AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A DESESPERANÇA

Numa entrevista ao Público de hoje, o sociólogo Elísio Estanque teoriza sobre a probabilidade de os jovens poderem desencadear acções de protesto mais ou menos violentas face às dificuldades que enfrentam. Refere-se ao facto de não ser não habitual em Portugal assistirmos a protestos violentos, o que se deverá, segundo o entrevistado, a uma matriz cultural específica, às vivências sociais mais recentes ainda em consequência do Estado Novo, à origem de classe da maioria dos estudantes universitários e ao seu alheamento da participação cívica.
Não vou comentar este conjunto de razões embora me pareça estar presente algum enviesamento de análise sobretudo no peso atribuído à origem de classe. Parece-me interessante introduzir um outro facto que pode ajudar a entender a relativa acalmia, neste caso dos jovens, mas também de outros grupos sociais, com que expressam o seu descontentamento. Refiro-me a um factor que poderemos considerar de natureza psicológica e que costumo designar por desesperança.
Do meu ponto de vista, o modelo e cultura política instalados há décadas na nossa comunidade, a partidocracia, fomentam, explicita ou implicitamente, o afastamento de grande parte dos cidadãos da participação cívica activa pois, basicamente, ela corre por dentro ou sob tutela dos aparelhos partidários. Tal cenário alimenta o significativo desinteresse dos jovens, mas não só, pela coisa pública e pelo envolvimento activo, incluindo a forma protesto.
Por outro lado, esse desinteresse pela participação cívica, alia-se a um outro entendimento de consequências extremamente importantes, a falta de esperança e confiança em que as coisas possam tornar-se diferentes, ou seja, isto não muda, não adianta.
Neste cenário, os grupos sociais, incluindo os jovens, só poderão sentir-se mobilizados por questões de natureza muito concreta que desencadeiem comportamentos reactivos fortes, veja-se o exemplo da luta dos professores em 2008 e 2009. Deste ponto de vista e dada a heterogeneidade de circunstâncias que estão ligadas às dificuldades na vida dos jovens, mesmo uma questão como o desemprego tem dimensões de natureza bem diferenciada entre a camada mais jovem, parece difícil que de forma clara possa emergir uma grande causa aglutinadora do descontentamento e suficientemente mobilizadora que leve ao protesto violento.
Não me parece que tal possa acontecer de forma significativa, a desesperança e os nossos brandos costumes deixar-nos-ão enleados num protesto manso e na convicção de que "isto não muda".

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