quarta-feira, 13 de julho de 2016

A SÉRIO?!

Cavaco estraga unanimidade do Conselho de Estado sobre sanções

Não encontro nada de novo nem de estranho na posição que terá sido assumida por Cavaco Silva no Conselho de Estado, dando cobertura à aplicação de sanções a Portugal por parte dos seus amigos burocratas europeus. Sempre esteve desse lado.
Soberania, interesse nacional no sentido mais amplo da ideia, ajustamento no fundamentalismo austeritário que promoveu pobreza e exclusão, etc, são, evidentemente, dimensões sem sentido face à infalibilidade de um Excel ou à frieza ignorante de pessoas dos falcões burocratas que defendem mercados e não gente.
Recordo um velho ditado popular "uma vez cacavo ... sempre cavaco".

O LUXO DO DESPERDÍCIO

No Expresso e de acordo com um estudo citado pelo The Guardian lê-se que metade de toda a comida produzida nos EUA é deitada ao lixo.
Não é possível ler este tipo de notícia sem um sobressalto.
Mais alguns dados. A Organização para a Alimentação e a Agricultura, da ONU, estima que 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos, um terço do que é produzido, são desperdiçadas com um custo de anual de 570 mil milhões de euros para a economia global, o suficiente para alimentar 925 milhões de pessoas. Vivemos num mundo estranho. Na Europa, até chegar ao consumidor perde-se entre 30 e 40% da comida, qualquer coisa como 179 quilos por habitante, 42% dos quais em casa.
Segundo o Projecto de Estudo e Reflexão sobre o Desperdício Alimentar (PERDA), desenvolvido pela Universidade Nova de Lisboa conhecido em 2014, estima-se que “no campo e no armazenamento, no sector da pecuária e nas pescas, todos os anos são desperdiçadas 332 mil toneladas de alimentos em Portugal, valor que ultrapassa o desperdício que é feito pelos próprios consumidores (324 mil toneladas de comida deitadas fora).
Somando as 77 mil toneladas perdidas na indústria que processa os alimentos, entre o campo e as fábricas, desperdiçam-se no total 409 mil toneladas por ano.”
Esta escala de valores no que respeita ao desperdício de alimentos é devastadora e, como por vezes se quer acreditar, não é coisa de gente rica, é coisa de toda a gente e mostra o quase tudo que está por fazer embora actualmente tenhamos em Portugal algumas iniciativas importantes no sentido de atenuar desperdícios.
Na verdade, o desperdício é um subproduto dos modelos de desenvolvimento e dos sistemas de valores que deveria merecer uma fortíssima atenção.
Há algum tempo, creio que em 2013, o Parlamento Europeu aprovou um relatório segundo o qual a União Europeia que tem 79 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, 15,8% da população, e desperdiça anualmente cerca de metade do que consome em alimentos. Este desperdício corresponde a 89 mil milhões de toneladas, um assombro. Aliás, o Parlamento Europeu estabeleceu como objectivo reduzir em 50% o desperdício até 2025.
Neste quadro releva a necessidade urgente de ponderar os modelos de desenvolvimento económico e social, questionar o quadro de valores com que nos organizamos em comunidade, designadamente no que respeita ao consumo e aos excessos e combater desperdícios que também são consequência desses modelos. Veja-se o caso da quantidade de fruta de excelente qualidade rejeitada pelo aspecto ou pela dimensão.
Escrever sobre estas questões em espaços desta natureza terá alcance zero, mas continuo convencido que é fundamental não deixar cair a preocupação, talvez seja melhor chamar-lhe a indignação, com a pobreza e exclusão para as quais os níveis de desperdício dão um forte contributo.

DAS FAMÍLIAS INFELIZES

Escreveu-se mais um capítulo desta narrativa. O Tribunal de Sintra decidiu agora que as crianças retiradas há mãe em 2012 possam começar a visitá-la em casa. No fim da visita voltam às instituições enquanto se aguarda uma nova decisão que reconstrua uma família, um bem de primeira necessidade na vida dos miúdos.
Recordemos a história, começando pelos últimos passos. Em Junho o Supremo Tribunal de Justiça decidiu que o processo iniciado em 2012 no tribunal de Sintra com a decisão de retirar a uma mãe sete dos dez filhos que foram institucionalizados fosse reaberto.
No início deste ano o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem aconselhou as autoridades portuguesas a reexaminarem o processo e a pagarem uma compensação à mãe das crianças.
É ainda importante relembrar que o Tribunal Constitucional já tinha decidido que o processo continha inconstitucionalidades e o próprio Supremo Tribunal de Justiça já tinha decidido desfavoravelmente à mãe em duas ocasiões.
Entretanto, as crianças têm actualmente entre quatro e 11 anos e vivem em instituições de acolhimento desde 2012. Absolutamente inaceitável.
Em 2012 a decisão do Tribunal de Sintra no sentido de retirar as sete crianças e encaminhá-las para adopção foi sustentada pelas dificuldades económicas da família e pelo não cumprimento de algumas das medidas previstas no processo de protecção de menores que envolve esta família.
Parece relevante acentuar que não existiam relatos de maus-tratos e que uma das medidas impostas no acordo e não cumpridas pela família, seria a prova por parte da mãe de que estaria em apoio hospitalar para laqueação das trompas. O tribunal sublinhou que a mulher persistiu na rejeição de tal intervenção.
Como é evidente e creio que deve ser considerado, a comunidade, através das diferentes entidades e instituições que intervêm neste universo, tem a obrigação de proteger as crianças de negligência e maus-tratos, nenhuma dúvida sobre isso, trata-se do superior interesse da criança, tantas vezes esquecido. Quero dizer com isto que não discuto, não tenho informação suficiente, a bondade da retirada das crianças à família, embora entenda, como a generalidade das pessoas, que esta deva ser sempre uma medida de fim de linha a que se recorre depois do insucesso de outras abordagens.
No entanto, não estava comprovada a existência de maus-tratos e estas crianças vivem estra tragédia desde 2012. Com que consequências? Que responsabilidades?
Recordo a ideia de Tolstoi em “Anna Karenina”, “as famílias felizes parecem-se todas. As famílias infelizes, cada uma é-o à sua maneira”.
Mais difícil, mas ainda mais importante se torna estarmos atentos.

terça-feira, 12 de julho de 2016

OS EXAMES DO 9º ANO

Conhecidos os resultados dos exames do 9º ano temos que a média de Matemática continuou a descer atingindo o segundo pior resultado dos 12 anos em que se realizam, 47%. Em Português também se verificou uma descida muito ligeira face ao ano anterior mas a média foi positiva, 57%. Não vou estabelecer a tentadora relação de causa efeito entre os resultados e as políticas educativas mas estas têm, naturalmente, de ser equacionadas.
Recordo que os exames não foram considerados particularmente difíceis sendo, também por isso, preocupantes estes resultados.
Em primeiro lugar pelo seu próprio valor e em segundo lugar pelo impacto que este baixo nível de conhecimentos em áreas como Matemática Português poder ter no trajecto escolar dos alunos induzindo percursos que tenderão ao insucesso ou abandono.
Mais uma vez, creio que é de insistir na ideia de que a qualidade em educação promove-se, sem dúvida, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens. No entanto e mais do que com os exames, promove-se com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio precoce, oportuno e competente a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de organização e funcionamento das escolas, com o reforço real da sua autonomia, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, com dispositivos de regulação, etc. É o que acontece, genericamente, nos países com mais baixas taxas de retenção.
Num país em que o nível de escolaridade dos pais é uma variável fortemente associada ao rendimento escolar dos filhos e em existem muitas famílias com crianças em risco de pobreza ou em pobreza e sabendo-se que a privação é, evidentemente, um factor também fortemente associado ao rendimento escolar, exigem-se políticas sociais e apoios às famílias, não estou a falar de dinheiro exclusivamente, que contribuam para que não tenhamos este nível de resultados como algo de estrutural e inultrapassável.
Somos capazes de fazer melhor. Temos de fazer melhor.

OS TEMPOS DA ESCOLA

 No Público retoma-se a discussão, pertinente do meu ponto de vista, em torno do calendário escolar e dos tempos escolares. A temática vai ao encontro do tema do mês em debate nos blogues que subscreveram o manifesto "Em Defesa da Escola Pública". Algumas notas.
Na peça do jornal está, por exemplo, em análise a proposta recente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas no sentido de que o ano lectivo no ensino básico e secundário se organize, tal como o ensino superior, em semestres em vez dos actuais três períodos. A duração global do ano escolar encontra-se dentro da média.
Não tenho uma posição fechada e fundamentada sobre as eventuais vantagens sendo certo que existem outros sistemas em que se verifica o modelo semestral.
No entanto, creio que mesmo numa organização em três períodos a situação que me suscita mais dúvidas é o desequilíbrio que frequentemente se verifica na duração dos períodos.
Dado que a interrupção da Páscoa marca o fim do 2º período e é uma data móvel as diferenças podem ser significativas. Considerando o próximo ano lectivo e de acordo com a Associação, o primeiro período terá 67 dias de aula, o segundo 54 e o terceiro 29 dias no caso dos alunos em anos de exame, 9º, 11º e 12º.
Parece claro que esta situação não é a mais adequada. Dada a tradição talvez não seja fácil, mudar nunca é fácil, fazer com o que o calendário escolar não esteja colado a festividades móveis.
No entanto, existem outras questões a considerar. Num país com as nossas condições climáticas, tal como genericamente no sul da Europa, e considerando boa parte do nosso parque escolar, aulas prolongadas até ao Verão seriam algo de, literalmente, sufocante.
A Confap tem defendido onze meses de actividade na escola. Sendo a guarda das crianças um problema sério ele não pode ser resolvido prolongando até ao “infinito”, a infeliz ideia de “Escola a Tempo Inteiro”, a estadia dos alunos na escola. A “overdose” é pouco saudável.
Vale a pena pensar também na vantagem de uma pequena pausa lectiva a meio, designadamente, no 1º período. Do ponto de vista da educação escolar é potencialmente uma vantagem que aliás muitos países contemplam. Importa no entanto ponderar como gerir a situação dos alunos.
No que respeita aos tempos escolares, os alunos portugueses, sobretudo no início da escolaridade tem umas das mais elevadas cargas horárias. Como bem se sabe, mais horas de trabalho não significam melhor trabalho e os alunos portugueses já passam um tempo enorme na escola. Talvez seja de introduzir nesta equação a variável “áreas disciplinares e currículos”, considerando o número de áreas ou disciplinas, conteúdos, organização, etc.
Neste contexto, creio que vale a pena reflectir nestas matérias, ouvindo a participação dos vários actores, estudando experiências de outros sistemas e, eventualmente, de uma forma tranquila, oportuna no tempo, sustentada, repensar os tempos da escola.

HÁ QUE CASTIGÁ-LOS, SÃO MAUS EXEMPLOS

Sem surpresa, os Ministros das Finanças da União Europeia aprovaram sanções a Portugal e Espanha.
A Comissão Europeia, após a defesa a apresentar pelos países castigados, decidirá em breve pela natureza dos castigos.
Esta narrativa era demasiado previsível. Os falcões da UE não podem permitir que uma geringonça encostada à esquerda possa ser bem-sucedida alterando, em alguns aspectos, o fundamentalismo austeritário do Governo anterior. O Brexit veio ajudar, dispensam maus exemplos vindos da esquerda como a forma como lidaram com a Grécia bem ilustra.
A responsabilidade do incumprimento não é exclusivamente imputável ao Governo actual como os burocratas não eleitos que governam a União sabem mas são estes, os de “esquerda” que têm de pagar.
As reacções dos falcõezinhos caseiros, alguns de crista, não conseguem disfarçar o “contentamento” com o castigo a Portugal.
Um dos bons exemplos de “his master´s voice”, Maria Luís Albuquerque, afirmou tranquilamente que com ela não haveria sanções.
Sim, nós sabemos. Cumpriria como cumpriu as ordens dos falcões, teria um prémio de bom comportamento, como já teve, aliás, embora não à altura de uma Goldman Sachs. As sanções não seriam aplicadas, seriam a sua própria política.
Falar de União Europeia com a mediocridade das lideranças que a gerem é cada vez mais desajustado. 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O MISTÉRIO DOS TROPEÇÕES

No mundo dos miúdos e dos graúdos e das relações que estabelecem entre si, acontecem situações que, por vezes, me parecem inexplicáveis. Na tentativa de encontrar junto de vós ajuda para entender tais situações apresento-vos uma delas.
Quando em nossas casas, nos contextos familiares, os miúdos pequenos mostram e fazem as suas tentativas de se desenvolverem, por exemplo quando estão a aprender a andar ou falar, observam-se alguns tropeções e embaraços com os sons e palavras. De uma forma geral, os adultos por perto brincam e riem-se com estes incidentes, os miúdos também, e, tranquilamente, continuam a tentar fazer melhor o que, obviamente, acabam por conseguir. Tudo bem. Uns tempinhos mais tarde, os miúdos vão para a escola e começam a aprender as coisas que a escola tem guardadas para lhes ensinar, por exemplo, a ler e a escrever. Como é de prever, as tentativas dos miúdos para ler e escrever não resultam logo, verificam-se alguns enganos e tropeções. É aqui que justamente surge o mistério.
Contrariamente à situação anterior, muitos dos adultos da escola e em casa não brincam e não riem com os miúdos a propósito destes enganos e tropeções. Põem um ar muito sério e sublinham “está errado”. Existem miúdos que se assustam quando, repetidamente, lhes dizem de cara séria, “erraste”. Devagarinho, deixam de querer experimentar fazer, não querem correr o risco de “errar”. Não experimentando, não vão aprender, passam a preguiçosos e desmotivados. Alguns até acedem ao estatuto de alunos com dificuldades.
Têm alguma explicação que me ajude a entender esta diferença de atitudes?

THE DAY AFTER

Ainda se vive e se vibra com o título europeu de futebol ontem conquistado. Este feito terá, provavelmente, uma capacidade mobilizadora superior a qualquer outro evento.
Hoje é o dia das reacções, dos comentários, da chegada dos heróis, dos banhos de multidão, das recepções oficiais, o poder, os poderes, sempre apanham boleia nestes eventos, da festa.
Mostram-se os ecos, nacionais e internacionais, do feito português, põe-se a nu a arrogância e dos franceses e a indesculpável forma como conseguiram parar Ronaldo, batendo forte e com impunidade garantida pela arbitragem amiga.
Por hoje, sanções só as que deveriam ser impostas ao agressivo Payet mas que vai passar sem elas. 
Por hoje, festejemos o Euro ganho por uma equipa que teve como maior virtude ser uma equipa.
Somos campeões europeus, este título ninguém nos tira e ninguém o deu.
A partir de amanhã voltará a preocupação com o que a Europa nos dará.
Mas deixemos isso por hoje, só por hoje.

domingo, 10 de julho de 2016

FEITO. CAMPEÕES EUROPEUS

Feito.
Campeões da Europa. 
Uma equipa que funcionou como equipa construiu com eficiência uma trajectória de sucesso e que ganhou os jogos que tinha que ganhar.
O mestre da táctica dirá que faltou nota artística. No entanto, para além da ponta de sorte que qualquer jogo envolve, sobrou empenho, solidariedade, coesão e organização, mérito do "mister".

INSPIREM-SE CAMBADA!

É verdade que a mediatização do futebol esmaga as outras modalidades.
Mas é bom registar e não esquecer que no dia de todas as decisões no futebol, Sara Moreira e Patrícia Mamona ganharam títulos europeus em atletismo, meia-maratona e triplo salto, respectivamente. Também na meia-maratona Jéssica Augusta atingiu o pódio, terceiro lugar, tal como o português Tsanko Arnaudov com bronze no lançamento do peso.
Inspirem-se cambada!

A TÁCTICA PARA MAIS LOGO

Depois de uma exaustiva análise dos mecanismos de jogo, da cultura táctica e das características individuais da equipa francesa creio estar em condições de, despretensiosamente e sem querer competir com os grandes nomes, Rui Santos ou Luís Freitas Lobo por exemplo, deixar um modesto contributo de natureza técnico-táctico-estratégicO-psicológica para que a selecção portuguesa triunfe no jogo de logo da final do Europeu.
Estas notas vão escritas em futebolês para que se tornem mais claras
Em primeiro lugar importa jogar olhos nos olhos, seja lá isso o que for.
É preciso entrar com confiança e assumir o jogo com a estratégia que o mister definir.
Dadas as características da equipa da França creio que teremos um jogo com transições rápidas entre os vários momentos. Este tipo de jogo exige elevados níveis de concentração e atenção às compensações face ao risco de desposicionamento táctico. Teremos de ser uma equipa solidária e jogar com alegria e motivação.
A equipa não pode jogar de forma curta, compacta, tem que se estender e apostar na pressão alta.
Importa que se explore o espaço entre linhas, com os alas em movimentos de fora para dentro a procurar jogar nas costas dos defesas adversários.
Atenção às bolas paradas e aos posicionamentos defensivos e ofensivos. Quanto às marcações deveremos optar por uma defesa flutuante entre a zona e o homem a homem dependendo das opções de marcação dos franceses. Atenção ao Pepe, que ele de vez em quanto passa-se. É bom alguém sempre por perto que o oriente.
É necessário que se assegure posse de bola e uma circulação eficaz sempre a criar linhas de passe em progressão. Poderá também ser oportuno introduzir alguns momentos de contenção que possam desequilibrar o esquema táctico da frança
A equipa terá de ser forte psicologicamente e jogar nos limites, claro.
Creio que com estes conselhos, aprendidos com os grandes mestres do comentarismo futebolês, a prestação da equipa portuguesa poderá ser um sucesso e atingir os nossos objectivos, sermos campeões.
Uma pequena nota ainda, é um pormenor mas como sabem os grandes jogos decidem-se nos pormenores. É imprescindível que marquemos mais um golo que a França, seja os 90 minutos, nos 120 minutos ou nos penaltys.
Tenho a certeza, são muitos anos a estudar, a ouvir os sábios e a assistir a jogos de futebol, que se marcarmos mais um golo que os franceses seremos campeões.
Se não ganharmos, bom, que se f …ique em segundo lugar.
Nem sempre podemos ser como a Sara Moreira ou Durão Barroso, atingir o topo.

VAMOS LÁ CAMBADA!

Pode ser por meio a zero no prolongamento.
Também seria muito interessante vencer nos penaltys com os franceses a falhar a última tentativa.
Na nossa melhor tradição seria um sofrimento redentor.
A Sara Moreira já mostrou hoje como se ganha um prova europeia. Vamos lá cambada

sábado, 9 de julho de 2016

AINDA OS CONTRATOS DE ASSOCIAÇÃO. O Senhor Padre sabe que não é como diz

Não pensava retomar a questão dos contratos de associação. No entanto, dado que a campanha tóxica prossegue gerando equívocos e manipulações julgo que é importante manter outras alguma outra abordagem.
Hoje no Observador, claro, o Senhor Padre Jesuíta, Francisco Rodrigues, depois de tecer um conjunto de considerações sobre o Estado, as suas funções e a excelência dos contratos de associação conclui, “Uma coisa é certa, em vez de apoiar e estimular, é grave que o governo tente acabar com algumas das melhores práticas, a nível do ensino, que este excelente mas pobre país tem. Isto não pode deixar de ter resposta. Pais de todo o país, unam-se!”
Duas notas muito breves, o tempo quente e o fim-de-semana solicitam economia.
Não estabelecer contratos de associação quando na mesma zona existe resposta pública não tem rigorosamente a ver com “as melhores práticas de ensino”. O Senhor Padre sabe isso muito bem, aliás, como foi divulgado, nos estudos comparativos internacionais os resultados dos alunos dos estabelecimentos com contratos de associação não diferem significativamente dos alunos das escolas públicas. O Senhor Padre sabe muito bem que a excelência das práticas existe nos diferentes tipos de escola. Fica-lhe mal esta falta de seriedade.
As práticas que agora, espero, terminam, não têm a ver com metodologias de ensino, têm a ver com práticas políticas de apoio a negócios privados com dinheiros públicos, É evidente que estas práticas são, estranhamente aos olhos do Senhor Padre, boas práticas à luz dos seus mandamentos ideológicos. Mas não é assim Senhor Padre. Aqui para nós, o Senhor sabe disso.
Como escreveu, aqui estamos de acordo, somos um “país excelente mas pobre”. É verdade. E por ser verdade mais se exige que os dinheiros públicos não alimentem negócios privados.
O Senhor Padre precisa de exemplos?
Existem muitos, basta estar atento e querer vê-los. O problema é que o Senhor Padre não os quer ver. E legítimo que assim faça, mas a seriedade é um bem precioso, diga-o com clareza. 

A GRATUITIDADE DOS MANUAIS ESCOLARES

No I encontra-se uma notícia sobre os manuais escolares com o título “Alunos do 1º ano vão ter de devolver manuais 'oferecidos'”.
Como é sabido, Governo decidiu disponibilizar gratuitamente os manuais escolares de forma progressiva. Este ano serão os alunos do 1º ano a recebê-los. Nada de mais, trata-se de caminhar no sentido de cumprir a disposição constitucional da gratuitidade e universalidade da escolaridade obrigatória e apenas se lamenta que a medida ainda não envolva toda a escolaridade.
Há algum tempo o responsável pela Porto Editora, um dos donos do importante mercado dos manuais escolares já tinha alertado para os riscos para o negócio.
No I hoje o discurso é mais curioso.
Em primeiro lugar a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros entende que o ME está a enganar as pessoas pois afirma que o Ministério afirma que está a “dar” os manuais mas no fim do ano pede a sua devolução, afinal está a “emprestar”, não está a dar. Extraordinário argumento. A reutilização de manuais é uma prática em muitíssimos sistemas educativos que resistem à pressão e peso dos grupos editoriais
Mas vai mais longe e afirma que a gratuitidade dos manuais provoca desigualdade social. Vejamos porquê.
Até aqui, os “pobres”, os “desacamisados” acediam, por vezes tarde, aos manuais através dos serviços de acção social escolar. No fim podiam ficar com eles, agora têm de devolver. Por outro lado, os ricos têm livros gratuitos e não precisam. Pois, é o problema dos serviços públicos, e passa-se em todas as áreas.
Como é evidente esta questão não tem rigorosamente a ver com a gratuitidade dos manuais, como ninguém discute a acessibilidade aos serviços de saúde.
O que julgo necessário, como tenho escrito, seria repensar o peso e a dependência dos manuais no trabalho de alunos e professores e a o repensar dos próprios manuais e da imensidade de acessórios, cadernos, fichas, CDs, etc. que de facto encarecem e muito o orçamento das famílias e, aqui sim, fomentam desigualdade.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

GOSTEI DE LER, “A EDUCAÇÃO TEM QUE SER PARA TODOS E ISSO NÃO SE CONSEGUE COM ENSINO PRIVADO”

A Professora Antonia Darder, autora de uma obra que creio ser razoavelmente conhecida por cá, “Cultura e Poder na sala de Aula”, tem uma entrevista no Público cuja leitura me parece de leitura e reflexão pertinente.
Num tempo em que se discute o serviço público de educação e a escola pública, bem como ao desinvestimento na escola pública, é importante não perder de vista referências fundamentais.

O FABULOSO DESTINO DE JOSÉ MANUEL DURÃO BARROSO

Um dos mais reputados economistas e especialistas na área financeira, José Manuel Durão Barroso, vai assumir a presidência do conselho de administração do Goldman Sachs um dos maiores bancos mundiais na área do investimento.
O lugar foi conquistado através de longo e exigente concurso público e transparente.
A José Manuel Durão Barroso valeu um currículo académico extenso, com obra e investigação publicada nas mais exigentes publicações científicas.
Ao seu vastíssimo currículo académico deve juntar-se também algumas décadas de experiência na banca e na área do investimento e gestão com um brilho e resultados reconhecidos pelas mais robustas praças financeiras mundiais.
No entanto, e apesar destas reconhecidas dimensões, José Manuel Durão Barroso demonstrando um elevado sentido de missão e espírito de sacrifício, ainda realizou uma brevíssima incursão pela actividade política com raro destaque e brilhantismo chegando merecidamente à presidência da Comissão Europeia. Aqui, com o empenho e competência de sempre bateu-se esforçadamente pela defesa dos interesses dos cidadãos europeus.
É pois de saudar a justiça e o reconhecimento que representam a função que passará desempenhara ao que parece a troco da simbólica quantia de cinco milhões euros por ano.
E assim se cumpre o fabuloso destino de José Manuel Durão Barroso.

LES BEAUX ESPRITS SE RENCONTRENT


Em modo “tuga” temos, os amigos são para as ocasiões. Louve-se em Nuno Crato a coerência relativamente à agenda e a solidariedade para com os interesses, alguns, claro.



quinta-feira, 7 de julho de 2016

UM RAPAZ QUE SE CHAMAVA MAU

Era uma vez um rapaz chamado Mau. Toda a gente, pequenos e mais velhos, achava o Mau o pior dos rapazes daquele bairro e daquela escola. Metia-se com todos, arranjava problemas e até com alguns dos alunos mais velhos, o Mau conseguia que o temessem.
Não demonstrava ter medo de nada e procurava assustar quem lhe passava perto. Para alguns colegas, o Mau era o mais popular e admirado, para muitos outros, o Mau era temido e desgostado. Já fora castigado muitas vezes e quase diariamente passava por reprimendas, mas o Mau não parecia incomodado com isso, adoptava sempre o seu estilo de quem não tem medo de nada e se julga superior a todos.
Um dia, o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, cruzou-se com o Mau no recreio e entre duas brigas, interpelou-o, “Tu é que és o Mau?”, o rapaz olhou para ele com aquele habitual ar de desafio, “Sou Velho, não se nota que sou o Mau? Que queres, vens dar-me mais uma seca?”. O Velho riu-se e disse-lhe, ”Não, tu querias que eu te desse uma seca, mas eu já não tenho secas para dar, só te queria mostrar isto que tenho aqui no bolso”. Curioso e baralhado, o Mau aproximou-se e o Professor Velho pôs-lhe à frente um espelho. De repente, quando se viu reflectido o Mau recuou apavorado.
É, o Mau assustou-se, vivia cheio de medo dele próprio, e espantava o medo para cima dos que estavam à volta. Com a esperança de se livrar dele.
Alguns Maus são assim. Outros não.

DOS NEGÓCIOS DA EDUCAÇÃO

No Relatório da Inspecção-Geral de Finanças de 2015 constata-se que o Ministério da Educação não regula a atribuição de financiamento para frequência de estabelecimentos de ensino privado ao abrigo dos chamados “contratos simples". Entre 2013 e 2014 foram atribuídos 451 milhões de euros sem controlo de justificação ou eficácia.
Nada de estranho, diga-se.
A essência cultural dos apoios estatais a estruturas privadas assenta nesta desregulação que, evidentemente, sai muito cara aos contribuintes mas, por outro lado, alimenta uma política amigável para os interesses privados. Toda a história das PPPs é elucidativa. E lamentável, acrescente-se.
Por estas e muitas outras razões é de uma enorme desfaçatez mascarar os negócios da educação com referências à liberdade de educação.
Parece-me tudo bastante mais claro se falarmos em liberdade de mercado mas prescindam do dinheiro público para o financiamento de negócios privados.

AOS SENHORES DONOS DA UE

Senhores Donos da União(?!) Europeia,
Por favor não castiguem a gente, os portugueses. A gente tem-se comportado bem.
Muitos de nós, a maioria, estamos mais pobres. Alguns estão mais ricos mas os Senhores sabem como é, há sempre gente que não acata o bem que lhes queremos fazer e gosta de contrariar, mas são poucos acreditem.
Também já não vivemos acima das nossas possibilidades, agora muitos de nós vivem abaixo das suas necessidades. Somos gente que se sacrifica e gosta de sentir os seus sacrifícios apoiados pelos nossos amigos, os alemães e outros benfeitores que desinteressadamente nos têm ajudado.
Também largámos muitos dos nossos empregos e fechámos muitas empresas para que também fique mais mercado para os nossos amigos.
Como sabem Senhores Donos da EU, nós tínhamos uns chefes, melhor dizendo uns feitores, que eram gente muito bem formada e obediente a tudo o que os Senhores diziam, ouvindo sempre com particular atenção o grande benemérito Wolfgang Schäuble e esforçando-se sempre para cumprir as suas ordens. Coitados fizeram tudo para vos agradar.
Mas como sabem, a vida traz-nos surpresas e agora temos outras pessoas que são um bocado diferentes. Os Senhores com toda a vossa competência e experiência sabem como são aquelas pessoas que gostam de contrariar os chefes mas também sabem que não podem contrariar assim muito porque, no fundo, chefe é chefe.
Estas pessoas de agora também são boa gente e farão os possíveis para que os Senhores não se zanguem mas vão esticando um bocadinho as coisas para não serem parecidos com os outros e muitos de nós ficamos mais contentes por serem assim um bocado diferentes.
Por isso Senhores Donos da UE, não nos castiguem, não nos dêem sanções, sejam generosos como têm sido, nós seremos sempre reconhecidos.
Muito obrigado pela vossa compreensão e generosidade.

Mais a sério. Como já escrevi, parece-me claro que esta narrativa das sanções será gerida pelos falcões da UE de forma a responsabilizar de forma mais ou menos clara a "geringonça", independentemente das responsabilidades reais do actual Governo ou do Governo de Passos Coelho. Recordemos a situação grega e o seu trajecto.
A UE não pode aceitar que um governo à esquerda funcione, é um mau exemplo. Já lhes chega o Brexit.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

ESTAMOS EM PARIS

Jogámos bem? Por momentos.
Somos uma das duas melhores equipas do Euro 2016? Acho que não.
Merecemos? No futebol as coisas acontecem sem que tudo se controle, incluindo a sorte.
Ganhámos ao País de Gales? Sim, ganhámos.
Estamos em Paris? Estamos.
Vamos ganhar a final? Vamos!
São assim as contas do futebol.
As outras? Bom, isso é outra história.

O CONSENSO NA EDUCAÇÃO

No CM lê-se que na audição de ontem na Assembleia da República da equipa do ME a Secretária de Esestado informou a existência de "turmas fantasma", turmas não existentes, em estabelecimentos de ensino privado com contrato de associação. A situação está em investigação por parte da Inspecção-Geral de Educação. Os estabelecimentos de ensino recebem 80500 euros por turma contratualizada. Não é mau negócio.
A afirmação sobre as "turmas fantasma" não é verdadeiramente surpreendente. O que apesar de por cá andar há muitos anos achei muito curioso foi ler que a Secretária de Estado não foi questionada sobre esta afirmação por qualquer dos deputados presentes.
Apesar de sucessivos apelos aos consensos entre as forças partidárias parecerem infrutíferos os consensos existem.
Nos negócios da educação os interesses da partidocracia estão bem presentes e sustentam consensos, "é melhor não levantar ondas".
São assim as teias da partidocracia e os negócios da educação.

DEBATER - AS FÉRIAS ESCOLARES (Take 2 - Os Tempos Livres)

Na sequência do manifesto “Pela Escola Pública” assinado por vários blogues, decidiu-se que todos os meses se debateria um assunto comum lançado a partir do blogue ComRegras. Este mês, o tema é "as férias escolares".
A questão é recorrente, e naturalmente, sazonal, não há aulas e agora? Como mais um contributo para o debate, umas histórias perdidas num tempo, aparentemente, sem retorno.


Neste tempo de férias coloca-se o habitual problema das famílias com gaiatos pequenos, onde deixá-los, tema que ainda hoje veio à baila numa conversa.
Como sabemos, esta questão é relativamente recente e, ainda que em generalização, afecta sobretudo as famílias de áreas mais urbanas. É também nestas zonas que privilegiadamente tem vindo a emergir uma oferta de actividades, equipamentos e espaços sofisticadíssimos, com designações curiosas que, para além de ocupar as crianças, ainda se propõem contribuir para que os miúdos acedam a níveis extraordinários de desenvolvimento e competência nas mais variadas áreas, pois os miúdos de hoje têm de ser fantásticos e excelentes em tudo.
Quando eu era gaiato, antes do desenvolvimento ter tapado as quintas com prédios deixando como espaço livre o alcatrão, a oferta para os miúdos era basicamente constituída pelo mais acessível e barato dos equipamentos, a rua. Como os estilos de vida ainda tão tinham alimentado a insegurança, quando não havia escola, claro, estávamos na rua.
As actividades não eram muito sofisticadas nem fantásticas, não ficávamos assim muito excelentes, mas divertíamo-nos a sério, com calor, com frio, com chuva, mesmo à noite, nas férias. É verdade que alguns dos meus companheiros ainda foram “homens que nunca foram meninos” como lhes chamou Soeiro Pereira Gomes, desde muito cedo fizeram-se ao trabalho.
Mas ainda arranjávamos tempo para brincar, naquela época o tempo era mais barato e havia mais.
Nessa altura os miúdos ainda podiam apanhar chuva e mexer na terra, não conhecíamos as ameaçadoras bactérias, os nossos pais também ainda não excelentes e fantásticos.
Muitas das actividades eram, por assim dizer, sazonais, mais próprias de umas alturas do ano que de outras. Algumas delas, já aqui falei, dariam vontade de rir aos miúdos de hoje mas eram o máximo, a sério.
Andar horas de arco e gancheta em exibição ou competição, realizar intermináveis jogos de futebol, muda aos cinco acaba aos dez, com bolas de cautchu adquiridas através dos rebuçados, jogar hóquei em patins, sem patins, com uma bola de matraquilhos roubada no café e com talos de couve com a curva adequada a servir de stick, são alguns exemplos.
Fazer tiro ao arco com arcos feitos a partir das varetas de guarda-chuvas velhos, passar horas nas diversas variantes dos jogos com berlindes, exercitar a corrida com o jogo da rolha, do lenço à barra, ou do toca e foge, experimentar a estratégia no jogar às escondidas ou a perícia nas corridas de caricas, eram outras das muitas coisas que fazíamos nos nossos tempos livres.
Nesse tempo havia tempo livre, os miúdos hoje quase não têm. Mas são fantásticos e excelentes. 
Às vezes não. E se com a necessária precaução devolvêssemos os miúdos à rua?

terça-feira, 5 de julho de 2016

DEBATER - AS FÉRIAS ESCOLARES

Na sequência do manifesto “Pela Escola Pública” assinado por vários blogues, decidiu-se que todos os meses se debateria um assunto comum lançado a partir do blogue ComRegras. Este mês, o tema é "as férias escolares".


A questão é recorrente, e naturalmente, sazonal, acabaram as aulas e agora? Como contributo para o debate, umas notas breves.
Em primeiro lugar, tal como no horário não escolar durante o período de aulas existe um problema real para as famílias com a guarda de crianças e adolescentes. No entanto, a minimização deste problema não pode, não deve, do meu ponto de vista, assentar na eternização da presença dos alunos na escola à luz de um enorme equívoco chamado “Escola a Tempo Inteiro” e que em muitas situações cria overdoses de escola. Como se sabe as overdoses não são saudáveis.
A escola não pode “engordar” indefinidamente assumindo responsabilidade e competências por todas as problemáticas que digam respeito a crianças e jovens ou às famílias com filhos em idade escolar.
Deste ponto de vista, a escola pode dar contributos, tem conhecimento e alguns recursos ao nível de espaços e equipamentos, mas, por princípio, não deve ser “responsável” pelas actividades dos alunos no tempo de férias escolares. É importante não esquecer que neste período de férias para os alunos, a generalidade dos professores, técnicos e funcionários das escolas continuam com trabalhos importantes ao nível da avaliação, planeamento ou manutenção, por exemplo.
Neste cenário, penso que uma hipótese de minimizar as necessidades de “guarda” de crianças e adolescentes, informada por uma perspectiva de “tempos livres” e não de “mais escola”, a ideia de “educação a tempo inteiro” em vez de “escola a tempo inteiro”, seria o recurso optimizado aos espaços e equipamentos das comunidades, incluindo as escolas, mas da responsabilidade organizativa de autarquias, estrutura da comunidade que me parece mais preparada para essa realização.
Este seria, creio, um melhor caminho de envolvimento autárquico, aliás já verificado em muitas comunidades, que o anunciado trajecto de municipalização com ameaças à perda ou não atribuição de autonomia às escolas em esferas da competência destas.
As autarquias têm na sua tutela os espaços e recursos, incluindo humanos, em termos de desporto, cultura e lazer, bem como a tutela dos transportes escolares.
O seu envolvimento, contando, eventualmente, com a consultoria das escolas pois, conhecem a população e as suas necessidades, seria uma forma de operacionalizar um serviço público de educação.
Na verdade, como sabemos, existe uma variadíssima oferta privada de actividades de férias em cuja promoção se acentua o seu carácter fundamental na promoção do desenvolvimento e de inúmeras e fantásticas competências, todas imprescindíveis à excelência no desempenho de crianças e adolescentes.
Como é evidente, só uma pequena parte das famílias acede a esta “tentadora” oferta do mercado da educação o que, sem estranheza, alimenta desigualdades.
Muitos países integram nas suas políticas de família a guarda das crianças em tempo de férias o que tem ainda um efeito particularmente relevante. A existência de respostas acessíveis na geografia e no preço é reconhecidamente um factor positivo na construção de projectos de maternidade nas famílias. Como se sabe a queda demográfica em Portugal também tem a ver com questões desta natureza. 
Participem neste debate navegando pela rede de blogues envolvidos. 

Outros contributos (em actualização):
O Meu Quintal
Coisas das Aulas
Correntes
Escola Portuguesa
Assistente Técnico

DA AUTONOMIA DAS ESCOLAS

Em audição na Assembleia da República, segundo o Público, o ME informou que no próximo ano lectivo admite a existência de menos mil turmas validadas. No entanto, segundo o JN a resposta da Secretária de Estado é menos fechada e considera a possibilidade não existir redução. Deixem lá ver, como se diz no Alentejo.
A existir tal redução e de acordo acom ME ela decorrerá das oscilações da demografia discente e não de “imposição” do Ministério.
As necessidades de recursos para o Programa de Tutoria anunciado são desenhadas em função do número de turmas. Reduzindo as turmas … é só fazer contas, sempre as contas.
Umas pequeninas dúvidas.
O abaixamento que se tem vindo a verificar do número de alunos não é proporcional, os indicadores disponíveis mostram-no com clareza, ao número de docentes que entretanto foram empurrados para fora do sistema. O número de turmas não pode ser só uma questão de demografia, de divisão de alunos por professores ou espaços.
A constituição de turmas, na sua composição e dimensão, deveria ser da completa autonomia das escolas com orientações e regulação da tutela. Em abstracto uma escola pode entender como ajustado ter num mesmo ano de escolaridade turmas com efectivos bem diferentes por razões que quem conhece a realidade bem perceberá e me dispenso de enunciar.
No entanto, de há muito que o ME não confia nas escolas e nos professores. Sim, eu sei que foi referido na AR, existem “alunos com dupla matrícula ou turmas fantasmas”. Sim, eu sei que os modelos de organização e funcionamento das escolas e a sua relação com a tutela solicitam uma carga burocrática que retira tempo de trabalho lectivo aos professores. Sim, eu sei de vários outros disfuncionamentos.
No entanto, também sei que estes disfuncionamentos se corrigem com regulação e ajustamentos, não com desconfiança, centralização e gestão administrativa de questões de pedagogia próprias a contextos diferenciados.
Um dia, vamos ter escolas com autonomia, com regulação e responsabilização evidentemente. Nesse dia teremos ainda melhores escolas.

DAS PRAXES

Um grupo de pessoas de diferentes sectores de actividade dirigiu uma Carta Aberta a todas as instituições de ensino superior sobre a questão das praxes, dos abusos que regularmente se verificam e da necessidade de encontrar alternativas a estas práticas.
O alerta parece oportuno e justifica-se. Daqui a dois meses inicia-se um novo lectivo e apesar de algum abrandamento que creio notar-se nos últimos anos lá teremos os velhos problemas das velhas praxes que, aliás, em muitas academias não são assim tão velhas, são uma prática relativamente recente.
Julgo que autoridades académicas e directivas das instituições têm um papel de evidente importância na questão das praxes mas prefiro que a sua regulação e discussão se faça, sobretudo, através dos próprios estudantes. De facto, as mudanças necessárias deveriam ocorrer não de uma lógica proibicionista das direcções ou da tutela, de recomendações da Assembleia da República, ou da da chamada sociedade civil, mas das iniciativas dos estudantes. É isso que se deve esperar de gente adulta e, espera-se, autodeterminada.
Como regularmente aqui afirmo partindo de um conhecimento razoavelmente próximo deste universo, a regulação dos comportamentos nas praxes tem-me parecido indispensável. Parece-me ainda importante que os dispositivos de regulação das praxes integrem o respeito por posições diferentes por parte dos estudantes sem que daí advenham consequências implícitas ou explícitas para a sua participação na vida académica que, frequentemente, não sendo "enunciadas", são, evidentemente, praticadas.
Os repetidamente referidos "Códigos de Praxe", nas suas diferentes designações, não parecem suficientes para inibir abusos dos comportamentos e as consequências negativas sobre os não aderentes às praxes.
Na verdade, de forma aparentemente tranquila coexistem práticas muito positivas, genuínas intenções de convivialidade, tradição e integração na vida académica com boçalidade, humilhação e violência sobre o outro, no caso o caloiro, a “besta” como elegantemente é designado. Tenho assistido e todos temos conhecimento de cenas absolutamente deploráveis por mais que os envolvidos lhes encontrem virtudes.
Apesar dos discursos dos seus defensores, continuo a não conseguir entender como é que, a título de exemplo, humilhar rima com integrar, insultar rima com ajudar, boçalidade rima com universidade, abusar rima com brincar, ofender rima com acolher, violência rima com inteligência ou coacção rima com tradição. Devo, no entanto sublinhar que não simpatizo com estratégias de natureza proibicionista, sobretudo em matérias que claramente envolvem valores.
Quando me refiro a esta questão, surgem naturalmente comentários de pessoas que passaram por experiências de praxe que não entendem como negativas, antes pelo contrário, afirmam-nas como algo de positivo na vida universitária. Acredito e obviamente não discuto as experiências individuais, falo do que assisto e conheço.
A minha experiência universitária, dada a época, as praxes tinham entrado em licença sabática, por assim dizer, foi a de alguém desintegrado, isolado, descurriculado, dessocializado e taciturno porque não acedeu ao privilégio e experiência sem igual de ser praxado ou praxar. Provavelmente, advém daí a minha reserva.

APESAR DO ME

Dados divulgados pelo ME mostram que em 14/15 a percentagem de retenção dos alunos do ensino básico e secundário manteve a trajectória de descida apesar de no caso de séries mais alargadas as comparações requererem alguma cautela.
No entanto, o nível de retenção é ainda grave, quase 10% de “chumbos no 2º ano de escolaridade é uma tragédia, estamos a falar de crianças com sete anos.
Esperemos que as políticas educativas possam assumir a vontade política e os respectivos custos de promover sucesso educativo pelo investimento em recursos e dispositivos de apoio e não por fórmulas administrativas ou tentações de facilidade, designadamente em matéria de avaliação.
O caminho só pode ser nesse sentido, o chumbo não tem como consequência o sucesso, antes pelo contrário, prolonga e alimenta o insucesso.
Também vale a pena dizer, repetir, que os progressos que nos últimos anos se têm registado e os estudos comparativos internacionais sustentam têm sido conseguidos apesar do ME, apesar dos últimos anos de política educativa e dos maus tratos e desinvestimento na escola pública, dos cortes nos recursos humanos, docentes, técnicos e funcionários.
Como quem acompanha este espaço sabe que sempre entendi que os exames, sobretudo no 4º ano, não fabricam sucesso, como também não fabricam insucesso.
A chave para promover qualidade situa-se no âmbito dos processos e da sua organização, dos recursos e da sua valorização e dos dispositivos de apoio para o trabalho de alunos e professores. Só a consideração de forma robusta destas dimensões pode minimizar o passo final da retenção.
Nuno Crato comenta estes resultados elogiando, naturalmente a política por si seguida, insiste no mantra da exigência e avisa que “é bom que as árvores não nos impeçam de ver a floresta”.
Na verdade, o que é grave é que uma parte significativa da floresta continua arder. Todos os anos temos muitas árvores queimadas e impedidas de crescer e dar frutos.
Não é uma fatalidade ou destino.
É possível fazer melhor.

ADULTOS E CRIANÇAS EM SOFRIMENTO, UMAS NOTAS NA VISÃO

No âmbito de separações familiares litigiosas, de disputas pela guarda dos filhos, de dificuldades várias e sérias nos processos de regulação parental, constroem-se situações de profundo sofrimento para todos os envolvidos, designadamente para as crianças.
Em alguns casos as consequências são trágicas como os últimos tempos têm mostrado.
Umas notas na Visão sobre esta matéria, tão difícil quanto complexa mas a exigir a melhor atenção e disponibilidade de todos os intervenientes.

ADULTOS E CRIANÇAS EM SOFRIMENTO

segunda-feira, 4 de julho de 2016

UM RAPAZ CHAMADO PORQUÊ

Era uma vez um rapaz chamado Porquê. Não sei se o nome lhe foi posto por castigo, por acaso ou porque lhe ficava bem.
Desde pequeno que a tudo o que diziam, pediam, mandavam, etc., ele começava por questionar a razão.
Os adultos que o foram conhecendo, primeiro achavam-no curioso, “vivo” e interessado, depois achavam-no chato e perturbador. Finalmente, ficavam exasperados pela sua arrogância e má educação, diziam.
Para os professores, o Porquê tornava-se insuportável. A pouco e pouco tornou-se o centro da inquietação da escola, da generalidade dos professores, e o motivo de muitas conversas.
A situação complicou-se porque vários outros alunos, mesmo sem se chamarem Porquê, começaram a comportar-se como ele, sempre a questionar tudo. Devido à proporção dos problemas, os professores decidiram que o Porquê não poderia continuar naquela escola.
Quando lhe comunicaram a decisão, estranhamente e contra todas as expectativas, não ouviram o porquê do Porquê. Foi uma das poucas coisas que disseram ao Porquê que não lhe criou sombra de dúvida, sabia muito bem e há muito tempo que não cabia naquele mundo.
Muitos professores ficaram mais tranquilos e foram assistir a uma interessante acção de formação sobre “Despertar a curiosidade nos alunos”.
Ninguém perguntou porquê e para quê?

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, UMA CENA A ACONTECER NUMA CASA PERTO DE SI

Em mais um caso da indomesticável violência doméstica uma criança foi baleada pelo pai porque, aparentemente, se interpôs entre ambos em mais uma cena de violência familiar.
Este episódio com consequências severas, a criança continua em estado grave, ilustra dois fenómenos inquietantes.
Em primeiro lugar porque vai no sentido referido em sucessivos Relatórios da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de que a exposição da criança a comportamentos de violência continua a aumentar sendo um dos mais frequentes motivos para a intervenção das Comissões. Como minimizar o risco de episódios desta natureza?
Por outro lado, os episódios graves de violência doméstica parecem não ter fim.
Acresce que o mundo da violência doméstica é bem mais denso e grave do que a realidade que conhecemos, ou seja, aquilo que se conhece, apesar de recorrentemente termos notícias de casos extremos, é "apenas" a parte que fica visível de um mundo escuro que esconde muitas mais situações.
Por outro lado, para além da gravidade e frequência com que continuam a acontecer episódios gravíssimos de violência doméstica é ainda inquietante o facto de que alguns estudos realizados em Portugal evidenciam um elevado índice de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando mais qualificada. Muitos dos intervenientes remetem para um perturbador entendimento de normalidade o recurso a comportamentos que claramente configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.
Importa ainda combater de forma mais eficaz o sentimento de impunidade instalado, as condenações são bastante menos que os casos reportados e comprovados, bem como alguma “resignação” ou “tolerância” das vítimas face à situação de dependência que sentem relativamente ao parceiro, à percepção de eventual vazio de alternativas à separação ou a uma falsa ideia de protecção dos filhos que as mantém num espaço de tortura e sofrimento.
O resultado é a alimentação de uma percepção de impunidade que se conjuga com um sistema de valores que ainda “legitima” a violência doméstica, que a entende como “normal”.
Tudo isto tem como efeito a continuidade dos graves episódios de violência que regularmente ocorrem, muitos deles com fim trágico.
Nesta perspectiva, torna-se fundamental a existência de dispositivos de avaliação de risco, dos adultos mas também das crianças, e de apoio como instituições de acolhimento acessíveis para casos mais graves e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere.
Como em outras áreas de problemas apesar do que já foi feito existe um enorme e difícil caminho por percorrer. 

A AVOZICE, TRÊS ANOS DE MAGIA

Hoje cumprem-se três anos que entrei pela primeira vez no mundo encantado, no mundo mágico da avozice.
Esta mudança de geração tem sido uma bênção em cada dia que passa e contribui decisivamente para cumprir a narrativa de um Homem com sorte, eu.
Às vezes fico assim a olhar para eles, para os meus netos, quando brincam ou quando dormem, e imagino as viagens que estão e irão fazer.
Nessas alturas sinto-me  assim …  desculpem lá o atrevimento... um anjo da guarda.
Na verdade, que mais deve ser um pai ou um avô que não um anjo da guarda.
Às vezes, não sabemos, não percebemos, não queremos ou não podemos.
Mas é bonito.
A magia da avozice recorda-me a fala de um Velho de Cabo Verde, amigo do meu amigo Amílcar, que dizia a propósito do quanto gozava a sua condição de avô, "Se soubesse que ter netos era assim, tinha tido os netos antes dos filhos".
Acho curiosíssima e elucidativa deste mundo mágico, ser avô.
No entanto, a ordem das coisas é a ordem das coisas, cresce um filho até ser Gente, vai crescer um neto até ser Gente.
E eu por perto, espero.
Bom, apesar da lida que me chama  vou gozar a avozice, os netos estão aqui à beira e à espera.

domingo, 3 de julho de 2016

DEUS PERDOA, SCHAÜBLE NÃO

Costa terá de carregar o ónus das sanções?

Parece-me claro que esta narrativa das sanções será gerida pelos falcões da UE de forma a responsabilizar de forma mais ou menos clara a "geringonça", independentemente das responsabilidades reais do actual Governo e do Governo de Passos Coelho. A recente afirmação da ex-ministra Maria Luís Albuquerque é clara nesse sentido e recordei  a sua posição durante a crise com a Grécia em 2015.

"Imprensa alemã diz que Maria Luís pediu dureza a Schäuble"


E continua. A UE não pode aceitar que um governo à esquerda funcione, é um mau exemplo. Já lhes chega o Brexit.

APRENDE A NADAR COMPANHEIRO

Dados os frequentes episódios de afogamento de crianças ou jovens a Federação Portuguesa de Natação defende que à semelhança do que se passa noutros países a natação seja uma actividade obrigatoriamente disponibilizada aos alunos do 1º ciclo.
Como já tenho escrito sou dos que defendo que a escola não pode engordar indefinidamente proporcionando a crianças e jovens tudo o que lhes possa ser útil, só porque é na escola que quase vivem. Não pode ser esse o caminho, a escola não deve e não pode ter tudo, dar tudo, as suas competências são suficientes. Os alunos da escolaridade obrigatória já têm actividades que cheguem, podem passar mais de 10 horas na escola por dia se assim o entenderem ou precisarem os pais. O risco de “overdose”, de intoxicação é severo e são conhecidos casos.
No entanto, também considero que a aprendizagem da natação seria muito útil num país como o nosso e com o volume de incidentes que se verifica, alguns com fim trágico.
É aqui e não através de uma municipalização da escola que vejo uma área evidente de intervenção autárquica, de uma forma geral são as autarquias que gerem os equipamentos desta área, os transportes e os recursos humanos.
Para além dos benefícios da prática e da aprendizagem da natação numa população escolar com défice claro de actividade física como muitos estudos mostram, seria também um tempo em que as crianças poderiam sair da escola.
É verdade que somos um país de surfistas que desde novos apanham a onda certa numa qualquer jota partidária e constroem carreiras de sucesso mesmo quando evidentemente não sabem “nadar”.
É também certo que muitas crianças, mesmo sem a aprendizagem da natação, vão sobrevivendo às marés e ondas que enfrentam em vidas complicadas e duras.
No entanto, um caminho progressivo de fazer chegar a todas as crianças a aprendizagem da natação seria algo de útil em diferentes sentidos. Acresce que, como sabem e agora por outras razões foi notícia, alguns estabelecimentos privados de natação têm piscinas, e que o acesso regular a equipamentos privados e com apoio técnico é inacessível a muitas famílias.
Sem estranheza, também nisto a desigualdade de oportunidades é evidente.

OS DIAS QUENTES DO ALENTEJO

Estamos nos primeiros dias de calor bravo aqui pelo Alentejo. Vão começar os alertas e não tardarão, certamente, as incontornáveis e patéticas reportagens sobre o modo como os alentejanos lidam com o calor, tal como surgem nos dias de frio com o pessoal de Trás-os-Montes.
Ontem à tarde as lérias com o Velho Zé Marrafa eram sobre o calor. Ele é um apreciador destes dias de quentura, eu prefiro temperaturas mais frias.
Dizia ele que o problema do calor é mais à noite quando ao fim de muitos dias quentes as casas já não arrefecem. De dia anda-se na lida e "não tem dúvida", expressão peculiar no Alentejo.
Na verdade as paredes grossas e muito antigas do monte ainda resistem e em casa "não tem dúvidas".
Numa de indivíduo atento e informado introduzi na conversa a recorrente informação sobre os alertas e respectivas cores com que somos bombardeados, nesta época devido ao calor.
O Velho Marrafa, por simpatia e generosidade alentejanas, não disse o que lhe terá passado pela cabeça, certamente qualquer coisa como "tão sempre a inventar molengas", foi mais comedido e considerou engraçado essa "coisa dos alertas". Então, dizia ele, estão a avisar-nos que faz calor no Alentejo, estamos no Verão queriam o quê? O Alentejo sempre teve calor no Verão, uns dias mais ásperos que outros, mas sempre quentes. A gente lida com o calor, anda mais coberto e bebe mais água. Deviam avisar a gente, continuava o Mestre, era se viesse aí frio agora em Julho, que a gente ainda se constipava, e ria-se com aqueles olhos pequeninos pretos debaixo da pala do boné, a boina como ele lhe chama, que lhe protege a cabeça do calor, é claro.
Comecei a pensar e realmente não parece haver nada de novo que justifique um alerta, é Verão e está calor no Meu Alentejo.
É assim, sempre foi.
E lá fui acabar de apanhar os orégãos para secar e prosseguir na limpeza dos pés de burro das oliveiras. Cheio de calor é claro.
São assim os dias quentes do Alentejo.

sábado, 2 de julho de 2016

DA SÉRIE "AI DE MIM SE NÃO FOR EU"

Mais uma vez recordo uma das expressões mais frequentes do saudoso Mário Sénico, um homem bom que partiu cedo de mais. Dizia ele, "ai de mim se não for eu". Nas mais das vezes com razão.

Maria Luís: “Se eu fosse ministra as sanções não se colocavam”

A AVALIAÇÃO EM EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR

Está hoje a decorrer um evento de apresentação das Orientações Curriculares para a Educação Pré-escolar. Não sendo um especialista considero que se trata de um documento sólido e útil como contributo para repensar o caminho que tem vindo a ser percorrido no universo da educação.
Como não podia deixar de ser, do meu ponto de vista evidentemente, em matéria de avaliação é definido com clareza que a avaliação em educação pré-escolar não se destina a “medir” ou a “classificar” mas a “regular” os processos educativos e o trabalho de crianças e educadores.
A este propósito, recordo que há cerca de um ano e face a alguns relatos e conhecimento de situações pedi que fizessem chegar ao Atenta Inquietude alguma informação sobre o que estava a acontecer em matéria de avaliação em educação pré-escolar, designadamente a existência de orientações/exigências em alguns agrupamentos, por parte das direcções ou da tutela, para que as avaliações às crianças fossem objecto de quantificação ou que dados de avaliações qualitativas fossem transformados em dados quantitativos.
Recupero alguns dos testemunhos.
"sim, confirmo. com check list de metas e sub metas para todas as áreas e conteúdo e para as 3 idades. alguns casos com menções qualitativas, outros casos com um tipo de código quantitativo que permite, depois, a sua análise estatística e apresentação de resultados iguais aos outros níveis de ensino."
"também confirmo... com percentagens e tudo."
"De facto, a diversidade de "modelos" de avaliação na Educação Pre-Escolar, decorrente quer das incoerentes e inconcebíveis "orientações" legais, mas também das diversas interpretações que muitos agrupamentos fazem dessas mesmas "orientações" têm provocado um sem fim de "anormalidades" que vão desde as "quantificações" de resultados à existência de grelhas de avaliação e "fichas de observação" que, em alguns casos chegam a ter 150 "critérios avaliáveis"."
"Confirmo. E o meu horário já está dividido por horas (p.e segunda das 9:00 às 9:30 matemática e assim sucessivamente para todos os domínios) e com coadjuvações. As metas foram divididas pelos 3,4 e 5 anos."
"Confirma-se. E passa por todos os setores: público, privado e IPSS
"Com horários dividido por horas (p.e segunda das 9:00 às 9:30 matemática e assim sucessivamente para todos os domínios) e com coadjuvações."
"no meu Agrupamento insistiu-se na ideia peregrina de "aproximar" os "sistemas de avaliação" do pré e do 1o. Ciclo, através de "instrumentos" semelhantes."
Também recebi alguns relatos de boas práticas mas fiquei perplexo e deveras preocupado com a educação pré-escolar a ser também atormentada com a febre da medida.
É um lugar-comum afirmar que a realidade supera a ficção mas fiquei perplexo.
A febre da medida está a chegar à educação pré-escolar de uma forma preocupante e era coerente com a examocracia instalada.
Como é claro para toda gente no mundo da educação, a avaliação e a medida em contextos de aprendizagem são ferramentas fundamentais como reguladores da qualidade dos processos educativos.
Como também é claro que as crianças são diferentes, os contextos educativos e institucionais são diferentes como instituições educativas, educadores e professores devem ter autonomia que lhes permitam responder e acomodar as diferenças referidas relativas a alunos, instituições e contextos.
Acresce que os diferentes patamares do sistema educativo têm particularidades que devem ser acauteladas. Neste sentido, a educação pré-escolar tem uma função e um conjunto de objectivos que sustentam a desadequação de definir a medida e a classificação como reguladores da qualidade do trabalho de adultos e crianças.
Andam bem as Orientações Curriculares para a Educação Pré-escolar em promover com clareza dispositivos de avaliação não centrados na medida e na classificação mas na regulação dos processos e no desenvolvimento educativo das crianças.

DA UTOPIA

O tempo está quente por aqui no Alentejo. Nada de estranho, estamos no Verão. Sem disponibilidade para sair da sombra estou a pensar no que foi a minha semana.
Começou com alguns dias compridos, muito compridos, e cumpridos, muito cumpridos, nos Açores. Uma comunidade em luta para combater o destino a que parecem estar destinados muitas crianças e jovens, o insucesso e o abandono escolar. Gente competente e muito empenhada em dar a mão aos miúdos para que atravessem a ponte, estreita e difícil, que separa a margem em que vivem, a pobreza e a exclusão, da margem que lhes possibilita um projecto de vida. Vamos ser capazes, temos de ser capazes.
Depois e por coincidência participei num Encontro sobre Educação que tinha com temática “Os Muros da Escola”.
A idade dá-nos atrevimento e assinalando-se os 500 anos da Utopia de Thomas Moore fui partilhar a minha Utopia, que um dia alunos e professores fugissem para a escola, não porque se sintam mal nos seus ninhos mas porque também se sentem bem na escola e para lá querem fugir.
É verdade que se tropeça em muitos muros, uns mais altos que outros, uns mais visíveis que outros, uns mais impostos, outros mais construídos, mas muros. Foi destes muros e das dificuldades em minimizar o seu efeito que estivemos à conversa, estimulante achei eu.
De comum nesta semana intensa a ideia de muita gente de que sim, é possível, tem de ser possível. É possível que todos, independentemente das suas diferenças, caibam na escola e para já fujam.
Sim é difícil, claro, sempre teremos algum tipo de insucesso, certamente, mas como diria Sebastião da Gama, “pelo sonho é que vamos”.
Às vezes, quando falo nestas coisas, eventualmente estranhas, penso se serão palavras ridículas.
Para me sossegar penso no Pessoa e no seu enunciado sobre as cartas de amor, só as pessoas ridículas é que não têm utopias.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

COMO É QUE SE FAZ PARA SONHAR?

Professor Velho, há muita gente que fala dos sonhos que tem. Eu nunca sonho. Às vezes quando vou dormir penso, vou sonhar. Depois adormeço e quando acordo ponho-me a ver se sonhei e não me lembro de nada. Gostava de sonhar também. Como é que se faz para sonhar?
Manel, eu acho que sonhar não é difícil. E podemos sonhar sem estar a dormir. Quando estamos a dormir, estamos tão distraídos que nem reparamos nos sonhos. Queres sonhar um bocado?
Claro, Velho, mas acho que não sou capaz.
És Manel. Pensa num bocadinho do mundo que tu já conheceste e de que gostaste muito.
O monte que o meu avô Xico tinha no Alentejo
Então vamos ao monte do avô Xico. Que pessoas é que tu gostavas de encontrar lá?
O meu pai António, que já morreu, e a minha amiga Joana.
Já estou a vê-los lá no monte, tu, o teu pai António e a tua amiga Joana. E que estão a fazer?
O meu pai está a contar à gente umas histórias muito engraçadas que ele inventava. E a gente está a rir-se muito, porque ele está contar aquela história do mecânico trapalhão que avariava ainda mais os carros em vez de os arranjar.
Manel, reparaste que, sem sair daqui, fomos ao monte do teu avô Xico, encontrámos a Joana e o teu pai António que contou a história do mecânico trapalhão que nos divertiu. Sonho bonito não achas?
Tens razão Velho. Agora que já percebi como é que se sonha, não vou parar. Depois conto-te.

Sonhar, mesmo acordado, pode ajudar a combater a solidão em que muitos miúdos e adolescentes vivem apesar de poucas vezes estarem sós. Estão acompanhados de outros sós como eles.

DO ENGRAÇADISMO IDIOTA E INIMPUTÁVEL

O inimputável e idiota engraçadismo do Sr. Coelho. Nada de novo, teve e tem bons mestres.

Coelho leva bandeira do Estado Islâmico para a Assembleia, com Marcelo a ver


OS NÓS E OS LAÇOS NA VIDA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Do relatório Caracterização Anualda Situação de Acolhimento de Crianças e Jovens – CASA, da responsabilidade do Ministério da Solidariedade e da Segurança Social relevam alguns indicadores que se referem sinteticamente.
Apesar de alguma melhoria o número de crianças e jovens institucionalizados é ainda elevado, 8600 em Outubro de 2015.
É particularmente significativo e preocupante o aumento do número de situações que envolvem problemas de comportamento, de saúde mental, de debilidade mental, de consumo de substâncias ou de alguma forma de deficiência física ou mental, cresceu 38%  neste último ano sendo que em 2014 já se tinha verificado um acréscimo de 10% relativamente a 2013.
Uma nota ainda, uma em cada criança ou jovem que estão institucionalizados já viveram algum tempo numa outra instituição havendo situações com frequência duas, três ou mais.
São dispensáveis comentários sobre os potenciais efeitos destas experiências de ruptura no desenvolvimento de crianças e jovens e que se traduzem, aliás, no número de casos problemáticos no âmbito do comportamento ou da saúde mental.
Boa parte destas crianças e jovens não tem qualquer espécie de segurança na construção de um projecto de vida positivo e viável, a escassez de recursos e apoios face às necessidades é mais um contributo negativo.
Uma pequena referência sobre o universo das crianças institucionalizadas. Há algum tempo um estudo realizado pela Universidade do Minho evidenciava a maior dificuldade que crianças institucionalizadas revelam em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento. Estes riscos poderão estar ligados ao aumento dos problemas de saúde mental e comportamento.
A conclusão não questiona a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da necessidade e urgência de encontrar alternativas à institucionalização, apesar das inúmeras dificuldades que sabemos existirem. Enquanto não, os apoios e os recursos adequados são imprescindíveis.
Neste universo, acresce a dificuldade enorme de algumas crianças em ser adoptadas devido a situações como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada. Assim, muitas crianças estarão mesmo condenadas a não ter uma família.
Há que continuar a tentar desatar os nós da vida dos miúdos e a transformá-los em laços.