AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

quinta-feira, 27 de junho de 2013

UM DESCONTENTAMENTO GERAL E UMA GREVE QUE TALVEZ NÃO O SEJA TANTO

Com a mudança já de há algum tempo da estratégia de informação do governo em matéria de greves não o habitual campeonato de audiências em torno os números de adesão à greve para hoje agendada. O Governo, desde há uns tempos, numa jogada política óbvia, retirou-se do jogo, deixando a bola com o adversário. Deve sublinhar-se a forma pouco aceitável do ponto de vista democrático escolhida para "não ir a jogo", pura e simplesmente proibiu serviços e empresas sobre tutela do estado de fornecerem elementos sobre níveis de adesão. Como exemplo de prática democrática, transparente e respeitadora do direito à informação é, no mínimo, discutível.
No entanto, como é habitual, as estruturas representantes do poder político virão muito provavelmente afirmar que se registou um bom resultado pois a iniciativa não teve a adesão referida e ou esperada, não teve impacto significativo na vida das comunidades, que fica evidente a aceitação ou, pelo menos, a compreensão das políticas seguidas e a bondade dos seus pontos de vista, etc.
Por outro lado, as estruturas representativas dos trabalhadores informam-nos que a adesão correspondeu às expectativas, que os trabalhadores mostraram o seu descontentamento, que o movimento sindical obteve mais uma retumbante vitória, etc.
A questão é que esta discrepância, do meu ponto de vista, acaba por desvalorizar os efeitos da própria greve pois, como é sabido, muitos estudos têm vindo a demonstrá-lo, os níveis de cultura política, participação cívica, precariedade laboral, custos económicos do dia de greve, etc., levam a que uma percentagem muito significativa de pessoas embora estando de acordo com a razão dos protestos não adiram à realização da greve. Desta questão decorre o facto de se defender que as manifestações podem um instrumentos mais potentes de protesto por, provavelmente, terem mais capacidade de mobilização como as últimas experiências demonstram.
Do meu ponto de vista, mais do que uma contabilidade da adesão que nunca será objectiva, importa atentar na existência de razões fortes para o protesto e descontentamento que estejam para lá das diferentes agendas partidárias e da conflitualidade de interesses neste cenário, a luta dentro da partidocracia.
Temos perto de 3 milhões de portugueses em risco de pobreza, a União Europeia reconhece que as medidas de austeridade que têm vindo a ser promovidas conduzem a um aumento da disparidade entre os mais ricos e os mais pobres, temos um milhão e meio de desempregados de desempregados, sendo que a taxa é de 42.5% entre os mais jovens.
Sabemos que os cortes nos recursos afectados aos apoios sociais são manifestamente insuficientes para minimizar de forma significativa as dificuldades de muitas pessoas o que faz aumentar exponencialmente os pedidos de ajuda junto das instituições de solidariedade social que, por sua vez, também não têm recursos para responder.
Neste quadro, ainda assim reduzido nas questões referidas, releva a existência clara de um descontentamento geral, de um conjunto de enormes dificuldades que é também geral, isto é que me parece a substância, embora possamos discutir se a greve é geral, quase geral ou só um bocado geral.
Como é óbvio, quem decide, não o pode fazer, como se costuma dizer no jargão político, com base na rua. Mas manda o bom senso que também não se pode esquecer a rua e que a rua não é apenas os que lá estão.

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