AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

terça-feira, 15 de março de 2016

FUGIR PARA A ESCOLA

Como acontece regularmente, é divulgado O Relatório Health Behaviour in School-aged Children, da responsabilidade da OMS, coordenado em Portugal pela excelente equipa da Professora Margarida Gaspar de Matos.
No estudo com 42 países e regiões e dados de 14/15, foram envolvidos em Portugal cerca de 6 000 adolescentes com idades de 11, 13 e 15 anos, alunos do 6º, 8º e 10º ano.
Pela sua extensão e riqueza o Relatório merece leitura atenta e uma reflexão não compatível com espaços desta natureza.
Algumas notas breves mais relacionadas com a sua percepção da relação estabelecida com a escola.
Os alunos portugueses expressam uma apreciação negativa da escola, das mais baixas entre os 42 países participantes, apenas 11% dos rapazes e 14% das raparigas aos 15 anos afirma gostar da bastante da escola, resultado mais baixo que em edições anteriores.
Os alunos portugueses são dos que menos competentes em termos escolares se percebem e dos que se sentem mais pressionados para os resultados escolares.
Gostam dos colegas e dos intervalos e não gostam das aulas porque as consideram aborrecidas e com matéria excessiva.
Esta apreciação negativa, das mais negativas e em crescimento, não surpreende quem conhece o ambiente e clima das escolas e, evidentemente, deveria ser um motivo de forte preocupação para a comunidade a começar pela tutela.
É claro que a escola não pode organizar-se e funcionar assentando exclusivamente nas percepções que os alunos têm do que deveria ser e acontecer mas é claro que não pode, não deve, esquecer o que eles pensam e como sentem relativamente à sua presença na escola.
É necessário analisar de forma aprofundada, sem preconceitos e fora das lutas da partidocracia pelo controlo da escola, a sua organização, tempos e funcionamento.
É necessário reflectir sobre os conteúdos curriculares que carecem de adequações dada a sua extensão e carácter prescritivo e normativo.
É necessário e urgente a promoção da estabilidade do corpo docente e da sua valorização como factor estruturante da sua relação com os alunos.
É importante a definição de uma oferta educativa diferenciada, em tempo ajustado no trajecto escolar dos alunos e de forma a que não seja percebida pelas comunidades educativas como uma via de primeira destinada aos bons alunos ou de segunda destinada aos falhados e menos competentes.
É necessário promover uma verdadeira desburocratização e autonomia das escolas e dos professores,facilitadoras da definição de climas de escola amigáveis para professores, funcionários pais e alunos. Esta autonomia deveria contemplar obrigatoriamente aspectos como a constituição das turmas e o seu efectivo
Assegurar a existência de apoios eficazes e competentes às dificuldades de professores e alunos, e de técnicos com intervenção em processos de aconselhamento, orientação e regulação de comportamentos e aprendizagem, etc., etc.
Entre outras, estas são dimensões essenciais para uma melhor escola, mais amigável para todos os que nela habitam e que, do meu ponto de vista, a política educativa dos últimos anos não tem acautelado, não promovendo uma escola assente em princípios de educação inclusiva e com qualidade e com os recursos necessários.
Ao contrário, tem-se construído uma escola que faz o pleno, muitos alunos, professores e funcionários embora gostem genericamente da escola, desgostam da sua escola, da escola que têm.
Ao escrever estas notas estava a recordar que há algum tempo me convidaram a participar numa iniciativa que tinha com título genérico "Fugir para a escola" que achei curioso e hoje recordei.
Seria muito interessante, mas não passa, provavelmente, de um romantismo não compatível com a dureza crispada, agressiva e feia, dos tempos e da vida actual, imaginar que os miúdos quisessem fugir para a escola, não porque fugissem de algo mau, o contexto familiar, por exemplo, e que em bom rigor e lamentavelmente é por vezes tão mau que obriga a fugir, mas porque os miúdos quisessem correr para a escola por nela se sentirem bem e não apenas nos intervalos e com os amigos.
Por outro lado, nos tempos que correm também muitos professores, bons professores, mostram por cansaço ou desesperança que já não fogem para a escola, um lugar de realização, de trabalho duro mas com uma das maiores compensações que se pode ter, ajudar gente pequena a ser gente grande.
O clima institucional, a burocracia, a deriva política foram, vão, levando a que a escola não apeteça. Felizmente, muitos outros professores ainda conseguem fugir para escola, os alunos desses professores são gente com sorte.
Será que ficou mesmo impossível acreditar que alunos e os professores, de uma forma geral, queiram fugir para escola?

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