AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

DOIS TELEMÓVEIS

Um dia destes, assustado com os diversos e coloridos alertas da Protecção Civil e do Instituto de Meteorologia troquei a mota, o meu meio de transporte habitual para a travessia do Tejo, pelo comboio. Provavelmente devido à crise, o comboio estava mesmo aconchegado de gente, por assim dizer. À minha frente sentou-se uma mocinha de uns 18 ou 20 anos que logo sacou de um telemóvel e começou uma conversa que se prolongou durante muito tempo. Nada de estranho, àquela hora uns dormem outros fecham-se nos fones e nos telemóveis sempre com um ar meio adormecido. Mas a rapariga destoava, para minha perplexidade, puxou de um outro telemóvel e enquanto continuava a falar por um, escrevia freneticamente mensagens no outro com uma habilidade que me fez suspeitar que seria já ser um produto da reprogramação genética que nos fará vir equipados com polegares funcionalmente adaptados aos teclados dos telemóveis.
Fiquei a pensar e, a partir da ideia dos dois telemóveis, comecei a imaginar que nesta reprogramação genética poderíamos também ter duas cabeças, uma que se especializaria no racional e no trabalho, ou seja, na gestão do dia a dia e outra dirigida para o sonho e para a imaginação. Funcionariam independentes e sem atropelos.
Imaginei também que poderíamos vir equipados com dois corações, um que asseguraria o lado funcional e outro disponível para os afectos e para as emoções, sem a concorrência de coisas simples e rotineiras como manter o corpo a funcionar que seria o trabalho do outro coração.
Quando pensei em corpo, imaginei uma coisa ainda mais estranha. Poderíamos vir com dois corpos, inteiros, assim mesmo, uma pessoa, dois corpos. Utilizaríamos um para as tarefas do “tem que ser” e o outro para as tarefas que decorrem do “querer”. Claro que teríamos a capacidade de alternar a função dos corpos.
Quando começava imaginar uma outra mudança fui acordado por uma voz metálica feminina que me informava qual a próxima estação, o meu destino.
A menina da frente continuava ao telemóvel ao mesmo tempo que furiosamente enviava mensagens noutro telemóvel.

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