AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

MALANGATANA PARTIU. ADEUS VELHO

A dimensão finita da vida tem destas coisas, rouba-nos os de que gostamos. Hoje partiu Malangatana Valente Ngwenya. Tive o privilégio de o conhecer. No âmbito desta relação passei algumas semanas de convívio diário com ele em Moçambique, a colaborar no Centro de Matalana, a menina dos olhos do Malangatana. A amizade criada alimentava-se também com encontros por cá e com a memória que se construía. Quando temos a bênção de privar com figuras desta dimensão sentimo-nos pequeninos e elas parecem ainda maiores que aquilo que imaginamos. O Mestre, como eu chamo às pessoas de que gosto muito e respeito, apesar de ser naturalmente conhecido como pintor, tem obra poética publicada, canta lindamente, dança e é um contador de histórias que vence o tempo. Recordo com muita saudade vários serões à fogueira em Matalana com histórias e cantigas a que volto com frequência, sobretudo quando me sinto zangado com o mundo. Recordo muitas horas de conversa com o Mestre e com o Júlio Navarro da Associação de Escritores de Moçambique, dizia-me Malangatana ao fim da tarde, vamos "navarrar" um bocado. Recordo as deambulações por Maputo, já fora de horas, com o Mestre a partilhar a sua narrativa e a mostrar a história que a arquitectura da cidade tem para contar. Lembro-me da peculiaridade da sua linguagem. Num jantar aqui em casa, prescindiu de repetir a sobremesa porque "barrigalmente" já não dava e por vezes, tinha de ir ajudar alguém com problemas "cabeçais".
Gostava de vos deixar, de novo, uma história com o Mestre. Saía com ele do Piri-Piri em Maputo, sede de vários jantares e muitas horas de conversa com muitos amigos, quando fui abordado por um grupo de crianças, algumas vivem na rua, os molwenes como lhes chamam e de que eu aqui já falei, que vendiam artesanato, um mais artístico que outro. O Mestre Malangatana vindo um pouco mais atrás, depois de ser efusivamente saudado pelos miúdos, volta-se para eles e diz-lhes, “não enganem este branco, o Zé Morgado é meu amigo”. Os miúdos protestaram que não queriam enganar-me e com alguma surpresa, um deles mais velhito aproximou-se para me oferecer um dos batiques que vendia. Perante o meu embaraço na aceitação, disse-me com um sorriso maior que a cara, “sou eu que faço, também me chamo Morgado”. É verdade, o batique estava assinado com um visível e inesperado “Morgado”. Hoje, já passados alguns anos, o batique do Morgado de Maputo ocupa um lugar de relevo na minha casa, na minha cabeça e no meu coração.
Mas de maior relevo ainda, é o lugar de Malangatana, um Mestre. Um dia, ainda temos de continuar as histórias que ficaram por contar. Até lá Velho, não abuses do gin.

2 comentários:

  1. Um dia sim! Vamos continuar a sua obra memorizando o artista que fica para sempre. Que o seu corpo descanse em paz.
    Grato pelo tema e o blogue bem estruturado.
    Abraço

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  2. Caro Manuel Luís,
    Privilégio dos Mestres, ficam sempre. Apareça sempre.
    Um abraço

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