AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

terça-feira, 10 de julho de 2018

A HISTÓRIA DO BADOCHA


Ontem lembrei-me outra vez do Badocha. Queria recordar o nome dele mas não consigo, sempre foi o Badocha, companheiro da escola entre os seis e os doze, creio. Sempre foi o Badocha porque era gordo e naquela altura os gordos eram Badochas. Ele não gostava de ser o Badocha mas nós achávamos que ele só podia ser assim chamado. Não sabia jogar futebol, não sabia correr com o arco e a gancheta, não ia com a gente apanhar fruta e aos pássaros nas quintas que ainda existiam antes de terem inventado as urbanizações.
Mal conseguia agachar-se para jogar berlinde e jogar à rolha, um jogo de corrida, estava fora de questão, os Badochas têm dificuldades nestas coisas. Nunca alinhava para fazer partidas aos mais velhos nem gozar com os professores. A gente achava que um colega assim não tinha grande préstimo, servia para pouco, era um Badocha. Às vezes até pensávamos que ele se chateava mas a tentação era grande e ele nunca tinha direito ao nome, era sempre o Badocha, mesmo nas aulas com os professores.
Aí por volta dos doze anos o Badocha mudou de escola, provavelmente à procura de uma em que não fosse o Badocha.
Não mais soubemos dele, não soubemos se conseguiu recuperar o nome, o seu nome, não soubemos se encontrou companheiros de escola que fossem, isso mesmo, companheiros.
Ultimamente, tenho-me lembrado muito do Badocha.
Não vou a tempo mas gostava de te pedir desculpa, companheiro.

PS - Esta lembrança decorreu de um encontro em que vários trabalhos se centraram no bullying, fonte de sofrimento para tantos crianças e adolescentes.

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