AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

domingo, 4 de setembro de 2016

DA COMUNICAÇÃO EM SALA DE AULA

Confesso que quando vi este título no Público, “Quando professores e alunos aprendem a comunicar, as coisas mudam na sala de aula”, fiquei algures entre o curioso e o perplexo.
A leitura da notícia deixou-me ainda mais, nem sei como dizer, talvez “enduvidado”, isto é, cheio de dúvidas.
Uma empresa especialista na formação de executivos, designadamente na área da comunicação, desenvolveu um programa de formação que envolveu professores e alunos de duas escolas de Lisboa sobre comunicação na sala de aula. A coisa correu muito bem, os professores já comunicam, os alunos já comunicam, tudo agora corre bem melhor e parece que o ME está interessado na ideia. Aqui passei a um estado talvez de inquietação.
Eu sei que está muito calor, estamos a sair das férias e ainda sem grandes rotinas, é Domingo, mas algumas notas.
Uma primeira referência para dizer logo de início que existem professores, e alunos naturalmente, que, como qualquer outra pessoa, poderão ser menos eficientes na comunicação, seja lá isso o que for. Todos passámos por experiências que ilustram isto.
No entanto, parece importante sublinhar que o trabalho em sala de aula assenta na comunicação entre professores e alunos, que a generalidade dos professores têm competências de comunicação, que a generalidade dos alunos têm competências de comunicação e que os eventuais problemas de comunicação em sala de aula, não decorrem, na sua esmagadora maioria, da falta de competência de alunos e professores na área da comunicação. Talvez eu esteja enganado pois a directora da empresa em Portugal, uma ex-jornalista, afirma “Todos falam, mas poucos comunicam. É o que temos constatado nas empresas e agora também nas salas de aulas”. Como se sabem, são contextos próximos e com as mesmas variáveis envolvidas. 
Antes de continuar deixem contar uma história. Há algum tempo em conversas com miúdos do 2º e 3º ciclo discutia-se o que era essa coisa de ser um bom professor.
A maioria dos miúdos envolvia-se activamente e a continuidade das referências levou à identificação de uma resposta que se poderia sintetizar na ideia de que "bom professor é o que fala com a gente e explica bem".
Este entendimento lembrou-me, cito-o aqui frequentemente, o Mestre João dos Santos quando afirmava que alguém tinha sido seu professor "porque foi seu amigo".
De facto, o sucesso dos processos de ensinar e aprender assenta em dois eixos fundamentais, a qualidade do ensinar e a relação entre quem ensina e quem aprende. Do meu ponto de vista, a grande maioria dos professores estará equipada sobre o ensinar.
A grande questão é que a nossa escola, de uma forma geral, não facilita a relação, ou seja, a comunicação. Esta dificuldade decorre, fundamentalmente da extensão dos conteúdos curriculares das diferentes disciplinas e do número excessivo de disciplinas, designadamente no 3º ciclo. Os professores, muitos deles, sentem-se "escravos" do programa que tem de ser dado e do pouco tempo disponível para a construção da relação. Existem disciplinas com um tempo semanal durante o qual é obviamente muito difícil construir qualquer relação com os alunos.
Muitas vezes digo que os professores "falam" para o programa, para o explicar, e os alunos "falam" para o programa para o aprender. Não falam entre si sendo que, além disso, existe um grupo significativo de alunos que, por diversas razões como dificuldades ou desmotivação, não conseguem "falar" com o programa. Para estes, os professores vêem-se obrigados a falar par controlar os seus (maus) comportamentos.
Acresce a esta questão o número de alunos por turma que os estudos identificam como uma variável que influencia significativamente a comunicação, qualidade e conteúdos, entre
Por estas razões tantas vezes tenho escrito sobre mudanças que tornassem mais fácil podermos ouvir os miúdos dizer "a gente tem bons professores porque explicam bem e falam com a gente".
Esta ideia não tem nada de romântico nem de utópico, assenta em algo de muito simples, a educação constrói-se com a relação que se alimenta com a comunicação. Sempre.
Uma nota final para referir que acho lindamente que uma empresa com experiência de formação de executivos venha também formar o pessoal da escola. Porque não? São só mais uns a querer formar professores e … toda a ajuda é bem-vinda. Mas Senhores do ME, cautela com as intoxicações.

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