AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

MAIS TRABALHO E NÃO MELHOR TRABALHO. A proletarização da economia

A ideia, caída à nascença, de aumentar em meia hora o horário de trabalho provocou na altura alguma discussão em torno do tempo para o trabalho. O Público de hoje divulga dados interessante sobre esta matéria, demonstrando que está a aumentar o tempo de trabalho, muita gente começa a trabalhar mais que as quarenta horas legalmente definidas.
A razão para que tal aconteça, decorre da pressão, por assim dizer, sobre os trabalhadores que mantêm ou conseguem trabalho, "obrigando-os" a mais tempo de trabalho e, simultaneamente, a um abaixamento da massa salarial. Este proletarização da economia assenta num enorme equívoco, sobretudo na ligação estabelecida com a produtividade, cujo incremento é necessário.
Já aqui afirmei a este propósito, que tenho a convicção de que o problema da produtividade é, fundamentalmente uma questão de melhor trabalho e não de mais trabalho. Aliás, algumas opiniões ouvem-se neste sentido e podemos reparar o que se passa noutros países com cargas de horário laboral semelhantes à nossa.
Há algum tempo foi divulgado um relatório sobre este universo na União Europeia cuja leitura permite perceber que, contrariamente a alguns entendimentos, a duração do trabalho em Portugal é a terceira mais elevada da Europa, repito, a terceira mais elevada da Europa, embora a competitividade e produtividade sejam das mais baixas.
Parece assim claro que a produtividade não decorre fundamentalmente do tempo de trabalho. Existem, tenho-o afirmado, factores menos considerados e que do meu ponto de vista desempenham um papel fundamental, a qualificação profissional, a organização do trabalho, a qualidade dos modelos de organização e funcionamento, no fundo, a qualidade das lideranças nos contextos profissionais. O nível de desperdício no esforço, nos meios e nos processos em alguns contextos laborais é extraordinariamente elevado. O relatório sublinhava isto mesmo. Relembro que os empregadores portugueses, sobretudo nas médias, pequenas e micro empresas, as que asseguram a grande fatia dos postos de trabalho, possuem um baixíssimo nível de qualificação em termos europeus, excepção feita, evidentemente, a alguns nichos.
Neste cenário, a decisão aumento ainda que de forma informal do horário de trabalho, a redução de feriados ou dias de férias, não parecem ser, só por si, as soluções milagrosas de incremento da produtividade.
Parece-me bem mais potente um esforço concertado e consistente de apoio à modernização e formação dos empregadores e quadros do tecido empresarial do que baixar custos do trabalho pelo recurso simplista e “fácil” ao aumento da carga horária.
O nosso desenvolvimento e crescimento não irá nunca assentar no empobrecimento de quem trabalha, pagando menos por mais tempo de trabalho e, muito menos, na tolerância a situações de chantagem em que as pessoas, para manter o emprego e assegurar um mínimo para a sobrevivência,  se sentem obrigadas a aceitar situações degradantes e humilhantes que configuram uma nova escravatura. Esta situação afecta tanto a mão de obra menos diferenciada, o trabalho em limpeza por exemplo em que se "oferecem" 2 € por hora, como a mão de obra mais especializada com a "oferta" do salário mínimo ou nem isso a gente com formação superior como há dias era noticiado.
Eu sei que os tempos vão de maneira a que muitas pessoas preferem umas migalhas, custe o que custar, ao desemprego, mas não podemos aceitar que vale tudo na forma mais selvagem de funcionamento dos mercados.

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