AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

OS MIÚDOS ACREDITAM NO PAI NATAL


A imprensa, tal como muitas outras áreas tem produtos sazonais. Um exemplo são as peças dedicadas à crença no Pai Natal e eventuais efeitos. Que me desse conta a época deste ano foi há alguns dias inaugurada pelo DN com o qual, aliás, já colaborei em anos anteriores sobre esta questão.
Na peça e como é habitual são ouvidos alguns profissionais na área da infância que, genericamente, não entendem, e bem, haver qualquer problema nessa crença mágica das crianças. No entanto, alguns revelam alguma inquietação como os efeitos negativos da mentira alimentada pelos pais, risco que nesta matéria não me parece relevante. Sem demagogia, inquietam-me mais os miúdos que não acedem ao encanto do encanto e existem muitos com vidas desencantadas.
Nesses trabalhos é frequente ouvirmos as crianças afirmar convictamente a sua crença no Pai Natal bem como pais que, conforme as suas convicções, alimentam ou desincentivam a crença no Pai Natal.
No entanto, deixem-me afirmar mais uma vez e com toda a certeza, os miúdos acreditam no Pai Natal. Eu tenho a certeza, já fui Pai Natal e vi, senti, como eles acreditavam em mim.
Nunca percebi muito bem porquê, mas ao longo da minha vida desempenhei várias vezes a função, a escolha dever-se-ia, provavelmente, à proeminente mochila que carregava à frente, agora um pouco mais pequena, felizmente, e às barbas brancas que de há muito me acompanham.
Não pensem que é uma tarefa fácil, não é não senhor. Passar umas horas dentro de um fato quentíssimo com umas barbas ainda mais quentes que insistem em deixar a boca cheia de pêlos não é muito simpático. Mas os miúdos acreditam no Pai Natal e isso ajuda a aliviar o desconforto. Felizmente, naquela altura ainda não tinham inventado os Pai Natal que sobem às varandas, caso assim fosse desistiria mesmo, sou um rapaz demasiado pesado para o alpinismo, dado a vertigens, sendo ainda que as noites são demasiado frias para se poderem passar pendurado na varanda de cada um.
Numa das vezes em que fui Pai Natal de serviço, há já muitos anos, cena de que ainda possuo uma memória perfeita, lembro-me do ar aflito e preocupado de um gaiato que insistiu o tempo todo junto de mim para que não me esquecesse do que queria como presente, Moto Ratos, creio que se tratava de umas personagens de banda desenhada em voga na altura.
E o miúdo, sempre que me lembrava os Moto Ratos e fazia-o sempre que comigo se cruzava, tal era o desejo, explicava-me com os olhos muito abertos e com muitos gestos como se ia para casa dele para eu não me enganar no caminho. E não me enganei, Pai Natal que é Pai Natal cumpre sempre. Confirmei depois que ele recebeu os desejados Moto Ratos, claro, o Pai Natal não falha.
Deve ser bom acreditar no Pai Natal. Aliás, deve ser bom acreditar. Por isso, disse num dos trabalhos em que colaborei, deixem as crianças acreditarem no Pai Natal até que queiram ou que precisem. Não lhes roubem o encanto em nome de um qualquer conjunto de pós-modernices educativas. O meu neto Simão chegou ontem à conclusão que o deixou contente que o Pai Natal quando vinha lá do Norte onde é a terra dele passava primeiro em Paranhos da Beira e só depis vinha para Almada que é mais cá em baixo conforme estávamos a ver no globo terrestre. Ficou muito contente, o Simão estará em paranhos á espera dele, do Pai Natal. 
Vão ter o resto da sua vida para acreditar e desacreditar, para desacreditar e voltar a acreditar. Provavelmente, numa busca incessante pelo encanto perdido quando descobrimos que o Pai Natal não existe.

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