AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

domingo, 31 de março de 2019

GOSTEI DE LER "SOBRE A QUALIDADE NA EDUCAÇÃO"


Gostei de ler uma oportuna reflexão de João Ruivo, “Sobre a qualidade na educação”.

Na mesma linha e como muitas vezes tenho dito e escrito sou dos que entendo a necessidade de mudanças em matéria de currículo, de autonomia, de recursos e organização das escolas, etc. e também muitas vezes tenho afirmado as razões para tal entendimento.
Por outro lado, e como também já disse, não simpatizo com a recorrente e desgastante referência à necessidade de inovação em educação ou de uma "nova forma de ensinar" e, muito menos, à "revolução" que alguns afirma estar em curso ou é necessária.
Mudar algo no que se faz e na forma como se faz não é o mesmo que inovar, fazer qualquer coisa de novo. Nestas matérias, talvez de forma simplista mas é intencional, penso como Almada Negreiros quando referia na "Invenção do Dia Claro”, "Nós não somos do século de inventar palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas”.
Dito de outra maneira, já conhecemos as palavras da educação, apenas temos que ir ajustando o que fazemos com elas.
A história recente mostra que as múltiplas alterações que em matéria de educação, designadamente ao nível do currículo, se foram produzindo sempre aconteceram sem que se assegurasse a avaliação séria do que está em vigor e qual o sentido da mudança. A experiência mostra ainda que as sucessivas alterações foram produzidas sem que se procurasse, não digo um consenso pois sei que em educação e em Portugal é quase impossível face a agendas e corporações de interesses, mas o envolvimento e participação dos diferentes actores intervenientes nos processos educativos na construção das alterações.
Sei que que é mais simples de dizer e escrever mas creio que será o melhor caminho para o futuro.

sábado, 30 de março de 2019

TEMPO PARA OS FILHOS, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE


No Expresso encontrei um trabalho em que sem surpresa se enfatiza a importância da existência de algum tempo de brincadeira e interacção na relação entre pais e filhos, Os impactos positivos são múltiplos e com alguma frequência aqui tenho abordado a questão.
Um trabalho de 2016 que não consigo localizar sugeria que a maioria dos pais portugueses de crianças entre os seis e os doze anos que foram inquiridos assumia não ter o tempo que gostaria para brincar com os filhos sendo que 83.2% referia como actividade mais comum “ver televisão em conjunto”.
O pouco tempo disponível para brincar com os filhos era atribuído às condicionantes profissionais e aos horários escolares. Importa ainda referir que 81% das crianças consideradas frequentam actividades extracurriculares.
Estes dados vêm ao encontro dos indicadores encontrados noutros trabalhos.
Os problemas de tempo dos pais decorrentes dos constrangimentos profissionais criam dificuldades aos pais na guarda das crianças fora do horário escolar e a solução tem sido a prolongar a estadia dos filhos na escola, já é Escola Tempo Inteiro. Para além desta estadia na escola que pode chegar às 11 horas diária verifica-se também, para quem pode, o recurso às actividades extracurriculares que com uma oferta altamente diversificada são também uma forma de “ocupar” as crianças.
Esta situação não é uma fatalidade, podem procurar-se outras soluções e promover ajustamentos na organização do trabalho, diversificação de horários, "homeworking", etc., de modo a criar outras disponibilidades nas famílias.
No entanto, este cenário não determina que o pouco tempo disponível seja usado para ver televisão. Nesta matéria seria desejável que com os pais e se discutissem outras hipóteses que não são mais onerosas nem mais trabalhosas mas que alargariam o leque de actividades.
Finalmente, acharia interessante que se ouvissem os miúdos relativamente ao seu entendimento sobre as brincadeiras que realizam com os pais, as que gostariam de realizar, o que tempo em que o fazem e o tempo em que gostariam de fazer.
Talvez as respostas nos ajudassem a perceber o que está por fazer.
Fora deste estudo ainda estão as crianças noutras idades também vivem sem tempo para brincar com os pais porque o tempo não chega ou porque estes não têm disponibilidade física ou vontade para tal. Muitas destas crianças fecham-se num ecrã, sós ou acompanhadas de outras tão “sós” quanto elas.
Podemos e devemos fazer melhor.
Defendo há muito a pertinência de, em sede de Concertação Social, avançar com propostas de alteração legislativa, sobretudo, na organização horária do trabalho que poderia, essa sim, ter impacto na disponibilidade dos pais. Não me parece impossível que em muitas profissões os tempos de trabalho pudessem ter outra distribuição permitindo mais tempo com os filhos e menos tempo destes na escola.
Ainda a propósito da dificuldade de conciliar trabalho e vida pessoal deixo uma estória que já aqui tinha poisado.

Bom dia, venho apresentar uma queixa.
Com certeza, contra quem?
Contra muita gente.
Será, portanto, contra incertos. E apresenta queixa porquê?
Por roubo, roubaram-me tempo.
Muito bem, então roubaram-lhe tempo. Por favor, pode explicar um pouco melhor para eu poder registar a situação.
Eu já não tinha muito tempo porque nunca fui uma pessoa muito rica de tempo, mas o pouco que tinha roubaram-me. Fiquei sem tempo para estar com os meus filhos e brincar com eles. Este tempo faz-me muita falta, os miúdos andam tristes porque desde que me roubaram o tempo não consigo mesmo. Já não tenho tempo para descansar ou ler qualquer coisa como gostava de fazer. Não tenho tempo descansado para a minha mulher que também precisava do tempo que eu tinha e que partilhava com ela. No meu trabalho não tenho tempo para parar um minuto sem que alguém venho logo chamar a atenção. Fiquei sem o tempo que tinha para beber um copo com os meus amigos e trocar umas lérias que serviam para aliviar das coisas da vida.
Eu percebo o seu problema, mas como deve calcular não tenho tempo para queixas como as que apresenta.
Não tem tempo? Não me diga que também lhe roubaram o tempo. Até às autoridades, é demais.

sexta-feira, 29 de março de 2019

NAS GRANDES QUESTÕES ENTENDEM-SE



Nas grandes questões, naquilo que é verdadeiramente importante, eles entendem-se.
Do meu ponto de vista, nenhum dos partidos do chamado “arco do poder” está verdadeiramente interessado na alteração da situação actual, o que, aliás, pode ser comprovado pelas práticas desenvolvidas, por todos, quando foram ocupando o poder. A questão, do meu ponto de vista, é mais grave. Os partidos, insisto no plural, mais do que NÃO QUERER mexer seriamente na questão da corrupção e do seu financiamento, NÃO PODEM e vejamos porque não podem.
Nas últimas décadas, temos vindo a assistir à emergência de lideranças políticas que, salvo honrosas excepções, são de uma mediocridade notável. Temos uma partidocracia instalada que determina um jogo de influências e uma gestão cuidada dos aparelhos partidários donde são, quase que exclusivamente, recrutados os dirigentes da enorme máquina da administração pública e instituições e entidades sob tutela do estado. Esta teia associa-se à intervenção privada sobretudo nos domínios, e são muitos, em que existem interesses em ligação com o estado, os grandes escritórios de advogados, a banca e as obras públicas são apenas exemplos. Os últimos tempos têm sido particularmente estimulantes nesta matéria.
A manutenção deste quadro, que nenhum partido está evidentemente interessado em alterar, exige um quadro legislativo adequadamente preparado no parlamento e uma actividade reguladora e fiscalizadora pouco eficaz ou, utilizando um eufemismo, “flexível”. Assim, a sobrevivência dos partidos, tal como estão, exige a manutenção da situação existente pelo que, de facto, não podem alterá-la. Quando muito e para nos convencer de que estão interessados, introduzem algumas mudanças irrelevantes e acessórias sem, obviamente, mexer no essencial. Seria um suicídio para muita da nossa classe política e para os milhares de boys de diferentes cores que se têm alimentado, e alimentam do sistema.
O combate à corrupção, parece, assim, um problema complicado. De quem faz parte do problema, não podemos esperar a solução.


PARTIU AGNÈS VARDA


Partiu Agnès Varda. Como todas as pessoas grandes deixa uma memória que nos enriquece. É o caso, por exemplo, do imperdível “Os respigadores e a Respigadora”.



E A ESCOLA ENGORDA, ENGORDA, UM DIA ...

E a escola continua a engordar, a engordar … até rebentar. É com reafirmada perplexidade que vou assistindo a este contínuo movimento de engordar a escola com conteúdos a trabalhar com os alunos.
Leio no Público que aprender a andar de bicicleta vai fazer parte do currículo escolar no ensino básico de forma faseada e em todos níveis de escolaridade ao abrigo da Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa. Como seria de esperar mas em modo mais humilde, afirma-se que a decisão implica uma quase “alteração de paradigma”. Estou com cada vez maior dificuldade em lidar com tantas mudanças de paradigma que vão sendo anunciadas basicamente por dois motivos … por tudo e por nada.
É verdade que lidamos com problemas severos de falta de actividade física e autonomia nas crianças, já podemos falar de iliteracia motora e que é importante incrementar a mobilidade sustentável. Assim e como parece ser a preocupante tendência, a escola resolve. Não, não a escola não resolve tudo.
Não está, evidentemente, em discussão a importância de que a educação de crianças e jovens envolva as diversas questões presentes na vida das comunidades, agora exemplificadas pela mobilidade autónoma e sustentável, antes pelo contrário.
No entanto e por diversas ocasiões tenho manifestado a minha reserva face ao entendimento de que tudo o que de alguma forma possa envolver os mais novos e a sua formação deva ser ensinado/trabalhado na escola. Esta visão obesa da escola não funciona, nem tudo pode ou deve ser transformado em disciplinas, conteúdos escolares, projectos, … para além de que a escola tem um conjunto de funções incontornáveis que tornam finita a sua capacidade de responder.
Sabemos que, independentemente das opções e visões ideológicas, uma das questões que no universo da educação estarão sempre em aberto é a que envolve os conteúdos e organização curricular. De facto, a velocidade de produção e acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento, as mudanças nos sistemas e no quadro de valores das comunidades determinam a regular reflexão e ajustamento sobre o que a escola deve ensinar e trabalhar, sobretudo durante a escolaridade obrigatória.
Por outro lado, o tempo da escola e a competência da escola são finitos, isto é, a escola não tem tempo nem pode ou deve ensinar tudo. Lembram-se certamente das discussões sobre se matérias como educação sexual, educação cívica, literacia financeira, educação para a saúde, para citar apenas alguns exemplos, deverão, ou não, constituir-se como "disciplinas", conteúdos ou mesmo se devem integrar os currículos escolares.
Em princípio, independentemente dos conteúdos poderem ser mais ou menos pertinentes, vejo sempre com alguma reserva as propostas de introdução de mais uma disciplina, mais conteúdos, mais um manual, mais umas orientações, mais um programa de formação de professores, como se a escola, o currículo escolar, os conteúdos, as suas competências, pudessem continuar a engordar indefinidamente. E não se trata de um problema de recursos ainda que seja de considerar.
Como é evidente, pode dizer-se sempre que muitas destas questões podem integrar o trabalho escolar considerando até que os alunos passam um tempo imenso, diria excessivo, nas escolas. Aliás, tal acontece em muitas escolas e agrupamentos.
A questão central, do meu ponto de vista, é que as competências da escola, os conteúdos que nela são trabalhados, integrando ou não formalmente os currículos, não podem mesmo aumentar continuamente. Urge uma reflexão serena, participada e com tempo sobre o ajustamento dos conteúdos, a sua integração e organização, a forma como podem acomodar a diversidade dos alunos e a necessidade de diferenciação dos professores, a formação global dos alunos e não exclusivamente a promoção de competências instrumentais, etc.
Somar conteúdos e competências à escola sem ajustamento dos conteúdos e organização existentes, pode promover problemas e não soluções, de tanto que lhe exigem corre risco de não providenciar o que lhe compete.
Na verdade, nem tudo o que pode ser interessante ou importante saber ou conhecer terá de caber numa disciplina ou num conteúdo escolar e nem tudo o que se pode saber e conhecer se aprende na escola.
Tenho uma visão da escola centrada no TODO do aluno mas não no "ensino" do TUDO que o aluno deve saber ou conhecer.
A dificuldade é que os alunos estão muito tempo na escola e a tentação é óbvia e grande, a escola que faça.

quinta-feira, 28 de março de 2019

DO BATER NAS CRIANÇAS. DE NOVO


A imprensa divulga hoje alguns dados relativos ao Projecto Geração XXI, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, que acompanha desde o nascimento um número muito significativo de crianças na área metropolitana do Porto.
Cerca de 75% das crianças com 7 anos serão vítimas de agressão psicológica ou castigos corporais em contexto de educação familiar. Cerca de 10% sofreram agressões graves (como bater com cinto ou objecto contundente ou queimar) com frequência.
As avaliações mostram que que impacto na saúde é significativo, 58% apresentam valores de inflamação elevados, quase o dobro das que não são vítimas de maus-tratos.
Sugerem ainda que mães com história de violência doméstica desenvolvem mais comportamentos de agressão aos filhos do que as mães que não reportam um passado de maus tratos. Considerando a variável escolarização e nível económico, sem surpresa, níveis mais elevados parecem mais associados a agressão psicológica e castigos corporais e níveis menos qualificados associados a formas de violência mais graves,
Esta é uma das questões que está sempre na agenda de qualquer encontro ou conversa entre e com pais. E porque assim é insisto numa notas.
Em 2018 a Academia Americana de Pediatria produziu novas orientações sobre a parentalidade afirmando veementemente que bater nas crianças, insultá-las, humilhá-las ou envergonhá-las são comportamentos que deveriam ser idealmente eliminados. Os efeitos positivos são nulos e os negativos estão bem demonstrados.
Se bem estão recordados, no âmbito da polémica relativa ao programa “Supernanny” e sempre que na imprensa se refere comportamentos menos positivos de crianças ou adolescentes são inúmeros os comentários e discursos sobre a alegada falência das famílias na definição de regras e limites nos comportamentos de crianças e adolescentes. Muitos destes discursos e comentários têm sido acompanhados de referências ao facto de não se recorrer a umas “palmadas”, à “pedagogia do chinelo” ou outras variações no mesmo tom, com uns “tabefes” a coisa resolvia-se.
As alusões às dificuldades das famílias ou da escola na regulação dos comportamentos de crianças e adolescentes podem ser justificáveis mas a ideia de lidar com estas dificuldades através do bater parece-me na verdade preocupante para além da sua potencial ineficácia. Ninguém pode garantir que foram ou que são as “tareias” que constroem pessoas de bem.
Aliás, gostava de recorrer a um trabalho desenvolvido pela Universidade de Pittsburgh nos EUA divulgado na Child Development em 2017 que considerando diferentes variáveis seguiu 1482 alunos durante nove anos e evidenciou uma relação sólida entre o que foi considerado “parentalidade severa” (recorrer com regularidade ao gritar, bater ou outro tipo de comportamento coercivo, além de ameaças físicas e verbais como forma de punição) e baixo rendimento escolar e problemas de comportamento nas crianças envolvidas nesse “modelo” de educação familiar.
Considerando agora de forma mais particular o recurso regular ao “bater” como ferramenta educativa, importa sublinhar que desde 2007 o Código Penal Português estabelece no Artº 152 a proibição dos “castigos corporais” como também acontece em muitos outros países.
Sabemos e não esquecemos que os “castigos corporais” podem ir da mais ligeira palmada à mais pesada tareia e também sabemos que bater é um tipo de comportamento inscrito na prática de muitas famílias na sua relação educativa com os filhos.
Na verdade, os castigos corporais ainda são uma "ferramenta" educativa em muitas famílias e, é conhecido, também em instituições que acolhem crianças sendo que mesmo que no âmbito da justiça a questão é complexa.
Recordo a título de exemplo que em 2014 o Tribunal da Relação do Porto absolveu pais que comprovadamente agrediram o filho de 11 anos com um cinto infligindo danos corporais de alguma gravidade. A razão de tal comportamento prendeu-se com resultados escolares e o facto de fumar. Cito do Público, “Os juízes desembargadores entenderam que embora sendo “o comportamento dos pais de censurar”, não pode ser considerada a “forma qualificada” no crime de ofensa à integridade física por não haver "aquele acrescido e especial juízo de reprovação, indispensável" para o considerar como tal. Assim, sendo apenas aceite a “forma simples” da agressão, o Ministério Público não poderia ter deduzido acusação, os pais foram absolvidos.”
A ver se nos entendemos, bater em crianças como método educativo não é uma actividade educativa, o comportamento gera comportamento, aliás, também se sabe que crianças que foram batidas são, frequentemente, pais que batem.
No entanto e dito tudo isto, também entendo que comportamentos inadequados ou incompetentes não significam necessariamente que estejamos perante pessoas, pais, más ou incompetentes.
Todos nós, alguma vez, agimos de uma forma menos ajustada ou adequada com os nossos filhos e isso não nos transforma em pessoas más, significa que somos apenas pessoas e que nada destes matérias é feita seguindo escrupulosamente um qualquer "manual de instruções" dos muitos que agora aparecem.
Assim sendo, creio que devemos ser cautelosos, quer na defesa da "estalada educadora" ou “palmada pedagógica”, quer na diabolização definitiva de pais que numa situação eventualmente esporádica e de tensão assumem um comportamento de que podem ser os primeiros a arrepender-se.
Esta nota, não branqueadora ou desculpabilizante de nada, pode não ser particularmente simpática mas estou cansado, tanto de discursos de legitimação do efeito "educativo" da violência dirigida a crianças, como de discursos demagógicos e, por vezes hipócritas, que clamam pelo "crucificação" cega de uma pessoa, o outro que bate, mas são produzidos por gente desatenta ou mesmo autora ou apoiante doutros comportamentos dirigidos a miúdos tão indignos quanto a "estalada" ainda que menos visíveis.
Finalizando, embora saiba que a legislação mesmo quando é imperativa é entendida como indicativa e, portanto, desrespeitada como temos tantos exemplos em várias matérias é bom não esquecer que estamos a falar de direitos, não de opiniões.

quarta-feira, 27 de março de 2019

O ACESSO DOS ALUNOS DOS CURSOS PROFISSIONAIS AO ENSINO SUPERIOR

Li com alguma perplexidade e preocupação a decisão agora conhecida do Ministério da Ciência e Ensino Superior de estruturar já para o próximo ano lectivo um projecto-piloto destinado ao acesso ao ensino superior por parte dos estudantes que concluam o secundário através dos cursos profissionais.
Em vez de realizarem os exames nacionais como a generalidade dos candidatos com as dificuldades decorrentes do seu trajecto curricular candidatam-se em concursos locais às licenciaturas (instituições) que pretendem frequentar. Cada instituição, universidade e politécnico, decidirá que dispositivo e critérios regularão a ordenação das candidaturas dos estudantes vindos cursos profissionais. Algumas notas.
Em primeiro lugar reafirmar o que de há muito defendo, a conclusão e certificação de conclusão do ensino secundário e a candidatura ao ensino superior deveriam ser processos separados.
Os exames nacionais destinam-se, conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário e que, obviamente, está sediado no ensino secundário. Neste cenário caberiam também as outras modalidades que permitem a equivalência ao ensino secundário, como é o caso do ensino artístico especializado ou os cursos profissionais.
Entendo também que o acesso ao ensino superior é um outro processo que deveria ser da responsabilidade do ensino superior e estar sob a sua tutela minimizando também os efeitos pouco positivos reconhecidos pela OCDE na relação estabelecida por alunos, escolas e famílias com os exames e os efeitos dessa relação. Sublinho minimizando equívocos que a questão não está na existência ou importância dos exames finais do secundário que não me parece colocar grandes dúvidas. A questão é que os resultados obtidos nesses exames deveriam constituir apenas um factor de ponderação a contemplar com outros critérios nos processos de admissão organizados pelas instituições de ensino superior como, aliás, acontece em muitos países.
Em segundo lugar uma nota para sublinhar importância do combate ao abandono escolar precoce e ao entendimento da qualificação, designadamente de natureza superior, como um bem de primeira necessidade e recordar que ainda estamos longe dos indicadores ideais nesta matéria.
Dito isto e apesar da proposta do MCES deslocar para as instituições de ensino superior o processo e os critérios de acesso, o facto de apenas envolver os alunos dos cursos profissionais levanta-me sérias dúvidas.
Existindo ofertas formativas abertas a todos os estudantes porquê estabelecer critérios “próprios” apenas para quem vem dos cursos profissionais? Que escrutínio deste processo? Temo que, tal como aconteceu com o Programa Novas Oportunidades que partiu de uma boa ideia, possamos cair no equívoco de confundir “certificação” com “qualificação” com efeitos “estatísticos” mas … de robustez qualitativa duvidosa.
Trabalho numa instituição de ensino superior privada dependente das propinas pagas pelos alunos pelo que mais à vontade para afirmar que esta reserva não tem a ver com qualquer espécie de elitismo relativo ao acesso ao ensino superior. Remete exclusivamente para a imperiosa necessidade de termos pessoas qualificadas e não de pessoas com um diploma debaixo do braço onde conste a certificação de uma habilitação e competência que causem alguma sombra de desconfiança com reflexos sérios na empregabilidade e na confiança social.
Os critérios e formas de acesso ao ensino superior devem ser pensados para todos os jovens que estejam em circunstâncias de poder concorrer e não para um grupo particular, os alunos dos cursos profissionais.
Esta medida, apesar do princípio me parecer ajustado desde que bem regulado e transparente, pode ser um enorme tiro no pé e na credibilidade imprescindível a estas processos.

O TEATRO


Manda o calendário das consciências que se assinale hoje o Dia Mundial do Teatro.
Num tempo em que a cultura é quase considerada bem de luxo e supérfluo, aqui se recorda uma afirmação muito bonita de Luís Miguel Cintra, um enorme Homem do Teatro, no discurso de aceitação do Prémio Pessoa de 2005.
Escolheu o teatro "para continuar a fazer em adulto aquilo que fazemos em crianças, para continuar a brincar contra toda a solidão".
Vivemos num mundo de gente só, que viva o teatro.

terça-feira, 26 de março de 2019

FESTAS INFANTIS


Na caixa do correio apareceu um destes dias um pequeno folheto promovendo a realização de festas infantis, isso mesmo, a realização de festas infantis que, aliás, são publicitadas como inesquecíveis.
O folheto enumera a oferta disponível para as inesquecíveis festas que, com a vossa licença, aqui deixo.
Num lado enuncia-se Dança com Hip Hop, Expressão corporal, Pinturas faciais, Jogos tradicionais, Contador de histórias, Caça ao tesouro, Karaoke infantil, Aparência fashion e Canções infantis.
No lado B, chamemos-lhe assim, temos Insuflável, Teatro de fantoches, Magia infantil, Palhaço e Espectáculo de fogo.
Claro que uma inesquecível festa infantil ainda beneficia se tiver, segue o resto da oferta, Bolos personalizados 3D, Buffet crianças e adultos, Decoração e criação de ambientes com balões.
Não sei que mais admirar. Fiquei particularmente entusiasmado com a Aparência fashion, mas, por outro lado, o Insuflável é um concorrente de respeito. Estranhei a presença dos Jogos tradicionais e de apenas um Palhaço numa festa infantil inesquecível, tão fantástica, mas parece compensada com o sempre estimulante, imagino, Espectáculo de fogo.
Cativou-me, devo dizer, a ideia de Bolos personalizados 3D (que raio será isto?) mas verdadeiramente irresistível é a Criação de ambientes com balões.
Agora a sério, se querem promover festas infantis, deixem as crianças brincar. É a brincadeira, a coisa mais séria que as crianças fazem, que torna a infância inesquecível.

POLÍTICAS DE FAMÍLIA

Quando tantas vezes aqui tenho referido  a necessidade de políticas de família não era exactamente desta tipologia que estava à espera.
No entanto, não deixo de registar os apoios à família. São sempre importantes.
Aliás, temos sempre sido bons seguidores desta lógica familiar, chamemos-lhe família, loja, cor certa do cartão ou outra qualquer característica de afinidade.
É bonito, gostamos de nos sentir como um país solidário para com os próximos.
Mais a sério, algum pudor não ficaria mal como também a demagogia hipócrita de quem se rege pela mesma "filosofia" se dispensa.

segunda-feira, 25 de março de 2019

"SÓ FAÇO ISTO PORQUE GOSTO DE TI. ACREDITAS NÃO ACREDITAS?"


A questão da violência nas relações familiares ou de namoro continuam na agenda. Por um lado devido à regularidade e gravidade dos episódios e das suas consequências, por outro lado a exigência de que a questão seja tratada de forma séria e contínua com o objectivo de minimizar as ocorrências.
O Público mostra hoje um trabalho que solicita reflexão e medidas dirigidas para as várias formas de violência nas relações amorosas entre jovens.
Retomo umas notas que aqui deixei em Fevereiro quando se assinalava o dia de S. Valentim.
Nessa altura foi divulgada uma nova actualização do estudo sobre a Violência no Namoro 2019, que a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) tem vindo a realizar nos últimos anos tendo como participantes jovens.
O número de jovens, que namoram ou já namoraram que refere ter sofrido pelo menos uma forma de violência por parte do parceiro(a) é de 58% sendo que em 2018 era de 56%. Um dado ainda mais inquietante é manutenção de taxa dramaticamente elevada de jovens que que entendem estas práticas como “normais”, 67% no inquérito deste ano e 68,5% no estudo anterior.
Os comportamentos considerados envolvem difamação, o recurso às redes sociais para chantagear o outro, o hábito de intromissão no telemóvel ou nos bolsos, as agressões físicas e a coacção para práticas sexuais não desejadas, etc.
Um outro trabalho também agora divulgado, “Violência no Namoro em Contexto Universitário: Crenças e Práticas”, promovido pela Associação Plano i mas envolvendo apenas jovens e jovens adultos com frequência ou formação universitária” confirma os indicadores do trabalho desenvolvido pela UMAR, 54,7% dos jovens em Portugal já sofreram pelo menos um acto de violência no namoro. Sublinho que estamos a falar de estudantes universitários o que tora tudo ainda mais preocupante.
O que ainda me parece mais dramático é a manutenção sem grandes alterações destes indicadores ao longo dos anos o que talvez ajuda a perceber como a violência doméstica parece indomesticável.
O trabalho do Público ilustra algumas destas situações.
Em Fevereiro o Governo divulgou uma campanha, #NamorarMemeASério, com o objectivo de eliminar a violência no namoro identificando as suas diferentes forma e o seu entendimento como “natural”.
Os dados convergem no indiciar do que está por fazer em matéria de valores e comportamentos sociais. Acresce que boa parte das situações de abuso não são objecto de queixa.
Este conjunto de dados é preocupante, gostar não é compatível com maltratar, mas creio que não é surpreendente. Os dados sobre violência doméstica em adultos que permanece indomesticável deixam perceber a existência de um trajecto pessoal anterior que suporta os dados destes e de outros trabalhos. Aliás, nos últimos anos a maioria das queixas de violência doméstica registadas pela APAV foram de mulheres jovens.
Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época. De facto, e reportando-nos apenas aos dados mais gerais, é criticamente relevante a percentagem de jovens, incluindo estudantes universitários, que afirmam um entendimento de normalidade face a diferentes comportamentos que evidentemente significam relações de abuso e maus-tratos.
Como todos os comportamentos fortemente ligados à camada mais funda do nosso sistema de valores, crenças e convicções, os nossos padrões sobre o que devem ser as relações interpessoais, mesmo as de natureza mais íntima, são de mudança demorada. Esta circunstância, torna ainda mais necessária a existência de dispositivos ao nível da formação e educação de crianças e jovens; de uma abordagem séria persistente nos meios de comunicação social; de um enquadramento jurídico dos comportamentos e limites numa perspectiva preventiva e punitiva e, finalmente, de dispositivos eficazes de protecção e apoio a eventuais vítimas.
Só uma aposta muito forte na educação, escolar e familiar, pode promover mudanças sustentadas nesta matéria. É uma aposta que urge e tão importante como os conhecimentos curriculares.
Entretanto e enquanto não muda, "só faço isto porque gosto de ti, acreditas não acreditas?"

O ANANÁS E O ABACAXI


Cenário – restaurante em zona turística
Actores – o escriba e o simpático funcionário que atendeu durante o almoço e teve honestidade de me avisar que as douradas eram de viveiro. É certo que não são  confundíveis, até porque se reflecte no preço, mas fiquei bem impressionado. No final da refeição.
Para sobremesa?
Que fruta tem?
Melão e ananás. 
Apesar de não ser adepto da fruta que não é da época por várias razões decidi-me.
Traga-me ananás, se faz favor.
Certíssimo.
O senhor dirige-se para a janela da cozinha e oiço:
Sai um abacaxi.
E veio de facto uma rodela de … abacaxi.
Não vale a pena entrar em grandes distinções mas basta atentar nas características e nos preços de um e outro para perceber que não é tudo igual.
Poderíamos viver sem estas habilidades mas não seria a mesma coisa.

domingo, 24 de março de 2019

AFINAL HAVIA OUTRA


Em entrevista ao Financial Times Wolfgang Schäuble, o nosso bem conhecido ex-ministro das Finanças alemão expressa tristeza e algum arrependimento pela forma como a crise das dívidas soberanas foi gerida. Lê-se no Público, “Bem…sinto-me triste, porque tive um papel em tudo isso. E penso como podíamos ter feito as coisas de forma diferente”,
Talvez seja de recordar que as “coisas” defendidas e impostas por Wolfgang Schäuble aos “bons alunos” portugueses produziram perto de três milhões de portugueses em risco de pobreza e exclusão, cerca de um milhão de desempregados, cortes brutais nos rendimentos das famílias e nos apoios sociais com consequências catastróficas nas condições de vida e na dignidade de muitas milhares de pessoas e esta gente afirma tranquilamente que talvez pudesse ter sido diferente. É apenas mais um como o FMI ou o Tribunal de Contas Europeu a reconhecer que a ... “coisa não correu bem”, “a coisa não correu como estávamos à espera”.
Não é possível ouvir estes abutres sem sentir um profundo embaraço. Usam modelos que reconhecem errados, produzem previsões que reconhecem erradas, arrasam a vida de milhões, e serenamente informam, “tenham paciência”, “não correu bem”.
E não acontece nada?
Nós sabemos quem pagou e está a pagar um preço altíssimo e devastador pelo "engano". E os(ir) responsáveis?
Na verdade, parece cada vez mais claro que a ideia do TINA “- There Is No Alternative era um mantra mil vezes repetido para se tornar verdade.
As políticas duras de austeridade que esqueceram pessoas, famílias e pequenas empresas, promoveram desigualdade, pobreza e exclusão foram uma escolha política, não eram um caminho único.
Afinal … havia outra.
Havia e há outra política possível.

E AGORA?


E agora?
Depois da manifestação de ontem e não existindo mudança de posição ou verdadeiro diálogo, o conflito entre os professores e o ME passa para o Parlamento com a apreciação Parlamentar solicitada pela maioria das bancadas e pela discussão da Iniciativa Legislativa de Cidadãos.
A pouco tempo das eleições é com alguma curiosidade que aguardo as diferentes posições partidárias, incluindo a do PS. Têm sido proferidas juras de apoio às posições dos docentes relativamente à contagem do tempo de serviço a que acrescem as decisões que nesta matéria já foram tomadas nos Açores e na Madeira.
No rescaldo da manifestação de ontem e caso do Parlamento não resultem mudanças acentuou-se a probabilidade de realização de uma greve às avaliações a partir de Junho, do recurso aos tribunais para combater os efeitos perversos da decisão do ME e a convocação de mais manifestações.
Mesmo em modo negação não é possível que o Governo não tenha percebido que nesta altura, o mal-estar, o cansaço, a indignação e desesperança que afectam os professores sustentam um clima e que terá forte tem impacto no clima das escolas e no trabalho de alunos e professores. Este cenário acentuar-se-á significativamente com a perspectiva de uma greve às avaliações lançando inquietação nas famílias para além do óbvio comprometimento da tranquilidade do final de ano lectivo.
Por outro lado, não me parece possível que a tutela espere que o cansaço acabe por sair vencedor de um conflito que, como a generalidade das situações de conflito, deveria ser resolvido numa perspectiva de concertação entre os envolvidos. Quando assim não acontece, os efeitos podem ser pesados mas, naturalmente, será uma questão de opção.
Como já tenho escrito, o quadro legal em vigor, gostemos ou não, é o que deve ser cumprido, é uma questão de direito. Entender o contrário é um risco embora saibamos que em Portugal existe alguma tendência para entender a lei como indicativa e não como imperativa, ou seja, é de geometria variável.
O que aqui deveria estar em causa é o modo e o tempo no cumprimento da lei. E isto, mais uma vez, só se consegue negociando. Ponto.

sábado, 23 de março de 2019

AS ESTEVAS


Por esta altura o Monte fica ainda mais bonito. A beleza frágil e efémera das flores das estevas é sempre mágica.
A míngua de água não impediu que se mostrassem mas a chuva tornaria o seu cheiro anda mais vivo.
São também assim os dias do Alentejo.



DA MANIFESTAÇÃO DOS PROFESSORES. ALGUMAS COISAS QUE EU SEI


Está marcada para hoje à tarde em Lisboa uma manifestação dos professores tendo por razão central a questão da contagem do integral do tempo do tempo de serviço congelado durante os mais famosos 9 anos, 4 meses e 2 dias da história recente embora existam outros pontos importantes motivo de contestação.
Como é óbvio não sei que consequências terá e também a sua expressão embora antecipe alguma divergência quanto ao número de participantes, faz parte deste tipo de eventos. Veremos se replica o 8 de Março de 2008 no tempo de má memória de Maria de Lurdes Rodrigues. No que respeita ao resultado e aguardando o que acontecerá no Parlamento não será hoje que saberemos.
Já escrevi muitas vezes sobre o conflito. Do meu ponto de vista, os 9 anos, 4 meses e 2 dias não considerados estão dentro da lei, são reconhecidos por todos os envolvidos e não estão sujeitos a discussão em modo souk marroquino em que o preço pedido e o preço final são ajustados num modelo que radica na cultura. O que está em causa será o modo e o faseamento no cumprimento da lei. Não sei qual a melhor a forma de o realizar mas é isso que deverá ser negociado.
No entanto, existem algumas coisas que eu sei, alguns exemplos.
Sei que alguns dos problemas dos professores são também problemas nossos. Sempre assim acontece quando está em causa a qualidade da educação e da escola, pública ou privada, e o trabalho de alunos, professores e pais.
Sei que em sociedades abertas os sistemas educativos com melhor qualidade, independentemente dos critérios de qualidade são, em regra, os que mais valorizam os professores, em termos sociais, em termos profissionais e também no estatuto salarial.
Sei também que muitos discursos produzidos pela tutela nos últimos anos, muitos discursos de representantes dos professores e de alguns professores, muitos discursos de opinadores ignorantes e/ou com agenda são fortes contributos para o clima que se vive nas escolas.
Sei também que o futuro passa pela educação e pela escola donde …
Sei que a defesa da qualidade da educação e da escola, pública e também privada, passam incontornavelmente pela defesa e valorização das condições de trabalho, em diferentes dimensões, que possibilitem que o trabalho de escolas, professores, directores, técnicos, funcionários, alunos e pais tenha o melhor resultado possível.
Mas não sei o que vai acontecer.

sexta-feira, 22 de março de 2019

QUE SE SEPAREM OS PAIS MAS QUE ESTES NÃO SE SEPAREM DOS FILHOS


Através de propostas do PS e PSD e com o eventual contributo de outros partidos o Parlamento poderá alterar o Código Civil no sentido de que após separação conjugal seja estabelecido como princípio e sempre que possível a residência alternada seja o o modelo a adoptar relativamente aos filhos. No entanto, caberá sempre ao juiz decidir em nome do superior interessa da criança.
Recordo quem 2018 a Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos lançou há uns meses uma petição no sentido de que se defina como princípio a residência alternada para as crianças de pais e mães após separação ou divórcio. Lançou também um inquérito há dias divulgado segundo o qual 68,6% dos portugueses com filhos defenderá que as crianças devem ficar com os dois progenitores, alternadamente, após a separação de um casal, 30,6% considera que devem ficar com a mãe e 0,8% com o pai. De uma forma mais fina, considerando inquiridos casados ou separados, nas duas situações a residência alternada é maioritária, 78% para os casais e 59% para quem não vive em casal ou é separado e, por géneros, 79% dos homens e 61% das mulheres inquiridas defendem esta opção.
É de não esquecer que residência alternada não é o mesmo que guarda partilhada, em residência alternada, existe um exercício conjunto das responsabilidades parentais e uma situação de convívio da criança com ambos os pais em tempos equilibrados, dito de outra forma, a criança vive “com os dois”.
A petição apresentada defende que seja este o princípio a adoptar.
Por outro lado, foi divulgada uma carta aberta contra esta ideia, subscrita por 23 associações que entendem que o estabelecimento do princípio da residência partilhada poderá levar a um aumento de conflitualidade. Recentemente também a Ordem dos Advogados expressa parecer negativo com base no risco que entende existir de aumento de conflitualidade.
Do que conheço, quer da argumentação, quer do que se passa em muitas situações de separação não entendo muito bem estas posições contrárias. A ideia não é “obrigar” à residência partilhada mas tê-la como primeira opção.
Também creio que em caso de separação dos pais a melhor situação para a(s) criança(s) é a residência alternada, ou seja, passar tanto quanto possível tempo igual com o pai e com a mãe.
Esta decisão, a não ser em situações particulares que devem ser consideradas e valorizadas em Tribunal como negligência, abuso ou violência doméstica ou manifesta incapacidade de um dos progenitores parece ser a que melhor defende o bem-estar e o sempre afirmado superior interesse da criança.
Em 2015 o Conselho da Europa solicitou aos estados-membros que inscrevessem o princípio da residência alternada nos seus quadros jurídicos pois “Separar um pai/mãe do seu filho tem efeitos irremediáveis na sua relação. Esta separação só deve ser ordenada por um tribunal em circunstâncias excepcionais.” Neste sentido é importante registar que foi ontem conhecida uma deliberação do Conselho Superior da Magistratura dirigida ao presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais da Assembleia da República, segundo a qual é de prever legalmente, "salvo motivos ponderosos", que "a residência dos filhos de pais separados deve ser com ambos os progenitores, de forma alternada e com possível adequação ao caso concreto".
Em Portugal são altamente maioritárias as decisões de residência única. Um estudo da Universidade de Coimbra que analisou cerca de 500 sentenças de 2012 apenas encontrou duas de residência partilhada sendo 78% a residência entregue à mãe, 14% a familiares e 8% ao pai. Percebe-se como a alteração é uma tarefa difícil considerando a cultura que tem predominado nas decisões dos Tribunais.
São numerosos os testemunhos e os estudos que mostram que em princípio é mais vantajoso para a criança viver em casa do pai e em casa da mãe por períodos alternados do que a situação que tem sido mais habitual nos casos de regulação parental, a entrega da criança à mãe e visitas ao pai. Aliás, no DN encontra-se uma peça elucidativa.
Como referi a cultura dos Tribunais de Família tem alimentado decisões desta natureza subvalorizando por preconceito e representação a capacidade cuidadora e educadora dos pais entendo-o sobretudo como “financiador” e parceiro para brincadeiras. Este modelo gera potenciais assimetrias e afastamento entre as crianças e os pais mas, quer na visão dos adultos e envolvidos, quer na decisão das instituições parece verificar-se alguma mudança o que se saúda.
É evidente que ao defender o princípio da residência alternada estamos a falar num princípio geral que deverá ser considerado caso a caso, aliás, como recomenda o Conselho da Europa.
Importa ainda sublinhar que as crianças gerem muito bem a dimensão logística e emocional da residência alternada. Na verdade, desde muito novas as crianças lidam tranquilamente com progenitores separados que as amem e delas cuidem e com quem convivam alternadamente.
É sempre preferível uma boa separação a uma má família, as crianças percebem muito bem quando têm pais casados por fora e “descasados” por dentro. Compete aos adultos o esforço, por vezes pesado, de construir uma boa separação. Aliás, só assim poderão voltar a construir uma boa família.
Importante mesmo é que também todos os que de nós lidamos com crianças e com os seus problemas possamos ajudar os pais neste entendimento, poupando sofrimento a adultos e crianças e mesmo decisões de guarda parental pouco amigáveis para o superior interesse da criança.


quinta-feira, 21 de março de 2019

OS MESTRES DE BONECOS

O calendário marca para hoje o dia do início da Primavera e o calendário das consciências determina que dia 21 de Março também seja o Dia Mundial da Poesia, o Dia Mundial da Árvore e da Floresta,  o Dia Mundial da Infância, o Dia Internacional da Síndrome de Down e o Dia internacional para a Eliminação da Discriminação Racial. Mas não é tudo, talvez poucos de nós saibamos que neste dia 21 de Março também se assinala o Dia Mundial da Marioneta.
Uma das minhas recordações mais antigas é a presença dos “robertos” nas praias da Costa da Caparica trazidos por um Mestre de Bonecos que armava uma barraca de lona e lá dentro manobrava as marionetas em diálogos e situações que apesar de repetidas nos faziam divertir e pedir aos pais umas moedas para o Mestre de Bonecos.
Num mundo que toma sempre novas qualidades seria desejável que não acabassem os Mestres de Bonecos como o meu amigo Delphim  que nos trazem coisas mágicas e que deveriam merecer mais atenção num tempo esmagado pela tecnologia e em que os miúdos mal têm tempo para sonhar.
Os miúdos gostam, tenho a certeza.

PS - Falar destes bonecos também pode ser uma forma de não esquecer o Dia Mundial da Poesia. São poéticos.




quarta-feira, 20 de março de 2019

NÃO PODIA ACONTECER


É o tipo de coisas que se dispensa em qualquer circunstância e em particular quando os professores estão envolvidos num conflito com o ME que se eterniza e no âmbito do qual é visível um esforço que conta com a ajuda "desinteressada" de alguma imprensa  e de alguns opinadores no sentido de “diabolização” da classe docente.
Terá sido dado como provado que a ex-presidente da Associação de Professores de Português foi a responsável pela divulgação prévia junto de uma aluna a que “dava explicações” dos conteúdos do exame nacional de Português do 12º na primeira época de 2017.
Sabemos que a perfeição não existe e santidade estará ao alcance de raríssimos eleitos mas alguém com este tipo de responsabilidade não poderia ter assumido tal falha. Sabemos a enorme prudência requerida nos juízos mas … não podia ter acontecido.
Um mau serviço prestado à classe com efeitos colaterais não desprezíveis.

A TERRA ANDA ZANGADA


De acordo com a ONU a tempestade Idai que atingiu Moçambique terá sido a pior de sempre no Hemisfério Sul.
Imagino que a Terra comece a ficar cansada da irresponsabilidade delinquente desta gente que a povoa, sobretudo dos que lideram. Depois de tanta asneira insistem nos maus-tratos e não se entendem sobre a forma de mudar de rumo.
Dão-lhe cabo das entranhas, alteram-lhe o clima, mudam paisagens, esgotam-na, deixam-na estéril e sem sustento ou, pelo contrário, a água é muita, devasta o que apanha pela frente.
A Terra não está a aguentar e zanga-se. E nós também não aguentaremos.
A minha avó Leonor, mulher de sabedoria, costumava dizer que não era bom a gente meter-se com a Terra, com a natureza, e maltratá-la. A natureza vai ser sempre maior que a gente e não aceita que mandem nela.
Quando acorda zanga-se e quando se zanga os efeitos são devastadores. Apesar destes avisos não parece que a levem a sério.
Esta gente não aprende mesmo, já não espero que o fizessem em nome deles, os seus interesses imediatos não deixam. Mas podiam fazê-lo em nome dos filhos, dos filhos dos filhos, dos filhos dos filhos dos filhos, 

terça-feira, 19 de março de 2019

CONVERSAS INACABADAS


É inevitável, hoje e sempre. Não é possível deixar de recordar um Homem Bom que já partiu há muito. Não partiu sem me mostrar o que nunca viu e me levar onde nunca tinha ido.
Um dia destes haveremos de acabar todas as conversas que não acabámos.
Um dia destes haveremos de começar todas as conversas que não iniciámos.
Vou contar-te tanta coisa que aconteceu e acontece que vais gostar de saber. Deixa-me só recordar, já te tinha dito, que tens dois bisnetos que são uma bênção mágica. Não te rias, ao Simão e ao Tomás já conto histórias com o Arranja Moinhos, todos os dias inventadas, como tu me contavas. Não, não vais perceber a comparação mas um dia explico-te, eles acham que o Arranja Moinhos é como a Patrulha Pata, resolve todos os problemas
Por outro lado, é verdade que também se vão passando tantas outras coisas de que não gostarias mas são assim as coisas do mundo. Partiste numa altura em que acreditávamos que, finalmente, tudo seria melhor, tudo seria possível, e tudo seria melhor e possível para todos.
Até um dia destes, Pai.

segunda-feira, 18 de março de 2019

UM GPS PARA OS MIÚDOS


Acabei de ler um post da Bárbara Wong no FB muito engraçado sobre as maravilhas do GPS. Fiquei a pensar na importância de colocarmos um GPS na mochila de cada criança.
Começa na família a construção do GPS que nos acompanhará, ou não, em toda a viagem. Quando as famílias cuidam dos miúdos para que sejam gente, eles aprendem aí a saber fazer e a entender a estrada, perceber as dificuldades que vão encontrar e integram também algumas ferramentas que os ajudarão a tentar ultrapassar e a lidar com essas dificuldades. O GPS é muito útil, contribui decisivamente para que os esforços e o empenho que os miúdos possam desenvolver e assumir, os conduzam a bom porto.
É pois fundamental que as famílias possam cumprir bem essa tarefa de ajudar a que os miúdos possam sentir-se seguros com o seu GPS. Por vezes e em algumas circunstâncias, as famílias terão alguma necessidade de ajuda e apoio para que essa missão seja bem-sucedida.
Depois da família, cumpre à escola a responsabilidade de tornar o GPS dos miúdos e adolescentes mais eficaz e sofisticado, mais equipado e mais preparado para outras dificuldades, obstáculos e percursos. O projecto de vida que cada um desenvolverá vai certamente depender da qualidade do GPS com que se vai equipando.
De facto, nos dias que correm é imprescindível que todas a crianças, adolescentes e jovens possuam um GPS, Guia Para o Sucesso, que tenha qualidade e seja personalizado.
Sabemos que alguns se perderão, não conseguiremos evitá-lo mas, ainda assim, temos a responsabilidade ética de tentar construir para todos um GPS que funcione.
Na verdade, parece importante que na mochila de cada miúdo exista um GPS, Guia Para o Sucesso.

domingo, 17 de março de 2019

SEXUALIDADE E DEFICIÊNCIA


Na edição de fim-de-semana do I encontra-se um impressivo trabalho sobre uma realidade distante para muitos de nós e extraordinariamente complexa para alguns outros, a sexualidade na vida das pessoas com deficiência.
Julgo ser fundamental a visibilidade destas matérias, trata-se de uma questão muito importante, respeitante a direitos, qualidade de vida e felicidade de muitos milhares de pessoas.
É ainda importante desfazer um enorme equívoco, sexualidade na deficiência, a sexualidade na vida das pessoas com deficiência, não é a mesma coisa que deficiência na sexualidade. A experiência e alguns estudos dizem-me que este equívoco está também presente em discursos e atitudes de famílias e técnicos para além da comunidade em geral. Recordo iniciativas do movimento, Sim, Nós Fodemos, que se bate por desmistificar a sexualidade nas pessoas com deficiência e desde 2015 quando que organizou no Porto uma Conferência sobre este universo.
É ainda necessário divulgar o conhecimento e a reflexão sobre estas matérias apesar da sua enorme complexidade, que, aliás, as pessoas mais próximas dos problemas, pais, técnicos e as próprias pessoas, reconhecem.
É certo que para muitos de nós os problemas que afectam as minorias são … problemas minoritários pelo que não nos afectam. No entanto, como tantas vezes afirmo, os níveis de desenvolvimento de uma sociedade também se aferem pela forma como lida com os problemas de grupos sociais minoritários.

SMS - "Sinto-me Muito Só"


Uma referência a um trabalho realizado pelo ISPA - Instituto Universitário que em linha com diferentes estudos no mesmo universo sugere o aumento do sentimento de solidão entre os jovens que passam mais tempo “ligados” nas redes sociais.
De facto, são múltiplos os estudos que evidenciam indicadores desta natureza o que pode ser considerado mais um sinal dos tempos. No entanto e por isso mesmo, importa estar atento ao tempo excessivo e aos riscos associados a este comportamento.
A propósito do sentimento de solidão, de há muitos anos que se sabe que não se cresce só, cresce-se na relação com pares e adultos. É por isso que, embora entenda a expressão, ouvir chamar a este tempo, o tempo da comunicação, me faz sorrir, acho mais apropriado considerá-lo o tempo do estar só ou a assistir à solidão dos outros.
As redes sociais, justificando a sua designação, acabam por aproximar os “sós” ou potenciar os riscos da sua fragilidade.
Apesar deste aparato comunicacional e sem querer minimizar os óbvios e imensos lados positivos deste fenómeno creio, no entanto, que muitas crianças e adolescentes, mas também muitos adultos, mascaram a solidão em que vivem e que, alguns, sentem, através, por exemplo, da troca de centenas de SMS que, em algumas circunstâncias, são mais SOS que SMS, ou seja, no fundo dirão "Sinto-me Muito Só e tu?"
Creio que precisamos de estar mais atentos para que o mundo da comunicação através de SMS, ou das redes sociais da net, não substitua o mundo da comunicação real, entre pais e filhos, por exemplo, ou entre as pessoas de uma forma geral. Os riscos, conforme o estudo citado acima, são claros.

sábado, 16 de março de 2019

A ESPERANÇA SAIU À RUA


Depois de ontem ter escrito sobre a tragédia e a desesperança da violência brutal numa escola em S. Paulo e na Nova Zelândia hoje quero sublinhar um sinal de esperança. Recordando as palavras de José Afonso, depois da morte sair à rua, a esperança saiu à rua.
Adolescentes e jovens de muitos mundos desta Terra que é única e está fortemente ameaçada vieram para a rua dizer que é preciso parar. Não temos alternativa a esta Terra e é nela que tem de existir futuro para eles.
É importante a posição e esperemos que se torne num movimento robusto de exigência e promoção de mudança.
Muitas vezes, quando olho para os meus netos, penso o que estará lá mais para a frente à espera deles. Aquilo que eu e a minha geração fizemos não é particularmente animador e chegámos a pensar que tínhamos tudo nas nossas mãos.
Neste mundo mágico da avozice e em múltiplas conversas com o Simão, cinco anos de experiência de uma intensidade iluminada, quando ele faz perguntas ou sugere respostas, ideias, planos, actividades sem fim acrescenta com muita frequência, “é não é, avô?”. E o avô, eu, encantado com a responsabilidade do “saber” securizante dos Velhos digo, “É Simão, é assim, tudo bem”.
Um dia destes, provavelmente daqui a algum tempo, talvez me questione, “Avô, eu e o meu irmão vamos ter uma terra bonita para a gente viver. É, não é Avô?”. Terei de lhe responder, “Acho que sim Simão, tu, o teu irmão e todos os miúdos do mundo vão ter uma terra bonita para viver, mas terão ser vocês a cuidar dela e comecem já.”
Não se distraiam gente, terão que ser vocês.

sexta-feira, 15 de março de 2019

O MAL-ESTAR COMO SEMENTE


Desta vez o choque e o horror aconteceram em S. Paulo, Brasil. Dois jovens, antigos alunos de uma escola, mataram 8 pessoas entre os quais cinco alunos dessa escola. Acrescenta-se assim mais um marco trágico num caminho que já vai longo, demasiado longo. Recorde-se alguns dos mais brutais, Santa Fé, Texas e Parkland, (2018), Columbine (1999), Virgina Tech (2007), ou Sandy Hook (2012) .
Em cada momento desta trágica natureza invade-nos um sentimento de perplexidade. Porquê?
Acontecem com regularidade episódios desta natureza ainda que alguns com menor gravidade. Para além dos episódios que referi nos Estados Unidos também a Noruega, França ou Finlândia assistiram a grandes tragédias.
Em alguns casos, lembro-me, por exemplo, dos distúrbios de há uns anos em Inglaterra em que os comportamentos observados assemelhavam-se grotescamente a um videojogo violento com personagens reais.
Também em Portugal se têm verificado alguns casos de violência extrema envolvendo jovens, apesar de terem, felizmente, efeitos menos trágicos, levando-nos a questionar os nossos valores, modelos educativos, códigos e leis pela perplexidade que nos causam.
Esta perplexidade exige a necessidade de tentarmos perceber um processo que designo como "incubação do mal" que se instala nas pessoas, muitas vezes logo na infância e adolescência, a partir de situações de mal-estar que podem passar relativamente despercebidas mas que insidiosamente começam a ganhar um peso interior insuportável cuja descarga apenas precisa de um gatilho, de uma oportunidade.
A fase seguinte pode passar por duas vias, uma mais optimista em que alguma actividade, socialmente positiva, possa drenar esse mal-estar, nessa altura já desregulação de valores, ódio e agressividade, ou, a outra via, aumenta exponencialmente o risco de um pico que pode ser um tiroteio numa escola ou noutro espaço público, a bomba meticulosamente e obsessivamente preparada ou uma investida contra alguém arriscando a entrada numa espiral de violência cheia de "adrenalina", em nome de coisa nenhuma a não ser de um "mal-estar" que destrói valores e gente. Os jovens envolvidos neste episódio parecem corresponder ao padrão de quem “incubava o mal” e, aparentemente, estavam entregues a si e ao seu mal-estar.
É evidente que a punição e a detenção constituírem um importante sinal de combate à sensação de impunidade perigosamente presente na nossa comunidade mas é minha forte convicção de que só punir e prender não basta. Aliás, estes jovens, numa espiral de violência e tragédia brutais puseram também fim à sua estrada.
Sabendo que prevenção e programas comunitários e de integração têm custos, importa ponderar entre o que custa prevenir e os custos posteriores da violência, da delinquência continuada e da insegurança.
Importa ainda estratégias mais proactivas e eficientes de minimizar, a exclusão, o abandono e insucesso educativos, a guetização e "quase total" desocupação de, em Portugal, centenas de milhares de elementos da geração "nem, nem" nem estuda, nem trabalha. Para esta gente, o futuro passa por onde, por quem e porquê?
Finalmente, a importância de uma precoce e permanente atenção às pessoas, ao seu bem-estar, tentando detectar, tanto quanto possível, sinais que indiciem o risco de enveredar por um caminho que se percebe como começa, mas nunca se sabe como acaba.
Nos Estados Unidos, na Noruega, na França, na Alemanha, no Brasil... ou em Portugal.

PS - Quando comecei a alinhavar estas notas tomei conhecimento da tragédia na Nova Zelândia. Parece associada a outra face deste mal-estar, a intolerância, o ódio, a violência desregulada. 
Vão negros os tempos.

quinta-feira, 14 de março de 2019

DA AUTONOMIA DAS ESCOLAS

A imprensa de hoje destaca a divulgação dos resultados da auditoria do Tribunal de Contas a 30 contratos de autonomia estabelecidos pelas escolas. Este número representa cerca de 14% das escolas que aderiram, acima de 200.
Os resultados divulgados sugerem que que o grau de cumprimento dos objectivos gerais e específicos a que as escolas subscritoras dos contratos se propuseram foi de 36% e 38%. No que respeita ao sucesso escolar foram atingidas 32% das metas definidas e 64% no abandono.
A imprensa destaca os resultados negativos deste relatório do TdC “arrasador” da autonomia das escolas.
O Tribunal de Contas até aconselha o ME a ponderar a continuidade do modelo. Temo que esta divulgação seja associada ao processo de municipalização curso que não parece ser um verdadeiro reforço da autonomia das escolas.
Têm sido frequentes as afirmações de directores escolares no sentido de que as transferências de competências para as autarquias não reforçam, antes pelo contrário, a autonomia das escolas.
Neste quadro, o Relatório agora conhecido pode ser uma ajuda “oportuna”, as escolas gerem mal a autonomia que reclamam. Esperemos que assim não seja, confundir autonomia com descentralização traduzida em municipalização é criar um equívoco perigoso que, entre outras consequências, pode dar alguma cobertura aos negócios da educação para além de, como disse, não reforçar a autonomia das escolas.
Importa sublinhar que a autonomia das escolas e agrupamentos é, reconhecidamente, uma ferramenta de desenvolvimento da sua qualidade, pois permite que os seus recursos, modelos de organização e funcionamento se ajustem às especificidades de contexto e, assim, melhor possam responder à população que servem, a toda a população, evidentemente, de acordo com as suas necessidades.
A defesa da autonomia das escolas tem sido sempre parte da retórica de qualquer equipa que entre na 5 de Outubro. O trajecto de construção da autonomia em Portugal tem sido naturalmente contaminado por esta retórica que tem inibido a promoção de uma real autonomia das escolas.
Os designados contratos de autonomia não são tão promotores de autonomia como se antecipa pela designação. A carga burocrática e normativa em cima das escolas é um constrangimento severo.
A autonomia das escolas terá de ser real, não assente numa ideia de "municipalização", deve envolver desde logo a possibilidade de diferenciação na organização e funcionamento das escolas, nos horários, na constituição das turmas ou grupos de alunos, na gestão curricular até à sala de aula ao nível das práticas pedagógicas. para tal serão necessários os meios e os recursos bem como dispositivos de regulação e avaliação. No âmbito dos projectos de autonomia e flixibilização curricular em curso alguma coisa se vai fazendo mas ... as escolas não têm autonomia. Ponto.


quarta-feira, 13 de março de 2019

OS RETRATOS DO REGUILA


Era uma vez um miúdo chamado Reguila, tinha uns onze anos. Na escola, nunca fazia nada sem primeiro pedir que lhe explicassem porquê. Nas aulas, quando os professores explicavam matéria que não conhecia, interrogava-os sobre para que servia o que estava a aprender. Gostava de falar, nem sempre respeitava a sua vez ou o silêncio, quando pedido. Também discutia as regras de funcionamento e nem sempre era fácil convencê-lo de algumas. Quando convencido, apesar de alguns lapsos, cumpri-as. Na escola muitos professores falavam do Reguila. Vejamos algumas opiniões.
Um professor chamado Romântico dizia, “É um miúdo tão engraçado e ingénuo. Tem uma vontade muito firme e não abdica dela, é muito autónomo”.
Um professor chamado Conservador dizia, “É um indisciplinado, tem uma família terrível que não lhe ensina nada e ele não se interessa por nada. Só espero que saia da escola, só cá deve andar quem se interessa e se porta bem”.
Um professor chamado Interessado dizia, “É diferente, como todos os outros, às vezes faz-me perder um bocado a paciência, mas normalmente dou-lhe a volta e entendemo-nos”.
Um professor chamado Indiferente dizia, “Ele que faça o que quer, desde que não me perturbe a aula. A vida é dele, nem todos podem ir longe”.
Um professor chamado Daeducaçãoespecial dizia "O Reguila é um universal".
Um professor chamado Inexperiente dizia, “Nunca vi um miúdo como o Reguila, sempre a falar e com as ideias dele, tão teimoso”.
Um professor chamado Velho dizia, “É um miúdo que ainda anda à procura de si e vai esbarrando nos outros, é preciso ajudá-lo a encontrar-se”.
Estavam todos a falar do mesmo miúdo, o Reguila.
E o Reguila? Que retrato faria de si?

terça-feira, 12 de março de 2019

A HISTÓRIA DO OLHAR DA JOANA


Um destes dias, a professora Isabel que trabalha na escola onde está o Professor Velho, aquele que já não dá aulas, está a biblioteca e fala com os livros, convidou-o para ir à sala dela falar com os miúdos de como era a escola noutros tempos. O Professor Velho adora contar histórias, acha mesmo que é umas das vantagens de ficar velho, ter histórias para contar e passou a manhã com os miúdos, mesmo ao intervalo andava por lá no meio dos jogos e brincadeiras. Nessa tarde pediu à professora Isabel que passasse pela biblioteca para conversarem sobre a visita.
Olá Velho, então gostaste da minha turma?
Foi bonito, como sabes gosto de contar histórias e eles, ainda bem para mim, parecem gostar de ouvir histórias e participar nas conversas.
Pois é, gostam mesmo de falar e ainda estão a aprender a não falar todos aos mesmo. Às vezes não é fácil.
Com o tempo e com persistência eles aprendem, são inteligentes e percebem que é melhor assim. Já reparaste naquela menina com o cabelo e os olhos pretos, pequenina, que se chama, creio, Joana?
Já Velho estava para um dia destes te falar dela. Está sempre calada, desvia o olhar quando chego ao pé dela, está quase sempre só. Porque perguntas?
Também me pareceu, como referes, que a Joana é uma menina que parece triste. Desde que cheguei à sala que o olhar dela me chamava. Procurei estar atento e durante o intervalo tentei aproximar-me e conversar.
Não parece fácil, ela foge um bocadinho.
Não fugiu, conversámos sobre uma história que eu tinha contado mas fiquei preocupado. A Joana tem uma sombra?
Uma sombra?
Sim Isabel, uma sombra, uma sombra grande no olhar. Não consegui perceber o que é, mas ela carrega uma sombra grande que a assusta, que a faz ficar com medo. Quando a gente espreita nos olhos dos miúdos consegue, às vezes, ver as sombras da vida deles. Temos que descobrir qual a sombra do olhar da Joana, para a ajudar a perder o medo.

segunda-feira, 11 de março de 2019

SE PASSARES TENS O TELEMÓVEL NOVO


O texto de Rita Antunes no Público sobre o uso, ou não, de prémios por parte dos pais como forma de promover o desempenho escolar merece reflexão. É uma questão que muito frequentemente os pais me colocam e para qual não creio poder dar uma resposta radical. Os prémios e incentivos estão presentes na nossa cultura e podem ou devem ser usados para sublinhar o apreço pelo esforço e/ou pelo desempenho dos filhos nas diferentes dimensões da sua vida.
Outra questão é assentar “toda” a acção educativa familiar numa administração de prémios e incentivos que deturpam o seu sentido, perdem eficácia mas, com frequência, sossegam a “consciência” de muitos pais que querem acreditar que tudo se “compra” e que “dando-lhes tudo” não lhes faltam com nada.
Todos os que lidam com crianças conhecem algumas que quase tudo parecem ter e tanto lhes parece faltar.
A este propósito mais um diálogo improvável.
Bom, Fábio, estamos a meio do segundo período, continuas a ter algumas negativas o que estás a pensar fazer?
Pai, não comeces já com secas, ainda não acabou.
Eu sei, mas estou preocupado, tenho medo que chumbes o ano.
Não te preocupes, se melhorar a alguma disciplina os setores depois dão-me notas para passar.
O problema não é só passares, é ficares a saber o que é preciso para estudares mais à frente. Se calhar seria melhor arranjar umas horas de explicação para te ajudar nas disciplinas mais difíceis.
Pai, já estou na escola bué de tempo, ainda queres que vá para a explicação, ganda seca.
O meu colega o Francisco disse-me que a filha anda numa explicadora muito boa, é um bocadinho cara, mas a filha já começou a subir as notas.
Eu acho que sou capaz de me safar sozinho, podíamos fazer um negócio, se eu passar dás-me um telemóvel novo.
Sabes que não gosto muito desse tipo de negócios, deves sempre tentar fazer o melhor possível, porque é bom para ti, não porque vais ter um prémio.
Sim, mas ter um prémio também é bom para mim.
Todos nós temos obrigações e responsabilidades e não podemos cumpri-las só quando nos prometem prémios.
Pai, tás mesmo armado em menino. Toda a gente faz alguma coisa sempre a pensar o que vai ganhar com isso.
Certo, se te esforçares e passares de ano ganhas com isso.
Mas se ganhar também um telemóvel é melhor. No teu trabalho se te pagarem mais ficas mais contente, ou não?
Como sempre não desistes. Então vamos combinar o seguinte, se passares o ano, sem negativas compro-te o telemóvel.
E se for só com uma negativa?

domingo, 10 de março de 2019

NOTÍCIAS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA


No dia 8 li no Público que o ME recebeu até ao momento “apenas” 50 casos de reclamações relativas no âmbito da entrada em vigor do regime jurídico da educação inclusiva, ou seja, desde o início deste ano lectivo.
Diz ainda o ME que reclamações apresentadas “estão relacionadas na quase totalidade com a falta de funcionários por motivos de baixa”, um problema anterior à entrada em vigor do novo diploma e que se mantém.
Algumas notas sustentadas no cansaço de ver como a realidade continua a ser vista quase sempre como se fosse a projecção dos desejos de quem para ela olha e não do que ela tem para ser visto (e reflectido).
Em primeiro lugar e apesar de saber que a perfeição não existe e os processos educativos são complexos, mesmo que fosse um só caso, seria um problema. Não devemos relativizar o número pois certamente entraríamos na impossível definição do critério a partir do qual temos problemas ou “está tudo bem”.
No que diz respeito às queixas apresentadas pelos pais, sabemos todos que por variadíssimas razões, em que se inclui a relação profundamente assimétrica entre escola e pais e em particular no que toca aos alunos mais vulneráveis o número de queixas formais é bastante mais baixo que as dificuldades sentidas na realidade, lá está a maldita realidade.
Mas do meu ponto de vista, embora a questão dos funcionários seja crítica a questão central não é essa.
A questão central é como estão a correr em termos genéricos os processos de avaliação, planificação, intervenção de acordo com os princípios da educação inclusiva, a avaliação reguladora dessa intervenção, os recursos disponíveis em suficiência e competência, o trabalho com e o apoio aos docentes de ensino regular face ao seu papel central nos processos de inclusão, etc.
Quando falo destas questões e cada vez sinto menos motivação para o fazer sempre afirmo que a mudança da legislação era necessária e que o DL 54/2018 tem avanços importantes. Também sei e não me esqueço que, quer com o velho 319/91 (nesta altura eu já trabalhava neste universo há 15 anos), quer com o 3/2008 e com o recente 54/2018 existiam e existem professores e escolas a realizar trabalhos notáveis que devem ser conhecidos e reconhecidos.
No entanto sei e não me esqueço que no meio do mar de rosas que isto parece ser os poucos espinhos, “apenas” 50, não decorrem da falta de funcionários por mais importantes que sejam.
Os processos de avaliação, não, não é rotulagem, é avaliação de eventuais dificuldades que se reflictam na aprendizagem, na “ensinagem” ou no comportamento e que  deve ser rigoroso e competente para que a planificação não se traduza num “objectivo” como “melhorar competências de leitura” constante num RTP (agora já não existe PEI) de uma crianças de 7 anos a frequentar o 1º ciclo como se qualquer criança a frequentar o 1º ciclo não deva “melhorar competências de leitura. Acontece que pela forma como foi colocado em prática, pelas dificuldades de recursos, pelos equívocos decorrentes do banho de doutrina no 54/2018 que nem o Manual de Apoio (era mesmo preciso chamar “manual” a orientações para intervenção em educação inclusiva?) esclarece, este processo de avaliação pelas equipas multidisciplinares decorre com inúmeros sobressaltos em muitas escolas.
Um dos grandes avanços anunciados era o fim da categorização, deixamos de ter crianças e jovens com necessidades educativas especiais. Quando leio referências aos “universais”, aos “adicionais” ou aos “selectivos” já não se trata de um processo de categorização pela dificuldade identificada mas realizado pela resposta desenhada. Isto sim, é uma mudança de paradigma.
A ver se nos entendemos, identificar de forma competente a natureza de eventuais dificuldades não é um processo de “rotulagem”, só o será se daí decorrer discriminação negativa ou “guetização” e não a adequação da resposta educativa. E deste ponto de vista o 54/2018 não garante nada pois coexistem ambas as situações.
O espaço é curto mas ainda uma nota para a participação dos pais, as situações que vou conhecendo mostram como tanto ainda está por fazer sobretudo em situações de maior dificuldades ou severidade problemáticas.
Como disse acima, o cansaço já é muito embora sempre me anime quando conheço situações muito positivas que felizmente acontecem todos os dias em tantas escolas.
Não quero fazer o papel do miúdo que diz que o “rei vai nu”, primeiro porque já não tenho idade para isso e, segundo, porque não seria de todo justo.
Também não gosto de me sentir o Waldorf ou o Statler, os velhos dos Marretas que estão sempre na crítica, até porque, de novo, muita coisa de bom acontece, mas … a verdade é que julgo que só mudar, ainda que num caminho ajustado não significa … mudar.
Não, existem muitas coisas muito bonitas mas … nem tudo vai bem. Não torturem a realidade que ela não vai confessar.

sábado, 9 de março de 2019

AS CONTAS QUE NUNCA DÃO CERTO. AGORA OS AUXILIARES DE EDUCAÇÃO


A imprensa de ontem divulgava o resultado de um inquérito dos directores de escola e agrupamentos em que se evidenciava a enorme necessidade de auxiliares de educação, não gosto da designação de assistentes operacionais, e de assistentes técnicos que asseguram funções de natureza administrativa.
Segundos os directores inquiridos, as razões para a falta de auxiliares de educação, para além do não provimento dos lugares, relevam da inadequação dos rácios que sustentam o número de auxiliares por estabelecimento, a não consideração da tipologia das escolas e as características da comunidade educativa, por exemplo, a frequência de alunos com necessidades educativas especiais, mantenho também a designação ainda que em contracorrente com a retórica em voga. Acresce um problema de formação decorrente dos modelos de contratação temporária de muitos dos auxiliares em funções e a chegar às escolas.
A questão dos auxiliares de educação é apenas mais um exemplo das contas que nunca dão certo em educação. Temos professores a mais ou a menos? Uns argumentando de forma habilidosa com os rácios número de alunos/número de professores no sistema dirão que teremos excesso de professores. Outros, como eu, que conhecendo as implicações decorrentes da organização da carreira docente, dos modelos de organização e funcionamento das escolas, das características diferenciadas dos contextos escolares e da população que servem, do envelhecimento grave e preocupante da classe docente, do elevado número de baixas, da importância do investimento em tutorias, par pedagógico ou coadjuvação, dos apoios necessários ao combate ao insucesso, abandono e a necessidade de promoção de qualidade e inclusão, entendem que não teremos professores a mais. Aliás, a breve trecho teremos necessidades importantes.
Voltando à questão dos auxiliares de educação, vou repetir-me mas nunca é demais enfatizar o papel essencial que estes profissionais desempenham nas escolas e a necessidade de rácios adequados, qualificação, segurança e carreira que minimizem problemas que têm vindo a ser regularmente colocados por pais, professores e directores.
Seria desejável que a gestão desta matéria considerasse as especificidades das comunidades educativas e não se seguissem critérios cegos de natureza administrativa que são parte do problema e não parte da solução.
Para além da variável óbvia, número de alunos, é necessário que se contemplem critérios como tipologia das escolas, ou seja, o número de pavilhões, a existência de cantinas, bares e bibliotecas e a extensão dos recreios ou a frequência de alunos com necessidades especiais.
Por outro lado a colocação de muitos destes profissionais através do Contrato Emprego-Inserção para além das questões de precariedade, descontinuidade e salário levanta fortes problemas de perfil desadequado ao exercício de funções, pessoas sem qualquer tipo de motivação ou competência para estas funções e, pelo contrário, quem as revela não pode continuar.
Na verdade e mais uma vez, os auxiliares de educação desempenham e devem desempenhar um importante papel educativo para além das funções de outra natureza que também assumem e que exige a adequação do seu efectivo, formação e reconhecimento. No caso mais particular de alunos com necessidades educativas especiais e em algumas situações serão mesmo uma figura central no seu bem-estar educativo, ou seja, são efectivamente auxiliares de acção educativa.
A excessiva concentração de alunos em centros educativos ou escolas de maiores dimensões não tem sido acompanhada pelo ajustamento adequado do número de auxiliares de educação. Aliás, é justamente, também por isto, poupança nos recursos humanos, que a reorganização da rede, ainda que necessária, tem sido feita com sobressaltos e com a criação de problemas.
Os auxiliares educativos cumprem por várias razões um papel fundamental nas comunidades educativas que nem sempre é valorizado incluindo na estabilidade da sua contratação e formação.
Com frequência são elementos da comunidade próxima das escolas o que lhes permite o desempenho informal de mediação entre famílias e escola, têm uma informação útil nos processos educativos e uma proximidade com os alunos que pode ser capitalizada importando que a sua acção seja orientada, recebam formação e orientação e que se sintam úteis, valorizados e respeitados.
Os estudos mostram também que é nos recreios e noutros espaços fora da sala de aula que se regista um número muito significativo de episódios de bullying e de outros comportamentos socialmente desadequados. Neste contexto, a existência de recursos suficientes para que a supervisão e vigilância destes espaços seja presente e eficaz. Recordo que com muita frequência temos a coexistir nos mesmos espaços educativos alunos com idades bem diferentes o que pode constituir um factor de risco que a proximidade de auxiliares de educação minimizará.
Considerando tudo isto parece essencial e um contributo para a qualidade dos processos educativos a presença em número suficiente de auxiliares de educação que se mantenham nas escolas com estabilidade e que sejam orientados e valorizados na sua importante acção educativa.