AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

#TOGETHERFORVERA


Pela primeira vez coloco no blogue um post integral retirado do Facebook. Foi colocado pela Marcelina Souschek e tenho a certeza de que não se zangará.
A Marcelina foi contactada pela direcção da escola alemã frequentada em Portugal pela sua filha Vera avisando-a de que não pode transitar para o 10º ano. A Vera tem T21. Pode continuar na escola mas mantendo-se no 9º ano. A proibição de continuação para o 10º ano é imposta por responsáveis alemães que tutelam a escola.
É impossível ler sem sentir uma raiva a crescer nos dentes. Entretanto os colegas da escola desencadearam um movimento contra a decisão #togetherforvera.
Parece-me importante sublinhar os dois movimentos, a decisão contra por parte das autoridades educativas atentatória dos direitos e da dignidade da Vera e de todas as pessoas e, por outro lado, o significado da posição tomada já por centenas de colegas da Vera defendendo a sua permanência na escola e no trajecto que deve ser.

"A semana passada fui apanhada mais uma vez na curva, ando sempre a ser apanhada, sempre quando menos espero, lá vem aquele murro no estômago.
Quem tem miúdos com dificuldades conhece bem estas situações, está tudo bem e de repente numa reunião que nem era para ser, lá está uma pessoa que não estavas à espera, numa de já agora que está aqui, aproveito para falar consigo. Neste momento sabes logo que o que vem não vais gostar.
Ora, a Boa, que não era Nova era a informação de que a minha filha deveria sair da escola no fim do ano, se quiser pode repetir o 9º ano em vez de seguir pra o 10ºano. Gentis! Devia ser o momento em que devia ter agradecido, nem sei porque não o fiz. Pode repetir o 9ºano com outro grupo. Que ideia magnifica, solução mega pedagógica, não fossem professores diria que nunca tinham ouvido falar nesta coisa da pedagogia.
A conversa além de inesperada foi das mais estranhas que já tive, ainda a estou a digerir. Fui ainda informada de que há um homem mau que trabalha no ministério da educação alemão, que proíbe que a Vera siga para o 10º ano. Este Senhor mau no ministério lá longe deixou claro que, se a aluna, que frequenta a escola desde os três anos ousar pôr o pezinho no 10º ano a escola será invadida de uma tal fiscalização que retirará a autorização de passar aos alunos futuros diplomas de 12ºano. Tão mau, mais mau não há. Sem rei, nem roque, este senhor provavelmente nunca ouviu falar de CDPD, deve até achar, se é que esta história é verdade, que há pessoas de primeira e pessoas de segunda. Até fiquei com medo. Enquanto ainda nem sei bem o que fazer ou pensar, nas redes sociais começou um movimento, que não esperava. Colegas da Vera iniciaram um movimento, que em menos de duas horas se tornou viral. Mais de 500 alunos aderiram (por enquanto) ao #togetherforvera, porque não concordam com a decisão da direção da escola e do homem mau. Nem sabem da existência dele, nem eu sei quem é, mas que ele existe, existe.
Ainda não sei qual será o desfecho deste episódio, mas sei que a Vera conseguiu que os jovens tivessem a capacidade de perceber o que está certo, porque a conheceram, parece que esta coisa dos direitos humanos é, afinal, uma questão quase intuitiva. Triste direção e homem mau que não o entendem.
Que orgulho nestes miúdos. Não é a juventude que está perdida, são os velhos que se julgam sábios e detentores do poder. A foto foi feita pelos miúdos que amanhã irão pintar um V na cara e cada vez que um professor lhes perguntar dirão “Vera gehört zu uns“ (Vera belongs to us). Parece que ainda têm mais planos, que não sei quais são."

6 comentários:

  1. Quem joga um jogo aceita as regras desse jogo. A escola alemã não é uma escola de inclusão nem pretende sê-lo. SE a Vera não tivesse T21 e apresentasse resultados escolares insuficientes, ainda assim teria de sair da escola e não transitaria para o 10.º ano. Como tantos outros alunos saem por esse mesmo motivo. São as regras. Se a Vera fosse boa aluna, mesmo com T21, avançava. A doença não é sequer questão. A escola até lhe permite continuar, MAS no 9.º ano. Esta escola não tem fins sócio-caritativos. Para esta escola existir em Portugal tem de cumprir requisitos impostos pela Alemanha, para poder receber o dinheiro do Governo Alemão para existir cá. Se não se cumprirem os requisitos não é (só) a Vera que sofre, são todos os 1000 e tal alunos que frequentam a escola e que em última instância podem ter de deixar de frequentar se esta deixar de ter meios para existir nos moldes atuais. A doença da Vera não está nem nunca esteve em questão. A mãe é que pôs a doença ao barulho, quiçá me busca de uma exceção que não pode existir. Repito: tantos jovens têm de sair da escola alemã para escolas portuguesas, públicas ou privadas, por falta de rendimento escolar suficiente… Mas desses ninguém fala pq não têm T21. Não há homens maus, há pessoas que se fazem de incompreendidas e injustiçadas quando os ventos não lhes são favoráveis. O meu filho também vira o tabuleiro quando está a perder. Mas ele tem 5 anos.

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  2. Apesar de anónimo, um pequeno comentário. Não se trata de um jogo, trata-se de direitos e equidade.

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  3. Direito a quê?

    Se a mãe entender que a menina deve entrar na faculdade de medicina - ela entra? diretamente? só porque sim? ou cumpre o que é preciso para tentar entrar como os outros? no 10.º ano nessa escola não entram todos, só quem tem mérito, com ou sem cromossoma extra. É assim.

    Não percebo onde é que vê aqui violação de direito(s) ou falta de equidade. É querer forçar a nota. E colocar a escola numa situação delicada, porque NÃO PODE fazer de outra maneira, ainda que o quisesse.

    E pergunte à mãe as condições que assinou quando a filha entrou na escola!

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  4. Acho que a Vera tem muito mérito (tal como muitos outros dos seus colegas) só que a métrica para avaliar o mesmo poderá ser diferente do que o cidadão comum está habituado... É uma questão de mentalidades...

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  5. Caro Sr. Anónimo, por acaso não tinha visto a sua resposta e vou tarde.

    Sou a mãe da Vera e não viro o tabuleiro como o seu filho de 5 anos, sei muito bem do que se trata e garanto que não uso nenhuma "doença" para conseguir o que é um direito, compreendo que haja muita gente que ainda tenha ouvido falar da CDPD e por isso a ideia da equidade se confunda com a igualdade.

    Já agora aproveito para lhe dizer que não assinamos nada e que as regras do jogo mudaram, mas é fácil falar quando apenas opinamos, sem conhecimento de causa e sem dar a cara.

    Já agora aproveito para lhe dizer que a minha filha não tem nenhuma doença. Boa sorte, quanto ao virar o tabuleiro do seu filho, com 5 anos talvez já não o devesse fazer, mas isto sou eu a opinar sem conhecer a criança, obviamente ...
    Marcelina Souschek

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  6. Até me ía esquecendo, Sr. Anónimo, o homem mau existe, mas tornou-se menos mau quando foi repreendido pela comissão dos direitos humanos, que o corrigiu e avisou que as coisas não são assim como a maioria das pessoas pensam.

    Afinal, a Vera pode, sabe porquê? Porque não pode ser tratado de modo igual o que não é igual.
    Cá está igualdade vs equidade.
    As coisas não são sempre o que parecem.
    MS

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