terça-feira, 11 de junho de 2019

A HISTÓRIA DO PERFEITO


Era uma vez um rapaz chamado Perfeito, isso mesmo, Perfeito. Desde pequeno que se transformou num modelo no qual a família se revia. Bem comportado, inteligente, sempre obediente e discreto era, como se costuma dizer, o orgulho dos pais o que, deve dizer-se, incomodava a sua irmã, um pouco mais velha, que se chamava Assim Assim. Como sabem, não é fácil a vida de irmã de um Perfeito. Os pais ainda ficavam mais satisfeitos por toda a gente lhes fazer sentir as qualidades do Perfeito e a inveja, diziam mesmo, que sentiam por não terem filhos tão dotados.
A escola do Perfeito foi sempre de uma tranquilidade absoluta, notas máximas e, mais uma vez, a perfeição como aluno. Sempre concentrado, muito responsável, uma qualidade sempre muito apreciada e exigida pelos professores. Nunca falava fora dos assuntos em discussão nas aulas e aproveitava todo o tempo para estudar e manter o seu estatuto de melhor aluno da escola. Nunca se lhe conheceu qualquer envolvimento em algum incidente na escola. Como era hábito nas reuniões de pais, não havia ninguém, professores ou outros pais, que não se referisse às enormes qualidades do Perfeito. Em casa o tempo também era utilizado a estudar e mesmo o tempo que dedicava ao computador era para alguma pesquisa por conteúdos de natureza científica que aumentasse o seu conhecimento.
Um dia, teria o Perfeito uns dezasseis anos, estavam os pais, como de costume, a aguardar que ele viesse jantar sem que fosse necessário chamá-lo. Era um rapaz organizado e responsável. A hora passou e os pais pensaram que desta vez o estudo estava tão sério que tinha deixado escapar a hora de jantar.
Quando bateram à porta do quarto e o Perfeito não abriu nem respondeu, entraram. O Excelente continuava a surpreendê-los. Tinha o quarto completamente virado do avesso, desarrumado como nunca tinha estado e ele deitado no chão brincava com uns bonecos pequenos com que aos seis anos não tinha tido oportunidade brincar, estiveram dentro de uma caixa estes anos todos. Quando o interromperam o Perfeito fez a primeira birra da sua vida. Foi dura e os pais ficaram verdadeiramente assustados e perdidos.
Como perdido no tempo tinha ficado o Perfeito.
Há tempos para tudo, quando não os usamos nos tempos certos podemos perder-nos e os riscos podem ser grandes, não acontecem "apenas" birras.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

MATEMÁTICA É A MINHA DISCIPLINA FAVORITA


Faz sentido no dia em que se assinala o Dia de Portugal fazer referência a um trabalho em desenvolvimento na área da educação e na promoção do sucesso educativo, evidentemente, o garante do nosso sucesso como país.
A Região Autónoma dos Açores tem em curso o programa ProSucesso no qual se inscreve o Projecto Prof DA centrado na Matemática e na sua aprendizagem bem-sucedida.
O Prof DA é coordenado por Ricardo Cunha e Teixeira, professor da Universidade dos Açores, iniciou-se em 2015 envolvendo todos os alunos do 1º ciclo e tem vindo a alargar-se aos outros anos de escolaridade, chegando ao 7º em Setembro até envolver todo o ensino básico. Já tinha contactado com este interessante trabalho pois tenho dado uma pequena colaboração no âmbito do ProSucesso em S. Miguel.
A avaliação tem sido francamente positiva e para além da melhoria significativa do desempenho da generalidade dos alunos é interessante referir que muito afirmam que Matemática é a sua disciplina favorita.
Já muitas vezes aqui tenho escrito que o insucesso escolar ou, mais particularmente, o mais baixo desempenho a matemática não é uma fatalidade.
Sabemos do peso de variáveis sociodemográficas, escolarização dos pais e nível de bem-estar socioeconómico por exemplo.
Sabemos da importância de políticas educativas adequadas, currículos adequados em natureza, conteúdos e extensão (algo que no caso da matemática, mas não só, tem andado à deriva), formação e apoios aos professores, dispositivos de apoio competentes e suficientes ao trabalho de alunos e professores aos alunos e aos docentes, tipologia e dimensão das turmas, etc.
No entanto, acresce a esta complexidade um conjunto de outras variáveis menos consideradas por vezes mas que a experiência e a evidência mostram ter também algum impacto.
São variáveis de natureza mais psicológica como, por exemplo, a percepção que os alunos têm de si próprios como capazes de ter sucesso, os alunos de meios menos carenciados percebem-se como mais capazes de aprender matemática.
Ainda uma referência a uma dimensão nem sempre considerada mas que julgo pertinente neste âmbito, a representação sobre a própria Matemática e que parece informar um eixo crucial no Prof DA. Creio que ainda hoje existe uma percepção passada nos discursos de muita gente com diferentes níveis de qualificação de que matemática é uma “coisa difícil” e ainda de que só os mais “inteligentes” têm “jeito” para a Matemática. Esta ideia é tão presente que não é raro ouvir figuras públicas afirmar sem qualquer sobressalto e até com bonomia que “nunca tiveram jeito para a Matemática, para os números”. É claro que ninguém se atreve a confessar uma eventual “falta de jeito” para a Língua Portuguesa e às vezes bem que “parece”. A mudança deste cenário é uma tarefa para todos nós e não apenas para os professores e seria importante que acontecesse.
De facto, este tipo de discursos não pode deixar de contaminar os alunos logo desde o 1º ciclo convencendo-se alguns que a Matemática vai ser difícil, não vão conseguir ser “bons” e a desmotivar-se. Aliás, é conhecido que muitos alunos escolhem trajectos escolares tendo como critério “fugir” da Matemática.
Mas o que também sabemos é que é na sala de aula, na escola, que se consegue fazer a diferença e combater o que parece ser uma fatalidade, o insucesso escolar.
Este trabalho nos Açores é “apenas” mais uma demonstração que os maus resultados a matemática não são inultrapassáveis e merece divulgação.

domingo, 9 de junho de 2019

"NÃO TEM DÚVIDA, O BRAÇO É SEU"


De acordo com os mandamentos do Mestre Zé Marrafa, produtos como batatas, cebolas ou alhos, quando já estão “criados” devem deixar de levar água para “enxugar” e criar casca e, só então, serem colhidos. E assim fazemos por aqui no Monte.
Pois hoje de manhã cedinho, os dias aqui começam cedo, fizemo-nos à tarefa na agenda, arrancar os alhos. O “pequeno” problema é que sem água a terra estava assim ... a modos que dura, muito dura mesmo.
Comentei então com o meu parceiro de tarefa, o sacho" que teríamos um bocadinho de mais esforço pela frente. Respondeu-me em alentejano “que não tem dúvida, o braço é seu”. Bem que dei por isso, a terra estava mesmo áspera, o sacho custava a entrar na terra e a cada cabeça de alho arrancada a coisa parecia mais brava e, de facto, ... o braço queixava-se.
Não podia parar, não me atrevia a que amanhã o Mestre Zé cá passasse e não encontrasse os alhos colhidos, eu tinha assumido que o fazia.
A verdade é que foi uma manhã dura embora mais branda na parte final, cortar ramas e “barbas” e arrumar os alhos para dar um gostinho especial à culinária cá de casa.
A verdade é que quando os usamos nos temperos e me lembro do sabor de alhos mais “produzidos” ou, pior ainda de uns gigantes, que vêm da China(!!!) logo me esqueço do que custou a sua apanha.
São também assim os dias do Alentejo.

A QUALIFICAÇÃO É UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE


De acordo com dados ainda não definitivos divulgados pelo ME, apesar do ligeiro aumento de alunos inscritos para os exames nacionais do secundário voltou a baixar, ainda que ligeiramente o número de estudantes que refere a intenção de frequentar o ensino superior, 54%.
Esperemos que a situação se possa reverter pois creio que apesar de existir, felizmente, oferta formativa para além do ensino superior, se venha a verificar o abandono precoce de um percurso de qualificação com os riscos associados de exclusão e pobreza sobretudo em sociedades mais desenvolvidas e, portanto, mais exigentes na qualificação dos cidadãos.
A abordagem às razões para este cenário de preocupante desinvestimento na formação superior, politécnica ou universitária, remete quase sempre para as dificuldades económicas das famílias.
Dados disponíveis têm sustentado este entendimento mas, do meu ponto de vista, há ainda que considerar os eventuais efeitos de um discurso recorrentemente difundido de que, dada a elevada taxa de desemprego de jovens com qualificação superior, o investimento numa qualificação superior não compensa pois não existe mercado de trabalho, o emprego que surge é precário e mal pago.
Por partes. Na verdade, Portugal, conforme alguns estudos demonstram, tem comparativamente a muitos outros países da Europa, um dos mais altos custos para as famílias a situação de um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior privado o esforço é ainda maior. Tem vindo a ser regularmente noticiada a desistência da frequência dos cursos por muitos alunos que, por si, ou os respectivos agregados familiares não suportam os encargos com o estudo.
Estas dificuldades são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Neste contexto, o abaixamento na intenção de prosseguir estudos superiores pode estar associado às dificuldades enormes que muitas famílias atravessam e o desemprego mais elevado entre os jovens, que poderia constituir uma pressão para continuar os estudos a que acresce a redução significativa das bolsas e apoios, tornam ainda mais difícil a realização de percursos escolares que promovam mobilidade social e que se traduz, por exemplo, no aumento das desistências ou mesmo na intenção e disponibilidade para estudar.
Relativamente aos discursos sobre “estudar não compensa”, umas notas repescadas.
Não esqueço o altíssimo e inaceitável nível de desemprego entre os jovens, em particular entre os jovens com qualificação superior, mas esta questão decorre do baixo nível de desenvolvimento do nosso mercado de trabalho, de circunstâncias conjunturais e de erradas políticas de emprego e não da sua qualificação.
Neste cenário e como sempre afirmo, o discurso muitas vezes produzido no sentido de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação sendo, um autêntico tiro no pé de uma sociedade pouco qualificada como a nossa que, efectivamente e contrariamente à tão afirmada quanto errada ideia de que somos um país de doutores, continua, em termos europeus, com uma das mais baixas taxas de qualificação superior em todas as faixas etárias incluindo as mais jovens. Aliás, estamos longe de poder vir a cumprir a meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos.
Conseguir níveis de qualificação compensa sempre e é imprescindível. 
O que acontece verdadeiramente é termos desenvolvimento a menos, não é qualificação a mais, temos um mercado de trabalho que a cegueira da austeridade e do empobrecimento proletarizou e precarizou e que não absorve a mão-de-obra qualificada. Não podemos passar a mensagem de que a qualificação não é uma mais-valia.
É um tiro no pé.

sábado, 8 de junho de 2019

FAMÍLIA, "THE SHELTERING SKY"

Gostei de ler o texto de Maria Gouveia Pereira no Público, "O efeito protector da família nos desafios da adolescência".
É abordada a importância protectora que a família tem na resposta aos desafios da adolescência. Em muitas conversas que realizo com pais estes “desafios” estão quase sempre na agenda. Normalmente começo por recordar que crescer e ser, desde que se nasce é sempre um desafio mas, evidentemente, percebo as inquietações associadas a estas idades.
Parece-me também importante reafirmar, faço-o convictamente, que na maioria das situações, com mais ou menos sobressaltos … a coisa corre bem.
Também sei que quando emerge algum mal-estar a situação pode ser bem complicada para adolescentes e pais e uma ajuda exterior pode fazer a diferença. Dito isto, também entendo que é necessária prudência para evitar um excesso de “psicologização” da vida educativa das famílias e na ideia de que existe algures um manual de instruções que tudo conserta.
A família, recorrendo às palavras de Paul Bowles que inspirou Bertoluci num filme notável, deveria ser sempre percebida como “The sheltering sky”, um céu protector na vida de todos os seus membros, designadamente, nos que pela idade ou pelas circunstâncias enfrentam “desafios”.
Parece-me ainda claro que este céu protector só pode ser construído com base na comunicação, na escuta, na disponibilidade (não estou a falar de tempo embora também), de percepção do que se passa com o outro e do que ele sente.
Os estilos de vida, as alterações dos quadros de valores e de prioridades nem sempre serão muito amigáveis para a construção deste céu protector. Como sabemos as alterações climáticas são uma realidade e também neste céu familiar se verificam alterações de clima a que importa estar atento e prevenir … comunicando.
As famílias, nas suas diferentes tipologias não podem ser um grupo de pessoas com a chave da mesma casa na qual se cruzam, pouco falam e se escondem num ecrã. Tornam-se tóxicas e degradam-se.
Corremos então o risco de alguns adolescentes, sobretudo em períodos mais crispados do ponto de vista social, como estamos a viver, por exemplo, viverem com margens muito apertadas. Vejamos alguns exemplos, se alguém os inquirir sobre o que pensam ser o seu futuro, o seu projecto de vida, muito provavelmente obterá uma resposta vazia, ou seja, não têm projecto de vida, não têm ideia de futuro, trata-se assim de viver o presente e apenas o presente. A adolescência é uma fase fundamental na construção da identidade. Certo, que identidades estão muitos destes jovens a construir? Revêem-se nelas? Ou sentem-se meio perdidos num mundo em que não sentem caber e encostam-se aos que estão tão perdidos quanto eles. Que referências sustentam muitos destes jovens, o lado positivo? Os modelos adequados, o que quer que isto seja? Ou os modelos fornecidos por quem, como eles, vive o presente à pressa cheio de medo do futuro, procurando chegar a tudo antes que se acabe a oportunidade?
Por vezes lembro-me de Brecht, “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. Esta ideia não tem como objectivo branquear ou desculpar os comportamentos socialmente inadequados de adolescentes, dirigidos a outros ou mesmo a si próprio mas a verdade é que muitos vivem com margens demasiado estreitas.
Educar pode traduzir-se em ajudar alguém a tomar conta de si próprio. Assim, a autonomia é o fio estruturante da acção educativa e começa no berço. Quanto mais autónomos mais autodeterminados e auto-regulados as crianças e jovens serão, menos será necessário "tomar conta deles", eles saberão tomar conta de si de forma adequada.
O afecto é imprescindível, não existe "afecto a mais" ou, noutra versão, "mimos a mais". Existe mau afecto e mau mimo e mau porque é tóxico, faz mal e não por ser muito.
As regras e os limites são bens de primeira necessidade. Tal como com os afectos, nenhuma dieta educativa pode prescindir de regras e limites.
Finalmente e insistindo, a educação, escolar ou familiar, assenta na relação que tem como ferramenta essencial a comunicação. A comunicação é essencial, em qualquer idade.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

RANKINGS ESCOLARES REVISTOS EM BAIXA


Talvez porque estejamos à porta de nova época de exames a que, evidentemente se seguirá a divulgação de um produto sazonal que dá pelo nome de “rankings escolares”, o DN retoma uma notícia de Outubro de 2018 que também na altura tive oportunidade de aqui referir e me parece merecer discussão alargada mas, certamente, inconclusiva dada a sua natureza.
Em Singapura terá sido decidido abolir a partir do próximo ano lectivo a construção e divulgação de rankings escolares com base nos resultados em exames bem como não divulgar outras informações de natureza comparativa sobre o desempenho escolar dos alunos.
A decisão, de acordo como o Ministro da Educação, Ong Ye Kung, assenta no princípio a promover junto dos alunos e famílias que “aprender não é uma competição”. Aliás, será interessante considerar toda a argumentação e sustentação da medida. A decisão é ainda mais surpreendente considerando a posição cimeira habitualmente ocupada por Singapura nos estudos comparativos internacionais e na sua habitual defesa destes dispositivos.
Como escrevi na altura, esta decisão merece umas notas.
Apesar de continuar com dificuldade em defender a sua bondade não tenho uma atitude fundamentalista face à sua construção, sobretudo considerando a evolução que se tem verificado nos últimos anos, quer na disponibilização de informação por parte do ME para além dos “meros” resultados da avaliação externa, quer na forma como essa informação é tratada e divulgada por diferentes entidades.
No entanto, apesar da muita informação revelada, os rankings não revelam, e não revelam, sobretudo, que se fará a seguir com a informação que os rankings mostram (e não mostram). Na verdade, também não mostram o que não se pode medir mas se pode avaliar e que é tão essencial como o que se mede. Dito de outra maneira, mantenho a dúvida expressa por Gil Nata e Tiago Neve do Centro de Investigação e Intervenção Educativas da U. do Porto que num texto no Público no início deste ano questionavam, “Assim, passados 20 anos, a pergunta impõe-se, onde estão as evidências de que a publicação dos rankings tenha contribuído para a melhoria do sistema educativo? “
Sendo um defensor intransigente de uma cultura e prática de exigência, avaliação e qualidade, parece-me bem mais importante o aprofundamento dos mecanismos de autonomia e responsabilização com a existência em todos os agrupamentos ou escolas de Observatórios de Qualidade (muitas têm) que integrem também elementos exteriores à escola. Existem capacidade técnica e recursos suficientes. O trabalho realizado por esses Observatórios, este sim, deveria ser divulgado e discutido em cada comunidade e passível de leituras cruzadas com dados nacionais.
Ainda a propósito e como aqui já tenho citado, Gert Biesta da Universidade Stirling numa obra notável, "Good Education in a Age of Measurement - Ethics, Politics, Democracy", afirma que uma obsessão centrada na medida, assenta na gestão continuada de uma dúvida, "medimos o que valorizamos ou valorizamos o que medimos?". No mesmo sentido e numa entrevista ao Público em 2011, o Professor Biesta afirmava sugestivamente, “Os rankings são muito antiquados e não devem ter lugar numa sociedade civilizada". Aliás, nesta altura assisti a uma sua notável conferência sobre a questão da medida e da avaliação em educação.
Uma pequena curiosidade ainda relativa a Singapura. Em 2014 o Expresso dedicou um trabalho a alguns países asiáticos que habitualmente ocupam lugares cimeiros nos estudos comparativos internacionais. Foram referidas as experiências de famílias portuguesas com filhos nesses sistemas educativos. Uma mãe referiu que em Singapura uma das primeiras coisas que mais a impressionou foi a dimensão das filas de crianças à porta dos centros de explicações ao fim de semana, "parecem formigas", "No 6º ano os alunos são submetidos a um exame nacional, Só os mais bem classificados acedem às escolas secundárias de elite, a que todos aspiram". Uma outra mãe portuguesa também em Singapura afirmou "Há a assumpção de que todos têm de ser bem-sucedidos. Quem tem mais dificuldade é posto de parte. Estão a surgir cada vez mais casos de depressão entre as crianças".
Como escrevi na altura, não quero esta escola e esta educação para os meus netos e para todos os outros miúdos.
Pode ser que a decisão agora tomada mostre ser possível que a imprescindibilidade de avaliar e medir em educação não tem que a transformar numa competição exacerbada e promotora de mal-estar.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

PAIS, FILHOS E PRÁTICA DESPORTIVA. DE NOVO


No Record tropecei com uma notícia que não pode deixar de provocar um sobressalto de inquietação e perplexidade. Num jogo de futebol do escalão “traquinas”, crianças de 8 e 9 anos, realizado em Alverca, o pai de um dos miúdos agrediu violentamente um árbitro. Talvez seja de recordar que nestes escalões os principais objectivos estabelecidos são (de acordo com a FPF): Cultivar e estimular a alegria de jogar futebol, Criar marcas para a vida, Incentivar as crianças a pensar e a decidir (não formatar), Conquistar a riqueza motora (diversidade de bolas, balizas, regras de jogo,...) e Recriar contexto de futebol de rua.
No entanto, lamentavelmente, trata-se “apenas” de mais um episódio de uma série regular e inaceitável.
É claro que a esta atitude não será alheio o clima explosivo que se tem vindo a instalar com a prestimosa e esforçada colaboração de dirigentes e “comentadores” promovendo o risco cada vez maior de violência e agressão e acabando definitivamente com a velha fórmula do desporto como escola de virtudes. Torna-se cada vez mais difícil alimentar isto.
Por outro lado, é apenas uma questão de escala, trata-se de mais um retrato de como feias são frequentemente as relações entre as pessoas, comunidades ou países.
Parece-me de retomar algumas notas sobre a forma negativa como alguns pais se comportam quando assistem à prática desportiva dos filhos seja em treino, seja em competição.
O fenómeno não é novo, evidentemente. Já aqui contei este episódio, há mais de duas décadas o meu filho era praticante juvenil de uma modalidade colectiva num clube pequeno, hóquei em patins. Por curiosidade era guarda-redes, uma posição ingrata e que me deixava sempre inquieto com os riscos mas de que ele gostava, na qual se empenhava em conjunto com um grupo de que ainda hoje conserva amigos.
Nos treinos, mas sobretudo em jogos o comportamento a que assistia por parte de alguns adultos (pais) era, por assim dizer, muito “envolvido”. Nem sequer falo das “orientações” constantes substituindo o treinador ou dos incentivos, da exigência e da pressão sempre ruidosas. Falo de em muitos recintos ver miúdos a ser insultados e ameaçados. Numa circunstância um dos miúdos foi mesmo agredido por uma senhora quando patinava junto à lateral do campo. Quando assistia a jogos em alguns locais o ambiente era preocupante e intimidatório. Estamos a falar de jogos entre crianças. Lamentável e um espelho de um quadro de valores instalado.
No entanto e sendo isto verdade, é importante também dizer que provavelmente mais do que hoje, as condições mudaram, eram o empenho e o voluntarismo de alguns pais que permitiam que muitas crianças praticassem algum desporto em clubes e estruturas muito pequenas e com meios e recursos insuficientes.
Ainda sobre a forma como alguns pais se relacionam com os filhos a propósito da prática desportiva deixo uma cena a que também assisti e que também aqui divulguei que parece elucidativa de uma atitude muito generalizada, lamentavelmente.
Actores principais - Pai e filho com uns 6 ou 7 anos
Actores secundários - A mãe que entre chamadas no telemóvel grita incentivos para o filho
Cenário - uma zona relvada com dois pinos colocados de forma a simular uma baliza.
Assistentes discretos - o escriba
Guião - O pai ensina o filho a dar pontapés numa bola de futebol em direcção à baliza dos pinos
Cena e diálogo (reconstruído a partir de excertos ouvidos pelo escriba)
O pai apontando para uma zona do pé do miúdo que tem botas de futebol calçadas - Já te disse que é com esta parte do pé que tens de acertar na bola, vê se tomas atenção.
O miúdo em silêncio faz mais uma tentativa que não sai muito bem, não acerta na baliza.
O pai - Assim não vale a pena, não fazes como te digo, tens que estar concentrado, (aqui lembrei-me do Futre, um homem concentradíssimo e, certamente por isso, um grande jogador).
O filho - Mas eu dei com esta parte.
O pai - És parvo, se tivesses dado com essa parte a bola tinha ido para a baliza. Faz outra vez.
O miúdo com um ar completamente sofredor executa o que em futebolês se chama o gesto técnico e a bola teimosamente voltou a não sair na direcção desejada.
O pai - Pareces burro, se queres ser jogador de futebol, tens que te aplicar, (será que o miúdo quer mesmo ou será o pai que quer viver um sonho que foi dele e que agora cobra no filho?).
O miúdo, desesperado, sentou-se no chão com ar de quem espera o fim do jogo.
O pai, irritado, mandou a bola para longe com um forte pontapé.
O escriba pensou que se o árbitro tivesse visto, o pai merecia um cartão por comportamento incorrecto.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O NÚMERO DE ALUNOS POR TURMA. DE NOVO


A partir do próximo ano lectivo também no ensino secundário se verificará a redução do número máximo de alunos por turma.
Cada turma terá um número mínimo de alunos de 24 e um máximo de 28 em vez dos actuais 26 de mínimo e 30 de máximo. O ensino profissional também terá pelo menos 22 e no limite 28 alunos por turma.
Contrariamente à situação actual, as turmas do secundário podem ainda ser reduzidas até 22 alunos se se existirem alunos com necessidades específicas que o justifiquem.
Não tenho dados disponíveis que mostram o impacto desta alteração, muitas turmas já funcionam com este efectivo mas, de qualquer forma, as alterações que se vierem a verificar serão potencialmente um ganho.
Como já escrevi e insisto, seria desejável que em conjunto com a redução do efectivo de turma se considerasse um outro importante aspecto nem sempre valorizado, o número de alunos por professor. Muitos professores lidam com muitas turmas perfazendo números acima dos 120 ou 150 alunos. Parece dispensável explicitar as implicações negativas desta situação.
A revisão de estudos sobre o número de alunos por turma e o seu impacto mostra o que também conhecemos, existem vantagens em turmas de menor dimensão que podem ser mais ou menos significativas em função das variáveis em análise.
Parece-me de acentuar que os estudos sugerem com clareza a existência de impacto positivo no clima e comunicação na sala de aula, na maior facilidade de práticas educativas mais diferenciadas, no comportamento dos alunos, etc., o que, evidentemente deve ser considerado.
Alguns estudos, apenas centrados em resultados, não encontram diferenças significativas mas também me parece que nem sempre são consideradas variáveis importantes, de contexto por exemplo, o que frequentemente também não é tido em conta nos discursos de alguns economistas da educação.
É também fundamental considerar as diferentes características dos diversos territórios educativos independentemente da sua classificação como TEIP. Na verdade, é necessário considerar as diferenças de contexto, isto é, a população servida por cada escola, as características e dimensão da escola, a constituição do corpo docente, os recursos disponíveis, etc. Importa ainda sublinhar que a qualidade e sucesso do trabalho de professores e alunos depende de múltiplos factores, sendo que a dimensão do grupo é apenas um, ou seja, importa considerar, vejam-se relatórios e estudos nesta área, as práticas pedagógicas, os processos de organização e funcionamento da sala de aula e da escola, recursos e dispositivos de apoios, bem como o nível de autonomia de cada escola ou agrupamento, entre outros. Daí a importância de promover uma autonomia real. Aliás, dentro do que entendo por verdadeira autonomia das escolas, deveriam ser a ter a competência para definir e organizar as turmas embora aceite a existência de orientações nesse sentido.
Aliás, também com base na autonomia das escolas poderiam ser consideradas outras opções como a presença de dois professores em sala de aula. Em algumas circunstâncias pode ser mais vantajosa que a redução do número de alunos por turma.
Acresce nesta matéria a importância da qualidade do trabalho em turmas com alunos com necessidades educativas especiais o que, evidentemente, deve ser considerado na análise do efectivo de turma, desde logo cumprindo o que esteja legislado e acautelando a tentação de “inclusões administrativas” em que os alunos ficam “entregados” e não “integrados”.
Diga-se ainda que é quase dispensável referir a diferença entre trabalhar com 26 ou 28 alunos num estabelecimento privado de acesso “protegido” ou com o mesmo número de alunos num mega-agrupamento de uma escola pública em que um professor lida com várias turmas, centenas de alunos ou se desloca entre escolas para trabalhar.
Não só por esta razão, dimensão das turmas e qualidade do trabalho dos alunos, de todos os alunos, e dos professores, também me parece que deveria ser promovida uma verdadeira desburocratização do trabalho nas escolas e promovido algum ajustamento na sua organização e funcionamento o que certamente libertaria tempo de professores para trabalho em turma ou em apoios que promovessem qualidade.
Sei que mudanças neste sentido são politicamente difíceis e terão custos. No entanto, são imprescindíveis e os custos do insucesso e da exclusão são incomparavelmente mais caros.


terça-feira, 4 de junho de 2019

CAIXAS DE COMENTÁRIOS E EDUCAÇÃO


No Público encontra-se uma referência a um trabalho de investigação que analisou 28 mil comentários recolhidos nas caixas de comentários de três jornais, Público, Expresso e Observador durante a campanha eleitoral das legislativas de 2015. O trabalho foi realizado por João Gonçalves, professor na Universidade de Roterdão, na Holanda, no âmbito de uma tese de doutoramento.
Da análise realizada e neste contexto releva o nível impressionante de “incivilidade” como designa o autor os discursos contendo insultos, ódio, ameaças, intolerância.
É interessante esta análise pois já há muito tempo que aqui no Atenta Inquietude tenho referido o embaraço que sinto quando passo os olhos pelas caixas de comentários de notícias ou trabalhos relativos ao universo da educação, designadamente quando se refere a professores. Embora lhes procure fugir quando se trata de educação nem sempre resisto e espreito. Prometo sempre a mim mesmo que não repetirei pois boa parte das vezes e com uma parte muito grande dos comentários fico algures entre o perplexo, o amargurado, o preocupado ou … agoniado.
De facto, é espantosa e muito preocupante a ignorância e a boçalidade com que muitas pessoas falam do trabalho educativo e do desempenho e problemas dos professores que muito frequentemente são "destratados".
É gente que tem soluções para todas as questões, claro, e a responsabilidade (culpa) de todos os problemas é atribuída a uma classe que não passa de uma cambada de energúmenos, incompetentes, mercenários e absentistas muito bem pagos e que a ninguém prestam contas.
Na verdade nem sequer estranho, gente com mais responsabilidade e conhecidos “opinion makers” fazem, com um maior grau de sofisticação, justiça lhes seja feita, apreciações da mesma natureza.
Recorrendo a uma conhecida expressão do “tuguês, “mete-me espécie” uma questão.
Boa parte dos autores destes comentários e dos que peroram assim em espaços de opinião tiveram, têm ou terão filhos em idade escolar e que frequentaram, frequentam ou virão a frequentar a escola.
Será que detestam tanto os filhos ou são tão negligentes que os colocam todos dias nas mãos destes malandros, os professores?
Ou serão tão ignorantes que falam do que não sabem ou considerando o todo através de uma experiência pessoal eventualmente menos positiva?
Não estou com isto a branquear incompetência ou erros, existem, claro que existem e o sistema carece de melhor regulação.
Estou apenas a dizer que boa parte destes discursos fazem parte do problema e alimenta o clima pouco amigável em que decorre a difícil acção educativa de professores e pais.
Uma análise e uma reflexão aprofundada sobre os conteúdos, os seus significados e interpretações, destes espaços de opinião, as caixas de comentários, também dariam certamente origem a um interessante trabalho de investigação.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

PARTIU AGUSTINA BESSA-LUÍS

Partiu Agustina Bessa-Luís. Nunca me senti particularmente próximo da sua escrita mas foi, é, uma referência na literatura e, portanto, na Cultura portuguesa.
E as referências fazem falta. Ficamos mais pobres.

O FESTIVAL DA GRELHA

Com o aproximar do Verão e também a proximidade das férias entramos na época alta do recurso a algo de grande consumo que, felizmente, não existe qualquer dificuldade em conseguir, as fontes são imensas. Refiro-me a grelhados, à realização do festival da grelha que acontecerá  nas nossas comunidades.
Somos um país especialista na utilização da grelha e temos muitos mestres de feitura de grelhas, desde as mais simples que servem para grelhar pouca coisa, até às mais complexas que conseguem grelhar o que quer que seja.
Apesar de toda a gente se queixar do excesso de grlhados, do trabalho e do tempo que o uso das grelhas consome, a verdade é que por várias razões não conseguimos passar sem elas. Ao fim e ao cabo são muitos anos a assar, perdão a grelhar …
Como sempre, não haverá nada ou que não possa caber numa grelha, as grelhas acomodam tudo, são verdadeiramente inclusivas.
Algumas acomodam produtos universais e têm grande divulgação, outras são um pouco mais selectivas, grelham produtos mais particulares. Para que tudo possa ser grelhado ainda existem grelhas mais dirigidas a produtos adicionais, são de natureza mais específica e não cabem nas outras grelhas.
Os espaços de utilização das grelhas ultima a sua construção e e depois é uma azáfama sem fim, grelhar, grelhar, grelhar. Dos mais pequenos aos maiores.
No entanto, em nome do bem-estar seria desejável que não exagerássemos no recurso aos grelhados até porque ... nunca se consegue grelhar tudo o que se acredita que deve ser grelhado, nem que se entende que deve ser grelhado.
Será que conseguimos?

domingo, 2 de junho de 2019

INTERESSANTE, "ESCOLA: O ELO MAIS FRÁGIL"


Merece reflexão o texto pertinente de João Ruivo, “Escola: o elo mais frágil”. Em sociedades cada vez mais desenvolvidas e, portanto, exigentes relativamente à formação dos cidadãos, quer nos conteúdos instrumentais ligados especificamente ao exercício de uma profissão, quer no acesso a outras competências, a escola tem um papel absolutamente crítico e progressivamente mais difícil devido, não só a esta exigência mas também pela velocidade da mudança que só muito dificilmente consegue ser acompanhada pela mudança na escola.
Neste cenário e sem estranheza os professores são actores essenciais em todo este processo sendo que eles próprios estão sujeitos à mudança o que acentua a dificuldade do exercício da docência contrariamente ao que alguns opinadores "acham".
Na linha do que refere João Ruivo julgo que aos professores e às escolas cabe um papel que solicita autonomia real, formação valorizada e valorização social e profissional e solidez ética e deontológica.
Os professores não podem ser vistos, desculpem o exagero, como uns burocratas a papaguear aulas para grupos de alunos "normalizados" com base num currículo prescritivo e no manual adoptado que têm outros burocratas a medir saberes e uns outros ainda a construir fórmulas e grelhas de gestão num qualquer serviço centralizado.
Esta visão de professores assente em “content delivery”, que cumprem ordens e programas, que não têm que fazer escolhas, possuir conhecimento aprofundado, solidez nas metodologias, valores éticos e morais, etc, associa-se à ideia de “deskilling, que fragiliza a sua acção e compromete seriamente a qualidade do seu trabalho e a resposta aos desafios.
Esta “desprofissionalização”, como também lá li em João Ruivo, pode tornar os professores mais “baratos” mas o nosso futuro será mais caro de pior qualidade.
Definitivamente, todas as necessárias mudanças na educação só podem ocorrer e ser bem-sucedidas com o envolvimento dos professores.

sábado, 1 de junho de 2019

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA. 2019


A agenda das consciências determina para hoje o Dia da Criança. A liturgia variada associada à efeméride vai acontecer como de costume. As visitas, os passeios, as festas, etc., as idas a espectáculos de todas as naturezas mostrarão uma comunidade preocupada em fazer as crianças felizes. Muitas estão e parecem divertir-se, ainda bem. Algumas outras terão de passar por um dia cansativo.
A imprensa fará eco dos múltiplos eventos dirigidos às crianças, ouvirá por uma vez as crianças e produzir-se-ão, certamente, muitos discursos dirigidos aos miúdos e ao seu mundo.
Claro, neste dia, ouvi-las sobre o que pensam do mundo, do seu mundo e da vida das pessoas, é "giro". É verdade que passa depressa, amanhã já não as ouvimos sobre o que as inquieta e lá voltam os miúdos, muitos, a gritar e a agitar-se para se fazerem ouvir.
Tudo bem, pois que seja. Este tipo de efemérides serve também para isso mesmo, a encenação, sempre bem-intencionada da preocupação que descansa as consciências.
É verdade, felizmente, que muitas crianças vivem felizes, por assim dizer, adoptadas pelos pais, acolhidas pela escola e pela comunidade, são o futuro a crescer.
No entanto e nestas alturas lembro-me com frequência do Mestre Almada que na Cena do Ódio falava sobre, "a Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões". De facto, apesar da vaga de discursos e iniciativas em nome das crianças, muitos passam mal, muito mal, todos sabemos. Não cabem no Dia da Criança.
Não cabem os que diariamente são vítimas de crimes e maus-tratos.
Não cabem muitos dos que vivem numa instituição esperando por uma família que nunca virá.
Não cabem os que, por várias razões, são alvo de discriminação e a quem são negados direitos básicos.
Não cabem os que vivem em famílias que os não desejam e mal os suportam.
Não cabem os que a pobreza ameaça as suas necessidades básicas.
Não cabem os que vivem em famílias que sobrevivem envergonhadamente na pobreza que nos deveria envergonhar a nós.
Não cabem os que a escola não consegue ajudar a construir um futuro a que valha a pena aceder e sofrem políticas educativas nem sempre suficientemente amigáveis para os todos os miúdos.
Não cabem os que sofrem de solidão e isolamento sem que se perceba como não estão bem.
Na verdade, estes miúdos de que acabei de falar, por vezes, parece que não existem, são transparentes, nem os vemos. Por isso, comemora-se o Dia Mundial da Criança com a convicção ingénua ou voluntarista de que, como dizia Pessoa, "o melhor do mundo são as crianças" e que elas são felizes, todas.
O que, obviamente, não corresponde à realidade mas os poetas ... são uns fingidores.
E sabem o que é mais inquietante?
Para o ano vou voltar com este texto, não prescreve.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

"AS CRIANÇAS NÃO APRENDEM SE NÃO FOREM TOCADAS NOS SEUS CORAÇÕES"


Gostei de ler a entrevista de Bárbara Wong a Alberto M. Carvalho no Público, “As crianças não aprendem se não forem tocadas nos seus corações”. Lê-se no “lead” da peça, “Alberto M. Carvalho é uma espécie de ministro da Educação de Miami-Dade, que defende a equidade. Para isso, luta por criar todas as condições para que o aluno consiga ter sucesso. Da ida ao médico ao jantar, sem esquecer a oferta de um ensino de qualidade. A escola ideal existe, acredita, foi ele que a criou”.
A propósito da reflexão que a entrevista justifica nestes tempos duros em que para muitos falar destas coisas é perda de tempo, entendem que os professores entregam conteúdos e alguns alunos aprendem e os outros, paciência, vão para outros caminhos pois nem todos "têm jeito" para a escola, umas notas repescadas.
As alterações nos estilos de vida, nos valores sociais, culturais, económicos, etc., nos modelos de desenvolvimento económico e consequente visão política e as suas consequências nas políticas educativas parecem ter criado um tempo em que emerge a necessidade de “trabalhar” as emoções nos contextos educativos. Os climas sociais e de aprendizagem em diferentes escolas e salas de aula são pouco amigáveis para alunos mas também para professores como múltiplos estudos evidenciam.
Talvez tenhamos que reflectir sobre isto e retomar coisas velhas, nada “inovadoras”, nada "revolucionárias", nenhum “novo paradigma”, a educação escolar é estruturada e alimentada pela relação e a relação, para que exista e seja positiva, tem como ingrediente … a emoção. Nas minhas conversas por aí sobre estas coisas da educação desafio muitas vezes pais ou professores a recordarem muito brevemente professores de quem guardam boas memórias. Quando lhes pergunto porquê, as justificações remetem muito significativamente para a relação que com eles tiveram, para além do que com eles aprenderam das “coisas da escola”.
Como dizia em cima, a educação escolar, a acção do professor, tem esse princípio fundador, assenta na relação que se operacionaliza na comunicação. Também por isso são também preocupantes os tempos que vivemos em que os professores têm pouco tempo para comunicar, para conversar com os alunos e as emoções entram em turbulência e descontrolo. A pressão para os resultados, a extensão dos conteúdos curriculares, o número de alunos por turma, por exemplo, dificultam essa relação. O professor “fala com o programa”, a maioria dos alunos entende, outros não e como esses é preciso falar mas … para os mandar calar ou até sair. Há pouco tempo para conversar, para “cativar”, como diria Saint-Exupéry.
Por isso tantas vezes afirmo que os professores, tanto ou mais do que ensinar o que sabem, ensinam o que são. Quando nos lembramos com ternura e admiração de alguns professores que nos marcaram pela positiva é pelo que eles eram e nem sempre pelo que nos ensinaram apesar da importância que tenha tido.
Sendo certo que precisamos de ajustamentos regulares no que fazemos, no como fazemos e para que fazemos, não “inovemos” tanto, não queiramos tantos “novos paradigmas”, não "mudemos" tudo pela ilusão mágica da mudança.
Criemos, apenas, o tempo e o modo para que nas salas de aula os professores e os alunos tenham o tempo e a circunstância que lhes permita comunicar, entre si, com a razão e com a emoção. Irão aprender e serão gente de bem.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O DIA DA ESPIGA


Como dizia Camões o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.
Hoje passa o Dia da Espiga, como se dizia quando era pequeno para referir a Quinta-feira da Ascensão.
Acho que já muito pouca gente repara no Dia da Espiga, como já nenhuns miúdos aparecem a pedir "Pão por Deus" no 1º de Novembro, o Dia de Todos os Santos.
Voltando ao Dia da Espiga e a umas dezenas de anos atrás, na minha casa íamos sempre buscar a sorte prometida no ramo da Espiga. Com o meu pai, pegávamos nas bicicletas, na altura o meio de transporte familiar, e íamos à quinta onde vivia a Avó Leonor apanhar o ramo da Espiga, papoilas, flores silvestres, sobretudo malmequeres amarelos e brancos, o que se encontrasse de espigas de cereais e o ramo de oliveira.
Fazia-se o ramo atado com ráfia, arranjávamos sempre mais do que um para oferecer aos vizinhos e colocava-se pendurado lá em casa por cima da mesa do jantar como chamariz da sorte. Saía apenas quando era substituído pelo novo ramo da Espiga. Nunca me lembro de termos conseguido associar a presença do ramo ao que de bom nos ia acontecendo, mas o ramo da Espiga lá estava e a tradição era sempre cumprida.
Nas novas qualidades que o mundo vem tomando, não parece que possam caber minudências como andar no campo, se houver campo, à cata de flores, espigas e um raminho de oliveira. Não sei se é bom, ou se é mau, mas eu gostava de ir à Espiga, mesmo se não confiava muito na sorte.
Resta dizer que o ramo da Espiga chegou há pouco vindo do Alentejo, aqui por casa algumas tradições mantêm-se.

DO FECHAMENTO DE ESCOLAS


Todos os anos vamos sabendo do encerramento de escolas, deste ano mais dois exemplos, os jardins-de-infância em zonas rurais do Concelho de Lamego e a Escola Primária de A-do-Pinto (pré-escolar e primeiro ciclo) e o jardim-de-infância de Vales Mortos do Concelho de Serpa serão encerrados apesar da forte discordância dos autarcas das comunidades envolvidas. Provavelmente existirão outras escolas e jardins-de-infância que mais ou menos discretamente serão encerradas.
É sempre com tristeza que leio sobre o fechamento das escolas embora também o compreenda em algumas situações. Algumas notas.
Muitas das questões que se colocam em educação, como noutras áreas, independentemente da reflexão actual, solicitam algum enquadramento histórico que nos ajudem a melhor entender o quadro temos no momento. Durante décadas de Estado Novo, tivemos um país ruralizado e subdesenvolvido. Em termos educativos e com a escolaridade obrigatória a ideia foi “levar uma escola onde houvesse uma criança”. Tal entendimento minimizava a mobilidade e a abertura sempre evitadas. No entanto, como é sabido, os movimentos migratórios e emigratórios explodiram e o interior entrou em processo de desertificação o que, em conjunto com a decisão de política educativa referida acima, criou um universo de milhares de escolas, sobretudo no 1º ciclo, com pouquíssimos alunos. Como se torna evidente e nem discutindo os custos de funcionamento e manutenção de um sistema que admite escolas com 2, 3 ou 5 alunos, deve colocar-se a questão se tal sistema favorece a função e papel social e formativo da escola. Creio que não e a experiência e os estudos revelam isso mesmo. Parece pois ajustada a decisão de em muitas comunidades proceder a uma reorganização da rede.
É também verdade que muitas vezes se afirma que a “morte da escola é a morte da aldeia”. No entanto, creio que será, pelo menos de considerar, que os modelos de desenvolvimento económico e social promovem a litoralização e desertificação do interior. Apostas políticas erradas não contrariam este processo, antes pelo contrário, promovem-no fechando os equipamentos sociais, incluindo as escolas, uma das formas evidentes de fixação das pessoas. Cria-se assim um ciclo sem fim, as pessoas partem, fecham-se equipamentos, as pessoas não voltam ou continuam a partir.
Seria fundamental a coragem e a visão para outros caminhos.
Por outro lado, afirmo-o com frequência, a concentração excessiva de alunos não ocorre sem riscos. Para além de aspectos como distância a percorrer, tipo de percurso e apoio logístico, importa não esquecer que escolas demasiado grandes são mais permeáveis a insucesso escolar e exclusão, absentismo, problemas de indisciplina e outros problemas de natureza comportamental como bullying.
Neste cenário, a decisão de encerrar escolas não deve ser vista exclusivamente do ponto de vista administrativo e económico, não pode assentar em critérios generalizados esquecendo particularidades contextuais e, sobretudo, não servir como tudo parece servir em educação, para o jogo político.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

QUERIDA FAMÍLIA, AMIGOS E CONHECIDOS


Foram conhecidos dados do Projecto Rede Care da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima direccionado para a situação de abusos sexuais dirigidos a crianças e adolescentes no período entre 2016 e Maio de 2019. No total foram apoiadas 881 crianças e adolescentes vítima deste tipo de violência.
O número de situações que chegam à APV tem vindo aumentar durantes este período, em 2016 recebeu 195 novos pedidos de ajuda, em 2017 foram 251, em 2018 registaram-se 301 e até Maio de 2019 já se registar 131 novas situações o que dá uma média mensal superior à dos anos anteriores.
De acordo com a responsável por esta área de investigação “Tem havido muito mais participações. Vêm sobretudo da família das vítimas mas também das escolas e comissões de menores."
Na verdade continua com uma regularidade impressionante a revelação de casos de abusos sexuais sobre crianças e adolescentes. Como os estudos nesta área sempre reconhecem a maioria dos abusos sexuais sobre crianças ocorre nos contextos familiares e envolve família e amigos, não em instituições que, provavelmente na sequência do caso Casa Pia, até se terão tornado mais atentas e eficazes na prevenção de abusos, embora continuem, evidentemente, a acontecer como tem sido divulgado.
Os dados agora conhecidos reportam que maio maioria dos crimes, 54,1% ocorre em contexto familiar e quando fora deste contexto, 39.9% a maioria dos agressores é alguém conhecido da vítima. Dito de outra maneira na maior parte dos casos de abuso é da responsabilidade de pessoas que a criança ou adolescente conhece e, em princípio, confia.
Apesar das mudanças verificadas em termos legais e processuais, a fragilidade ainda verificada na criação de uma verdadeira cultura de protecção dos miúdos leva a que muitos estejam expostos a sistemas de valores familiares que toleram e mascaram abusos com base num sentimento de posse e usufruto quase medieval.
Muitas crianças em situação de abuso no universo familiar ou por pessoas conhecidas ainda sentem a culpa da denúncia das pessoas da família ou amigos, a dificuldade em gerir o facto de que pessoas que cuidam delas lhes façam mal e a falta de credibilidade eventual das suas queixas bem como das consequências para si próprias, uma vez que se sentem quase sempre abandonadas e sem interlocutores em que possam confiar ou ainda o medo das consequências da denúncia.
A este cenário acrescem os riscos que as novas tecnologias vieram introduzir, sendo conhecidos cada vez mais casos em que a internet é a ferramenta utilizada para construir o crime.
Neste quadro, para além da eficiência dos sistemas de justiça e apoio, continua a ser absolutamente necessário que as pessoas que lidam com crianças, designadamente na área da saúde e da educação, sejam capazes de “ler” os miúdos e os sinais que emitem de que algo de menos positivo se passa com eles.
Esta atitude de permanente, informada e intencional atenção aos comportamentos e discursos dos miúdos é, do meu ponto de vista, uma peça chave para minimizar a tragédia dos abusos sobre as crianças e o enorme sofrimento provocado.

terça-feira, 28 de maio de 2019

OS PILHA-GALINHAS


Li com alguma curiosidade que a Autoridade Tributária em colaboração com a GNR montou uma operação numa rotunda da zona norte em que verifica se os condutores têm dívidas às Finanças. Ainda de acordo com a notícia, em caso de dívida os “delinquentes” são “convidados a pagar” e não o fazendo podem ver a sua viatura penhorada.
Como cidadão não estranho iniciativas no sentido da cobrança de dívidas fiscais. Mas uma operação desta natureza é patética e insulta a inteligência para além de, ao que parece, ser de duvidosa legalidade.
Em primeiro lugar, as grandes dívidas ao Fisco serão de devedores associados a indefinidas “sociedades”, são na casa dos muitos milhares ou milhões e quase sempre ao abrigo de manhosos esquemas de evasão e branqueamento fiscal com a cobertura eficiente de ardilosos esquemas sustentados nas armadilhas da lei que diligentemente é definida com o apoio de bem pagos “especialistas em fiscalidade amigável”.
A probabilidade de apanhar devedores deste calibre numa operação destas parece-me mínima mas talvez seja essa a intenção, apanha-se uns pilha-galinhas com dívidas menores, dá-se uma prova de “força” e a coisa até parece funcionar.
Não, não funciona, isto é uma prova de fraqueza, de ineficiência, uma tentativa de tapar o Sol com uma peneira.
Uma nota final para a decisão tomada pelo Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais mandando cancelar a “operação” … quando ela já tinha terminado ao que parece com a penhora de dois carros e camião e mais uns trocos recebidos. Ainda assim, uma medida de bom senso.
Coisas desta terra onde acontecem ... coisas.

A HISTÓRIA DO NINGUENZINHO


Quando nasceu, alguém exclamou que parecia um Ninguenzinho e assim ficou, Ninguenzinho. Manteve-se sempre mais pequeno que os miúdos da sua idade. Contrariamente ao que as pessoas esperam de miúdos pequenos o Ninguenzinho era o mais apagado e discreto dos miúdos, quase não se dava por ele. Como sabem, as pessoas preocupam-se fundamentalmente com os muitos bons e com os muito maus e por isso, praticamente, não reparavam no Ninguenzinho.
A escola foi cumprida a um canto, triste e sem que alguém, alguma vez, se lembrasse de uma palavra ou gesto de apreço ou incentivo ao Ninguenzinho. Como sabem na escola, notam-se e merecem atenção sobretudo os muito bons alunos e os muito maus alunos.
Fez-se adulto como sempre foi ao crescer, num canto, triste e na sombra. Como sabem, as pessoas reparam sobretudo naqueles que brilham, por coisas boas ou por coisas más.
O Ninguenzinho manteve-se sempre só, sem família sua e sem amigos seus. Como sabem, as pessoas reparam mais nos que têm gente à volta, por boas ou más razões.
No dia em que o Ninguenzinho deixou de aparecer, ninguém reparou na sua falta. Como sabem, as pessoas só notam a falta de quem é alguém, não de quem é um Ninguenzinho.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

CRIANÇAS DESAPARECIDAS


O calendário das consciências determina que o dia 25 de Maio seja o Dia Internacional da Criança Desaparecida. Passado o fim-de-semana eleitoral algumas notas sobre este inquietante universo.
Ao que parece e felizmente estão a registar-se em Portugal menos casos de crianças e adolescentes desaparecidos. No entanto, e em termos mais globais a tragédia que envolve o desaparecimento de crianças no âmbito da crise dos refugiados assume proporções alarmantes e que são uma acusação fortíssima à mediocridade das lideranças mundiais
A maioria das situações de desaparecimento de crianças em Portugal tem um final positivo, o desaparecimento é temporário e uma reacção a incidentes pessoais ou a resultados escolares.  Lamentavelmente, nem sempre os processos decorrem assim, recordemos as tragédias mais mediatizadas que envolveram o Rui Pedro desaparecido há mais de 20 anos em Lousada no norte de Portugal e a Maddie McCann em 2007 no Algarve, dos quais nada se sabe sobre o que lhes terá acontecido.
De há uns anos para cá tem sido feito um esforço nacional e internacional no sentido de aumentar a eficácia na abordagem a situações desta natureza bem como dedicar maior atenção aos factores de risco de que a título de exemplo se citam as redes sociais, que não podendo, obviamente, ser diabolizadas, apresentam alguns riscos que não devem ser negligenciados.
Merece ainda registo o aumento significativo de crianças desaparecidas através do rapto parental em contexto de separações familiares com algo grau de litígio e que, evidentemente, implicam enorme sofrimento para todos os envolvidos, em particular para os mais vulneráveis, as crianças.
Situações como as do Rui Pedro ou da Maddie McCann são absolutamente devastadoras numa família. Nós, pais, não estamos "programados" para sobreviver aos nossos filhos, é quase "contra-natura". Se a este cenário acresce a ausência física de um corpo que, por um lado, testemunhe a tragédia da morte mas, simultaneamente, permita o desenvolvimento de um processo de luto, a elaboração da perda como referem os especialistas, que, tanto quanto possível, sustente alguma reparação e equilíbrio psicológico e afectivo na vida familiar, a situação é de uma violência inimaginável.
No entanto e neste contexto sem minimizar a sua carga dramática, creio que é também muito importante não esquecer a existência de muitas crianças que estão desaparecidas mas que, por estranho que possa parecer, estão à vista. São situações com contornos menos trágicos e óbvios que por desatenção passam mais despercebidas.
Na verdade, existem muitíssimas crianças e jovens que vivem à beira de pais e professores, de nós, e passam completamente despercebidas, são as que designo por crianças transparentes, olhamos para elas, através delas, como se não existissem. As razões são muitas e as mais vulneráveis tornam-se mais transparentes. Não estando desaparecidas, estão abandonadas. Algumas delas não possuem ferramentas interiores para lidar com tal abandono e desaparecem, mantendo-se à nossa vista, no primeiro buraco que a vida lhes proporcionar, um ecrã, outros companheiros tão abandonados quanto eles, o consumo de algo que lhes faça companhia ou a adrenalina de quem nada tem para perder.
Em boa parte das situações, por estes ninguém procura.
E alguns, por vezes, também se perdem de vez.

DAS EUROPEIAS


Dos resultados das eleições europeias e sem pretensão de análise, por falta de engenho e arte seria impossível concorrer com as centenas de opinadores, politólogos, senadores, comentadores, especialistas em assuntos europeus, etc., duas notas telegráficas.
Em primeiro lugar a preocupante taxa de abstenção que apesar da subida de votantes se mantém demasiado alta.
Da campanha e como tem sido habitual em campanhas anteriores não resultou o esclarecimento sobre que modelos de desenvolvimento sustentam os diferentes partidos e famílias políticas europeias, como equilibrar as necessárias políticas sociais com o funcionamento liberal das economias e como estes equilíbrios se reflectirão na vida das pessoas, qual o compromisso entre a autonomia dos diferentes países e o centralismo normalizador e burocrata de Bruxelas, etc.
Como escrevi há dias, a campanha mostrou um espectáculo degradante e cacofónico. Os discursos, insisto nas excepções, foram de uma mediocridade notável e centrados excessivamente em “não assuntos”, ataques pessoais e insultos, afirmações manhosas que compõem uma democracia com défice de solidez ética, competência e visão.
Este cenário terá dado um forte contributo para uma inquietante abstenção que leva a que uma minoria, parte mobilizada também por valores e convicções mas outra parte influenciada por manipulação e desinformação possa decidir sobre os destinos de uma maioria desinteressada e cansada. Sai derrotada a cidadania.
Uma segunda nota para registar o tombo eleitoral dos partidos de centro-direita, PSD e CDS-PP e também da descida. Do meu ponto de vista, estes resultados sugerem que apesar da narrativa de que “There Is No Alternative”, as pessoas que foram votar continuam a achar que sim, afinal havia outra alternativa e com outros actores.
A ver vamos o impacto destes resultados no clima político dos próximos meses e nas legislativas que estão já aí à porta.

domingo, 26 de maio de 2019

POR ELES E EM NOME DELES


Ainda durante a manhã recebemos uma foto em que os meus netos estavam com um ar feliz a acompanhar o pai no exercício do voto.
Quando olhámos para eles e para o sorriso que gostávamos que se fosse mantendo ao longo de um futuro amigo deles e dos outros como eles percebemos que era impossível não ir votar.
Não queremos carregar o fardo de por omissão podermos entregar os nossos destinos e os deles a quem se move num quadro de valores onde não cabem todos os sorrisos de todas as crianças do mundo.
Está cumprido o dever e senti uma ponta de optimismo pela afluência, na minha mesa de voto estava uma fila ainda que não muito grande. Não me importei de esperar.

SIM, SÃO CAPAZES


Estas não são notícias irrelevantes, pelo contrário, são da maior inspiração e justificam a permanente necessidade de reflexão sobre o universo das pessoas com necessidades especiais.
É verdade.
Sem ser por magia ou mistério quando acreditamos que as pessoas, mais novas ou mais velhas, com algum tipo de necessidade especial, são capazes, não se "normalizam" evidentemente seja lá isso o que for, mas são, na verdade, mais capazes, vão mais longe do que admitimos ou esperamos. Não esqueço a gravidade de algumas situações mas, ainda assim, do meu ponto de vista, o princípio é o mesmo, se acreditarmos que eles progridem, que eles são capazes de ... , o que fazemos, provoca progresso, o progresso possível e níveis de realização significativos.
E isto envolve professores do ensino regular, de educação especial, técnicos, pais, lideranças políticas, empregadores e toda a restante comunidade.
No entanto, em algumas circunstâncias o trabalho desenvolvido com e por estes alunos é ele próprio um factor de debilização, ou seja, alimenta a sua incapacidade, numa reformulação do princípio de Shirky.
Tal facto, não decorre da incompetência genérica dos técnicos, julgo que na sua maioria serão empenhados e competentes, mas da sua (nossa) própria representação sobre este grupo de pessoas, isto é, não acreditam(os) que eles realizem ou aprendam. Desta representação resultam situações e contextos de aprendizagem e formação, tarefas e materiais de aprendizagem, expectativas baixas traduzidas na definição de objectivos pouco relevantes, que, obviamente, não conseguem potenciar mudanças significativas o que acaba por fechar o círculo, eles não são, de facto, capazes. É um fenómeno de há muito estudado.
Mais uma vez. A inclusão assenta em quatro dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). Estas dimensões devem ser operacionalizadas numa perspectiva de diferenciação justamente para que acomodem a diversidade das pessoas.
É neste sentido que devem ser canalizados os esforços e os recursos que deverão, obrigatoriamente, existir. Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências noutras paragens, como a que serve de base a este texto, mas também por cá mostram que não é utopia.  
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.

sábado, 25 de maio de 2019

DIA DE REFLEXÃO


Cumpre-se o dia da reflexão, véspera das eleições europeias. Terminou uma campanha eleitoral que praticamente não existiu. Talvez pudéssemos aproveitar o dia da reflexão para, por um lado, para decidir ir mesmo votar e, por outro lado, para pensar como exigir que uma campanha eleitoral seja o que se espera, apresentação e discussão de ideias e projectos que contribuam para o bem-estar e desenvolvimento colectivos. Assistimos, isso sim e com algumas excepções, a um espectáculo degradante e cacofónico que terá dado um forte contributo para uma inquietante abstenção que leva a que uma minoria, parte mobilizada também por valores e convicções mas outra parte influenciada por manipulação e desinformação possa decidir sobre os destinos de uma maioria desinteressada e cansada.
Os discursos, insisto nas excepções, foram de uma mediocridade notável e centrados excessivamente em “não assuntos”, ataques pessoais e insultos, afirmações manhosas que compõem uma democracia com défice de solidez ética, competência e visão.
No então e felizmente continuámos a ter esse estimulante fenómeno típico das campanhas eleitorais que dá pelo nome de “arruadas”, o passeio de um qualquer candidato por espaços públicos, sobretudo os mais frequentados.
É certo que em qualquer altura a deslocação de uma figura política ao que gostam de chamar o “país real” é já uma amostra, mas em campanha pela conquista de mais um voto o espectáculo é deveras estimulante embora talvez resulte na conquista de mais uma abstenção. Quando olho para aquelas imagens acabo por lhes encontrar alguma piada.
Tentem entender o meu ponto de vista e reparem, por exemplo, no comportamento e atitude das figuras de segunda linha que aparecem sempre coladas aos “importantes”, aos candidatos ou a estrelas, “ex-líderes” por exemplo. Normalmente, seguem um passo atrás de qualquer entidade que leve uma câmara de televisão a segui-la. Os figurantes constituem um grupo numeroso. Por este facto, nem sempre cabem no ecrã e então, assiste-se, por vezes de forma pouco discreta ao esforço para aparecerem. Compõem um sorriso circunspecto e enquanto a entidade é entrevistada é ver os figurantes a inclinar a cabeça em sinal de aprovação ao mesmo tempo que procuram compor um ar inteligente e condescendente para com a comunicação social. Têm a secreta esperança de merecer um primeiro plano que constitua prova de vida.
Acho também muito estimulante o papel dos “operacionais”, quase sempre os elementos das “juventudes partidárias” os que fazem o alarido, agitam as bandeiras e gritam as palavras de ordem e que, numa preventiva iniciativa para que não fiquem tão à rasca mais tarde, vão fazendo a sua formação que lhes permita uma carreira aparelhística ou, pelo menos, a esperança de um empurrãozinho na vida profissional.
Uma outra parte do espectáculo é o comportamento dos anónimos que se cruzam com a arruada e expressam o que lhes vai na alma face às cores do desfile fazendo com que a arruada pare ou acelere o passo em busca de melhor ambiente. Outra gente anónima que entra na arruada é a que se bate pelos brindes que obrigatoriamente são distribuídos pelas segundas figuras da comitiva. A luta e o melhor posicionamento pela conquista de um boné, saco ou esferográfica é um exemplo de empreendimento e esforço que se esperam recompensados.
Mas o que eu gosto mesmo, é de ver o entusiasmo com que a generalidade dos candidatos é abraçado e abraça muitíssimas vezes, distribui beijinhos pelas criancinhas e velhinhas com um carinho e de uma forma tão genuína que enternece.
As feiras e mercados, terreno para estrelas como o famoso Paulinho das feiras, e as praças e ruas principais são os palcos escolhidos. Este ano até tivemos um líder partidário que em apoio ao seu candidato foi até à praia de fato e gravata, líder que é líder não descura a imagem de sobriedade.
Não sei se vos convenci, mas como diz o povo, “cá p´ra mim” as arruadas são mesmo o que de melhor as campanhas eleitorais têm. O resto é conhecido e quase sempre pouco interessante, lamentavelmente.
Por fim seria desejável que amanhã cumpríssemos um direito que não podemos alienar, o voto.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

A ESPERANÇA SAIU À RUA (2)


A esperança voltou a sair à rua. Tivemos uma segunda greve climática, nome estranho este, que se terá realizado em 50 localidades em Portugal e em mais de 100 países.
Adolescentes e jovens de muitos mundos desta Terra que é única e está fortemente ameaçada vieram para a rua dizer que é preciso parar. Não temos alternativa a esta Terra e é nela que tem de existir futuro para eles.
É importante a posição e esperemos que se torne num movimento robusto de exigência e promoção de mudança e que a mudança não se esgote na questão crítica das alterações climáticas e da sustentabilidade. Acho curioso curioso que boa parte desta gente trouxe a esperança à rua não tem ainda capacidade para votar e com esse voto alterar políticas. Alguns dizem que não têm maturidade para escolhas como o voto. Curioso como a gente madura se tem comportado e arruinado o planeta, ou seja, o futuro dos imaturos que protestam. 
Muitas vezes, quando olho para os meus netos, penso o que estará lá mais para a frente à espera deles. Aquilo que eu e a minha geração fizemos não é particularmente animador e chegámos a pensar que tínhamos tudo nas nossas mãos.
Neste mundo mágico da avozice e em múltiplas conversas com o Simão, quase seis anos de experiência de uma intensidade iluminada, quando ele faz perguntas ou sugere respostas, ideias, planos, actividades sem fim acrescenta com muita frequência, “é não é, avô?”. E o avô, eu, encantado com a responsabilidade do “saber” securizante dos Velhos digo, “É Simão, é assim, tudo bem”.
Um dia destes, provavelmente daqui a algum tempo, talvez me questione, “Avô, eu e o meu irmão vamos ter uma terra bonita para a gente viver. É, não é Avô?”. Terei de lhe responder, “Acho que sim Simão, tu, o teu irmão e todos os miúdos do mundo vão ter uma terra bonita para viver, mas terão ser vocês a cuidar dela e comecem já.”
Não se distraiam gente, terão que ser vocês.

ESTAR PRÓXIMO DOS ALUNOS QUANDO ELES ESTÃO LONGE


O trabalho desenvolvido na Escola Fonseca Benevides, na qual fui muito bem recebido há uns dias, por um grupo de professores explorando às potencialidades do “ensino à distância” e interessante e merece divulgação. Pretendem e vão conseguindo não perder alunos em risco severo de abandono e insucesso mantendo contacto e promovendo aprendizagem.
Também em educação, nem sempre estar distante significa estar longe, nem estar perto significa estar próximo. Os bons professores sabem isto e mostram-no com regularidade. Muitos alunos sentem-se distantes quando estão dentro das salas de aula e outros alunos estando longe da sala de aula podem sentir alguém próximo. A proximidade faz a diferença em muitas circunstâncias, também na escola é a forma de chegar a todos os alunos. Como sabem, existem alunos que a escola não alcança e alunos que não alcançam a escola.
Ainda relativamente a estas formas de estar próximo dos alunos quando eles estão longe, relembro o trabalho da Professora Adelina Moura com quem tive a sorte de partilhar a presença num TEDxLisboaED em 2014.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

O AUMENTO DOS COMPORTAMENTOS ANTI-SOCIAIS EM ADOLESCENTES


É conhecido o relatório de actividade das CPCJ em 2018. Comparativamente a anos anteriores as alterações não significativas para a generalidade da tipologia de situações mas alguns dados merecem particular atenção.
A negligência é motivo para 43.1% dos casos reportados, em segundo lugar temos os comportamentos de natureza anti-social do adolescente ou jovem, 18.7% (2606 casos) e em terceiro na frequência está o não cumprimento do direito educação, absentismo e abandono escolar (17.4%, 2422 casos).
É evidente que qualquer situação reportada é grave mas merece particular referência o aumento que de ano para ano se está a verificar nos “comportamentos de risco, anti-sociais”. Nos últimos cinco anos verificou-se um aumento ao ritmo de 3% em cada ano, as situações concentram-se na faixa entre os 15 e 17 anos e de acordo com a presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens consideram-se "situações de comportamento social incontrolável e indisciplinado, consumos de álcool, estupefacientes e adição às novas tecnologias".
O aumento destas situações merece a reflexão e, sobretudo, uma intervenção preventiva e remediativa que minimize a sua emergência e permita um maior controlo dos riscos e, desejavelmente a reabilitação dos comportamentos sociais adequados e saudáveis.
Parece-me importante que os comportamentos evidenciados por estes adolescentes não são a causa dos seus problemas, são uma consequência do seu mal-estar. Este entendimento não tem a ver com nenhuma intenção de desresponsabilização dos jovens ou com uma visão idealizada e romântica destas idades.
Sabemos que por várias razões, os outros dados do relatório ajudam a entender, existem contextos familiares pouco saudáveis e os recursos disponíveis nas escolas não são suficientes (nem adequados muitas vezes) para lidar com estas situações.
Sem querer desculpar ou branquear comportamentos creio que o nosso quotidiano vive inquinado com sementes de mal-estar que por um qualquer "gatilho" ou circunstância, por vezes irrelevantes, se transformam em comportamentos anti-sociais ou mesmo violência dirigida a quem quer que seja, às vezes contra si próprios.
Vai sendo tempo de nos interrogarmos sobre os tempos que vivemos, os valores que os informam, os modelos de discursos e comportamentos que evidenciamos, dos anónimos às elites e desde logo com as crianças, os atropelos à dignidade e direitos, a ausência de projectos de futuro que nos permitam a esperança e substituam o vazio em que muita gente, mais velha ou mais nova, vive. É neste caldo de cultura que nascem e se desenvolvem as sementes de mal-estar.
Estas sementes estão “incubadas” muitas vezes desde a infância e adolescência e podem ir passando despercebidas até que o peso interior leva à “necessidade” da sua exteriorização e um qualquer “gatilho” vai detonar um conjunto de comportamentos que podem mesmo ser de extrema violência.
Sabemos que a prevenção e programas de natureza comunitária, socioeducativa, têm custos mas importa ponderar entre o que custa prevenir e os custos posteriores da pobreza, exclusão, delinquência continuada e da insegurança.
É essencial uma atenção precoce e permanente atenção às pessoas, ao seu bem-estar, tentando detectar, tanto quanto possível, sinais que indiciem o risco de enveredar por um caminho que se percebe como começa, mas nunca se sabe como acaba.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

DA DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA


A banca nos últimos anos tem sido um pântano de corrupção e negócios manhosos envolvendo a restrita “família” que deste contexto beneficia tendo como certo que quando a coisa corre mal somos nós que “ajudamos” os bancos e não o patético mas “esperto” Berardo.
É em cenários desta natureza que também se gera e alimenta o mal-estar que se vai sentindo por diferentes paragens.
O quadro internacional é assustador, os movimentos populistas, extremistas e xenófobos ganham espaço e capitalizam apoios com a criação de “responsáveis” dessa inquietação e mal-estar. Já conhecemos esta narrativa e os seus efeitos trágicos. A mediocridade das lideranças, a manipulação e desinformação através das redes sociais e da mais despudorada e criminosa campanha de produção de “realidade” a que muita gente adere é mais um poderoso ingrediente.
Julgo que o caminho terá necessariamente de passar pelo recentrar do desenvolvimento no bem-estar das pessoas que liderará o funcionamento das economias e dos mercados abertos. Não podemos aceitar o aumento da concentração da riqueza e das disparidades em escala global ou nacional, a insustentabilidade do ambiente, a exclusão e a pobreza alimentados com os mercados a liderar.  As lideranças económicas, os interesses dos mercados, os modelos políticos de desenvolvimento que se orientam para resultados e mercados e não para pessoas, promovem riqueza sem que a sua distribuição tenha efeitos sérios na desigualdade social. Aliás, é claro que a distribuição da riqueza criada quer em países mais ricos, quer em países mais pobres, mostra justamente que a esmagadora maioria da riqueza criada continua concentrada nas mãos de uma pequena minoria.
Urge um regresso à política no sentido mais robusto e ético do termo, a promoção do bem- estar das pessoas.
Não podemos falhar, o custo será demasiado elevado.

COM UM BOCADINHO DE SORTE


Com um bocadinho de sorte teria nascido numa família que o desejasse, amasse e onde não representasse um estorvo.
Com um bocadinho de sorte teria brincado quando foi a altura de brincar.
Com um bocadinho de sorte teria passado por uma escola que sentisse sua e onde se acreditasse que era capaz.
Com um bocadinho de sorte teria encontrado os amigos certos que não o levassem por descaminhos.
Com um bocadinho de sorte teria encontrado alguém que gostasse dele e ficasse a seu lado.
Com um bocadinho de sorte não teria a vida, má e feia, em que mergulhou.
Com um bocadinho de sorte teria percebido que o consumo o consumiria.
Com um bocadinho de sorte não teria estado naquele momento, naquele sítio.
Com um bocadinho de sorte não teria acabado assim, ainda novo.
Com um bocadinho de sorte teria sido gente.
(...)
Tantos miúdos que nascem e crescem sem um bocadinho de sorte. Dizem que é destino ... ou fado. Será que não conseguimos contrariar o destino?

terça-feira, 21 de maio de 2019

CHICO BUARQUE, PRÉMIO CAMÕES 2019


É impossível dissociar a atribuição do Prémio Camões 2019 a Chico Buarque do que hoje é o Brasil e dos tempos negros e inquietantes que se vivem naquela terra imensa.
No entanto, acredito que um dia …
Vai ser bonita a festa pá
Ficarei contente.

DA FALTA DE PROFESSORES

Ao longo do ano lectivo têm sido recorrentes as notícias relativas às dificuldades de suprimir a falta de docentes em alguns grupos e níveis de ensino por parte das direcções escolares. As razões são múltiplas mas o cenário mostra que a narrativa tão “vendida” dos professores a mais talvez não fosse tão evidente e que, como sempre em educação, as contas sobre o número de professores necessários ao sistema nunca dão certo.
As dificuldades de “recrutamento” reportadas pelos directores referem também as condições de precariedade e de carreira ou da falta de docentes em algumas áreas disciplinares e o número significativo de docentes em situações de baixa médica.
Em Dezembro escrevi aqui um texto sobre esta questão que de há muito se anuncia a que chamei “Mayday, Mayday” tendo retirado o título de um artigo histórico de um dos meus Mestres, o Professor Joaquim Bairrão Ruivo que também o usou com o sentido que tem na aviação. A situação é mesmo grave.
Num trabalho divulgado no final de 2018 pela OCDE, “Reviews of School Resources: Portugal 2018” retoma-se algo que tem vindo ser questionado nos últimos anos, designadamente nos dados divulgados pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência e em estudos do CNE, o envelhecimento brutal da classe docente e as potenciais consequências negativas e que se agrava a cada ano que passa. Como escrevi várias vezes a este propósito, num país preocupado com o futuro o cenário existente faria emitir, como agora se usa, um alerta vermelho e agir em conformidade.
Ao perfil dos docentes profundamente  inquietante em termos de idade acresce que como é reconhecido em qualquer país, a profissão docente e altamente permeável a situações de burnout, estado de esgotamento físico e mental provocado pela vida profissional, associado a baixos níveis de satisfação profissional. Também o estudo da OCDE refere aspectos desta natureza e numa classe envelhecida o risco é, obviamente, mais elevado.
Na verdade, este cenário só pode surpreender quem não conhece o universo das escolas, como acontece com boa parte dos opinadores que pululam pela comunicação social perorando sobre educação e sobre os professores. Aliás, esta situação verifica-se noutros países, sendo que para além dos professores, os profissionais de saúde e de apoios sociais também integram os grupos profissionais mais sujeitos a stresse e burnout.
Este quadro é inquietante, uma população docente envelhecida e a revelar preocupantes sinais de desgaste.
Também se sabe que as oscilações da demografia discente não explicam a saída de milhares de professores do sistema, novos e velhos, como também não explicam a escassíssima renovação, contratação de docentes novos. Sem estranheza, no universo do ensino privado é bastante superior a presença de docentes mais jovens. Não esqueçamos ainda a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores. Acresce que sucessivas equipas ministeriais têm empreendido um empenhado processo de desvalorização dos professores com impacto evidente no clima das escolas e nas relações que a comunidade estabelece com estes profissionais.
Sabemos que os velhos não sabem tudo e os novos nem sempre trazem novidade. Mas também sabemos que qualquer grupo profissional exige renovação pelas mais variadas razões incluindo emocionais, de suporte, partilha de experiência ou pela diversidade.
As salas de professores são cada vez mais frequentadas, quando há tempo para isso, por gente envelhecida, cansada e pouco apoiada que muitas vezes pergunta "Quanto tempo é que te falta?"
Com a previsível aposentação de milhares de professores num prazo relativamente curto teremos uma significativa falta de docentes. O problema é que muito pelo contributo de opinadores e por efeitos de algumas das políticas públicas em matéria de educação a profissão de professor perdeu capacidade de atracção.
Seria desejável que não nos esquecêssemos que os sistemas educativos com melhor desempenho são também os sistemas em que os professores são mais valorizados, reconhecidos e apoiados.