AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

FALEMOS DO AFONSO

Falemos do Afonso

O Afonso é uma criança tranquila e sem dificuldades em estar com adultos ou com colegas embora não se envolva em brincadeiras com eles nos espaços de recreio.
Mantém-se sem esforço e tranquilo no seu lugar a realizar as tarefas de aprendizagem que lhe são propostas embora não consiga cumpri-las sem ajuda.
O Afonso, não participa activamente nas actividades lúdicas e não se revela muito motivado para tal embora assista sem dificuldade à sua realização.
É de registar que apesar da idade o Afonso se revela ainda dependente para actividades básicas que as crianças da sua idade realizam de forma autónoma. Tal facto implica que por vezes o ajudam, naturalmente, em algumas tarefas que lhe causam mais dificuldade.
Os pais comparecem habitualmente nas reuniões para que são convocados, ainda revelam dificuldade em aceitar a situação, parecem fazer algum esforço de envolvimento e apoio ao Afonso, mas queixam-se frequentemente de obstáculos e de falta de ajuda.

Falemos ainda do Afonso mas de outra forma

O Afonso é uma criança com paralisia cerebral, calma e que reage bem quando é interpelado por adulto ou colegas mas sem capacidade de comunicação e recorrendo ao computador para a aprendizagem acompanhando os colegas no que aprendem.
Devido às suas enormes dificuldades motoras, usa cadeira, necessitando de permanente ajuda para deslocações. Quando alguém colabora na deslocação o Afonso gosta de ficar a assistir às brincadeiras dos colegas no recreio. Lamentavelmente faltam os recursos que ajudem o Afonso
O professor do ensino especial, devido ao número de casos, apoia o Afonso durante um tempo muito inferior ao que seria necessário.
Apesar de todas as dificuldades o Afonso tenta realizar as mesmas actividades de aprendizagem dos colegas o que é difícil sem a ajuda necessária sendo que também o trabalho do professor da sua sala fica difícil sem ajuda.
As dificuldades motoras do Afonso tornam-no bastante dependente e a falta de recursos humanos para o apoiar complica seriamente o seu dia-a-dia na escola.
Os pais, embora sempre presentes, revelam-se muito ansiosos e reivindicativos de mais apoios e ajudas para o Afonso que a escola não tem capacidade para providenciar.

Falemos ainda mais um pouco do Afonso.

O Afonso certamente não percebe porque não tem a ajuda e o apoio que precisa para que se cumpra o seu direito à educação e não à colocação na escola.
Os pais do Afonso talvez não compreendam porque não tem o seu filho em idade de escolaridade obrigatória a ajuda e o apoio que precisa para que se cumpra o seu direito à educação e não à colocação na escola.
Eu, eu tenho a certeza de que a educação inclusiva e a equidade em educação não decorrem de uma moda ou opção científica, são matéria de direitos pelo que devem ser assumidas através das políticas e discutidas, evidentemente, na sua forma de operacionalizar face á complexidade das situações  e á dimensão finita dos recursos. Aliás, poderá afirmar-se, citando Biesta, que a história da inclusão é a história da democracia, a história dos movimentos que lutaram pela participação plena de todas as pessoas na vida das comunidades, incluindo, evidentemente, a educação.

Sem comentários:

Enviar um comentário