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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

BRINCAR É PERIGOSO - OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

 Mãe, posso ir brincar para aquela árvore?

Não Miguel, que ideia! Sabes que é perigoso subir as árvores.

Mãe, posso ir jogar à bola com aqueles miúdos?

Miguel, não vês como eles andam aos encontrões e caem, podes magoar-te.

Mãe, posso ir dar cambalhotas na relva?

Miguel, tens cada lembrança, dar cambalhotas na relva. Não vês que está suja das pessoas passarem e podes apanhar doenças.

Mãe, posso ir ali ao bebedouro beber água?

Espera mais um pouco. Estão lá uns miúdos, podem meter-se contigo. É preciso ter muito cuidado com quem a gente não conhece.

Mãe, posso ir para ali correr para assustar os pássaros?

Miguel, já devias saber que quando te metes em corridas podes cair e magoas-te.

Mãe, posso fazer o quê?

Olha Miguel, deixas-te estar aqui sentado no banco ao pé da mãe que está a ler. Quando passar o senhor dos gelados compro-te um dos que gostas. Se te portares bem, é claro.

Mais uma vez. É preciso escutar os miúdos. Se lhes perguntarem, (das diferentes formas de fazer perguntas e ouvir respostas), vão ficar a saber que brincar é a actividade mais séria que realizam, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a ser e a saber.

Já em 2018 a Academia Americana de Pediatria recomendou aos pediatras que na sua prática clínica prescrevam “tempo para brincar”, um bem de primeira necessidade para o bem-estar dos mais novos com impacto em diferentes dimensões.

Insistem que não se trata de uma ideia “frívola” e os actuais estilos de vida de muitas famílias, por diferentes razões, tornam ainda mais importante que se reafirme a importância de brincar.

No caso mais particular, mas também essencial do brincar na rua sabemos que as questões da segurança e, sobretudo dos estilos de vida e a mudança verificada nos valores e nos equipamentos, brinquedos e actividades dos miúdos, o brincar na rua começa a ser raro.

Embora consciente das questões como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua, talvez com a supervisão de velhos que estão sozinhos, as comunidades e as famílias conseguissem alguns tempos e formas de ter as crianças por algum tempo fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã.

Como muitas vezes tenho escrito e afirmado, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como falava Almada Negreiros. A brincadeira, a rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.

Curiosamente, se olharmos às nossas condições climatéricas, Portugal é um dos países com valores mais baixos no tempo dedicado a actividades de ar livre, situação com implicações menos positivas na qualidade de vida, nas suas várias dimensões, de miúdos e crescidos.

Talvez, devagarinho e com os riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias.

É, pois, importante que todos os que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam o brincar como uma das “guide lines” para a sua intervenção.

Os mais novos vão gostar e faz-lhes bem.

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