terça-feira, 14 de março de 2017

DO PERFIL DOS ALUNOS PARA O SÉC. XXI

Tendo terminado ontem o período de consulta pública do “Perfil dos Alunos para o Sé. XXI” começam a ser conhecidas algumas apreciações de natureza mais institucional sobre a proposta do ME.
Uma primeira referência à posição expressa pela Sociedade Portuguesa de Matemática que segundo o que se encontra no Público parece arrasadora do documento.
Entende que não promoverá “reais possibilidades de aprendizagem ao longo de todo o seu percurso escolar”. As suas concepções, bem conhecida desde que foi presidida por Nuno Crato de quem também foi um sólido apoio enquanto ministro assentam na obsessão pela medida, na construção de um currículo prescritivo, extenso e normativo em nome da velha retórica da exigência e do rigor que não vê nesta proposta sem que se perceba muito bem porque pois muito ainda falta.
Assim, expressa uma posição de fé “Esta proposta, bem como as alterações curriculares que dela podem vir a decorrer, (sublinhado meu) encerram o perigo de conduzir as escolas a actividades pedagógicas desorganizadas e sem conteúdos claros, fruto de uma imposta doutrinação metodológica”.
Entende, pois, que “é um documento pouco claro”, com “princípios vagos” e que “não traduz a evolução moderna do conhecimento sobre a aprendizagem e o ensino”. São princípios que estiveram “em voga” no tempo em que a educação era má concluem.
O preconceito e o modelo curricular que defende não permite à SPM perceber que os “princípios vagos” que que refere são os mesmos que informam diferentes modelos curriculares implantados ou em mudança noutros países longe de possuírem sistemas educativos sem qualidade.
Nada de novo, trata-se de uma posição que tem pouco a ver com currículo e mais com um modelo de educação, de sociedade e de escola que normaliza e selecciona através da medida, quase que exclusivamente centra da em resultados e em saberes instrumentais não importa ao serviço de que pessoa.
Por outro lado, o Conselho de Escolas divulgou também uma apreciação que em síntese se pode referir como de concordância genérica com os princípios enunciados, que nem sequer são novos e com o modelo de educação que os informa,
Chama no entanto a atenção para o processo de mudança, calendários e oportunidade e para um conjunto de questões de natureza mais funcional de que relevam “Que alterações se imporão, ao nível dos planos curriculares e da gestão do currículo, que permitam desenvolver as competências previstas no documento?”, “que modelos de avaliação dos alunos se aplicarão para avaliar e certificar a novas competências?”, “Que alterações se introduzirão nos tempos e espaços de aula, na organização e no funcionamento das turmas?”; “que alterações serão introduzidas na formação inicial e que formação contínua está prevista para os actuais docentes, para enfrentarem esta nova abordagem educativa?”
Este foi justamente o sentido de umas notas que aqui coloquei sobre o Perfil dos Alunos para o Séc. XXI e que retomo.
Quando no Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam saber utilizar diferentes textos e linguagens, de que deveriam saber aceder a informação e saber comunicar, de que deveriam aprender a relacionar-se, a interagir e a cooperar,  de que deveriam aprender a raciocinar e a resolver problemas, de que deveriam desenvolver pensamento crítico e pensamento criativo, de que deveriam ser autónomos e com formação pessoal adequada, de que os alunos deveriam aprender a promover o seu bem-estar e saúde, de que deveriam desenvolver sensibilidade estética e artística, de que deveriam aceder ao saber técnico e domínio de tecnologias, de que deveriam ter consciência e domínio do corpo, de que a escola deveria ser mais do que a simples transmissão de conhecimentos, de que se deveriam desenvolver projectos interdisciplinares promovendo a articulação e integração de conteúdos de diferentes disciplinas, de que se deveria promover a educação para a cidadania e a formação cívica, de que os testes não deveriam constituir a única forma de avaliação, de que deveriam ser valorizadas as diferentes disciplinas e equilibradas as suas cargas horárias pareceu-me bem.
Bom, o caminho tem sido o que conhecemos e agora que chegámos ao Séc. XXI voltamos a uma nova formulação destas intenções. Bem, mais uma vez, agora no Séc. XXI, … parece-me bem.
Tenho, no entanto, algumas dúvidas pequenas de que deixo alguns exemplos.
Tudo isto será desenvolvido com que calendário e metodologia de mudança?
Tudo isto será desenvolvido com que estabilidade e perspectiva de consistência no tempo?
Tudo isto será desenvolvido com que organização curricular, conteúdos e cargas horárias, por disciplina e globais?
Tudo isto será desenvolvido com que quadro de autonomia?
Tudo isto será desenvolvido com que dimensão das turmas e das escolas? Eu sei que nem todas são excessivamente grandes mas algumas são.
Tudo isto será desenvolvido com que ajustamento em práticas, capacidade e recursos de promover diferenciação para acomodar a diversidade dos alunos e promover um menor peso dos manuais no trabalho de alunos e professores?
Tudo isto será desenvolvido com que modelos e dispositivos de avaliação de alunos, professores e escolas?
É o que ainda falta saber.

CRIANÇAS ENTRE FAMÍLIAS

O Instituto de Segurança Social lançou dois manuais, “Manual da Audição daCriança” e o “Manual de Audição Técnica Especializada”, que pretendem constituir uma ferramenta de apoio aos técnicos envolvidos em processos conflituosos de separação parental em que estão crianças e não raras vezes em processo de sofrimento significativo, tal como, aliás, os adultos.
É verdade, felizmente, que existem múltiplos casos de reconstrução bem-sucedida de famílias após situações de divórcio em que adultos e crianças encontraram forma de viverem situações de bem-estar depois de quebrar relações anteriores.
Seria esta a situação desejável em caso de separação. No entanto, existem muitas circunstâncias em que os processos de separação são de grande tensão e conflito nos quais crianças e adultos entram em processos de sofrimento que os materiais agora divulgados podem ajudar a minimizar.
Os riscos que a separação dos pais podem implicar para os filhos são alvo de recorrentes abordagens na imprensa e no âmbito da minha experiência são também objecto de frequentes pedidos de ajuda, orientação ou apenas inquietação.
Uma pequena nota para referir que para além da separação definitiva, alguns estudos referem um aumento de situações em que, dados os custos económicos da separação e da reconstrução de vidas individuais, os casais decidem que, apesar de separados, continuam a coabitar o mesmo espaço ou que nem sequer assumem a separação, criando uma situação de "casados por fora" e "descasados por dentro".
Esta situação, quando existem filhos, poderá também induzir algumas ansiedades e inquietações nos pais sobre a forma de lidar com um contexto em que aparentemente existe uma família, quando na verdade já são duas com uma ou mais crianças entre elas.
Este cenário, "casados por fora e descasados por dentro" pode ainda acontecer os casais que com o alibi da protecção dos filhos mascaram uma relação que já não existe mas que se sentem incapazes de dar fim. Muitos destes casais acabam por se separar quando têm os filhos já adultos o que lhes parece mais tranquilo.
Na verdade, as crianças e adolescentes também percebem, sentem, muito bem quando as coisas se alteram, quando têm pais “casados por fora” e “descasados por dentro”.
Na maioria das situações as coisas correm bem e é sempre preferível uma boa separação a uma má família. Por outro lado a convivência de um grupo de pessoas que não se separa e já não é uma família pode conter alguns riscos de insegurança e instabilidade para os mais novos tal como nas separações efectivas e, consoante as idades, assumir efeitos ou riscos diferentes.
Importa ainda considerar que existem separações familiares extremamente conflituosas durante as quais, com progressiva frequência, emerge a utilização dos filhos como “arma” durante os processos, por vezes longos, de regulação familiar.
Neste quadro, podem emergir nos adultos, ou num deles, situações de sofrimento, dor e/ou raiva, que “exigem” reparação e ajuda. Muitos pais lidam sós com estes sentimentos pelo que os filhos surgem frequentemente como “tudo o que ficou” e o que “não posso e tenho medo de também perder”. Poderemos assistir então a comportamentos de diabolização da figura do outro progenitor, manipulação das crianças tentando comprá-las (o seu afecto), ou, mais pesado, a utilização dos filhos como forma de agredir o outro.
Nestes cenários mais graves podem emergir quadros do chamado Síndrome de Alienação Parental que, apesar de alguma prudência requerida na sua análise, nem a utilização como conceito é consensual em termos clínicos e jurídicos, são susceptíveis de causar graves transtornos nas crianças, daí, naturalmente, a necessidade de suporte e ajuda.
É obviamente imprescindível proteger o bem-estar das crianças mas não devemos esquecer que, em muitos casos, existem também adultos em enorme sofrimento e que a sua eventual condenação, sem mais, não será seguramente a melhor forma de os ajudar. Ajudando-os, os miúdos serão ajudados. Quero ainda sublinhar que, por princípio, prefiro uma boa separação a uma má família.
Assim sendo, importa estar atento e a experiência diz-me serem frequentes as situações de separação em que os adultos sentem insegurança e ansiedade e até exprimem a necessidade de ajuda. Acresce que as questões relativas à família, às novas famílias, são ainda objecto de discursos muito contaminados pelos sistemas de valores éticos, morais, religiosos e culturais.
O volume de opiniões sobre estas situações é extenso, oscilando entre considerações de natureza moral e/ou ética e um entendimento científico sobre a forma como as famílias e sobretudo as crianças e jovens lidam ou devem lidar com as circunstâncias. Por mim, creio “apenas” que o(s) ambiente(s) familiar(es) deve ser suficientemente saudável para que a criança se organize também saudavelmente e faça o seu caminho sem uma excessiva preocupação geradora de ansiedade e insegurança em todos os envolvidos, miúdos e crescidos.
No entanto, como sempre afirmo, há que estar atento e perceber os sinais que sobretudo as crianças mostram e, na verdade, com alguma frequência, os pais estão tão centrados no seu próprio processo que podem negligenciar não intencionalmente a atenção aos miúdos e à forma como estes vivem a situação. Pode ser necessário alguma forma de apoio externo mas sempre encarado de uma forma que se deseja serena e não culpabilizante.
É também por aqui que os materiais agora divulgados podem ser uma ferramenta útil.

segunda-feira, 13 de março de 2017

O MEU AMIGO FERNANDO

Não sei se será algo que a idade explique mas com alguma frequência o pensamento foge para um tempo lá muito atrás.
Numa dessas viagens realizada há minutos, provavelmente por razões que a trama de que se faz a memória tece lembrei-me do meu amigo Fernando, meu colega no início da minha caminhada na escola. Era um tempo em que as redes sociais se construíam fundamentalmente na escola e na nossa rua.
Num grupo de miúdos completamente doidos por futebol o Fernando era o maior. Nunca voltei a ver ninguém pequeno com tanto jeito para jogar futebol como Fernando. Quando jogávamos entre nós era difícil fazer equipas equilibradas, quem tinha o Fernando estava em vantagem e, quase sempre, ganhava os jogos, quando jogávamos com a malta das outras escolas era, como agora se diz, o nosso grande trunfo.
Devo dizer que o Fernando tinha tanto jeito para a bola, sobretudo nos toques e fintas que ninguém conseguia imitar, que não lhe sobrava jeito para a escola, arrastava-se, arrastou-se, até que começou a chumbar.
O Fernando também tinha uma particularidade que nos tornava mais próximo dele, o pai, não tinha mãe, batia-lhe muito e naquela altura ainda não se tinha inventado a protecção de menores. Sabíamos, embora ele não falasse disso, que frequentemente levava grandes tareias. Mas quando a bola chegava ao pé dele, só visto, o Fernando era o puto mais feliz do mundo e a gente, os da equipa dele, também. Vi-o uma vez com um braço engessado fazer uma jogatana que só dava vontade de parar para o ver jogar.
Quando tínhamos por aí uns doze anos o Fernando e o pai mudaram-se e nunca mais soube dele, mantive-me atento porque esperava que o Fernando viria, com toda a certeza, a tornar-se um craque mas em vão, o Fernando não mais se viu e ninguém soube nada dele.
O Fernando, provavelmente, foi um daqueles muitos miúdos que falham o encontro que têm marcado com o futuro e cuja estrada passa incontornavelmente pela escola.

A CHOLDRA

Tem dias que olhar para o retrato de Portugal que imprensa mostra faz  recordar Eça, é uma choldra.
Esta é a pantanosa pátria nossa amada que assim se vai cumprindo.
Será destino?

NÃO GOSTEI NADA DA "DOTORA", NEM ME MANDOU FAZER "ANALSES"

No Público encontra-se um trabalho interessante sobre a forma como nós portugueses nos relacionamos com a medicina.
Um estudo de uma equipa do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis) mostra que os portugueses, em matéria de prevenção, sobrevalorizam a realização de exames, análises por exemplo, em detrimento de aconselhamento sobre comportamentos saudáveis.
Existem riscos importantes no recurso exagerado aos exames motivando, para além dos custos, tratamentos e cirurgias desnecessárias.
Os dados são interessantes e sugerem reflexão quer por nós, quer pelos profissionais no sentido de criarmos uma relação mais informada e eficiente com a prevenção em saúde.
Tantas vezes ouvimos discursos de pessoas decepcionadas com a ida a uma consulta em que o médico nem sequer passou umas “analses”, nem umas “chapas” para ver donde é que vem aquela queixa. Nesta apreciação é ainda muitas vezes referido que a “dotora” só disse para comer melhor, não fumar, fazer algum exercício, e continua “para isto vale a pena ir ao médico?!”. E conclui-se, “não se interessam é c’a gente, tenho que ir a um particular”. Ponto.
Na verdade, somos um povo engraçado na relação com a saúde. Consumimos medicamentos como poucos, adoramos “analses”, “chapas” e “TACS” e não andamos nada bem.

domingo, 12 de março de 2017

OS PROFESSORES NUNCA SE REFORMAM OU VÃO DE FÉRIAS

Uma passagem de olhos breve pela imprensa online fez-me parar num trabalho do DN sobre gente aposentada e a história de uma professora que apesar de estar nessa condição continua envolvida em actividades no universo da educação.
Nos últimos anos milhares de professores saíram do sistema por aposentação, muitos deles mesmo ainda sem terminar a carreira profissional. Boa parte destes casos Muitos destes casos decorreram de decisões ligadas a alterações salariais e económicas mas também ao clima de desânimo que se foi instalando nas escolas, fruto de políticas que têm mais de contabilísticas que de educativas.
Recordo um estudo realizado no Porto envolvendo professores que mostrou que a maioria dos inquiridos revelava uma enorme dificuldade em desligar-se dos problemas de natureza profissional mesmo quando está fora da escola, em casa, por exemplo.
Não me lembro dos contornos específicos do estudo, mas os seus resultados inscrevem-se no conhecimento já adquirido de que a profissão docente é uma das mais sujeitas a stresse como, aliás, o são todas as que envolvem interacção social agudizando-se quando o contacto envolve tensão ou sofrimento, daí o stresse em docentes e em pessoal da área da saúde.
Esta expressa dificuldade dos professores em se abstraírem dos problemas de natureza profissional, recorda-me sempre algo que ouvi já há alguns anos a um Professor velho que quando comentei que a situação de reforma lhe dava descanso, se riu e disse que “professores e pais nunca se reformam ou vão de férias”.
Embora com uma pontinha de excesso que se desculpa, a dimensão ética e afectiva das funções, para além das questões profissionais no caso dos professores, é tão significativa que dificilmente se consegue “escapar” ainda que transitoriamente, e muito menos definitivamente, à condição de pai ou de professor. É bom de ver que este quadro está naturalmente mais presente nos bons professores, a esmagadora maioria.
Os bons professores, tal como os pais, têm sempre os alunos, os filhos, “perto” de si, ou seja, não lhes é fácil libertarem-se da inquietação que sentem com o bem-estar dos miúdos e com a qualidade do trabalho.
Em situações informais em que algum ou alguns professores estejam presentes é muito frequente que a conversa, mais ou menos rapidamente, se direccione para as questões da vida dos miúdos e da escola.
Não raramente, este envolvimento de muitos professores, horas extraordinárias por assim dizer, tem implicações na sua vida pessoal e familiar que muitos entendem ser “ossos do ofício” e ajudam a explicar os resultados do estudo que referi. Trata-se uma situação que conheço muito bem.
O Professor velho tem mesmo razão, os professores e os pais não se reformam nem vão de férias, estão sempre a tempo inteiro.
Muita desta gente que saiu e sai da escola, muitos a contragosto, na verdade não vai mesmo reformar-se da sua condição de professores, serão sempre professores. Obrigado por isso.

sábado, 11 de março de 2017

UMA ESCOLA NOVA, UMA EDUCAÇÃO NOVA. SERÁ?

Embora não seja nada de novo, nos últimos tempos têm trazido inúmeros discursos e enunciados sobre a necessidade de “repensar a escola”, “reflectir sobre a escola que temos e a escola que queremos”, definir a “escola do Sé. XXI”, etc. Muitos destes discursos vêm do interior do universo da educação, da escola e confesso que não me parecem muito interessantes apesar de talvez também neles cair em algumas circunstâncias.
Antes de tentar explicitar deixo claro não esquecer que a escola, tal como qualquer outra instituição é um corpo vivo inscrito numa sociedade também ela em permanente movimento tomando sempre “novas qualidades” como disse Camões. É verdade que as “novas qualidades” nem sempre cumprem o que entendemos por qualidade embora também saibamos que em educação “cada cabeça, sua sentença” e sempre uma cabeça e sentenças iluminadas.
Também entendo que na história recente sofremos, a escolha do termo é intencional e assumida, dois períodos com efeitos particularmente marcantes pela negativa em matéria de educação, os consulados de Maria de Lurdes Rodrigues e de Nuno Crato com decisões e políticas que tornaram, tornam, mais imperiosa a mudança.
Dito isto e apesar disto, não creio que relativamente à escola e à educação reclamar constantemente um "mundo novo" ou proclamar  visões "novas” que em boa parte das vezes nem sequer parecem tão novas, sejam a melhor forma de desenhar a mudança.
Costumo dizer que uma criança, qualquer pessoa, só aprende a partir do que sabe, só é mais a partir do que já é.
Também assim vejo a escola. Muda a partir do que faz e não do que parece ser novo, muda a partir do que é e não a partir do que não sabemos o que vai ser.
Dir-me-ão que muitas coisas na escola não estão bem. Sim, eu sei, e frequentemente aqui refiro muitas dessas situações.
Mas também é verdade que todos os dias se fazem e acontecem muitíssimas coisas boas e positivas nas nossas escolas independente dos contextos, dos actores, dos recursos ou das políticas.
Não precisamos de “outra” escola, precisamos de cuidar desta e da gente que nela vive, alunos, todos os alunos, professores, funcionários, técnicos, direcções, pais, etc.
Precisamos de nos entender sobre esta escola, os seus recursos e as suas necessidades. Exigir “outra escola” é mais uma forma de recuperar a ideia de Lampedusa, é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma.
Muito provavelmente, também nesta matéria, a educação e a escola, fazem sentido as palavras de Mestre Almada na "Invenção do Dia Claro”, "Nós não somos do século de inventar palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas”.

SIM, SÃO CAPAZES.

Jovem com síndrome de Down vai apresentar a meteorologia na TV

De novo e sempre.
Esta não é uma notícia irrelevante, antes pelo contrário, é da maior inspiração e justifica a permanente necessidade de reflexão sobre o universo das pessoas com necessidades especiais.
É verdade.
Sem ser por magia ou mistério quando acreditamos que as pessoas, mais novas ou mais velhas, com algum tipo de necessidade especial, são capazes, não se "normalizam" evidentemente, seja lá isso o que for, mas são, na verdade, mais capazes, vão mais longe do que admitimos ou esperamos, mesmo tão longe como qualquer outra pessoa. Não esqueço a gravidade de algumas situações mas, ainda assim, do meu ponto de vista, o princípio é o mesmo, se acreditarmos que eles progridem, que eles são capazes de ... , o que fazemos, provoca progresso, o progresso possível e níveis de realização significativos.
E isto envolve professores do ensino regular, de educação especial, técnicos, pais, lideranças políticas, empregadores e toda a restante comunidade.
No entanto, em algumas circunstâncias o trabalho desenvolvido com e por estes alunos é ele próprio um factor de debilização, ou seja, alimenta a sua incapacidade, numa reformulação do princípio de Shirky.
Tal facto, não decorre da incompetência genérica dos técnicos, julgo que na sua maioria serão empenhados e competentes, mas da sua (nossa) própria representação sobre este grupo de pessoas, isto é, não acreditam(os) que eles realizem ou aprendam. Desta representação resultam situações e contextos de aprendizagem e formação, tarefas e materiais de aprendizagem, expectativas baixas traduzidas na definição de objectivos pouco relevantes, que, obviamente, não conseguem potenciar mudanças significativas o que acaba por fechar o círculo, eles não são, de facto, capazes. É um fenómeno de há muito estudado.
Mais uma vez. A inclusão assenta em quatro dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). Estas dimensões devem ser operacionalizadas numa perspectiva de diferenciação justamente para que acomodem a diversidade das pessoas.
É neste sentido que devem ser canalizados os esforços e os recursos que deverão, obrigatoriamente, existir. Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências noutras paragens, como a que serve de base a este texto, mas também por cá mostram que não é utopia. 
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.

sexta-feira, 10 de março de 2017

ESTUDAR É UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE MAS MUITO CARO

A Assembleia da República discute hoje a questão das propinas no ensino superior. Estão em discussão projectos dos diferentes partidos que têm como objectivo combater o abandono ou a não frequência por questões económicas. Sem surpresa, apesar de o abandono ter baixado ligeiramente no ensino superior público em 2015/2016, aumentou no ensino privado.
Sobre esta questão, custos no acesso ao ensino superior, algumas notas repescadas.
De acordo com o Relatório da OCDE, Education at a Glance 2015, os custos da frequência de ensino superior em Portugal suportados pelo universo privado, sobretudo as famílias, é o mais alto da União Europeia, 45.7%.
Segundo o relatório "Sistemas Nacionais de Propinas e Sistemas de Apoio no Ensino Superior 2015-16", da rede Eurydice da União Europeia apenas Portugal e a Holanda cobram propinas a todos os alunos do ensino superior, sendo também Portugal um dos países com valores de propina mais altos. Já em 2011/2012 dados também da rede Eurydice mostravam que Portugal tinha o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerassem as excepções criadas em cada país, tem efectivamente o terceiro valor mais alto de propinas.
Recordo que no início de 2014 um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar. É também preocupante o abaixamento que se tem vindo a verificar de procura de ensino superior apesar deste ano se ter registado uma pequena subida. As dificuldades económicas são a principal razão para não continuar.
Por outro lado, talvez seja de considerar o impacto da tão perversa quanto errada ideia do "país de doutores" que se foi instalando com o precioso auxílio de alguma imprensa preguiçosa e negligente pois não corresponde à verdade e que alimentando a ideia de que "estudar não vale a pena", representa um verdadeiro tiro no pé. Promove ainda o risco dos cidadãos desinvestirem em projectos de vida que passem pela qualificação, a verdadeira alavanca do desenvolvimento e, portanto, do futuro.
Ainda neste contexto, em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior particular o esforço é ainda maior o que se repercute na maior taxa de abandono. Percebe-se assim a taxa altíssima de jovens que exprimem a dificuldade de prosseguir estudos.
As dificuldades pelas quais passam muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado, são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Para reforçar a ideia de que não somos, definitivamente, um "país de doutores" importa sublinhar que, apesar dos progressos dos últimos anos, estamos muito longe de poder vir a cumprir a meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos. É certo que algumas habilidades com a “meia licenciatura” podem dar um contributo mas não da melhor maneira.
A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.

DA QUESTÃO CURRICULAR

As anunciadas mexidas no currículo, seja sob a forma de “emagrecimento”, “flexibilização” ou outra qualquer figura do jargão habitual nestas matérias, têm desencadeado alguma controvérsia em torno das cargas horárias curriculares das diferentes disciplinas.
Entrou em discussão um eventual aumento das horas atribuídas a algumas disciplinas, como também correu, corre, que essas mudanças implicariam a redução das horas alocadas a Português e/ou Matemática uma vez que, felizmente, não está em discussão o acréscimo da carga horária global.
O Governo vem agora a terreiro esclarecer que tal não vai acontecer nem esteve em cima da mesa.
Como várias vezes tenho dito, entendo que são necessárias mudanças em matéria de currículo como também entendo que essas mudanças devem ser objecto de discussão participada e definido um calendário e metodologia adequados para a mudança.
No entanto, creio que apesar da carga horária por disciplina ser importante, é apenas uma das variáveis e, do meu ponto de vista, nem sequer a mais relevante. Aliás, a sua relevância depende fundamentalmente do grau de “quintalização” do currículo, ou seja, quanto mais quintais curriculares, (disciplinas) mais se discute o número de horas para cada. Como também sabemos, os “ocupantes” de cada “quintal” tendem a defender que as flores que produzem são as mais importantes do ramo. É este o cenário que temos e daí as recorrentes discussões sobre a carga horária para cada disciplina que, insisto, sendo importante, não deve sobrepor-se ao essencial.
Na minha perspectiva o essencial em matéria de currículo remete para a definição dos conteúdos em função dos objectivos e de uma visão para a educação e escola, remete para a organização desses conteúdos, que disciplinas ou áreas, quantos ciclos, etc.
É também essencial pensar num currículo em que caiba a diversidade dos alunos, num modelo de avaliação que meça resultados mas que também regule processos.
Era este o caminho que gostava de ver seguido na discussão sobre o currículo.

quinta-feira, 9 de março de 2017

A SÍNDROME PÓS-MINISTERIAL. ENÉSIMO CASO

Parece-me claro que qualquer iniciativa de natureza política e legislativa que promova os direitos, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas com deficiência nas suas diferentes dimensões merece registo.
Assim, aqui se regista, o anúncio por parte do CDS-PP de um conjunto de propostas e recomendações nesta matéria. A Dra. Assunção Cristas deu a devida divulgação a esta iniciativa.
No entanto e como sempre, acho interessantes estes comportamentos próprios do que eu chamo de Síndrome Pós-ministerial.
Não acompanho suficientemente de perto a situação noutros países para ter uma perspectiva comparativa, mas existe uma espécie de síndrome em Portugal que afecta a classe política com experiência de poder. Esta síndrome, a que poderemos chamar "pós-ministerial" ou, dito de outra maneira, “sei muito bem o que deveria ser feito, mas quando fui ministro esqueci-me”, é patente em muitíssimos ex-governantes oriundos dos partidos que já assumiram responsabilidades de governo em diferentes áreas. Temos agora mais um exemplo vindo da Dra. Assunção Cristas que foi ministra do anterior Governo.
O que me parece curioso nestas circunstâncias é a apresentação de uma visão clara sobre os males e constrangimentos de diferentes áreas sectoriais, incluindo aquela em que desempenharam funções políticas, bem como propostas de desenvolvimento e correcção visando a desejável qualidade e o progresso.
Na área que melhor conheço, a educação, os exemplos são múltiplos e elucidativos.
A pergunta, certamente estúpida e demasiado óbvia, que me ocorre face a este tipo de discursos é “então porque não fez, porque não defendeu assertivamente as ideias agora expressas, muitas a merecer concordância, quando teve poder para tal?” Podemos, com alguma habilidade, tentar encontrar respostas. Acabaremos, creio por definir, inevitavelmente, duas hipóteses básicas, não puderam ou não souberam, qual delas a mais animadora.
Na primeira, não puderam, implica questionar qual o poder que efectivamente o ministro detém relativamente às políticas do sector que tutela ou do governo que integra, ou seja, qual o verdadeiro nível de responsabilidade de quem assume o poder e as dificuldades para ultrapassar e gerir as corporações de interesses ameaçadas pelas mudanças. Na segunda, não souberam, sugere que a competência não abundará o que não me parece menos inquietante.
Em todo o caso, algum pudor e a humildade de nos explicarem porque não executaram as políticas que posteriormente defendem, seriam esclarecedoras e um bom serviço prestado à causa pública.
A questão é que muitos destes discursos que se apresentam agora como parte da solução, na verdade escondem políticas que, são, foram, parte do problema.

O DIA EM QUE O MUNDO ACABOU


(Foto de João Morgado)

E um dia ... o mundo acabou. Tinham destruído todas as escolas em que o mundo aprendia. O mundo é construído nas escolas que são o mundo onde se constroem as pessoas que constroem o mundo.

DO ENSINO PROFISSIONAL

Li há pouco as afirmações do Secretário de Estado da Educação sobre o ensino profissional e a forma como ainda é percebido por boa parte da comunidade escola. Algumas notas a este propósito com as desculpas devidas pela extensão..
Desde há muito que defendo ser imprescindível que os jovens ao sair do sistema se encontrem equipados com qualificação profissional, quer ao nível do ensino secundário, quer ao nível do ensino superior que com o trabalho no âmbito do ensino politécnico tem condições para processos de qualificação mais curtos e mais diversificados. Assim, tenho registado os avanços realizados na diversificação da ofertam formativa verificada nos últimos anos apesar de alguns equívocos que geraram a percepção de uma formação de “segunda” dirigida aos “maus” alunos. Estes equívocos decorreram também dos discursos e procedimentos adoptados em muitas escolas e envolveram alunos e famílias.
No universo da educação em Portugal, depois de Abril de 74, instalou-se uma das mais generosas e ingénuas ideias que o tempo das utopias gerou, todos os indivíduos deveriam ter formação universitária. Esta ideia, de consequências devastadoras, quis combater a marca de classe presente nas escolhas entre liceu e escolas industriais e comerciais e, sobretudo, o baixo número de alunos que continuavam a estudar. O resultado foi criar um percurso que todos deveriam seguir e que só terminaria no fim do ensino superior universitário.
Com o aumento da escolaridade obrigatória e o aumento exponencial do número de alunos começou a perceber-se o erro trágico de um só percurso, muitos alunos chumbavam e abandonavam o sistema sem qualquer tipo de qualificação. Aliás, mesmo completando o ensino secundário, o 12º ano, as competências profissionais eram nulas, isto é, o 12º apenas ensinava, e mal, a continuar a estudar, coisa que entretanto era dificultada com a figura (lembram-se?) do "numerus clausus".
A partir de certa altura, timidamente, começaram a surgir ofertas de vias profissionais que, por má explicação política, foram sobretudo entendidas como uma estrada por onde segue quem não tem "jeito" ou competência para estudar. Neste contexto, famílias e alunos sentiram dificuldade em aderir a algo percebido como sendo de segunda. Entretanto, o nível inaceitável de chumbos e abandono no secundário continuava a envergonhar-nos.
Nos últimos anos, temos finalmente assistido a uma significativa diferenciação da oferta educativa, sobretudo depois do 9º ano, e essa oferta começa agora a perceber-se como uma alternativa à continuação de estudos mais prolongada, o ensino superior politécnico ou universitário. A oferta actual quase triplicou face a 2004/2005 o que tem contribuído para a descida muito significativa do abandono ao escolar neste patamar do sistema. Por outro lado, o crescimento exponencial da oferta tem vindo a levantar sérias reservas face à natureza da oferta formativa e à qualidade da formação providenciada e ainda não se conseguiu alterar significativamente a perspectiva desvalorizada de muitos professores, alunos e famílias.
Como muitas vezes tenho afirmado é fundamental diversificar a oferta formativa, ou seja, promover a diferenciação de percursos. Só por esta via me parece possível atingir um objectivo absolutamente central e imprescindível, todos os alunos devem aceder a alguma forma de qualificação, única forma de combater a exclusão e responder mais eficazmente à principal característica de qualquer sala de aula actual, a heterogeneidade dos alunos. Aliás, a oferta formativa de natureza profissional no âmbito do ensino secundário que também está a acontecer pode ser um passo nesse sentido e tem contribuído para baixar os níveis de abandono. Importa, no entanto, garantir que esta oferta não seja preferencialmente dirigida para os "que não servem" para a escola.
Parece, pois, claro que temos de estruturar percursos de ensino com formação de natureza profissional. A questão que se coloca é quando deve ser disponibilizada esta oferta e para quem.
Relativamente ao modelo que estava em vigor sempre considerei fortemente discutível, até num plano ético, a introdução desta diferenciação tão cedo, aos 13 anos, e “obrigatória” para os que chumbam. Por outro lado, aos 13 anos, apesar de se remeter a “decisão” para um processo de orientação vocacional que a insuficiência gritante de recursos não permite assegurar, que alunos decidem? Alguém vai decidir por eles.
Poucos sistemas educativos assumem este entendimento e o facto de o ensino alemão, a inspiração de Nuno Crato, colaboradores e admiradores, o admitir não é uma certificação da correcção do modelo como atestam as apreciações internacionais.
Na verdade, Relatórios da OCDE e da UNESCO têm sustentado que a colocação dos alunos com piores resultados escolares em ensino de carácter técnico e vocacional muito cedo em vez da aposta nas aquisições escolares fundamentais aumenta a dificuldade na mobilidade social.
Neste patamar etário, mais do que de ensino vocacional os alunos precisam de apoios que lhes permitam, bem como aos seus professores, minimizar dificuldades e risco de insucesso. Será neste âmbito que julgo enquadrar-se a ideia do programa de tutoria agora anunciado.
É verdade e devastador que em Portugal temos cerca de 150 000 alunos que reprovam em cada ano. Temos de responder às causas deste enorme problema mas não podemos mascarar as estatísticas empurrando os “maus” para percursos que “recebem” um rótulo de “segunda” pois são percebidos por parte da comunidade como destinados aos menos dotados, “preguiçosos” ou com problemas vários. É, no entanto, verdade que a sua deriva para o ensino vocacional compunha estatísticas
Por outro lado, este tipo de oferta tem de ser adequado às comunidades educativas e dotada dos recursos e meios necessários bem como de maior e efectiva autonomia das escolas. Como tem sido referido em diferentes avaliações e pelas direcções escolares esta situação está longe de acontecer.
A diferenciação dos percursos é necessária e imprescindível, incluindo ensino vocacional, mas, reafirmo, deve surgir mais tarde, disponível para todos os alunos como se verifica na maioria dos sistemas educativos que se preocupam com os alunos, com todos os alunos. O que deve estar disponível desde sempre são dispositivos de apoio suficientes, competentes e oportunos a alunos e professores e alguma diferenciação que permita acomodar melhor a diversidade dos alunos.
Preferia que alterações nesta matéria fossem coerentes com as anunciadas intenções de reorganizar os ciclos de ensino no básico e alterar currículos. Uma mudança parcelar e desfasada no calendário de mudança pode não ser a melhor opção correndo-se o risco de, mais uma vez, serem realizadas mudanças avulsas e desarticuladas.
A ideia de um ensino básico universal, constante no Programa do Governo e com a qual em princípio concordo, não me parece contraditória com a definição de alguma diferenciação de trajectos que também defendo.
Esta diferenciação pode traduzir-se, por exemplo, na introdução no que agora é o 3º ciclo de algumas disciplinas de natureza opcional.
A existência de um modelo curricular deste tipo permitiria, se necessário com orientação adequada, optimizar as escolhas dos alunos e a sua entrada no ensino secundário. Neste patamar deverá estar disponível uma oferta mais diversificada incluindo alguma já de natureza profissionalizante.
Finalmente, julgo que este caminho de diferenciação deveria ser também acompanhado pelo acréscimo real de autonomia das escolas e agrupamentos incluindo a dimensão curricular e a oferta educativa.

quarta-feira, 8 de março de 2017

UM DIA NO FEMININO. LEMBRAM-SE?

É difícil não me lembrar a cada 8 de Março.
No 8 de Março de 2008, já passaram nove anos escrevi no Atenta Inquietude este pequeno texto.

“A história tem páginas curiosas. Hoje escreve-se uma delas. Numa sociedade em que o género ainda é factor de discriminação negativa, no Dia Internacional da Mulher, cerca de 100 000 docentes, na sua maioria mulheres, protestam contra a política dirigida por uma mulher.
Entre as razões para o protesto figuram “tratamento indigno”, “medidas ofensivas e desrespeitadoras”, “humilhação”, etc. Segundo os relatos, muitas destas mulheres protestam na rua pela primeira vez.
Será que os tempos estão mesmo a mudar?
Já o velho Dylan dizia que sim.”

Sim os tempos mudaram, o tempo não pára. Mas será que mudaram significativamente para os Professores? As marcas de Maria de Lurdes Rodrigues e as marcas de Nuno Crato permanecem. Boas? Más?
E o que se agora se segue?
Os Professores sentem-se melhor que há 8 anos? Mais valorizados? Mais apoiados? Mais recompensados e reconhecidos? Mais preparados?
Tenho medo das respostas. Gostava de não ter.

MULHERES

Não há volta a dar, 8 de Março, o calendário das consciências manda reparar nas mulheres, no seu universo, nos seus problemas. Para além das iniciativas, discursos e referências na imprensa que fazem parte da liturgia comemorativa, reparemos então.
Reparemos como se mantêm em níveis dramáticos os episódios de violência doméstica incluindo homicídios. Acresce que ainda existem muitíssimas situações que não são do conhecimento público e, portanto, boa parte dos episódios não são sequer objecto de procedimento.
Reparemos como se mantém a diferença de oportunidades e a desigualdade salarial apesar das mudanças legislativas. Segundo alguns dados serão precisas décadas para atingir equidade no estatuto salarial.
Reparemos na dificuldade que muitas mulheres em Portugal têm em conciliar maternidade com carreira, adiando ou inibindo uma ou outra, sendo cada mais preterida a maternidade. A intenção expressa de ter filhos é um obstáculo no acesso ao emprego.
Reparemos em como as mulheres portuguesas são das que na Europa mais horas trabalham fora de casa e também das que mais trabalham em casa.
Reparemos na necessidade de imposição legal de quotas para garantia de equidade.
Reparemos na desigualdade no que respeita à ocupação de postos de chefia.
Reparemos nos números do tráfico e abuso de mulheres que também passa por Portugal.
Reparemos na criminosa mutilação genital feminina, também realizada em Portugal.
Reparemos como a igreja continua a discriminar as mulheres.
Reparemos na quantidade de mulheres idosas que vivem sós, sobrevivem isoladas e acabam por morrer de sozinhismo sem que ninguém, quase, se dê conta.
Reparemos, finalmente, no que ainda está por fazer.
Na verdade, a metade do céu que as mulheres representam carrega um fardo pesado.
Portanto, até para o ano.

terça-feira, 7 de março de 2017

O HOMEM QUE QUERIA SER BOM

Era uma vez um Homem que queria ser bom, não que não fosse um bom homem, mas queria ser capaz de fazer qualquer coisa muito bem. Começou este empreendimento desde pequeno. Tentou ser um bom aluno, esforçava-se mas não passou de um aluno mediano, era amigo dos outros e de os ajudar. 
Em adolescente continuou com resultados escolares positivos mas baixos e continuava incapaz de ter algum desempenho que o distinguisse dos demais, ainda que tivesse amigos e sempre com disponibilidade para eles e para alguma necessidade. 
Não tinha particular jeito para o desporto, embora gostasse de praticar e também não revelava especiais dotes para, por exemplo, a música. Gostava e até tentou aprender a tocar um instrumento mas desistiu por manifesta dificuldade em progredir. 
Encontrou uma profissão onde, para não variar, tinha um desempenho que ele não achava mais do que razoável, assim como razoável era a sua satisfação com a família que juntou. As pessoas que o conheciam gostavam do seu jeito de estar disponível e atento a eventuais necessidades. 
O Homem envelheceu e continua na busca de algo que ele entenda fazer muito bem, toma conta dos netos embora esteja convencido que não tem para eles a paciência e a competência que acha que deve ter.
O Homem não sabe, mas os netos já me disseram que ele conta as histórias mais bonitas do mundo.

A QUALIFICAÇÃO É UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE

As bolsas de estudo no ensino superior serão atribuídas considerando o tempo necessário à finalização do curso, os três anos correspondentes ao 1º ciclo. 
Assim, os alunos bolseiros deixam de ter que provar a anualmente que preenchem os requisitos de acesso à bolsa.
Parece-me bem em nome da desburocratização e da estabilidade do percurso escolar dos alunos.
Sabe-se que uma parte dos alunos do ensino superior que abandonam antes do final do curso o faz por dificuldades económicas pessoais ou familiares.
Considerando os níveis de desenvolvimento das comunidades e a necessidade imperiosa de qualificação tudo o que possa contribuir para que os processos de qualificação sejam mais eficientes é uma boa medida.

A SALA DE AULA

Toda a vida de uma criança pode caber na sala de aula. Toda a sala de aula pode caber na vida de uma criança. Algumas vezes, a sala de aula encaixa mal na vida de uma criança. Não, não é romantismo, ingenuidade ou eduquês, seja lá isso o que for, é educação.

(Foto de Honey)

segunda-feira, 6 de março de 2017

UMA NOVA OPORTUNIDADE AO NOVAS OPORTUNIDADES


Conforme  tinha sido anunciado foi dado o arranque da iniciativa Qualifica integrada no Programa Integrado de Educação e Formação de Adultos destinado aos que “não tiveram oportunidade de estudar no tempo mais natural, mas também àqueles que, ainda sendo jovens, não conseguiram completar a escolaridade obrigatória”. Foi divulgada a meta de qualificação de 600 000 adultos até 2020.
Depois dos Centros Novas Oportunidades no Governo de José Sócrates e dos Centros de Qualificação Profissional de Nuno Crato vamos ter os Centros Qualifica.
A qualificação e formação de adultos é ainda uma das grandes prioridades portuguesas pelo que este anúncio, a concretizar-se, é uma boa notícia. Cerca de 55% da população não tem o ensino secundário completo com consequências muito significativas em sociedades marcadas pelo conhecimento e avanço tecnológico. 
Acresce que nos últimos anos se verificou um forte abaixamento nos dispositivos e recursos alocados à educação permanente ou aprendizagem ao longo da vida conforme se verifica pelo quadro no Público. Algumas notas.
Estamos todos recordados do aparecimento há uns anos do Programa Novas Oportunidades, sobre o qual afirmei no início "O lançamento de um Programa com o objectivo de estruturar e incrementar os processos de qualificação de sujeitos que abandonaram o sistema é, obviamente de saudar. Parece-me também de sublinhar o interesse e significado que o Reconhecimento e Validação de Competências, a génese do Novas Oportunidades, pode assumir para pessoas com largo trajecto profissional, sem certificação escolar, mas que tiveram acesso a um processo de reconhecimento de competências profissionais entretanto adquiridas e a aquisição de equivalências aos processos de escolarização formal".
No entanto, o desenvolvimento posterior do Programa e as sucessivas intervenções dos seus responsáveis rapidamente evidenciaram o enorme equívoco, ou melhor, embuste, de confundir qualificação com certificação, ou seja, é possível passar milhares de certificados de 9º e 12º ano em pouco tempo mas é, obviamente, impossível qualificar milhares de pessoas em pouco tempo. Foi neste quadro que se desenvolveu o Programa e que era bem conhecido por parte de quem acompanhava os Centros Novas Oportunidades onde, pese o esforço e dedicação de muitos técnicos, se verificou uma enorme pressão para que se "produzam" certificados.
Relembro que na altura da realização do 4º Encontro Nacional dos Centros Novas Oportunidades, a então Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, afirmou que tendo-se inscrito no Programa 1 milhão e 489 000 portugueses, se certificaram 456 000 o que, cito, "isto corresponde a uma média de 10 000 certificações por mês, o que é muito". Eu também acho e daí mais uma vez a ideia de provavelmente a certificação não corresponderia a qualificação.
Em Dezembro de 2008 também o Professor Luís Capucha, responsável pelo Programa, afirmava que, “estando a certificar 4 000 pessoas por mês, é curto, temos que aumentar a produção de certificados, temos que multiplicar por sete o “produto”, temos que certificar 29 900 para cumprir as metas do Governo”. Como disse na altura, parece-me possível certificar 30 000 pessoas por mês, qualificá-las é algo bem mais difícil.
Entendia que até como medida de protecção das pessoas envolvidas e do impacto social dos processos de qualificação, que é importante caminhar no sentido de que a qualificação ou reconhecimento de competências não seja um processo socialmente percebido como de natureza “administrativa”, sem rigor e qualidade destinado a melhorar “estatísticas”.
Entretanto e como é habitual quando mudam os Governos, o Ministro seguinte, Nuno Crato, decidiu extinguir os Centros Novas Oportunidades e substituiu-os pelos Centros para a Qualificação e o Ensino Profissional. O período de desinvestimento em educação que se seguiu levou a uma quase estagnação no universo da educação de adultos com custos sérios para o nosso desenvolvimento.
Parece, assim, positivo, que esta matéria seja definida como prioridade embora também espere para ver em termos mais concretos a forma como serão tratados em matéria de recursos e competências os Centros para a Qualificação e o Ensino Profissional agora rebaptizados em Centros Qualifica.
Espero que o Programa Integrado de Educação e Formação de Adultos resista à tentação de trabalhar para a “estatística”, instalando um fingimento de formação e certificação de competências que promovendo certificação não promove qualificação.
Vamos aguardar por esta nova oportunidade às Novas Oportunidades.

MÃES PRECOCES, PROBLEMAS MADUROS

Ainda umas notas sobre questões da adolescência. 
Apesar da evidente melhoria devido iniciativas de natureza diversa ainda se regista em Portugal um elevado número gravidezes entre adolescentes. Dados de 2015 registam 2295 bebés de mães entre os 11 e os 19 anos sendo que em 2011 se registaram 3663 casos.
Sendo de registar a evidente melhoria é ainda um cenário a merecer reflexão quando tem estado na agenda a discussão pública do Referencial da Educação para a Saúde designadamente no que respeita à Educação para a Sexualidade.
Parece oportuno relembrar que segundo os especialistas a diminuição do número de partos de adolescentes decorre da prevenção. Embora nestas matérias, como em todas as que dizem respeito à vida das pessoas, se deva considerar o universo de valores em presença, bem diferentes, é fundamental não esquecer as consequências devastadoras e dramáticas que a maternidade adolescente pode implicar. Recordo que há algum tempo desencadeou-se alguma discussão pública sobre os conteúdos que em matéria de prevenção estão contidos no Referencial em que ficou claramente expressa a grande disparidade e diferenças de pontos de vista sobre a questão.
É reconhecido que a gravidez na adolescência, para além de razões acidentais surge para muitas adolescentes e jovens como "um projecto de vida na ausência de outros" e num quadro de insucesso educativo.
Sabemos, a experiência mostra, que uma adolescente pode revelar-se uma excelente mãe, tanto quanto uma mulher madura pode ser uma péssima mãe. Não podemos, nem devemos, promover avaliações prévias de competências maternais, a ética e a moral impedi-lo-iam, mas podemos combater discursos hipócritas sobre a educação em matéria de sexualidade e comportamentos de risco.
Estes discursos alimentam a manutenção de situações que promovem em adolescentes, muitas vezes sem projecto de vida, um caminho e uma experiência para a qual não estão preparadas nem desejam, e com o risco sério de implicar sofrimento para todas as pessoas envolvidas, a começar, obviamente por uma criança, que sem ser ouvida, pode entrar a sofrer neste mundo.

JÁ NÃO AGUENTO

No DN de hoje divulga-se um trabalho sobre uma realidade que muitos desconhecem, alguns desvalorizam, outros negligenciam e quem conhece sabe quanto é grave e causadora de sofrimento e, por vezes, com um fim trágico, os comportamentos autodestrutivos em adolescentes e jovens, a automutilação. Segundo um estudo da Universidade de Coimbra que envolveu 2.863 adolescentes, entre os 12 e os 19 anos, a frequentar o 3.º ciclo e o ensino secundário em escolas do distrito de Coimbra cerca de 20% afirma já ter desencadeado comportamentos autolesivos pelo menos uma vez na vida.
Estes resultados estão em linha com trabalhos internacionais e como dados do estudo “A Saúde dos adolescentes Portugueses”, o de 2014, que integra o estudo internacional Health Behaviour in School-aged Children, da responsabilidade da OMS. Também um em cada cinco alunos entre o 8º e o 10º ano já se magoou a si próprio, de propósito, nos últimos 12 meses, sobretudo cortando-se nos braços, nas pernas, na barriga... Referiram que se sentiam “tristes”, “fartos”, “desiludidos” quando o fizeram.
Este indicador, preocupante como é evidente, é-o tanto mais quando representa um aumento de quase cinco pontos percentuais do grupo dos que fazem mal a si próprios considerando o Relatório anterior.
É importante sublinhar que neste estudo foram envolvidos no estudo 6026 alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos, de Portugal continental, com idades entre os 10 e os 20 anos (a média de idades é 14 anos).
Na verdade, os comportamentos de automutilação em adolescentes são mais frequentes e graves do que muitas vezes pensamos e devem ser encarados com preocupação.
São indicadores do mal-estar que muitos adolescentes e jovens sentem. Em muitas situações não conseguimos estar suficientemente atentos. Acontecem com alguma frequência situações de sofrimento com as mais diversas origens, relações entre colegas, bullying por exemplo nas suas diferentes formas, ou relações degradadas em família que facilitam a instalação de sentimentos de rejeição, ausência de suporte social, facilitadoras de comportamentos autodestrutivos.
Começa também a emergir como causa deste mal-estar a dificuldade que algumas crianças e adolescentes sentem em lidar com situações de insucesso escolar. Estas dificuldades são frequentemente potenciadas pela pressão das famílias e pelo nível de competição que por vezes se instala.
O sofrimento e mal-estar induzem uma espiral de comportamentos em que os adolescentes causam a si próprios sofrimento que promove mais sofrimento num ciclo insuportável e com níveis de perplexidade, impotência e sofrimento para as famílias também extraordinariamente significativos.
Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário. Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal-estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa, ou na escola espaço onde passam boa parte do seu tempo.
De facto em muitos casos, designadamente, em comportamentos de automutilação, pode ser possível perceber sinais e comportamentos indiciadores de mal-estar. Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. É também importante que pais e professores atentos não hesitem nos pedidos de ajuda ou apoio para lidar com este tipo de situações.
Muitos pais, diz-me a experiência, sentem-se de tal forma assustados que inibem um pedido de ajuda por se sentirem impotentes e perplexos.
O resultado pode ser trágico e obriga-nos a nós a uma atenção redobrada aos discursos e comportamentos dos adolescentes.

domingo, 5 de março de 2017

QUEM PARTE E REPARTE ...


Como diz o povo “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte”.
Na verdade, esta gente de tolo tem nada, são mesmo uns verdadeiros artistas.
Nem as moscas, às vezes, variam.
São assim as contas da partidocracia. Em alternância pois claro.
Sim, eu sei que este enunciado tem uma ponta de demagogia mas não me parece ilegítima. É recebido um valor extra para remunerar actividades(?) no quadro das funções para os quais estão a ser pagos podendo ainda acumular com actividade privada. Está certo, é legal mas a ética senhores?
Terão a generosidade de desculpar.

A CAMINHO DAS ILHAS ENCANTADAS

Daqui a umas horas estarei de novo a caminho de uma das Ilhas Encantadas, S. Miguel.
Como sempre tem ocorrido, serão três dias de trabalho intenso mas estimulante para quem tem a educação como paixão.
Como tantas vezes aqui tenho citado, acredito na ideia africana de que bastam quatro homens para fazer uma casa mas para educar uma criança é preciso uma aldeia.
É justamente o que se está a fazer acontecer em Lagoa, a mobilização de uma comunidade em todas as suas dimensões com o objectivo de “educar” a criança, todas as crianças, combatendo o abandono e o insucesso.
É uma comunidade em que os profissionais de todos os sectores que envolvem a vida das comunidades não esquecem que cerca de 20% da população, os mais novos, serão já amanhã os 100%, o futuro.
É uma comunidade que sabe que a exclusão da escola quase sempre constitui a primeira etapa da exclusão social com todos os riscos e consequências que tal implica.
É uma comunidade que sabe que a escola, a educação, pode fazer a diferença e promover mobilidade social.
É uma comunidade em que nos sentimos bem, por isso é sempre bom voltar.

sábado, 4 de março de 2017

NO TRABALHO

No Público encontra-se uma fotografia do Senhor Governador do Banco de Portugal em plena actividade de regulação e supervisão do sistema bancário português.
O seu empenhado e activo desempenho tem tido os resultados conhecidos.

DA EDUCAÇÃO

A Educação, por diferentes razões, umas mais positivas que outras, é uma matéria que está sempre na agenda e felizmente que assim é.
Sendo verdade que é de todos os tempos a insatisfação global com a “educação”, seja lá isso o que for, que cada tempo tem, também o nosso tempo está permanentemente insatisfeito com a “educação” que tem. De uma forma propositadamente simples, por “educação” tendemos a entender a escola e os resultados da sua acção e os comportamentos observados em crianças, jovens e, finalmente, em adultos nos diferentes contextos de vida.
Os discursos sobre a insatisfação face à educação (escola) escola variam, assim, entre a preocupação com os resultados escolares e a sua importância para a construção de processos e de formação e qualificação que o nível de desenvolvimento das comunidades actuais exigem e que sustentem projectos de vida e de realização pessoal e entre os comportamentos que observamos e nos inquietam assumidos por crianças e jovens em contexto escolar, familiar ou de outra natureza.
Acresce ainda que a acessibilidade à informação através da imprensa, da net ou das redes sociais tornam tudo mais conhecido, próximo e com maior escrutínio. É positivo que assim seja apesar do risco, muitas vezes presente, de se criarem equívocos, enviesamentos, sobreexposição, etc. que podem mesmo tornar-se parte do problema.
Neste cenário de permanente insatisfação e da necessidade de que as “coisas” estivessem melhores temos um contexto de, quase, “cada cabeça sua sentença” traduzido em matéria de gestão da coisa pública em educação por, “cada ministro, sua política”.
Como parece claro, o potencial de mudança, deste “caos” é baixo mas … a mudança é precisa.
Como muitas vezes aqui tenho escrito, partilho muitas das inquietações sobre o universo da educação mas, é preciso reafirmar, não tenho uma visão catastrófica, as escolas não são um inferno, prefiro as escolas de hoje que as escolas do meu tempo e apesar das dificuldades e constrangimentos, escolas (professores) e pais vão cumprindo seu papel.
No entanto, acho sempre interessante que partindo do reconhecimento de dificuldades e insuficientes tenhamos basicamente discursos em torno do “estão sempre a mudar”, do “está cada vez pior” ou “é preciso mudar”.
Não fica, pois, fácil mas é preciso que nos consigamos reflectir e entender sobre alguns aspectos essenciais.
Que andamos a fazer?! Dedicámos o século XX à criança e será que não soubemos prepará-la para o século XXI? Será que idealizámos uma criança que afinal não existe? Então que criança e jovem temos hoje e que queremos ajudar a construir?  Com que família e com que escola?
Será que acreditámos, como Durkheim, que a “educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta” e será este o resultado da nossa acção educativa?
Como disse, não me revejo em discursos ou visões pessimistas mas há que estar atento aos sinais que a realidade mostra e reflectir sobre os caminhos a seguir.
Creio que a questão deve ser enunciada neste quadro pois, ao abrigo de algo a que chamamos desenvolvimento, também produzimos e reproduzimos modelos e contextos agressivos em termos físicos, culturais, económicos, políticos, éticos e morais, etc. a que deve adicionar-se um velho paradigma da psicologia que estabelece “o comportamento gera comportamento”.
Os resultados são os que conhecemos e nos inquietam.
Por tudo isto reafirmo que a educação não é um problema exclusivo de pais e professores (escola) mas o desafio mais sério que as nossas sociedades enfrentam.
Havia um tempo em que se podia dizer ainda “temos que parar para pensar” mas o problema hoje é que não podemos parar para pensar, temos de pensar sem parar. Sabemos que existem visões, valores, corporações de interesses que não podemos negar e admitir mas talvez a velha fórmula o “superior interesse da criança” nos ajudasse a pensar a sério, sem demagogia ou retórica. Será ingenuidade?
A urgência não nos dá o tempo mas exige o esforço. Pensar é preciso.

sexta-feira, 3 de março de 2017

NOVO GOLPE DA CONSPIRAÇÃO PLATAFÓRMICA

Era mais do que previsível. A responsabilidade dos 10 milhões voarem discretamente para ainda mais discretos offshores terá sido da informática.
O golpe tem a assinatura do grupo terrorista "Conspiração Platafórmica" que tantos problemas tem vindo a criar em sectores importantes da administração e em diferentes governos.
Como já aqui dei conta, em consequência de múltiplos ataques de várias plataformas e sistemas informáticos e dada a gravidade da situação, foi criado um Grupo de Trabalho para coordenar o combate à actividade terrorista das plataformas e sistemas informáticos. O grupo integra reconhecidos especialistas em contra-terrorismo como Nuno Rogeiro, o General Loureiro dos Santos, Nuno Severiano Teixeira e Marques Mendes.
Torna-se imperioso conhecer o trabalho do Grupo mas, ao que parece, terá desaparecido devido a um problema, claro, informático.
Numa medida de urgência consta que o Ministério da Administração Interna irá contratar terão sido contratados vários antivírus em regime de recibo verde e precariedade com a promessa de posteriormente acederem ao quadro uma vez que cumprirão necessidades permanentes. O Ministro das Finanças, Mário Centeno, desconhece a decisão da sua colega da Administração Interna porque dados últimos acontecimentos não lê nem envia emails e sms. Como se sabe, com a reforma administrativa e para prevenir novos gastos astronómicos em papel de fotocópia como aconteceu com Paulo Portas, o suporte papel deixou de ser utilizado na administração.
Como é evidente, sem papel ficou ainda mais exposta ao terrorismo platafórmico.
Mais a sério, é verdade que errar é humano mas … são falhas de mais sem que as responsabilidades sejam devidamente assumidas.

A PEGADA ÉTICA

Como todos sabemos, o despertar das consciências para as questões do ambiente e da qualidade de vida colocou na agenda a questão das pegadas, das marcas, que imprimimos no mundo através dos nossos comportamentos. Este novo sentido dado às pegadas tornou secundárias e ultrapassadas as míticas pegadas dos dinossauros e as românticas pegadas que os pares de namorados deixam na areia da praia.
Fomo-nos habituando a ouvir referências às várias pegadas que produzimos com nomes e sentidos mais próximos ou mais distantes mas, sobretudo, tem-se acentuado a grande preocupação com a diminuição do peso, isto é, do impacto das nossas pegadas. Conhecemos a pegada ecológica numa perspectiva mais global ou, em entendimentos mais direccionados, a pegada hídrica, a pegada energética, a pegada verde, a pegada do papel, a pegada do carbono, etc.
No entanto, do meu ponto de vista e também preocupado com o ambiente, com a qualidade de vida e com a herança que deixaremos a quem nos segue, nunca encontro referências e muito menos inquietações sérias com a pegada ética, isso mesmo, a pegada ética.
Os comportamentos e valores que genericamente mobilizamos têm, obviamente, uma consequência na qualidade ética da nossa vida que não é despicienda. Os maus-tratos e negligência que dedicamos aos princípios éticos mais substantivos provocam um empobrecimento e degradação do ambiente e da qualidade de vida das quais cada vez parece mais difícil recuperar.
As lideranças, as várias lideranças de diferentes áreas, hipotecando a sua condição de promotores de mudanças positivas são fortemente responsáveis pelo peso e impacto que esta pegada ética está a assumir. Não passa semana que não tenhamos mais um episódio ilustrativo desta pantanosa pátria nossa amada.
Vai sendo tempo de incluir a pegada ética no universo da luta pelo ambiente, pela qualidade de vida, pela sustentabilidade do planeta ou pelo futuro, o que quiserem.
Em termos mais pragmáticos e face aos numerosos e despudorados incidentes que regularmente surgem, talvez fosse de considerar a instalação urgente de uma ETAR – Estação de Tratamento do Ambiente da República.
Gostava de acreditar que ainda estaremos a tempo de recuperar o ambiente da República. Haverá ETAR que responda?

quinta-feira, 2 de março de 2017

O MUNDO ÀS AVESSAS

As coisas nem sempre são o que parecem, o que pensamos que são ou mesmo o que gostávamos que fossem.
Na verdade, há pais que fazem mal aos filhos.
Na verdade, há filhos que fazem mal aos pais.
Na verdade, há professores que fazem mal aos alunos.
Na verdade, há alunos que fazem mal aos professores.
Na verdade, há velhos que fazem mal aos novos.
Na verdade, há novos que fazem mal aos velhos.
Na verdade, ...
Na verdade, há pessoas que fazem mal a pessoas.
Na verdade, ... o mundo é um lugar estranho e ... às vezes ... muito feio.
Parece que anda às avessas.
Apesar de tudo e sempre, talvez seja de recordar Mandela, “A educação e o ensino são as mais poderosas armas para mudar o mundo.

TRABALHO DE MÃE

Um dia destes estava à bica num café pequenino, daqueles de bairro, e ouvi, não pude deixar de o fazer, uma conversa entre duas mães que me pareceram Mães, isto é, mulheres que adoptaram verdadeiramente os filhos, porque há mulheres, poucas felizmente, que são mais prestadoras de serviços à infância do que propriamente mães.
Uma delas, mais faladora, mostrava alguma preocupação e inquietações relativamente à educação de um gaiato, pelo que percebi, de uns oito anos. Achei curioso o discurso e vou tentar recuperá-lo.
"Pois é, muitas vezes, nem sei o que fazer, ele faz asneiras, vou para me zangar com ele e lembro-me que estou tão pouco tempo com ele que se me zangar, nem esse tempo me sabe bem. Eu acho que ele vem cansado da escola, está lá desde as 8, vai com o pai porque eu saio às 7 de casa, vou buscá-lo eu já perto das sete e meia, eu também venho cansada. Depois é a lida do jantar e do banho, estás a ver que tempo é que eu tenho para ele. Dizem que a gente devia brincar com os filhos, falar com eles, mas quando? Quase sempre é preciso ainda um tempo para os trabalhos de casa e também tenho que dar uma ajuda que ele já não se aguenta. Ao jantar, aproveitamos para ir vendo as notícias que é quando temos alguma hipótese. Por vezes ainda começo a falar com ele ao deitar mas ele adormece logo e eu também vontade não me falta. Este ano ainda não consegui ir às reuniões da escola, foram sempre a horas que eu não podia. Lá no trabalho se falto começam logo a fazer má cara, como as coisas estão, sabes como é. Não sei se aconteceu contigo, mas este ano pediram para comprar muitas coisas para a escola. Não foi nada fácil, está tudo muito caro, a gente tem que fazer alguns sacrifícios mas fica difícil, lá comprámos o computador, ele ficou contente e não quer outra coisa. Às vezes já me explica algumas coisas, eu percebo pouco daquilo mas ele fica contente de me explicar, mas é um bocadinho ao fim-de-semana, sempre com falta de tempo. Mas é a vida assim, a gente é mãe, é para isto não é, a gente é que quisemos que eles nascessem e ainda bem. E quando vejo o ar dele a dormir, bem quieto, até parece que está rir-se para dentro, fico contente e acho que vale a pena a luta dos dias.
Sabes o que ele me disse no outro dia já nem me lembro a que propósito, “mãe, se os miúdos pudessem escolher as mães, eu escolhia-te à mesma”.
Eu também, pensei para comigo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

EDUCAÇÃO, INCLUSÃO E AUTARQUIAS

Correspondendo a um convite do município da minha terra dei um pequena colaboração no participei no I Encontro Nacional de Cidades Inclusivas da Rede de Cidades Educadoras.
Num telegrama, conheci experiências muito interessantes de promoção de inclusão e equidade em que vislumbrei as dimensões essenciais destes processos, Ser, Estar, Aprender, Participar e Pertencer.
Por outro lado, algumas iniciativas fizeram-me ficar ainda mais cauteloso sobre o que pode vir a ser a municipalização, proximidade, ou o que quer que seja, da educação.
Estou a tentar encontrar o copo meio cheio. A ver se consigo.

INDEPENDÊNCIA E AUTODETERMINAÇÃO, UMA QUESTÃO DE DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

Está em discussão pública o conjunto de propostas do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social relativo às pessoas com deficiência e que envolvem aspectos como uma nova Prestação Social para a Inclusão em que está prevista uma prestação única que substitui a Pensão Social de Invalidez ou o Subsídio Mensal Vitalício e o novo Modelo de Apoio à Vida Independente, medida que permitirá que uma pessoa com incapacidade igual ou acima dos 60% possa ter um assistente pessoal.
Neste sentido parece importante o testemunho de hoje no Público de uma cidadã com deficiência sobre os obstáculos na sua vida e o impacto das medidas em discussão.
Retomo algumas notas sobre as políticas sociais dos últimos anos neste universo.
Na verdade, a política social dos últimos anos pode, também, sintetizar-se da seguinte forma, cortes brutais nos apoios às pessoas, às famílias, Rendimento Social de Inserção, subsídio de desemprego, abono de família, etc., e aumento dos apoios às instituições que operam no sector social.
Para quem nos tem governado os pobres ou pessoas com deficiência não são capazes de tomar conta de si próprias, precisam sempre da tutela cuidadora de uma instituição. Uma versão enviesada de um estado social.
Com este entendimento, a título de exemplo e como alguns trabalhos têm evidenciado, o Estado prefere entregar a uma instituição uma verba para alimentar uma família numa cantina social superior à verba que essa família recebe em Rendimento Social de Inserção.
Como é evidente as instituições agradecem, as pessoas comem mas ... não se libertam da pobreza e da dependência.
Situação semelhante se tem passado passa no universo das pessoas com deficiência existe o mesmo problema que tem motivado uma luta importante por parte das pessoas com deficiência.
De facto, o estado subsidia as instituições para apoio a deficientes em 951€ mais uma parte dos rendimentos dos cidadãos institucionalizados mas não apoia as próprias pessoas que poderiam encontrar por sua iniciativa respostas e, provavelmente, com menores custos. Os cidadãos com deficiência exigem também assumir a decisão sobre a escolha do seu cuidador(a) dada a natureza da relação que se estabelece. Saliente-se que a proposta em discussão pública não parece prever esta autodeterminação da pessoa na escolha do seu assistente pessoal.
Mas é esse o entendimento subjacente a boa parte das políticas sociais, os pobres, tal como as pessoas com deficiência, não sabem tomar conta de si, precisam sempre da presença de uma instituição prestadora de cuidados, não são autodeterminadas, independentes.
Como é evidente, este discurso não pretende tornar dispensáveis as instituições, são necessárias particularmente em situações de crise ou de problemáticas mais severas, mas, simplesmente, de defender que as pessoas, muitas delas, são capazes de tomar conta de si próprias, incluindo a gestão dos apoios que a sua situação possa justificar.
No fundo, é, simplesmente, uma questão de direitos individuais e sociais.
Esperemos que a porta agora aberta não se feche nem se deturpe e se caminhe no sentido certo, o respeito pela autonomia e direitos individuais e sociais das pessoas com deficiência, designadamente, o direito à independência e autodeterminação.