sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

MAIS UMA PLATAFORMA

 Em pleno processo de revisão do estatuto da carreira docente o MECI anunciou que os docentes deverão registar os sumários das suas aulas numa plataformas própria, há sempre mais uma plataforma à nossa espera, que o MECI gerirá também no sentido de averiguar as aulas efectivamente leccionadas e a sua relação com as remunerações dos docentes.

Parece claro e sem surpresa que no Ministério da Educação, e não é só de agora, não se confia nos professores, não se confia nas direcções escolares e não se confia nas estruturas intermédias do Ministério. É preciso ter a certeza de que os professores deram mesmo as aulas e, portanto, merecem o seu elevado salário.

Ainda ontem aqui falava da burocracia asfixiante que escolas e docentes sentem, mas há sempre mais uma tarefa a sair do “complicómetro” do Ministério, agora trata-se de mais uma plataforma centralizada para identificar e controlar os absentistas que se baldam às aulas.

Mais a sério. As políticas públicas fazem em torno das grandes questões, das prioridades e objectivos, dos recursos necessários, dos processos de avaliação e regulação, da planificação, etc.

A falta de confiança nos docentes é um sinal claro de falta de competência nos modelos de gestão e funcionamento do sistema educativo. É este cenário que deve ser alterado.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

E SE SIMPLIFICAR FOSSE UMA ORIENTAÇÃO (outra vez)

 O Público divulga dados de um inquérito realizado pela Federação Nacional de Educação sobre condições de trabalho dos professores.

Responderam ao inquérito 817 professores e 93% refere um excesso de burocracia, 62,9% passa cinco ou mais horas semanais em tarefas administrativas. Aliás, 26% refere gastar mais de sete horas por semana em tarefas que nada têm que ver com dar aulas.

Muitas vezes aqui tenho abordado o peso excessivo e injustificado da burocracia associada à função docente. Trata-se de uma questão velha, com efeitos negativos de diferente natureza e de que não se vislumbra alterações significativas. Trocar papéis por plataformas não produz efeitos, “moderniza” os problemas e potencia o cansaço e insatisfação de que também se alimenta a falta de professores.

Continuo a insistir na necessidade de uma medida imprescindível e inadiável, a simplificação. Importa sublinhar que estou a falar de simplificação e não facilitação, seja em que área for.

É imperiosa a necessidade de diminuir a burocracia asfixiante que obriga as escolas, professores, técnicos e directores, a uma espécie de "agitação improdutiva" consumindo esforço e recursos que, basicamente, apenas alimenta o cansaço e a ineficácia promovendo mais problemas que contributos para soluções.

A experiência mostrará certamente o impacto que medidas neste sentido terão na realidade escolar, qualquer passo no sentido de devolver tempo e tranquilidade aos professores e de economizar processos será positivo.

O quotidiano das escolas, dos professores está mergulhado numa complexa teia de procedimentos, situações, medidas, iniciativas, designações, acções, preenchimentos, actividades, relatórios, grelhas, indicadores, etc., na qual se enredam os processos educativos, a essência do trabalho que envolve alunos, professore e técnicos.

A esta dimensão do trabalho das escolas e agrupamentos acresce a gama sem fim de Planos, Projectos, Programas, Iniciativas, as combinações são múltiplas, destinados a tudo e mais alguma coisa, certamente relevantes e, sobretudo, inovadores.

Assim, em linha com o que por aqui já tenho sugerido, desejado, que alguma vez e de forma bem vincada, a tutela estabeleça a simplificação como orientação central nas diferentes dimensões das políticas públicas de educação.

Seria desejável e necessário que o trabalho a desenvolver, os conteúdos envolvidos, os dispositivos em utilização, a organização de tempos e rotinas, etc., tivessem como preocupação a simplificação, professores, técnicos, alunos e famílias ganhariam. Esta simplificação deve incluir a avaliação e registos. Seria positivo que, tanto quanto possível, se aliviasse a pressão “grelhadora” e a carga burocrática, manualizada ou informatizada, a que habitualmente escolas e professores estão sujeitos e que agora parece ser objecto de “emagrecimento”.

Como é evidente, sublinho, este apelo à simplificação não tem a ver com menos rigor, qualidade, intencionalidade educativa ou não proporcionar tempo de efectiva aprendizagem para todos. Antes pelo contrário, se conseguirmos simplificar processos e recursos, alunos, professores e famílias beneficiarão mais do esforço enorme que todos têm de realizar e estão a realizar.

Sempre que falo desta questão recordo-me do Mestre João dos Santos, a quem tarda uma homenagem com significado nacional, quando dizia, cito de memória pelo privilégio de ainda o ter conhecido e ouvido, que em educação o difícil é trabalhar de forma simples, é mais fácil complicar, mas, obviamente, menos eficaz, menos produtivo e muito mais desgastante.

Talvez valesse a pena tentarmos esta via de mais simplificação. As circunstâncias já são suficientemente complicadas.

Como costumamos dizer por aqui, deixem lá ver.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

ABANDONAMENTO

É reconhecido que um número considerável de idosos recorre aos hospitais por quadros de solidão e abandono e lá permanecem por ausência e/ou desinteresse de familiares.

Muitos miúdos e adolescentes estão abandonados em frente a um ecrã ou andam à deriva pelo mundo fechados, abandonados, nuns auriculares.

O tempo do trabalho rouba o tempo da família que fica abandonada e dizem-nos que é necessário mais tempo para o trabalho. Quando falta o trabalho, falta o sustento, falta a dignidade e as pessoas escondem-se, abandonadas.

Em Portugal o consumo de antidepressivos aumentou exponencialmente nos últimos anos, estando a sua procura frequentemente associada a situações de “tristeza, solidão e abandono”.

Segundo a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária as taxas de abandono de animais nunca foram tão elevadas como actualmente.

Que raio de mundo é que andamos a construir?

Condomínios fechados de uma só pessoa?

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

DOS APOIOS ESPECIALIZADOS

 Ontem realizou-se em frente ao MECI uma manifestação de pais, professores e técnicos das designadas instituições de ensino especial que providenciam a educação escolar e apoios especializados a alunos com necessidades especiais que boa parte das vezes passaram por grandes dificuldades de apoio nas escolas regulares e com o acesso ao subsídio de educação especial cujo valor será insuficiente para a manutenção dos apoios e funcionamento das instituições que enfrentam sérias dificuldades. O Ministério anunciou alterações para breve. A ver vamos. 

A resposta de natureza mais especializada é crítica para o desenvolvimento e trajecto educativo para muitas crianças e jovens com necessidades especiais, também porque o cenário verificado nas escolas regulares em matéria de apoios educativos tem graves carências como aqui tenho tantas vezes abordado. Esta matéria foi o meu universo profissional durante quase 50 anos.

Apear das boas experiências que, felizmente, existem, a falta de recursos, equipamentos e humanos (professores, técnicos e auxiliares), o incumprimento dos ratios na constituição de turmas, um excesso de utilização do “outsourcing” que em educação é pouco eficiente são algumas das questões sentidas por todos que lidam com a educação escolar.

Não é nada de novo, os mais vulneráveis são sempre os que sofrem mais.

Mas não é uma fatalidade, fazemos os dias assim, como cantam os Trovante.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

ESTÁ FRIO

 Está frio, foram divulgados alertas para vários distritos do país.

É incontornável. Quando se anunciam alertas devido à temperatura sempre me lembro do nosso querido Mestre Zé Marrafa.

Quando comentava com ele um dia mais frio dizendo que havia um alerta amarelo ou vermelho, o Mestre Zé sempre achava que deveriam avisar era se estivesse calor no Inverno, agora frio é normal.

E muitas vezes contava que tinha passado muito frio quando era gaiato. É mau um homem ter frio, acrescentava.

Eu sabia, muitas vezes falava sobre a infância e do que era guardar porcos aos nove anos e o que se passava no Inverno.

A lembrança das conversas com o Mestre Zé a propósito do frio que passou em miúdo, sempre me recorda e já aqui referi a narrativa de Juan José Millás em "O Mundo" quando enuncia, “Quem teve frio em pequeno, terá frio para o resto da vida, porque o frio da infância nunca desaparece”.

Na verdade, no Inverno ou até no Verão existem muitos miúdos que passam frio, às vezes muito frio, e nem sempre conseguimos dar por isso. Acontece até que alguns deles sentem frio em ambientes muito aquecidos ou mesmo no Verão, como disse. Não se trata do frio que vem de fora, daquele de que falam os alertas coloridos que nos fazem no Inverno, que seria “fácil” minimizar se assim se quisesse. É, antes, o frio que está à beira, um bloco de gelo disfarçado de família, de escola ou de instituição de acolhimento, é o frio que vem de dentro e deixa a alma congelada. Do frio que vem de fora, apesar de incomodar, acho que, quase sempre, nos conseguimos proteger e proteger os miúdos, mas dos frios que estão à beira e dos que vêm de dentro nem sempre o conseguimos fazer porque também nem sempre os entendemos e estamos atentos ao frio que tolhe muitas crianças e adolescentes.

Apesar de sentir confiança na resiliência dos miúdos, expressa em muitíssimas situações de gente que sofreu e resistiu a experiências dramáticas, uns mais que outros naturalmente, parece-me fundamental que estejamos atentos aos frios da infância.

Muitas vezes, como diz Millás, quem teve frio em pequeno terá mesmo frio no resto da vida.

Quando olhamos para muitos adultos à nossa volta pode reconhecer-se o frio que terão passado na infância.

domingo, 4 de janeiro de 2026

O PROVEDOR DO LEITOR DO PÚBLICO E A DEFESA DO "ACORDÊS"

 Li com alguma perplexidade a primeira peça do novo Provedor do Leitor do Público, João Garcia, um jornalista cuja carreira acompanhei, designadamente, no Expresso e na Visão, e que creio ser uma excelente escolha, mas com um infeliz começo.

O Provedor desenvolve uma dura crítica ao Público por não recorrer ao Acordês, a mixórdia em que se tornou a língua portuguesa após o Acordo Ortográfico de 1990.

Na sua argumentação, dentro do que é habitual pelos defensores, deveria dispensar o recurso aos esfarrapados exemplos de minudências de confusão que todas as línguas têm.

Algumas notas.

O Provedor do Leitor justifica a peça por não ter ainda questões levantadas pelos leitores e então … defende o acordês.

Li com atenção as funções do Provedor do Leitor e, talvez por algum viés de interpretação, nem sequer me parece que esta questão se enquadre na sua função central, a “missão de garantir a defesa dos direitos dos leitores” e as suas competências.

O facto de estar em utilização não implica que não possa ser contestado e recusado como faz e bem o Público.

Será porventura uma tarefa sem sucesso, mas enquanto for possível reverter a situação criada pelo AO90, ou, pelo menos, atenuar danos, vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. É uma questão de cidadania, de defesa da Cultura e da Língua Portuguesa. Aliás, os que por aqui passam notarão a manutenção do Português e a recusa do “acordês”.

É importante recordar que Portugal, S. Tomé e Príncipe, Brasil, Cabo Verde e Timor-Leste procederam à ratificação o que não aconteceu com Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Como tantas vezes tenho escrito, desculpem a insistência e não inovar, entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.

Não sou, evidentemente, um especialista, mas parece-me que o cerne da questão reside, de facto, no entendimento, cito o presidente da Academia das Ciências de Lisboa, de que “Qualquer tentativa de uniformização ortográfica nos diversos países que usam a língua portuguesa como oficial é utópica” e que “o normal é o respeito pelas ortografias nacionais".

É esta perspectiva que informa o que se passa, por exemplo, com o inglês ou o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas ou na linguagem oral nos diferentes países em que são língua oficial, sem que daí advenha qualquer perturbação ou drama, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas ou com língua oficial castelhano/espanhol.

Acresce que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" no AO, o que, aliás, me parece curioso, para ser simpático. Dito de outra maneira, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições" que abastardam a ortografia da Língua Portuguesa.

Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence. Voltando ao exemplo do inglês e do castelhano/espanhol que têm diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, não parece sejam conhecidas particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.

O que na verdade conhecemos com exemplos extraordinários é a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia abastardada, numa confusão impossível de concertar dadas as diferenças entre o Português falado e escrito pelos diferentes países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Na verdade, o desejável seria reverter alguns dos maus-tratos dados à Língua Portuguesa com o AO90.

Estarei sempre em (DES)Acordo com o Acordo. Enquanto o corrector me permitir e eu conseguir tentarei evitar o “acordês”, birra de velho, evidentemente.

A intervenção do Provedor do Leitor do Público começa mal. Aliás, é o que transparece dos muitos comentários que o texto suscitou. Não era necessário.

sábado, 3 de janeiro de 2026

É OBRIGATÓRIO CONTRARIAR O DESTINO

 E pronto. Depois da entrada do Ano Novo retomemos os problemas do ano velho que deveriam constituir-se como prioridades … do Ano Novo.

Lê-se no Público que, com base no último Inquérito às Condições de Vida e Rendimentos, do Instituto Nacional de Estatística divulgado em Dezembro e que aqui referi, o investigador Carlos Farinha Rodrigues actualizou o estudo Portugal Desigual, iniciado em 2016 pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Em termos globais, o risco de pobreza desceu de 16,6% para 15,4% entre 2023 e 2024. No entanto, no mesmo período e para crianças e jovens a descida foi de apenas de 0,2 %, de 17,8% para 17,6%.

Considerando a escolaridade dos pais como critério e sem surpresa o quadro é mais negativo, “a taxa de pobreza é quase quatro vezes superior quando os pais têm apenas o ensino básico”, ou seja, no caso de filhos de pais com escassa escolaridade a pobreza atinge os 34,3% enquanto nos filhos de pais com o ensino superior, o valor baixa drasticamente para os 8,9%.

A situação de pobreza é mais elevada em adolescentes dos 12 aos 17 anos, o risco de pobreza atinge 19,2% das crianças e jovens neste grupo etário que representa 40% das crianças em situação de pobreza.

Repetindo-me sobre estas questões, os dados são inquietantes, está bem estudada a relação entre a situação económica, laboral e nível de literacia familiar no trajecto pessoal sendo que, sem surpresa, são estes alunos que, globalmente, mais dificuldades sentem no desempenho escolar bem-sucedido.

Também sabemos que a pobreza tem claramente uma dimensão estrutural e intergeracional, as crianças de famílias pobres demorarão até cinco gerações a aceder a rendimentos médios, um indicador acima da média europeia.

A escola é certamente uma ferramenta poderosa de promoção de mobilidade social, mas, por si só, dificilmente funciona como elevador social.

O impacto das circunstâncias de vida no bem-estar das crianças e em aspectos mais particulares como o rendimento escolar ou o comportamento é por demais conhecido e essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas.

É este o desafio que enfrentam as políticas públicas de diferentes sectores.

Em nome do futuro, não podemos falhar, repito, não podemos falhar.

E o futuro começa agora.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

NA TERRA ONDE ACONTECEM COISAS

 Lá naquela terra onde acontecem coisas irão realizar-se eleições para a Presidência da República. Trata-se de um processo normal e próprio das democracias.

Como é natural, o cidadão irá escolher um candidato de entre os que constam no boletim de voto. E é aqui que começa a inovação e a estranheza. Apresentaram candidaturas 14 cidadãos, mas o Tribunal Constitucional entendeu que três das candidaturas não reuniam os requistos necessários pelo que estão excluídas.

Agora a estranheza. No boletim de voto que se utilizará no dia das eleições constam os nomes de todos os que se candidataram. Como também é recorrente, nem o Tribunal Constitucional, nem o Ministério da Administração  Interna, nem a Comissão Nacional de Eleições assumem responsabilidades, nem o processo será corrigido. Felizmente só apareceram 14 candidaturas, caso contrário a coisa complicava-se ainda mais.

Sim, eu sei que isto não passará de uma irrelevância, esperemos que sem implicações, mas não deixa de ilustrar o que não pode acontecer num tempo em que os recursos tecnológicos são significativos. 

A parte que não se estranha é que ninguém parece ser responsável. Talvez tenha sido um acto de protesto e boicote por parte dos boletins.

Mais a sério. Como é possível?!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

COM VOTOS DE BOM ANO, PREVISÕES PARA 2026

O Ano chegou cabaneiro, vento, frio e a chuva a caminho. Como é habitual, à entrada de um novo ano são mais do que muitas as tentativas de prever os dias que nos aguardam, tentar antecipar cenários como também se diz.

Apesar da dificuldade da tarefa, acotovelam-se "opinadores", comentadores, estudiosos, analistas, especialistas, politólogos, colunistas, "pessoas conhecedoras" (uma espécie em levar em conta), enfim, uma infinidade de tudólogos que em tudo quanto é comunicação social se "engarrafam" na produção de infalíveis previsões.

Não tenho os dotes necessários nem a intenção de substituir quem quer que seja mas, como é habitual, deixo um modesto contributo no que respeita a previsões desejando que chegue um Ano à medida das vossas expectativas.

Diz-me a experiência que é sempre de grande e comprovada utilidade.

Bom Ano para toda a gente.



quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O BALANÇO DA EDUCAÇÃO

 As rotinas destes dias incluem proceder a um balanço relativamente ao ano que está a terminar. Umas notas telegráficas sobre o universo de que sempre estive mais próximo, a educação. E na verdade a educação balança.

A educação balança nas ondas de um mar de inovação, de mudanças de paradigma nas quais nem sempre se percebe a mudança nem o paradigma.

 A educação balança entre intervir nas coisas certas e intervir de forma certa nas coisas.

A educação balança entre inclusão e exclusão sem sair da mesma escola/agrupamento.

A educação balança entre a busca da flexibilidade e a asfixia burocrática.

A educação balança entre grelhas, planos, relatórios, avaliações, projectos, etc.

A educação balança entre avaliação interna que é um mundo de diversidade e uma avaliação externa que não tem o impacto que a justifica.

A educação balança entre “cá para mim, a orientação é fazer assim” e “não, não acho que seja isso, acho que deve ser assim”.

A educação balança entre necessidades especiais que desapareceram e os universais, os adicionais ou selectivos que chegaram em força, mas condicionados ao "faz-se o que se pode".

A educação balança entre a escola X.0, os computadors que não chegam e a net que não funciona.

A educação balança entre querer ser contentora e ter alunos em contentores.

A educação balança entre uma narrativa dos professores a mais e agora o drama dos professores de menos.

A educação balança entre a insuficiente autonomia de escolas e agrupamentos e os enviesamentos da municipalização.

A educação balança entre o “está tudo bem” e “não, as coisas não estão nada bem”.

A educação balança entre terminologias "novas" e velhos procedimentos.

A educação balança entre os acomodados e os incomodados.

A educação balança entre agendas e corporações de interesses diversos.

A educação balança entre discursos de paixão e algumas políticas e práticas de indiferença.

A educação balança entre …

Como, pensando nos meus netos e em todos os netos sou optimista, às vezes não tanto quanto queria, para o ano o balanço será certamente diferente.

Bom Ano.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A LER

 Merece leitura e, sobretudo, reflexão o texto de Pedro Marques Lopes na Visão, "Obrigado, queridos imigrantes".

"Os imigrantes não tiram trabalho a ninguém e não fazem reduzir os salários, muito pelo contrário: a dinâmica que trazem à economia, o facto de ocuparem postos de trabalho que não estavam preenchidos, cria mais empregos e mais oportunidades".

Poderia servir de contexto a todas  reflexões sobre valores, direitos e cidadania, bens de primeira necessidade nos tempos negros que se vivem.

LONGE DA ESCOLA

 No Expresso encontra-se uma peça relativa ao mundo da educação que merece reflexão, a distância que muitos alunos precisam de percorrer para chegar à escola.

Existem 30 concelhos em Portugal continental sem ensino secundário científico-humanístico. No Alto Alentejo, por exemplo, nove dos 15 municípios não têm ensino secundário geral. Em 75 municípios, um terço do país, os alunos fazem mais de 20 km por dia (ida e volta) para a secundária sendo que em algumas situações a distância ultrapassa 50 km, casos de Barrancos, Aljezur, Alcoutim, Freixo de Espada à Cinta, Vimioso, Monchique e Mourão.

No caso de Barrancos, os alunos saem de casa antes das 7h, chegam já depois das 20h e passam três horas por dia no autocarro para frequentar o ensino secundário em Moura. A frequência é obrigatória até aos 18 anos, mas … não há escola no concelho. Também Aljezur é um dos concelhos em que os alunos mais tempo e quilómetros têm de viagem para a escola.

Este cenário de desigualdade acentua-se por que os estudantes “de fora” perdem prioridade na escolha da área científica em relação aos colegas que já são alunos da escola. Acresce a falta de opções disponíveis o que potencia o risco de insucesso e de abandono escolar já elevado pelas circunstâncias desfavoráveis.

Também no 1.º ciclo e decorrente do encerramento de escolas se verifica que muitos alunos percorrem diariamente distância significativas para acederem à escola.

Felizmente e sobretudo devido à imigração verifica-se uma tendência para o aumento da população escolar que esperemos consistente e continuada.

Na verdade, em muitas comunidades, sobretudo no interior, naturalmente, a manutenção das escolas do 1.º ciclo em funcionamento são um suplemento de vida.

Também importa considerar que alguns estudos realizados nos últimos anos sustentam que, de forma geral, os alunos dessas escolas realizam processos bem-sucedidos de entrada no 2.º ciclo.

Retomo umas notas sobre esta questão do encerramento de escolas que também está associado à criação de mega-agrupamentos que, muitos deles, se transformam em mega-problemas, mas esta é uma outra matéria. Muitas das questões que se colocam em educação, como noutras áreas, independentemente da reflexão actual, solicitam algum enquadramento que nos ajudem a melhor entender o quadro temos no momento.

Como já tenho escrito e abordado em alguns encontros, durante décadas de Estado Novo, tivemos um país ruralizado e subdesenvolvido o que, evidentemente não é nada de novo.

Em termos educativos e com a escolaridade obrigatória a ideia terá sido “levar uma escola onde houvesse uma criança”. Tal entendimento minimizava a mobilidade e a abertura de espírito, algo a evitar naqueles tempos. No entanto, como é sabido, os movimentos migratórios e emigratórios explodiram e o interior entrou em processo de desertificação o que, em conjunto com a decisão de política educativa referida acima, criou um universo de centenas de escolas, sobretudo no 1º ciclo, com pouquíssimos alunos. Como se torna evidente e nem discutindo os custos de funcionamento e manutenção de um sistema que admite escolas com 2, 3 ou 5 alunos, deve considerar-se a questão se tal sistema favorece a função e o papel social e formativo da escola. Creio que não e a experiência e os estudos revelam isso mesmo.

Parece, pois, ajustada a decisão de em muitas comunidades proceder a uma reorganização da rede.

É também verdade que muitas vezes se afirma que a “morte da escola é a morte da aldeia”. No entanto, creio que será, pelo menos de considerar, que os modelos de desenvolvimento económico e social promovem a litoralização e desertificação do interior. Apostas políticas erradas não contrariam este processo, antes pelo contrário, promovem-no fechando os equipamentos sociais e de serrvços, incluindo as escolas, uma das formas evidentes de fixação das pessoas. Cria-se assim um ciclo sem fim, as pessoas partem, fecham-se equipamentos, as pessoas não voltam ou continuam a partir. E este processo de definhamento vai-se alastrando. Talvez a manutenção das escolas em funcionamento ajude a fixar e atrair famílias como já parece ser a situação em diferentes comunidades.

Torna-se fundamental e urgente a coragem e a visão para outros caminhos.

Por outro lado, como referia acima, a concentração excessiva de alunos em centros educativos ou mega-agrupamentos não ocorre sem riscos, tornam-se mega-problemas. Para além de aspectos como distância a percorrer, tipo de percurso e apoio logístico, importa não esquecer que escolas demasiado grandes são mais permeáveis a insucesso escolar e exclusão, absentismo, problemas de indisciplina e outros problemas de natureza comportamental como bullying.

Neste cenário, a decisão de encerrar escolas não deve ser vista exclusivamente do ponto de vista administrativo e económico, não pode assentar em critérios generalizados esquecendo particularidades contextuais e, sobretudo, não servir como tudo parece servir em educação, para o jogo político.

Sabemos ainda que também políticas públicas de educação incompetentes nos levaram a uma situação dramática de falta de professores sustentando a tempestade perfeita, nem escolas próximas dos alunos, nem professores para nelas trabalharem.

Um nota final recordando que muitos alunos vivem demasiado longe da escola que frequentam,  mas também muitos alunos estão longe da escola que frequentam mesmo vivendo muito perto.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

UM ANO DE MUROS

 Umas notas relativas a um ano que está a terminar e que de forma simples, mas preocupante, pode dizer-se que foi um ano de muros.

Os discursos produzidos na imprensa e nas redes sociais, obviamente, o aumento de episódios de agressão verbal e física "apenas" pela razão do “outro”, qualquer “outro” ser diferente ou percebido como diferente, sustentam os muros atrás dos quais ficam as “pessoas de bem”, uma figura de definição impossível. Mais do que questões de natureza ideológica, trata-se de uma questão política naturalmente, é sobretudo um problema de natureza ética, cívica e … decência.

Como há pouco aqui escrevi, existem linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas e estão a ser ultrapassadas e de forma cada vez mais inquietante ignorando o quadro de valores que regula, ou deve regular, o discurso e comportamento social e, naturalmente o quadro constitucional em vigor.

Do que se tem ouvido, lido e conhecido, comentar o quê? Como?

Para um tipo que em jovem adulto passou pela mudança verificada em Abril de 74 e conheceu o tempo antes e o tempo depois interroga-se e inquieta-se, porque falhámos, que mundo estamos a construir? Que mundo esperará os meus netos e todas as crianças que têm a vida na sua frente?

Estamos num tempo de perplexidade e dúvida face ao crescimento de discursos populistas e demagógico, apelando à intolerância, ao xenofobismo e a valores de direita radical muitos deles atentatórios de direitos humanos básicos. Os exemplos são muitos, primeiro lá por fora e agora também por cá vão-se multiplicando réplicas deste caminho que nos deixa inquietos face ao futuro e criando ambientes de onde eclodem os ovos da serpente.

Milhões de excluídos e pobres e de jovens sem presente e sem futuro são um alvo fácil para discursos populistas e radicais.

As sementes de mal-estar que que estes milhões de pessoas carregam, muitos deles desde criança são muito facilmente capitalizadas e mobilizadas.

Talvez a relativa tranquilidade com que se assiste à construção de muros e barreiras de natureza diversa acabe por não ser estranha.

Eles vão sendo construídos nas nossas vidas conduzindo no limite à construção de "condomínios de um homem só" rodeado de muros para que ninguém entre.

Estes muros são menos visíveis, mas não perdem eficácia.

Como aqui tenho escrito, a mediocridade da generalidade das lideranças e o que lhes permitimos fazer criaram, por exemplo, um mundo de desigualdade e exclusão. É aqui, insisto, que nasce o que nos assusta.

É esta a batalha que não podemos perder e estou cheio de dúvidas se a estamos a ganhar. Também passa pela educação, pela escola, pela formação cívica e pela cidadania.

Seria muito bom que o Ano Novo fosse … Novo.

domingo, 28 de dezembro de 2025

OS DIAS DO ALENTEJO

 Depois de um dia de chuva vento e frio, hoje amanheceu solarengo e também com frio. É o tempo dele, diria o Mestre Zé de quem tantas vezes me lembro quando ando pelo monte.

A presença dos netos, felizmente, torna os dias um pouco mais quentes e também com mais alguma agitação.  O dia cabaneiro de ontem levou-nos para a oficina, o Simão fez rolhas o Tomás serrou até se cansar.

Depois do pequeno almoço e equipados de galochas, luvas, saco e sacho fomos em busca de espargos. Estamos na época e com a chuva que tem caído estão a nascer a bom ritmo, já grossos e saborosos. Mexidos com ovos e em cima de torradas com azeite fizeram um almoço excelente terminado com laranjas também de cá do monte. 

Desculpem umas notas tão pessoais, mas são assim os dias do Alentejo, os dias de um homem com sorte, eu.

Fica o registo dos "caçadores de espargos" ao pé de uma das oliveiras muito velhas que embelezam esta terra.



sábado, 27 de dezembro de 2025

A TINTA INVISÍVEL

 Há já algum tempo, numa conversa informal entre professores, comentavam-se vários casos em que miúdos passam por situações complicadas sem que, aparentemente, se tornasse visível o impacto dessas situações. Alguns professores referiam que alguns miúdos parecem ter uma estranha capacidade para mascarar a sua vida, ou mesmo o seu mal-estar.

Na conversa também participava o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, que contou a história de um rapaz que ele tinha conhecido há muitos anos e que ia escrevendo a sua narrativa com tinta invisível. Os colegas, por um lado surpreendidos com a afirmação e por outro lado habituados às divagações do Velho, esperaram por alguma clarificação.

O Professor Velho falou então de um miúdo em que ele sentia que alguma coisa se passava que não o deixava sentir bem, mas não conseguia perceber o que era. Começou a ficar mais atento aos sinais e às falas do rapaz e chegou à conclusão de que ele escrevia a sua vida com aquela tinta que só com um truque se torna visível. No caso, o truque foi a atenção. Existem muitas narrativas que falam de medo, de desconforto, de desafecto, de abandono e solidão, de raiva, de perplexidade e que permanecem invisíveis. Só mesmo a atenção é que torna visível a tinta com que são escritas.

O Velho acabou a referir que o problema é que a atenção que permite decifrar a tinta invisível de algumas narrativas nem sempre se consegue ensinar, embora sempre se possa aprender.

Aqueles professores pareciam atentos à fala do Professor Velho.

Também neste tempo de Natal, às vezes até com prendas à volta, muitos miúdos continuam a escrever a sua narrativa com tinta invisível.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

METEU-SE O NATAL E AGORA METE-SE O ANO NOVO

 E é assim. Meteu-se o Natal e agora mete-se o Ano Novo.

Os dias que medeiam entre o Natal e o Ano Novo têm, do meu ponto de vista, um conjunto de características muito particulares. Fico sempre com a sensação de que os percebemos como não dias. Pode parecer uma ideia estranha, mas vou tentar explicar.

Logo depois do Natal, ainda a recuperar do espírito natalício, entramos numa espécie de ressaca advinda da azáfama das prendas, dadas, recebidas ou sonhadas e da culpa resultante dos excessos. Acresce para muita gente o problema das trocas, ou porque já tinham o que receberam ou porque, por várias razões, não serve o que receberam.

Para que se não saia dos espaços comerciais o ânimo irá recuperar-se entrando de imediato na época de saldos, descontos, promoções ou outra qualquer designação apelativa a mais umas compras. Trata-se do efeito terapêutico do mercado e do consumo.

Deste estado, passamos para os dias de aproximação ao Ano Novo que, independentemente do que de menos bom possamos racionalmente esperar, vivemos com a esperança de que seja mesmo novo e, sobretudo, Bom. Este ano, mais do que nunca, queremos, precisamos, que o próximo seja melhor.

Iremos certamente trocar inúmeras mensagens e votos noutra azáfama que aparenta assentar numa ideia mágica dos tempos de miúdo que nos parece fazer acreditar em que se assim procedermos, o Ano Novo vai ser mesmo Novo e, repito, Bom. De tanto falarmos nisso pode ser que ele se convença de que terá de ser mesmo Bom.

É certo que de há uns tempos para cá, como devem ter dado por isso, foi desaparecendo o Próspero, basta que seja Bom, ou até mesmo que não seja pior do que o que acaba. Já era bem bom, por assim dizer, mas não chega, o ano que acaba foi mau, muito mau, para muita gente.

É também muito provável que nos últimos dias do próximo Dezembro, o de 2026, e mesmo que como precisamos e desejamos ele tenha sido melhor que 2025, estaremos com o mesmo sentimento a enunciar os mesmos discursos apesar das promessas optimistas de que ... a coisa está a mudar.

A passagem deste ano como também não podia deixar de ser vai acontecer e múltiplas formas e cenários, com ou sem réveillons, mas, naturalmente com aquela alegria a que nos sentimos obrigados ou que genuinamente sentimos a cada noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro.

O problema mais sério é que a 2 de Janeiro está aí o Ano Novo que, para muita gente, vai continuar velho e para muita outra gente não será Bom, longe disso.

Mas para um povo sereno e de brandos costumes como nós, esperemos que haja saúde que é o principal, como sabemos.

De resto, bom de resto … algum jeito se há-de dar.

Bom Ano. De forma mais modesta, o melhor ano possível.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

BOM NATAL

 A mensagem de sempre. Bom Natal. Dos simples. Com Tempo, com Afecto.

 


 O presépio que as mãos do Simão modelaram com alguma ajuda das mãos do Tomás e dos avós no apoio.




 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

OS PRESENTES DE NATAL. E OS FUTUROS?

 Hoje durante a manhã precisei de ir ao espírito natalício, perdão ao Almada Fórum, em busca de uns livros ainda em falta. Por estes dias todos os caminhos levam ao Almada Fórum, o grande centro comercial aqui da zona. Estão bem preenchidos como se diz na linguagem das rádios sobre o trânsito. Felizmente, ainda ando de mota.

Como é habitual o espírito natalício será inevitavelmente marcado pelos presentes oferecidos, sobretudo aos mais novos.

Os presentes assumem, em particular nesta época uma importância óbvia e de natureza diversa, sublinham afectos ou aquietam consciências, por exemplo.

No entanto e no que que respeita aos mais novos continuo convencido de que a questão essencial não tem a ver com os presentes que podemos ou lhes queremos dar, mas com os futuros que preparamos para lhes oferecer, esses sim, verdadeiramente importantes.

Bom, daqui a pouco vou ver se preparo uns presentes para os meus Netos. Quanto aos futuros … também vou ajudando como posso, faz parte do mundo mágico da Avozice.

Bom Natal.


 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O PAI NATAL NÃO EXISTE. OU EXISTE?

 Estamos a chegar ao Natal. Como é habitual nesta época são múltiplos os trabalhos na imprensa em que se aborda a relação que os mais novos têm com o Natal e, sobretudo, com o Pai Natal, as crenças e a magia do tempo. Ao longo dos anos colaborei em alguns destes trabalhos.

Ainda é frequente ouvirmos crianças afirmar convictamente que acreditam no Pai Natal, bem como pais que, conforme as suas convicções, alimentam ou desincentivam a crença no Pai Natal.

No entanto, deixem-me afirmar com toda a certeza. Os miúdos acreditam no Pai Natal e não numa mentira, como por vezes se ouve de gente menos atenta. Eu tenho a certeza, já fui Pai Natal e vi, senti, como eles acreditavam em mim, isto é, no Pai Natal. Recupero duas histórias pessoais.

Nunca percebi muito bem porquê, mas ao longo da minha vida desempenhei várias vezes a função, sempre fora do contexto familiar. A escolha dever-se-ia, provavelmente, à proeminente mochila que carregava à frente, agora um pouco mais pequena, felizmente, e às barbas brancas que de há muito me acompanham.

Não pensem que é uma tarefa fácil, não é não senhor. Passar umas horas dentro de um fato quentíssimo com umas barbas ainda mais quentes que insistem em deixar a boca cheia de pêlos não é muito simpático. Mas os miúdos acreditam no Pai Natal e isso ajuda a aliviar o desconforto. Felizmente, naquela altura ainda não tinham inventado os Pais Natais que sobem às varandas, caso assim fosse desistiria mesmo, sou um rapaz demasiado pesado para o alpinismo, dado a vertigens sendo ainda que as noites são demasiado frias para que se possam passar pendurado na varanda de cada um.

Numa dessas das vezes em que fui Pai Natal de serviço, há já muitos anos na instituição em que então trabalhava e cena de que ainda possuo uma memória perfeita, lembro-me do ar aflito e preocupado de um gaiato, filho de um colega, que insistiu o tempo todo junto de mim para que não me esquecesse do que queria como presente, Moto Ratos, creio que se tratava de umas personagens de banda desenhada em voga na altura.

E o miúdo, sempre que me lembrava os Moto Ratos e fazia-o sempre que comigo se cruzava tal era o desejo, explicava-me com os olhos muito abertos e com muitos gestos como se ia para casa dele para eu não me enganar no caminho. E não me enganei, Pai Natal que é Pai Natal cumpre sempre. Confirmei depois que ele recebeu os desejados Moto Ratos, claro, o Pai Natal não falha e o pai dele também não.

Ainda uma outra história, esta cá de casa que já aqui contei. Também por esta altura perguntei ao meu neto Pequeno, o Tomás, na altura com cinco anos de sabedoria e descoberta, qualquer coisa sobre os presentes que esperava ter  e ele afirmou da forma convicta que nele era e é habitual.

“O Pai Natal não existe.”

Pensei para comigo, acabou-se a magia, mas procurei certificar-me.

Então achas que o Pai Natal não existe?

“Não, é um homem que anda numa camioneta com uma escada a entregar as prendas nas casas”.

Ficámos por aqui, a magia ainda existia.

Deve ser bom acreditar no Pai Natal. Aliás, deve ser bom acreditar. Por isso, nos vários trabalhos em que tenho colaborado vou afirmando, deixem as crianças acreditarem no Pai Natal até que queiram ou que precisem. Não lhes roubem o encanto em nome de um qualquer conjunto de pseudo-modernices educativas.

Vão ter o resto da sua vida para acreditar e desacreditar, para desacreditar e voltar a acreditar.

Provavelmente, numa busca incessante pelo encanto perdido quando descobrimos que o Pai Natal não existe.

domingo, 21 de dezembro de 2025

QUE QUERES SER QUANDO FORES VELHO?

 Ontem na ida habitual à vila e à volta da bica houve tempo para umas lérias com um amigo. É avô há pouco tempo e inevitavelmente para quem tem netos, estes foram tema de conversa e às tantas chegámos a um caminho que não sabíamos andar, nos tempos que correm o que irá ser a vida deles quando forem grandes?

Claro que não temos resposta para isso e … ficámos por aqui com votos de boas festas.

Já depois, lembrei-me de há já alguns anos e a propósito do inevitável “que queres ser quando fores grande” escrevi por aqui uma história em sentido diferente, “que queres ser quando fores velho?”

Dizia assim:

“Não, não é engano, é mesmo isso que queria escrever, não era que queres ser quando fores grande. Esta formulação talvez seja a pergunta que mais vezes é feita a miúdos e adolescentes. Acontece que os miúdos e adolescentes chegam a grandes e boa parte não são o que responderam à inevitável pergunta que tantas vezes lhes fizeram. É curioso que a partir daí, estranhamente, ninguém mais pergunta ou se inquieta com o que um grande quer ser quando for velho. Acresce que hoje, felizmente, cada vez mais os grandes chegam a velhos.

Já sendo grande há uns bons anos e estando mesmo à beira da velhice, interrogava-me há pouco sobre que quero eu ser quando for velho.

Bom, gostava de ser velho, ou seja, existir enquanto velho, com a minha companheira de sempre e com a qualidade de vida física funcional e com capacidade para a lida ainda que ajustada ao peso dos anos.

Costumo dizer que um dos privilégios da velhice é ter histórias para contar por isso gostava de poder contar histórias. Gostava de contar histórias aos netos e a outra gente mais nova, já não para ensinar, ensinar é tarefa para grandes, pais e professores, não é para velhos, mesmo professores velhos. As histórias dos velhos são para ouvir e conversar, não são para ensinar.

Outro privilégio que a velhice traz é assim uma espécie de inimputabilidade, podemos dizer e fazer coisas estranhas que as pessoas aceitam e dizem de forma condescendente, é velho, às vezes até acham graça. Deve ser bom poder dizer e fazer, quase, o que nos vem à cabeça. Quando for velho quero ser assim.

Quando for velho quero ter o tempo, não o tempo do dever, mas o tempo do querer, embora acredite que quando se é velho o tempo parece mais pequeno. Também gostava que os que foram pequenos ao pé de mim fossem permanecendo por perto mesmo que, eventualmente, longe.

Não parece assim grande coisa, mas eu acho que os velhos só ligam ao essencial."

 

Agora que cheguei a velho … estou a ser, até ver, o que gostava de ser quando chegasse a velho. Não, não é perfeito, o mundo está demasiado feio para que não nos inquietemos. Não pensei que com o que vivemos e demos por adquirido os tempos assim seriam.

No entanto e apesar disso, sinto-me um homem, um velho, com sorte.

sábado, 20 de dezembro de 2025

A GENEROSIDADE DAS OLIVEIRAS

 Chegou o frio ao Alentejo e anuncia-se a chuva lá mais para o fim da tarde. Está um tempo cabaneiro que convida estar na cabana ao lume. Eu aceitei o convite, estou de volta destas notas com um olho na chama da salamandra e como sabe bem esta companhia.

Nos tempos crispados e duros em que todos os dias conhecemos as dificuldades que modelos de desenvolvimento, políticas públicas e sistemas de valores nos estão a criar, ainda sabe melhor estar no Meu Alentejo. Lembro-me até da moda da terra que diz "Quando um homem está sozinho no seu monte, bem no meio da natureza, escutando a água a entoar na fonte, é dono de uma riqueza". Felizmente não estou sozinho, o aconchego ainda é maior.

Há pouco dei uma volta pelo monte para desentorpecer as pernas que a lida hoje não é pesada e sempre vou olhando para as oliveiras, árvores que considero das mais bonitas, especialmente aquelas com muitos séculos e que já levam um tronco que dois homens não abraçam. Admiro a sua generosidade.

Começam por dar as azeitonas que se comem em três variantes, pisadas, retalhadas e de conserva, qual delas a mais saborosa. Depois dão o azeite, a alma do comer bom, e como tem alma o azeite do Meu Alentejo.

Para além da azeitona e do azeite, a oliveira ainda é a mais calorosa das árvores, sempre a aquecer-nos. Aquece-nos quando maldosamente a varejamos para nos dar a azeitona, aquece-nos quando lhes tiramos os pés de burro e limpamos ramos e troncos para assegurar a sua renovação e ainda nos aquece quando arde no lume de chão ou na salamandra nos dias e noites longas do Inverno que amanhã chega.

Finalmente, esta generosa capacidade de dar vive numa escala incomensurável para nós, dura séculos.

São tão bonitas e generosas as oliveiras.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

"TRANCADOS NUM ECRÃ"

 Estamos em período de férias de Natal com os mais novos em casa. Com mais tempo disponível e livres da proibição escolar de uso do telemóvel, para muitos será uma tentação a sua utilização como forma de ocupar o tempo.

A experiência diária e, como agora se diz, a evidência, mostram de forma cada vez mais clara como o excesso de tempo que crianças e adolescentes (mas não só) passam “trancados” em ecrãs têm impacto negativo no seu bem-estar e saúde mental, no desenvolvimento de competências e capacidades cognitivas, sociais e emocionais e, naturalmente, na aprendizagem. São conhecidos muitos exemplos de situações graves ocorridas no contexto de utilização das redes sociais.

Em muitos sistemas educativos e também por cá, têm surgido iniciativas, sobretudo nos espaços escolares, no sentido de minimizar esse tempo incluindo a redução da utilização dos recursos digitais na aprendizagem, sobretudo em particular com os mais pequenos.

Certamente mais difícil será a mudança nos contextos familiares e comunitários. O próprio comportamento dos adultos não parece favorável a esse trajecto de mudança.

O próprio comportamento dos adultos não parece favorável a esse trajecto de mudança. Creio, aliás, a absoluta desregulação da utilização por parte dos adultos será um enorme obstáculo à auto-regulação por parte dos mais novos. Como já aqui contei, lembro-me de estar numa conversa com pais de crianças no básico a falar sobre esta questão e referir as orientações das associações de pediatria oftalmológica relativas ao tempo aceitável de exposição a ecrãs em diferentes idades. Um pai comentou, "são opiniões". Pois, o problema é esse mesmo, as opiniões.

Na verdade, é clara a dificuldade de mudança dos comportamentos, independentemente dos discursos de concordância com a preocupação ou a expressão de dificuldades.

Não sou apologista de estratégias essencialmente proibicionistas, mas sim do incremento de comportamentos de auto-regulação ajustados às diferentes idades.

No entanto, com alguma frequência se alimenta o equívoco de que não proibir significa a ausência de regras e limites. Do meu ponto de vista, a proibição por vezes necessária não invalida a um trajecto de auto-regulação sempre mais consistente.

É o bem-estar dos mais novos e a qualidade global dos processos educativos que estão em jogo.

É uma questão demasiado importante.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

AS PESSOAS SEM-ABRIGO

 É claro que não é por muito falar dos problemas que eles se resolvem ou minimizam. No entanto, também me parece que não insistir pode contribuir para uma menor atenção a situações muito séria e atentatórias dos direitos das pessoas. É o caso das pessoas em situação de sem-abrigo, uma situação que nos deveria envergonhar como comunidade, sendo o desemprego e a precariedade laboral as principais causas. Talvez esta dado seja de ter em conta na discussão em aberto relativa à alteração das leis laborais.

Assim, voltemos a insistir.

Dados da Estratégia Nacional paraa Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), hoje divulgados referem a existência de mais 14.400 pessoas estavam em situação de sem-abrigo no final de 2024. Verifica-se um aumento 1348 casos de pessoas nesta situação.

Em Lisboa e no Porto a situação mais prevalente é situação de sem-abrigo entre um ano e menos de cinco. No Algarve 36% das pessoas vivem nesta situação há um ano ou menos e em 29% dos casos este período é desconhecido o tempo em que estão sem-abrigo.

É de registar que em 2024 se regista que 1345 pessoas deixaram a situação de sem-abrigo, a maioria na região Norte, 444, e na Área Metropolitana de Lisboa, 314. É uma subida relativamente aos dados de 2023, 987 pessoas que deixaram de estar na situação de sem-abrigo.

No entanto, parece-me que não devemos esquecer que continua a ser muito grande o mundo dos sem-abrigo. São muitos, demasiados, os sem-abrigo do mundo, boa parte integra aquela percentagem que a sondagem nunca mostra de que fala Sam The Kid.

São muitos, os sem-abrigo num porto que os acolha, uma casa, uma família, um espaço a que dêem vida e que lhes apoie a vida.

São muitos, os sem-abrigo, mesmo com família ou em instituições.

São muitos, os sem-abrigo no afecto, nos afectos, sem um coração que os abrigue.

São muitos os sem-abrigo em escolas onde não cabem.

São muitos, os sem-abrigo em mundos que não são seus. São muitos, os sem-abrigo em culturas que não entendem e que não querem entendê-los.

São muitos, os sem-abrigo num corpo que seja aconchego para o seu corpo.

São muitos, os sem-abrigo em valores que cada vez mais parecem predominar e que não os reconhecem.

São muitos, os sem-abrigo em vidas que lhes não pertencem, mas carregam. São muitos, os sem-abrigo no aceder e no gostar das coisas de que a vida também se tece.

Como referi, muitos destes sem abrigo vivem à nossa beira, sem-abrigo, não contabilizados, nem contabilizáveis.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

PALAVRAS (MAL)DITAS

 Aos 71 anos e ligado à educação desde que entrei na escola aos seis anos já não é fácil sentir-me surpreendido, mas a verdade é que, recordando Sá de Miranda, "M'espanto às vezes, outras m'avergonho".

Ontem, no final da apresentação do novo modelo de acção social para o ensino superior, o Ministro da Educação, da Ciência e da Inovação afirmou o seguinte: “Quando nós metemos pessoas quesão basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar de um serviço público, nós sabemos que o serviço público se deteriora, é assim nos hospitais, é assim nas escolas...”. Assim mesmo!

Posteriormente tentou compor como é habitual, mas foi que disse, palavras mal ditas o que faz parecer que o Senhor Ministro está a perder a aura. Na verdade, lembrando Ettore Scola no imperdível “Feios, porcos e maus” o Senhor Ministro associa com clareza a baixa condição social e económica dos estudantes ao estado degradado das residências universitárias. Não pode!

Umas notas breves de um não especialista sobre a questão da comunicação, sobretudo das lideranças políticas.

A primeira questão é exactamente essa, o peso social do mensageiro condiciona o conteúdo da mensagem, ou seja, a mesma frase não tem o mesmo valor afirmada por um cidadão comum ou proferida por uma figura com responsabilidades de decisão, neste caso em matéria de cultura e políticas públicas nesta área. Aliás, trata-se do ministro da Educação.

Pode sempre afirmar-se que haverá alguma razão nas afirmações ou que a intenção não traduz o valor facial das afirmações que toda a gente ouve não podem deixar de ser analisadas e levadas em consideração.

Quanto à intenção, a sua não existência, e até posso esforçar-me por acreditar que não exista, não colhe, é mesmo uma afirmação inaceitável.

É verdade que numa certa altura do desenvolvimento dos miúdos, o seu desenvolvimento moral e intelectual leva-os a considerar que a sua não intenção de realizar algo, desculpa o que aconteceu, tal entendimento traduz-se no frequente "foi sem querer" e como "foi sem querer", não tem problema.

Neste patamar, não funciona o "foi sem querer" e não podemos dizer a primeira "coisa que nos passa pela cabeça".

A questão é que as lideranças, as que verdadeiramente lideram, apesar de não possuírem, felizmente, o dom da infalibilidade e da perfeição, não podem, não devem proferir determinadas palavras e persistirem teimosamente na sua afirmação.

Trata-se de mais um exemplo de palavras (mal)ditas que ao longo dos anos têm sido proferidas por muita gente dos vários quadrantes políticos e áreas de intervenção.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

TEMPO DE NATAL, UMA SUGESTÃO DE PRENDA

 Estamos perto do Natal que, apesar dos dias duros e estranhos que muitos de nós não esperaríamos viver, traz dentro de si uma inevitável questão, os presentes de Natal. O tempo de Natal é habitualmente um tempo de frio, a que as dificuldades de muita gente ainda retiram calor e muitas outras pessoas, mais velhas e mais novas, nem sequer têm Natal.

No entanto, Natal é Natal e boa parte de nós sente, deseja, precisa, de dar presentes pensando sobretudo nos miúdos que, em particular os mais pequenos, ainda mantêm uma relação quase mágica com este tempo. Sorte a deles.

A escolha dos presentes nem sempre é uma tarefa fácil e os constrangimentos económicos poderão limitar a disponibilidade e dificultar a escolha.

Quando os destinatários dos presentes são os miúdos a coisa complica-se pois, para além dos eventuais custos, acontece com frequência pensarmos que as crianças já têm tudo o que nem sequer é ajustado, porque na verdade, muitas crianças a que nada parece faltar, sentem muitas precisões de que nem sempre nos damos conta.

Nos últimos anos parece notar-se nos discursos das pessoas alguma preocupação com a utilidade das prendas, minimizando a compra de coisas ou bens mais supérfluos e escolher o que possa ser de maior utilidade. Talvez seja mais um desejo que uma realidade.

Neste contexto e conhecendo o que se vai passando no universo dos miúdos, gostava de sugerir, perdoem o atrevimento, um presente de Natal pensando neles, mas que me parece também interessante para muitos dos mais velhos. Aliás, faço esta sugestão com regularidade.

Trata-se de algo que parecendo não ser muito fácil de encontrar, também não é assim tão difícil, se quisermos encontramos.

É um bem que pode assumir diversos tamanhos, podemos oferecer a quantidade que acharmos por bem e não carece de manual de instruções, pois não é muito sofisticado o seu uso. Creio que é um presente que, para além de ser bonito, é bastante útil podendo ser usado das mais variadas formas, em diferentes ocasiões e sempre com agrado.

Apresenta também a vantagem de corresponder a uma enorme necessidade, raramente se encontra alguém que não se queixe da sua falta pelo que oferecendo este presente estamos, para além de expressar o afecto que sentimos pelas pessoas a quem oferecemos, a contribuir com algo de verdadeiramente necessário e, como já disse, útil.

Creio que os mais pequenos vão gostar mais deste presente do que de muitos dos jogos e brinquedos com que frequentemente são submersos, muitas vezes a mascarar algum desconforto nosso, adultos com pouco tempo para lhes dar e que, às vezes, sem nos darmos conta compensamos com presentes.

Por outro lado, os mais crescidos que receberem tempo também se sentirão bem, todos nós gostamos de um "tempinho" para nós vindo que quem anda à nossa beira.

Na verdade, acho que poderia ser mesmo uma boa ideia oferecer tempo às pessoas. É isso, este Natal podíamos poupar nos euros e oferecer tempo, tenho quase a certeza de que as pessoas vão gostar.

Bom Natal para todos. Com tempo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

DO BRINCAR NA RUA (outra vez)


Não é o melhor dos dias para abordar  esta questão, mas ...

No Público encontra-se uma peça centrada no desenvolvimento de actividades de crianças em ambientes naturais. No âmbito de uma iniciativa, a associação Movimento Bloom que tem uma escola, a Escola da Floresta Bloom, no Parque Natural de Sintra-Cascais, onde crianças de diferentes escolas desenvolvem actividades ou são desenvolvidas actividades nas próprias escolas orientadas para o mundo natural.

Como dizia o José Afonso, seja bem vindo quem vier por bem e é importante este tipo de iniciativas, mas a questão é que mudanças nas políticas públicas de educação, do ambiente, do urbanismo e habitação, etc. pouco efeito terão e não estou a minimizar o que de positivo pode trazer às crianças envolvidas, antes pelo contrário.

A qualidade de vida das comunidades e das crianças em particular beneficiaria se fosse promovido nas zonas urbanas a criação de espaços seguros para as crianças brincarem no exterior considerando a importância que que terá para o seu bem-estar e desenvolvimento. Lembro sempre o trabalho incansável do Professor Carlos Neto, com quem muitas vezes me cruzei, na defesa do brincar na rua.

Muitas vezes aqui tenho abordado esta questão e volto a insistir nessa importância e como, do meu ponto de vista, brincar é a actividade mais séria que as crianças realizam, nela põem tudo quanto são e constroem a base de tudo o que virão a ser. Para que o brincar na rua seja possível e seguro exige-se que as políticas públicas tornem os espaços urbanos mais amigáveis para os mais novos. Em muitos países e também por cá, felizmente começam a surgir iniciativas nesse sentido.

Com as alterações nos estilos de vida e as opções em matéria de organização do trabalho, muitas crianças têm a vida preenchida por um tempo significativo de estadia na escola (até lhe chamam Escola a Tempo Inteiro) e muitos pais recorrem ainda ao envolvimento dos filhos em múltiplas actividades transformando-as numa espécie de crianças-agenda. Todas estas actividades, a oferta é variadíssima, são percebidas como imprescindíveis à excelência, aliás, muitas crianças são educadas (pressionadas) para a excelência. Promovem níveis "fantásticos" de desenvolvimento intelectual e da linguagem, desenvolvimento motor, maturidade emocional, criatividade, interacção social, autonomia e certamente de mais alguns aspectos que agora não recordo. Assim, as crianças e adolescentes estão sempre envolvidos em qualquer actividade, a quase todas as horas pois delas se espera não menos que a excelência.

Nada disto esquece a importância que, de facto, podem ter algumas actividades, mas apenas sublinhar alguns riscos no excesso.

Os pais, alguns pais, seduzidos pela sofisticação desta oferta, pressionados por estilos de vida que não conseguem ou podem ajustar e com a culpa que carregam pela falta de tempo para os filhos e sem vislumbrar alternativas aceitam que os trabalhos dos miúdos se desenvolvam para além do que seria desejável, eu diria saudável.

Somos dos países da Europa em que adultos e crianças menos desenvolvem actividades no exterior contrariamente, por exemplo ao que se verifica nos países nórdicos. É verdade que esses países têm habitualmente climas bastante mais amenos que o nosso, mas, ainda assim, poderíamos ter durante mais tempo crianças e adultos a realizar actividades no exterior. Por princípio e sempre que possível, a área curricular Estudo do Meio, mas não só, poderia ser também Estudo no Meio.

Muitas experiências, incluindo em Portugal, sugerem múltiplos benefícios para as crianças, desenvolvem maior autonomia, maior consciência ambiental e competências em dimensões como bem-estar emocional, a partilha de emoções, a autoconfiança, auto-regulação, a criatividade ou o pensamento crítico para além, naturalmente dos benefícios mais directamente associados a qualquer actividade.

Embora consciente das questões como risco, segurança e estilos de vida das famílias, creio que seria possível alguma oportunidade de “devolver” aos miúdos o circular e brincar na rua, ter mais algum tempo as crianças fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã promovendo, por exemplo, níveis de literacia motora frequentemente aquém do desejável.

Como tantas vezes afirmo e escrevo, também neste espaço, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a auto-regulação, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como fala Almada Negreiros. O brincar, o brincar na rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente, os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento, de literacia motora também, e promoção dessa autonomia.

Importa sublinhar a necessidade de controlar um eventual perigo que, ainda assim, é diferente do risco, as crianças também “aprendem” a lidar com o risco.

Talvez, devagarinho e com os perigos e riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias.

É, pois, importante que todos os que lidam com crianças, em particular, os que têm “peso” em matéria de orientação, pediatras, professores, psicólogos, etc. assumam como “guide line” para a sua intervenção a promoção do brincar. E a actividade de brincar na infância não se esgota, longe disso, numa disciplina curricular.

Os mais novos vão gostar e faz-lhes bem.

domingo, 14 de dezembro de 2025

DO MODELO DE GOVERNANÇA DA ESCOLA

 Na passada sexta-feira o Ministro da Educação e os secretários de Estado da Educação e da Administração e Inovação Educativa estiveram em reunião por videoconferência com os directores escolares para avaliação de 2025 e alterações para 2026.

 Entre outras questões, foi anunciada a criação do estatuto do director e a revisão do regime de gestão e autonomia das escolas que acontecerá no próximo ano.

Aguardemos pelo estatuto e olhemos o modelo de governança que muitas vezes aqui tenho referido carecer de alteração.  

Começo por uma referência a uma questão concreta verificada na situação actual e que deveria ser alterada, a gestão do limite de mandatos dos directores. Em Abril, uma peça do Público que qui comentei afirmava que durante este ano cerca de 200 directores deverão abandonar a liderança das suas escolas ou agrupamentos por cumprir 16 anos na função, quatro mandatos.

Existem muitas situações de directores que desempenham a função há bem mais que os 16 anos. Por outro lado, tal como noutros sectores, veja-se as candidaturas às autarquias, um director que está obrigado a terminar o tempo de liderança numa escola ou agrupamento pode candidatar-se a outro. Estava nessa situação, em trânsito, o professor Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, que defende a ausência de limites de mandato e que, tendo estado nos últimos 30 anos na gestão do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, foi eleito para a direcção do Agrupamento de Escolas D. Pedro I, também em Gaia. É assim, nada de novo, as leis em Portugal são basicamente indicativas, não imperativas. Não existindo o estatuto de director, agora outra vez prometido pelo actual Ministro, o director será sempre professor e, portanto, não é director, está como director. Provavelmente, alguns já não saberão como ser professor.

São recorrentes a divulgação e o conhecimento por parte de quem se move neste universo de inúmeras situações negativas envolvendo a direcção de escolas e agrupamentos como, também devemos registar e sublinhar também existem muitas situações que correm de forma positiva dentro do que se pode esperar num universo tão complexo como a educação.

Retomo algumas notas sobre a direcção de escolas e agrupamentos. O modelo de direcção unipessoal das escolas e agrupamentos e a forma como é desempenhado volta com regularidade à agenda incluindo o questionar do próprio modelo face a uma direcção colegial. Têm existido estudos de opinião e tomadas de posição individuais ou manifestos que alimentam a discussão ou mesmo a necessidade de alterar o modelo de direcção.

Como já tenho afirmado a propósito de outras matérias, talvez fruto do ambiente de fortíssima tensão que nos últimos anos envolve a educação, os debates e as ideias também tendem a ser crispados, com opiniões definitivas e sem margem de entendimento e, frequentemente, com agendas menos explícitas. O modelo de gestão das escolas será apenas mais um exemplo deste cenário.

Com o atrevimento de quem não vive por dentro o quotidiano das escolas, mas que nas últimas décadas tem, como profissional e como cidadão, acompanhado de forma atenta o universo da educação, recupero algumas reflexões que já aqui deixei e que continuam actuais. Levo também em conta a experiência de alguns anos de presença como elemento da comunidade nos Conselhos Gerais de dois agrupamentos da zona onde vivo.

Conforme tenho dito, sempre me pareceu claro que a transformação da direcção de escolas e agrupamentos num modelo unipessoal e a sua forma de eleição através dos conselhos gerais, acompanhada por uma política de mega-agrupamentos diminuindo substancialmente o número de unidades orgânicas, gosto desta designação, se inscreveu na sempre presente tentação de controlo político do sistema. A experiência tem vindo a evidenciar essa situação.

São conhecidos casos, alguns chegam à imprensa, de processos de eleição de direcções escolares que mais não são do que formas de colocar pessoas com o alinhamento certo na função. Aliás, o próprio funcionamento dos Conselhos Gerais é, em algumas situações, um exemplo disto mesmo. Assim sendo, o modelo de gestão unipessoal e a forma de eleição dos directores não são garantias de “mais democracia” ou “melhor democracia” nas escolas.

Dado um pecado estrutural do nosso sistema educativo, a ausência ao longo de décadas de dispositivos eficientes de regulação, coexistem boas experiências e práticas em situações de direcção unipessoal com situações bem negativas.

Por outro lado, importa recordar que, em muitas circunstâncias, também a “gestão democrática", de democrática não tinha assim tanto e também se verificavam casos gritantes de menor competência.

Dito isto, parece-me que tanto quanto ou mais do que o modelo de direcção, unipessoal ou colegial, julgo de reflectir a forma de eleição, participam todos os docentes ou um pequeno grupo que “representa” o corpo docente no conselho geral, o mesmo se passando com os funcionários. É ainda de considerar a forma de participação de pais e autarquias no processo de eleição bem como de elementos da comunidade.

Por outro lado, também me parece que deve existir um claro reforço do papel dos Conselhos Pedagógicos no funcionamento de escolas e agrupamentos. Parece-me também clara a vantagem da presidência do Pedagógico ser claramente independente da direcção da escola, sobretudo num modelo de direcção unipessoal.

Importa também que a reflexão sobre a direcção de escolas e agrupamentos seja acompanhada de uma verdadeira reflexão sobre o quadro de autonomia nas suas várias dimensões e equilíbrios. Qual o efeito da municipalização ou “proximidade”, como também lhe chamam, na autonomia e funcionamento de escolas e agrupamentos e, mesmo na sua gestão.

É claro que quanto mais sólido for o modelo de autonomia das escolas mais importante se torna o papel e função da direcção, independentemente do modelo. Esta é do meu ponto de vista a questão central.

Muitos estudos e a experiência mostram que nas organizações, incluindo escolas, a qualidade das lideranças tem um impacto forte no desempenho, em diferentes dimensões, das instituições e também de todos os que nela funcionam. Boas lideranças escolares traduzem-se em melhores e mais estáveis climas de trabalho, maior nível de colaboração entre os profissionais, menor absentismo, melhores resultados ou menos incidentes de natureza disciplinar, ambientes escolares mais amigáveis em termos de educação inclusiva, melhor relação com pais e comunidade, entre outros aspectos. Como exemplo, em 2019 um estudo realizado pela Universidade do Porto da Universidade do Porto sugeria que o estilo de liderança dos directores das escolas tem um impacto importante na motivação dos professores pois existe uma “correlação significativa entre a forma como são geridos os estabelecimentos de ensino e a relação que os docentes têm com a sua profissão”.  Creio que o cenário não se terá alterado.

Camões já afirmava que um “fraco Rei faz fraca a forte gente” o que numa actualização republicana poderá entender-se como a defesa de lideranças competentes, com uma gestão participada, com mecanismos de eleição alargados, transparentes, escrutinados e com, insisto, mecanismos de regulação que previnam excessos e abusos.

Alguns episódios na contratação de docentes ou de funcionários e nos processos que envolvem técnicos e docentes, são exemplos em ter em conta pela forma negativa como foram geridos ou desencadeados por algumas direcções de escolas de escolas e agrupamentos.

Vamos ver como e quando conheceremos as alterações anunciadas e seja possível caminhar num contexto de estabilidade imprescindível ao trabalho de todos os envolvidos nas comunidades escolares.

sábado, 13 de dezembro de 2025

PAIS, ESCOLA, SUCESSO ESCOLAR E EDUCATIVO

 A newsletter semanal do Público tem como tópico de relevo esta semana a relação entre a escola e os pais e, naturalmente, da importância do nível e qualidade de comunicação.

Creio que é consensual a necessidade de que exista e seja positiva a relação entre pais e escola e é sempre oportuno reflectir sobre o papel e o contributo dos pais no sucesso educativo e escolar dos miúdos. Melhorar este papel e a relação dos pais com a escola não é tarefa fácil e não é problema resolvido em nenhum sistema educativo, apesar de em todos os sistemas existirem bons exemplos dessa relação e, naturalmente, entre nós também assim é.

Não é uma questão fácil e as alterações ainda mais difíceis da complexidade de variáveis implicadas.

Uma primeira questão com implicações relevantes remete para os estilos de vida modernos, sobretudo em zonas urbanas, a própria inerência das dificuldades, pela próre, por outro lado, perceber pela inerência das dificuldades, conteúdos curriculares e cultura escolar desconhecidos por muitos pais e encarregados de educação, solicitações e motivações presentes na vida dos miúdos, etc.

De qualquer forma parece inegável a necessidade de o envolvimento dos pais e a qualidade desse envolvimento para que o trajecto educativo dos miúdos seja mais positivo

É reconhecido o afastamento dos pais traduzido, por exemplo, na baixa participação em reuniões. Como causas referem-se as dificuldades em termos de legislação e horários laborais e também o menor empenhamento ou mesmo desinteresse.

Defendo de há muito que em sede de Concertação Social seria de avançar com propostas de alteração legislativa, sobretudo, na organização horária do trabalho que poderia, essa sim, ter impacto na disponibilidade dos pais. Não me parece impossível que em muitas profissões os tempos de trabalho pudessem ter outra distribuição permitindo mais tempo com os filhos e menos tempo destes na escola.

No entanto, julgo de considerar outros aspectos. Costumo afirmar que os pais, exceptuando os pais negligentes, que existem, e vão menos à escola ou não aparecem mesmo, se podem dividir em dois grupos, os pais que não alcançam a escola e os pais que a escola não alcança. Os primeiros são os que entendem consciente, ou inconscientemente, que a sua presença é irrelevante, não sabem discutir a escola, a escola é que sabe e decide sobre os filhos. Os outros, são os pais para quem o discurso produzido pela escola sobre os seus filhos os leva a afastarem-se progressivamente. A experiência mostra que quando as crianças são mais pequenas, pré-escolar 1º ciclo, os pais aparecem e começam a afastar-se sobretudo a partir do 2º ciclo, o que tem como razão principal o crescimento dos filhos o que, evidentemente, não explica esse afastamento.

Neste quadro, creio que se o desejo de maior envolvimento dos pais na vida escolar dos filhos for mais do que uma retórica, o sistema educativo, através dos modelos de funcionamento e recursos das escolas, deverá introduzir alguns ajustamentos.

Ajustamentos nas funções dos Directores de Turma e das condições de exercício da função pois são peças nucleares nos processos educativos e estão muitas vezes com demasiado tempo gasto em burocracia, criação de dispositivos com professores motivados, existem muitos, que possam ir ao encontro dos pais que a escola não alcança. Talvez da carga burocrática que rouba tantas horas de professores se pudessem recuperar algumas para outro tipo de trabalho não docente, mais útil e mais motivador.

Sabemos da situação crítica da falta de docentes que não se resolve de imediato e que os exercícios de “wishful thinking” também não ajudam. No entanto, existem tantas horas de professores adjudicadas a trabalho não docente, burocrático, e a iniciativas, projectos, experiências avulsas e descontextualizadas que seriam certamente mais úteis neste contexto, relação escola e pais

Mudança nas formas e suporte do contacto, relação, comunicação entre a escola e a família, por exemplo, repensar a tipologia e conteúdos das reuniões de pais. Será neste contexto que os recursos digitais podem ser úteis se utilizados de forma regulada, não tóxica.

Parece também importante a existência de estruturas de mediação entre a escola e a família o que implica a existência de recursos humanos qualificados e disponíveis.

Recurso concertado às Associações de Pais como mediadores entre a escola e os pais que não vindo à escola, também não são dos que integram as Associações.

O tempo é curto, os recursos são insuficientes, o clima não é o mais amigável, mas creio que pode ser possível ir um pouco mais longe na tentativa imprescindível de maior envolvimento dos pais na vida escolar dos miúdos, questão em mudança, sempre, e que obriga a uma contínua reflexão sobre os papéis, os processos e formas de envolvimento.

O risco da inacção é, por exemplo, dar asas ao que acontece, por vezes, com o funcionamento de grupos de pais no WhatsApp, por exemplo, que, frequentemente, se transforma em mais um problema.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

DEFICIÊNCIA E DIREITOS HUMANOS

 Foi divulgado há dias o relatório Pessoas com Deficiência em Portugal: Indicadores de Direitos Humanos 2025 realizado  pelo Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, coordenado por Paula Campos Pinto. Vejamos alguns dados. Em sentido positivo, mantém-se uma trajectória positiva relativamente ao abandono escolar de pessoas com deficiência entre os 18 e os 24 anos, 18,2% em 2023, valor mais baixo que em anos anteriores.

De sublinhar também que mais estudantes com deficiência frequentam o ensino superior. Em 24/25 matricularam-se 5300 estudantes, mais 30,4% do que no ano anterior, 4063.

No entanto, mantemos indicadores preocupantes.

O trajecto após o secundário mantém-se difícil. Em 2024, 32,4% dos jovens com deficiência não trabalhavam nem estudavam nem frequentavam dispositivos de formação. Nos jovens sem deficiência o indicador é de 8,1%, uma diferença significativa, superior a 24%.

A taxa de emprego das pessoas com deficiência em 2023 era de 64,4% sendo que em situações de deficiência grave passava para 50,9%.

A diferença da taxa de emprego entre pessoas com e sem deficiência em 2024 era de 21,3%. Esta taxa estava em decréscimo até 2022 e voltou a subir.

Numa outra área crítica, condições sociais e económicas, 66,4% das pessoas com deficiência com mais de 16 anos estão risco de pobreza antes das transferências sociais, duas vezes mais que as pessoas sem deficiência. Considerando as transferências sociais a taxa baixava para 22,2% nas pessoas com deficiência e para 14,1% nas pessoas sem deficiência. Esta diferença tem-se acentuado.

Parece claro e preocupante que, apesar de alguma evolução, a situação das pessoas com deficiência continua com grande vulnerabilidade face à pobreza e exclusão.

Não é novo, sucessivos relatórios de diferentes entidades vão mostrando o quanto está por fazer e as dificuldades decorrentes da corrida de obstáculos em que se transforma a vida das pessoas com deficiência ameaçando os seus direitos e bem-estar bem como das suas famílias. São por demais evidentes as dificuldades em áreas como, educação, saúde, trabalho e emprego, segurança social, acessibilidades, autonomia, independência ou autodeterminação.

Repetindo-me, a voz das minorias é continua muito baixa, ouve-se mal, existem variadíssimas áreas em que são significativas as dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente saúde, acessibilidades, educação, apoio social, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão continuam elevados como este relatório mostra.

Importa também sublinhar que os direitos fundamentais não podem ser de geometria variável em função de contextos ou hipotecados às oscilações de conjuntura ainda que tenhamos consciência da excepcionalidade destes tempos.

Parece necessário reafirmar mais uma vez que os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com os grupos mais vulneráveis e com as suas problemáticas. Este entendimento é tanto mais importante quanto mais difíceis são os contextos em que vivemos, os tempos actuais mostram discursos e comportamento hostis e agressivos face à diversidade, ameaçam quem é percebido como diferente como se existissem dois seres humanos iguais.

Mas, mais grave é que estes discursos começam a contaminar as políticas públicas dada a mediocridade de lideranças, e sustentam a negação de valores e culturas que dávamos como adquiridos.

Não passarão.