O gabinete da Secretária de Estado do Ensino Superior realizou um Estudo Quebra de ingressos no Ensino Superior divulgado no Público. A taxa de conclusão do secundário em 2024/25 nos cursos científico-humanísticos baixou 10,7 %, passando de 90,1% para 79,4% relativamente a 23/24, valores semelhantes ao período pré-pandemia. Embora não seja a única razão parece ser a base do abaixamento do número de alunos que entraram no ensino superior este ano lectivo.
Que leitura podemos fazer dos
resultados?
Como indicador fundamental de
avaliação externa a análise está comprometida à partida porque pela natureza
das provas, com a potencial variação do seu grau de dificuldade, torna-se
difícil a comparação com anos anteriores. As opiniões anuais de professores e
alunos sobre o grau de dificuldade mostra isso mesmo.
Sendo a avaliação externa uma
ferramenta crítica na regulação de qualidade dos sistemas educativos, importa
que os dispositivos utilizados possibilitem a construção de “retratos” robustos
e comparáveis dos trajectos escolares. Considerando este objectivo, seria
necessário que a construção dos exames contribuísse para que fosse possível
prevenir potenciais enviesamentos.
Por outro lado, também podemos
considerar a existência de uma “gestão política” dos resultados. Recordo uma
afirmação já de 2015 do então presidente do Conselho Científico do IAVE em
Coimbra, referindo a possibilidade de alterar médias com pequenas mudanças em
pouquíssimas questões.
Assim, os exames cumprem a função
de certificação de conclusão do secundário e, sobretudo, sustentar o acesso ao
superior. Neste cenário, parece-me que seria de repensar o modelo de acesso ao
superior.
Desde logo creio que o modelo
actual promove uma desvalorização do próprio ensino secundário que deveria ser
considerado e percebido como a finalização de um ciclo de estudos e não como a
antecâmara do superior e a sala de explicações para preparação para os exames,
aliás ouve-se com frequência o desconforto de docentes de ensino secundário
como este quadro. Na verdade, sentem o seu trabalho com os alunos hipotecado ao
peso dos exames e não à formação a adquirir no ensino secundário nas diferentes
disciplinas. Apesar das alterações realizadas a questão mantém-se.
Por outro lado, a situação actual
favorece, como é sabido e reconhecido, a iniquidade assente na "simpatia
generosa" de algumas escolas, maioritariamente privadas, que inflacionam a
avaliação interna dos alunos ou o florescimento de um nicho de mercado, as
explicações ou centros de estudo, dirigido à preparação para os exames com
custos não acessíveis a boa parte das famílias.
Assim, parece-me ser adequado
entender que a conclusão e certificação de conclusão do ensino secundário e a
candidatura ao ensino superior deveriam ser processos separados.
Os exames nacionais destinam-se,
conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o
trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário e que, obviamente,
está sediado no ensino secundário.
O acesso ao ensino superior será
um outro processo que deveria ser da responsabilidade do ensino superior e
estar sob a sua tutela com também sugere a recomendação do CNE divulgada em
2020. Seriam exigidos, naturalmente, dispositivos de regulação deste processo.
Parecer-me-ia mais ajustado que
as classificações, internas e externas no ensino secundário constituíssem
apenas um factor de ponderação a contemplar com outros critérios nos processos
de admissão organizados pelas instituições de ensino superior como, aliás,
acontece em muitos países. É óbvio que este processo exigiria regulação
eficiente e o envolvimento do ensino superior público e privado.
Para minimizar equívocos reafirmo
que a questão não está na existência ou importância dos exames finais do
secundário que não me parece colocar grandes dúvidas.
Enquanto não se verificar a
separação da conclusão do secundário da entrada no superior não valorizamos o
ensino secundário no que lhe é próprio e ainda corremos o risco de lidar com
situações de “enviesamento” decorrentes da estrutura de exame ou do grau de
dificuldade escolhido, bem como de negócios que sendo úteis a alguém, não o
serão, obviamente, para a maioria das famílias.
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