AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

Dedico sempre alguma atenção aos discursos produzidos por algumas das figuras mais representativas da Igreja portuguesa entre as quais se inclui, obviamente, D. José Policarpo, o patriarca de Lisboa. Hoje, em Fátima, entendeu por bem sustentar que os problemas não se resolvem “contestando, indo para grandes manifestações” pois a “democracia na rua é a corrupção da harmonia democrática”.
Mais, criticou “a reacção colectiva a este momento nacional” mas assume algum optimismo afirmando que “há sinais de que os sacrifícios levarão a resultados positivos.
Aprofunda a sua análise referindo que a situação de crise que atravessamos foi produzida “ao longo de muito tempo”. “Estes problemas foram criados por nós e por quem nos governou” acrescentou, mas manifesta-se “incompetente” para se pronunciar sobre as decisões do actual ou de anteriores governos.
Na conversa com os jornalistas surge uma questão a D. José Policarpo, registada numa peça televisiva mas omissa na peça do Público sobre o eventual aumento do IMI nos edifícios património da Igreja. O patriarca acha que deve ser cumprida a concordata, embora se possa negociar e entende que não se podem alterar disposições acordadas apenas com uma “decisão administrativa”.
A ver se eu percebo, D. José Policarpo. Muitos de nós tínhamos fixado nos contratos e vínculos laborais os rendimentos que nos deviam ser pagos. Uma “decisão administrativa” como lhe chama, baixou esses rendimentos sem qualquer negociação.
Muitos de nós D. José Policarpo, estávamos sujeitos a uma carga fiscal fixada que por uma “decisão administrativa”, não negociada, foi brutalmente agravada.
Sabe D. José Policarpo, os sinais positivos de que os sacrifícios levarão a resultados positivos como afirma, talvez não sejam muito visíveis ou percebidos pelos muitos milhares de portugueses que diariamente em luta pela dignidade e sobrevivência e em número crescente batem à porta de instituições de solidariedade social, muitas delas da Igreja, como o senhor cardeal deverá saber bem melhor do que eu.
D. José Policarpo, talvez não seja estranho que esta gente toda sinta a necessidade de ir para a rua expressar descontentamento, revolta, desesperança. Como o Sr. D. José Policarpo afirma, talvez os problemas não se resolvam contestando, mas o silêncio dos inocentes também não os resolve. Os inocentes que o senhor acha que não deveriam ir para a rua protestar, não têm voz nem peso para se sentar à mesa das “negociações” como o Sr. Cardeal, a Igreja, fará para que o IMI não atinja o património da Igreja.
Hoje, vai desculpar-me, fiquei convencido de que talvez não tenhamos o mesmo entendimento de solidariedade. No fundo, nada de estranho quando se tem poder, entendemos que os inocentes devem resignar-se “aceitando as decisões administrativas”, os sacrifícios, e acreditar num futuro redentor, e nós, nós entendemos que não aceitamos “decisões administrativas” lesivas dos nossos interesses e exigimos que sejam negociadas, isto é, alteradas.
Registei e não gostei.

4 comentários:

  1. Eu também não gostei do que D. M. Policarpo disse, mas adorei o que escreveu o professor... Chegou para ele!!!

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  2. Concordo com o que escreveu e agradeço a sua lucidez sobre este assunto, não vá qualquer "sombra de pecado" toldar-nos o raciocínio sobre o acto de manifestarmos com dignidade o nosso desejo de melhor humanidade !

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  3. Pois é, Zé, também se deve ter esquecido dos acontecimentos populares de 1975,nomeadamente, no norte do país, onde até havia coisas a arder e tudo.Pois, há o argumento que os tempos eram outros, mas os tempos são sempre outros e temos tendência de nos esquecermo-nos de algumas coisas - uma das belas funções da memória.
    Antigo companheiro de viagens , numa 4L, para reuniões ao longo do vale do Tejo, lá pelos anos 80.

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  4. Anos 80?! Isso foi quando? Há um monte de tempo.

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