segunda-feira, 15 de agosto de 2016

DAS UNIVERSIDADES PORTUGUESAS

Apesar da negrura crática que se abateu sobre o ensino superior e a investigação as universidades portuguesas mostram qualidade e evoluem.
Sou dos que entendem que a ditadura da bibliometria a que acresce os enviesamentos do emergente nicho de mercado das publicações científicas não pode ser o único critério de qualidade nas instituições de ensino superior mas é importante perceber o valor das nossas universidades.

SER PEQUENO

Dado o inexorável movimento dos dias cumpro hoje mais um marco de uma estrada que já vai ficando longa. Na minha terra era costume, creio que ainda é muito frequente em Portugal, referir que quando se celebra um aniversário, se é "pequeno". Assim sendo, hoje sou "pequeno", coisa que não é nada fácil imaginar e muito menos conseguir.
Embalado por essa ideia lembrei-me de quando era mesmo pequeno, tentação que parece inevitável cada vez que ficamos mais velhos.
Lembrei-me de como brincava, ao que brincava e com quem brincava, quase sempre na rua.
Depois lembrei-me de como brincava com o meu filho, quando ele era pequeno, grandes viagens em grandes brincadeiras.
Agora brinco com os meus netos, são eles os pequenos. Muito a gente se diverte. E havemos de nos divertir ainda mais a brincar. Palavra de avô.
A este propósito e com já vos tenho dito e, certamente, alguns estranharão, acho que por estes dias os miúdos brincam pouco.
Eu sei que os tempos são diferentes e os estilos de vida mudaram significativamente. No entanto, não me parece que sejam razões suficientes. A questão é, creio, de outra natureza.
As brincadeiras já não brincadeiras, passaram a chamar-se actividades. E os miúdos têm muito pouco tempo para brincar, é quase todo destinado a actividades, muitas actividades, que, dizem, são fantásticas e fazem bem a tudo e mais alguma coisa, promovem competências extraordinárias.
Deixem os miúdos brincar, faz-lhes bem, é mesmo a coisa mais séria que fazem e, como sabem, é importante lidar desde pequeno com coisas sérias.
Agora vou brincar com os meus netos, estão aqui à beira. Hoje sou pequeno, vamo-nos entender ainda melhor.
Até depois, fiquem bem.

domingo, 14 de agosto de 2016

VIDAS PRECÁRIAS

Este ano estiveram nas escolas, durante o ano inteiro, 3782 contratados. Em Agosto perdem o vínculo e voltarão a tentar a dignidade do exercício da sua profissão de há muitos anos para a maioria destes professores.
De facto, boa parte destes professores tem uma larga experiência docente e avaliada. Só para dar um exemplo citado na peça do DN sobre esta questão, uma professora já cumpriu  26 contratos em 20 anos de serviço.
Estes professores estão há muitos anos a colmatar “necessidades reais e permanentes” do sistema". Haja seriedade.
Em que outra profissão pode acontecer milhares de pessoas prestarem de forma continuada durante anos, muitos anos, serviço ao mesmo empregador sem aceder a um vínculo estável que lhes permita criar uma imagem de futuro e uma perspectiva de carreira.
Como muitas vezes tenho afirmado, parece-me claro que a questão do número de professores necessário ao funcionamento do sistema é uma matéria bastante complexa que, por isso mesmo, exige serenidade, seriedade, rigor e competência na sua análise e gestão, justamente o que tem faltado em todo este processo desde há muito, incluindo a alguns discursos de representantes dos professores.
Para além da questão da demografia escolar que, aliás, o ME sempre tratou de forma incompetente e demagógica, as necessidades ou o “excesso” de professores no sistema, como entende o MEC, deve ser também e sobretudo analisado à luz das Políticas Educativas em Curso e que começaram, nesta matéria, em Isabel Alçada e tiveram em Nuno Crato o grande promotor da Grande Marcha de milhares de professores para fora do sistema como há dias escrevi.
Dispenso-me de repetir várias dimensões dessas PEC que contribuíram para este cenário.

ENSINAR E APRENDER MATEMÁTICA

Não sendo um especialista nesta matéria, longe disso, achei muito interessante a entrevista no Público realizada a Hung-Hsi Wu, professor emérito da Universidade de Berkeley, Califórnia, sobre a matemática e os seus conteúdos programáticos, os problemas do ensino da matemática, a relação dos alunos com os conhecimentos matemáticos, a influência dos manuais, etc.
Trata-se na verdade de uma reflexão muito estimulante.

Nas escolas, a matemática é a dos manuais escolares

DA ALHEIRA E DO PORCÃO

Peço desculpa por perturbar as vossas férias ainda por cima num Domingo. 
Faço-o pelo que creio ser uma causa justificada. É importante que tenhamos consciência dos graves problemas que assolam o país e os portugueses e não nos devemos distrir e não estar atento ao que é verdadeiramente relevante.
No Público encontra-se uma extensa notícia assim titulada.

Despedida por chamar alheira e porcão a dirigentes da Ordem dos Advogados

Não podemos ficar indiferentes a tal situação.
Por ser de Mirandela a Senhora Bastonária da Ordem dos Advogados não pode ser tratada por "alheira" por uma outra jurista funcionária da Ordem. Não é bonito nem admissível.
Por se chamar Menezes Leitão o Senhor Presidente do Conselho Superior da Ordem não pode ser tratado por "porcão" pela mesma funcionária. Não é bonito nem admissível.
Confesso, "mea culpa, mea culpa", que não consegui ler toda a peça. Mas devia, não nos devemos alhear do que é essencial.
Percebi que senhora jurista que destrata os superiores terá sido "despedida", que não se conforma e que, naturalmente, o processo se arrasta pelos tribunais. Nenhuma surpresa, a coisa envolve advogados.
Não há nada como estar atento ao que importa.

sábado, 13 de agosto de 2016

PERFIL DE SAÍDA NO FIM DA ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA

No DN encontra-se uma entrevista a Guilherme d’Oliveira Martins, coordenador do Grupo de Trabalho criado pelo Governo para definir o perfil de saída do aluno no fim dos 12 anos de escolaridade obrigatória e que deverá apresentar o trabalho até final do ano.
A entrevista não é particularmente elucidativa, talvez ainda seja cedo, mas registo uma ideia de estabilidade e percepção de prazo alargado que são altamente desejáveis num sistema educativo que vive de sobressalto em sobressalto a cada equipa que chega à 5 de Outubro.
Para além de uma ideia de estabilidade e a prazo, julgo que será importante considerar que o cumprimento da escolaridade obrigatória e universal obriga a que o perfil de saída, ou outra designação qualquer, contemple a evidente diversidade dos alunos e a imprescindível diferenciação nos seus trajectos, designadamente nos últimos anos. Se assim não for corremos risco de estabelecer perfis de competência que promoverão exclusão.
Nesta perspectiva parece-me ajustado, tal como se passa noutros países, que seja definido de forma aberta, flexível, económica e desburocratizada.
Tal como Guilherme d’Oliveira Martins refere julgo que devemos desejar um perfil de saída que não seja quase que exclusivamente centrado em competências ou saberes de natureza instrumental, sempre mais fáceis de avaliar e definir, mas mais pobre no sentido de formar pessoas na sua dupla condição de cidadãos e profissionais ou futuros profissionais.
Aguardo com alguma expectativa o “Perfil de saída” a que chegaremos.
Espero ainda que as eventuais mudanças se processem de forma participada, com calendário e metodologia ajustada de forma a minimizar o impacto de mais um processo de mudança.

DA GERINGONÇA E DAS SONDAGENS

Já várias vezes tenho aqui referido dados de sondagens divulgadas a propósito de várias questões mas, sobretudo, em matéria de política.
Não duvido, por princípio, da competência com que são realizadas cumprindo os requisitos necessários para garantir a sua fiabilidade independentemente de posteriormente não se verificarem os indicadores das sondagens.
No entanto, também sei que em algumas circunstâncias podem ser contaminadas por agendas de outra natureza e que, como diz Sam The Kid, existe “uma percentagem que a sondagem nunca mostra”.
Serve esta introdução para uma nota sobre uma sondagem realizada para a SIC e para o Expresso relativa à forma como é percebida pelos portugueses a “geringonça” e o seu futuro.
Como dados interessantes, temos que 70.2% dos inquiridos acha que “não devia haver em breve eleições antecipadas”, 64.2% entende que “o Governo ou algum dos seus parceiros não irá provocar eleições antecipadas” e 65% pensa que o Orçamento para 2017 será aprovado.
Esta gente só pode estar enganada. Como é possível que não sigam os discursos diários dos que desde do início da actual solução política decretam o seu fim para o dia seguinte e profetizam a desgraça, não atendam aos fazedores de opinião comandados pela tropa de choque do Observador que explicam todos os dias como já está aí o caos e o inferno vem a caminho.
A gente não aprende mesmo.
Será do calor?

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

AOS VOSSOS LUGARES. O CAMPEONATO VAI COMEÇAR

O campeonato de futebol tem hoje a sua "rentrée", por assim dizer, com um Rio Ave - F. C. Porto.
Para além da sempre tão animada quanto tantas vezes incompreensível dança dos milhões que, aliás, ainda não acabou, registei um animador avanço de natureza deontológica neste início de época.
Jorge Jesus na conferência de imprensa de lançamento do jogo do Sporting com o Marítimo referiu-se a Rui Vitória, treinador do Benfica, como seu colega.
Trata-se, de facto, de um "upgrade" no discurso do Mestre da Táctica.
Espero que isto possa indiciar da parte de todos os responsáveis, sobretudo dirigentes e treinadores, discursos mais moderados, na natural defesa das respectivas cores, mas que sirvam a magia e a paixão do futebol.
Não sendo novidade a cor da minha alma futebolística gostava que este campeonato terminasse com o mesmo resultado do anterior. Que me desculpem os muitos amigos adeptos de outras camisolas.
Deixem lá ver, como diz o Velho Marrafa.

DA UNIVERSALIDADE DA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR

Ao que se lê no Público e como seria de esperar a anunciada universalidade progressiva da educação pré-escolar até aos três anos está experimentar dificuldades de concretização. Em várias zonas a resposta existente na educação-pré-escolar não é suficiente para a procura levando à criação de listas de espera ou à procura de soluções alternativas pelas famílias. Segundo a notícia o ME está empenhado em encontrar soluções.
Talvez possa passar, António Costa referiu-o há semanas pelo recurso aos estabelecimentos privados “compensando-os” pelas alterações nos contratos de associação. A ver vamos.
O que me parece de sublinhar e retomo notas anteriores é que na altura da divulgação da intenção de promover a universalidade da educação pré-escolar sublinhei que se tratava de uma boa notícia que … já vinha tarde.
Como muitas vezes aqui tenho referido, a falta de respostas e recursos a preços acessíveis para o acolhimento a crianças dos 0 aos 3, creches ou amas, e dos 3 aos 6 anos, a educação pré-escolar, é um dos grandes obstáculos a projectos familiares que incluam filhos, levando aos conhecidos e reconhecidos baixos níveis de natalidade entre nós, 30 % das mulheres portuguesas têm apenas um filho.
A alteração dos estilos de vida, a mobilidade e a litoralização do país, levam à dispersão da família alargada de modo a que os jovens casais dependem quase exclusivamente de respostas institucionais que, ou não existem, ou são demasiado caras. Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que é, naturalmente, um forte constrangimento para projectos de vida que envolvam filhos.
É sabido que muitas famílias estão a sentir enormes dificuldades em assegurar a permanência dos miúdos nas creches por razões económicas. As Instituições procuram, apesar das dificuldades que elas próprias enfrentam, flexibilizar, até ao limite possível, custos e pagamento tentando evitar a todo o custo que os miúdos deixem de frequentar os estabelecimentos. Aumentaram significativamente a retirada de crianças de estabelecimentos de educação pré-escolar com o acentuar da crise com picos verificados em 2011, 2012 e 2013. Acresce a quebra da natalidade que a situação induz.
Neste quadro garantir o acesso à educação pré-escolar aos três anos e criar respostas acessíveis, física e economicamente, às famílias para as crianças dos zero aos três anos é imprescindível.
Sabemos todos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas nos primeiros anos de vida, de pequenino é que ...
Assim, existem áreas na vida das pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade para os mais pequenos é uma delas.
No entanto, como há algum tempo escrevi no Público, a educação pré-escolar é bastante mais que a “preparação” para a escola e não deve enredar-se no entendimento de que é uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na escola embora se saiba do impacto positivo que assume no seu trajecto escolar.
Na verdade, as crianças estão a preparar-se para entrar na vida, para crescer, para ser. A educação pré-escolar num tempo em que as crianças estão menos tempo com as famílias tem um papel fundamental no seu desenvolvimento global, em todas as áreas do seu funcionamento e na aquisição de competências e promoção de capacidades que têm um valor por si só não entendidos como uma etapa preparatória para uma parte da vida futura dos miúdos, a vida escolar.
Este período, a educação pré-escolar, cumprido com qualidade e acessível a todas as crianças, será, de facto, um excelente começo da formação institucional de cidadãos. Esta formação é global e essencial para tudo que virão a ser e a fazer no resto da sua vida.

DOS PILHA GALINHAS E DOS DDT

A ex-Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, afirmou em 2012 que em Portugal "ainda existe uma justiça para ricos e uma justiça para pobres".
A percepção de que assim é não se alterou, lamentavelmente. Percebemos o sistema de justiça como forte com fracos, fraco com os fortes, lenta, injusta e altamente permeável aos alçapões e manhosices por onde se escapam os da família alargada que em várias dimensões ocupam o podere, os poderes.
O Juiz Carlos Alexandre dispensou por um período de 30 dias para gozo de férias o Dr. Ricardo Espírito Santo das apresentações periódicas na PSP a que está condenado.
Está certo, o Sr. Dr. precisa de férias e o Senhor Juiz é um homem sensível e generoso.
Nada de novo, a tradição ainda é o que era, os DDT ainda que abanem continuam a ser os Donos Disto Tudo, têm é a concorrência de novos candidatos a DDT.
Fico com uma pequena dúvida, o “pilha galinhas” pequeno delinquente a cumprir a mesma pena seria também dispensado de a cumprir para poder ir de férias descansado?
Não acredito.
Também sei que se o “pilha galinhas” fosse de férias ´nunca iria “brincar aos pobrezinhos” lá para os lados da Comporta.
Será que o Sr. Dr. Juiz não olha sem um sobressalto para o efeito devastador que decisões desta natureza têm na percepção que temos do Sistema de Justiça um dos indicadores mais significativos da qualidade de uma democracia.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

ALUNOS COM NEE. E DEPOIS DOS 18 ANOS? PARECE QUE VEM AÍ A RESPOSTA. SERÁ?

Há uns dias coloquei aqui umas notas sobre a situação de alunos com NEE que aos 18 anos, após o cumprimento da escolaridade obrigatória, têm uma enorme dificuldade em encontrar a continuidade de um trajecto educativo, formativo, profissional ou social em modelos de resposta inclusivos e não confinados à institucionalização ou ao ficar em casa.
No mesmo sentido escrevi para o Público um texto,  “OS ALUNOS COM NEE. E DEPOIS DOS 18 ANOS?”
Ao que parece a resposta está em construção.
A Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência anunciou que o Governo tem a intenção de durante 2017 promover respostas específicas para este grupo. A resposta, afirmou, será multidimensionada, aposta na formação profissional e pretende envolver pais, escolas e instituições.
Não conheço mais do que a intenção expressa pela Secretária de Estado mas retomo um excerto do que que escrevi há dias.
(…)
A inclusão assenta em quatro dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade).
O envio destas pessoas para as instituições contraria tudo isto e o que foi procurado fazer antes dos 18 anos ainda que, como vimos, nem sempre bem.
Depois dos dezoito anos, tal como antes, as pessoas com necessidades especiais devem ser, estar, participar e pertencer aos contextos em que todas as outras pessoas com mais de 18 anos estão.
Porque não podem frequentar estabelecimentos de ensino superior?
Porque não podem frequentar espaços de formação e aprendizagem profissional?
Porque não podem frequentar espaços laborais?
Porque não podem frequentar espaços de recreio, cultura e lazer?
Porque não pode envolver-se em instituições sociais não como “clientes” mas como actores?
Porque não …
Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências mostram que não é utopia.
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.
Veremos o sentido das respostas que agora se anunciam.

MAIS ESTUDANTES NO ENSINO SUPERIOR

O número de alunos que apresentou candidatura ao ensino superior na primeira fase voltou a subir, 2.8%, relativamente ao ano passado. Já em 2015 tinha subido o que não se verificava desde 2008. 
Trata-se de uma boa notícia.
O ano passado, quando se verificou a primeira subida desde 2008, alguns especialistas entendem que a subida se deverá a maior sucesso no ensino secundário, a melhoria na condição económica de algumas famílias e ao aumento de confiança na formação superior.
Espero que sejam estas as razões que sustentam a subida deste ano mas aguardemos o resultado final do acesso ao superior
É importante recordar que, contrariamente ao muitas vezes se entende, as famílias portuguesas enfrentam um dos mais caros sistemas de ensino superior da UE e da OCDE.
Por outro lado, tem vindo a instalar-se a perigosa e falsa ideia de que "somos um país de doutores". Na verdade, apesar da recuperação, temos uma das mais baixas taxas de pessoas com formação superior entre os países da OCDE.
Aliás, não cumpriremos certamente o objectivo de formação superior estabelecido na UE para 2020 mesmo com a ajuda de habilidades na oferta formativa como a "meia licenciatura".
Neste quadro, saber que está a aumentar o número de estudantes que pretende frequentar o ensino superior é mesmo uma boa notícia.

VIDAS ADIADAS

De acordo com dados do relatório do Eurostat, “Education, employment, both or neither? What are young people doing in the EU?”, hoje divulgado, em 2015 um em cada seis jovens portugueses dos 20 aos 24 anos não estavam a trabalhar, nem a estudar, nem em formação, a geração NEET (Not in Education, Employment or Training”. Este cenário agravou- se substancialmente nos últimos 10 anos. De 2006 para 2015 subiu de 12.6 para 17.5%
São números impressionantes a que devem juntar-se os dados sobre precariedade, abuso do recurso a estágios e outras modalidades de aproveitamento de mão-de-obra barata e a prática de vencimentos que mais parecem subsídios de sobrevivência mesmo para jovens altamente qualificados.
Por outro lado, não podemos esquecer os muitos milhares de jovens que se viram empurrados para fora do país pois sentem que o seu futuro não mora aqui.
Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem, obviamente, sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se repercutem no inverno demográfico que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira profissional.
No entanto, um efeito muito significativo mas menos tangível deste quadro precário ou sem alternativas aparentes, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no seu todo e que, com alguma frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, está a instalar-se, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra saída motivadora e que recompense.
Este problema que não é um exclusivo português, longe disso, exige uma visão e um conjunto de políticas que não se vislumbram e cuja ausência compromete a construção sustentável do futuro.
Podemos estar perante a tragédia das gerações perdidas de que há algum tempo se falava.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

FOGOS, SERÁ DESTINO?

Quando no Domingo aqui deixei um pequeno texto sobre os fogos florestais estava longe de antecipar a tragédia que se seguiria, designadamente na Madeira.
Faltam as palavras para abordar esta tragédia.
Toda a gente parece saber o que deveria ter sido feito o que deve ser feito para minimizar o risco dos fogos que num clima como o nosso não podem ser eliminados.
Podemos, se o quisermos, minimizar o número e a gravidade das situações.
Não é destino, não é uma fatalidade.
estamos a fazer os dias assim.
Agora mostramos solidariedade e apoio, é importante a reacção.
Mas mais importante ainda seria a proacção.

A VOZ DAS MINORIAS

Verificou-se um aumento significativo do número de queixas apresentadas por alegadas práticas ou comportamentos de discriminação dirigidos a pessoas com deficiência. Se em 2014 tinham sido apresentadas 353 situações em 2015 verificaram-se 502, um acréscimo de 42% com a distribuição em baixo citado no Público.
No entanto, apenas foram instaurados “quatro processos contra-ordenacionais
É certo que as queixas conhecidas sobre eventual discriminação, tal como noutras áreas, são sempre uma parte pequena do que na verdade acontece e também não é claro se estamos em presença de um aumento de casos de discriminação, se de mais queixas apresentadas ou de ambas as hipóteses como me parece mais provável.
De qualquer forma, a diferença enorme entre casos reportados e processos de contra-ordenação desencadeados é elucidativa de como todo este dispositivo deve ser melhorado.
De facto, como muitas vezes refiro, a voz das minorias é sempre muito baixa, ouve-se mal, existem variadíssimas áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente educação, saúde, apoio social, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes.
Importa também sublinhar que os direitos fundamentais não são variáveis em função de contextos ou hipotecados às oscilações de conjuntura.
Muito já se conseguiu, muito já se mudou.
Está ainda quase tudo para fazer.

AGORA NO PÚBLICO, "OS ALUNOS COM NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS. E DEPOIS DOS 18 ANOS?"

Os alunos com Necessidades Educativas Especiais. E depois dos 18 anos?

(...)
Depois dos dezoito anos, tal como antes, as pessoas com necessidades especiais devem ser, estar, participar e pertencer aos contextos em que todas as outras pessoas com mais de 18 anos estão.
(...)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

DAS ACTIVIDADES DE ENRIQUECIMENTO CURRICULAR E DOS TPCs

O ME fez chegar às escolas um conjunto de orientações relativas às Actividades de Enriquecimento Curricular no 1º ciclo.
Sublinha-se importância de a oferta e as actividades a desenvolver não sejam “ um prolongamento de actividades formais de ensino”, tenham um carácter “eminentemente lúdico”.
Devem, entre outras vertentes, “valorizar as expressões culturais locais”, “criar oportunidades para que os alunos possam escolher livremente entre diferentes actividades e projectos” e “privilegiar a metodologia de projecto com a intenção primordial de dar voz aos alunos, a fim de gerar aprendizagens significativas e uma visão global das situações”, lê-se no Público (não encontrei o documento na página do ME).
Finalmente, define-se que as AECs não podem transformar-se em espaços de realização dos trabalhos de casa.
Já muitas vezes aqui me referi ao entendimento que tenho sobre as AECs e sobre os TPCs, não vou repetir-me.
Dando por adquirida a presença de uma boa parte dos alunos do 1º ciclo nas escolas a frequentar as AECS, 88%, o que promove uma estadia na escola que pode prolongar-se até às 11 horas com a Componente de Apoio à Família, a não realização dos TPCs neste espaço pode constituir para muitos alunos mais um período de tarefas escolares no fim de um longo dia de trabalho e em circunstâncias que me levam desde há muito a encarar os TPCs com alguma reserva.
Entendo as orientações para as AECs, mas seria absolutamente necessário que, para além de “proibir” a realização de TPCs neste espaço, se repensasse a própria utilização dos TPCs, sabendo, é um dado novo, que não poderão ser feitos no tempo em que os alunos do 1º ciclo estão na escola.
Aguardo com alguma expectativa os efeitos destas orientações nos fins de dia de muitas famílias com crianças no 1º ciclo e na disponibilidade de crianças e adultos para a realização dos TPCs lá para hora do jantar e da dormida.

A GRANDE MARCHA DOS PROFESSORES PARA FORA DO SISTEMA

O Público retoma hoje o Relatório “Perfil do Docente” divulgado em Julho pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência do qual já aqui comentei alguns dados. O trabalho de hoje centra-se no número de professores no sistema educativo.
Entre 2004/2005 e 2014/2015 abandonaram 42165 professores, 25% dos que estavam em 2004/2005. A saída verificou-se em todos os patamares de ensino mas com maior significado no 3º ciclo e no secundário (40% dos que saíram) quando nos últimos anos a população escolar no secundário até subiu devido ao alargamento da escolaridade obrigatória.
No ensino público registaram-se 98% dos abandonos, as escolas públicas tiveram quatro vezes mais saídas que os estabelecimentos privados.
Na verdade boa parte destes professores não abandonaram o sistema, foram empurrados para fora por um conjunto de dimensões ligadas às políticas educativas dos últimos anos, com José Sócrates e Isabel Alçada e tiveram um aumento devastador a partir de 2011 com o fundamentalismo austeritário de Passo Coelho e Nuno Crato, cerca de 75% do total de professores que saíram fizeram-no neste período.
A justificação mil vezes repetida esperando que se tornasse verdade assentava na diminuição do número de alunos. De facto, em igual período e de acordo com o mesmo Relatório, o número de alunos no básico e secundário baixou 6.2%, isto significa menos 92 423. Dito de outra maneira temos menos 1 professor por cada 2.1 alunos a menos. Não serve de justificação para a enorme sangria que deixou uma classe envelhecida e desvalorizada.
Como já tenho referido, parece-me claro que a questão do número de professores necessário ao funcionamento do sistema é uma matéria bastante complexa que, por isso mesmo, exige serenidade, seriedade, rigor e competência na sua análise e gestão, tudo o que tem faltado nesta matéria.
Para além da questão da demografia escolar que, aliás, o ME tem tratado de forma incompetente e demagógica, importa não esquecer que existem muitos professores deslocados de funções docentes, boa parte em funções técnicas e administrativas que em muitos casos seriam dispensáveis pois fazem parte de estruturas do Ministério pesadas, burocráticas e ineficazes.
Por outro lado, os modelos de organização e funcionamento das escolas, com uma série infindável de estruturas intermédias e com uma carga insuportável de burocratização, retiram muitas horas docentes ao trabalho dos professores que estão nas escolas.
No entanto e do meu ponto de vista a saída dos professores, que nos venderam como estando “em excesso” de professores no sistema deve ser também analisado à luz das medidas da PEC – Política Educativa que tem estado em Curso. Vejamos alguns exemplos.
Em primeiro lugar, as alterações no número de professores necessário decorre do aumento do número de alunos por turma que, conjugado com a constituição de mega-agrupamentos e agrupamentos ligada ao encerramento de milhares leva que em muitas escolas as turmas funcionem com o número máximo de alunos permitido e, evidentemente, com as implicações negativas que daí decorrem.
As mudanças curriculares com a eliminação das áreas não curriculares que, carecendo de alterações registe-se, também produzem um desejado e significativo “corte” no número de professores, a que acrescem outras alterações no mesmo sentido.
Por outro lado, verificámos uma forte desvalorização salarial, o aumento da idade da reforma, o congelamento da progressão na carreira variáveis que contribuíram seriamente para o desencanto e partida de milhares de professores.
Acresce a tudo isto o clima e a instabilidade vividas nas escolas, a pressão constante para resultados e burocracia, a falta de apoios, etc.
Temos a tempestade perfeita. A saída destes milhares de professores sairão, gostava de me enganar, muito mais caras do que aquilo que o ME poupará na diminuição do número de docentes.
Conhecendo os territórios educativos do nosso país, julgo que faria sentido que os recursos que já estavam no sistema, pelo menos esses e incluindo os contratados com muitos anos de experiência, fossem aproveitados em trabalho de parceria pedagógica, que se permitisse a existência em escolas mais problemáticas de menos alunos por turma ou ainda que se utilizassem em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades.
Os estudos e as boas práticas mostram que a presença de dois professores na sala de aula são um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos. Agora andam a promover-se medidas que sempre lembram a velha imagem da manta.
Sendo justamente estes os dois problemas que mais afectam os nossos alunos, talvez o investimento resultante da presença de dois docentes ou de mais apoios aos alunos, compense os custos posteriores com o insucesso, as medidas remediativas ou, no fim da linha, a exclusão, com todas as consequências conhecidas.
É só fazer contas. As contas certas, claro.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

BRONZE

É de bronze a primeira medalha portuguesa nos Jogos Olímpicos do Rio. Telma Monteiro atingiu o pódio da sua categoria em judo.
É uma miúda portuguesa, excelente atleta e, claro, da margem certa do Tejo, a mítica Margem Sul.
Bom trabalho.

DA INFINDÁVEL CORRIDA DE OBSTÁCULOS

Desculpem a insistência mas como se percebe … é necessário.
A vida de muitas pessoas com deficiência e das suas famílias é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, em variadíssimas áreas como mobilidade, educação, emprego e segurança social em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes. Assim sendo, exige-se a quem decide uma ponderação criteriosa de prioridades que proteja os cidadãos desses riscos, em particular os que se encontram em situações mais vulneráveis.
Como também não é raro os obstáculos são criados não só pelas barreiras físicas mas pela falta de senso, pela incompetência ou negligência com que gente responsável(?) lida com estas questões.
Na verdade, boa parte dessas dificuldades decorre do que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo, entendem ser os direitos, o bem comum e o bem-estar das pessoas, de todas as pessoas.
As pessoas com deficiência não precisam de tolerância, não precisam de privilégios, não precisam de caridade, precisam só de ver os seus direitos considerados. Os direitos não são de geometria variável cumprindo-se apenas quando é possível.
Como sempre afirmo, os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como cuidam das minorias.

DO BATER NAS CRIANÇAS

Na E, a revista do Expresso, está um trabalho sobre a aplicação de castigos físicos às crianças. Estes castigos, como se sabe, podem ir da mais ligeira palmada à mais pesada tareia. Trata-se de uma matéria que me parece sempre pertinente tratar, basta contactar regularmente com pais ou ler as caixas de comentários a notícias que a abordem. De novo, algumas notas repescadas.
Como se dizia na peça, apesar da legalmente proibido, o bater é um tipo de comportamento inscrito na prática de muitas famílias na sua relação educativa com os filhos.
Aliás, com base no peso cultural deste comportamento a França ainda não seguiu a recomendação do Conselho da Europa de proibir os castigos corporais a crianças. A Secretária de Estado da Família do Governo Francês afirmou há algum tempo em entrevista à AFP e ao Le Monde que não pretendia proceder a alterações pois uma parte da população é favorável aos castigos corporais e não quer "dividir o país em dois campos: os que são pela palmada e os que são contra.”
A Senhora Secretária entendia ainda que "persiste uma tolerância baseada no costume, a do direito de correcção, que é aceite desde que seja ligeira e tenha um fim educativo"
Na verdade e como dizia, os castigos corporais ainda são uma "ferramenta" educativa em muitas famílias e, é conhecido, também em instituições que acolhem crianças.
A ver se nos entendemos, bater em crianças não é uma actividade educativa, o comportamento gera comportamento, aliás, também se sabe que crianças que foram batidas são frequentemente pais que batem.
A este propósito recordo que o Papa Francisco declarou há algum tempo numa intervenção pública que entende que quando um pai bate num filho e não lhe bate na cara está a bater com dignidade, respeita a criança. Confesso que sinto alguma dificuldade em compreender como um comportamento de violência dirigido a uma criança possa ser algo de digno.
No entanto e dito tudo isto, também entendo que comportamentos inadequados ou incompetentes não significam necessariamente que estejamos perante pessoas, pais, más ou incompetentes.
Todos nós, alguma vez, agimos de uma forma menos ajustada ou adequada com os nossos filhos e isso não nos transforma em pessoas más, significa que somos apenas pessoas, que somos imperfeitos, por assim dizer e para utilizar uma expressão actual.
Assim sendo, creio que devemos ser cautelosos, quer na defesa da "estalada educadora", quer na diabolização definitiva de pais que numa situação eventualmente esporádica e de tensão assume um comportamento de que pode ser o primeiro a arrepender-se.
Esta nota, não branqueadora ou desculpabilizante de nada, pode não ser particularmente simpática mas estou cansado, tanto de discursos de legitimação do efeito "educativo" da violência dirigida a crianças, como de discursos demagógicos e, por vezes hipócritas, que clamam pelo "crucificação" cega de uma pessoa, o outro que bate, mas são produzidos por gente desatenta ou mesmo autora ou apoiante doutros comportamentos dirigidos a miúdos tão indignos quanto a "estalada" ainda que menos visíveis.
Finalizando, embora saiba que a legislação mesmo quando é imperativa é entendida como indicativa e, portanto, desrespeitada como temos tantos exemplos em várias matérias é bom não esquecer que estamos a falar de direitos, não de opiniões.

domingo, 7 de agosto de 2016

OS FOGOS COMBATEM-SE NO INVERNO, NÃO NO INFERNO

Um pouco mais tarde do que o habitual chegou em força a época dos fogos florestais.
Mostram-se cenários devastadores, anualmente repetidos, que não podemos olhar sem um sobressalto de indignação e preocupação. Nada disto é imprevisível e todos os anos nos aflige.
Este ano tivemos chuva até mais tarde o que deixou as zonas não habitadas com uma enorme cobertura vegetal que se constitui como uma quantidade de combustível a que só falta um gesto criminoso, um comportamento negligente ou um qualquer incidente para se transformar em potenciais tragédias.
Todos os anos, como sempre de resto, se anunciam novas estruturas de resposta rápida e meios de combate, designadamente meios aéreos mais sofisticados e somos informados de melhorias nos dispositivos de prevenção e combate, no aumento de meios à disposição, na racionalização da gestão dos recursos, etc. etc.
Entretanto, quando se começa a verificar a ocorrência mais frequente de fogos surge o habitual, a comunicação social, sobretudo a televisiva, de forma frequentemente desajeitada, a mostrar o "terreno", o "cenário dantesco", a ouvir "moradores que passaram uma noite em branco", a ouvir o "senhor comandante dos bombeiros", a referir os "a presença ou a falta dos meios aéreos", a ouvir os "responsáveis locais ou regionais da protecção civil", a gravar despudoradamente imagens de dor, sofrimento e perda de gente anónima que tendo quase nada, vê arder o quase tudo. Um filme sempre visto e sem surpresas. Seria tempo, aliás, de fazer algo no sentido de melhorar a patética prestação de boa parte destes “nossos repórteres em directo”
É evidente que temperaturas muito altas e vento que nos caracterizam durante os meses de Verão são condições desfavoráveis, mas a falta de prevenção, a negligência e delinquência dão um contributo fortíssimo ao inferno que sobressalta cada Verão.
Sem nenhuma espécie de conhecimento destas matérias, para além do interesse e preocupação de um cidadão minimamente atento e preocupado com os custos enormes destes cenários de destruição, tenho alguma dificuldade, considerando a dimensão do nosso país, em compreender a inevitabilidade destes cenários. É recorrente a referência à falta de limpeza dos terrenos. Os espanhóis têm por uso afirmar que os incêndios se combatem no inverno, nós combatemo-los no inferno, opção obviamente mais cara, cerca de quatro vezes mais cara segundo alguns especialistas.
Trata-se de um destino que não pode ser evitado? Trata-se de uma área de negócios, a fileira do fogo, que, pelos muitos milhões que envolve, importa manter e fazer funcionar sazonalmente? Trata-se "só" de incompetência na decisão política e técnica em termos de resposta e prevenção? Trata-se da falência de modelos de desenvolvimento facilitadores de desertificação e abandono, designadamente das áreas rurais?
O poeta falava de um fogo que arde sem se ver, é bonita a imagem. Mas quando um fogo arde e se vêem os seus efeitos devastadores e dramáticos, quando rouba a vida a pessoas, dói mais e não se perdoa.
Acresce que em Portugal passamos o ano todo a apagar fogos de diferentes naturezas e implicações.

O ACORDO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO. É PRECISO NÃO DESISTIR

Para ler e reflectir, “O injustificável acordo orto(?)gráfico” de Gastão Cruz.
Enquanto for tempo de evitar este atropelo à Língua Portuguesa que o Acordo Ortográfico representa vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. É uma questão de cidadania, de defesa da Cultura e da Língua Portuguesa.
Entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.
Acresce que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" o que me parece curioso, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições" que  abastardam a ortografia da Língua Portuguesa.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.
De facto, não tenho conhecimento de alguma perturbação ou drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano/espanhol como língua oficial.
O que na verdade vamos conhecendo com exemplos extraordinários é a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia abastardada como, aliás, Gastão Cruz, um grande conhecedor da Língua Portuguesa,  bem demonstra neste excelente texto.

O FACILITADOR

Paulo Portas contratado pela petrolífera mexicana Pemex

Num mercado de trabalho e numa economia sempre em mudança tomando novas qualidades, "facilitador" parece ser a mais atractiva das funções.
A coisa é simples, carreira política através do aparelhismo partidário durante alguns anos de forma a construir uma boa carteira de contactos, de preferência, de nível mundial e em seguida tornar-se consultor de grandes "players" em diversas áreas.
É dispensável ter qualquer tipo de conhecimento especializado nas múltiplas áreas que um bom "facilitado" acumula, basta gerir a agenda de contactos e mediar interesses, os interesses certos, claro.
Durão Barroso, Paulo Portas, "Dr." Miguel Relvas, Jorge Coelho, Maria Luís Albuquerque, José Luís Arnaut etc., etc., são  exemplos de facilitadores que jogam na "champions", o topo da carreira. Depois existe um outro patamar em múltiplas figuras menores, mais ou menos conhecidas, que se movem promiscuamente entre funções públicas e privadas, tudo sempre dentro da lei e muitas vezes do lado de fora da ética e da seriedade.  
É assim a vida nesta ditosa pátria nossa amada

sábado, 6 de agosto de 2016

É DA IDADE. TALVEZ NÃO

No fim da manhã enquanto bebíamos água fresca que combatesse o calor áspero do Alentejo o Mestre Marrafa queixava-se de umas dores que sentia num joelho.
Sem saber como ajudar e para me meter com ele fiz aquele comentário inteligente e habitual em situações em que a queixa provém de alguém já com uma estrada longa, por assim dizer, "é da idade Mestre Zé"
O Velho Marrafa olhou para mim e no seu jeito de sempre decretou:
Não Sô Zé, isto não é da idade, o outro joelho não me dói e eles são os dois da mesma idade.
Engasguei-me e fiquei uns minutos a tossir.
São assim os dias do Alentejo, estes particularmente quentes.

DA PROMOÇÃO DO SUCESSO ESCOLAR

No Público encontra-se uma entrevista com o Professor José Verdasca responsável pelo Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar a entrar em funcionamento no próximo ano lectivo. Ao que tenho acompanhado pelos projectos apresentados por algumas escolas e que carecem de aprovação pela estrutura de coordenação surgem-me algumas dúvidas face à burocracia normalizadora, incluindo pedagógica, curiosamente em nome de uma ideia de diferenciação que, como tantas outras em educação, é objecto de alguns equívocos.
Na entrevista, embora reconhecendo que as questões do sucesso envolvem variáveis exteriores à escola, sublinhando a necessidade de intervenções precoces e, lá está, mobilizar intervenções educativas diferenciadas, o Professor José Verdasca acaba por sediar nos professores e na sua cultura a quase exclusiva responsabilidade pelo sucesso dos alunos.
É verdade que a associação entre os resultados escolares dos alunos e variáveis de natureza sociodemográfica como meio social, económico e cultural, circunstâncias de vida, estilos parentais, etc. etc., está estabelecida de há muito.
Também sabemos que a escola faz, pode fazer a diferença, ou seja, o trabalho na e da escola e dos professores é um factor significativamente explicativo do sucesso dos alunos mais vulneráveis e capaz de contrariar o peso das outras variáveis que estão presentes nesses alunos.
Só que a escola envolve organização e recursos, clima e liderança, por exemplo, e também, evidentemente, o trabalho em sala de aula.
No entanto, mesmo este trabalho não depende apenas de variáveis individuais de cada docente, decorre também de um conjunto de políticas educativas que promovam a qualificação, a motivação e a valorização a diferentes níveis do trabalho dos professores.
Decorre de políticas educativas em matérias como currículos, autonomia real, sistema de organização e funcionamento, recursos humanos docentes, técnicos e funcionários, tipologia e efectivo de escolas e turmas, etc, só a para citar alguns exemplos contributivos para o maior ou menor sucesso educativo antes de entrar na sala de aula.
Aliás, em matéria de sucesso educativo recordo o Despacho Normativo nº 1 – F/2016 de 5/4/2016 que regulamenta o novo regime de avaliação e certificação das aprendizagens desenvolvidas no ensino básico e apresenta medidas de promoção do sucesso educativo, que transcrevo em baixo.
Independentemente do Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar mais uma vez temos a regulamentação da promoção do sucesso educativo.
Como é claro pelo estado da arte, o resultado de sucessivas regulamentações tem sido compatível com o volume de alterações, ou seja, ainda temos muito a fazer. É no entanto justo reconhecer que a qualidade das aprendizagens dos alunos tem revelado nos últimos anos, apesar de alguma quebra mais recente, uma evolução importante apesar das muitas fragilidades que se mantêm.
As medidas de promoção do sucesso educativo contidas no Despacho Normativo parecem-me globalmente claras, formuladas adequadamente e estão dentro do que a evidência sugere como boas práticas e conceptualmente sólidas e menos sujeitas a equívocos que a retórica informadora do Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar.
A questão é que, como referi na altura, fiquei com pequenas dúvidas
São para aplicar na generalidade das nossas escolas e agrupamentos?
Com que real autonomia das escolas e agrupamentos?
Com que recursos docentes e técnicos disponíveis para os diferentes dispositivos de apoio enunciados?
Com a burocratização e modelos de funcionamento e organização da generalidade das escolas?
Com …
A dificuldade das respostas talvez seja a justificação para o Plano Nacional de Promoção do Sucesso Escolar.
Vamos a ver como resulta. Porque é, evidentemente, para resultar.

A TRAVESSIA DO TEJO

Cumprem-se hoje 50 anos da inauguração da Ponte 25 de Abril.
As férias e um tempo mais comprido acordaram a memória. Fui lá para trás, ao tempo que não havia ponte entre Almada e Lisboa e que, portanto, pessoas e veículos circulavam pelos barcos, os cacilheiros, os "pequenos" só para passageiros e os "grandes" que levavam também veículos.
Sou de uma geração de gente da margem sul que para realizar estudos liceais em escolas públicas precisou de o fazer em Lisboa, no Passos Manuel, Gil Vicente, D. João de Castro como eu, algumas raparigas no D. Amélia, entre outros.
Lembro-me dos barcos "grandes", o Eborense, o Alentejense, alguns com 1ª classe, um luxo a que poucos se davam, um suplemento de 20 centavos era caro e nós estudantes, cujo passe não dava acesso à primeira classe, apenas quando iludíamos os cobradores conseguíamos viajar de penetra nas poltronas de verga. Até sermos corridos.
O Tejo lindíssimo como sempre era uma estrada de água sem os engarrafamentos que a Ponte veio a conhecer. Ainda tenho na memória imagens da construção da Ponte registadas a partir da travessia diária do rio.
Lembro-me dos pilares a serem erguidos, a colocação dos cabos e posteriormente do tabuleiro
É certo que em alguns dias o Tejo ficava bravo e a viagem era atribulada, sobretudo o processo de atracar pois os marinheiros experimentavam sérias dificuldades em amarrar o cacilheiro. Era a altura em que com mais frequência os "heróis" que saltavam do barco para o cais ainda com o barco em movimento iam, por vezes, parar à água, com um fim trágico em algumas situações. Também me recordo dos dias de nevoeiro, com o Farol de Cacilhas a apitar com regularidade e viajarmos no exterior com um marinheiro encostado à proa do navio com toda a atenção para ouvir algum barco que se aproximasse. Com nevoeiro cerrado era um bocado assustador.
Um espectáculo sempre animado era a entrada nos barcos das galeras, umas carroças compridas com quatro rodas, puxadas por dois animais que se assustavam com a água e que resistiam à entrada. Estas galeras carregavam cortiça ou produtos de cortiça das fábricas da Cova da Piedade para a margem norte poupando uma longuíssima volta por Vila Franca de Xira.
Na verdade, aquelas viagens nos cacilheiros do Tejo, no exterior, com os primeiros cigarros que nos faziam crescer, eram mesmo de outro tempo. Actualmente são raras as vezes que faço a travessia fluvial. Para não me exasperar com os quilómetros de fila utilizo quase sempre a mota.
Devo dizer ainda assim, que Lisboa, vista do Tejo, de cima da Ponte 25 de Abril, continua linda. Tal como a Ponte.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

OS ALUNOS COM NEE. E DEPOIS DOS 18 ANOS?

O Público de hoje apresenta uma peça sobre uma matéria a que muito frequentemente aqui me refiro, o problema de alunos com necessidades especiais e das suas famílias após os 18 anos, ou seja, após o cumprimento da escolaridade obrigatória. O que espera estes alunos?
Muitas vezes se fala da necessidade instituições especializadas ou, preferencialmente na minha perspectiva, da necessidade de vias de continuidade da sua formação e desenvolvimento numa perspectiva integrada.
Antes de mais, uma nota breve.
Do meu ponto de vista algumas das dificuldades dos alunos com necessidades especiais após os dezoito anos radica no seu percurso anterior.
Muitas das pessoas mais próximas desta realidade, sabem que devido, entre outras causas, à desregulação pecado estrutural do nosso sistema educativo se verifica uma latitude de práticas que varia entre o muito bom e o … péssimo.
Conheço inúmeras situações em que os alunos e as famílias não vêem protegidos os seus direitos em matéria de educação e inclusão. Aliás, sucessivas avaliações e muitos relatos de pais, basta ouvi-los, têm mostrado isso mesmo. 
Muito brevemente, recordo alunos que são precocemente e sem qualquer fundamentação sólida colocados ao abrigo de uma coisa bizarra chama CEI, rótulo de que não se livram e os condena a um espaço curricular, quando não físico, guetizado e sem participação nas actividades comuns da escola. Recordo práticas observadas em Unidades de Ensino Estruturado cujas actividades têm um baixíssimo contacto com a restante comunidade escolar. Recordo Unidades de Apoio Especializado a Alunos com Multideficiência que alunos com multideficiência têm … nenhum e estruturam-se em espaços fechados nas escolas. Recordo … . Curiosamente tudo isto acontece, tal como as boas experiências, em nome da inclusão. Claro!
Acontece que estes alunos terão, necessariamente, maior dificuldade após a escolaridade obrigatória. Muitos jovens, conforme a peça do Público exemplifica, correm o risco de ficarem em casa com tudo o que de negativo implica. Aliás, também famílias que foram “convidadas” a retirarem os filhos das escolas e a encontrar alternativas.
E é neste contexto que surge a recorrente referência a instituições especializadas.
Dou por adquirido que depois dos 18 anos uma franja muito pequena de pessoas com necessidades educativas especiais pode necessitar de respostas institucionalizadas. Dou ainda por adquirido que as instituições podem prestar um serviço importante para a qualidade vida das pessoas.
No entanto, a institucionalização generalizada não parece a mais ajustada em nome do que se defende para a sua educação até aos 18 anos e para sua vida como cidadãos, educação e inclusão.
A inclusão assenta em quatro dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade).
O envio destas pessoas para as instituições contraria tudo isto e o que foi procurado fazer antes dos 18 anos ainda que, como vimos, nem sempre bem.
Depois dos dezoito anos, tal como antes, as pessoas com necessidades especiais devem ser, estar, participar e pertencer aos contextos em que todas as outras pessoas com mais de 18 anos estão.
Porque não podem frequentar estabelecimentos de ensino superior?
Porque não podem frequentar espaços de formação e aprendizagem profissional?
Porque não podem frequentar espaços laborais?
Porque não podem frequentar espaços de recreio, cultura e lazer?
Porque não pode envolver-se em instituições sociais não como “clientes” mas como actores?
Porque não …
Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências mostram que não é utopia.
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.

A QUEDA DE UM ANJO (ENÉSIMO EPISÓDIO)

Desta vez em Loures. Um menino de quatro anos faleceu em consequência da queda de um 8º andar.
O povo costuma dizer que “ao menino e ao borracho, põe Deus a mão por baixo". Desta vez não, a tragédia foi definitiva.
Dada a regularidade destes episódios, algumas notas, de novo.
De acordo com a Associação para a Promoção da Segurança Infantil, dados de 2013, em dez anos, mais de 100 crianças morreram e 40 mil foram hospitalizadas devido a quedas, grande parte das quais em edifícios (varandas ou janelas) e quedas de escadas.
Também as piscinas continuam anualmente a ser palco de acidentes com enorme gravidade ou fatais.
Continuamos a ser um dos países europeus em que acontecem maior número de acidentes domésticos com crianças. Nas mais das vezes verifica-se alguma negligência ou excesso de confiança da nossa parte, adultos, na vigilância dos miúdos a que se junta a inexperiência e o à vontade próprios dos mais pequenos.
No caso particular das varandas é inaceitável a quantidade de varandas que se continuam a ver com gradeamentos construídos na horizontal, uma escada convidativa para a escalada de crianças pequenas como acontece com qualquer aparelho de um parque infantil. Não pode continuar.
A dor e a culpa que alguém pode carregar depois de episódios desta natureza serão, creio, suficientemente fortes para que deixemos de lado o aspecto da culpabilização que aqui nada acrescenta.
O que me parece importante sublinhar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção da criança estão sempre presentes, também se verifica um número altíssimo de acidentes, por vezes mortais, o que parece paradoxal. Por um lado, protegemos as crianças de forma e em circunstâncias que, do meu ponto de vista, me parecem excessivas e, por outro lado, em muitas situações adoptamos atitudes e comportamentos altamente negligentes e facilitadoras de acidentes que, frequentemente, têm consequências trágicas.
E não adianta pensar que só acontece aos outros.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

DA UNIVERSALIDADE DA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR

Como seria de esperar a anunciada universalidade progressiva da educação pré-escolar até aos três anos está experimentar dificuldades de concretização. No próximo ano lectivo, todas as crianças com quatro anos completados em 2016 deveriam encontrar resposta na rede pública o que parece não estar garantido em alguns agrupamentos.
Na altura da divulgação da intenção de promover a universalidade da educação pré-escolar sublinhei que se tratava de uma boa notícia que … já vinha tarde.
Como muitas vezes aqui tenho referido, a falta de respostas e recursos a preços acessíveis para o acolhimento a crianças dos 0 aos 3, creches ou amas, e dos 3 aos 6 anos, a educação pré-escolar, é um dos grandes obstáculos a projectos familiares que incluam filhos, levando aos conhecidos e reconhecidos baixos níveis de natalidade entre nós, 30 % das mulheres portuguesas têm apenas um filho.
A alteração dos estilos de vida, a mobilidade e a litoralização do país, levam à dispersão da família alargada de modo a que os jovens casais dependem quase exclusivamente de respostas institucionais que, ou não existem, ou são demasiado caras. Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que é, naturalmente, um forte constrangimento para projectos de vida que envolvam filhos.
É sabido que muitas famílias estão a sentir enormes dificuldades em assegurar a permanência dos miúdos nas creches por razões económicas. As Instituições procuram, apesar das dificuldades que elas próprias enfrentam, flexibilizar, até ao limite possível, custos e pagamento tentando evitar a todo o custo que os miúdos deixem de frequentar os estabelecimentos. Aumentaram significativamente a retirada de crianças de estabelecimentos de educação pré-escolar com o acentuar da crise com picos verificados em 2011, 2012 e 2013. Acresce a quebra da natalidade que a situação induz.
Neste quadro garantir o acesso à educação pré-escolar aos três anos e criar respostas acessíveis, física e economicamente, às famílias para as crianças dos zero aos três anos é imprescindível.
Sabemos todos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas nos primeiros anos de vida, de pequenino é que ...
Assim, existem áreas na vida das pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade para os mais pequenos é uma delas.
No entanto, como há algum tempo escrevi no Público, a educação pré-escolar é bastante mais que a “preparação” para a escola e não deve enredar-se no entendimento de que é uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na escola embora se saiba do impacto positivo que assume no seu trajecto escolar.
Na verdade, as crianças estão a preparar-se para entrar na vida, para crescer, para ser. A educação pré-escolar num tempo em que as crianças estão menos tempo com as famílias tem um papel fundamental no seu desenvolvimento global, em todas as áreas do seu funcionamento e na aquisição de competências e promoção de capacidades que têm um valor por si só não entendidos como uma etapa preparatória para uma parte da vida futura dos miúdos, a vida escolar.
Este período, cumprido com qualidade e acessível a todas as crianças, será, de facto, o melhor começo da formação institucional de cidadãos. Esta formação é global e essencial para tudo que virão a ser e a fazer no resto da sua vida.

SEXUALIDADE E DEFICIÊNCIA

No Público está hoje um impressivo trabalho sobre uma realidade distante para muitos de nós e extraordinariamente complexa para alguns outros, a sexualidade das pessoas com deficiência.
Julgo ser fundamental a visibilidade destas matérias, trata-se de direitos e de felicidade. Recordo as iniciativas do movimento, Sim, Nós Fodemos, que se bate por desmistificar a sexualidade nas pessoas com deficiência e que organizou uma Conferência sobre este universo que se realizou no Porto em Fevereiro de 2015.
Na verdade, estes passos podem ser importantes no sentido de desfazer um enorme equívoco, sexualidade na deficiência, a sexualidade na vida das pessoas com deficiência, não é a mesma coisa que deficiência na sexualidade.
A experiência e alguns estudos dizem-me que este equívoco está também presente em discursos e atitudes de famílias e técnicos para além da comunidade em geral.
É uma questão complexa, no caso das pessoas com deficiência cognitiva mais severa pode colocar-se a questão da autodeterminação e do risco de abuso, por exemplo, sendo muito contaminada pelos valores do indivíduos, dos técnicos e das famílias incluindo, naturalmente, as das pessoas com deficiência, quer relativos à sexualidade, quer relativos à vida e direitos das pessoas com deficiência. Aliás, com demasiada frequência parece esquecer-se que muitos dos problemas que as pessoas com deficiência e as suas famílias sentem, não são matérias de opção, são matéria de direitos.
Acresce ainda que em muitas circunstâncias é uma matéria da qual "se foge" pois subsistem as dúvidas sobre o que pensar, como agir ou atitudes a adoptar.
Neste contexto, a Conferência realizada no Porto, o trabalho do Público e outras raras abordagens na imprensa são peças que ajudam a reflectir e a mudar.

A ÉTICA REVISTA EM BAIXA

Mais um exemplo de como a ética tem vindo a ser revista em baixa nas últimas décadas de praxis política.
O Secretário de estado dos Assuntos Fiscais não podia ter aceitado um convite da Galp para viajar para França e assistir a jogos da selecção. Não sei se é ilegal, sei que é inadmissível em termos éticos.
Acresce que este membro do Governo tem competência sobre um litígio fiscal entre o Estado e a Galp que se recusou impostos num valor superior a 100 milhões de euros.
Não adianta afirmar agora que vai pagar o bilhete, como diz o povo é pior a emenda que o soneto.
Será que esta gente não percebe o impacto que este tipo de comportamentos tem na já degradada representação sobre os políticos?
Também sei que não serão todos "farinha do mesmo saco", mas sei que todos apanham por tabela.
À mulher de César ...

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A ETAPA RAINHA

Está a decorrer a Volta a Portugal em Bicicleta. Aliás, hoje, para utilizar uma expressão clássica, corre-se a “etapa rainha”, a subida à Serra da Estrela.
Creio que a Volta a Portugal já não tem hoje nem o espaço nem, talvez, o encanto de há alguns anos mas continua a atrair muita gente para a beira das estradas por onde passa. O período de férias, mais tranquilo, é amigo da memória e recordei a Volta a Portugal em bicicleta lá para trás no tempo.
Quando eu era miúdo a caravana da Volta a Portugal em bicicleta passava pertinho da minha terra. Quase sempre iniciava-se uma etapa em Cacilhas ou na Cova da Piedade e dirigia-se para sul, nessa altura, se bem me lembro a Volta era mesmo a Portugal, de cima a baixo.
Íamos ver passar a Volta no Laranjeiro, na EN 10 em frente à mítica loja de bicicletas do Jorge Pereira, tenho ideia que até havia uma meta com um prémio para o ciclista que a passasse em primeiro lugar.
Era dia de romaria, ia-se cedo para encontrar o melhor local de visão e o melhor acesso aos brindes distribuídos pelos "carros dos anúncios", como lhes chamávamos.
A passagem da caravana era breve e marcada pela tentativa de saber se à frente passava um ciclista do Sporting. Conhecíamos os ciclistas como hoje conhecemos os futebolistas, João Roque, Firmino Bernardino, o incontornável Joaquim Agostinho pelo Sporting ou os do Benfica, Américo Silva, Peixoto Alves, Wenceslau Fernandes, ( pai da atleta de triatlo Vanessa Fernandes), por exemplo e sem ter a certeza de todos os nomes.
O segundo grande momento era a passagem, antes dos ciclistas, dos "carros dos anúncios" e a distribuição de ninharias cuja caça era uma tarefa complicada mas um desafio irresistível. O terceiro momento mais aguardado era a passagem do carro-vassoura que nos deixava sempre um pouco a pensar e a discutir entre nós como deveria ser difícil desistir, não poder seguir com os outros e ser recolhido numa viatura com o "simpático" nome de carro-vassoura. Quase sempre chegávamos à conclusão que um ciclista deveria mesmo sentir-se mal quando nele entrava, o que nos fazia ter "respeito", como dizíamos, pelo carro-vassoura.
Bom, acabava o espectáculo ao vivo da Volta a Portugal.
Depois restava a televisão para ver as incidências, o desempenho e o sacrifício daqueles heróis que atravessavam de bicicleta o Alentejo no Verão e pedalavam por ali acima na Serra da Estrela na “etapa rainha”, a de hoje.
Já foi há tanto tempo.

PESSOAS = ACTIVOS DESCARTÁVEIS


Nada de novo e que o aumento brutal do desemprego testemunha.
A “flexibilização” do mercado de trabalho e o fundamentalismo austeritário transformaram as pessoas em activos descartáveis. Muitas vidas tornaram-se um inferno afundadas no desemprego.
Políticas que assentam no abaixamento dos custos do trabalho através do aumento da carga horária, da precariedade, do abaixamento de salários, na ameaça permanente constituída pela flexibilização do desemprego, etc., não serão a forma mais eficaz de combater o desemprego, promover desenvolvimento e criação de riqueza.
Parece razoavelmente claro que a proletarização da economia e o empobrecimento das famílias não poderá ser a base para o desenvolvimento.
Também parece cada vez mais claro, ainda há dias uma avaliação encomendada pelo FMI (quem diria) que a ideia do TINA “- There Is No Alternative era uma mentira mil vezes repetida para se tornar verdade.
As políticas duras de austeridade que esqueceram pessoas, famílias e pequenas empresas, promoveram desigualdade, pobreza e exclusão foram uma escolha política, não eram um caminho único.
Joseph Stiglitz, Nobel da Economia em 2001, afirmou há meses na Gulbenkian isso mesmo, o resultado destas opções por políticas de austeridade foram a desigualdade e a pobreza.
Afinal … havia outra.
Havia e há outra política possível. Talvez ainda estejamos a tempo.

NASCERAM MAIS BEBÉS. SEJAM BEM-VINDOS

Nos tempos que correm é sempre bom conhecer uma boa notícia.
A avaliar pelo número de testes do pezinho realizados no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano anterior a natalidade subiu. Realizaram-se mais 2639 exames que os 42758 realizados em 2015.
Esperemos que esta tendência seja firma no sentido de recupera índices de natalidade que nos garantam o futuro. Como se sabe desde 2011 mantinha-se um ameaçador decréscimo.
É bom saber que mais crianças estão a nascer. No entanto a nossa responsabilidade sobre o estado em que lhes deixamos o mundo é uma preocupação que não pode deixar de nos inquietar. Sejam bem-vindos.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

NOTAS BREVES SOBRE AS PROVAS DE AFERIÇÃO

Umas notas telegráficas sobre os resultados das Provas de Aferição ontem divulgados.
Como nota prévia, a afirmação de que continuo pouco convencido das vantagens da sua realização a meio do ciclo. É verdade que se o objectivo definido é a detecção de dificuldades e correcção de trajectórias trata-se de “avaliação diagnóstica” e não de “aferir” saberes ou competências o que deveria ser realizado no final de um ciclo de aprendizagens.
Os resultados embora mereçam atenção devem ser lidos com cautela, apenas 56% das escolas realizaram as provas por decisão sua pelo que a amostra não possui critérios de representatividade.
Os resultados encontrados serão certamente do conhecimento de professores e escolas através dos dispositivos de avaliação interna os mais potentes como reguladores do trajecto dos alunos. É de esperar que as escolas e os professores tentem com os recursos disponíveis responder a fragilidades que vão sendo identificadas desde o início da escolaridade
Parecem justificar particular atenção os resultados de Matemática que tendem a baixar em anos mais avançados e as assimetrias de resultados entre diferentes áreas em Português.
A explicação para resultados escolares, positivos ou negativos, é sempre múltipla e complexa. No entanto, creio que é possível identificar algumas dimensões que me parecem merecer particular atenção e que, aliás, são referências frequentes por parte de professores e directores bem como identificadas em estudos nacionais e internacionais. Sem hierarquizar temos:
Os actuais modelos e conteúdos curriculares parecem desajustados, são demasiado extensos, prescritivos, normativos. A sua organização actual através das metas curriculares, tal como estão definidas, dificultam enormemente a possibilidade acomodar a diversidade óbvia entre os alunos. Um modelo de orientações curriculares do mesmo tipo que o agora aprovado para a educação pré-escolar parece mais ajustado pela flexibilidade permitida.
Em muitas escolas o número de alunos por turma é um problema sério. Eu sei das discutíveis associações directas entre número de alunos por turma e resultados escolares mas também das relações fortes entre o número de alunos por turma e a qualidade de trabalhos dos professores, da sua maior capacidade de diferenciação e do maior tempo disponível para dificuldades dos alunos.
Finalmente, uma das mais eficientes formas de minimizar o risco de dificuldades nos alunos ou de as combater quando detectadas é estruturar dispositivos de apoio suficientes e competentes a alunos e professores que actuem tão cedo quanto possível, incluindo a prevenção em casos já conhecidos de risco.
Do meu ponto de vista, sem alterações ponderadas e competentes nestas dimensões teremos mais dificuldade em melhorar apesar do empenho de professores, alunos e famílias.

DA POLÍTICA EDUCATIVA

O texto é extenso e estamos de férias, tempo de leituras provavelmente mais estimulantes, mas faz sentido o conhecer o conjunto de recomendações sobre "Educação e Qualificação".
Está estabelecido o caderno de encargos e escrito em acordês, a língua da AR. Veremos os desenvolvimentos em matéria de política educativa.

C — Nas áreas da educação e qualificação:
1 — Definir no PNR objetivos que concretizem uma educação de infância para todos, mecanismos de prevenção precoce, a diversidade de percursos vocacionais, a autonomia das escolas, a formação na vida ativa, a reversibilidade das opções por trajetos profissionalizantes e a permeabilidade entre percursos, designadamente:
a) Estabelecimento de um plano de investimentos a quatro anos, em parceria com as autarquias, com vista à introdução gradual da universalidade da educação pré- -escolar aos três anos de idade, através de um sistema descentralizado, autónomo, baseado na articulação com a oferta do setor privado com e sem fins lucrativos;
b) Promoção de mecanismos de sinalização precoce dos alunos em risco de insucesso escolar ao nível do 1.º ciclo, bem como o ajustamento e incremento do sistema de incentivos na atribuição de créditos horários para este fim;
c) Estabelecimento de uma política de contratualização da autonomia das escolas como via de atribuição de competências em áreas que lhes permitam desenvolver um projeto próprio;
d) Articulação entre o sistema de qualificação e o mercado de trabalho, permitindo o ajustamento da rede de oferta às necessidades territoriais efetivas, combatendo as ineficiências entre a organização da oferta, as características dos formandos e as necessidades do mercado de trabalho.
2 — No eixo da redução do insucesso e abandono escolares:
a) Dar cumprimento à Lei n.º 65/2015, de 3 de julho — primeira alteração à Lei n.º 85/2009, de 27 de agosto, que estabelece a universalidade da educação pré- -escolar a partir das crianças de quatro anos de idade;
b) No seguimento deste cumprimento, estabelecer um calendário concreto do ano de implementação da universalidade aos três anos, avaliando a possibilidade de tal ocorrer em 2017/2018, recorrendo à colaboração das autarquias, à mobilização dos setores público, social e privado, com e sem fins lucrativos, por forma a ultrapassar a carência de lugares disponíveis nos estabelecimentos públicos de educação e cuidados pré-escolares;
c) Reforçar a autonomia das escolas na definição dos instrumentos e dos planos de redução do insucesso e abandono escolares e dar continuidade ao processo de contratualização da autonomia das escolas em graus crescentes de autonomia, de acordo com os resultados obtidos e respeitando o princípio de tratar de forma diversa o que é diferente;
d) Prosseguir nas políticas implementadas no objetivo de reduzir o número de turmas do 1.º ciclo com alunos a frequentar diferentes anos de escolaridade (turmas mistas);
e) Apostar na formação contínua de professores, virada para a cultura pedagógica, a gestão da sala de aula nas suas diferentes componentes e as estratégias de combate ao insucesso escolar, bem como para uma atualização sobre metas, programas e currículos;
f) Criar equipas multidisciplinares orientadas para o apoio sociopedagógico e acompanhamento educativo, prevenção de comportamentos de risco e para a orientação escolar e profissional, as quais, para além do apoio direto aos alunos, às escolas e às famílias, estabelecerão ligações privilegiadas com os serviços sociais públicos e as comissões de proteção de crianças e jovens;
g) Dar atenção à qualidade dos profissionais da educação especial, quer através de um maior investimento na formação contínua, quer pelo maior rigor da sua formação especializada inicial; 
h) Antecipar o planeamento das necessidades das escolas, de forma a garantir a colocação dos docentes, dos técnicos e dos profissionais de educação especial a tempo de poderem preparar cada ano letivo.
3 — No eixo relativo à formação e ativação dos jovens afastados da qualificação e emprego:
a) Elevar as competências dos jovens desempregados e, em particular, dos menos qualificados, facilitando o seu acesso ao emprego;
b) Incentivar e apoiar ações de concessão de estágios, com o objetivo de desenvolver a integração de forma sustentada;
c) Promover ações de educação/formação dirigidas em especial aos jovens, por forma a promover a qualificação e fomentar a redução de inatividade dos jovens afastados do mercado de trabalho, do ensino ou da formação;
d) Incentivar e apoiar os jovens desempregados, criando suporte no desenvolvimento de emprego por conta própria e na formação de empresas, por forma a dinamizar o empreendedorismo.
4 — No eixo relativo à qualificação de adultos:
a) Reforçar, em todas as áreas geográficas do país, os centros para a qualificação e o ensino profissional (CQEP) escolares;
b) Ajustar as políticas ativas de emprego aos diferentes grupos alvo e às necessidades dos diferentes territórios;
c) Reforçar a capacidade de resposta dos serviços públicos de emprego, designadamente na melhoria dos mecanismos de ajustamento entre a oferta e a procura;
d) Modernizar e desenvolver as estruturas e instituições de apoio ao emprego, por forma a elevar a eficiência e qualidade dos serviços prestados aos desempregados e aos empregadores. 
5 — No eixo da inovação do sistema educativo:
a) Incentivar o uso de soluções escolares digitais e introduzir e valorizar o ensino da programação;
b) Introduzir nas escolas, de forma faseada, conteúdos em suporte digital, substituindo progressivamente os manuais escolares em suporte de papel.
6 — No eixo relativo à redução da segmentação do mercado de trabalho: 
a) Incentivar o acesso à formação dos empregados menos qualificados, em especial das pequenas e médias empresas; 
b) Combater a discriminação salarial em função do sexo ou outras formas de discriminação.