AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

sábado, 7 de abril de 2012

CARTA A VOCÊS

Às vezes, na escola, dizem-nos para escrevermos cartas à família ou a pessoas que conhecemos. Eu vou escrever a vocês, não vos conheço, se calhar é melhor.
Chamo-me Bruno e tenho 15 anos e vou começar pela família. Eu já tive uma família, o meu pai, a minha mãe e dois irmãos pequenos, o Manel e a Sara. Não sei bem se podia chamar uma família porque o meu pai passava o tempo a bater na gente, sobretudo quando bebia. Eu que era mais velho apanhava mais, com um cinto, e não me deixava ir à escola. A minha mãe não dizia nada, tinha medo e tinha doenças. Um dia o meu pai morreu e eu, não se deve dizer, fiquei contente. Comecei a ir à escola outra vez mais os meus irmãos porque já tinham idade. Nessa altura, antes dele morrer, também tive uma casa, não era grande, eu e os meus irmãos dormíamos num quarto pequeno e a minha mãe e o meu pai na cozinha. A cozinha quase não era precisa porque comíamos pouco, eram umas pessoas que levavam latas de conserva e coisas assim lá a casa ou uns vizinhos que também davam alguma coisa à gente. O meu pai, alguns dias trabalhava e às vezes, antes de beber, comprava um frango assado, isso sim, era comer.
Depois, a minha mãe arranjou outro marido que ainda nos batia mais que o meu pai, queria que eu e os meus irmãos andássemos a pedir e batia na gente se não arranjávamos dinheiro, muitos dias já não ia à escola outra vez e a minha mãe andava sempre doente. Não sei como é que foi, um dia apareceram lá umas pessoas bem vestidas com a polícia e levaram a gente para uma casa grande onde havia outros miúdos e comíamos bem. Ficámos ali uns tempos e depois levaram o Manel e a Sara, disseram-me que eles iam viver com uma família mas nunca mais soube nada deles. A mim, trouxeram-me para esta casa, chama-se Lar de Nossa Senhora do Depósito e já estou aqui há uns quatro anos. Vou à escola mas não gosto muito, ainda ando no 6º ano e meteram-me numa turma de miúdos pequenos que gozam comigo por ser mais velho e estar só no 6º. Às vezes passo-me e dou-lhes, depois sou castigado. Um dia fujo daqui. Gostava de aprender a fazer qualquer coisa, mas as pessoas aqui do Depósito não me ajudam a pensar no que hei-de aprender a fazer.
Acho que gostava de aprender a fazer uma casa e uma família. Sabem como é?
Dia 1º do mês da Esperança de 2012, Lar de Nossa Senhora do Depósito
Bruno

2 comentários:

  1. Na realidade existem muitos Brunos nas escolas. Desenvolvi um estudo que pretendeu analisar de que modo é que alguns fatores de proteção aliados à resiliência, no contextos escolar influenciam o ajustamento escolar dos jovens com nee. Na amostra do estudo, estiveram presentes um numero significativo de Brunos. Verificou-se que os recursos na escola ( Oportunidades de participação, Expetativas, Relações afetivas) são relevantes para uma ligação positiva em relação à escola, bem como para a percepção de uma boa capacidade escolar. Surgiram outras associações significativas em situações de menor adversidade o que parece indicar que a escola funciona como um recurso importante para a promoção de fatores associados ao sucesso educativo, mas que terá mais dificuldade em o fazer, pelo menos por si, em situações de maior adversidade.

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  2. Na verdade, não é surpresa a constatação da dificuldade da escola em proporcionar dispositivos de apoio, sobretudo mais dirigidos para questões de natureza psico-afectiva, a muitos dos miúdos que deles possam beneficiar. As razões são de natureza variada, desde a falta de recursos até ao modelo de organização e conteúdos curriculares, ao papel dos Directores de Turma, etc. É ainda de considerar a reflexão sobre os limites da escola, isto é, a escola pode fazer parte da solução em muitas questões mas NÃO PODE SER A SOLUÇÃO de todas as dificuldades embora se confronte com elas pois é na escola que os miúdos estão.

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