AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2009 de A a Z

Em jeito de balanço telegráfico umas notas alfabetizadas.
Para começar uma referência à incontornável e estranha gripe A, a de todos os equívocos. A Banca mostrou os seus pés de barro como o BPP ou o BPN num ano dominado pela Crise cuja dimensão mais visível é a tragédia do Desemprego. O ano ficará recordado pelas famosas Escutas e pela revelação de uma Face, a oculta, da teia da corrupção.
São de registar também os Golpes sérios que a nossa confiança nas instituições sofreu devido à Hipocrisia de grande parte dos discursos políticos, mais voltados para os Interesses da partidocracia que para os do bem comum. A Justiça continuou injusta e ineficaz. Na área da economia esperemos que tenha ficado a Lição sobre os modelos de desenvolvimento e a desregulação que geraram a crise.
Em termos políticos saliente-se o fim da Maioria que obriga a Negociação parlamentar algo a que o governo não estava habituado. Deste quadro resulta um novo papel para a Oposição e um cenário que se joga entre a ingovernabilidade e o entendimento.
O ano ficou também marcado pela afirmação e contestação da corporação dos Professores numa lógica nem sempre entendida pela opinião pública. No mesmo universo, a educação, continuamos longe da Qualidade desejada e imprescindível. Durante o ano de 2009 Reduziu-se a qualidade de vida de muitas famílias, aumentaram os Sacrifícios e a esperança assenta, diz o governo, no investimento público, o TGV, por exemplo.
Não é de esquecer que foi um ano com três idas às Urnas e que os vários Vetos presidenciais anunciam o fim da cooperação estratégica.
Permanece, como sempre, o grande X, a incógnita sobre o futuro. Entretanto, o Zé desespera.
Esperemos então por 2010.

E SE AFINAL FOSSE POSSÍVEL

E se afinal fosse possível que os miúdos fossem genericamente bem tratados?
E se afinal fosse possível que os velhos não estivessem, muitos deles, condenados a acabar sós?
E se afinal fosse possível que os modelos de desenvolvimento criassem riqueza sem criar excluídos?
E se afinal fosse possível que a dignidade das pessoas fosse um bem de primeira necessidade que não pudesse ser beliscado?
E se afinal posse possível que as consciências não obedecessem ao calendário para estarem atentas?
E se afinal fosse possível não esquecer que o Outro também é gente?
E se afinal fosse possível entender que a diferença não é necessariamente uma ameaça?

Como sabem, o Natal é uma época de abastança e excessos, sobraram-me uns sonhos, dos bons.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O ACORDO DO DESACORDO

Já uma vez aqui me referi ao Acordo Ortográfico que, ao que parece, entrará em vigor em 2010. Umas das vantagens de ser velho é poder ser teimoso e ter uma justificação para isso, a idade, toda a gente sabe como os velhos são teimosos. Do que tenho lido ainda não me convenci da bondade do acordo. Entendo que as línguas são estruturas vivas, em mutação e isso é importante. No entanto, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.
Por outro lado, a opinião dos especialistas não é consensual e eu sou dos que entendem que em todas as matérias é importante conhecer a opinião de quem sabe.
Neste quadro e como sou teimoso vou continuar a escrever em desacordo até que o teclado me corrija. Nessa altura desinstalo o corrector que venha com o acordo e vou correr o risco de regressar à primária, ou seja, ver os meus textos com riscos vermelhos por baixo de algumas palavras, os erros.
Nessa altura, também não me importo, os velhos, além de teimosos têm coisas esquisitas.

PAIS INCÓGNITOS

Em Portugal é obrigatória a averiguação da paternidade, mas todos os anos se verificam centenas de situações em que o nome do pai permanece desconhecido, incógnito. Em 2008, de acordo com o I, foram 508 situações. A obrigatoriedade cria, por vezes, alguns embaraços, existem situações em que não se mantém qualquer ligação do pai ao filho mas torna-se necessária a sua autorização, por exemplo, para uma deslocação ao estrangeiro. Pelas mais variadas razões temos milhares de famílias monoparentais sem que tal facto implique, necessariamente, mal-estar para as crianças. Talvez fosse de considerar o ajustamento legal no sentido de evitar situações de constrangimento para mães e filhos.
Por outro lado, também temos milhares de situações de pais e mães bem identificados e que permanecem incógnitos para as crianças, sejam por incompetência parental, circunstâncias de vida ou por negligência.
É por questões desta natureza que me parece defensável a existência nas unidades locais de saúde, Centros de Saúde ou as recentes Unidades de Saúde Familiar, de estruturas de apoio e mediação familiar que ajudassem e apoiassem as famílias e a parentalidade.
Este dispositivo poderia ser um bom instrumento ao serviço de uma verdadeira política de apoio às famílias.

O HOMEM CHAMADO DESTINO

Era uma vez um homem chamado Destino. A sua vida não era uma tarefa fácil, sobretudo na relação com as pessoas que foi conhecendo. Quase sempre tinham uma atitude desconfiada e só com algumas, muito poucas, conseguiu um bom entendimento. Era uma pessoa que gostava e precisava, no fundo como toda a gente, de ter amigos e sentir que gostavam dele. A grande questão é que sem perceber porquê, visto que se esforçava procurando ser simpático e agradável, o Destino sentia que, de uma forma geral, as pessoas não se aproximavam de si nem revelavam especial interesse em conhecê-lo
Na verdade, ele não tinha percebido que muitas pessoas não acreditam num Destino. Para as poucas que acreditam, provavelmente, aquele não era o Destino que esperavam.
O nome foi a primeira grande partida que o destino lhe pregou.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ANTIGAMENTE O INVERNO

Está mais um dia cabaneiro aqui no meu Alentejo, chuva ininterrupta, a terra a não receber mais água e muito vento.
Na vila, onde as compras ainda incluem uma conversa com as pessoas das lojas, comentava-se, não podia deixar de ser, a água e a ventaneira. Invariavelmente as pessoas concluíam, que venha, assim vamos tê-la no Verão.
Agora, aqui em frente ao lume e ao ler que se anuncia a possibilidade de cheias nos leitos do Tejo e do Douro lembro-me como esta situação era frequente quando era miúdo. É certo que as barragens contribuem para a regularização dos caudais, mas só mesmo a abundância de chuva é capaz de produzir as cheias. As pessoas do Ribatejo sabem como as cheias eram importantes para a qualidade dos solos e conviviam naturalmente com a subida do Tejo, a cheia normal, por assim dizer. No fundo, é a mesma naturalidade com que as pessoas da Guarda e de Trás-os-Montes não se queixam do frio e afirmam a sua necessidade nas patéticas reportagens que as televisões fazem logo que a temperatura baixa um pouco mais. Como é evidente, também podem ocorrer episódios mais violentos que trazem prejuízos e danos, às vezes pessoais, o que é naturalmente grave.
Em todo o caso, estamos no Inverno. Será que nos desabituámos de viver um Inverno?

SALDOS

Na sequência do espírito natalício e para que o povo não desmobilize, iniciou-se a época oficial dos saldos. Assim, dizia uma profissional do comércio ouvida num jornal televisivo, não se verifica o hiato existente quando os saldos começavam na segunda semana de Janeiro. Ainda bem, os hiatos não são desejáveis, tudo se requer com continuidade.
De qualquer forma, ao pensar nos saldos creio que, de facto, a época não começou hoje, vivemos em saldos permanentes.
Como exemplos, reparem nos níveis de eficácia e rigor do nosso sistema de justiça, são baixíssimos, apresentam um valor completamente em saldo. Também me parece que o valor da confiança dos cidadãos na maioria da classe política entrou em saldo, nunca esteve tão baixo.
Creio ainda que o optimismo e a confiança no futuro já tiveram valores mais elevados.
Esperemos então que termine a época dos saldos para que uma boa parte do que nos interessa possa ter um valor mais elevado. Enquanto não, gastemos então uns euros naquela peça que andávamos a namorar faz tempo, esperando pela época dos saldos.

O RAPAZ QUE NÃO SE CALAVA

Num destes dias em que se realizavam as reuniões para avaliação do primeiro período a professora Paula encontrou o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros e deu para um tempinho de conversa.
Quase no Natal e uns dias de paragem, sabem bem Velho.
Também acho Paula, que tal foi o trabalho da miudagem neste primeiro período?
Achamos sempre que podia ser melhor mas foi razoável. Existem sempre alguns problemas em todos os grupos mas também ainda estamos no começo, vamos ver se as coisas se compõem. Ainda há pouco na reunião do 6º B estivemos algum tempo a conversar sobre o Marco. Estamos preocupados, em várias disciplinas os resultados são baixos. Todos nós achamos que é um miúdo muito esperto, sabe imensas coisas fora dos programas, mas passa o tempo todo a falar, não se cala um minuto e em todas as aulas. Não é que seja mal comportado, apenas está permanentemente a fazer perguntas e a conversar. Dá ideia que lê e pesquisa sobre várias coisas porque fala com algum conhecimento mas no que toca a tarefas escolares não funciona bem. Sempre que lhe dizemos alguma coisa, quase nem deixa falar e faz discursos sem fim. Quase não conseguimos conversar.
Sim Paula, conheço o Marco, ele vem às vezes aqui à biblioteca e comigo também é como dizes, fala pelos cotovelos, quase nem consigo falar para ele. Acho que ele faz assim porque tem medo.
Medo, não entendo muito bem, o Marco parece um miúdo tão seguro, sempre convencido dos saberes sobre tudo o que fala.
Parece seguro, ou melhor, precisa de parecer seguro, não acho que o seja. Não sei bem o que lhe pode causar o medo ou insegurança, mas creio que ele fala o tempo todo para que não falem para ele, ou seja, enquanto ele está a falar, não lhe fazem perguntas e é ele a escolher de que fala.
Agora que dizes isso lembro-me que numa reunião a mãe do Marco disse que ele em casa tem momentos em que fica triste e estranhamente calado. Aqui na escola nunca reparámos, parece o mais seguro dos miúdos.
Pois é, temos que estar mais atentos, escutá-lo em situações mais aconchegadas, talvez sem se sentir tão à vista ele deixe perceber o que o inquieta.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O APOIO ÀS FAMÍLIAS

O I apresenta um trabalho interessante sobre as políticas de família. Portugal é na Europa a 15 o penúltimo país em investimento nos apoios às famílias. O nosso valor representa 1,2% do PIB enquanto a média é de 2,1%. É certo que os tempos são de crise e de dificuldade na despesa pública mas considerando o inverno demográfico e as dificuldades que muitas famílias enfrentam que, muitas vezes, são foco de desestabilização, o investimento em apoios às famílias seria seguramente um investimento reprodutivo, o melhor dos investimentos.
Neste universo, sabemos, já o referi várias vezes aqui no Atenta Inquietude, que os salários baixos são uma das razões que “obrigam” a que as famílias revejam em baixa, como agora se diz, os projectos relativos a filhos. Por outro lado, Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que, naturalmente, é igualmente um obstáculo para projectos de vida que envolvam filhos.
As mulheres portuguesas são das que mais tempo trabalham fora de casa. Além disso, não pode esquecer-se a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc.
Toda esta situação torna urgente a definição de políticas de apoio à família com impactos a curto e médio prazo como, por exemplo, a acessibilidade aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida. Parece também importante a existência de serviços, por exemplo, nos Centros de Saúde de apoio e mediação familiar. É importante combater a discriminação salarial e de condições de trabalho através de qualificação e fiscalização adequadas.
Pode parecer disparate mas acho que se poderia investir na construção de redes comunitárias de apoio e guarda das crianças, aproveitando, por exemplo, os seniores que estão sós, desocupados e cheios de vontade de ser úteis a “filhos” e a “netos” que deles precisem. Este caminho parece bem mais eficaz que a atribuição de 200 € para a criação de contas a prazo mobilizáveis após 18 anos.
Como curiosidade e a propósito de apoios às famílias, o DN relata que crianças oriundas de famílias carenciadas vendem os Magalhães que receberam da escola por 5€ ou trocam-nos por brinquedos. A Secretária Regional de Educação afirma que a partir do momento em que os meninos receberam os computadores a responsabilidade é dos pais.
E nossa, é frequente confundir culpa com responsabilidade.

OS FIGURANTES

Como a todas as pessoas acontece-me reparar um dia em algo que já vi vezes sem conta sem me despertar qualquer tipo de atenção. Hoje, ao seguir as notícias televisivas aqui no meu Alentejo reparei numas pessoas, os figurantes, que aparecem sempre coladas às figuras com algum relevância política. Normalmente, seguem um passo atrás do Primeiro-ministro, ministro ou outra qualquer entidade que leve uma câmara de televisão a segui-la. Os figurantes constituem um grupo numeroso. Por este facto, nem sempre cabem no ecrã e então, assiste-se, por vezes de forma pouco discreta ao esforço para aparecerem. Compõem um sorriso circunspecto e enquanto a entidade é entrevistada é ver os figurantes a inclinar a cabeça em sinal de aprovação ao mesmo tempo que procuram compor um ar inteligente e condescendente para com a comunicação social. Têm a secreta esperança de merecer um primeiro plano que constitua prova de vida.
Uma outra versão muito interessante dos figurantes e do respectivo comportamento é o Parlamento. Enquanto os seus líderes parlamentares discursam ou respondem é reparar nas segundas linhas das respectivas bancadas, onde se alojam os figurantes. Riem-se se o líder solta uma piada, ainda que completamente sem graça e insultuosa da inteligência, aplaudem freneticamente qualquer coisa, ou o seu contrário, que seja dita pelo líder e, claro, fazem ouvir uns roncos a que chamam apartes sempre que alguém de outra bancada está no uso da palavra. No final das sessões, quando deambulam pelos corredores, portam-se como os primeiros figurantes que referi, sempre atrás do líder esperando que uma imagem na televisão prove que existem.
Esta gente fez-me lembrar o Incaracterístico, o alvo dos trezentos e sessenta e cinco aforismos constantes do notável “Ensaio sobre o termo da história” de António Vieira, felizmente reeditado.

domingo, 27 de dezembro de 2009

O PAPEL? QUAL PAPEL?

É sabido o estado degradado e degradante em que o nosso sistema de justiça se encontra. É conhecida a sua ineficácia e morosidade bem como a assimetria com que a justiça é aplicada, forte com os fracos, fraca com os fortes. É trágico o sentimento de impunidade instalado. Um dos aspectos que mais me revolta é a quantidade de situações em que os arguidos de crimes mais ou menos graves, mas quase sempre mais graves, são absolvidos, são despronunciados ou os alegados crimes prescrevem, não porque o sistema de justiça entenda que são inocentes mas porque não os pode culpar. As razões são inúmeras, erros processuais formais ou de investigação, provas sólidas mas com fragilidades na recolha, a assinatura de alguém que não está, o carimbo que falta, a autorização que não chegou a tempo, etc. etc. Creio que existe mesmo um grupo de advogados, muitíssimo bem pagos, sempre os mesmos, basta ver quem aparece nos processos mais mediáticos, que se especializaram, não na defesa da inocência dos seus clientes, mas em conseguir que eles não sejam condenados. É claro que a contratação destes tubarões especialistas nos buracos e alçapões que a legislação apresenta e que, com frequência, é preparada com o auxílio dos seus escritórios, é acessível apenas a um grupo pequeno de notáveis que se mantêm impunes.
Esta a introdução vem a propósito do facto do Tribunal da Relação do Porto ter considerado que a obrigatoriedade dos exames de sangue que detectam a presença de álcool no sangue é ilegal por falha no processo legislativo. A consequência é que as condenações por acidentes devido ao excesso de álcool, em que as pessoas envolvidas tenham sido examinadas nos hospitais ficam sem efeito. Ninguém será, obviamente, responsabilizado pela falha no processo legislativo.
Mas o país é penalizado por ser servido por gente assim, incompetente e criadora de um monstro de burocracia e uma teia de processos que afogam qualquer ideia de justiça célere, eficaz e, já agora, justa.

O CANTE

Esta noite no meu Alentejo houve festa. A Associação de Cantares Populares Seara Nova, do meu Alentejo, organizou um serão alentejano convidando para a festa o Grupo Coral e Etnográfico, o Grupo Coral da Velha Guarda e o Grupo Coral Feminino, um dos poucos grupos de cante alentejanos só com vozes femininas.
O velho Zé Marrafa tinha-me dito que ia cantar, faz parte do Grupo da Velha Guarda, e a mulher canta no Grupo Feminino. Uma noite cheia de Alentejo. O cante alentejano sempre tem o condão de emocionar. Há nele uma força que não consigo explicar, também não é preciso, é apenas um milagre do ouvir e do sentir.
O velho Marrafa dizia-me no fim que foi pena terem cantado poucas modas mas como eram mais grupos teve que ser assim. Eu acho que ele tem razão, todos podiam ter cantado mais modas.
A noite não estaria tão fria como está agora.

sábado, 26 de dezembro de 2009

ACALMAR A BRISA

Em dois acidentes, ocorridos em 2002 e 2003, que envolveram a presença de animais nas faixas de rodagem e após sucessivas decisões e recursos, a Brisa foi agora definitivamente condenada pelo Tribunal Constitucional às indemnizações resultantes dos acidentes, sendo que os acórdãos impõem às concessionárias a prova de que a presença de animais não lhes é imputável.
Estes acórdãos são de saudar depois de anos e anos em que as concessionárias cobravam serviços que não prestavam, por exemplo, a realização de obras nas auto-estradas com a consequente diminuição de eficiência, qualidade e segurança no trânsito não era acompanhada por alteração nos preços das portagens, criando uma inaceitável situação de cobrar o que se não oferecia.
Parece-me assim importante que, para além da excelência e simpatia do tratamento que as concessionárias de auto-estradas merecem por parte da administração pública através de contratos e adjudicações no mínimo discutíveis, não seja ainda o cidadão que paga portagens a suportar falhas ou negligência na gestão e manutenção da rede.
Numa altura em que lamentavelmente nos habituamos à ineficiência da justiça é de registar uma boa medida de administração de justiça. É certo que demorou 7 anos, mas não se pode ter tudo.

SALA DE ESPERA

(Foto de Mico)

A vida que se gasta nas salas de espera que a vida coloca à nossa espera. A espera que desespera até nos roubar a capacidade de espera.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

FELIZMENTE HÁ NATAL

Felizmente há Natal. Parte da imprensa escrita não se publica no dia de Natal e dia fica bastante mais tranquilo, apesar da sua presença on-line. Como o espírito natalício e os ajuntamentos familiares não são propícios à atenção à televisão, a tranquilidade aumenta.
Este ano ainda temos alguma agitação com a rapariga que se agarrou a Bento XVI mas que rapidamente percebeu que a hierarquia da igreja não é dada a intimidades de vedeta rock. É também verdade que não faltam os dados das Operações Natal das forças de segurança e, para animar, o colorido dos sucessivos avisos de mau tempo que efectivamente estragou o Natal a milhares de pessoas. A informação completa-se com o enunciar das iniciativas de solidariedade para com os sem-abrigo e outros deserdados da vida que, uma vez por ano são notícia e recebem algum calor que os protege do alerta vermelho em que vivem permanentemente.
De resto, a vida decorre com toda a normalidade nos aconchegos familiares onde, entre as calorias e os presentes recebidos, vivemos o espírito natalício. Entramos na preparação para a passagem de ano que, como sabem, nos obriga a parecermos felizes o que, como a experiência nos diz, dá um grande trabalho e não é nada fácil.
Felizmente há Natal que nos transmite a tranquilidade e paz que nos ajudam a ser felizes na noite de Ano Novo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A MINHA DISCIPLINA É MAIS IMPORTANTE QUE A TUA

Quando há dias comentei no Atenta Inquietude a intenção do ME de introduzir mudanças no currículo do 3º ciclo, uma necessidade de há muito, referi o consenso estabelecido sobre esta necessidade de mudança e sublinhei a necessidade de ouvir os parceiros envolvidos. Também referi que as razões que sustentam o quadro actual são complexas pelo que a sua abordagem transcende um espaço desta natureza. No entanto, essas razões estão também na base, creio, das reacções que começam a emergir, ou seja, a maioria das vozes entende a mudança como necessária, designadamente a diminuição do número de disciplinas, desde que isso não afecte a Sua disciplina que, aliás, Deve ser reforçada. Esta reacção, diria de corporativismo científico, na linha do “not in my backyard”, é fruto da quintalização excessiva das áreas de saber que se transformam em disciplinas com Donos diferentes. Esta lógica tem informado o sistema educativo mas também o sistema de formação de professores durante demasiado tempo o que alimenta a esta disciplinarização sem sentido, 14 disciplinas para 25, 5 horas de aulas no 3º ciclo.
É curioso, e mostra como esta cultura está enraizada, verificar a frequência com que, a propósito de qualquer saber, se defende a existência de mais uma disciplina. A última proposta que ouvi falava da necessidade de uma disciplina de “Educação Financeira” para ensinar os meninos a poupar e consumir. Parece estranho mas a sugestão obedece à lógica actual que sustenta a existência de tantas disciplinas.
Não creio que a discussão em torno de “a minha disciplina é mais importante que a tua” contribua para necessária mudança. A Lei de Bases do Sistema Educativo define para o Ensino Básico um modelo de área científica e não um modelo de disciplina, só presente no Ensino Secundário. Creio que o caminho mais eficaz será estabelecer, ouvindo quem seja de ouvir, as competências científicas e pessoais de que a educação escolar deve ser responsável, por ciclos e por anos, embora me pareça que se deveria modificar o actual quadro de três ciclos, de 4, 2 e 3 anos. Depois deste processo discute-se então qual o desenho curricular mais ajustado aos objectivos a atingir, respectivo processo de transição e as formas de avaliação e regulação do trabalho de alunos e professores.
Deixar que a discussão se enrede neste corporativismo disciplinar é comprometer a imprescindível mudança.

O NATAL DOS SIMPLES

Lembrei-me da canção de José Afonso a propósito deste Natal e de algumas notas informativas. Assim, em jeito de telegrama e não querendo estragar o espírito natalício.
Na Delphi, na Guarda, 500 trabalhadores cumpriram o seu último dia de trabalho. Portugal tem uma taxa de desemprego de 10.2%, perto de 600 000 desempregados, muitos sem subsídio. A incapacidade de cumprimento no endividamento bancário, sobretudo no caso do crédito à habitação, continua a aumentar.
Bateu-se o recorde de levantamento de numerário nas máquinas multibanco. Diminuíram as poupanças e bateu-se o recorde do montante pago através do cartão de débito e subiu também o valor médio de cada pagamento. Em várias lojas de artigos de luxo ouviu-se que subiram o número e o valor das compras até agora realizadas.
Que raio de mundo é este?
É certo que mais logo a maior parte de nós vai ter um Natal bonito e tudo estará bem. Simples, não é?
Voltando ao Natal dos simples de Zeca Afonso.
Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

O ALUNÃO

Acabou o primeiro período, reúnem-se os professores e atribuem-se as notas. A maioria dos miúdos, felizmente, sairá bem tratada do processo. Com notas mais ou menos elevadas ficarão contentes e o espírito natalício encarregar-se-á de os compensar também da forma possível, pois, como se sabe, o espírito natalício não é igual para todas as famílias, algumas terão até muito pouco espírito natalício este ano.
Outros alunos, apesar de terem alguns resultados menos positivos, encararão, com o apoio dos professores e da família e, naturalmente, com o seu esforço o resto do ano com uma atitude positiva e de confiança assumindo a convicção de como se diz “vão lá”, “são capazes”. Assim deve ser.
No entanto, haverá um grupo de alunos de quem a escola, mesmo estando no primeiro período, desistirá. São os miúdos que “não vão lá”, seja porque “com a família que tem não é possível”, “porque, coitado, não é muito dotado, já o irmão quando cá andou assim era”, “não se interessa por coisa alguma, não anda aqui a fazer nada” ou outra qualquer apreciação entendida como razão. Muitos destes alunos, tal como a escola desiste deles, também eles desistirão da escola, confirmando a antecipação do insucesso, desde já estabelecida.
Num tempo em que a grande orientação é reaproveitar e reciclar o que não serve ou não presta, talvez seja de os municípios, com a orientação do Ministério da Educação, procederem à instalação de um novo recipiente nos ecopontos que quase sempre existem perto das escolas. Assim, junto do vidrão, do pilhão e dos outros contentores, colocar-se-ia um alunão, um recipiente onde se colocariam os alunos que não servem ou não prestam e esperar que algo ou alguém os recicle e devolva à escola novinhos, reciclados, cheios de capacidades e capazes de percorrer sem sobressaltos o caminho do sucesso.
O problema é que somos uma sociedade de desperdícios, até de pessoas, logo das pequenas.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

PRENDER NÃO BASTA

Encontra-se em fase de revisão a Lei Tutelar Educativa que regula as medidas a adoptar face a comportamentos delinquentes de adolescentes e jovens.
De acordo com responsável pela Direcção Geral de Reinserção Social os trabalhos de revisão da lei têm decorrido, ou melhor, têm estado parados por falta, imagine-se, dos representantes do Ministério da Justiça na Comissão de revisão. A mesma responsável em trabalho no I refere a sobrelotação dos Centros Educativos existentes, situação há dias reconhecida pelo Secretário de Estado da Justiça.
Ao que parece no âmbito de revisão da lei não está previsto o abaixamento da idade em que o internamento fechado em Centro Educativo, actualmente a partir dos 14 anos e até aos 16. Embora algumas vozes defendam que é melhor começar a “prender” mais cedo, por enquanto, e considerando a tipologia global, existem sempre excepções, dos comportamentos de delinquência a idade de “internamento fechado” não carece de alteração.
Mais preocupante é o facto dos dados da Direcção Geral de Reinserção evidenciarem que cerca de 40% dos adolescentes internados voltam aos Centros ou às prisões após os 16 anos. Esta altíssima taxa de reincidência, mostra a falência do Projecto Educativo obrigatoriamente definido para todos os adolescentes internados. Este Projecto Educativo assenta em dois eixos fundamentais, formação pessoal e formação escolar e profissional. É neste âmbito que o trabalho tem que ser optimizado. É imprescindível que os meios humanos e os recursos materiais sejam suficientes para que se minimize até ao possível os riscos de reincidência.
Fica certamente mais caro lidar com a delinquência em adultos do que investir na qualidade dos Centros Educativos para que sejam, de facto, educativos.

A HISTÓRIA DO ZÉ NINGUÉM

Era um vez um rapaz chamado Zé Ninguém. Logo de pequeno percebeu como naquela terra vivia quem era Ninguém. Na escola raramente se dava por ele, ficava no fundo da sala e passava despercebido. Muitos vezes os professores passavam as aulas sem falar com ele que também não se esforçava e pouco a pouco começou, como diziam, a ficar para trás. Ele que estava sempre atrás ficou ainda mais atrás. A família não estranhou, nem sequer sabia muito bem o que fazer, os Ninguém sempre assim tinham sido enquanto tiveram na escola de onde saíram logo que puderam.
Depois da escola o Zé Ninguém juntou-se a outros Ninguém e entre o nada fazer e a precisão da subsistência começou a viver entre o biscate indiferenciado, próprio de um Zé Ninguém e delinquência de ocasião que proporcionava alguns dividendos para além da adrenalina.
Ao chegar a esta fase da sua vida o Zé Ninguém ficou frente a duas estradas tendo de escolher qual percorrer.
Uma primeira estrada passaria por conhecer uma rapariga chamada Alguém por quem se apaixonaria e com construiria um projecto de vida que o devolveria à escola, lhe proporcionaria um trabalho, uma família e o transformaria finalmente em Alguém.
A segunda estrada por onde o Zé Ninguém poderia caminhar levá-lo-ia a progredir na carreira iniciada, o lado errado da vida, e a um dia ser capaz de realizar o grande feito, aquele que o transformaria, finalmente, em Alguém.
Não sei qual foi a escolha do Zé Ninguém. Podeis escolher vós, ele será sempre Alguém.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A QUESTÃO DO CURRÍCULO

De há muito que se reclamam mudanças em matéria de currículo, designadamente nos conteúdos, na sua extensão e na organização, ou seja, no número de disciplinas. Ainda há poucos dias abordei esta questão aqui no Atenta Inquietude. Finalmente, parece haver a intenção do ME de proceder a mudanças, as quais serão, espero, discutidas com as parcerias adequadas. Não cabe neste espaço a abordagem das justificações para o quadro actual mas o que existe é, de facto, insustentável.
Creio que a mudança em termos curriculares deverá considerar alguns aspectos sobre os quais deixo umas notas telegráficas.
Em primeiro lugar, parece imprescindível a diminuição do número de disciplinas, reformulando as áreas de saber fundamentais. Este processo poderia libertar docentes para trabalho em parceria em algumas áreas curriculares o que se constitui como uma ferramenta comprovadamente importante para a qualidade do ensino e da aprendizagem.
Um outro aspecto que me parece fundamental é que a definição dos conteúdos essenciais para cada ano de escolaridade e para cada disciplina seja feita de forma a que a carga horária da disciplina não seja preenchida na totalidade, para além dos tempos destinados a testes, visitas, etc. Em termos práticos, isto quer dizer que os professores terão maior flexibilidade para gestão do conteúdo curricular, usando mais ou menos tempo consoante as especificidades dos conteúdos e as necessidades dos alunos. Este modelo permite ainda a existência de tempo para que, de acordo com os respectivos conteúdos, possam ser abordadas questões desse universo e que correspondam a motivações contextuais ou dos alunos. Tal forma de organização minimizaria a existência de um discurso frequente por parte dos professores exemplificado com, “não posso perder tempo com isso, tenho que dar o programa”, ou “preciso de acabar o programa, depois temos as provas globais”.
Estes aspectos parecem-me importantes e contributivos para uma estrutura curricular mais adequada, com mais qualidade, mais facilitadora de flexibilidade e diferenciação e mais capaz de integrar na experiência curricular motivações e saberes provenientes da cultura não escolar.

CIRCO DE FERAS

Os níveis de delinquência e o sentimento de insegurança que lhes está associado instalaram-se entre nós. Banalizou-se o relato na comunicação social de episódios de delinquência com recurso a violência bem como as referências a criminalidade económica e corrupção que sem a espectacularidade de outras áreas são também fortemente preocupantes. Apesar desta banalização, a atitude do cidadão comum face à delinquência obedece, creio, a uma gradação que depende da natureza do crime e das vítimas do crime, entre outros aspectos. Quero dizer com isto que o cidadão comum não representa da mesma maneira um crime económico sem violência ou um crime dirigido a crianças ou a velhos, por exemplo.
Do meu ponto de vista e sem, naturalmente, branquear ou desvalorizar diferentes comportamentos criminosos, a minha perplexidade surge da capacidade humana de infligir continuadamente e de forma consciente o sofrimento a outros humanos. Vem isto a propósito de um processo que envolve 59 indivíduos acusados de recrutarem gente vulnerável, dependentes de álcool e droga e pessoas com deficiência mental, e as levarem para herdades em Espanha onde, em regime de escravatura, eram obrigados a trabalhar sem remuneração, sem condições de alimentação e saúde e vítimas de maus-tratos físicos incluindo violação. Algumas das vítimas passaram anos nesta situação. Não consigo convencer-me que os donos das herdades desconheceriam o que se passava e acho que crimes desta natureza mostram o que de pior existe em nós, mais do que a tragédia de um homicídio no meio de um assalto. Sem hipóteses de perdão.

OS MIÚDOS ACREDITAM NO PAI NATAL

Aqui há dias passava na televisão uma peça em que se discutia se os meninos acreditam no Pai Natal e até que idade poderá acontecer. Foram ouvidos alguns miúdos e alguns graúdos sobre esta questão e alguns dos mais pequenos referiram a sua crença no Pai Natal. É verdade, os miúdos acreditam. Eu sei porque já fui Pai Natal. Nunca percebi muito bem porquê mas desempenhei várias vezes a função, se calhar a escolha deveu-se à proeminente mochila que carrego à frente e às barbas brancas que de há muito me acompanham.
Não pensem que é uma tarefa fácil, não é não senhor. Passar umas horas dentro de um fato quentíssimo com umas barbas ainda mais quentes que insistem em deixar a boca cheia de pêlos não é muito simpático. Mas os miúdos acreditam no Pai Natal e isso ajuda a aliviar o desconforto. Felizmente ainda não tinha sido inventada a moda do Pai Natal trepador de varandas, então desistiria mesmo.
Numa das vezes há já muitos anos, cena de que ainda possuo uma memória perfeita, lembro-me do ar aflito e preocupado de um gaiato que insistiu o tempo todo junto de mim para que não me esquecesse do que queria como presente, Moto Ratos, umas personagens de banda desenhada em voga na altura. E o miúdo, sempre que me lembrava os Moto Ratos, explicava-me com os olhos muito abertos como se ia para casa dele para eu não me enganar no caminho. Confirmei depois que ele recebeu os desejados Moto Ratos, claro, o Pai Natal cumpre.
Deve ser bom acreditar no Pai Natal. Aliás, deve ser bom acreditar.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O INVERNO

Na roda das estações chega hoje o Inverno. Normalmente, é um Inverno do meu contentamento, traz o frio e a chuva, por vezes menos do que o necessário, mas sempre imprescindíveis para mim e para a terra. Este ano promete depois de um Outono ameno e seco.
Mas também parece chegar um Inverno do meu descontentamento na formulação de Steinbeck. Há um Inverno presente em muitos milhares de famílias a atravessar profundas dificuldades económicas. Há um Inverno presente na vida de milhares de velhos a viver abandonados, sós ou em instituições, como quem já “não espera mágoas nem dá danos a ninguém” como os velhos do largo de que fala o Janita Salomé. Há um Inverno a acolher milhares de miúdos institucionalizados sem projecto de vida. Há um Inverno em famílias marcadas por maus-tratos e sofrimento.
Há um Inverno no clima político, cheio de crispações e tempestades artificiais assentes nos interesses partidários, veja-se, só como exemplo, o actual caso em discussão no Parlamento sobre a adopção por parte de casais homossexuais em que, independentemente do que a consciência lhes dita, os deputados votarão como o partido manda. Tal clima invernoso inibe a busca e definição de um caminho que nos leve para o futuro.
Esperemos, pois, pela Primavera.

O FRIO DA INFÂNCIA

Nos tempos que percorremos, em que se envolvem o espírito natalício e sucessivos alertas coloridos por causa do frio, lembrei-me de uma nota do muito interessante “O mundo” de Juan José Millás que assim fala, “Quem teve frio em pequeno, terá frio para o resto da vida, porque o frio da infância nunca desaparece”.
Creio que existem muitos miúdos que passarão algum frio e nem sempre conseguimos dar por isso. Acontece até que alguns deles sentem frio em ambientes muito aquecidos. É o frio que vem de fora, aquele de que falam os alertas coloridos, é o frio que está à beira, um bloco de gelo disfarçado de família ou de instituição de acolhimento e é o frio que vem de dentro e deixa a alma congelada. Do frio de fora, apesar de incomodar, acho que nos conseguimos proteger e proteger os miúdos, mas dos frios que estão à beira e dos que vêm de dentro nem sempre o conseguimos porque também nem sempre entendemos e estamos atentos ao frio que os miúdos passam.
Apesar de sentir confiança na resiliência dos miúdos expressa em muitíssimas situações de gente que sofreu e resistiu a experiências dramáticas, uns mais que outros naturalmente, parece-me fundamental que estejamos atentos aos frios da infância.
Muitas vezes, como diz Millás, quem teve frio em pequeno terá mesmo frio no resto da vida. Quando olhamos para muitos adultos à nossa volta parece claro o frio que terão passado na infância.

domingo, 20 de dezembro de 2009

PAI, COMPRA LÁ. NÃO.

O Público de hoje apresenta um trabalho interessante sobre a influência dos mais pequenos nas decisões de compra das famílias. Já tenho referido aqui no Atenta Inquietude este aspecto a que, por vezes, os pais não estão suficientemente atentos, mas que não passa despercebido aos especialistas em marketing.
De acordo com os estudos, as crianças até aos 7 anos influenciam 70% das decisões de compra da família, mesmo quando se trata de produtos que não lhes são directamente dirigidos. A notícia não refere mas esta influência mantém-se ao longo da infância e juventude.
Muitos pais acreditam ser imunes a esta “pressão” e não assumem essa influência que, no entanto, é comprovada. Em períodos como o que atravessamos, submersos em espírito natalício, este efeito é potenciado no âmbito das compras de Natal. Já tenho promovido de forma informal e com gente mais pequena o exercício de registar durante um período de tempo quanta publicidade lhes é dirigida ou procura envolvê-los na decisão dos pais. Quase sempre ficam admirados com a quantidade registada.
No quadro de valores que de mansinho se instalou, “és o que tens” os miúdos, através de eficazes estratégias de marketing, são bombardeados com ofertas sobre o que “todos têm” pelo que todos querem ter para poder ser, porque, como disse, “não tens não és”. Por outro lado, os pais, muitos pais, devido aos estilos de vida sentem-se desconfortáveis na relação com os filhos e são vulneráveis a esta “pressão” dos miúdos assumindo com dificuldade o Não, aspecto que também aqui tenho referido.
Neste quadro, se por um lado a educação escolar, no âmbito da formação alargada, pode incorporar reflexão sobre consumo e comportamentos, o programa Mediasmart é um exemplo, é fundamental que os pais se sintam à vontade e com firmeza para contrariar o que muitas vezes não passa de uma estratégia de consumo habilmente promovida por campanhas de marketing cuja regulação ética é ligeira, para ser simpático. Neste sentido os pais devem sentir que um Não que pode desencadear uma birra poupará no futuro várias outras birras e alguns outros dissabores. Aliás, os miúdos embora não gostem, como provavelmente qualquer de nós, PRECISAM DO NÃO.

sábado, 19 de dezembro de 2009

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

O mundo optimista depositava alguma esperança na cimeira de Copenhaga e com mais ou menos dificuldade esperava um compromisso salvador. Como era previsível pelo mundo realista os países mais desenvolvidos não estão genuinamente interessados em compromissos sérios pelo que se chegou a uma espécie de acordo que Ban Ki-moon considera “apenas um começo”. Em politiquês isto quer dizer um fracasso e agora parece que será em 2010 no México que se estabelecerá um acordo no qual poucos acreditam. O mundo pessimista continua cada vez mais preocupado com o futuro.
Por cá o clima continua sem grandes alterações e sem grandes perspectivas de acordo. Parece que o Menino Guerreiro, Santana Lopes, acordado pelo espírito natalício se prepara para concorrer à liderança do PSD pelo que as expectativas climáticas são excelentes. Se o clima no país político é excelente, advinha-se a subida do aquecimento global.
Por outro lado, o país foi sacudido por uma série de assaltos com níveis de violência pouco habituais que também indiciam alterações significativas no clima de segurança em que vivemos.
Vamos esperar pela próxima cimeira.

SOMBRAS

(Foto de Mico)

Era uma vez uma terra em que as únicas sombras presentes nas vidas dos miúdos eram as que o Sol oferecia a cada um.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O PAÍS A ABANAR

Ontem de madrugada o país abanou e o alarme é geral. Terá sido o maior abanão dos últimos quarenta anos. O Governo sempre com generosa solicitude anuncia como prioridade tornar obrigatório o seguro contra abanões. Não sei se iremos a tempo e se haverá seguro que resista.
Felizmente tenho um sono ensonado e por isso, felizmente, não dei pelo abanão da última madrugada mas tenho assistido aos muitos abanões que temos sofrido e continuamos a sofrer. De facto, não são poucos, senão reparem. Com os sucessivos e pouco edificantes processos e episódios o abalo que sofreu a confiança na justiça é arrasador.
Parece um pouco monótono repetir sistematicamente este tipo de coisas, mas é verdade a seriedade e competência da classe política parecem também fortemente abaladas.
É fundamental não esquecer o abanão devastador que milhões de cidadãos e respectivas famílias sentiram nos últimos dois anos com a crise instalada. Ao que parece continuaremos a abanar.
Nos últimos dias esteve presente a polémica em torno do enorme salário mínimo nacional que, certamente, ao fim de cada mês deixa muita gente com as mãos a abanar.
A educação é algo que passa o tempo sofrer abalos. Sempre que entra uma equipa ministerial com a usual vontade de reformar todo o sistema abana. Vamos a ver se estabiliza desta.
Felizmente parece que algo se mantém estável, o espírito natalício, é ver lojas entupidas, homenzinhos de vermelho pendurados nas casas, “montanhas” de prendas, de presentes, de ofertas, de lembranças, de etc. Ainda bem.

A HISTÓRIA DO PARDAL

Creio que nunca vos falei do meu amigo Pardal, também não sei porque me lembrei hoje dele, do meu amigo Pardal que, na verdade, se chamava Luís mas era por Pardal que todos o tratávamos. A razão de tal chamar vinha por um lado do ar franzino e pequeno que ele tinha e, por outro lado do seu andar. Ele parecia não andar, parecia deslocar-se através de saltos pequenos, tal como os pardais. Quando eu era pequeno, ainda tínhamos passarada e campo à volta para dar por tais coisas. O Pardal tinha ainda outras particularidades, passava o tempo a saltar de uma coisa para outra, de uma brincadeira para outra. Quando começávamos qualquer brincadeira, rapidamente o Pardal que fazer outra coisa. Usava muitas vezes uma expressão “tou aqui tou a pirar-me” e curiosamente, quando nos perguntavam o quereríamos ser quando fôssemos grandes, o Pardal respondia, “andar de um lado para o outro a ver coisas”. Ninguém o levava muito a sério.
No final da adolescência, quando alguns de nós, muito poucos, continuámos os estudos o Pardal ofereceu-se como voluntário para a Marinha, assim podia viajar, dizia ele, não percebendo que a primeira viagem foi para a guerra. A vida afastou-nos, soube depois por um irmão do Pardal que ele acabou por sair da Marinha e andou pelas Américas, do Norte e Brasil. Foi desempenhando várias profissões e saltitando sempre. Ainda soube que se tinha mudado para a Holanda e perdi então o rasto ao Pardal.
Como vos disse, não sei porque me lembrei do meu amigo Pardal mas gosto de acreditar que ele ainda está a “andar de um lado para o outro a ver coisas”. Era o que ele queria ser quando fosse grande. Grande Pardal.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O RUMO CERTO

O estudo ontem apresentado no Conselho Nacional de Educação, para além de permitir sublinhar a necessidade de ajustamento no desenho curricular e reforçar a importância da qualidade do trabalho em sala de aula, espaço onde tudo se joga, sugere duas direcções que me parecem fundamentais.
A primeira, já enunciada pela Ministra da Educação é a definição de metas para cada ano de escolaridade. Ter estas metas definidas e montar os respectivos e adequados dispositivos de avaliação é a melhor forma de perceber os trajectos de aprendizagem das crianças e intervir em tempo oportuno quando alguma coisa começa a não correr bem.
A segunda é, mais uma vez, sublinhar que a retenção não é a base da qualidade. Somos um dos países com mais elevada taxa de retenção e com piores resultados nas aprendizagens. De facto, se tivermos metas definidas para cada ano e se se verificar a existência de dificuldades com alguns alunos é mais fácil e mais eficaz, desde que existam os necessários recursos, montar os mecanismos de apoio que ajudem alunos e professores a superar dificuldades do que mantê-los no mesmo ano esperando que a simples repetição seja a base do sucesso. Tenho defendido muitas vezes esta posição, mais chumbos não melhoram a qualidade e o próprio CNE ainda sob a direcção do Professor Júlio Pedrosa tinha tomado a mesma posição desencadeando na altura a costumeira e ignorante reacção referindo o famigerado “facilitismo” e a defesa de mais exames. Como sempre digo, medir muitas vezes a febre não faz a febre baixar.
Para além destas duas dimensões que me parecem fundamentais, creio, como sugere o próprio estudo comparativo, ser de considerar que os primeiros seis anos de escolaridade integrassem um único ciclo e que fosse reestruturado o currículo nessa base, considerando, menos áreas “disciplinares” (evitando o excesso do actual 2º ciclo) e em vez de muitos professores, um para cada “disciplina”, recorrer mais vezes a dois professores em simultâneo na sala de aula. As experiências e os estudos sustentam a bondade destas medidas.
Esperemos para ver.

PEDIDOS AO PAI NATAL

Estava o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, a arrumar alguns materiais já ao fim da tarde quando entrou a professora Joana. O Velho reparou que a Joana vinha com ar de quem não estava muito bem.
Então Joana, algum problema?
Ora Velho, coisas do Natal.
Coisas do Natal?! Como assim, então não é um tempo bom?
Não Velho, decididamente o Natal é um tempo mau para muita gente. É um tempo de muito fingimento.
Estás mesmo zangada, que aconteceu?
Não Velho, não estou zangada, estou triste. Lembrei-me de trabalhar com os miúdos a escrita dos presentes que iriam pedir ao Pai Natal e todos escreveram empenhadamente a lista dos seus desejos.
Então correu bem, porque ficaste triste?
Olha a folha que o Manel me deu.
O Professor Velho pegou na folha que a Professora Joana lhe mostrava e viu com uma letra bem desenhada e sem erros, “Eu quero que o Pai Natal dê um trabalho ao meu pai, um riso para a minha mãe que está sempre aborrecida e uma PlayStation para mim e para o meu irmão que nunca tivemos uma”.
Pois, Joana …vamos beber um chá que nos aqueça.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

FAMÍLIA

Depois do alarido mediático o Tribunal de Cascais decidirá hoje sobre o futuro do pequeno Martim, um daqueles pequenos, a pequena Alexandra, a pequena Esmeralda, por exemplo, que vão passando pela imprensa espelhando o drama em que muitos destes miúdos (sobre)vivem entre famílias. Esperemos pela decisão.
A propósito de família, segundo o I, o Papa Bento XVI terá alterado o Código de Direito Canónico não considerando válidos os casamentos entre católicos e não católicos. A confirmar-se esta alteração a Igreja, ou melhor, o discurso oficial da Igreja, evidencia mais um excelente exemplo de tolerância e modernidade.
A propósito de modernidade parece que o Conselho de Ministros aprovará esta semana a proposta de legalização do casamento entre pessoas do mesmo género. Alguns sectores querem referendar tal proposta porque parece bulir com a defesa da ideia de família, provavelmente a mesma ideia de família que Bento XIV subscreve inibindo o casamento desde que uma das pessoas não seja católica.
A propósito de católica, a história de amor do Padre Rui e da Menina Fátima continua de vento em popa. Hoje anuncia-se uma grande entrevista televisiva ao enamorado casal. Recomenda-se a sua visão aos sectores que defendem a família mas contrariam o casamento por motivos de género ou de religião.
Felizmente é Natal, um tempo de virtude.

A HISTÓRIA DO INDIGNADO

Era um vez um homem chamado Indignado. Desde pequeno que tinha um comportamento peculiar, estava sempre atento ao que era dito e ao que as pessoas faziam. Quando percebia que alguma coisa era dito ou feito que pudesse não ser bom ou justo para outras pessoas protestava. Raramente lhe escapava alguma coisa, apanhava as mentiras, as contradições ou os comportamentos que os adultos mostravam embora lhos proibissem não por ser pequeno mas por estarem errados. Na escola nenhuma injustiça ou indelicadeza por parte de um professor ou colega passava sem que o Indignado se manifestasse. Os adultos embaraçavam-se com este comportamento do Indignado pois, como todos sabemos, ninguém é perfeito e não gostamos de ser confrontados com essas imperfeições.
Quando cresceu manteve o mesmo modo de funcionamento. Arranjava sérios e frequentes problemas nos muitos locais de trabalho por que foi passando. O Indignado não suportava qualquer desrespeito ou injustiça fosse de quem fosse o que, como é óbvio, não o tornava particularmente simpático sempre a protestar contra tudo e contra todos. A família preocupada com o mal-estar do Indignado tentou encontrar uma forma de resolver este problema. E conseguiu.
Actualmente, o Indignado vagueia, tranquilamente, ao abrigo dos plátanos que estão no bonito jardim daquela instituição. Fala apenas para si próprio, está bem medicado e recebe as visitas semanais da família que ele, aliás, não deseja, porque lhe parecem hipócritas.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

OS BISCATES

Uma das notícias pequenas que me chamou a atenção na imprensa de hoje refere que os serviços de inspecção da Segurança Social detectaram cerca de 36 000 falsas baixas, pessoas que estando em condições de trabalhar beneficiavam de baixa médica. Este dado significa que um em cada seis indivíduos inspeccionados estaria nestas condições.
Embora creia que não será um exclusivo português, a baixa não justificada faz parte da nossa vida. Desde sempre me lembro de pessoas que toda a gente sabia estar de baixa e andavam nos biscates. Curiosamente, sendo pessoas que estavam a meter a mão no nosso bolso eram vistas pela vizinhança com indulgência e até mesmo com alguma admiração disfarçada. É um exemplo típico do xico-espertismo empreendedor, somos mal pagos, arranjamos uma “doençazinha” e andamos ao biscate.
Em bom rigor é tudo uma questão de escala. Os exemplos de xico-espertismo, de esquemas, de fraudes, de corrupção, de manhosice, estão tão presentes em camadas mais elevadas em termos sociais e económicos que os nove milhões e meio de euros que esta inspecção faz poupar são apenas trocos na realidade portuguesa.
A questão é que a eficácia nas acções inspectivas apenas parece melhorar ao nível dos pequenos “pilha-galinhas”. O combate às situações bem mais graves será pensado através da criação de 27 comissões, 25 grupos de trabalho, 5 observatórios que depois de concluídos os seus trabalhos produzirão Relatórios com propostas de intervenção que serão analisadas em 5 comissões e 14 grupos de trabalho interministeriais. Findo este processo, desencadear-se-ão iniciativas legislativas que correrão no Parlamento através do trabalho e acompanhamento das respectivas comissões especializadas.
Pois.

O ARREFECIMENTO GLOBAL

A mediatizada cimeira que decorre em Copenhaga tem como preocupação de fundo as alterações climáticas, designadamente, o problema do aquecimento global. Embora exista alguma discussão em torno de causas, qual o verdadeiro impacto da intervenção humana por exemplo, dimensão e horizonte temporal do problema, parece ser consenso que o planeta está ameaçado. Levantam-se as vozes, produz-se a retórica do costume e, provavelmente, concluir-se-á que, contrariamente à famosa palavra de ordem em tempos muito em voga em Portugal, os pobres que paguem a crise climática.
Como cidadão minimamente atento, não posso deixar de sentir alguma preocupação com este problema. No entanto, em matéria de alterações climáticas também me preocupa um fenómeno a que não vejo ser dada a atenção que creio merecer. Refiro-me ao arrefecimento global.
Quase imperceptivelmente temos assistido de há uns tempos para cá a um arrefecimento mas relações entre as pessoas e entre os seus grupos, sejam de natureza política, étnica, social, religiosa, cultural, económica ou, simplesmente, afectiva. As pessoas tendem a isolar-se ou a acantonar-se em tribos, muitas vezes fechando-se em redes sociais virtuais e a vida comum é muito dependente do calculismo frio. Todos os dias somos bombardeados com informação sobre barbaridades executadas com a maior das friezas. Todos os dias existem milhões de pessoas, sobretudo as mais vulneráveis, que vêem os seus direitos básicos serem negados com uma frieza que nega a humanidade.
Este quadro fica de facto complicado, como combater simultaneamente um processo de aquecimento global do planeta e um processo de arrefecimento global dos habitantes do planeta? Esta é a pergunta para a qual temos de encontrar resposta, é uma questão de sobrevivência.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O SALÁRIO MÍNIMO AFUNDA-SE, É COMO OS SUBMARINOS

Para manter o mesmo poder de compra que permitia em 1974 o salário mínimo nacional deveria ser de 562 € e não os 475 € decididos para 2010. Estes dados vêm sublinhar que, efectivamente, as pessoas com salário mais baixo perderam poder de compra. Isto quer dizer, algumas pessoas como o Eng. Van Zeller ou o Dr. Vítor Constâncio parecem não perceber, que viver com 475 € é uma tarefa dura que nenhum dos dois quereria ter que fazer. Segundo notícias de hoje a proposta dos empregadores é que para 2010 o valor do salário mínimo não ultrapasse os 460 €. Se bem repararmos, com o número actual de desempregados a que podemos juntar as pessoas com salários desta dimensão ficamos com um país paupérrimo, em que o dia a dia é a sobrevivência. Talvez fosse de estudar a qualidade de vida actual de milhões de famílias em Portugal.
Eu sei que pode envolver uma ponta de demagogia mas numa entrevista à Antena 1 o Chefe de Estado-maior General das Forças Armadas disse que “Conhecem-se em tese as capacidades dos submarinos … é nesse contexto que procuraremos a melhor aplicação desse novo recurso”. Lê-se e não se acredita, o mais alto responsável militar pelas forças armadas admite que ainda não sabe muito bem o que fazer com os submarinos que estão encomendados, embora, felizmente, tenha uma ideia teórica das capacidades dos submarinos. Estes brinquedos custam a irrelevância de 1000 milhões de euros e, ao que parece, também as contrapartidas do negócio não foram utilizadas, numa história que ainda não foi toda contada.
Realmente, no meio de tanto milhão que por aí passa sem se perceber muito bem porquê nem para quê, que interesse tem discutir umas miseráveis dezenas de euros no salário mínimo?

AS NOTAS

Na semana que se inicia e antes de se entrar mais a fundo no espírito natalício muitas famílias vão dar atenção às notas. Não às notas necessárias para a compra dos presentes de Natal, mas das notas escolares que também contribuem para comprar presentes, as boas notas são quase sempre recompensadas mas, sobretudo, contribuem para comprar futuros.
Alguns alunos esperarão com tranquilidade, apenas com a ansiedade de ver confirmado o bom andamento do primeiro período, em casa receberão felicitações pelo trabalho desenvolvido e até verão essas felicitações e contentamento familiar sublinhados com o reforço dos presentes, merecem, toda a gente dirá.
Alguns outros miúdos esperam com a ansiedade da dúvida, será que o trabalho e a generosidade dos “setores” chegarão para a positiva, senão a tudo, pelo menos a quase tudo. É que os pais também tinham prometido “aquela” prenda se as notas fossem boas.
Também existem alguns alunos que já nem a ansiedade pelas notas conseguem sentir, vão ser más, o que não estranharão e as famílias, algumas, também não. É hábito. Destes, uns assumirão um discurso e pose de indiferença, precisam dessa pose e desse discurso para mascarar para fora o que o insucesso dói para dentro. Ninguém que não esteja doente se satisfaz com o insucesso. As famílias não sabem que fazer e culpam a escola que as culpa a elas.
Por fim, alguns alunos receberão as más notas do primeiro período como uma espécie de “cheque pré-datado” passado pela escola, ou seja, estas serão também as notas do segundo e do terceiro período. Esta baixa expectativa é um forte contributo para que se cumpra o emitido no “cheque”, as más notas no futuro. Não tem que ser, não é o destino e não estão condenados ao insucesso. Era bom ter consciência do processo e recusar esse fatalismo.
Enfim, como em quase tudo na nossa vida, as notas são, muitas vezes, determinantes.

domingo, 13 de dezembro de 2009

NÃO SE DIZEM ASNEIRAS

“Não se dizem asneiras” é das frases mais repetidas junto dos mais novos e das que mais graça me parece ter. Já uma vez aqui disse que a questão não é não dizer asneiras mas saber em que circunstâncias se podem dizer. Acho ainda engraçado a preocupação que os adultos têm com as asneiras ditas pelos miúdos e a indiferença perante as asneiras que diariamente ouvimos a gente mais crescida.
Vem esta introdução a propósito da polémica desencadeada pelo facto de o Presidente Lula da Silva, num discurso oficial a propósito do Programa Nacional do Saneamento Básico, ter afirmado que “quer retirar o povo da merda (até o meu corrector rejeita o termo) em que vive”, expressão que me parece contextualmente apropriada. Chocaram-se algumas almas com as palavras do Presidente que logo é desculpado por alguns pois as suas origens são populares e, como sabem, os pobres e analfabetos dizem asneiras, coitadinhos, é da educação.
Na mesma altura desta enormidade expressiva de Lula da Silva, assistimos numa Comissão Parlamentar da Assembleia da República portuguesa a uma troca de insultos e asneiras entre dois digníssimos deputados doutores, Maria José Nogueira Pinto e Ricardo Gonçalves, cujas origens e formação serão certamente as melhores. Este episódio configurou apenas uma demonstração de vivacidade da democracia parlamentar e sem importância de maior, os senhores deputados nunca dizem asneiras.
É por estas e por outras que vou continuar a rir-me sempre que oiço uma ingénua voz de adulto a querer convencer uma criancinha de que não se dizem asneiras.

sábado, 12 de dezembro de 2009

PARA OS POBRES A MORTE CHEGA MAIS CEDO

Um estudo realizado em Portugal, divulgado no DN, veio mostrar a relação entre o nível de vida e a longevidade. O estudo conclui que as pessoas com maiores recursos vivem, em média, mais dez anos que a população de menores recursos. Não é um resultado surpreendente, como é óbvio, a esperança de vida nos países mais desenvolvidos é superior à verificada nos países mais pobres. Parece também de sublinhar que a questão de melhor nível de vida se liga não só a recursos económicos mas, sobretudo, a recursos educacionais, nível de informação, acessibilidade a apoios, etc.
Este cenário sublinha duas questões que parecem fundamentais e que nem sempre parecem suficientemente valorizadas. Em primeiro lugar há que considerar a importância decisiva que em todas as dimensões da vida das pessoas assumem a qualificação e a informação. Melhores níveis de formação promovem melhor qualidade nos estilos de vida.
Em segundo lugar, quando tanto se fala no estado social, nos limites desse estado, a privatização de serviços, por exemplo na educação e na saúde, é fundamental perceber e entender que a comunidade tem sempre a responsabilidade ética de garantir a acessibilidade de toda a gente aos cuidados básicos de saúde e educação. Os tempos ultra liberais e de contestação ao estado social não parecem favoráveis, veja-se a dificuldade que Obama tem em fazer passar o alargamento do acesso a cuidados de saúde por parte de milhões de americanos excluídos do acesso à saúde por insuficiência de recursos.

AS CAMPAINHAS

(Foto de Jorge Alfar)

Quando era miúdo um dos nossos jogos favoritos era tocar às campainhas e, depois de uma boa corrida, ficar escondidos à espreita para gozar com a cara zangada das pessoas.
Hoje, este jogo quase desapareceu. Muitos miúdos ainda fazem soar campainhas mas ninguém parece incomodar-se.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

ESTE PAÍS NÃO É PARA JOVENS

Lembrei-me do notável “Este país não é para velhos” dos irmãos Coen ao passar os olhos sobre o trabalho apresentado no Público sobre os jovens. É que este país também não é para jovens, aliás, começamos a ter cada vez mais dificuldade em perceber para quem é recomendável este nosso jardim. Talvez para uns seniores estrangeiros que ainda usufruem de algumas reformas mais generosas e por cá apanham o nosso solzinho.
Ao que parece, os estudos indicam que os jovens portugueses são dos que ficam até mais tarde em casa dos pais, 29.5 nos rapazes e 28.5 nas raparigas. É importante não considerar que se trata “apenas” de uma alteração no quadro de valores mas um comportamento associado a uma série de questões de natureza diferenciada. Os indicadores mostram que devido ao nível de desenvolvimento do nosso mercado de trabalho muitos licenciados encontram enorme dificuldade na entrada numa carreira profissional, Portugal tem 7,7 por cento dos jovens com qualificações elevadas sem emprego enquanto na UE a média é de 5,9. Também sabemos que em situações de crise os jovens à procura do primeiro emprego são particularmente vulneráveis. O trabalho apresentado também refere que entre os entre os 15 e os 24 anos, mais de 54 por cento dos jovens celebram um contrato de trabalho temporário e entre os 25 e os 29 este número ainda se situa nos 38,3 por cento, o segundo mais elevado na UE. Dados que são agravados pelo número de desempregados entre os 25 e os 34 anos.
É certo que também se verifica um fenómeno que alguns autores têm vindo a referir por adolescentização tardia, isto é, assiste-se a uma espécie de prolongamento da adolescência que também se traduz no prolongamento da estadia em casa dos pais.
Neste cenário não deixei de achar curioso saber que o Presidente Cavaco Silva inicia um roteiro dedicado à juventude visitando, ouvi na RDP, uma fábrica de talentos, jovens, presumo.
Esperemos pois que comecem a chegar ao mercado.

A TEMPESTADE

O Rapaz entrou na água e contrariamente ao costume não lhe custou. Estava um dia quente e a água não estava tão fria como era habitual naquela praia. Deu os primeiros mergulhos e piruetas e ficou a boiar com os olhos incomodados com o sol que brilhava lá em cima. Sabia mesmo bem entrar naquele mar e como ele gostava do mar.
Quase sem se dar conta, entre umas braçadas e uns mergulhos foi-se afastando da praia. De repente, o Rapaz sentiu qualquer coisa de estranho, ficou escuro, muito escuro. A água daquele mar começou a ficar fria e ele achou que era altura de sair. No entanto, no meio da escuridão não percebia para que lado deveria nadar. Ficou inquieto e ainda mais assustado se sentiu quando começou a ser sacudido por uma ondulação bem mais forte. Agora o Rapaz estava mesmo com muito medo, procurava manter-se ao cimo das ondas cada vez maiores, sentia cada vez mais frio e cada vez menos força e nem sequer vislumbrava por onde tentar sair.
Quando estava em desespero e a atingir o limite, o Rapaz fechou os olhos com força e, perplexo, quando os abriu viu a sua Mãe debruçada sobre si com o sorriso sereno que sempre usava perguntando, “Estás assustado Rapaz, era um sonho mau?”
Não Mãe, estava só à tua procura”. E o Rapaz voltou-se para o outro lado e adormeceu tranquilamente.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O ESPLENDOR DO CAOS

Peço desculpa pela usurpação do título da obra de Eduardo Lourenço mas, indo mais longe, ainda cito as palavras iniciais do primeiro texto, “Enquanto dura, o que nós chamamos o caos evoca a ideia não apenas de confusão e desordem dos elementos, mas de incapacidade do espírito para compreender e, ainda menos, dominar um estado de coisas, do mundo, da sociedade, da história, onde não se vislumbra a sombra de uma ordem”.
A observação do que é actualmente a cena política portuguesa faz-me regressar a Eduardo Lourenço. Quando cada vez com mais urgência parece necessário um estabelecimento de um desígnio, de um entendimento mobilizador que congregue esforços e projectos, mais se assiste ao despudorado calculismo decorrente de interesses pessoais ou partidários. Quando parece urgente a elevação de padrões éticos e de transparência na coisa pública, sempre aparece mais um episódio de nível ainda inferior, quando já pensávamos ter batido no fundo. Quando a situação dramática que aflige milhões de nós exigiria que essa situação fosse a prioridade das prioridades, emerge um ruído ensurdecedor sobre questões acessórias.
Como sempre digo, a questão é que não vejo indicadores de mudança.

A HISTÓRIA DO RUFIA

Era uma vez um rapaz chamado Rufia, o mais novo, porque havia outro rapaz chamado Rufia, o mais velho, que também faz parte da história. O Rufia, o mais novo, entrou para uma escola onde tinha andado o seu irmão Rufia, o mais velho. Este Rufia, o mais velho, tinha tido uma passagem, por assim dizer, agitada naquela escola, passou por algumas atribulações, não foi um aluno muito bem sucedido e criou alguns problemas com o comportamento. Este foi o contributo do Rufia, o mais velho, para a história.
Bom, quando o Rufia, o mais novo, entro para a escola, alguns professores, lembraram-se do outro irmão Rufia, o mais velho, e pensaram que iria ter, de novo, uma série de problemas, é que tinha chegado mais um Rufia.
Na verdade a coisa foi-se tornando complicada e todos os problemas, quase todos, que começaram a acontecer na escola eram atribuídos ao Rufia. Deve dizer-se que raramente o rapaz era, efectivamente, “apanhado” a fazer qualquer coisa de menos positivo. Isso devia-se, diziam os professores, à esperteza do Rufia. É que o rapaz era muito esperto e conseguia realizar muitas asneiras sem ser descoberto. O Rufia, de início, protestava a sua inocência mas as pessoas não acreditavam muito no que dizia. É que ele, achavam, era muito mentiroso. Aos poucos, o Rufia deixou de se queixar do que dele diziam ou achavam, não ligava e andava, como dizem os miúdos, na dele.
Quem se divertia com tudo isto era um outro miúdo lá da escola, um chamado Certinho, que era o grande produtor das asneiras de que acusavam o Rufia.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

UM EXERCÍCIO DE TUDOLOGIA

De há uns tempos para cá o povo foi-se habituando à voz de Medina Carreira, o homem que “diz as verdades”, o homem que sabe de tudo. O Dr. Medina Carreira que já foi Ministro das Finanças faz parte do trajecto que trouxe o país para onde o temos actualmente, é bom recordar. Numa opinião pública como a nossa, este discurso de tudólogo, que sabe de tudo, fala de tudo, vende bem. Basta dizer mal com ar assertivo do governo, seja qual for o governo, basta chamar uns nomes fortes, mentirosos e incompetentes por exemplo, a pessoas ou a classes profissionais e o sucesso está garantido.
Já aqui o tenho dito, Portugal precisa de gente qualificada. Tudo o que possa ser feito no sentido de qualificar os portugueses é um bom caminho. O Programa Novas Oportunidades, do meu ponto de vista, tem uma base positiva mas, em muitas situações substitui qualificar por certificar, ou seja, mais do que saber, certifica-se que se sabe. Isto é um embuste e aqui o Dr. Medina Carreira tem alguma razão.
Mas o pessoal dos 14 aos 20 não são os principais destinatários do Programas Novas Oportunidades e não são uma “cambada”, há gente a procurar fazer pela vida e tentar que o futuro deles seja melhor que o nosso presente. Fala das exigências dos empresários sobre a qualidade dos empregados mas também não refere que os empresários portugueses têm o mais baixo nível de qualificação da UE. O discurso da falta de “autoridade”dos professores e dos “burros” que não sabem fazer nada a não ser, claro, “burrices”, arranca sempre palmas.
Viva o grande tudólogo Medina Carreira o homem que sabe de tudo.

A HISTÓRIA DO MUITO VIVO

Era uma vez um rapaz chamado Muito Vivo, nome que caiu em desuso e que eu achava engraçado. Pois o muito Vivo era um miúdo que não conseguia estar quieto muito tempo, era capaz de se envolver em várias tarefas. Os pais achavam que ele não era muito organizado, as roupas não ficavam arrumadas como as do irmão e os seus brinquedos espalhavam-se sem ordem aparente pelo espaço onde brincava.
Na escola, adorava conversar e estava sempre pronto para uma discussão na sala de aula, defendia até ao limite os seus pontos de vista e dificilmente se convencia de coisas diferentes do que pensava, até, diziam, era um bocado teimoso. Quem olhasse para o Muito Vivo no recreio notava que ele nunca estava quieto, participava em tudo quanto era jogo sem aparente cansaço e sempre motivado. Os seus trabalhos escolares eram, como não podia deixar de ser, feitos à pressa mas, apesar disso, com um nível satisfatório.
Nas reuniões entre pais e professores o Muito Vivo era sempre objecto de bastante conversa, não que as questões sentidas fossem, ou parecessem, muito graves mas porque ele era Muito Vivo. No entanto, acharam que seria melhor o Muito Vivo ser observado em consultas especializadas.
Quando voltou das consultas especializadas e as pessoas leram os resultados e as opiniões, decidiram que o Muito Vivo afinal tinha um problema muito grande e deveria até mudar de nome. A partir dessa altura chamar-se-ia Hiperactivo e as pessoas começaram então a achar que também tinham um problema muito grande.
O Muito Vivo nunca mais se sentiu bem, sentia-se um miúdo com um problema muito grande que causava às pessoas um problema muito grande.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

AVALIAÇÃO DE DOCENTES E DISCRIMINAÇÃO POSITIVA

A OCDE num relatório hoje divulgado pelo DN e que se pode encontrar no seguinte endereço http://www.oecd.org/document/20/0,3343,en_2649_39263231_44111636_1_1_1_1,00.html analisa diferentes sistemas educativos no que respeita ao incentivo e recompensas à qualidade dos professores. O relatório conclui que a existência de incentivos, por exemplo de natureza pecuniária, pode funcionar como promotor da qualidade das práticas e da satisfação profissional dos docentes contribuindo ainda para manter os melhores no sistema. Estas conclusões, que não têm muito de surpreendente nem de inovador, deveriam ser consideradas na discussão aberta em Portugal sobre a avaliação de docentes e sobre o modelo e organização da carreira.
Uma cultura assente na crença, apenas a crença, de que todos os profissionais são excelentes e que, por isso, a todos deve ser proporcionado tudo, é comprovadamente um mau serviço à qualidade, em particular à qualidade dos profissionais que a possuem, a grande maioria. Não cabe aqui discutir qual a natureza dos incentivos, a latitude é enorme, desde aspectos pecuniários, à atribuição de tarefas diferenciadas ou ao reconhecimento público, por exemplo, apenas me parece de sublinhar que a introdução de discriminação positiva com base em modelos adequados de avaliação de desempenho é um bom princípio, defende os bons professores e a qualidade da educação. Insistir que entrar no sistema e cumprir os mínimos é suficiente para todos acederem a tudo, parece-me errado e fomentador de uma cultura corporativa de protecção da mediocridade. Como também me parece evidente, esta opinião não tem nada a ver com o estabelecimento de quotas, apenas com a criação de dispositivos justos, competentes e transparentes de discriminação positiva.

A OPERAÇÃO NATAL E O PEZINHO

Duas notas de leitura da imprensa. Inicia-se hoje a Operação Natal em Segurança da PSP que durará até 7 de Janeiro. Despertam-me sempre alguma curiosidade estas operações sazonais das forças de segurança, ainda irão acontecer certamente a Operação Natal e Ano Novo Tranquilos da GNR, a Operação Natal e Ano Novo de Origem da ASAE, a Operação Natal e Ano Novo Sem Penetras do SEF, a Operação Natal e Ano Novo Sem Prendas por Debaixo da Mesa da PJ, etc. São certamente importantes para nos deixar gozar o espírito natalício de forma mais segura, eles zelam por nós. Ainda bem, é bom viver num país assim.
A segunda nota dirige-se a um assunto lateral mas engraçado, a troca de galhardetes entre duas respeitáveis figuras, o eterno Mário Soares e o dono das esquerdas, Manuel Alegre, o eterno “agarrem-me se não eu candidato-me”. Numa versão da conhecida cantiga popular açoriana, “ponha aqui o seu pezinho” entretêm-se a discutir onde é que têm andado a pôr os respectivos pezinhos, se os dois no PS, se só um, não sei se o esquerdo se o direito, que constituem obviamente questões de transcendente importância para o país.
Interessante.

A BÚSSOLA

Entrados no espírito natalício emerge a inquietação do presente, não é isso, perceberam mal, a inquietação da prenda, dos presentes. Cumprindo o ritual estabelecido devemos com alguma antecedência pensar a quem queremos oferecer presentes, embora me pareça que as pessoas preferissem que lhes dessem futuros, pensar no orçamento disponível e é também aconselhável que os presentes tenham alguma utilidade, não sejam uma qualquer coisa sem préstimo que se esquece mal se poisa. Tudo isto é normalmente uma dor de cabeça que aflige toda a gente ao mesmo tempo e entope os espaços comerciais de espírito natalício.
De acordo com esta planificação, sentei-me no meu sótão e comecei a elaborar a lista de destinatários, a pensar nas suas eventuais necessidades e no meu orçamento. Acabei por me decidir, vou oferecer bússolas a toda a gente, miúdos e graúdos.
Parece-me uma boa escolha. Serão todas iguais o que inibe as sempre ingratas comparações de valor, são económicas, existem uns modelos bem baratinhos que cumprem a função e finalmente, porque me parece algo de bastante útil a muitas pessoas que conhecemos. De facto, as pessoas andam meio perdidas, sem saber muito bem o rumo que a vida vai levar, que caminhos percorrer, que escolhas fazer, etc. Os miúdos, muitos, também estão com alguma dificuldade para entender a estrada que devem tomar e que os poderá levar a um futuro interessante e de gozo. Nota-se nas suas falas e nos seus comportamentos como andam à procura sem, por vezes, perceber bem de quê.
Por isso, está decidido, bússolas para todos. Gostava de os ver depois, todos de volta das bússolas a tentar orientar-se, a escolher e estabelecer caminhos sem grandes dificuldades. Mas isso, isso seria a minha prenda, que ninguém me dará.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

NÃO RESIGNADOS

Lamentavelmente, parte substantiva da nossa vida comum é de uma regularidade triste e cansativa. Ruído político sem qualidade, confusão sistemática entre o acessório e o essencial, despudor de actuação dos responsáveis, histórias de corrupção ou, pelo menos, falta de transparência, as consequências da crise de que apenas se vão actualizando os números, são apenas exemplos dessa regularidade perversa.
No entanto, felizmente, escrutinando bem ainda encontramos alguns motivos de optimismo e satisfação.
Segundo dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional foram criadas nos últimos três anos, 2006-2008, 12446 pequenas empresas por pessoas em situação de desemprego.
Não sei avaliar o verdadeiro significado deste número. No entanto, creio que pode ilustrar algo que me parece fundamental, a capacidade de luta e de empreendimento são ferramentas fundamentais para que possamos tentar liderar o nosso destino. É verdade que parte destas pessoas terão contado com alguns apoios mas, sobretudo e é isso que conta, não se resignaram.
Sem conhecer qualquer dos novos empresários gostava de os felicitar e deixar votos de que tudo lhes corra bem.

A HISTÓRIA DO VENCEDOR

Era uma vez um homem chamado Vencedor. Desde que nasceu os pais decidiram que o Vencedor seria o que eles achavam não ter conseguido na vida que tinham, um vencedor. Assim, sempre foi exigido ao Vencedor que fosse excelente em tudo o que fazia, Foi o melhor aluno durante o tempo todo que andou na escola. Os pais nunca aceitaram que o Vencedor perdesse tempo naquelas coisas inúteis em que as crianças e adolescentes gastam o tempo, brincar, por exemplo, a sua vida era preparar-se para ser o mais competente. O Vencedor, envolvido nesta exigência, foi-se acomodando e correspondia às expectativas dos pais. Entrou na universidade, como seria de esperar, no curso que os pais escolheram por lhes parecer o mais adequado a um Vencedor e, como sempre, foi o melhor aluno do curso. Para contentamento e felicidade dos pais logo que acabou a sua formação foi convidado para um importante lugar na maior empresa que existia naquela terra, o seu filho cumpria o seu sonho, era um Vencedor.
Na manhã do primeiro dia em que entraria na empresa, o Vencedor olhou para o espelho e, nunca tal coisa lhe tinha acontecido, não se reconheceu, aquela imagem era-lhe completamente desconhecida. Arranjou à pressa uma mala de roupa e sem ruído saiu de casa sem uma palavra.
Nunca mais se soube dele e ninguém percebeu este comportamento. Só um velho lá terra que sabia da sua história desde pequeno, pensou para consigo, “Finalmente, conseguiu ir à procura dele mesmo, agora é um vencedor”.

domingo, 6 de dezembro de 2009

PROTECÇÃO CIVIL

De há uns anos para cá habituámo-nos ao diligente esforço dos serviços de protecção civil, através agora da Autoridade Nacional de Protecção Civil, de nos informarem sobre condições adversas que podem afectar o país. Já não estranhamos os sistemas de alerta por cores que, caso deste fim-de-semana, nos é constantemente lembrado, informando-nos dos distritos em alerta e qual a cor, gravidade, desse alerta. No que respeita ao mau tempo estes alertas são importantes pois permitem antecipar, prevendo e agindo, as consequências de negligência e incúria que levam a linhas de água, caleiras e sarjetas obstruídas e as inundações previsíveis. É certo que dão sempre boas imagens para arranque dos telejornais mas seriam dispensáveis.
Dito isto, considero que a Autoridade Nacional de Protecção Civil prestaria um serviço ainda mais relevante se conseguisse instituir um sistema de alertas contra as ameaças que impendem sobre o país, que não as meteorológicas.
Seria útil, só para dar alguns exemplos, ficarmos em alerta laranja contra os perigos da corrupção, em alerta amarelo face à baixa qualidade dos actores e à degradação da vida política, em alerta vermelho pelas variadas consequências da crise, sobretudo ao nível do desemprego.
A enveredar por esta área de preocupações a Autoridade de Protecção Civil não teria descanso. Em todo o caso, para nós cidadãos não seria pior, no fundo, quem te avisa teu amigo é.

sábado, 5 de dezembro de 2009

ADOPÇÃO E INSTITUCIONALIZAÇÃO

Para variar um pouco da atenção ao lodaçal em que a política portuguesa se transformou e ao inferno da crise e das suas consequências, sobretudo ao nível do desemprego que atinge valores dramáticos, existem outros aspectos que justificam alguma reflexão.
O Público refere que por iniciativa da Instituto de Segurança Social e com o apoio da Faculdade de Psicologia e Educação do Porto as pessoas candidatas a processos de adopção vão receber formação que promova a qualidade desses processos. São conhecidas muitas situações de pré-adopção em que as crianças depois de estarem “à experiência” em famílias, regressam às instituições num processo duplamente traumatizante e que deveria ser evitado até ao limite.
No entanto, para além desta iniciativa meritória importava que o Estado não se esquecesse que continuamos com um número excessivo de crianças institucionalizadas, muitas delas sem projectos de vida e com idades que já não são facilitadoras de adopção. Seria fundamental que o próprio Estado assegurasse formação e promoção de procedimentos envolvendo as próprias instituições para que se atenuasse, por um lado, o tempo de institucionalização e, por outro lado, a qualidade das respostas institucionais.

O VIZINHO DO 13

(Foto de Luís Sarmento)

Era uma vez um tempo em que havia Vizinhos. Era uma vez um tempo em que as pessoas falavam à porta das casas onde moravam. Era uma vez um tempo em que se batia à porta da Vizinha para pedir um raminho de salsa.
Era uma vez um tempo em que os sós não estavam tão sós. Era o tempo em que havia Vizinhos.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

POLÍTICA MÍNIMA NACIONAL

Vim a ouvir a caminho do meu Alentejo o debate quinzenal do Parlamento. Comecei a ficar embaraçado e ambivalente, continuar a ouvir ou mudar para a música.
Basicamente o que ouvi foi o acessório, o irrelevante, o despudor, o ataque sem ideias entre a oposição e o Governo. Devo dizer que, do que ouvi, apenas o deputado Jerónimo Sousa do PCP, em parte da intervenção, apresentou propostas políticas e fez críticas, no fundo o que se espera de um debate político no Parlamento.
Incomoda-me sempre pensar que as lideranças políticas, no governo ou na oposição, não percebam como o seu comportamento é um péssimo serviço prestado à democracia ao país e a si próprios pois contribuem para acentuar a já degradada imagem que possuem junto da opinião pública. O que me preocupa ainda é não ver indicadores de que o cenário possa mudar.
No meio do ruído consegui perceber que tinha sido anunciada a subida do valor do salário mínimo para 475 €. O Eng. Van Zeller da CIP e o sonolento Dr. Vítor Constâncio do Banco de Portugal vão ficar incomodadíssimos com esta irresponsável decisão de colocar umas centenas de milhares de portugueses a viver com tanto dinheiro, quando lhes bastavam perfeitamente os actuais 450 que até permitiriam algumas poupanças se fossem gente de juízo e poupadinha.
Pareceu-me um excelente exemplo da política mínima nacional.

O CISNE

Há muitos anos, quando comecei a minha vida profissional, ao confessar as hesitações e insegurança naturais, um dos mestres dizia-me que deveria seguir o exemplo do cisne. Na altura nunca de tal ouvira falar pelo que se seguiu a explicação, quando olhamos para um cisne num lago, a forma serena e tranquila como ele desliza na água transmite essa mesma serenidade e tranquilidade. No entanto, não percebemos que são fruto da agitação das patas do cisne que se passa debaixo de água pelo que não vemos. Finalizou o mestre que quando temos alguém ou algum grupo à nossa frente, muitas vezes a precisar de ajuda ou a esperar algo, é importante que sigamos o cisne, mostrar serenidade e tranquilidade porque isso é bom para as pessoas, fá-las sentir melhor, mesmo que por “debaixo de água” estejamos agitados e inquietos.
Não me esqueci do conselho que, aliás, tenho passado juntos dos mais novos que comigo se cruzam, atrevimento de velho.
Actualmente penso como tão precisados estamos de cisnes. As pessoas andam tensas, crispadas, inquietas e isto contagia. No caso dos miúdos é muito evidente. Muitos pais, muitos professores, muitos adultos em geral, não andam tranquilos e serenos, pelas mais variadas razões. Como é natural, os miúdos sentem esse clima e também se sentem inseguros, inquietos, falta-lhes referências tranquilizadoras, que promovam serenidade nos comportamentos e nas ideias.
Mas no mundo dos adultos passa-se o mesmo. Se bem repararmos também não sentimos a existência dessas referências tranquilizadoras. Os discursos e os comportamentos das lideranças, nas mais variadas dimensões, são também instáveis, crispados, agressivos, contaminadas por interesses que nem sempre entendemos e tudo isto resulta em insegurança e desconfiança.
É verdade, cisnes precisam-se com urgência.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A COMISSÃO DE ANÁLISE DO ESTUDO DA COMISSÃO PARA ESTUDO DA COMISSÃO ...

É assim, sem que se estranhe, o PSD e o PS entenderam-se para apoiar a criação de uma comissão eventual na Assembleia da República para acompanhar o combate à corrupção. Os partidos que têm divido o poder entre si e que, portanto, são co-responsáveis pelo quadro político e jurídico que temos, entendem-se agora para mais uma comissão eventual que eventualmente e durante 180 dias acompanhe o combate. Não se trata de combater a corrupção, trata-se de acompanhar o combate, ou seja, fazer companhia eventual, não deixar o combate só.
O PS agradeceu a iniciativa do PSD pois ainda tem atravessada a recusa do pacote Cravinho que, imaginem a veleidade, pretendia mesmo combater a corrupção. Bem pode o resto da oposição e os cidadãos indignarem-se com tamanha hipocrisia escudada em preceitos constitucionais que nem sequer são tão claros como nos querem fazer crer.
A grande vantagem deste lodaçal é que um dia destes já não haverá faces ocultas, estão todas às claras.
Não merecíamos isto.

A DIFERENÇA

Dia 3 de Dezembro. De acordo com a agenda das consciências passa hoje o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. Assim, é hoje o dia em que várias iniciativas e discursos se lembrarão das pessoas com deficiência, plenos de preocupações e boas intenções até porque já estarão imbuídos de um espírito pré-natalício.
É certo que nos últimos anos algumas mudanças se podem notar, mas continuamos a ser uma comunidade pouco amigável para este grupo de cidadãos.
Apesar de alguma legislação existente e que se saúda, são múltiplos os casos de problemas de acessibilidade, mesmo em edifícios públicos que a lei obriga a que sejam a acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida. Continua a verificar-se discriminação no acesso ao mercado de trabalho apesar da legislação protectora. Continuamos a não ser capazes de assegurar a cobertura eficaz e de qualidade das necessidades educativas de crianças necessidades especiais e do apoio às respectivas famílias apesar da retórica oficial o garantir.
No fundo, sem estranheza e não sendo um problema só nosso, continuamos a não lidar bem com a diferença, seja de que natureza for.
Como costumo dizer, a forma como cada comunidade lida com as minorias é sempre um bom indicador do seu desenvolvimento. Estou a falar de ética, cultura, valores sociais e não, fundamentalmente, de desenvolvimento económico.

O RAPAZ QUE VIVIA NUM POÇO

Era uma vez um Rapaz que vivia num poço. Na verdade o Rapaz sentia que vivia num poço. Era um poço estranho tinha paredes que não se viam, ninguém as via, apenas o rapaz as sentia.
Uma parede era feita de raiva, outra parede era feita de tristeza, outra parede era feita de nada, isto é, feita de vazio. Mas tinha mais paredes este poço em que o Rapaz sentia que vivia. Havia ainda uma parede feita de revolta, outra feita de impotência, outra feita de sofrimento e outra feita de fingimento. Era uma sensação estranha, por onde quer que andasse o Rapaz sentia-se sempre dentro do poço, a esbarrar contra uma das paredes. Como as paredes não se viam ninguém prestava especial atenção ao Rapaz para além de registar como ele era quando estava junto de cada uma das paredes, com raiva, triste, vazio de referências, revoltado, impotente, sofredor ou um fingidor de mau, o que mais as assustava.
Um dia, uma Rapariga passou perto do Rapaz que encostado à parede da tristeza do seu poço olhava sem ver. Aqueles olhos cruzaram-se com os da Rapariga que soltou um olá. O Rapaz, como que acordou e viu um sorriso que não se lembrava de alguém lhe ter dirigido uma vez que fosse na sua vida. A Rapariga embaraçada, hesita e perguntou-lhe se queria passear um bocado estendendo-lhe a mão.
A medo e surpreendido, nunca lhe acontecera algo semelhante, o Rapaz estendeu a mão e andaram, muito tempo e em silêncio.
Foi um passeio estranho, o Rapaz não esbarrou com nenhuma das paredes do poço em que vivia.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

PEDRO BURMESTER. NO PORTO COM RIO, NÃO

Muitas vezes refiro e creio que sentimos todos a alteração de valores a que assistimos. São constantes os atropelos à ética e à lei, instala-se um perigoso sentimento de que tudo é possível graças à impunidade que também percebemos. Os discursos são de intolerância e de desrespeito e tudo é possível a troco de uns favores ou benesses de qualquer tipo.
Premeia-se o seguidismo, hostiliza-se a diferença só porque é diferente, etc. Manipulam-se informação e ideias e esbate-se o entendimento de cada pessoa como ser pensante e autónoma.
Neste quadro julgo de sublinhar a posição de Pedro Burmester de não tocar no seu Porto em protesto contra o que entende ser uma desastrada ou inexistente política cultural de Rui Rio. Não conheço suficientemente a realidade do Porto para eu próprio ter uma opinião sobre a política municipal em matéria de cultura. Nem sequer tenho a certeza se decisões desta natureza são contributivas para uma qualquer mudança. O que julgo de sublinhar é a tomada de posição individual de afastamento e recusa do que se entende ser negativo, mesmo com custos individuais. Trata-se de aquilo a que habitualmente o meu pai chamava de espinha. Não se troca nem se vende.