AS MINHAS CONVERSAS POR AÍ

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A HISTÓRIA DE UM VIRTUOSO

Ontem no meu Alentejo a chuva não possibilitou o trabalho na rua mas ajudou às lérias no telheiro. Uma vez que a terra ainda não permite semear as ervilhas e as favas de tão carregada de água que está, dizia eu para o Mestre Zé Marrafa que podíamos aproveitar as urtigas, não temos falta, rebentam por todo lado. O Mestre Marrafa comenta que os ortigões, designação que passo a utilizar, são bons e contou-me a história de um homem Virtuoso, o que tem virtudes acima dos outros humanos, que vive lá para os lados de Évora. Não vos peço que acreditem, oiçam apenas, com os olhos é claro, as histórias do Virtuoso, contadas pelo Velho Marrafa.
Pois o Virtuoso curou com chá de ortigões uma irritação que o Mestre Marrafa apanhou no sangue que lhe provocava comichão terrível e uns altos na pele. Não foi fácil durante algum tempo e em pleno verão alentejano beber só chá de ortigões, as urtigas machos, mas a irritação no sangue passou.
É que o Virtuoso é homem de muita sabedoria e já conhecido do Velho Marrafa. Começou a receitar logo aos sete anos e sempre com sucesso. O Virtuoso só tem uma limitação, não se aproxima de pessoas que tenham consigo, à vista ou escondido, ele percebe, algo de cor vermelha, situação que o Velho Marrafa comprovou quando o Virtuoso não se lhe chegou ao pé para o consultar por a mãe ter na saia de baixo uma coisa encarnada. Logo que a tirou o Virtuoso deu a consulta e fez a receita, bem sucedida como sempre.
Numa outra ocasião, a caminho de uma consulta com o Virtuoso ia uma mãe com uma gaiata numa burrinha quando um lagarto atravessou a estrada. A gaiata disse para a mãe que podiam apanhar o lagarto para oferecer ao Virtuoso. Esquecido o episódio e depois da consulta quando a mãe perguntou ao Virtuoso quanto era, o homem de virtudes respondeu que não era nada e disse para a gaiata que podia ter apanhado o lagarto para lhe oferecer. A mãe, contava o Velho Marrafa, se ali houvesse um buraco tinha desaparecido.
Ainda ouvi mais dois ou três exemplos das virtudes do homem Virtuoso, sempre com o Velho Marrafa com os seus olhos pequeninos a escrutinar minha reacção.
Devo dizer-vos que gostei de ouvir o Velho Marrafa a contar histórias do homem Virtuoso lá dos lados de Évora. E também gosto da ideia de acreditar nas histórias.
Não sei se consigo e também não me preocupa. Entretanto, cá em casa, fizemos chá de ortigões que, não sei se sabem, faz bem à circulação.

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