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terça-feira, 14 de agosto de 2018

DO ENSINO PROFISSIONAL


Em trabalho agora divulgado pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência analisando o trajecto dos alunos que iniciaram os cursos profissionais do secundário em 2014/2015 verifica-se que dos alunos que acederam sem ser pelo ensino básico geral, apenas 35,6% conseguiu terminar nos 3 anos previstos e 30% abandonou. Estes alunos frequentaram os Cursos de Educação e Formação, os cursos vocacionais criados por Nuno Crato ou frequentaram turmas de currículo alternativo. Estes alunos são também mais velhos em média o que demonstra uma trajectória com retenções que, obviamente, se repercute na relação que constroem com a escola e que se associa certamente ao seu menor desempenho.
Dos alunos oriundos do ensino básico geral 70% concluiu o curso em três anos e apenas 6% abandonou. A diferença é significativa.
Da análise dos dados e da caracterização sociodemográfica dos alunos decorre também que alunos com famílias mais favorecidas frequentam menos e em casos de grandes dificuldades estas vias alternativas.
Os dados não surpreendem e sustentam o que de há muito tenho defendido. É fundamental criar oferta formativa diferenciada, mas não deve acontecer tão cedo na vida dos alunos, um erro crasso do MEC, e não privilegiando, implícita ou explicitamente, os alunos com insucesso que naturalmente, os estudos provam-no, são sobretudo oriundos de famílias menos qualificadas o que, obviamente, compromete a mobilidade social e a equidade de oportunidades. Aliás, a OCDE tem expressado, recordo a experiência do ensino dual alemão importado por Nuno Crato e que envolveu muitos dos alunos agora analisados, que uma via profissional precoce mantém a desigualdade social e é dificilmente reversível. Os dados mostram-no, os níveis de exclusão e insucesso são elevados.
No âmbito do básico o ensino profissional ainda é com alguma frequência percebido como basicamente destinado "aos que não têm jeito para a escola", "aos repetentes", aos "preguiçosos" e não é percebido como uma verdadeira alternativa "não desvalorizada", de "segunda" como muitos alunos, famílias, professores e escolas e mesmo o discurso do próprio MEC assim o considerou com a criação dos cursos vocacionais para os alunos, muito novos e com retenções.
De uma forma geral os alunos no ensino básico que experimentam dificuldades escolares, precisam de apoios adequados, suficientes e competentes, autonomia das escolas e dos professores, flexibilidade e alguma diferenciação curricular, por exemplo em áreas disciplinares opcionais e não de vias profissionais para onde sejam “encaminhados” sem que daí decorra para a maioria a esperança num projecto de vida que inclua formação bem-sucedida.

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