AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

terça-feira, 13 de setembro de 2022

ESCOLA ONZE MESES POR ANO

 Ontem, a propósito da entrevista de Carlos Neto ao Público e da iniciativa “Escola a Tempo Inteiro”, abordei aqui a questão dos tempos da escola. Apesar disso, retomo a questão.

Com alguma estranheza da minha parte passou despercebida, que me desse conta, a notícia no CM relativa à apresentação por parte da Confederação Nacional das Associações de Pais ao Governo de uma proposta defendendo que o fim das férias escolares dos alunos seja em Agosto.

Não é nada de novo, em 2015 já o Presidente da CONFAP tinha defendido a existência de apenas um mês de férias para os alunos.

Estranhamente, ou talvez não, vou comentar a proposta de hoje com o que disse em 2015. No sistema educativo que temos e no modelo de sociedade em que vivemos proporcionar onze meses de estadia na escola é insustentável.

É verdade, sentimos todos, que os estilos de vida actuais colocam graves problemas às famílias para assegurarem a guarda das crianças em horários não escolares. A resposta tem sido prolongar a estadia dos miúdos nas instituições escolares radicando, como ontem escrevia, no que considero um equívoco, o estabelecimento de uma visão de “Escola a tempo inteiro” em vez de “Educação a tempo inteiro”. A CONFAP insiste neste caminho.

No actual quadro de organização das escolas os alunos podem estar na escola entre as 8h (ou 7:30 em algumas escolas) e as 19h (19:30 em algumas escolas), é obra!

É preciso o maior dos esforços, espaços, equipamentos e recursos humanos qualificados para que se não transforme a escola numa “overdose” asfixiante para muitos miúdos e um clima pouco positivo de trabalho para todos profissionais que nela desempenham funções.

É verdade que existem boas práticas neste universo, mas também conhecemos situações em que se verifica a dificuldade óbvia e esperada de encontrar recursos humanos com experiência e formação em trabalho não curricular com crianças a partir dos seis anos.

Acresce que muitas escolas, fruto da concentração de alunos e do número de alunos por turma, não possuem espaços ou equipamentos que permitam com facilidade o desenvolvimento de actividades fora do figurino mais habitual de actividades de natureza escolar.

Em muitas situações, apesar do empenho dos profissionais (alguns não o são por falta de qualificação adequada), apesar dos alunos estarem “guardados” o benefício imediato é quase nulo e a consequência a prazo poderá ser a desmotivação, no mínimo.

Neste quadro, manter aos alunos onze meses na escola é de um enorme risco.

Creio que a CONFAP andaria melhor se promovesse, dentro das suas competências, a discussão sobre a organização do trabalho, os horários e políticas de família, para que as famílias, quando fosse possível evidentemente, pudessem ter alternativas de horários laborais que lhes permitissem mais disponibilidade para os filhos.

Seria também de explorar a possibilidade de recorrer a outros serviços e equipamentos das comunidades, desportivos ou culturais, por exemplo, que respondessem às necessidades de crianças e jovens e não os manter na escola, a resposta mais fácil, mas com inconvenientes que me parecem claros. Aqui sim, parece-me importante o papel das autarquias.

Na mesma lógica da pretensão expressa pela CONFAP por que não avançar com a proposta de que as escolas estejam abertas, por exemplo, à sexta à noite de modo a permitir vida cultural ou social dos pais?

Sim, é anedótico e demagógico, mas trata-se de sublinhar que, por um lado, a escola não pode ser a solução para todos os problemas das famílias, crianças e jovens e que, por outro lado, nem sempre os interesses dos pais coincidem com os interesses dos filhos.

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