AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

domingo, 29 de maio de 2011

A NORMALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA (Take 2)

A realidade teima sempre em ir mais longe que a ficção. Eu sei que é um lugar comum mas não me ocorre nada de mais criativo. Ainda a poeira não assentou sobre o episódio do espancamento de uma miúda por outras duas, com a assistência incentivadora de terceiros que filmam e divulgam o espectáculo, quando surge mais um novo e gravíssimo incidente. Ao que parece, por causa de um telemóvel, uma adolescente esfaqueou gravemente uma outra.
Sinto, por isso, necessidade, agora mais justificada, de retomar algo que aqui deixei há poucos dias e que me parece o mais preocupante destes tipo de casos, a normalização da violência, ou seja, a banalidade e gratuitidade com que se recorrem a comportamentos altamente violentos para dirimir as relações entre adolescentes e não só, com é óbvio.
Os comportamentos agressivos em contexto escolar, bullying por exemplo, são tão antigos quanto a instituição escolar, sendo certo que os estudos destes fenómenos são mais recentes. A violência entre jovens fora do contexto escolar também está longe de ser um fenómeno novo. Actualmente, é também mais objecto de referências fora dos contextos educativos pois o volume e a gravidade de algumas situações, bem como a divulgação dos estudos e alguma mediatização verificada, colocaram este problema na agenda como é fácil verificar consultando a imprensa ou a grande catedral deste tipo de informação, o YouTube.
Em vários estudos muito recentes constata-se que os adolescentes tendem encarar a violência entre si como normal. Creio que é inquietante mas não pode ser surpreendente. A escola, desde sempre, espelha as realidades sociais e o quadro de valores prevalecente nos contextos que serve. A sociedade da informação e os sistemas de valores actuais banalizaram a violência, não são os adolescentes que a banalizaram. A violência é objecto de jogos de vídeo e computadores, é passatempo de claques e grupos, entra a qualquer hora pelas nossas casas dentro. Estarão eventualmente recordados de que num estudo recente entre jovens namorados alunos do ensino superior se constatou, ao que parece com surpresa, um nível altíssimo de violência na relação.
Por outro lado, a escola, por ser o espaço onde os adolescentes passam a maior parte do seu tempo é, naturalmente, o espaço onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que os alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola.
Apesar disso, creio que na escola, para além de muitíssimos outros aspectos, a violência entre jovens é um fenómeno complexo, existem duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos alunos vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações e encontrar dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa. è importante também que os actores da escola saibam detectar nos alunos sinais que indiciem vitimização.
Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. Nesta perspectiva e do meu ponto de vista, a intervenção de hoje de Marinho Pinto, Bastonário dos Advogados, manifestando-se contra a prisão preventiva dos autores da agressão e do responsável pela sua divulgação, é parte do problema. O Bastonário baseia-se numa interpretação sua da lei para fazer um discurso que objectivamente favorece a ideia de impunidade o que tem efeitos sociais devastadores. As escolas, tal como a comunidade em geral podem e devem assumir atitudes, discursos e montar dispositivos que, visivelmente, dêem aos indivíduos um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.
A agressão violenta entre os jovens não pode ser uma normalidade, algo de banal que já não ligamos.
A violência e o bullying entre adolescentes em contextos escolares ou na comunidade não serão, provavelmente, eliminados, mas poderão, acredito, ser minimizados, mas não só pela actuação da escola.

5 comentários:

  1. Estou de acordo quanto ao serviço irresponsável prestado pelo bastonário da ordem dos advogados...
    Ainda acho que deveriam, para este tipo de casos, estar previstos vários e diversos tipos de castigos (a incluir o serviço cívico, por exemplo), no sentido de combater o tal sentimento de impunidade.

    O crescendo da violência como forma de resolução de problemas aborrece-me principalmente porque me parece que a vida e a integridade física do outro estão a perder valor (porque se ataca sem olhar a meios, nem a consequências)...

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  2. Em Mem Martins, aposto o que quiserem que a agressora não era de origem portuguesa nativa... mas sim africana. Enfim, podem agradecer aos irresponsáveis desgovernantes e traidores do pós 25 de abril que escancararam as portas de Portugal aos invasores de africa e agora do brasil. Continuem de olhos bem fechados que qualquer dia Portugal parece um pequeno brasil, um país cheio de africanos e mestiços, ou seja o genocidio de 1 povo e de 1000 anos de identidade. Votarei PNR e bem consciente.

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  3. Srº Anónimo do nacionalismo bafiento, estimo que Vcª Exª se foda.

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  4. Dado o recado ao Imbecil Nacionalista, comentando a entrada no blog, ainda hoje comentei algo sobre o assunto que se adequa:

    O Marinho Pinto tem uma sede de aparecer que roça o patológico.

    A reacção legal foi extrapolada por acção dos média? Verdade. (Falso, ninguém agradece ao chupa-mos mas enfim) Também foi a prévia culpabilização dos Mccann e ninguém se questionou até que ponto a loira magra do casal de médicos mexia ali com o nervo da dor de coto tão tradicionalmente Lusa.

    Mas foi pelos mesmos média que este caso se tornou publico. Não fosse um certo forum da internet a roubar o filme do perfil de um destes merdas, a espalhar pelo facebook, por blogs, e pelo youtube e era mais um caso de tantos. Ironicamente, um forum cheio desses "jovens cheios de telemóveis, jogos, televisão e poucas chapadas" que por agora tanto se ladra o excesso..a "juventude" não está "perdida". Maus, bons e parvos sempre houve, há talvez um fenómeno social a estudar que incentiva ao aumento destes casos. Há principalmente que ter confiança na educação que damos, não só aos nossos filhos, mas da imagem que transmitimos como adultos às gerações que se seguem. E disso, não há telemóveis ou jogos que retirem a responsabilidade dos educadores (nós, entenda-se).

    E francamente não vejo melhor maneira de transmitir a mensagem da responsabilidade e responsabilização do que demonstrar algo tão simples como as consequências legais dos actos que se escolhem fazer. Mais do que "castigo" ou "tribunal medieval" o imbecil obeso que veja isto como é: uma acção educativa de prevenção.

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  5. Ao anónimo da 1:27,
    Se conseguisse olhar o mundo fora do quadrado pequeno em que se fechou, certamente por medo do que é diferente de si, perceberia que os níveis de violência das sociedades actuais não têm fundamentalmente a ver com a questão que levanta. Por outro lado, estão também associados aos discursos como o seu mas isso, provavelmente, também não perceberá.

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