Estamos a viver tempos de chumbo. Aos 72 dava por adquirido (quase) que a violência dirigida a pessoas que defendem direitos e expressam a ausência de futuro, quando não, a sobrevivência do presente não seria tolerada. Ainda me lembro de no princípio dos anos setenta termos sido obrigados a sair do Técnico por um portão lateral para podermos ser “malhados” por duas filas da polícia de choque. É mau, muito mau, mais do que a dor da bastonada é a dor do mal-estar e da revolta pela falta de direitos que dói mais, sobretudo quando não se vislumbra mudança.
As políticas públicas não são
públicas, são dirigidas a grupos que traficam influências e alimentam poder de
incompetentes e gente sem espinha.
Para muita gente, o acesso a um
abrigo, a uma casa, é uma miragem. Não pode ser gente! Um projecto de vida não
passa disso mesmo para demasiadas pessoas, um projecto, um sonho impossível.
Dói e revolta que assim seja. Não
é egoísmo, é dor, é falta, é impotência, é …
Estamos num tempo em que os
discursos se atropelam, toda a gente tem algo a dizer e cansam tantas palavras.
E cansam não porque me pareçam
palavras a mais, mas porque existe comunicação de menos, ou seja, o que a vida
pública mais tem para nos mostrar é discursos sem interlocutor. Cada um dos
actores ou protagonistas fala para algo ou alguém de indefinido e parece pouco
disponível para o essencial, utilizar as palavras como suporte da comunicação e
dos entendimentos, não estou a dizer concordâncias. As pessoas estão cansadas
de retóricas palavrosas, inconsequentes e centradas nos interesses dos
aparelhos partidários ou das elites económicas. Como dizia, parece-me que, de
facto, temos palavras a mais e comunicação a menos.
Por outro lado, paradoxalmente,
também creio que faltam palavras. Faltam palavras de solidariedade genuína para
quem, vítima da crise que a especulação económica e modelos de desenvolvimento
não centrados nas pessoas, vive momentos de enormes dificuldades num atentado
diário à dignidade e com o quotidiano transformado na preocupação com a
sobrevivência e a falta de uma palavra de esperança.
Vivemos dias de chumbo. Estou a
lembrar-me de Rafael Alberti e do texto "Nocturno". Aqui na voz de
Paco Ibañez.
(...)
Las palabras entonces no sirven,
son palabras...
Siento esta noche heridas de
muerte las palabras.
(…)
Lembrem-se, neste mundo em que
vivemos, vivem os nossos filhos, viverão os nossos netos e os filhos dos …
A história não vos absolverá.
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