíamos as caldeiras pensava no tempo e na vida, a nossa e a dos sobreiros, que com as oliveiras acho as árvores mais bonitas.

O sobreiro é uma árvore lenta e calma como o Alentejo. Dá a primeira cortiça aos 25 anos e tem uma expectativa de vida entre os 170 e os 200, podendo chegar aos trezentos anos, ainda assim um jovem ao pé de algumas oliveiras que cá temos.

É uma dimensão de tempo que não tem nada a ver com os tempos de hoje.

Os tempos actuais são os tempos da urgência, os tempos da pressa, os tempos do para já, ou mesmo para ontem.

São os tempos dos resultados, resultados imediatos. São tempos sem espera, só espera quem não pode comprar o tempo.

Os tempos de hoje fazem do tempo um bem que ninguém tem, antes tínhamos tempo, agora temos pressa. Os tempos de hoje não são os dias, são os segundos. Por tudo isto, eu, que já deixei os sessenta para trás há algum tempo, dei por mim a rir-me desta tarefa, cuidar de sobreiros pequenos.

Um dia destes, está decidido, vou sentar-me perto deles com o Mestre Marrafa a vê-los crescer, pelo menos, pelo menos, até à primeira cortiça.

São também assim os dias do Alentejo.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

DOS LIVROS

 Hoje, dia 23 de Abril, de acordo com o calendário que organiza as nossas inquietações cumpre-se o Dia Mundial do Livro.

Os dias de chumbo que que temos vivido têm múltiplos impactos. Também o sector livreiro foi afectado até por decisões incompreensíveis como encerrar livrarias enquanto supermercados podiam continuar a vender … livros. Os apoios, como noutras áreas serão insuficientes.

No entanto, é imprescindível sublinhar e afirmar sempre que os livros e a leitura são bens de primeira necessidade para gente de todas as idades donde a insistência

Recordo Marguerite Yourcenar que em “As Memórias de Adriano” escrevia “A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana.”

São múltiplos os estudos que sublinham o impacto dos livros e da leitura no trajecto escolar e no trajecto pessoal, como também são muitos trabalhos que mostram que os hábitos de leitura são pouco consistentes entre as crianças, adolescentes e jovens como, sem surpresa, também o são entre a população em geral.

Os livros têm uma concorrência fortíssima com outro tipo de materiais, jogos ou consolas por exemplo, e que nem sempre é fácil levar as crianças, jovens ou adultos a outras opções, designadamente aos livros.

Apesar de tudo isto também sabemos que é possível fazer diferente, mesmo que pouco diferente e com mudanças lentas.

Como várias vezes tenho afirmado e julgo consensual, a questão central é o leitor, ou seja, o essencial é criar leitores que, quando o forem, procurarão o que ler, livros por exemplo, em que espaços, biblioteca, casa ou escola e em que suportes, papel ou digital.

Um leitor constrói-se desde o início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam ser estimuladas, muitas vezes são, e para as quais poderiam ser disponibilizadas aos pais algumas orientações. Talvez tivéssemos perdido uma oportunidade enquanto os alunos estiveram em casa tanto tempo.

Apesar dos esforços de muitos docentes, a relação de muitas crianças, adolescentes e jovens com os materiais de leitura e escrita assentará, provavelmente de forma excessiva, nos manuais ou na realização de trabalhos através da milagrosa “net” proliferando o apressado “copy, paste” ou resumos de leituras necessárias.

Neste contexto, embora desejasse muito estar enganado, não é fácil construir miúdos ou adolescentes leitores que procurem livros em casa, em bibliotecas escolares ou outras e que usem o "tablet" também para ler e não apenas para uma outra qualquer actividade da oferta sem fim que está disponível.

No entanto, felizmente, realizam-se com regularidade experiências muito interessantes em contextos escolares, os professores bibliotecários têm desenvolvido um trabalho essencial, ou em iniciativas mais alargadas a outras entidades como autarquias e instituições culturais.

Temos que criar leitores, eles irão à procura dos livros ou da leitura, mesmo em tempos excepcionais.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

EM VEZ DE TODOS PROLETÁRIOS, TODOS PROPRIETÁRIOS

 

Os mais velhos e as pessoas da minha geração lembrar-se-ão que nos tempos imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 74 apareciam com frequência frases escritas nas paredes com afirmações de natureza mais ou menos humorística, de melhor pior gosto, mas que sempre despertavam alguma curiosidade. Uma dessas frases, se os 47 anos passados não me atraiçoam, era qualquer coisa como, “em vez de todos proletários, todos proprietários“. Este tipo de afirmações era habitualmente atribuído a um indefinido grupo, “os anarcas”, de que nunca tive conhecimento próximo.

Nos últimos dias instalou-se por aí uma polémica sobre quem a Associação 25 de Abril autoriza a desfilar na marcha comemorativa a realizar no próximo Domingo. Foi este episódio que acordou aquela memória do “em vez de todos proletários, todos proprietários.

Se bem repararmos, ainda hoje estão por cumprir muitas “promessas de Abril”, muitas das “portas que Abril abriu” continuam muito estreitas, o caminho é longo. No entanto, acho que relativamente ao “todos proprietários” a coisa parece estar bem de saúde, por assim dizer, Portugal é um país cheio de donos, de proprietários.

Vejamos alguns exemplos, por ordem de lembrança, não de importância.

Desde logo podemos referenciar a existência dos donos do 25 de Abril que decidem quem participa e quam não participa.

Não existe ninguém que publicamente opine em Portugal que não se sinta dono da verdade, qualquer que seja a matéria sobre a qual opine e, naturalmente, o seu grau de conhecimento sobre essa matéria.

No contexto político, os partidos com acesso regular ao poder, tornaram-se, por assim dizer, donos da democracia, definindo até um quadro legal que dificulta a existência de alternativas viáveis à partidocracia que instalaram.

Na economia, os donos dos mercados gerem os seus interesses de forma pouco regulada e sem pudor face a consequências que sobram para  ... os do costume.

Com a informação que é recolhida, de forma mais ou menos transparente sobre nós, há cada vez mais donos das nossas opções de consumo e das nossas escolhas.

É deprimente que na Assembleia da República os deputados, por nós eleitos, permitam que a sua liberdade de voto esteja na posse dos donos da democracia, os partidos, e não na sua consciência.

Finalmente e sem a pretensão de esgotar o leque de proprietários, os donos disto tudo, que vão emergindo e que, provavelmente, por isso mesmo, se vão aguentando.

Curiosamente, muitos de nós, naqueles dias de 74, ainda acreditámos que iríamos ser donos dos nossos destinos.

Chamam-lhe ingenuidade.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL - O bilhete para casa

 Professora, pode escrever um bilhete para os meus pais, assim como às vezes manda?

Escrever um bilhete para os teus pais? Mas a dizer o quê Tiago?

Mas pode escrever?

Está bem, posso escrever. Mas que queres tu que eu escreva aos teus pais?

Escreva assim, o Tiago é quase um bom aluno.

Tudo bem e mais?

Não faz muitos disparates.

Certo, mais alguma coisa?

Quase sempre faz as coisas todas. Lê bem e faz os problemas. Às vezes engana-se nas contas e também se distrai, mas é poucas vezes. O Tiago porta-se quase sempre bem e só faz disparates pequenos.

Estou a achar graça. Queres que escreva mais alguma coisa Tiago?

Só mais uma coisa Professora. Escreva assim, o Tiago é um aluno inteligente como a irmã.

Mas Tiago, porque queres que eu escreva isto tudo para os teus pais?

Professora, estou sempre a dizer estas coisas, mas acho que eles não acreditam, dizem que eu não sou assim. Se a Professora escrever, eu acho que eles vão acreditar. Eu gostava que eles acreditassem.

terça-feira, 20 de abril de 2021

A LONGA MARCHA PELA INCLUSÃO

 

No âmbito da actual presidência portuguesa na UE realizou-se uma videoconferência de alto nível sobre a Estratégia Europeia para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2021-2030 considerada por António Costa "um marco na construção europeia".

O Primeiro-ministro anunciou que até ao fim do mês será aprovada a Estratégia Nacional da Inclusão das Pessoas com Deficiência que incluirá medidas de apoio ao emprego ou da melhoria das acessibilidades.

Lamento, mas já não consigo acordar um sentimento de que ilumine algo como “será desta?”. Não me sinto particularmente orgulhoso, mas o optimismo está revisto em baixa. Desejo muito que seja só eu e a explicação será o cansaço que a idade traz. Não levem muito a sério.

Em 1981, repito, em 1981 realizaram-se em Lisboa as comemorações do Ano Internacional da Pessoa com Deficiência sob o tema “Total Participação e Igualdade”.

Foi aprovada, entre outras iniciativas, a decisão de eliminar obstáculos à acessibilidade de pessoas com mobilidade reduzida aos edifícios públicos.

A 8 de Fevereiro de 2017 terminou o prazo de 10 anos para que fosse cumprida a legislação que tornasse os espaços, equipamentos e vias públicas acessíveis a cidadãos com deficiência.

Deixem-me também recordar que em 2019 aumentaram 30% as queixas por discriminação de pessoas com deficiência de que resultou uma, repito, uma contra-ordenação.

Das queixas recolhidas, mais de 44% referem-se questões de acessibilidade e 30% por queixas de violação de direitos.

Em Fevereiro de 2020 foi divulgado um relatório sobre acessibilidades em edifícios públicos elaborado pela Comissão para a Promoção das Acessibilidades e os dados mostraram como, apesar da legislação, são múltiplas as dificuldades no acesso de pessoas com mobilidade reduzida aos edifícios em que funcionam serviços públicos.

Como exemplo, em 45% dos edifícios públicos com mais do que um andar não há elevadores ou plataformas elevatórias, 42% destes edifícios não têm lugar reservado para pessoas com deficiência e apenas 64% têm balcões de atendimento adaptados do ponto de vista da altura.

Já estou cansado de pensar, agora vai. Sim, já sei que muita coisa mudou, que muita coisa está melhor.

A verdade é que o que está feito nas múltiplas dimensões da vida das pessoas com deficiência e das suas famílias é curto para o que está por fazer, é curto para os discursos sobre os amanhãs que cantam, é curto para os discursos, as inovações, a retórica sobre estas questões.

Talvez agora, com uma nova Estratégia Europeia e com a introdução de um novo termo, “inclusividade”, na linguagem deste universo aconteça o grande salto em frente na longa marcha pela inclusão.

No próximo grande evento litúrgico sobre a inclusão … veremos.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

OS DESLIGADOS

Inicia-se hoje mais uma etapa do que desejamos muito que seja o desconfinamento do nosso contentamento. Não, não é um regresso à normalidade, aliás e como tenho afirmado gostaria que não regressássemos a todas as normalidades, algumas são tóxicas.

No universo da educação regressam às aulas presenciais todos os alunos do secundário e boa parte dos alunos do superior que se manterá a funcionar em modo misto, a maioria, ou em ensino não presencial.

 Esperemos que este regresso corra o melhor possível e no secundário o trabalho será significativamente marcado pela preparação para os exames nacionais exigidos no acesso ao ensino superior que decorrerá nos mesmos moldes do ano anterior.

Assim, está nas escolas o universo dos alunos em cumprimento da escolaridade obrigatória.

 No entanto, existirá uma franja de alunos que se encontra em situação de particular vulnerabilidade e não estou a referir-me aos alunos que por diversas razões viram de alguma forma comprometido o seu processo de aprendizagem e para os quais se aguarda o anunciado Plano de recuperação que estará em elaboração, para além, obviamente do que as escolas têm vindo a realizar com os recursos de que dispõem.

Estou a referir-me aos alunos que já com a experiência do primeiro confinamento ao entrarem no segundo começaram a desaparecer do “radar” das escolas e só com muito esforço de professores, direcções, Comissões de Protecção muitos deles foram encaminhados para as escolas de acolhimento que estiveram sempre em funcionamento.

Lê-se no Público que as Comissões de Protecção de Crianças Jovens encaminharam 1250 alunos para estas escolas no segundo confinamento face a 194 no primeiro período de encerramento das escolas. Muitas destas crianças viviam (viverão) em contextos de perigo agravado, por não lhes ser assegurado o direito à educação ou não lhes ser garantido um ambiente livre de violência para além de outras ameaças.

Será provável que mais atenção e respostas tenham feito aumentar o número de alunos identificados, mas será também de admitir que alunos que já vinham de uma situação altamente vulnerável experienciada no ano lectivo passado agravaram este ano o seu desligar da escola. Já estão em modo presencial, mas talvez ainda não estejam, de facto, na escola enquanto espaço de aprendizagem.

Creio que para muitos destes alunos precisaremos de não nos centrarmos “apenas” na recuperação e consolidação das aprendizagens. Antes disso creio que importa conseguirmos recuperar a relação com a escola.

Precisamos de recursos, tempo e intencionalidade para que se faça o necessário para que isso aconteça e só com essa relação com a escola como espaço de aprendizagem reconstruída, virá a recuperação das aprendizagens, antes parece-me muito difícil. Pode ser desenvolvido em paralelo, creio que sim, mas parece-me importante a atenção à forma como olham, sentem a escola e que esta consiga abrir janelas para caminhos que motivem, que cativem.

Só miúdos cativados pela escola, pelos professores, técnicos e funcionários estarão disponíveis para aprender. Enquanto estiverem confinados e enredados no seu mundo de desconforto e sem janelas com horizonte será muito difícil.

Não é fácil, mas é possível, tem de ser e talvez não leve anos, como se refere na peça e se fala com frequência. Depende do que se fizer, como se fizer e com que recursos.


sábado, 17 de abril de 2021

VOLTANDO AO BRINCAR

 Gostei de ler a entrevista ao Professor Carlos Neto que se encontra no I e que quase se torna uma história de vida.

O Professor Caros Neto é uma referência no mundo da infância desde há muitos anos e embora nem sempre concorde totalmente com ele é sempre importante escutá-lo e algumas vezes nos cruzámos na lida profissional.

A sua luta em defesa do brincar, em particular ao ar livre, é uma referência para quem se preocupa com o bem-estar dos mais novos.

Com as alterações nos estilos de vida e as opções em matéria de organização do trabalho, muitas crianças têm a vida preenchida por um tempo significativo de estadia na escola e muitos pais recorrem ainda ao envolvimento dos filhos em múltiplas actividades transformando-as numa espécie de crianças-agenda. Todas estas actividades, a oferta é variadíssima, são percebidas como imprescindíveis à excelência, aliás, muitas crianças são educadas (pressionadas) para a excelência. Promovem níveis "fantásticos" de desenvolvimento intelectual e da linguagem, desenvolvimento motor, maturidade emocional, criatividade, interacção social, autonomia e certamente de mais alguns aspectos que agora não recordo. Assim, as crianças e adolescentes estão sempre envolvidos em qualquer actividade, a quase todas as horas pois delas se espera não menos que a excelência.

Nada disto esquece a importância que, de facto, podem ter algumas actividades, mas apenas sublinhar alguns riscos no excesso.

Os pais, alguns pais, seduzidos pela sofisticação desta oferta, pressionados por estilos de vida que não conseguem ou podem ajustar e com a culpa que carregam pela falta de tempo para os filhos e sem vislumbrar alternativas aceitam que os trabalhos dos miúdos se desenvolvam para além do que seria desejável, eu diria saudável.

Somos dos países da Europa em que adultos e crianças menos desenvolvem actividades no exterior contrariamente, por exemplo ao que se verifica nos países nórdicos. É verdade que esses países têm habitualmente climas bastante mais amenos que o nosso, mas, ainda assim, poderíamos ter durante mais tempo crianças e adultos a realizar actividades no exterior. Por princípio e sempre que possível, a área curricular Estudo do Meio, mas não só, poderia ser também Estudo no Meio.

Muitas experiências, incluindo em Portugal, sugerem múltiplos benefícios para as crianças, desenvolvem maior autonomia, maior consciência ambiental e competências em dimensões como bem-estar emocional, a partilha de emoções, a autonomia, a autoconfiança, auto-regulação, a criatividade ou o pensamento crítico para além, naturalmente dos benefícios mais directamente associados a qualquer actividade.

Embora consciente das questões como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua, ter mais algum tempo as crianças fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã. O Professor Carlos Neto tem sido uma voz que não desiste na defesa destas opções e dos riscos graves da baixa literacia motora para o desenvolvimento saudável das crianças.

Creio que o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a auto-regulação, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como fala Almada Negreiros. O brincar, o brincar na rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente, os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento, de literacia motora também, e promoção dessa autonomia.

Importa sublinhar a necessidade de controlar um eventual perigo que, ainda assim, é diferente do risco, as crianças também “aprendem” a lidar com o risco.

Talvez, devagarinho e com os perigos e riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias.

É, pois, importante que todos os que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam como “guide line” para a sua intervenção a promoção do brincar. E a actividade de brincar na infância não se esgota, longe disso, numa disciplina curricular.

Os mais novos vão gostar e faz-lhes bem.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

DO BATER NAS CRIANÇAS. DE NOVO

 Na secção Ímpar do Público está uma entrevista ao The Washington Post da psicóloga Liz Gershoff que merece leitura e reflexão sobre um tema que muitas vezes abordo e que continua a merecer atenção, os castigos físicos como “ferramenta” de educação familiar. Aliás, sempre que intervenho com grupos de pais ou escrevo sobre isto surgem sempre comentários que mostram como é necessário insistir.

Na verdade, não é, de facto uma matéria fácil, mas os tempos que atravessamos com crianças e muitos pais estiveram muito tempo em casa todo o tempo em casa potenciaram risco de alterações nos comportamentos e no bem-estar e que talvez acrescentem oportunidade e importância a este texto.

(…)

Para mim, é apenas mais uma prova de que a forma como somos pais dos nossos filhos realmente os afecta. E se os pais estão na dúvida sobre o castigo físico, isto é apenas mais uma prova de que não está a fazer nenhum bem às crianças, e na realidade parece estar a piorar o seu comportamento. E isso, por sua vez, torna o nosso trabalho mais difícil como pais — essa é a ironia. As pessoas estão a tentar melhorar o comportamento dos seus filhos quando estão a usar o castigo físico, mas na realidade estão a piorá-lo.

(…)

Como disse, a questão do recurso aos castigos físicos ou às agressões verbais e humilhação como forma de educar é recorrente e está sempre presente na agenda de qualquer encontro ou conversa entre e com pais sendo, aliás, frequentes os discursos de legitimação destas “estratégias educativas”.

Se estivermos atentos reparamos que quando na imprensa generalista se abordam questões relativas a comportamentos menos positivos de crianças ou adolescentes são inúmeros os comentários e discursos sobre a alegada falência das famílias na definição de regras e limites nos comportamentos de crianças e adolescentes. Muitos destes discursos e comentários são normalmente acompanhados de referências ao facto de não se recorrer a umas “palmadas”, à “pedagogia do chinelo”, “uma boa palmada dada a horas” ou outras variações no mesmo tom, com uns “tabefes” a coisa resolvia-se.

As alusões às dificuldades das famílias ou da escola na regulação dos comportamentos de crianças e adolescentes podem ser justificáveis, mas a ideia de lidar com estas dificuldades através do bater e dos castigos severos parece-me na verdade preocupante para além da sua potencial ineficácia como o trabalho de Liz Gershoff mostra. Ninguém pode garantir que foram ou que são as “tareias” que constroem pessoas de bem.

É de recordar que em 2018 a Academia Americana de Pediatria produziu novas orientações sobre a parentalidade afirmando veementemente que bater nas crianças, insultá-las, humilhá-las ou envergonhá-las são comportamentos a banir. Os efeitos positivos são nulos e os negativos estão bem demonstrados. Esta posição é, aliás, recuperada na peça do Público

Uma outra referência  a um trabalho desenvolvido pela Universidade de Pittsburgh nos EUA divulgado na Child Development em 2017 que considerando diferentes variáveis seguiu 1482 alunos durante nove anos e evidenciou uma relação sólida entre o que foi considerado “parentalidade severa” (recorrer com regularidade ao gritar, bater ou outro tipo de comportamento coercivo, além de ameaças físicas e verbais como forma de punição) e baixo rendimento escolar e problemas de comportamento nas crianças envolvidas nesse “modelo” de educação familiar. O mais recente trabalho de Liz Gershoff é bastante elucidativo sobre a mesma questão.

Sabemos e não esquecemos que os “castigos corporais” podem ir da mais ligeira palmada à mais pesada tareia e também sabemos que bater é um tipo de comportamento inscrito na prática de muitas famílias na sua relação educativa com os filhos.

Na verdade, os castigos corporais ainda são uma "ferramenta" educativa em muitas famílias e, é conhecido, também em instituições que acolhem crianças sendo que mesmo que no âmbito da justiça a questão é complexa como algumas decisões judiciais ilustram.

A ver se nos entendemos, bater ou castigar severamente as crianças não é uma actividade educativa, gritar ou agredir verbalmente de forma regular não é uma actividade educativa. O comportamento gera comportamento e adultos que não se auto-regulam dificilmente ajudam crianças a ser auto-reguladas. Aliás, também se sabe que crianças que foram batidas tornam-se frequentemente pais que batem.

No entanto e dito tudo isto, também entendo que pontuais comportamentos inadequados ou incompetentes não significam necessariamente que estejamos perante pessoas, pais, más ou incompetentes.

Todos nós, alguma vez, agimos de uma forma menos ajustada ou adequada com os nossos filhos e isso não nos transforma em pessoas más, significa que somos apenas pessoas, que não somos perfeitos como perfeitos não são os nossos filhos.

Assim sendo, creio que devemos ser cautelosos, quer na defesa da "estalada educadora" ou “palmada educativa”, quer na diabolização definitiva de pais que numa situação eventualmente esporádica e de tensão assumem um comportamento de que podem ser os primeiros a arrepender-se.

Esta nota, não branqueadora ou desculpabilizante de nada, pode não ser particularmente simpática, mas estou cansado, tanto de discursos de legitimação do efeito "educativo" da violência física ou verbal dirigida a crianças, como de discursos demagógicos e, por vezes hipócritas, que clamam pelo "crucificação" cega de uma pessoa, o outro que bate, mas são produzidos por gente desatenta ou mesmo autora ou apoiante doutros comportamentos dirigidos a miúdos tão indignos quanto a "estalada" ainda que menos visíveis.

Finalizando, embora saiba que a legislação mesmo quando é imperativa é entendida como indicativa e, portanto, desrespeitada como temos tantos exemplos em várias matérias, é bom não esquecer que estamos a falar de direitos, não de opiniões.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

DA REGULAÇÃO

 Durante esta semana foi divulgado o estudo “Inclusão ou discriminação? Da análise dos resultados escolares às estratégias para o sucesso dos alunos com origem imigrante”. Foi promovido pela EPIS – Empresários Pela Inclusão Social e realizado elaborado pelo Centro de Investigação CICS.NOVA e a Nova SBE.

O estudo procurou caracterizar a forma como as escolas respondem aos alunos migrantes e analisar o rendimento académico deste grupo.

Em síntese e citando o Observador:

Numa amostra de 93 concelhos do Continente, onde existiam 9.493 alunos com origens imigrantes a frequentar o 9.º ano em 2016/20217, 21 (23%) concelhos apresentavam um índice de segregação destes alunos considerado elevado, abrangendo 2.850 jovens (30%).

Numa amostra de 404 escolas, onde existiam 9.956 alunos com origens imigrantes a frequentar o 9.º ano em 2016/2017, 133 (33%) escolas apresentavam um índice de segregação considerado elevado, abrangendo 3.467 (35%) alunos com essas origens.

De acordo com os autores a presença muito significativa de alunos migrantes em algumas turmas de algumas escolas associa-se ao seu desempenho escolar pois acabam por ser constituídas turmas com alunos com maiores níveis de insucesso.

O estudo considerou os resultados escolares dos alunos do 9.º ano em 2016-2017.

Em termos nacionais foram identificadas diferenças de 20 pontos (escala de 0 a 100) nos resultados a Matemática no exame do 9.º ano entre alunos nativos e alunos imigrantes com origem nos países africanos de língua oficial portuguesa.

Na análise do trajecto destes alunos a diferença começou a construir-se logo no 1º ciclo.

São dados que não surpreendem, as discussões sobre a constituição das turmas em função dos resultados escolares são recorrentes e também está identificado um conjunto de medidas que desde cedo no trajecto destes alunos, como doutros, devem ser assumidas nas políticas públicas de educação e que teriam certamente um impacto positivo. Muitas vezes aqui as tenho referido, não volto a repetir, mas sublinho a importância de dispositivos de mediação com as famílias para além dos dispositivos de apoio nas escolas.

No entanto, as disparidades na forma como as escolas se organizam vêm evidenciar mais uma vez um dos maiores constrangimentos do nosso sistema educativo, a ausência de dispositivos de regulação.

Muitas vezes tenho afirmado a importância da autonomia das escolas e dos professores que considero uma ferramenta imprescindível à qualidade nos processos educativos e a melhor forma de responder às assimetrias de contextos e à diversidade dos alunos, a característica mais óbvia de qualquer grupo de alunos e, portanto, de qualquer escola.

No entanto, importa que existam dispositivos de regulação interna e externa, que não se não se confundam com a inspecção que tem uma função diferente, que balizem na e escola e entre escolas procedimentos, modelos, organização, culturas, projectos pedagógicos, etc.

Sem estes dispositivos continuaremos a poder identificar o que talvez seja a única dimensão em que o sistema é verdadeiramente inclusivo, sem um sobressalto, coexistem na mesma escola ou em diferentes escolas práticas e formas de funcionamento e organização de excelente nível com outras intervenções qu são atropelos a alunos e professores.

 

quarta-feira, 14 de abril de 2021

POBREZA E EDUCAÇÃO

 Foi recentemente divulgado o estudo "A Pobreza em Portugal – Trajectos e Quotidianos", da Fundação Francisco Manuel dos Santos que analisa a pobreza em Portugal,

Os indicadores de pobreza são preocupantes atingindo mesmo pessoas com emprego estável, um terço das pessoas que vivem abaixo do limiar de pobreza estão empregadas.

A pobreza tem claramente uma dimensão estrutural e intergeracional, as crianças de famílias pobres demorarão até cinco gerações a aceder a rendimentos médios, um indicador acima da mádia europeia.

A escola é certamente uma ferramenta poderosa de promoção de mobilidade social, mas, por si só, dificilmente funciona como elevador social.

O impacto das circunstâncias de vida no bem-estar das crianças, em particular no rendimento escolar e comportamento, é por demais conhecido e essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas. Em qualquer parte do mundo, miúdos com fome, com carências, não aprendem e mais provavelmente vão continuar pobres. Manteremos as estatísticas internacionais referentes a assimetrias e incapacidade de proporcionar mobilidade social através da educação. Não estranhamos. Dói, mas é “normal”, será o destino.

É verdade que com muita frequência a escola distribui refeições a crianças e ainda bem que o faz. No entanto, não compete à escola a resolução de questões estruturais nas quais radica a pobreza continuada nem o providenciar de necessidades básicas às crianças.

Assim, ou nos concertamos na exigência a alterações nos modelos de desenvolvimento de modo a garantir, tanto quanto possível, equidade e um combate eficaz à exclusão com a consequente alteração nas políticas públicas, ou ciclicamente nos confrontamos com indicadores desta natureza.

Não, não é destino que os filhos dos filhos dos filhos, dos filhos das famílias pobres continuem pobres. Se assim acontece e continuar a acontecer é a falência das políticas públicas e dos que por elas são responsáveis.

terça-feira, 13 de abril de 2021

DESCONSOLO

 Ontem tive um dia comprido e cumprido com aulas e orientação de trabalhos de diferente natureza.

Há pouco recebi informação da minha escola relativa ao retorno a trabalho presencial a partir de dia 19 nos moldes em que estava antes deste confinamento.

As alterações não me envolvem, de acordo com as orientações definidas, as Unidades Curriculares em que colaboro são das que decorrem exclusivamente em modo não presencial.

No ano lectivo passado, quando se iniciou o segundo semestre eu sabia que, a não ser por atraso administrativo, seria, em termos formais, o meu último semestre de aulas.

Também já tinha decidido e acordado com as autoridades académicas não parar completamente, as aulas fazem-me falta.

A verdade é que poucos dias depois pararam as aulas presenciais e acho que, talvez em Junho, tenha ainda realizado uma conversa com alunos lá onde tudo acontece, isso mesmo, na sala de aula.

Não sei o que vai ser o próximo lectivo, esperemos que do ponto de vista de saúde pública tudo esteja melhor, mas acho que aceitarei continuar por mais algum tempo, não posso parar e levar como memória os alunos num ecrã.

Todas as aulas deste semestre tenho quase todos, mesmo quase todos, a assistir. Admiro a resiliência, como agora se diz e a motivação, são gente a construir empenhadamente a sua estrada.

É por eles, mas também pelo “bichinho” de dar aulas, que vou vivendo este desconsolo.

Sim, eu sei que será incompetência minha não recorrer abordagens pedagógicas mais diversificadas e ajustadas ao ensino à distância. Não consigo, tenho algumas dificuldades de motivação e de aprendizagem.

E também me lembro do Fado da Tristeza do José Mário Branco que diz:

(…)

Canta com aquilo que és,

Só podes dar o que é teu

(…)

No entanto, a verdade, a verdade, é que não esperava este desconsolo.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

A HISTÓRIA DO EXCLUÍDO

 A propósito do que vou lendo por estes dias sobre o universo da educação, uma história um bocado esquisita, por assim dizer.

Era uma vez um rapaz chamado Excluído. É verdade, era mesmo o nome dele, assim baptizado desde que nasceu. O Excluído tinha uns doze anos e andava na escola, frequentava o 5º ano já tinha sido excluído duas vezes no final do ano lectivo.

O seu funcionamento na escola era um bocado estranho e muitas vezes era excluído da sala de aula por causa do comportamento.

O Excluído não tinha muitos amigos, era excluído da quase totalidade dos grupos que se organizavam naquela escola.

Alguns alunos tinham outras actividades, mas o Excluído não era solicitado a envolver-se em nenhuma dessas actividades. Às vezes ele próprio se excluía de cenários nos quais lhe diziam para participar.

O Excluído tinha uma família que morava numa casa muito degradada num bairro ele próprio em más condições e na periferia da terra onde habitava.

As pessoas daquele bairro não se davam com as pessoas das outras zonas, apenas nas situações de trabalho, os que tinham, pois faziam-no fora do bairro.

Havia lá um Centro Social, mas o Excluído não tinha sido admitido pelo que ficava na rua a fazer coisa nenhuma.

Um dia lá na escola, apareceu um miúdo novo assim com ar desconfiado e até um pouco parecido com o Excluído que quando se cruzou com ele lhe perguntou o nome. “Excluído” disse o aluno novo. “Fixe, eu também me chamo Excluído”.

E fizeram um grupo só de Excluídos, incluídos.

sábado, 10 de abril de 2021

ATINGIMOS A IMUNIDADE DE GRUPO

 Uma das questões mais abordadas nos últimos tempos tem sido a necessidade e urgência de atingirmos a imunidade de grupo. Referem-se normalmente as dificuldades e os recursos necessários para que tal seja possível e o tempo que implicará.

Não querendo e não sabendo concorrer com os milhares de especialistas nesta matéria, parece-me que, afinal, a tarefa não era complicada, creio mesmo que teremos atingido a imunidade de grupo.

A partir da decisão ontem anunciada pelo juiz Ivo Rosa, parece-me claro que não haverá mais nenhum cidadão que possa contrair corrupção e ser condenado.

 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

CONTINGENTE PARA ALUNOS DAS ESCOLAS TEIP NO ACESSO AO SUPERIOR

 Entrou hoje em discussão pública o Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação 2021-2025. Do Plano consta a criação de um contingente especial, quotas, no acesso ao ensino superior e a cursos técnicos superiores profissionais para alunos das escolas do Programa Territórios Educativos de Intervenção Prioritária.

A proposta já terá merecido, sem surpresa, o apoio do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos e do Conselho de Reitores das Universidades.

Quem acompanha o que escrevo e a intervenção profissional conhece a minha posição de entender a qualificação como um bem de primeira necessidade e a ferramenta mais potente de promoção de equidade, de desenvolvimento pessoal, criação de projectos de vida bem-sucedidos e, naturalmente, do desenvolvimento das comunidades.

A proposta em discussão levanta várias questões pelo que de forma telegráfica algumas notas sem hierarquizar.

1 – O país educativo é, globalmente, um conjunto de TEIP, os Territórios Educativos de Intervenção Prioritária e os restantes Territórios Educativos com a Intervenção Possível. Dito de outra forma, existirão muito poucas escolas ou agrupamentos sem alunos no escalão A da Acção Social Escolar que, certamente, estarão em circunstâncias tão desfavoráveis como os alunos dos TEIP.

2 – Os TEIP procuraram responder aos efeitos de políticas urbanísticas desastrosas, criadoras de guetos enormes que, naturalmente precisaram de equipamentos sociais, escolas por exemplo, com as consequências conhecidas de exclusão, insucesso, etc. Só políticas e investimentos estruturais de médio prazo com políticas publicas sectorais integradas ao nível da requalificação e reordenamento se podem combater a existência de guetos, a base de todos os problemas.

3 – É habitual ouvir-se que, recorrer a quotas ou contingentes especiais para minimizar exclusão, não sendo o ideal, pode ajudar a minimizar os problemas. A título de exemplo, considerando dados de 2017/2018, frequentaram o ensino superior 1644 alunos com necessidades especiais, 0,5% do total dos matriculados no ensino superior, sendo que apenas 14% das vagas do contingente especial para estes estudantes foram ocupadas. Donde, o caminho só por aqui é demasiado estreito.

4 – A decisão de continuar para o ensino superior é construída durante todo o trajecto do básico e secundário. Percursos com mais sucesso são potenciadores de expectativas mais elevadas, de valorização do conhecimento e da qualificação e, portanto, potenciadores da intenção de continuar a estudar. Donde, é imprescindível um forte investimento em recursos e dispositivos de apoio que que sustentem mais sucesso para todos os alunos de todas as escolas.

5 – Com maior frequência que noutros grupos demográficos, as famílias mais vulneráveis expressam também expectativas mais baixas ou nulas sobre o sucesso escolar dos seus filhos e sobre a importância de estudar. Donde, seria desejável trabalho de mediação com recursos competentes e adequados no trabalho com as famílias no sentido de reajustar expectativas e reconstruir a atribuição importância ao estudo e à qualificação. Só pessoas com fragilidades na saúde mental se “sentem bem” com o insucesso, nas mais das vezes aprendem a conviver com essa “fatalidade” o que lhes tranquiliza a forma como olham para si e para os seus filhos.

6 – As famílias portuguesas enfrentam um dos mais caros sistemas de ensino superior da UE e da OCDE. Donde, é crítica a questão dos apoios à frequência, tipologia, número de bolsas e critérios de acesso a essas bolsas, para lá da existência ou não de contingentes ou quotas.

7 – Embora já seja feito em muitas escolas, sobretudo no final e durante o pós-básico, seria desejável que os dispositivos de orientação vocacional tivessem os recursos necessários para de forma alargada providenciarem informação clara sobre a natureza da oferta formativa, das suas características e solicitações, a que áreas de desempenho permitem aceder no mundo profissional, etc. Por outro lado, esse apoio também envolve o trabalho com os alunos no sentido de ajudar a um processo de tomada de decisão que seja base para procurar qualificação, de natureza diversa, no ensino superior.

8 – Já no ensino superior e para todos os alunos é importante que existam dispositivos de apoio institucionais e também formas de mentoria desenvolvidas já por alunos a frequentar os estabelecimentos que contribuam para melhores e mais rápidos processos de adaptação a novas rotinas, métodos de trabalho, dificuldades de adaptação, etc.

9 – Uma nota final para o óbvio, as mudanças mais estruturais requerem investimentos e os recursos são finitos, nenhuma dúvida. No entanto, as políticas públicas exigem opções e, também por isso, serão avaliadas.

Era isto.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL - O professor mas que sim e aluno mas que não

 Diogo, temos que ter uma conversa muito séria.

Tudo bem Setor, tudo o que eu faço é a sério mesmo quando estou a brincar.

Bom, quando te observo na aula acho que muitas vezes não estás concentrado no que eu digo ou na tarefa que estás a realizar.

Setor, estou concentrado em várias coisas, o Setor diz muitas vezes que é preciso estar atento a tudo.

Diogo, preciso também de te dizer que te sinto teimoso, insistes sempre no que na tua cabeça achas que está certo. Não podemos ser assim.

Mas o Setor diz muitas vezes que temos de ser persistentes, não podemos desistir à primeira.

Acho também que andas um pouco negligente, pouco empenhado nas coisas da escola.

Não Setor, procuro apenas não ter stress, estão sempre a dizer-me que é preciso ter calma.

Quando discutimos alguma coisa na sala arranjas sempre maneira de ter opiniões diferentes dos teus colegas o que acaba sempre por levar a discussões que não levam a lado algum.

Não percebo Setor, o Setor está sempre a dizer que temos de pensar pela nossa cabeça e não pela cabeça dos outros e também que devemos aprender a defender as nossas ideias.

Gostava também de perceber como muitas vezes entendes que não deves fazer o trabalho como vos digo para fazer e como os teus colegas fazem.

Setor, sempre tenho ouvido os setores dizerem para sermos criativos e evitarmos copiar os outros.

Estás a ver Diogo, esta conversa mostra como é difícil que nos possamos entender.

O Setor tem muita experiência, sabe que muita gente não se entende e o mundo continua a andar.

Desisto.

Não devia, o Setor diz sempre que não devemos desistir.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

O FIM DO DIA DE REFLEXÃO PRÉ-ELEITORAL. SERÁ?

 Ao olharmos para os tempos que vivemos não parece matéria de particular importância ou urgência. No entanto, a verdade é que hoje o Parlamento discute uma proposta da Iniciativa Liberal no sentido de eliminar o chamado “dia de reflexão” na véspera de cada acto eleitoral.

Não tenho qualquer indicador do que poderá ser o sentido de voto das diferentes bancadas.

Desde há vários anos que aqui tenho expressado a opinião de que a observância deste dia de reflexão me parece algo de anacrónico, sem sentido num tempo em que toda a informação de qualquer área continua a circular sem qualquer tipo de paragem.

Não conheço nenhum trabalho que possa sustentar as vantagens da existência do “dia de reflexão”. Não me parece plausível que de forma significativa tenhamos cidadãos que no final da cas campanhas eleitorais, aproveitem o dia de reflexão para serena e racionalmente decidirem o sentido de voto.

Acontece que com demasiada frequência as campanhas eleitorais têm muito pouco de esclarecimento e a generalidade das pessoas chega a essa altura com uma posição tomada, quer no sentido do voto, quer na própria participação das eleições.

Por outro lado, o chamado eleitorado flutuante não decide na véspera, decide, creio, face a contextos e circunstâncias.

Acresce que os níveis de abstenção continuam a crescer preocupantemente pelo que, também por esta razão, a existência do dia de reflexão não terá grande impacto.

Como disse, não tenho qualquer indicação de qual possa ser o sentido da decisão, admito que se elimine o dia da reflexão como admito que continue a existir … porque sempre existiu.

Uma nota final em matéria de reflexão. Talvez seja mais importante que no dia seguinte a cada acto eleitoral possamos reflectir sobre o que dele vai ou pode resultar.

terça-feira, 6 de abril de 2021

DA RECUPERAÇÃO DAS APRENDIZAGENS

 A leitura das inúmeras notícias que nos últimos dias têm surgido sobre a educação tem sido um exercício extraordinariamente estimulante, mas muito complexo.

Não me refiro às questões de saúde pública envolvidas no regresso dos 2.º e 3.º ciclos às escolas, mas ao problema na agenda, a designada “recuperação das aprendizagens” dos alunos em resultado dos períodos de confinamento e do ensino não presencial.

Vou tentar elaborar uma síntese, recorrendo a excertos de diferentes notícias e à memória.

Para começar e para assustar já ouvi referências a “gerações perdidas” de alunos o que evidentemente não tem sentido pois esquece o efeito de intervenções de avaliação e apoio competentes e adequadas.

As múltiplas referências vão em todos sentidos, “A escola só é escola quando funciona presencialmente”, (recuperação das aprendizagens), “Nada que não se faça, com vontade de trabalhar tudo se alcança.” Adjunto de Direcção escolar (Público).

Filinto Lima afirma no DN, "daqui a pouco vamos ter um boom de computadores". Fica resolvido o problema levantado pelo Público. “Escolas identificaram mais 5 mil alunos sem condições para aulas à distância durante o 2.º período”.

O Ministério criou um Grupo de Trabalho para a elaboração de Plano de Recuperação das Aprendizagens até 2023. Recordo que no início deste ano lectivo foi estabelecido um período de recuperação das aprendizagens com cinco semanas, o próximo terá dois anos lectivos, com que critérios estão estabelecidos estes períodos? Só avaliações cuidadas e competentes das escolas poderão definir as intervenções e o tempo compatíveis com a diversidade que as diferenças entre os alunos e o impacto avaliado evidenciarão.

Menos conteúdos, pedagogias inovadoras, escolas de Verão: como recuperar as aprendizagens” título do Público numa peça em são ouvidos alguns dos integrantes do Grupo de Trabalho. Registo a inevitável referência à inovação, a estranheza pela ausência a uma “mudança de paradigma” e a insistência num programa de actividades para o Verão, após um terceiro período que directores, professores e pais “lamentam a extensão” e, cito outro título do DN, “Meio milhão volta à escola para "um período imenso" e "nada fácil" e “Diretores de escolas lamentam extensão do período letivo e antecipam dificuldades em manter níveis de concentração.”

No JN, “Diretores de escolas pedem emagrecimento de programas "obesos"” e solicitam “Mais apoios, tutorias, professores, psicólogos e terapeutas são estratégia defendida para escolas recuperarem aprendizagens dos alunos.”

Também ficámos a saber que o “Governo admite reduzir programas e não quer prolongar aulas.“ No DN lê-se que “Professores querem programas curtos, apoio aos alunos e tempo para recuperar matérias” a que na mesma peça Filinto Lima acrescenta defender “a qualidade das aulas e isso consegue-se através de um ensino mais individualizado", e "programas mais curtos, um reforço nas tutorias, apoios e coadjuvâncias".  Por outro lado, o ex-Ministro Nuno Crato, também com enorme surpresa, defende a realização de testes nacionais.

Após este conjunto de referências não exaustivo sobre os olhares sobre a “recuperação das aprendizagens” o meu maior desejo era mesmo que as “aprendizagens por recuperar” se entendessem com os alunos de modo a ficarem, por assim dizer, amigos. É que correm o risco de dificilmente se entenderem e  vir a sentir muitos sobressaltos neste estranho mundo da educação que funciona em modo “cada cabeça, sua sentença” e os especialistas são ainda mais que os de saúde pública. 

segunda-feira, 5 de abril de 2021

A AVOZICE AINDA CONFINADA

 O dia de hoje é naturalmente marcado por mais uma etapa no processo de desconfinamento. Por razões óbvias parece-me de sublinhar o regresso às escolas dos alunos do 2.º e 3.º ciclos do básico.

Muito haveria para conversar sobre esta questão, em particular, considerando o que vai pela imprensa, fica para os próximos dias, não perde actualidade.

É que o meu olhar sobre o dia de hoje está centrado em mais um marco na minha viagem pelo mundo mágico da avozice.

O meu neto pequeno, o Tomás, completa cinco anos e eu também completo hoje cinco anos de avô duplo, o neto grande, o Simão já vai nos sete anos.

De manhã passámos lá por casa para deixar as esperadas prendinhas, para o Tomás e para o Simão que, surpreso, depois também percebeu que fazia anos, há cinco anos que é irmão o que também é de registar.

Perguntei ao Tomás se sempre ia fazer os cinco anos e precisava de ajuda. Respondeu com ar sério a olhar para mim, “Não Avô, vou fazer seis, cinco já fiz hoje”.

É Neto, já não consigo acompanhar o tempo, voa(s).

Não vamos ter a festa de aniversário, vamo-nos ver e falar e, certamente, cantar os “Parabéns” para que o Tomás sopre as velas, ainda dos cinco anos apesar da pressa e provavelmente também com a ajuda do sopro do Simão.

Não, não é a mesma coisa, é a vida possível nos tempos que atravessamos.

Mas está prometido Netos, quando o bicho se for embora vamos fazer uma festa grande e trocar abraços, palavra de Avós.

E são, também assim, os dias de uma avozice confinada.


domingo, 4 de abril de 2021

LIVROS E MIÚDOS

 Seguindo o incontornável calendário das consciências, apesar de algumas meritórias referências na imprensa e nos tempos carregados e ainda muito confinados, discretamente passou há dois dias o Dia Internacional do Livro Infantil. No entanto e talvez por estarmos nesta situação, os livros possam ser um apoio, uma ferramenta de resiliência e aprendizagem, para os mais novos, mas também para nós.

Num país com níveis de literacia insuficientes e com hábitos de leitura pouco generalizados, é importante não esquecer que tudo começa nos miúdos.

Também sabemos que os contextos familiares são muito diferentes, a disponibilidade de recursos, os níveis de literacia, as exigências de quem está em teletrabalho, a dimensão do agregado, situações de vulnerabilidade social, etc. são variáveis de peso,

No entanto, por mais voltas que se dêem, a leitura e os hábitos de leitura só se desenvolvem de uma maneira, lendo. Por outro lado, também sabemos que a existência de hábitos de leitura e o contacto regular com livros no ambiente familiar são contributos muito importantes para a construção de percursos escolares e educativos bem-sucedidos. Talvez o incremento das actividades de leitura possa ser algo emergente dos tempos em casa e venha a aproximar adultos e mais novos da leitura e dos livros, independentemente do suporte.

Neste contexto e recordando Cristina Puig há que ter em consideração a idade, até aos seis anos a generalidade das crianças não lêem, serão os pais a ler e contar as histórias que estão nos livros. As crianças não lêem pouco, quem lê pouco são os pais. No entanto e de uma forma geral as crianças gostam dos livros, assim sendo, trata-se de passar mais tempo com eles. O tempo possível, mas também um tempo construído.

A partir do domínio ainda que inicial da leitura é importante aproximar as crianças dos livros de que possam gostar aproveitando e estimulando as suas motivações. A leitura, sobretudo nesta fase inicial não é uma tarefa fácil. Assim, precisamos de que seja motivadora e insistir, acompanhar as crianças, tentar estar próximo delas nessa actividade.

Sendo que ler nem sempre é fácil e os materiais a ler poderão não ser motivadores, esta fase é vulnerável e terá impacto na criação de hábitos de leitura conforme for atravessada. Com a entrada na pré-adolescência e adolescência e como se passa em variadíssimas dimensões as crianças/adolescentes são muito sensíveis aos amigos e aos seus comportamentos. Se tiverem amigos que leiam também mais provavelmente o farão.

Nos tempos que correm os suportes digitais permitem o acesso a textos de diferente natureza, não apenas livros. Tudo bem, é bom que exista essa oferta. Tendo, naturalmente atenção aos conteúdos o que é importante é que leiam. Mais uma vez, só se aprende a ler e cultiva o hábito da leitura … lendo.

Já aqui citei e repito uma moda alentejana que diz:

"É tão triste não saber ler,

Como é triste não ter pão.

Quem não conhece uma letra,

Vive numa escuridão."

Que se iluminem então os miúdos com os livros.

sábado, 3 de abril de 2021

SERÁ DESTA?

 Pode ser que seja desta. Depois de ter chumbado em 2019 uma iniciativa do BE no mesmo sentido, o PS apresentou agora uma proposta parlamentar no sentido de reconhecer a crianças e jovens o estatuto de vítimas em situações de exposição a violência doméstica mesmo quando não sejam directamente atingidos. A proposta do PS junta-se a uma do PSD também recentemente apresentada e que difere pelo não estabelecimento de limite de idade.

Acresce que será brevemente discutida em plenário a petição pública subscrita por mais de 50 mil cidadãos que também defende a aprovação do estatuto de vítima para crianças envolvidas em contextos de violência doméstica.

É de facto um problema relevante. Em Janeiro o Governo lançou um concurso com o objectivo de reforçar o apoio psicológico e psicoterapêutico para crianças e jovens vítimas de violência doméstica atendidas e/ou acolhidas na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica.

Segundo informação divulgada na altura estava prevista uma verba de 2,78 milhões de euros destinada a colmatar as “necessidades de serviços de apoio especializado, privilegiando abordagens psicoterapêuticas focadas no trauma, com a designação de Respostas de Apoio Psicológico (RAP) para crianças e jovens vítimas de violência doméstica”.

Nesta iniciativa estão a colaborar a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género e a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) através de um protocolo de colaboração na resposta a construir.

Como disse aquando da divulgação parece-me uma boa notícia, sobretudo num tempo em que escasseiam. Esperemos, no entanto, que se concretize e não seja algo que fica por assim mesmo. Não estranharei, mas era bom que avançasse tal como a aprovação do estatuto de vítima para as crianças e jovens envolvidos.

Importa ainda recordar que entidades como o Instituto de Apoio à Criança e a Ordem dos Advogados defendem a necessidade de maior protecção para crianças em contextos de violência doméstica.

O reforço do dispositivo de apoio anunciado seria, do meu ponto de vista mais eficaz, com outro enquadramento legal mais amigável para as crianças.

De facto, parece importante a necessidade de protecção nestes casos considerando o número de situações e os efeitos destas vivências na vida das crianças e adolescentes.

Como indicador recordo que segundo do Relatório Anual de Avaliação da Actividade das CPCJ de 2019, a exposição de crianças e jovens a episódios de violência doméstica foi o tipo de risco mais comunicado, 28,9% tendo ultrapassado as comunicações por negligência, 28,6%. Tal facto, reforça a a necessidade de aumentar o quadro de protecção.

Para além de sublinhar os danos potenciais que esta exposição pode provocar nas crianças gostava de chamar a atenção para um outro potencial efeito nas crianças que assistem a episódios, por vezes violentos, de violência doméstica, os modelos de relação pessoal que são interiorizados. Aliás, nos últimos anos tem-se verificado que a maioria das queixas de violência doméstica é apresentada por mulheres jovens o que permite pensar em crianças pequenas que assistirão a estes episódios.

Numa avaliação por defeito aos casos participados de violência doméstica estima-se que cerca de metade serão testemunhados por crianças. Se considerarmos que existem muitíssimas situações não reportadas, pode concluir-se que estas testemunhas, por vezes também vítimas, serão em número bem mais elevado.

Este quadro lembra o velho adágio "Filho és, pai serás", ou seja, num processo de modelagem social muitas crianças tenderão a replicar ao longo da sua vida, em adultos também, os comportamentos a que assistiram e que, tal como podem produzir efeitos traumáticos, poderão adquirir aos seus olhos, infelizmente, um estatuto de normalidade.

Não é certamente por acaso que estudos recentes em Portugal evidenciaram números elevadíssimos de violência em casais de jovens namorados universitários, uma população já com níveis de qualificação significativos.

Neste contexto e com o objectivo de contrariar uma espécie de fatalidade em círculo vicioso, os miúdos assistem à violência doméstica, replicam a violência, a sociedade é violenta, quando crescem são violentos em casa, e assim sucessivamente, importa que os processos educativos e de qualificação sublinhem a dimensão, a formação cívica e o quadro de valores.

Não é nada de novo, a afirmação desta necessidade.

A questão é que o próprio discurso social e político sobre a escola e sobre os professores não me parece contribuir para que se possa encarar a escola com a confiança e recursos necessários a que possa contribuir para quebrar o círculo vicioso do processo de modelagem social envolvido.

Acresce que a intervenção junto das famílias e a tentativa de contrariar dinâmicas disfuncionais, violência doméstica por exemplo, não dispõe dos meios e recursos suficientes.

Esperemos que as iniciativas divulgadas, sejam mais do que promessa e aumentem significativamente os níveis de protecção e apoio a crianças e jovens.