segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

MEU CARO PÚBLICO, FOI UM GOSTO. PONTO

Há alguns dias, a propósito da última crónica no Público escrita por José Vítor Malheiros em que referia a sua dispensa interrogava-me “Quo vadis Público?” .
Escrevi na altura que o Público está a mudar, demasiado para a minha capacidade de suportar a mudança. Resisti a José Manuel Fernandes, tentei resistir a David Dinis mas não vou continuar. Hoje soube da dispensa de Paulo Moura e de Alexandra Lucas Coelho.
Sou, era, leitor do Público desde o primeiro número, colaborei muitas vezes e com muito orgulho em peças de vários jornalistas e elaborei vários textos de opinião.
A minha relação com o jornal, por favor não se riam, era de tal maneira sólida que apesar de ter a assinatura digital continuava a adquirir a edição em papel, precisava de no fim do dia ter o jornal nas mãos para mais uma leitura.
A chegada de David Dinis trouxe alterações, opções editoriais em que não me revejo, a dispensa de gente como José Vítor Malheiros, Alexandra Lucas Coelho ou Paulo Moura que me fazem desligar desta relação apesar de continuarem no jornal pessoas cujo trabalho respeito. 
Não sei o que pretende David Dinis. Se pretende transformar O Público numa réplica do Observador, vem tarde e falta-lhe a transparência, o Observador desde o início disse ao que vinha.
Se dar cabo do jornal, tal como o conhecemos for o objectivo, julgo que está no bom caminho.
Mas não vou participar.
São 27 anos de caminhada. Lamento terminar, insisto, por pessoas que lá continuam mas chega.
Meu caro Público, foi um gosto. Vamo-nos cruzando por aí, uma vez por outra, numa vista de olhos a que um leitor compulsivo não consegue fugir, mas ... já não é o meu jornal.
Ponto.

MODELAGEM SOCIAL

No Observador encontra-se um trabalho muito interessante sobre os riscos e potenciais efeitos nas crianças que assistem a crimes ou acções violentas.
Para além de sublinhar os danos potenciais que esta exposição pode provocar nas crianças gostava de chamar a atenção para um outro potencial efeito nas crianças que assistem a episódios, por vezes violentos, de violência doméstica, os modelos de relação pessoal interiorizados. Aliás, nos últimos anos tem-se verificado que a maioria das queixas de violência doméstica é apresentada por mulheres jovens o que permite pensar em crianças pequenas que assistirão a estes episódios.
Numa avaliação por defeito aos casos participados de violência doméstica estima-se que cerca de metade serão testemunhados por crianças. Se considerarmos que existem muitíssimas situações não reportadas, pode concluir-se que estas testemunhas, por vezes também vítimas, serão em número bem mais elevado.
Este quadro lembra o velho adágio "Filho és, pai serás", ou seja, num processo de modelagem social muitas crianças tenderão a replicar ao longo da sua vida, em adultos também, os comportamentos a que assistiram e que, tal como podem produzir efeitos traumáticos,  poderão adquiriros seus olhos, infelizmente, um estatuto de normalidade.
Não é certamente por acaso que estudos recentes em Portugal evidenciaram números elevadíssimos de violência em casais de jovens namorados universitários, uma população já com níveis de qualificação significativos.
Neste contexto e com o objectivo de contrariar uma espécie de fatalidade em círculo vicioso, os miúdos assistem à violência doméstica, replicam a violência, a sociedade é violenta, quando crescem são violentos em casa, e assim sucessivamente, importa que os processos educativos e de qualificação sublinhem a dimensão, a formação cívica e o quadro de valores.
Não é nada de novo, a afirmação desta necessidade.
A questão é que o próprio discurso social e político sobre a escola e sobre os professores não me parece contribuir para que se possa encarar a escola com a confiança necessária a que possa cumprir o seu papel e contribuir para quebrar o círculo vicioso do processo de modelagem social envolvido.
Acresce que a intervenção junto das famílias e a tentativa de contrariar dinâmicas disfuncionais, violência doméstica por exemplo, não dispõe dos meios e recursos suficientes.

SEM PERGUNTAS NÃO HÁ NOTÍCIAS

No Congresso dos Jornalistas que ontem terminou foi aprovada por unanimidade uma decisão de  que as conferências de imprensa em que seja determinado que não se realizem perguntas se verificara´um boicote por parte dos jornalistas não sendo noticiadas.
Aí está uma boa decisão que combate a forma como muitas lideranças entendem o papel da imprensa, serve para divulgar apenas a mensagemque lhes interessa difundir mostrando-se indisponíveis para responder a questões.
Resta esperar que quando fizerem as perguntas os jornalistas façam as perguntas adequadas e não uma encenação de diálogo que mais não é que um monólogo a dois, ou seja, independentemente das perguntas, o inquirido fala do que quer sem que isso lhe seja cobrado.
É ainda de aguardar a reacção das empresas de comunicação a esta decisão dos jornalistas num tempo que em precariedade e competição os deixa mais vulneráveis a pressões.

O ATESTADOZINHO

Segundo se lê no DN, os serviços de inspecção do MTSSS consideraram que um em cinco trabalhadores em situação de baixa médica avaliados reunia condições para trabalhar.
Com alguma regularidade surgem na imprensa referências a esta prática, tão nossa, tão familiar, o recurso ao "atestadozinho" que certifique incapacidade temporária para trabalhar.
Creio que todos temos uma percepção clara de que a utilização da baixa é apenas mais um dos muitos "esquemas" em que vivemos mergulhados. A baixa permite o biscate que compõe orçamentos familiares, liberta uns diazinhos de descanso, etc., e, é bom que se diga, trata-se de um fenómeno que atravessa vários estratos sociais.
Trata-se da cultura instalada e da relação ética com o trabalho, trata-se do "porreirismo" e, finalmente, da impunidade e bonomia laxista com que tudo isto é encarado.
Por outro lado, apesar da dificuldade dos clínicos na avaliação de sintomas eventualmente impeditivos de trabalho, também todos conhecemos casos, muitos casos, de baixa consciência deontológica, para ser simpático, de médicos que de forma leviana assinam baixas médicas com a maior das facilidades. Em muitos locais se conhecem uns "doutores" a quem recorrer para arranjar um "atestadozinho".
Recordo que final de 2011 a Ordem dos Médicos anunciou a intenção de apresentar uma proposta ao Ministério da Saúde no sentido de dispensar a exigência de atestado médico impeditivo de trabalho em algumas circunstâncias clínicas, como casos de gripe ou enxaquecas. A proposta radicava, de forma sintética em duas ordens de razões, a sobrecarga dos serviços com estes pedidos e a dificuldade que em alguns quadros clínicos o próprio médico terá em atestar a impossibilidade de trabalho. Assim, a proposta da Ordem remetia para responsabilidade do cidadão ou seja, para sua consciência ética e deontológica, bem como dos próprios clínicos. É aqui que, do meu ponto de vista reside a questão.
Eu ainda gostava de viver num tempo em que a proposta da Ordem dos Médicos no sentido do cidadão avaliar as suas próprias condições para trabalhar, fosse a regra e aceite sem desconfiança. No entanto, como sempre afirmo, a realidade não é a projecção dos nossos desejos.

domingo, 15 de janeiro de 2017

A SÉRIO?!

Em editorial de hoje David Dinis, director do Público, contesta que o jornalismo esteja em crise e apresenta um conjunto de argumentos nesse sentido que não permitem retirar a conclusão que defende. As dificuldades da imprensa e dos jornalistas constatam-se através de múltiplos indicadores como se verificou no congresso agora realizado e em estudos conhecidos.
No discurso de David Dinis, sem surpresa diga-se está presente uma característica que também informa boa parte dos discursos políticos, “a realidade está errada, eu é que estou certo”.
Esta tentação de transformar a realidade nos seus desejos entende-se mas tem imensos riscos.
Talvez já se notem no Público e na relação dos leitores com o jornal, ou falta dela.

NO RESCALDO DA FESTA. OS CONVITES NÃO CHEGARAM PARA TODOS

Segundo o Expresso cerca de quatro mil alunos em várias escolas continuam a ter aulas em contentores. Trata-se do rescaldo da festa.
Era, é, reconhecido por toda a gente a necessidade de modernização do parque escolar, em algumas situações inaceitavelmente degradado, pelo que o processo desencadeado sob a responsabilidade da Parque Escolar merecia concordância, independentemente da agenda político-partidária que gere os discursos das lideranças políticas.
A verificada derrapagem nas contas de muitas das obras relacionadas, que se não estranha em Portugal, têm sido apenas e lamentavelmente a "rotina" das obras geridas por capitais públicos. No caso particular da recuperação e modernização de edifícios escolares, a avaliação do que foi realizado foi mostrando algo que muitas pessoas que conhecem as escolas tinham como claro, o desajustamento de algumas soluções técnicas, o novo-riquismo saloio de alguns equipamentos e materiais, o custo exorbitante de manutenção que as soluções adoptadas implicam, etc.
Estas opções, a “Festa” como lhe chamou Maria de Lourdes Rodrigues, e a política contabilística da equipa que se seguiu na 5 de Outubro comprometeram o desenvolvimento do programa com consequências muito negativas em várias escolas que ainda continuam em eternas obras com milhares de alunos com aulas em contentores e em edifícios sem qualidade mínima.
Sublinho que a recuperação do parque escolar e o equipamento moderno das escolas era, é, uma exigência no sentido de dotar alunos, professores e funcionários de condições de trabalho que sustentem a qualidade que todos desejamos, não é um privilégio que se concede à comunidade escolar.
Agora que estamos no rescaldo da festa as facturas são elevadas, escolas que continuam com obras por concluir ou mesmo por iniciar, escolas degradadas escolas com obras paradas há anos, escolas sem manutenção face à intervenção de que foram alvo.
E não acontece nada? Não existem responsabilidades?

ATÉ À DESTRUIÇÃO FINAL

Está dada licença para construir no litoral alentejano

Depois de termos boa parte do nosso litoral, sobretudo o algarvio, praticamente destruído e betonizado em nome de uma massificação turística de má qualidade que passou como um rolo compressor por boa parte da costa, a ameaça pende sobre o litoral alentejano e qualquer parcela do nosso território que mantenha alguma beleza e esteja preservada.
A maioria destes negócios com a cumplicidade das autarquias envolve quase sempre fortíssimos interesses estrangeiros, que se sobrepõem à ordenação dos espaços territoriais e marítimos.
Eu sei, não tenho nenhuma visão fundamentalista, do peso económico que a actividade turística e o investimento em algumas áreas económicas têm em Portugal e de como deve ser cuidada essa importância. No entanto, creio que corremos o sério risco de como diz o povo "matar a galinha dos ovos de ouro" por mal cuidarmos da qualidade da oferta criada e da destruição de uma parte do país e do modo de vida de muitos portugueses com custos que a prazo podem revelar-se pesados.

sábado, 14 de janeiro de 2017

UMA DÚVIDA

Como será que vai acabar a birra do Pedro? Meteu na cabeça que há-de entalar o António mesmo que para isso todos fiquem entalados, incluindo o Pedro. 
No Portugal dos Pequeninos é assim, temos que lidar com as birras. As dos miúdos são mais fáceis de gerir e evitar.

É PRECISO INSISTIR, MALTRATAR NÃO É GOSTAR

A imprensa refere hoje que de 2015 para 2016 aumentou 6% o número de queixas à PSP e GNR por violência no namoro. Foram recebidas 1975 participações sendo que muitos episódios não são reportados.
Esta realidade tem vindo a assumir proporções inquietantes e, do meu ponto de vista, não tem merecido a atenção que a sua gravidade e prevalência justificam. Provavelmente começa por aqui a tragédia da violência doméstica que parece indomesticável.
Recordo um trabalho da responsabilidade da Universidade do Porto envolvendo um grupo populacional significativo, cerca de 3000 jovens nascidos em 1990, divulgado no início de 2014 mostrava que no âmbito das relações de namoro, 60% dos jovens inquiridos relataram pelo menos um caso de agressão psicológica, insultar por exemplo. Um em cada três jovens também refere pelo menos um episódio de coacção sexual e 18 % referiram pelo menos um acto de violência física, bater ou arremessar um objecto com o objectivo de atingir o outro. É ainda de registar que mais de metade dos jovens envolvidos assume o estatuto de vítimas mas também de agressores.
Também um trabalho da responsabilidade da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) envolvendo 2500 jovens entre os 12 e os 18 anos mostra que 22% dos inquiridos aceitam como normal a existência de diferentes tipos de violência no âmbito das relações amorosas. Estes números, em linha com estudos anteriores, merecem reflexão séria.
O estudo considera três tipos de violência, 9% psicológica, física e sexual. No que respeita à violência física 9% considera legítima e 5% afirma já ter sofrido de agressões.
Relativamente à violência psicológica perto de 25% considera aceitável e 8.5% já terá passado por situações desta natureza.
Relativamente à violência sexual, 32,5% dos rapazes e 14,5% nas raparigas, 16% em média, acha normal que se force as relações sexuais ou outro tipo de comportamentos. No entanto, apenas 4,5% assume ter sido vítima em episódios deste tipo.
Estes números que são coerentes com outros estudos sobre comportamentos de violência nas relações amorosas indiciam o que está por fazer em matéria de valores e comportamentos sociais. Acresce que boa parte das situações de abuso não são objecto de queixa.
Este conjunto de dados é preocupante, gostar não é compatível com maltratar, mas creio que não é surpreendente. Os dados sobre violência doméstica em adultos que permanece indomesticável deixam perceber a existência de um trajecto pessoal anterior que suporta os dados destes e de outros trabalhos. Aliás, nos últimos anos a maioria das queixas de violência doméstica registadas pela APAV foram de mulheres jovens.
Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época. De facto, e reportando-nos apenas aos dados mais gerais, é relevante a percentagem de jovens, incluindo estudantes universitários, que afirmam um entendimento de normalidade face a diferentes comportamentos que evidentemente significam relações de abuso e maus-tratos.
Como todos os comportamentos fortemente ligados à camada mais funda do nosso sistema de valores, crenças e convicções, os nossos padrões sobre o que devem ser as relações interpessoais, mesmo as de natureza mais íntima, são de mudança demorada. Esta circunstância, torna ainda mais necessária a existência de dispositivos ao nível da formação e educação de crianças e jovens; de uma abordagem séria persistente nos meios de comunicação social; de um enquadramento jurídico dos comportamentos e limites numa perspectiva preventiva e punitiva e, finalmente, de dispositivos eficazes de protecção e apoio a eventuais vítimas.
Só uma aposta muito forte na educação, escolar e familiar, pode promover mudanças sustentadas nesta matéria. É uma aposta que urge e tão importante como os conhecimentos curriculares.
Entretanto e enquanto não mudo, "só faço isto, porque gosto de ti, acreditas não acreditas?"

AS NOVIDADES SOBRE OS MANUAIS ESCOLARES

No programa Sexta às 9 de ontem a que não assisti passou um trabalho sobre a questão dos manuais escolares. Do resumo que hoje vi na RTP1 registo algumas novidades e acrescento umas notas.
É uma novidade que o mercado dos manuais escolares é tremendamente agressivo e os seus operacionais distribuem ofertas pelos professores procurando seduzi-los para a aprovação dos manuais.
É uma novidade que o mercado dos manuais escolares produz alterações mínimas em edições sucessivas promovendo a aquisição dos "novos" manuais escolares mesmo que ainda estejam na janela temporal da sua aprovação.
É uma novidade que os donos do mercado dos manuais escolares resistem à gratuitidade dos mesmos até com a opinião de doutos constitucionalistas expressa em pareceres encomendados … pelos donos do mercado.
É uma novidade que a gratuitidade dos manuais escolares é prática em muitos países tal como a reutilização sem que daí advenham queixas de professores, alunos ou pais.
É uma novidade que alguns representantes dos pais têm discursos ambíguos, por assim dizer, face à reutilização. Certamente sem qualquer relação com os discursos esses representantes dos pais têm como parceiros … os donos do mercado dos manuais escolares.
É também uma novidade que a Constituição da República Portuguesa dispõe no Artº 74º (Ensino): “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito.
É também verdade que certamente por opção didáctica das editoras, os manuais escolares são na quase totalidade construídos de forma a inibir a sua reutilização permitindo, por exemplo, que neles os alunos possam escrever.
É ainda verdade que neste mercado há que considerar imensidade de acessórios, cadernos, fichas, CDs, etc. que, naturalmente, têm os seus custos.
É ainda de considerar a excessiva “manualização” do ensino ligada a práticas pedagógicas pouco diferenciadas muito decorrentes de conteúdos curriculares demasiado extensos, prescritivos e normalizadores. Seria desejável atenuar a fórmula predominante, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.
Finalmente, uma outra “novidade”, os donos dos mercados dos manuais escolares, os grupos Porto Editora e Leya facturaram 45 2 22 milhões de euros respectivamente com este mercado, os manuais escolares.
Este último dado ajuda perceber tudo.

TUDO SE VENDE, TUDO SE COMPRA, ATÉ A DIGNIDADE

Eu sei que as dificuldades das pessoas levam a que com frequência os valores éticos e pessoais como dignidade sejam de geometria variável. Posso não gostar, posso não concordar mas tenho que entender.
Vem esta introdução a propósito do “acordo” entre a família do jovem de Ponte de Sor que foi agredido violentamente pelos filhos do Embaixador do Iraque e o diplomata.
Não se conhecem os termos do acordo, referem-se largos milhares de euros e a família declara-se satisfeita e ressarcida dos danos que sofreu.
Dado que a agressão é crime público o processo judicial continuará mas creio que acabará numa mão cheia de nada.
É provável que os milhares de euros do acordo sejam importantes na vida daquela família e não quero julgar a sua decisão. Também sei que os intermediários dos negócios também ganham, ouvi declarações do advogado da família em que mostrava a satisfação com o negócio realizado. Podia ter-nos poupado ao falar de justiça. Justiça?!
No entanto, também não posso deixar de registar que a dignidade não pode, não deve, ser assim atropelada. Não é novo, quem pode compra tudo, quem precisa vende tudo, até a si mesmo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

SEXTA-FEIRA 13. A HISTÓRIA DO AZARADO

Um dos dias que quando éramos miúdos não passava despercebido era a sexta-feira num dia 13, como hoje. Sempre se faziam referências ao “dá azar”. Na ingenuidade própria da idade acho que tínhamos uma relação ambivalente com o “azar”, não acreditávamos nessas coisas mas, à cautela, era melhor estar atento. Depois passámos à brincadeira, do “não sou supersticioso porque … dá azar”.
No entanto …
Era uma vez um homem chamado Azarado. Toda a sua vida foi um conjunto de circunstâncias desencontradas. Nasceu numa sexta-feira dia 13. Nasceu rapaz e os pais desejavam uma rapariga e nasceu no meio do Verão contrariando o esforço de planeamento dos pais que o queriam no Inverno.
Na escola o Azarado sempre encontrou os professores menos simpáticos e não havia jogo que conseguisse ganhar. Nos testes acontecia sistematicamente que esperava por umas questões e apareciam outras. O Azarado desesperava, é que não se pode saber tudo e ele nunca acertava.
A rapariga mais bonita que ele conheceu e por quem sentia uma paixão tão grande como aquelas que vêm nos livros, não lhe ligava nem um bocadinho, era com se ele não existisse. No entanto, tinha que fugir de uma miúda que o adorava mas de que ele só gostava ao longe, muito ao longe.
Na sua profissão, vendedor de Projectos, perdeu a grande oportunidade porque furou a caminho da entrevista que mudaria a sua vida.
O Azarado apresentou um dia a mulher ao seu colega mais amigo. Desse encontro, resultou um amor que o deixou sem mulher e sem amigo.
Viveu só o resto dos dias, sempre em desencontro com as circunstâncias. Uma manhã, o Azarado não acordou.
As pessoas que o conheciam comentaram, “Que sorte a do Azarado, ficou-se que nem um passarinho”.

O AEROPORTO NA MARGEM SUL. Uma viagem ao passado

O Ministro do Planeamento e das Infraestruturas informou que os estudos técnicos estão avançados e que a decisão respeitante à provável utilização da base do Montijo como complemento ao Aeroporto Humberto Delgado está para breve.
Esta narrativa sobre a resposta à insuficiência do Aeroporto Humberto Delgado recordou-me o famoso discurso do então Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Mário Lino, que questionado sobre a hipótese Margem Sul exclamou um inesquecível “Jamais”, argumentando que se tratava de um deserto. Na altura escrevi uma carta aberta ao Eng. Mário Lino que não resisto a divulgar de novo lembrando que estávamos em 2007.
Com a vossa licença:

Excelência,

Apelando à sua generosidade apresento-lhe a seguinte situação.

Por azares da fortuna acabei por nascer e viver no Deserto da Sara, como sabe o petit nom da margem sul do Tejo. Estou num trágico inferno Senhor Ministro. Os meus filhos engrossam as estatísticas que envergonham o nosso país e a sua colega Ministra da Educação pois, por falta de escolas, estão condenados ao analfabetismo. Todos os dias temos alguém conhecido ou familiar que falece por falta de assistência pois hospitais… não existem O seu colega Ministro da Saúde tem aqui a tarefa facilitada pois não se pode fechar o que nunca abriu. Como sabe, não temos indústria e comércio e, no deserto, a agricultura é residual pelo que poucos trabalham aqui no Deserto da Sara. Mesmo assim, os poucos que o fazem têm de percorrer longuíssimas distâncias até chegar ao Portugal rico e desenvolvido da Margem Norte. Até estas viagens são infernais pois, como muito bem sabe Vossa Excelência como Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, não temos estradas, nem pontes,, as carroças são lentas e a travessia do Tejo torna-se difícil porque os barcos não ajudam. O nosso ordenamento territorial obedece às leis do deserto pelo que não temos cidades, apenas aldeias e tão dispersas que nem as grandes superfícies chamadas Centros Comerciais aqui se instalam. Embaraça-nos muito, também, o isolamento em que vivemos pois quando, por milagre, alguém se lembra de vir ao Deserto da Sara não pode ficar devido à inexistência de hotéis, embora tenhamos numa aldeia chamada Costa da Caparica, uns parques de campismo muito jeitosos que Vossa Excelência já visitou num safari que fez pelo Deserto da Sara, aquando da revolta do mar e dos estragos que causou.

Como vê Excelência, é o inferno. Quando, com a ajuda de um familiar rico ou com algum subsidiozinho dado pelo governo a que Vossa Excelência pertence, oferecemos um presente aos nossos filhos, quase sempre optamos por “kits de sobrevivência”. É por isso que me dirijo ao Senhor Ministro no sentido de me ajudar. Um primo da cunhada do tio da minha mulher falou-me que existe uma terra chamada Ota que fica situada numa região chamada Éden onde existe tudo, mas mesmo tudo, o que pode fazer feliz uma família preocupada com o bem-estar dos seus filhos. Parece que só falta mesmo um aeroporto mas, disse-me esse familiar, o Senhor comprometeu-se pessoalmente a construí-lo. Só lhe pedia então um emprego para sair aqui do Deserto da Sara e dar à minha família o que merece. Ajeito-me em qualquer coisinha e, se tiver dificuldade, peço ajuda a uma daquelas pessoas que vêm do Leste que são doutores e sabem fazer de tudo e que agora vêm para as nossas obras. Como vê peço pouca coisa. Em troca prometo o meu voto e o da família, prometo rir-me das graças sobre a sua inscrição na Ordem dos Engenheiros, e, muito importante, não farei queixa dessas graças.

Queira, Senhor Ministro, aceitar os meus agradecimentos pela atenção que possa dispensar a esta trágica situação.

Seu, José Marques

Almada, Maio de 2007

A PRESSÃO PARA A EXCELÊNCIA

As conversas frequentes com grupos de pais têm mostrado algo que que merece reflexão e que já tenho abordado por aqui, a pressão para a excelência.
De facto, fruto dos estilos de vida, de alterações nos valores e cultura e das dificuldades genéricas que enfrentamos, tem vindo a instalar-se de mansinho em muitos pais, e também dentro das instituições educativas, uma atitude e um discurso de exigência e de pressão para a excelência no desempenho dos miúdos, a começar pelos resultados escolares.
A questão não tem, evidentemente, a ver com a natural atitude de exigência mas um sim com a pressão muito forte para a produção e alto nível de rendimento e cada vez mais cedo pois, supõe-se, ganharão vantagens.
Esta visão emergindo cedo pode fazer comprometer desde logo o cumprimento dos objectivos e função da educação de infância que não deve ser vista como a “preparação para a escola” e, muito menos, como “o primeiro tempo de escola” o que desvaloriza a sua verdadeira função e contém riscos para o desenvolvimento das crianças e, sim, também para o seu sucesso educativo e escolar.
Por outro lado, o clima instalado relativamente à pressão para resultados e para excelência e à forma como o sistema tem vindo a caminhar assumindo uma relação obsessiva com a medida, no alimentar de um clima competitivo e selectivo, famílias mais escolarizadas e que criam em muitas crianças uma pressão fortíssima para a excelência dos resultados também contribuem para que a seguir à escola muitas crianças e jovens caminhem para os centros de explicações que acabam for funcionar como AAEs, Ateliers de Actividades Escolares respondendo como 2 em 1, tomam contas das crianças e melhoram, espera-se, o seu rendimento escolar.
Acresce que esta excelência que é exigida é extensiva a todas as áreas em que os miúdos se envolvem, devem ser excelentes a tudo.
Deste entendimento, para além da tempo infindo que os miúdos passam na escola, surge uma ainda uma oferta com uma diversidade espantosa que tornará as crianças fantásticas, excelentes, em montanhas de coisas que lhes fazem uma falta tremenda para se prepararem para o futuro, basta atentar na oferta disponível.
A vida de muitas crianças transforma-se assim num espécie de agenda, passando o dia, incluindo fins-de-semana, a saltar de actividade fantástica em actividade fantástica, numa agitação sem fim.
Acontece que algumas crianças, por questões de maturidade ou funcionamento pessoal, suportam de forma menos positiva esta pressão o que poderá gerar o risco de disfuncionamento, rejeição escolar e, finalmente, insucesso.
Também sei que em muitas destas actividades estará presente uma genuína preocupação dos seus responsáveis pela qualidade e adequação do trabalho que realizam com os miúdos. A questão é que esse trabalho é apenas um dos mil trabalhos com que se vai enchendo a vida dos miúdos.
A melhor forma de preparar osmiúdos para o futuro é cuidar bem deles no presente, desejavelmente sem faltas, mas também sem excessos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

OS CUSTOS DA DEFICIÊNCIA

Informação hoje conhecida e disponibilizada pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento do MTSSS fornece dados importantes de natureza quantitativa relativos à população com deficiência, envolvendo com base nos Censos de 2011 e em indicadores mais actualizados de educação, saúde, emprego e apoios sociais.
São dados relevantes para caracterizar este universo mas insuficientes para se perceber toda a realidade.
E a realidade é que a vida das pessoas com deficiência e das suas famílias está transformada numa permanente corrida de obstáculos. E um dos obstáculos menos referenciados e considerando que se trata de dados do MTSSS tem justamente a ver com o que poderemos chamar os custos da deficiência que são de natureza variada e muito elevados.
Esta divulgação coincide com o conhecimento de uma proposta do Governo que entre outros aspectos revê os dispositivos e montantes dos apoios sociais a pessoas com deficiência. As medidas propostas abrangerão um número estimado de 120 000 pessoas dos quais 50 000 não acedem actualmente a qualquer subsídio.
Uma primeira fase de alterações entrará em vigor em Outubro de 2017 e em 2018 completar-se-á o ciclo de ajustamento.
Neste sentido a que acresce o conhecimento dos dados agora conhecidos, a revisão dos dispositivos de apoio social é uma necessidade urgente.
Retomo algumas notas por referir um ensaio recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos. “Pessoas com deficiência em Portugal” em que se analisa os problemas e contextos de vida da população com deficiência nas últimas décadas. Segundo o autor, Fernando Fontes, da Universidade de Coimbra, “Desde os anos 1980, as mudanças reais nas vidas das pessoas com deficiência em Portugal têm sido mínimas: os benefícios sociais são insuficientes para elevar a vida das pessoas acima da linha de pobreza, os problemas no acesso ao emprego mantêm-se e continuam a ser excluídas por um sistema de ensino que não considera as suas necessidades e por um mercado de trabalho que exclui a diferença”.
Recordo um relatório, "Monitorização dos Direitos Humanos das Pessoas com Deficiência em Portugal", divulgado em 2014 no âmbito da terceira conferência anual da Associação Europeia de Estudos da Deficiência, indiciando a existência de empresas que usam indevidamente os apoios estatais para a contratação de pessoas com deficiência obrigando estes trabalhadores a estágios sucessivos e a uma situação de precariedade. Este expediente é, aliás usado com outros grupos, jovens, por exemplo.
Nada de novo. Num mercado fortemente desregulado e em "flexibilização" acelerada, os direitos das pessoas ou a lei são irrelevâncias formais.
Em contextos de maiores dificuldades e dados os níveis fortíssimos de desemprego os grupos mais vulneráveis são duplamente penalizados, pela sua condição e situação de vida e por mercados e empregadores sem alma, desregulados que apenas conhecem "activos" descartáveis e a explorar e não pessoas.
No caso particular das pessoas com deficiência é também de recordar que O “Estudo de avaliação do impacto dos planos de austeridade dos Governos europeus sobre os direitos das pessoas com deficiência”, coordenado pelo Consórcio Europeu de Fundações para os Direitos Humanos e a Deficiência conhecido no final de 2013, traçou um retrato devastador do impacto que as políticas de austeridade e a crise económica tiveram e têm nas condições de vida das pessoas com deficiência e, naturalmente, das suas famílias. Este impacto, muito diferenciado de acordo com as idades e problemáticas envolvidas, compromete seriamente os direitos básicos em matéria de educação, saúde, trabalho e apoios sociais. Em todas as áreas os cortes orçamentais têm efeitos pesadíssimos, sendo que as pessoas com deficiência em Portugal têm uma taxa de risco de pobreza 25% superior à das pessoas sem qualquer deficiência.
Como sempre não posso deixar de retomar algumas notas sobre esta matéria que não são informadas por qualquer discurso de natureza paternalista ou assistencialista, mas colocadas num plano de direitos humanos, de discriminação positiva de pessoas em situação particularmente vulnerável e na não-aceitação do princípio de que equidade significa igualdade.
Talvez alguns decisores políticos não saibam, por exemplo, que o desemprego no grupo social das pessoas com deficiência terá aumentado cerca de 70 % face a 2011, e estima-se que ronde os 75 %, uma taxa catastrófica.
Sabemos que os recursos são finitos e os tempos de contenção, mas pode-se afirmar que para as pessoas com deficiência os tempos sempre foram de recursos finitos e de contenção, ou seja, as dificuldades são recorrentes e persistentes.
Um estudo realizado, creio que em 2010, pelo Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, apontava para que uma pessoa com deficiência tenha um gasto anual entre 6 000 e 27 000 € decorrentes especificamente da sua condição e considerando diferentes quadros de deficiência. Este cálculo ficou incompleto porque os investigadores não conseguiram elementos sobre os gastos no âmbito do Ministério da Saúde.
O estudo, para além das dificuldades mais objectiváveis, referenciou ainda os enormes custos sociais, não quantificáveis facilmente, envolvidos na vida destes cidadãos e que têm impacto no contexto familiar, profissional, relacional, lazer, etc.
Creio também que é justamente no tempo em que as dificuldades mais ameaçam a generalidades das pessoas que se avoluma a vulnerabilidade das minorias e, portanto, se acentua a necessidade de apoio e de políticas sociais mais sólidas, mais eficazes e, naturalmente, mais reguladas.
Os números sobre o desemprego nas pessoas com deficiência são dramaticamente elucidativos desta maior vulnerabilidade. A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, em variadíssimas áreas como mobilidade e acessibilidade, educação, emprego, saúde e apoio social, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes. Assim sendo, exige-se a quem decide uma ponderação criteriosa de prioridades que proteja os cidadãos dos riscos de exclusão, em particular os que se encontram em situações mais vulneráveis.
As pessoas com deficiência e as suas famílias fazem parte deste grupo.

A IMPRENSA É NOTÍCIA

Num tempo em que a imprensa vive tempos conturbados inicia-se hoje um congresso de jornalistas. A imprensa é ela própria notícia.
Irá ser analisado um estudo do ISCTE mostrando a precariedade baixo nível de salário que afecta a classe. Para além dos dados deste estudo julgo relevante relacioná-los com os indicadores recentemente conhecidos contidos num outro trabalho realizado pela Universidade de Coimbra.
També este estudo mostra um cenário de precariedade, cerca de metade dos jornalistas inquiridos trabalha ao “abrigo” de um contrato “próximo de lógicas de precariedade”, abundam salários baixos, mesmo abaixo do salário mínimo, e é baixa a expectativa de carreira ou de mudança de natureza profissional.
Para além destes indicadores parece de registar que 54,9% dos inquiridos refere que a sua situação laboral se repercute no desempenho do seu trabalho e 28,9% considera que que tem impacto na dimensão ética e deontológica do seu trabalho.
Ainda mais relevante é considerar que 35.7% dos jornalistas inquiridos se afirma objecto de pressões externas e cerca de um quarto refere pressões das direcções e das administrações.
Como é evidente, os dados mais específicos às questões profissionais, precariedade, carreira e salário são preocupantes e afectam outros grupos profissionais.
No entanto, parecem-me particularmente significativos os efeitos que estes dados possam ter no desempenho da função de jornalista, tornando-a mais vulnerável, trata-se da sobrevivência, às questões da qualidade e, como é referido, a constrangimentos em matéria de ética e deontologia.
No mesmo sentido, a fragilidade do jornalista enquanto profissional é também favorável à existência de pressões de várias origens e com impacto potencial inquietante no papel que se espera que a imprensa cumpra em sociedades abertas e democráticas.
Talvez, estes dados nos ajudem a perceber aquilo que para quem acompanhe diariamente a imprensa portuguesa se torna razoavelmente claro, a existência de agendas e critérios editoriais, uns mais explícitos, outros mais dissimulados mas evidentes, que constroem narrativas em que o jornalista mal pago, com um lugar precário e pressionado é apenas um peão executivo.
Acredito e desejo que seja todo este cenário que esteja em análise no congresso que hoje se inicia.
Não é de agora, mas este quadro agrava a natureza da relação dos poderes, designadamente do poder político, com a comunicação social que tem algumas particularidades interessantes.
Se estivermos atentos, reparamos como todos se procuram servir da comunicação social para a defesa dos seus interesses pessoais, partidários, institucionais, económicos, etc. Nada de novo, sabemos o peso que a comunicação social tem nas sociedades actuais e nos últimos tempos também temos tido sucessivos episódios ilustrativos dessas nebulosas relações.
Nesta matéria, para além das consequências óbvias destes comportamentos, parece-me particularmente irritante a forma quase infantil, está um pouco na moda este tipo de infeliz comparação mas não resisto, como algumas figuras reagem ao ser abordadas pela imprensa sobre assuntos sobre os quais, por várias razões, não lhes interessa discorrer. Surgem então as afirmações patéticas, “não tenho nada a acrescentar”, “desculpem, não comento”, “não estou aqui para falar dessas matérias,” “no estrangeiro não comento questões nacionais”, etc., etc. Este pessoal desenvolve assim uma espécie de surdez selectiva, só ouve o que lhe convém, de mutismo selectivo, só fala do que lhe convém, de cognição selectiva, só conhece o que lhe convém.
No entanto, são também estas as figuras que directamente ou através de terceiros, lambem as botas às redacções e aos jornalistas (quanto mais influentes melhor) e pedem, exigem, tempo de antena quando tal serve os seus diferentes interesses. Por outro lado, é também patético e preocupante assistir ao trânsito entre redacções e lugares de assessoria e em gabinetes políticos numa promiscuidade que mina a solidez ética da classe.
Para combater este pântano seria necessário uma imprensa forte, não proletarizada e precária que pudesse cumprir a sua imprescindível função.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

EVIDÊNCIAS

É cada vez mais frequente ouvir sustentar aquilo que se afirma com a evidência, ou seja, a evidência torna as coisas evidentes.
Algumas evidências assim simples e poucochinhas como agora se diz.
Não é por gritar muito com as crianças que elas falam mais baixo ou se calam. É evidente.
Não é por lhes bater com regularidade que as crianças aprenderão comportamentos adequados. É evidente.
Não é por passarem mais tempo na escola que as crianças aprenderão mais. É evidente.
Se quase sempre dissermos “sim” às crianças é bastante mais difícil que elas aprendam e integrem o imprescindível “não”. É evidente.
Não é por passarem mais tempo nas escolas que as crianças aprendem mais. É evidente.
Não é por trabalharem muito e muito tempo que as crianças trabalham melhor. É evidente.
As crianças não estão sempre distraídas, às vezes estão concentradas noutra coisa. É evidente.
As crianças, como toda a gente, precisam de sentir que os outros confiam nelas e acreditam nas suas capacidades. É evidente.
Não existem duas crianças iguais, são todas diferentes. É evidente.
A qualidade da educação não se avalia apenas pelos resultados escolares. É evidente.
No nosso tempo, o insucesso na escola vai ser muito provavelmente o primeiro insucesso da vida. É evidente.
Se tudo isto e o que mais aqui poderia estar é tão evidente por que razão tantas vezes isto parece esquecido?

O FRIO DA INFÂNCIA

Na imprensa de hoje as referências a propósito da morte de Mário Soares são já de reduzida dimensão. Estes dias foram dias exemplares, mostraram o que temos de melhor e o que temos de pior. A violência, ignorância e preconceito de alguns comentários atingiram níveis que ainda me surpreendem como também me surpreende algum endeusamento sempre excessivo, sobretudo para quem sempre viveu e assumiu a sua humana condição.
Registei em diferentes páginas o alerta para o frio que se aproxima. Confesso que gosto de dias frios mas o frio tem muitas expressões.
Recordo-me de uma dessas expressões, o frio da infância inscrito na narrativa de Juan José Millás em "O Mundo" quando enuncia, “Quem teve frio em pequeno, terá frio para o resto da vida, porque o frio da infância nunca desaparece”.
Na verdade, no Inverno ou no Verão existem muitos miúdos que passam frio, às vezes muito frio, e nem sempre conseguimos dar por isso. Acontece até que alguns deles sentem frio em ambientes muito aquecidos ou mesmo no Verão, como disse. Não se trata do frio que vem de fora, daquele de que falam os alertas coloridos que nos fazem os serviços competentes, é o frio que está à beira, um bloco de gelo disfarçado de família ou de instituição de acolhimento, é o frio que vem de dentro e deixa a alma congelada e quase sempre o corpo maltratado.
Do frio que vem de fora, apesar de incomodar, acho que, quase sempre, nos conseguimos proteger e proteger os miúdos, mas dos frios que estão à beira e dos que vêm de dentro nem sempre o conseguimos fazer porque também nem sempre os entendemos e estamos atentos ao frio que tolhe muitas crianças e adolescentes.
Apesar de sentir confiança na resiliência dos miúdos, expressa em muitíssimas situações de gente que sofreu e resistiu a experiências dramáticas, uns mais que outros naturalmente, parece-me fundamental que estejamos atentos aos frios da infância.
Muitas vezes, como diz Millás, quem teve frio em pequeno terá mesmo frio no resto da vida.
Quando olhamos para muitos adultos à nossa volta parece também claro o frio que terão passado na infância.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A HISTÓRIA DO PROBLEMA

Era uma vez um miúdo chamado Problema. Desde pequeno quase toda a gente olhava para ele e via um Problema.
Logo no jardim-de-infância o Problema não teve uma vida muito fácil, sempre que estava em alguma brincadeira ou actividade e qualquer coisa não corria bem, a responsabilidade era, claro, do Problema.
Na escola, como toda a gente e é natural, nem sempre era bem-sucedido. A explicação era clara, é inevitável ele é um Problema. Até os pais se foram habituando a olhar assim para o Problema.
Quando passou para a escola dos miúdos maiores, era já um Problema crescido. Os professores, alguns deles, não tinham grande expectativa sobre o sucesso do Problema, como sabem, a escola nem sempre lida bem com os Problemas. No entanto, o Problema ia vivendo, começava a pensar em si e nos embaraços que a vida de Problema lhe colocava.
Foi crescendo, estudando conforme podia e pensando no que sentia e no que podia fazer.
Um dia, acabou por perceber, estudou a sério, sobretudo matemática e resolveu-se.
Passou a Problema Resolvido.
A verdade é que existem muitos miúdos que se chamam Problema e têm solução

DA PARTICIPAÇÃO DOS ALUNOS NA VIDA DA ESCOLA

Foi publicada a legislação que enquadra o funcionamento do Orçamento Participativo das Escolas.
No dia 24 de Março em cada escola os alunos do 3º ciclo e secundário votarão nas propostas que entretanto forem apresentadas até final de Fevereiro tendo como subscritores entre um e cinco alunos. As propostas terão como objectivo proporcionar melhorias na escola.
Às propostas mais votadas em cada escola serão atribuídos 500 € nas escolas com menos de 500 alunos e nas de maior dimensão o equivalente a 1 € por aluno.
Não antecipo como todo este processo de construção dos Orçamentos Participativos das Escolas irá decorrer, dependerá certamente da forma como cada comunidade escolar, incluindo direcções e professores, olhar para esta iniciativa mas julgo oportunas algumas notas.
Por princípio, qualquer iniciativa que promova maior envolvimento e participação dos alunos na vida da escola para além da assistência às aulas é positiva e necessária. Para além da dimensão cívica da participação e da sua importância em sociedades democráticas, são de sublinhar outras dimensões. 
O envolvimento global e a participação contribuem para desenvolver um sentimento de comunidade, de pertença, que está associado a melhor comportamento, a melhores resultados escolares e, naturalmente, a climas de escola mais positivos com impactos importantes no bem-estar de professores, alunos funcionários, e técnicos.
Quando os alunos participam em decisões relativas aos que lhes diz respeito a forma como percebem a sua relação com o contexto em que passam o dia pode alterar-se para melhor.
Em muitas das nossas escolas, por várias razões, não será fácil desenvolver esse sentimento de comunidade, de pertença, mas é, insisto, uma dimensão essencial. Falar da “minha” escola” percebendo-a, de facto, como “minha” é algo de significativo e tem ainda uma dimensão de natureza afectiva. 
Este discurso não tem nada de romântico, é suportado e pela evidência pela nossa experiência de vida com a generalidade das instituições. Aliás, o problema pode colocar-se da mesma forma no que diz respeito aos professores, é também fundamental que sintam esse sentimento de comunidade, de pertença, à escola onde trabalham. Mesmo sem falar dos docentes que pela instabilidade da sua carreira, caso dos contratados, mudam de escola sem sequer saber se terão escola, sabemos que se atenuam os riscos de isolamento, stresse profissional, instabilidade, falta de apoio, etc.
Voltando ainda aos alunos recordo Caetano Veloso, “quando a gente gosta, a gente cuida”. Na verdade muitos alunos falam da “minha escola” sem que no fundo a percebam como sua e por isso, muitos a destratam, ou seja, não a cuidam.
Não tenho nenhuma perspectiva idealizada desta medida, Orçamento Participativo das Escolas mas, como disse, qualquer iniciativa que promova e incentive o envolvimento e participação dos alunos em decisões sobre o que lhes diz respeito é positiva.
Vamos ver como corre.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

DA GESTÃO DAS ESCOLAS, TAKE 2

Como é público, algumas propostas vindas das estruturas sindicais de alguns partidos bem como de um Manifesto divulgado em Dezembro por algumas individualidades, têm defendido o repensar do actual modelo de gestão das escolas. Segundo estes discursos o modelo de direcção unipessoal está associado “a uma crescente desvalorização da cultura democrática nas escolas e à anulação da participação colectiva dos professores, dos alunos e da comunidade educativa” pelo que defendem a retoma da “gestão democrática” assente no anterior modelo de natureza colegial, “conselho directivo”.
Hoje, em artigo de opinião, no Público o Professor José Eduardo Lemos, Presidente do Conselho de Escolas vem defender justamente o contrário, a adequação do modelo de gestão unipessoal, a bondade da sua forma de eleição e afirma “É necessário dizer isto de forma clara e inequívoca: ao contrário do que sugerem e afirmam alguns políticos e outras personalidades, é absolutamente falso que não haja democracia nas escolas bem como assim, que a substituição de órgãos unipessoais por órgãos colegiais garanta mais democracia na organização escolar.”
Como ainda ontem dizia a propósito de outra matéria, talvez fruto do clima de fortíssima crispação que nos últimos anos envolve a educação, os debates e as ideias também tendem a ser crispados, com opiniões definitivas e sem margem de entendimento e, frequentemente, com agendas menos explícitas. O modelo de gestão das escolas será apenas mais exemplo deste cenário.
Com o atrevimento de quem não vive por dentro o quotidiano das escolas mas procura acompanhar de forma atenta o universo da educação, algumas notas.
Conforme tenho dito sempre me pareceu claro que a transformação da direcção de escolas e agrupamentos num modelo unipessoal e a sua forma de eleição através dos conselhos gerais, acompanhada por uma política de mega-agrupamentos diminuindo substancialmente o número de unidades orgânicas, gosto desta designação, se inscreveu na sempre presente tentação de controlo político do sistema. Todos nós conhecemos casos, alguns chegam à imprensa de processos de eleição de direcções escolares que mais não são do que formas de colocar pessoas com o alinhamento certo na função. Aliás, o próprio funcionamento dos conselhos gerais é, em muitos casos, um exemplo disto mesmo. Assim sendo, o modelo de gestão unipessoal e a forma de eleição dos directores não são garantias de “mais democracia” ou “melhor democracia” nas escolas.
Dado um pecado estrutural do nosso sistema educativo, a ausência de dispositivos de regulação ao longo de décadas, coexistem boas experiências e práticas em situações de direcção unipessoal com situações bem negativas.
Por outro lado, importa recordar que em muitas circunstâncias a “gestão democrática", de democrática não tinha assim tanto e também se verificavam casos gritantes de menor competência.
Dito isto, parece-me que tanto quanto ou mais do que o modelo de direcção, unipessoal ou colegial, julgo de reflectir na forma de eleição, participam todos os docentes ou um pequeno grupo que “representa” o corpo docente no conselho geral, o mesmo se passando com os funcionários .
Por outro lado, também me parece que deve existir um claro reforço do papel dos Conselhos Pedagógicos no funcionamento de escolas e agrupamentos.
Importa também que a reflexão sobre a direcção de escolas e agrupamentos seja acompanhada de uma verdadeira reflexão sobre o quadro de autonomia nas suas várias dimensões e equilíbrios. Qual o efeito da anunciada municipalização ou “proximidade”, como também lhe chamam, na autonomia de escolas e agrupamentos.
É claro que quanto mais sólido for o modelo de autonomia das escolas mais importante se torna o papel e função da direcção, independentemente do modelo.
Muitos estudos mostram que nas organizações, incluindo escolas, a qualidade das lideranças tem um impacto forte no desempenho das instituições e também de todos os que nela funcionam. Boas lideranças escolares traduzem-se em melhores e mais estáveis climas de trabalho, maior nível de colaboração entre os profissionais, menor absentismo, melhores resultados ou menos incidentes de natureza disciplinar, melhor relação com pais e comunidade, entre outros aspectos.
Camões já afirmava que um fraco Rei faz fraca a forte gente” o que numa actualização republicana poderá entender-se como a defesa de lideranças competentes, com um gestão participada, com mecanismos de eleição alargados, transparentes, escrutinados e com, insisto, mecanismos de regulação que previnam excessos e abusos.
Alguns episódios na contratação de docentes, de funcionários ou nos processos que envolvem técnicos e docentes envolvidos nas AECs são exemplos a ter em conta pela forma negativa como foram geridas por algumas direcções de escolas e agrupamento.

"É PROIBIDO CORRER" E TAMBÉM SÃO PROIBIDOS "OS CARINHOS" OU A QUESTÃO DAS REGRAS E LIMITES EM EDUCAÇÃO

Nos últimos dias surgiram várias referências ao regulamento estipulado pelo Colégio de Gaia, frequentado por alunos da educação pré-escolar ao secundário, em que entre várias outras proibições se definia a expressa proibição de correr "quer chova quer faça sol" ou que, quanto aos "carinhos", "devem tê-los fora das instalações do colégio". As proibições terão suscitado reacções negativas por parte de alguns alunos e pais.
A questão das proibições em educação é e será sempre objecto de controvérsia. Aqui fica mais um contributo recorrendo a ideias que muitas vezes afirmo.
Em primeiro lugar importa reafirmar que limites e regras são um bem de primeira necessidade no desenvolvimento e educação de crianças e adolescentes. Em segundo lugar reafirmar não sendo um processo fácil, longe disso, em muitas famílias e também em instituições educativas a definição de regras e limites e o seu cumprimento se torna particularmente difícil. Diariamente assistimos a exemplos dessa dificuldade.
A proibição de correr, para crianças e adolescentes, ou ou a definição de que os carinhos são para fora das instalações, assim enunciadas e dentro de uma instituição educativa parecem-me um disparate que nem discuto. Parece-me mais pertinente e adequado reflectir na forma de promover comportamentos adequados sem que a proibição seja o instrumento único para tal efeito e a definição de regras e limites assente menos no que NÃO se pode fazer e mais NO QUE se deve fazer e no COMO se deve fazer promovendo a decisão e escolha das crianças no sentido de assim proceder. Dito de outra maneira, a questão essencial remete para uma outra matéria de natureza mais vasta e importante, a autonomia das crianças e a forma como a promovemos ... ou não.
De há muito e sempre que penso ou falo de educação me lembro de um texto de Almada Negreiros em que se afirma " ... queria que me ajudassem para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si". Este enunciado ilustra, do meu ponto de vista, a essência da educação, seja familiar ou escolar, em qualquer idade.
De facto, o que se pretende num processo educativo será a construção de gente que sabe tomar conta de si própria da forma adequada à idade e à função que em cada momento se desempenha. Este entendimento traduz-se num esforço contínuo de promover a autonomia das crianças e jovens para que "saibam tomar conta de si próprios", no fundo, a velha ideia de "ensinar a pescar, em vez de dar o peixe".
Parece-me fundamental que adoptemos comportamentos que favoreçam esta autonomia dos miúdos e dos jovens. No entanto, é minha convicção que por razões que se prendem com os estilos de vida, com os valores culturais e sociais actuais, com as alterações das sociedades, questões de segurança por exemplo, estamos a educar os nossos miúdos de uma forma que não me parece, em termos genéricos, promotora da sua autonomia. A rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências da vida escolar são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia. A construção de regras e limites inscreve-se neste processo bem como a percepção das implicações do seu não cumprimento.
Acontece que crianças e jovens são permanentemente bombardeados com saberes e actividades que serão obviamente importantes para o seu desenvolvimento e para o seu futuro mas, ao mesmo tempo pouco autónomos, pouco envolvidos nas decisões que lhes dizem respeito cumprindo agendas que lhes não dão margem de decisão sobre o quê e o porquê do que fazemos ou não fazemos. Acabam por se tornar menos capazes de decidir sobre o que lhes diz respeito, dependem da "decisão de quem está à sua volta, companheiros ou adultos.
Um exemplo, para clarificar. Um adolescente não habituado a tomar decisões, a fazer escolhas, mais dificilmente dirá não a uma oferta de um qualquer produto ou um a convite de um colega para um comportamento menos desejável. É mais difícil dizer não do que dizer sim aos companheiros da mesma idade. Num sala de aula é bem mais provável que um adolescente tenha um comportamento adequado porque "decida" que é assim que deve ser, do que por "medo" das consequências.
Só crianças e jovens autónomos, autodeterminados, serão mais capazes de dizer não ao que se espera que digam não e escolher de forma ajustada o que fazer e como fazer, o que sublinha a importância de em todo processo de educação, logo de muito pequeno, em casa e na escola, se estimular a autonomia dos miúdos.
Creio que este entendimento está pouco presente em muito do que fazemos em matéria de educação familiar ou escolar e para todos os miúdos.
Todos beneficiariam, miúdos e adultos. Mais do que ler num qualquer regulamento "É expressamente proibido correr dentro do colégio, quer chova, quer faça sol" ou que os "carinhos" são para usar do lado de fora da instituição.

domingo, 8 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES

Já quase tudo terá sido escrito como reacção à morte de Mário Soares, até a boçalidade sinistra de algumas afirmações. 
O que falta escrever será a História a fazê-lo mas ainda não é o tempo.
É apenas o tempo de afirmar como marcou o nosso caminho como país nas últimas décadas numa luta contínua por valores essenciais, Liberdade e Democracia.
Decidiu sempre bem? Não. Fez sempre bem? Não.
Porquê? Porque era apenas um Homem, com virtudes e com defeitos, e sempre assumiu com enorme frontalidade que era isso mesmo, apenas um Homem. Não é coisa pouca num país como o nosso.
Gostei de o ter como concidadão, obrigado.

GOSTEI DE LER, "A CULPA DO DÁ-LHE MAIS, DÁ-LHE MAIS É DOS PAIS?"

Gostei de ler o texto da Bárbara Wong no Público ""A culpa do "dá-lhe mais, dá-lhe mais" é dos pais?"
(...)
(...)
Vai ao encontro do que muitas vezes afirmo quando assistimos a casos de violência extrema envolvendo jovens, apesar de terem, felizmente, efeitos menos trágicos, levando-nos a questionar os nossos valores, códigos e leis pela perplexidade que nos causam. É um problema de toda a comunidade, não "apenas" da escola ou da família.
Esta perplexidade exige a necessidade de tentarmos perceber um processo que designo como "incubação do mal" que se instala nas pessoas, muitas vezes logo na infância e adolescência, a partir de situações de mal-estar que podem passar relativamente despercebidas mas que insidiosamente começam a ganhar um peso interior insuportável cuja descarga apenas precisa de um gatilho, de uma oportunidade.
A fase seguinte pode passar por duas vias, uma mais optimista em que alguma actividade, socialmente positiva, possa drenar esse mal-estar, nessa altura já desregulação de valores, ódio e agressividade, ou, a outra via, aumenta exponencialmente o risco de um pico que pode ser, antes de algo ainda mais grave, uma investida contra alguém numa espiral de violência cheia de "adrenalina", em nome de coisa nenhuma a não ser de um "mal-estar" que destrói valores e gente.
É evidente que a punição e a detenção constituírem um importante sinal de combate à sensação de impunidade perigosamente presente na nossa comunidade mas é minha forte convicção de que só punir e prender não basta.
Assim, sabendo que prevenção e programas comunitários e de integração têm custos, importa ponderar entre o que custa prevenir e os custos posteriores da violência, da delinquência continuada e da insegurança.
Importa ainda estratégias mais proactivas e eficientes de minimizar a guetização e "quase total" desocupação de, em Portugal, centenas de milhares de elementos da geração "nem, nem" nem estuda, nem trabalha. Para esta gente, o futuro passa por onde, por quem e porquê?
Finalmente, a importância de uma precoce e permanente atenção às pessoas, ao seu bem-estar, tentando detectar, tanto quanto possível, sinais que indiciem o risco de enveredar por um caminho que se percebe como começa, mas nunca se sabe como acaba.

sábado, 7 de janeiro de 2017

E VOLTAMOS AOS TPCs

Foi divulgada a segunda parte dos resultados do trabalho do Alexandre Henriques no blogue ComRegras sobre os trabalhos de casa. Não tenho intenção de aqui discutir os resultados na sua globalidade, traduzem a cultura instalada sobre a questão pelo que são previsíveis, incluindo as diferentes posições de professores, pais e encarregados de educação e alunos.
Relativamente aos resultados registo apenas que só no 1º ciclo a percentagem de docentes que atribui TPCs “frequentemente” e “sempre” é superior à dos que ”nunca atribuem” e “raramente atribuem”. No 2º e 3º ciclo bem como no secundário predominam os docentes que raramente ou nunca atribuem TPCs aos alunos.
Volto a umas ideias tantas vezes aqui referidas pedindo desculpa pela insistência.
Talvez fruto do clima de fortíssima crispação que nos últimos anos envolve a educação, os debates e as ideias também tendem a ser crispados, com opiniões definitivas e sem margem de entendimento. Também assim tende a acontecer quando se discute a questão dos TPC, ser contra ou ser a favor. Mais uma vez e sem qualquer visão fundamentalista fica um contributo para uma discussão e mudanças que me parecem necessárias, aliás, umas não vão sem a outra.
Segundo a OCDE num trabalho "Does homework perpetuate inequities in education?" produzido com base em dados recolhidos no âmbito do PISA nos anos de 2003 e 2012 os alunos portugueses de 15 anos, dados de 2012, gastam em média 4h semanais na realização de trabalhos de casa, menos uma hora que em 2003 e menos uma hora que a média dos 38 casos estudados pela OCDE.
Do meu ponto de vista, os dados mais relevantes deste relatório remetiam para o facto de que os alunos com famílias de meios sociais e económicos mais favorecidos gastarem mais 2 horas em trabalhos de casa que os seus colegas com famílias de estatuto mais baixo o que, sublinha a OCDE, poderá alimentar a falta de equidade.
Neste contexto, parece-me pertinente recordar que o nível de escolaridade dos pais, em Portugal em particular da escolaridade da mãe conforme dados recentemente divulgados, é um fortíssimo preditor do sucesso escolar dos filhos. Um recente trabalho da responsabilidade conjunta da Fundação Francisco Manuel dos Santos e do CNE mostrou que nove em cada dez alunos com insucesso escolar são de famílias pobres.
Estes dados sustentam o entendimento de que os trabalhos de casa correm o sério risco de alimentar desigualdade de oportunidades e obriga-nos a reflectir sobre a sua utilização.
Parece-me também importante o facto de que no nosso sistema educativo os alunos do 1º, 2º e 3º ciclo podem passar 8 ou 10 horas diárias na escola considerando o tempo lectivo, as Actividades de Enriquecimento Curricular e a Componente de Apoio à família, (no limite algumas crianças poderão estar 55 horas semanais na escola, uma enormidade). Este tempo de permanência na escola é um dos mais longos dos países da OCDE e vai também envolver os alunos até ao 9º por decisão do actual ME. Acresce que em muitas circunstâncias, muitos alunos têm ainda Trabalhos Para Casa que, nas mais das vezes, são a continuação ou a réplica de trabalhos escolares, ou seja mais do mesmo.
Conforme os resultados do ComRegras é justamente o grupoque mais tempo passa na escola que mais tem atribuído TPCs o que merece reflexão.
Não tenho nenhuma posição fundamentalista, insisto, mas creio que deve distinguir-se com clareza o Trabalho Para Casa e o Trabalho Em Casa. O TPC é trabalho da escola feito em casa, o trabalho em casa será o que as crianças podem fazer em casa que, não sendo tarefas de natureza escolar, pode ser um bom contributo para as aprendizagens dos miúdos. O que acontece mais frequentemente é termos Trabalhos Para Casa e não Trabalho Em Casa.
Os TPCs clássicos têm ainda o problema de colocar com frequência os pais em situações embaraçosas, querem ajudar os filhos mas não possuem habilitações para tal.
A propósito, numa reunião de pais em que participava e se discutia esta questão, dizia uma mãe, “o senhor, da maneira que fala, se calhar é capaz de ajudar o seu filho, mas na minha casa, chora a minha filha e choro eu, ela porque quer ajuda, eu porque não sou capaz de lha dar.” Colocar os pais nesta posição parece-me discutível, no mínimo.
Sim, eu sei, que é apenas uma situação, não é a floresta mas dá que pensar.
Um professor do 1º ciclo dizia numa roda profissional que alguns dos conteúdos que tinha de ensinar aos alunos (referiu o exemplo da operação “divisão”) os punha como trabalhos de casa e esperava que os pais os ensinassem. Não me batam, eu sei que é apenas uma situação infeliz mas é real e dá que pensar.
Torna-se, pois, necessário que professores e escolas se entendam sobre esta matéria, diferenciando trabalho de casa, igual ao da escola, de trabalho em casa, trabalho em que qualquer pai pode, deve, envolver-se e é útil ao trabalho que se realiza na escola.
Tudo isto considerado, o recurso ao TPC deveria avaliar se o aluno, cada aluno, tem capacidade e competência para o realizar autonomamente, por exemplo, o treino de competências adquiridas. Na verdade, porque milagre ou mistério, uma criança que tem dificuldade em realizar os seus trabalhos na sala de aula, onde poderá ter apoio de professores e colegas, será capaz de os realizar sozinha em casa? Naturalmente tal só acontecerá com a ajuda dos pais ou, eventualmente, de "explicadores" a que muitas famílias, sabemos quais, não conseguem aceder.
No entanto, do meu ponto de vista, sobretudo nas idades mais baixas, o bom trabalho na escola deveria dispensar o TPC. É uma questão de saúde e qualidade de vida.
Parece ainda de sublinhar que os estudos sugerem que "é sobretudo a qualidade das aulas, mais do que o tempo global de aprendizagem que está associado ao sucesso na aprendizagem. Aliás, no citado relatório da OCDE também se conclui que não há uma relação significativa entre o número médio de horas gastas nos TPCs e os resultados escolares.
Andaríamos melhor se reflectíssemos sem preconceitos e juízos fechados sobre questões desta natureza. Não é uma questão de ser a favor ou contra os TPCs, é reflectir sobre o que são? Como se utilizam? Que efeitos na generalidade dos alunos? Como se adaptam às circunstâncias e diferenças de contexto dos alunos como idade/ciclo de escolaridade, nível de escolarização familiar, etc.

DOS AUXILIARES DE EDUCAÇÃO E DA SUA IMPORTÂNCIA

É reconhecido que muitas escolas e agrupamentos lutam com a falta de assistentes operacionais, a designação sem sentido, que substituiu a de auxiliares de educação, função que, de facto, estes profissionais desempenham e que é de enorme relevo. Estima-se que face às necessidades e rácios estipulados fossem necessários alguns milhares.
O ME adiantou a contratação de 300 técnicos e agora decide num processo burocratizado e lento contratar tarefeiros pagos a 3.49€ por hora e com um prazo de validade até 23 de Junho. Este pessoal poderá atingir um rendimento de 240 € mensais a que acresce o subsídio de refeição.
É evidente que para além da promoção da precariedade que o Governo afirma combater, este vencimento não é um salário, é um subsídio de sobrevivência, uma indignidade.
Para além desta situação verifica-se ainda que nos últimos anos boa parte das necessidades das escolas, elaboradas de acordo com rácios já desajustados face às mudanças na organização do sistema, são colmatadas através do recurso a desempregados inscritos nos Centros de Emprego, o chamado Contrato Emprego-Inserção, que chegam tarde às escolas, a maioria sem formação para o trabalho que envolva crianças.
No entanto, ao fim de cada ano estas pessoas vão embora e não podem voltar a trabalhar no ano seguinte no local em que estiveram independentemente da qualidade do seu desempenho e do desejo das direcções escolares. Esta medida indefensável só pode ser entendida à luz das múltiplas habilidades para disfarçar o desemprego sem, verdadeiramente, criar emprego.
Algumas notas sobre o papel dos auxiliares de educação considerando, sobretudo, o seu importante papel educativo para além das funções de outra natureza que também desempenham que exige a adequação do seu efectivo, formação e reconhecimento. No caso mais particular de alunos com necessidades educativas especiais, em algumas situações os assistentes operacionais serão mesmo uma figura central no seu bem-estar educativo, ou seja, são mesmo auxiliares de acção educativa.
A excessiva concentração de alunos em centros educativos ou escolas de maiores dimensões não tem sido acompanhada pelo ajustamento adequado do número de auxiliares de educação. Aliás, é justamente, também por isto, poupança nos recursos humanos, que a reorganização da rede, ainda que necessária, tem sido feita com sobressaltos e com a criação de problemas.
Na verdade, os auxiliares educativos cumprem um papel fundamental, nem sempre valorizado, nas comunidades educativas e por várias razões.
Com frequência são elementos da comunidade próxima das escolas o que lhes permite o desempenho informal de mediação entre famílias e escola, terem uma informação que pode ser útil nos processos educativos e uma proximidade com os alunos que pode ser capitalizada importando que a sua acção seja orientada, tenha alguma formação e que se sintam úteis, valorizados e respeitados.
Os estudos mostram também que é nos recreios e noutros espaços fora da sala de aula que se regista um número muito significativo de episódios de bullying e de outros comportamentos socialmente desadequados. Neste contexto, a existência de recursos suficientes para que a supervisão e vigilância destes espaços seja presente e eficaz. Recordo que com muita frequência temos a coexistir nos mesmos espaços educativos alunos com idades bem diferentes o que pode constituir um factor de risco que a proximidade de auxiliares de educação minimizará.
Considerando tudo isto parece muito pertinente e um contributo para a qualidade dos processos educativos a presença em número suficiente de auxiliares de educação que se mantenham nas escolas com estabilidade e que sejam orientados e valorizados na sua importante acção educativa.
Esta indefensável precariedade retribuição não são, claramente, um contributo para esta valorização. É apenas um remendo logístico.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

NO DIA DE REIS, UMA HISTÓRIA COM UM REI

No Dia de Reis, uma história com um rei.
Era uma vez um sítio onde havia um Rei. As pessoas deste sítio estavam um pouco perplexas com a situação porque nem tinham percebido muito bem como tinha surgido o Rei.
A verdade é que o Rei tinha uma influência enorme na vida das pessoas do sítio. Elas organizavam-se para satisfazer todos os seus caprichos, todas as suas ordens e ir ao encontro das necessidades que o Rei tinha ou que as pessoas julgavam que o Rei sentia.
O Rei era muito variado de humores pelo que nem sempre queria as mesmas coisas, um dia gostava de algo que no dia a seguir detestava. Era esquisito com o que lhe proporcionavam, protestava e mostrava o seu desagrado de forma até bem evidente com tudo e mais alguma coisa, nada parecia agradar-lhe e tudo parecia querer.
Reagia mal à mais pequena contrariedade, que não admitia, pelo que as pessoas temiam estar por perto e tentavam evitar as suas frequentes crises e zangas, durante as quais não tratava muito bem quem estivesse à sua beira.
Esta forma de viver foi-se instalando e as pessoas começaram a sentir-se muito desconfortáveis. Por um lado, observavam que em outros sítios não havia Reis assim e as pessoas viviam de uma forma mas tranquila e, por outro lado, iam entendendo que o Rei iria progressivamente ficando mais Rei e que a sua vida ficaria certamente mais complicada.
Um dia, as pessoas, aproveitando o sono do Rei, juntaram-se e decidiram, "A nossa família já não aguenta mais, a partir de hoje, o João faz sete anos, e não podemos mais aceitar que ele se porte como um Rei sem limites, vamos começar a dizer-lhe que não, que não pode ser tudo como ele quer. O João vai ser um João, não o Rei que tem sido até aqui. Está decidido".
Não sei como acabou a história daquele Rei, mas parece que o João anda mais feliz, só era um Rei porque o deixaram. E as pessoas deste sítio, perdão desta família, também estão mais felizes.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

DA VIOLÊNCIA ENTRE JOVENS

A comunidade está de novo em sobressalto com mais um vídeo chocante da agressão de um adolescente por um grupo também de adolescentes que ocorreu há alguns dias aqui na minha terra, Almada, e que agora foi divulgado pela imprensa.
A situação já era do conhecimento das autoridades criminais que procedem ao acompanhamento e investigação. Algumas notas repescadas.
Os comportamentos agressivos e abusos entre jovens em contexto escolar, bullying por exemplo, ou fora deles são de sempre ainda que os estudos destes fenómenos sejam mais recentes. O volume e a gravidade de alguns episódios e, sobretudo, a sua mediatização através das redes sociais dão também uma maior visibilidade ao fenómeno.
Na verdade e com alguma preocupação, em vários estudos muito recentes constata-se que os adolescentes tendem a encarar a violência entre si e de uma forma geral, como normal o que não surpreenderá os mais atentos. A sociedade da informação e os sistemas de valores actuais banalizaram a violência, não são os adolescentes que a banalizaram.
Por outro lado, a escola e o meio circundante, por serem os espaços onde os adolescentes e jovens passam a maior parte do seu tempo são, naturalmente, os espaços onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que os alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola, família e outros actores da comunidade dm assumir responsabilidades.
No entanto, sem desresponsabilizar as famílias importa não esquecer que alguns pais se sentem tão perdidos quanto os filhos, têm elas próprias dificuldades e disfuncionalidades que são parte do problema e não da solução pelo que também elas precisam de apoio, só responsabilizá-las não chega.
No que respeita à violência entre jovens, um fenómeno complexo, existem ainda duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos alunos, ou adultos, vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações e encontrar dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa, sobretudo entre os mais novos. É importante também que os actores da escola e da comunidade saibam detectar nos alunos sinais que indiciem vitimização.
Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. As escolas, tal como a comunidade em geral podem e devem assumir atitudes, discursos e montar dispositivos que, visivelmente, mostrem um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.
É também importante que famílias e escolas estejam atentas e que estas possam ser dotadas de meios e recursos que permitam o desenvolvimento de iniciativas no plano da formação e apoio aos adolescentes e jovens, integrados ou não nos conteúdos curriculares que, tanto quanto possível, minimizem o risco de incidentes como o que agora conhecemos.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização destes incidentes que minam a qualidade cívica da nossa vida.

A ESCOLA E AS ALTERAÇÕES AMBIENTAIS

O Expresso faz referência a ume estudo realizado na Universidade de Coimbra que sugere a existência de má qualidade ambiental no universo de escolas do 1º ciclo que foram estudadas.
Nada de novo, recordo que em 2014 também a DECO encontrou falta de qualidade ambiental num estudo que envolveu 23 escolas.
O ambiente em que se vive e respira nas escolas é de facto uma matéria importante e estes estudos apenas comprovam o que já sabemos, apesar de algum desanuviamento mais recente a qualidade do ambiente, do clima, nas escolas continua, por assim dizer, em alerta vermelho.
Apesar de sucessivas afirmações de normalidade por parte dos responsáveis o ambiente, o clima, vivido nas escolas nos últimos anos, sobretudo a partir da passagem da festiva Maria de Lourdes Rodrigues e com o consulado de Nuno Crato na 5 de Outubro, degradou-se produzindo desânimo, desmotivação, cansaço, stresse e burnout. A degradação ambiental associou-se também à saída antecipada de milhares de professores mesmo implicando a perda significativa de condições económicas que, aliás, afectaram todos os docentes.
Situações como as que têm afectado os docentes, o número de alunos por turma em algumas escolas, a concentração excessiva através da política de mega-agrupamentos, a qualidade de alguns espaços e equipamentos que não couberam na "festa" da Parque Escolar, a falta de auxiliares e técnicos, etc, são também contributos para as alterações climáticas e degradação ambiental no universo escolar.
Acontece que como os estudos e a experiência sugerem o clima institucional é uma das variáveis mais associadas à qualidade de trabalho das instituições, incluindo as escolas. 
Neste cenário de degradação climática são de esperar medidas de protecção ambiental que promovam climas e ambientes de aprendizagem que sejam tão saudáveis, serenos, despoluídos e inclusivos quanto possível.
É uma questão de futuro.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

OS NOMES QUE DAMOS

Anualmente ficamos a saber que nomes os pais entendem que devemos chamar aos que vão nascendo e também neste aspecto em 2016, sem surpresa, se registam algumas mudanças.
Nas raparigas a tradição ainda é o que era, Maria é o nome mais atribuído, Matilde mantém-se e desce a escolha de Leonor, Mariana e de Carolina. No entanto, Lara ultrapassou Joana e Luana, Camila e letícia foram mais escolhidos que Luísa isabel ou Bárbara. Paula, Sandra ou Lurdes quase deixam de ser escolhidos.
De registar ainda o aumento de nomes pouco usuais, Yasmin, por exemplo.
Nos rapazes verifica-se alteração no topo, Santiago foi o nome mais escolhido perdendo João o primeiro lugar. Francisco mantém o terceiro lugar e a escolha de Martim foi revista em baixa. Registo a baixa escolha do portuguesíssimo José.
Devo dizer que tenho vindo a ficar um pouco inquieto com o rumo que a coisa parece tomar. Um mundo sem “Sónias Andreias”, sem “Cátias Vanessas”, sem “Sandras Cristinas”, sem “Tatianas”, sem “Fábios”, sem “Mauros”, vai ser certamente um mundo diferente. Também em trabalhos anteriores sobre esta matéria se registava já a tentativa de sofisticar um pouco as escolhas, mantém-se o popular João, mas temos o Rodrigo, o Martim, o Tomás, o Santiago, o Salvador, a Mariana, a Matilde entre outras que nos garantem, enfim, outra apresentação.
Mas o que me deixou mais apreensivo face a esta questão, é que, recordando um trabalho também sobre esta matéria há algum tempo divulgado, parece notar-se que o povo está mesmo a voltar as costas aos nossos mais gloriosos nomes, sobretudo nos rapazes, nomes como Manuel, António, José, Paulo, Carlos, etc. estão em queda. Será que vamos deixar de ter um Carlos Jorge, um António Manuel, um Manuel Carlos, um José Manuel, um António João, um Paulo Jorge, tudo nomes na nossa melhor tradição?
Até nos nomes! Estão a mexer com a nossa identidade.
É certo que existem uns nomes que todos os dias, em voz mais alta ou mas baixa, chamamos a alguém e que se mantêm e manterão, aí a tradição ainda é o que era, felizmente.
Por outro lado, considerando os nomes que se chamam e de que as pessoas não gostam, uma pequena história que há tempos aqui deixei.
"Gosto quando me chamam. Às vezes, muitas vezes, não me chamam.
Outras vezes chamam-me nomes que não são meus. Os crescidos chamam-me preguiçoso, distraído, parvo, bebé, coitadinho e outros nomes, sempre nomes que não são meus.
Os outros miúdos chamam-me badocha, gordo, bolacha, caixa de óculos, def e outros nomes, sempre nomes que não são meus.
Eu acho que as pessoas, todas as pessoas, só deviam ter um nome, o seu."