AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

segunda-feira, 25 de abril de 2016

DE UMA ESCOLA LÁ PARA TRÁS NO TEMPO

No Público surge um trabalho interessante sobre a escola e a forma como os adolescentes a vêm e como gostariam que ela fosse.
Parece-me importante ouvir os alunos sobre a escola e a percepção que dela têm e que mudanças lhes parecem razoáveis.
A este propósito, a escola que queremos, considerando que hoje passam 42 anos daquele Abril deixem-me falar da escola que tínhamos e que creio que muita gente esquece, quem a conheceu, ou desconhece, os mais novos.
A escola do meu tempo era o tempo dos anos cinquenta e sessenta.
Não me esqueço, antes pelo contrário, que a nossa educação, a escola, como tudo o resto, tem atravessado um período complicado e com problemas muito sérios, mas só a falta de memória ou o desconhecimento podem sustentar algo que sempre me incomoda ouvir, “antigamente era melhor”. Vejamos, pois, um pouco da escola do meu tempo, conversa de velho, já se vê.
A escola que havia lá para trás no tempo não era grande, nem pequena, era triste. A maioria das pessoas que por lá andavam era, naturalmente, triste.
As pessoas que mandavam na escola estabeleciam o que toda a gente tinha de aprender, fazer, dizer e pensar. Quem pensasse, dissesse ou fizesse diferente podia até sofrer algum castigo, mesmo os professores, não eram só os alunos. Não se podia inventar histórias, as pessoas contavam só histórias já inventadas. Às vezes, os miúdos e os professores, às escondidas, inventavam histórias novas.
Eu andei nesta escola lá para trás no tempo.
E na escola do meu tempo nem todos lá entravam e muitos dos que o conseguiam saíam ao fim de pouco tempo, ficando com a segunda ou terceira classe, como então se chamava. Chegava.
E na escola do meu tempo não cabiam crianças com necessidades especiais. Precisavam de assistência, não de educação.
E na escola do meu tempo os rapazes estavam separados das raparigas.
E na escola do meu tempo havia um só livro e toda a gente aprendia apenas o que aquele livro trazia.
E na escola do meu tempo levavam-se muitas reguadas, basicamente por dois motivos, por tudo e por nada.
E na escola do meu tempo ensinavam-nos a ser pequeninos, acríticos e a não discutir, o que quer que fosse.
E na escola do meu tempo eu era “obrigado” a ter catequese, religiosa e política.
E na escola do meu tempo aprendia-se que os homens trabalham fora de casa e as mulheres cuidam do lar e dos filhos.
E na escola do meu tempo não aprender não era um problema, quem não “tinha jeito para a escola, ia para o campo”.
E na escola do meu tempo não se falava do lado de fora de Portugal. Do lado de dentro só se falava do Portugal cinzento e pequenino. Na escola do meu tempo eu era avisado em casa para não falar de certas coisas na escola, era perigoso.
Quem mandava no país achava que muita escola não fazia bem às pessoas, só a algumas. Ao meu pai perguntaram porque me tinha posto a estudar depois da quarta classe, não era frequente naquele meio, para ser serralheiro como ele não precisava de estudar mais.
Sim, eu sei, não precisam de me dizer que a escola deste tempo tem muitas coisas de que não gostamos e até algumas parecidas com a escola do meu tempo, a incapacidade de gerar mobilidade social mais significativa ou fazê-la chegar, de facto, a todos e com qualidade, por exemplo. Mas o caminho é melhorar a escola deste tempo não é, não pode ser, querer a escola do meu tempo.
Eu andei naquela escola lá para trás no tempo.
Por isso, quando falam da escola hoje, penso, nunca mais voltarei a andar naquela escola.
E não quero que os meus netos e os outros miúdos andem numa escola como aquela, a minha escola, lá para trás no tempo.

2 comentários:

  1. De velho para "velho", tem razão, meu velho!
    Sigo o que que escreve e concordo com (quase) tudo.

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  2. È bom não esquecer, por vezes, como diria o outro "há muita fraca memória".

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