AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

sábado, 15 de fevereiro de 2014

VELHICE CLANDESTINA

Durante 2013, o Instituto da Segurança Social determinou o encerramento de 89 lares de idosos e cinco creches após mais de mil inspecções realizadas. Deixando de lado as creches, pois há dias e justamente sobre a existência destes depósitos clandestinos de miúdos escrevi umas notas neste espaço consideremos os lares para idosos.
Há já alguns meses a Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos apontava para a existência de 24 mil idosos "a viver mal", em lares ilegais e casas de acolhimento clandestinas acentuando que a tendência é de aumento.
Em 2012 foram notificadas para encerramento 80 instituições. Destas, 10 foram encerradas compulsivamente e a Associação refere como problemas a fiscalização insuficiente e a  impunidade dos responsáveis levando que alguns, depois de verem encerradas algumas instalações, "deslocalizam-nas" e abram outros espaços por vezes bem próximos ou até nas antigas instalações.
Ainda segundo o Presidente da Associação a situação tende a agravar-se.
Segundo dados de 2011 existiriam 1972 lares licenciados, cerca de 1000 em situação ilegal alimentando um mercado que valerá perto dos 40 milhões de euros. É ainda de considerar que teremos perto de um milhão de portugueses acima dos 75 anos e dado o envelhecimento progressivo, o futuro do negócio parece assegurado. Aliás, sabe-se que muitas das instituições para idosos têm longas lista de espera.
Este universo, o acolhimento, institucional ou familiar dos velhos é uma questão complexa, tão complexo e difícil como é, muitas vezes, viver na condição de velho.
Um relatório de há um ano, creio, da OMS identificava Portugal como um dos cinco países europeus em que os velhos sofrem mais maus-tratos. Cerca de 39,4% dos velhos sofrem alguma forma de maus-tratos, que envolvem, por exemplo extorsão, abuso psicológico, físico ou negligência. De facto, nos últimos tempos têm sido recorrentes as notícias sobre os maus tratos aos velhos, aos seniores, como agora se diz. Regularmente, surgem na imprensa referências à forma inaceitável como os velhos estão a ser tratados.
Começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma muitos velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência. Continua com um sistema de saúde que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio, sem médico de família.
Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades e estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução produzindo cada vez mais situações de solidão e isolamento entre os velhos, com consequências que têm feito manchetes, muitos velhos morrem de sozinhismo, de solidão. Estão em extinção as relações de vizinhança e a vivência comunitária, fontes privilegiadas de protecção dos mais velhos.
É certo que existe, felizmente, um pequeno número de idosos que além do apoio familiar, ainda possuem meios que lhes permitem aceder a bens e equipamentos que contribuem para uma desejável e merecida qualidade de vida no fim da sua estrada.
Finalmente, as instituições, muitas delas, subordinam-se ao lucro e escudam-se numa insuficiente fiscalização não oferecendo a qualidade exigida. Por outro lado, os equipamentos de qualidade são inacessíveis aos rendimentos de muitos dos nossos velhos.
Lamentavelmente, boa parte dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.
Não é um fim bonito para nenhuma narrativa.

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