AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A PERCEPÇÃO SOCIAL DA AUTORIDADE

No fim da semana que passou a imprensa referia o aumento dos casos de agressão e assédio a médicos e outros profissionais do âmbito da saúde. Nos primeiros seis meses deste ano a DGS registou mais de 400 notificações face aos 678 casos durante 2017. Acontece que se admite que muitos episódios não terão participação pelo que a questão é ainda mais preocupante.
As dificuldades genéricas das pessoas e as situações de funcionais e da resposta dos serviços podem contribuir para a explicação deste cenário.
No entanto, sem minimizar estas questões parece-me interessante reflectir numa outra perspectiva.
Em primeiro lugar sublinhar que os profissionais da saúde não são os únicos destinatários de emergentes e regulares comportamentos de agressividade física ou verbal. Grupos profissionais como professores e também forças policiais são recorrentemente vítimas deste tipo de comportamentos.
Por outro lado, é minha convicção que vale a pena considerar dois aspectos que julgo essenciais, a mudança na percepção social dos traços de autoridade e o sentimento de impunidade, que me parecem fortemente ligados a estes fenómenos.
Uma observação minimamente atenta às mudanças sociais, culturais e económicas nas últimas décadas, permite, creio, constatar como tem vindo a mudar significativamente a percepção social do que poderemos chamar de traços de autoridade.
Os médicos e enfermeiros, entre outras profissões, professores ou polícias por exemplo, eram percebidos, só pela sua condição profissional, como fontes de autoridade, como também os velhos, curiosamente. Tal processo alterou-se, a profissão ou a idade já não conferem “autoridade” que iniba a utilização de comportamentos de agressão. Dito de outra maneira, a identificação como médico ou enfermeiro, através da "bata", polícia com a "farda" ou professor com o "peso social" da função e da escola, já não são, por si sós, reguladores dos comportamentos. Estas mudanças implicam uma reflexão profunda, pois sendo um fenómeno "novo", não poderemos recorrer unicamente às soluções "velhas". é claro que não estou a referir-me a "respeitinho" ou a medo e muito menos a dar cobertura a "autoritarismo" e abusos de poder.
O segundo aspecto que me parece de considerar remete para um ambíguo e abrangente sentimento instalado em Portugal de que não acontece nada, faça-se o que se fizer. Este sentimento que atravessa toda a nossa sociedade e camadas sociais é devastador do ponto de vista de regulação dos comportamentos, ou seja, podemos fazer qualquer coisa porque não acontece nada, a “grandes” e a “pequenos”, mas sobretudo a "grandes", o que aumenta a percepção de impunidade dos “pequenos”
Considerando este quadro, parece importante um trabalho no ãmbito da formação cívica no sistema educativo e na formação de profissionais para a gestão e prevenção de situações de conflito, bem como um idscurso político e social consistente de valorizaçãoda autoridade, não do autoritarismo.
Sabemos ou que a autoridade não é atribuída ou devolvida por decreto. A autoridade assenta em competência, valorização, respeito, maturidade cívica, solidez ética, etc.
Por outro lado e finalmente, é ainda fundamental que se agilizem e sejam divulgados processos de punição e responsabilização séria dos casos verificados o que contribuirá para combater a percepção de impunidade.

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