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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

DOS "MAUS" ALUNOS QUE NÃO PODEM SER BONS PROFESSORES

 

Alexandre Homem Cristo retoma no Observador um tema recorrente, são fundamentalmente os alunos com notas mais baixas no trajecto e exames do secundário que concorrem à formação em educação para a acesso à profissão docente.

No led do texto lê-se que “Na licenciatura em Educação Básica, só numa instituição a nota do último colocado superou 14 valores. Apenas noutras 4 (20%) superou 13 valores. E em 11 instituições (55%) ficou abaixo de 12 valores” pelo que AHC conclui “Os bons alunos (ainda) não querem ser professores” inferindo-se que alunos com notas mais baixas no secundário e nos exames não podem tornar-se bons professores o que me parece ser apressado, para ser simpático.

Em primeiro lugar julgo ser necessária prudência sobre a interpretação destes dados e o seu impacto na qualidade dos trajectos futuros, a relação entre o perfil de desempenho de um aluno de 15 anos ou as médias do acesso ao ensino superior e o seu potencial desempenho futuro como professor deve ser vista com extrema reserva. Não é garantido que estes alunos venham a ser maus profissionais como não é garantido que todos os alunos com médias mais elevadas que se candidatam a outras áreas científicas venham a ser excelentes profissionais. Aliás, alguns estudos, nomeadamente, da Universidade do Porto mostram que muitos alunos que entram n Superior com notas muito altas nem sempre mantêm esse trajecto

Uma segunda nota para defender que este cenário também se liga ao mecanismo de acesso ao superior. De há muito que defendo que as médias de conclusão do secundário deveriam ser apenas um dos critérios de acesso ao superior e que deveriam ser as instituições de ensino superior a estabelecer o conjunto de critérios na ordenação do acesso às diferentes áreas científicas. Um caso simples (talvez demasiado simples) para ilustrar isto. Eu quero ser professor mas sei que as notas de acesso são baixas devido à baixa procura. Assim e como não me parece particularmente motivador o que ando a aprender no secundário, cumpro a formação com resultados baixos que me permitem aceder ao meu sonho no qual vou investir e ser bom aluno e bom profissional. É inverosímil? Não creio.

No caso dos professores e das ciências da educação, como noutras áreas, não é impossível desenhar dispositivos de acesso que despistem vocações e motivações, competências diversas e requisitos considerados pertinentes e considerem também, naturalmente, as médias de conclusão do secundário.

No que que respeita à construção de um bom professor importa ainda não esquecer variáveis fundamentais, a qualidade da sua formação o que obriga a reflectir sobre o que é feito nesta matéria e a regulação do acesso à carreira profissional através da única forma de o fazer correctamente, o desempenho em sala de aula, e não uma sinistra PACC de má memória.

Em síntese e como muitas vezes afirmo, estou bastante mais inquieto com o que é construído com os alunos durante o tempo que frequentam o ensino superior, seja na formação de professores ou noutra área, do que preocupado com as notas ou percursos de entrada, desde que transparentes e legais. Aliás, e como disse acima os mecanismos de acesso ao superior deveriam ser revistos.

Por outro lado, outros aspectos merecem consideração. Não creio que a este cenário seja alheio alguns discursos produzidos sobre os professores que desvalorizam e empobrecem o seu estatuto social e a representação sobre a classe e que são produzidos, por exemplo, por “opinion makers” que frequentemente têm agendas implícitas e quase sempre estão mal informados.

Talvez também não seja alheia a instabilidade nas políticas educativas com impacto óbvio na estabilidade das carreiras e da sua valorização. Provavelmente em muitas famílias, as que mais probabilidades terão de ter filhos com melhor desempenho escolar, a profissão professor não é uma escolha incentivada ou, no mínimo, bem aceite.

Também alguns discursos vindos dos próprios representantes dos professores podem muitas vezes contribuir para equívocos e representações desajustadas sobre os professores e os seus problemas.

Julgo ainda que deve ser considerado o impacto de alterações nos valores, padrões e estilos e vida das famílias que fazem derivar para a escola, para os professores, parte do papel que competia(e) à família. Este trabalho é realizado, muitas vezes, sem qualquer tipo de apoio ou suporte, com cada professor entregue a si mesmo em climas institucionais pouco favoráveis.

Deste cenário resulta como tantas vezes tenho afirmado a necessidade da valorização dos docentes e da sua profissão de modo a que se torne mais atractiva.

Tenho a maior das dúvidas relativas a estes estudos e a forma como são divulgados não se inscrevem numa agenda de desvalorização e diabolização dos professores que certamente terá um enorme custo de que, evidentemente, ninguém será responsável.

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