sábado, 18 de junho de 2016

PAIS QUE DISPUTAM OS FILHOS

No Público de ontem surgiu um trabalho interessante sobre a intervenção dos psicólogos em processos de separação conjugal que envolvam filhos e nos riscos da sua intervenção ser mal gerida e instrumentalizada por algum dos progenitores. Estes riscos são tanto maiores quanto maior o nível de conflitualidade da separação, caso de situações que podem considerar-se ao abrigo de uma designação não consensual "síndrome de alienação parental". A utilização desta designação é ainda objecto de alguma controvérsia, mas o sofrimento de adultos e crianças envolvidas é evidente.
Sobre este universo algumas notas, sublinhando desde que se trata de facto de uma matéria sensível e requer uma solidez ética e deontológica sob pena de se comprometer a qualidade imprescindível da intervenção.
Dados do Relatório Estatísticas da Justiça de Família e Menores referidos pela Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direito dos Filhos, referem que em 2012 se registaram mais de 17 mil novos processos de regulação parental e 22 mil por incumprimento, um aumento substancial face a anos anteriores. Estas situações que podem implicar várias presenças em Tribunal demoram em média cerca de 30 meses a decidir. Em situações mais difíceis, casos no âmbito da designada "alienação parental" por exemplo, as crianças podem estar todo este tempo sem contacto com pai ou mãe. No entanto, existem ainda situações extremas em que um processo pode durar oito anos.
Importa referir que está estabelecido que a decisão de regulação não deve ultrapassar um mês pelo que o cenário é deveras preocupante. Veja-se por este quadro a complexidade dos problemas colocados na intervenção.
A Associação refere que existem falhas significativas quer por parte do sistema de justiça, quer por parte do Instituto de Segurança Social legalmente envolvido nos casos de regulação parental.
Em Janeiro de 2013 noticiava-se que o Instituto tinha 154 técnicos para este volume de cerca de 39 000 casos sendo que esses técnicos acumulam ainda outras funções, por exemplo, nas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens.
Temos assim definida uma situação absolutamente deplorável com previsíveis consequências negativas sérias para as crianças, mas também, naturalmente para os adultos que, apesar da separação, não perdem a condição de pais e desejam vê-la regulada. Este facto assume especial relevância em casos de maior litígio ou até na já referida e controversa situação de "alienação parental".
O princípio fundador do nosso quadro normativo, o Superior Interesse da Criança, tantas vezes lembrado e tantas vezes esquecido, exigiria, obviamente, que esta situação fosse minimizada com urgência. É também neste princípio que, do meu ponto de vista deve ser sediada a intervenção dos profissionais de psicologia. Dito de outra maneira e de forma simplista, o cliente não será quem paga mas a ou as crianças envolvidas e o seu bem-estar.
É ainda de considerar que em muitos casos de separação podem emergir nos adultos, ou num deles, situações de sofrimento, dor e/ou raiva, que “exigem” reparação e ajuda. Muitos pais lidam sós com estes sentimentos pelo que os filhos surgem frequentemente como o “tudo o que ficou” ou o que “não posso, não quero e tenho medo de também perder”.
Poderemos assistir então a comportamentos de diabolização da figura do outro progenitor, manipulação das crianças tentando comprá-las (o seu afecto), ou, mais pesado, a utilização dos filhos como forma de agredir o outro o que torna necessária a intervenção reguladora de estruturas ou serviços que se deseja oportuna no tempo e eficaz na ajuda. É neste quadro e as frequentes tentativas de instrumentalização pelos elementos desavindos que se colocam os desafios à intervenção dos profissionais de psicologia com riscos de tentativas de instrumentalização, não só às suas competências mas aos limites da deontologia e da ética.
Este tipo de situações quando mal acompanhadas ou resolvidas podem em alguns casos atingir limites sem retorno como temos vindo a assistir com alguma regularidade. 
É obviamente imprescindível proteger o bem-estar das crianças mas não devemos esquecer que, em muitos casos, existem também adultos em enorme sofrimento e que a sua eventual condenação, sem mais, não será seguramente a melhor forma de os ajudar. Ajudando-os, os miúdos serão ajudados. Protegendo os miúdos os adultos também serão ajudados.
Quero ainda sublinhar que, por princípio, prefiro uma boa separação a uma má família.

EM DEFESA DA EDUCAÇÃO E DA ESCOLA PÚBLICA

Artigo 75.º da Constituição da República Portuguesa

Ensino público, particular e cooperativo

1. O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população.

2. O Estado reconhece e fiscaliza o ensino particular e cooperativo, nos termos da lei.

É “apenas” isto que está em causa na Marcha de hoje, defender a existência de uma escola pública de qualidade que cubra as necessidades de toda a população.
Só a educação e a rede pública de qualidade podem promover equidade e igualdade de oportunidades.
Só a educação e a rede pública de qualidade podem ser verdadeiramente inclusivas e receber TODOS os alunos.
Só a educação e rede pública pode chegar a todos os territórios educativos e a todas as comunidades.
Só a educação e rede pública de qualidade promovem mobilidade social em circunstâncias de equidade no acesso.
Para que possam cumprir a Constituição a educação e a rede pública precisam de recursos materiais e recursos humanos valorizados e competentes.
Os custos da educação e rede pública de qualidade não são despesa, são investimento.
A política educativa em cada momento histórico tem a suprema responsabilidade de garantir que assim seja.
É isso que hoje se exige. Em defesa da Educação e da Escola Pública. Em nome dos nossos filhos, dos filhos dos nossos filhos ...

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O PROGRAMA DE TUTORIA

Foi publicado o Despacho Normativo n.º 4-A/2016 relativo à organização do ano lectivo 2016/2017 nos estabelecimentos públicos de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário.
Tal como tinha sido anunciado são definidas as condições para o desenvolvimento de um programa de natureza tutorial destinado a alunos do 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico que acumulem duas ou mais retenções durante o seu trajecto escolar.
Confirma-se também que a cada professor com a função de tutor serão atribuídos 10 alunos e terá quatro horas semanais para esse trabalho.
Como disse na altura em que foi anunciado, o programa tutorial parece-me um dispositivo muito interessante e que vem dar sustentação a várias experiências desta natureza que muitas escolas e agrupamentos desenvolvem com resultados positivos mas com dificuldades em matéria de recurso ou com a utilização de meios exteriores á escola como é o caso da intervenção da Associação EPIS.
Terá a vantagem de ser desenvolvida pela equipa da escola e não por recursos exteriores ao sistema educativo e, como tal, inexistentes em todas as escolas.
No entanto, como também disse e sem ser pessimista, creio que as quatro horas semanais com 10 alunos para um programa de tutoria com o perfil de intervenção definido e que julgo adequado, parecem insuficientes no sentido de possibilitar resultados significativos.
Vejamos as funções.
Quem conhece a realidade das escolas e as problemáticas complexas dos alunos em insucesso, com desmotivação, desregulação de comportamento, ausência de projecto de vida, falta de enquadramento e suporte familiar, lacunas graves nos conhecimentos escolares de anos anteriores, etc., quase sempre presentes e só para referir dimensões relativas aos alunos, percebe a dificuldade de reverter, para usar um termo em voga, o seu trajecto escolar.
À luz do que me parece ser um trajecto de defesa da efectiva autonomia das escolas, preferia que, dando o ME orientação e a possibilidade de gerir e alocar recursos a estes programas, que fossem as escolas a organizar os seus programas de tutoria, definindo destinatários, professores e técnicos envolvidos, tempos de realização e objectivos a atingir.
Caberia, evidentemente, às escolas e ao ME a regulação e acompanhamento dos programas e a sua avaliação.
No entanto, vamos a ver como irá desenvolver-se o programa de tutoria que de facto me parece uma boa iniciativa.

ALGUNS DOS PROBLEMAS DOS PROFESSORES SÃO TAMBÉM PROBLEMAS NOSSOS

O texto de Paulo Guinote no Público, “Os Indesejados”, levanta algumas questões importantes. Uma pequena nota.
Como várias vezes tenho referido, para além dos problemas de natureza profissional que sempre estão em discussão, entendo que alguns dos problemas dos professores são também problemas nossos. Sempre assim acontece quando está em causa a qualidade da educação e da escola, pública ou privada, e o trabalho de alunos, professores e pais.
O futuro passa necessariamente pela educação e pela escola donde …
É também verdade que a deriva política a que o universo da educação tem estado exposto nas últimas décadas, criando instabilidade e ruído permanente sem que se perceba um rumo, um desígnio que potencie o trabalho de alunos, pais e professores tem tido especial efeito no clima e no trabalho desenvolvido nas escolas e agrupamentos.
É pois exigível que ao defender a qualidade da educação e da escola, pública e também privada, que se valorizem, defendam e criem as condições para que o trabalho de professores, alunos e pais tenha o melhor resultado possível.

A DIÁRIA PROVA DE OBSTÁCULOS DAS PESSOAS DEFICIÊNCIA

Na passada 4ª feira a Confederação Nacional de Organismos de Deficientes e a Associação Portuguesa de Deficientes realizaram uma iniciativa prática a partir do Largo do Rato no âmbito do lançamento da campanha “Ir, Vir e Viver – Acessibilidade para todos”. 
A iniciativa não mereceu grande divulgação, os problemas das minorias são, evidentemente, problemas minoritários.
A campanha visa sensibilizar e reclamar condições de acessibilidade para as pessoas com mobilidade reduzida e a experiência serviu para mostrar a montanha de dificuldades existentes apesar de sucessivos compromissos e legislação visando a eliminação de barreiras. Embora a iniciativa tenha basicamente a ver com a mobilidade reduzida julgo que no mesmo plano, barreiras e mobiliário urbano se colocar os problemas das pessoas com deficiência visual que também nesta matéria enfrentam inúmeras dificuldades.
Embora não seja um problema exclusivo de Lisboa, a cidade não é em muitos aspectos uma cidade amigável para cidadãos com necessidades especiais como muitas vezes aqui tenho referido.
Um exemplo conhecido é um espaço emblemático como a Avenida Ribeira das Naus que foi recentemente recuperada após longas obras e mais parece uma pedreira das naus com inúmeros obstáculos, designadamente, para o uso de cadeira de rodas.
Mas há mais.
Quantas passadeiras para peões têm os lancis dos passeios rampeados ou rebaixados ajustados à circulação de pessoas com mobilidade reduzida que recorrem a cadeira de rodas?
Quantas caixas Multibanco são acessíveis a pessoas na mesma situação?
Quantos passeios estão ocupados pelos nossos carrinhos, com mobiliário urbano erradamente colocado, degradados, criando dificuldades enormes a toda a gente e em particular a pessoas com mobilidade reduzida e inúmeros obstaculos?
Quantos programas televisivos disponibilizam Língua Gestual Portuguesa tornando-os acessíveis à população surda?
Quantas crianças e adolescentes com necessidades especiais não acedem aos apoios especializados de que necessitam?
Quantas famílias de crianças com necessidades especiais não acedem a apoios sociais que lhes permitam responder às necessidades dos filhos?
Quantas crianças ou jovens com necessidades especiais vêem negado o direito à educação de qualidade por legislação inadequada, falta de regulação das práticas, falta de recursos técnicos, humanos, incluindo pessoal auxiliar, etc.?
Quantos jovens e jovens adultos com necessidades especiais estão a ser excluídos da participação na vida das comunidades a que pertencem com o suporte de uma legislação e modelos de serviços que os destrata?
Quantos ...
Na verdade, apesar do muito que já caminhámos, as crianças, jovens e adultos com necessidades especiais, bem como as suas famílias e técnicos sabem, sentem, que a sua vida é uma árdua e espinhos prova de obstáculos muitos deles inultrapassáveis.
Lamentavelmente, boa parte dessas dificuldades decorre do que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo, entendem ser os direitos, o bem comum e bem-estar das pessoas, de todas as pessoas.

JOGO DE CABEÇA

Pode parecer uma notícia própria da silly season mas não. Acho algo de verdadeiramente inspirador.
Num primeiro momento confesso que fiquei com a auto-estima num estado miserável mas depois vislumbrei uma outra leitura.
A nossa capacidade de usar a cabeça não tem limites. Na verdade somos muito bons no jogo de cabeça.
É pena não potenciarmos todos os nossos recursos apesar da moda do empreendedorismo.
Talvez porque nos dediquemos demais ao jogo de cintura em que também somos verdadeiros artistas.
São escolhas ou é fado?


quinta-feira, 16 de junho de 2016

JE SUIS ... QUE PORRA DE DISCUSSÃO!

Je suis qualquer coisa mais que tu.
Não, eu não je suis isso.
Não, sobre isso eu é que je suis.
O meu je suis é melhor que o teu.
Nada disso, o meu je suis é é um bom je suis
Deixem-se de je suis.
Não, é preciso ser je suis.
Desculpem, até parece mal não ser je suis.
Mas eu sou je suis eles é que não.
Eu cá para mim je suis tudo

Não há saco. Não há bom terrorismo nem mau terrorismo, existe terrorismo de múltiplas formas como é próprio das coisas humanas.

O ACESSO AO ENSINO SUPERIOR.

Umas notas no Público em torno de uma proposta no sentido de que o acesso ao ensino superior não assente quase que exclusivamente nos resultados escolares do ensino secundário, avaliação interna e exames.
O actual processo gera enviesamentos e riscos de desigualdades como a reconhecida "simpatia" de algumas escolas, sobretudo privadas, na gestão da avaliação interna.

A conclusão do ensino secundário e o acesso ao ensino superior

TEMPO DE FÉRIAS ESCOLARES

À medida que se cumpre o calendário de exames, este ano mais leve sem os exames obrigatórios de 4º e 6º ano, vão chegando as férias escolares, começando pelos mais novos.
Depois de um trabalho que alguns acham leve e outros, como eu, acreditam bem pesado, cerca de dez semanas sem aulas aguardam os alunos. A duração das férias escolares de Verão entre nós está dentro do que em termos médios se verifica nos países europeus, embora para muitos alunos o tempo de estadia na escola seja uma enormidade, pois entre actividades curriculares, actividades de extensão curricular e a utilização de um dispositivo chamado de Componente de Apoio à Família, existem crianças e adolescentes que passam mais de 50 horas por semana na escola. É obra, pelo que são totalmente merecedores de férias.
Para além da maior ou menor satisfação com os resultados escolares, as férias trazem um problema sério a milhares de famílias: o que fazer com os mais novos enquanto não chegam as suas férias ou as aulas?
De há uns anos para cá tem emergido o que se pode chamar de nicho de mercado, sempre o espírito empreendedor e atento do mercado, que vem ao encontro desta necessidade. A esta oferta emergente deve juntar-se a que existe ligada, por exemplo, a instituições de solidariedade social, a autarquias ou a associações de pais que assumem um papel relevante num contexto de devastadoras dificuldades para as famílias. Esta oferta global é importante, ainda que para muitas crianças, em particular nos tempos difíceis que vamos vivendo, permaneça inacessível por razões de natureza económica apesar de alguma oferta mais "acessível".
No entanto, o olhar para o que é fortemente divulgado, uma gama sem fim de possibilidades, não deixa de sugerir alguma reflexão.
Temos as oficinas, os ateliers, os playcenters, os workshops, os espaços lúdicos, etc. destinados à música, do jazz à clássica, à dança ou à literatura, contos e histórias, às actividades expressivas, plásticas ou artísticas, a designação também varia, em toda a sua gama e diversidade. Temos a filosofia para crianças destinada, eventualmente, aos mais reflexivos. Temos as actividades desportivas, várias modalidades, indoor ou de ar livre em diferentes versões e natureza, quintas pedagógicas, contacto com animais e espaços de aventura, campos de férias, praia ou campo, naturalmente, etc.
As referências poderiam continuar dada a criatividade e capacidade de inovação dos proponentes disponibilizando, enfim, uma oferta para todas as bolsas, ou quase.
Sei bem que neste universo existem iniciativas de excelente qualidade, no entanto, creio que devemos adoptar uma atitude de alguma cautela. Instalou-se um pouco a convicção de que é fundamental para o desenvolvimento e bem-estar das crianças a sua participação em inúmeras actividades, todas imprescindíveis à excelência, porque os miúdos devem ser educados para ser excelentes.
Entende-se, muitos pais o afirmam, que a realização de todas, mesmo todas, estas actividades é imprescindível aos miúdos, pois promove níveis fantásticos de desenvolvimento intelectual e da linguagem, desenvolvimento motor, maturidade emocional, criatividade, interacção social, autonomia e certamente de mais alguns aspectos que agora não recordo.
Este entendimento, que por vezes já se verifica em tempo de aulas, cria o que costumo designar por "criança agenda", isto é, a criança que está sempre envolvida em qualquer actividade, a quase todas as horas.
Os pais, alguns pais, seduzidos pela sofisticação desta oferta, pressionados pelos estilos de vida que não conseguem ou podem ajustar e com a culpa que carregam pela falta de tempo para os filhos, aceitam, por vezes para não ser injusto, que os miúdos sejam fechados dentro destes “espaços de liberdade”, comprando, assim, mais um serviço educativo.
Não esqueço, sublinho, que nestas iniciativas algo de interessante e importante pode acontecer para as crianças, também não duvido da seriedade e competência dos responsáveis, mas inquieta-me um pouco a pressão criada sobre os pais que corre o sério risco de transformar as férias dos miúdos em algo de cansativo, cheias de "tempos livres" que de livres muitas vezes têm pouco.
Talvez seja ingenuidade, mas gosto de pensar que para ajudar nas férias dos miúdos de forma menos sofisticada, mais aberta, menos exigente em "quantidade de actividades",  "realização" ou no "desenvolvimento", poderíamos também recorrer a equipamentos que muitas vezes existem nas comunidades e a avós que vivem nos lares, sem netos a quem contar histórias e com quem passear, estimular as relações de vizinhança integrando o acompanhamento das crianças nas "funções do condomínio" e que rotativamente pode ser assegurada, etc.
Era bom que as férias fossem, tanto quanto possível, isso mesmo, férias, tranquilas. Portanto, boas férias. As férias possíveis.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

DUAS FÉRIAS

No último dia de aulas, a Ana foi à biblioteca da escola entregar um livro. Quando estava para sair, o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, disse-lhe adeus e desejou-lhe boas férias. A Ana riu-se.
Vão ser boas, Velho, vou ter duas férias.
Duas férias, Ana? Como é isso?
Primeiro, vou de férias com a minha mãe, com o amigo dela, o João, e com o Manel que é filho do João. Depois, vou de férias com o meu pai, a amiga dele, a Sara, e com o Tito que é o filho da Sara.
Estás contente?
Claro. Eles são todos fixes e a gente farta-se de brincar. Brinco mais do que brincava quando vivia com o pai e a mãe. Eles estavam sempre um bocado chateados e a gente não brincava muito. Já viste Velho, tinha uma família chata e agora tenho duas famílias mesmo fixes.
Sorte a tua, Ana, boas férias.

Para os meninos que têm duas famílias.

DA SÉRIE METE-ME ESPÉCIE. DE RECURSO EM RECURSO ATÉ À PRESCRIÇÃO FINAL

Duarte Lima, apesar de aparentemente não o poder fazer, recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça da sua condenação no processo Homeland.
O processo de Duarte Lima é apenas mais um exemplo elucidativo do funcionamento da nossa Justiça. Desenvolve-se com a interposição de recursos atrás de recursos, num desfile de manobras, manhas e outros expedientes que o nosso sistema de justiça tão minuciosa e eficazmente tem desenhado para que quem dele se sabe aproveitar o possa fazer em seu benefício. Tudo isto se prolongará, tenta-se, até à prescrição final.
"Mete-me espécie" que em boa parte dos recursos apresentados em casos desta natureza, corrupção, negócios ilícitos, branqueamento de capitais, fraude ou evasão fiscal, a rapaziada não recorre por alegar inocência, recorre com base em falhas processuais que alegam impedir a sua condenação. Dito de outra maneira, cometeram crimes, assumem que os cometeram ... mas não podem ser condenados.
Provavelmente, este caso, como tantos outros, virá a morrer por morte morrida, para usar as palavras de João Cabral de Melo Neto, ou seja, cairá por esgotamento. Assim, o Dr. Duarte Lima poderá ter uma reforma tranquila com os trocos miseráveis resultantes de uma vida dedicada à causa pública e aos negócios com os amigos.
No meio do azar, com estes problemas todos, coitado, até teve sorte, felizmente terá amealhado um bom pé-de-meia que nos tempos que correm não é coisa pouca.
A tragédia é que lemos tudo isto sem um sobressalto de indignação, este fim está escrito nas estrelas, é o destino.

DOS NEGÓCIOS DA EDUCAÇÃO. OS MANUAIS ESCOLARES

O responsável pelo Grupo Porto Editora um dos donos do importante nicho de mercado que os manuais escolares representam alerta para os riscos da anunciada intenção de tornar gratuitos os manuais e fomentar a sua reutilização.
O responsável pelo grupo editorial estima que a medida pode “criar mil ou dois mil desempregados”, e ainda “dificultar o acesso das famílias e das pessoas à cultura, em determinados locais”.
Argumenta ainda que a gratuitidade dos manuais pode fomentar desigualdades o que também é um elemento a considerar nesta equação.
Na verdade os negócios da educação têm múltiplas vertentes, sempre a pensar, evidentemente, nos interesses dos alunos e das famílias.
Na verdade e antes de mais importa não esquecer que a Constituição, Art.º 74º (Ensino), determina “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito;
No entanto, como já tenho afirmado e retomo algumas notas, creio que o caminho a percorrer em matéria de manuais escolares deveria incluir estratégias que tentassem contrariar o que costumo designar por uma excessiva manualização do ensino que emerge de práticas pedagógicas pouco diferenciadas muito decorrentes de conteúdos curriculares demasiado extensos, prescritivos e normalizadores. Seria desejável atenuar a fórmula predominante, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.
O número de alunos por turma é também um facto contributivo para este cenário. A anunciada redução do número de alunos por turma ao abrigo de uma verdadeira autonomia das escolas e dos professores, permitiria a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes incrementando, por exemplo, a acessibilidade a conteúdos e informação diversificada que as novas tecnologias oferecem. Sem surpresa este entendimento é um dos eixos da reforma em curso na Finlândia.
A questão é que os manuais escolares constituem um importantíssimo nicho de mercado potenciado pela enorme quantidade de materiais que os acompanham os manuais. Como exemplo é de registar que a gratuitidade dos manuais para o 1º ano envolve um montante de três milhões de euros. É um nicho de mercado com muito e peso os donos deste mercado dele não querem abdicar, recebam das famílias ou recebam do Estado.
Esta será também a razão que impede novos modelos de manuais que permitam a sua reutilização num dispositivo que me parece o mais ajustado e em uso em muitos países.
Os manuais escolares são disponibilizados pelas escolas e devolvidos pelos alunos no final do ano lectivo ou da sua utilização. As famílias são responsabilizadas pelo seu eventual dano ou extravio e ficando, assim, com "folga" para aquisição de outros materiais, livros por exemplo, um bem com pouca presença em muitos agregados familiares.
Vamos ver a continuidade das políticas educativas em matéria de manuais escolares já que o ME também informou no início do ano seria constituído um grupo de trabalho com o objectivo de construir um plano plurianual para operacionalização de um modelo que para além da gratuitidade contemple formas de reutilização de manuais escolares e recursos didácticos.
Deve ser da idade mas tenho sempre o receio de experiência feito que a constituição de um “grupo de trabalho” é a forma mais expedita de … não mexer em qualquer matéria.

terça-feira, 14 de junho de 2016

HÁ EDUCAÇÃO PARA ALÉM DOS EXAMES

Achei interessantes os testemunhos de dois alunos do ensino secundário que se estão a preparar para os exames que amanhã se iniciam. A forma como reflectem na questão sublinha a importância de os ouvir.

Estar preparado para o exame não é o mesmo que saber

Sendo peças importantes e incontornáveis na vida e no trajecto escolar não se podem tornar o tudo da vida de um aluno ou da escola. A educação não podendo prescindir de atentar nos resultados e na sua avaliação não pode também hipervalorizar a medida, os exames.
Os processos e a educação no sentido mais plural, qualificação e desenvolvimento, não cabem no melhor dos exames que, aliás e pela sua própria natureza, está por inventar.

CARTA AOS ALUNOS DO SECUNDÁRIO

Meus caros,

Tinham de chegar, aí estão os exames nacionais. Durante os próximos dias o programa está assegurado, exames e mais exames.
O trabalho realizado durante os últimos anos vai ser testado. Alguns de vós sentir-se-ão relativamente tranquilos enquanto outros, a maioria, começam a sentir a ansiedade a subir. É normal, afinal trata-se de realizar um exame e um bocadinho de ansiedade ajuda-nos a estar mais concentrados.
Para alguns de vocês os resultados serão muito importantes pois permitirão aceder no ensino superior à escola e no curso que vos interessam, mas para todos significa cumprir uma tarefa da vossa vida escolar, o que é sempre significativo. Já agora, ao que parece, muitos de vós não terão a intenção de continuar os estudos no ensino superior. Julgo que deveriam ponderar melhor, a qualificação superior é uma boa ferramenta para que a construção de um projecto de vida mais sustentado. Os tempos não estão fáceis mas estudar compensa, acreditem.
Alguns de vós vão sentir-se pressionados para a obtenção de muito bons resultados, dizem-vos que para se ser gente tem que se ser excelente. Irão perceber que, felizmente, tal não é verdade. Acresce ainda que, muitas vezes, essa pressão não ajuda, antes pelo contrário, atrapalha, mas... com calma.
Muita gente, pais, professores, psicólogos, colegas, vos dá conselhos nesta altura, “estuda mais”, “descansa um pouco”, “devias fazer assim”, “era melhor desta maneira”, “não te esqueças de nada”, “toma atenção”, “começa pelas mais fáceis”, “revê no fim”, etc., etc. É normal, é certo que às vezes ainda nos inquieta mais, mas, como dizia o Paulo Bento, é preciso encarar esta época com “tranquilidade” ou, em modo Futre, estar "concentradíssimo". A presença nas redes sociais vai certamente ajudar a dissipar o stresse, dividido por muitos dá menos para cada um.
Como é de prever, alguns de vós acharão os exames mais fáceis e outros mais difíceis, depende sempre do que cada um sabe e dos conteúdos do exame, aquela história clássica de “ainda bem que saiu isto, sabia bem” ou, pior, “logo havia de sair isto que não estava tão preparado”, nada a fazer, são as circunstâncias e em toda a nossa vida iremos deparar com circunstâncias mais ou menos favoráveis.
Sabemos que a vossa tarefa não é fácil mas estou convencido que para muitos de vós as coisas vão correr bem, o vosso trabalho e dos professores e a ajuda dos pais merecem.
Como já disse, para boa parte de vocês os próximos exames são a última etapa antes do ensino superior mas isso é uma outra narrativa. Um dia destes falaremos disso, cada coisa de sua vez.
Boa sorte e divirtam-se, se possível.

Zé Morgado

PARA OS MAIS POBRES E MENOS ESCOLARIZADOS A DOENÇA CHEGA PRIMEIRO

Segundo o Observatório Português dos Sistemas de Saúde as desigualdades sociais em saúde agravaram-se nos últimos 10 anos. O risco de doença aumenta significativamente com baixa escolaridade, baixos rendimentos ou com a idade. Como afirma José Aranda da Silva, um dos coordenadores do observatório. “Continuam a ser os mais pobres os mais doentes e os mais doentes os mais pobres”.
Nada de novo e na linha da generalidade dos estudos nacionais e internacionais.
No mesmo sentido as desigualdades também se repercutem fortemente na esperança da vida, ou seja, para os mais pobres a morte, tal como a doença, chega primeiro.
Recordo que em 2012, Michael Marmot um conhecido especialista em políticas públicas de saúde, esteve em Portugal e apresentou os resultados dos estudos que tem vindo a desenvolver no domínio da ligação entre desenvolvimento económico e educativo, saúde, crescimento e esperança de vida. Os trabalhos são conhecidos e os resultados referiam-se não só a realidades muito contrastadas, países europeus e africanos, mas também a diferenças significativas existentes, por exemplo em Inglaterra ou na Suécia, nas implicações dos níveis de desenvolvimento, designadamente no que respeita ao nível escolar, nas condições de saúde e esperança de vida dos cidadãos.
Os resultados não são surpreendentes, estão encontrados há muito tempo em diferentes estudos e, como vemos pelos dados agora conhecidos mantêm-se.
Em primeiro lugar há que considerar a importância decisiva que em todas as dimensões da vida das pessoas assumem a qualificação e a informação. Melhores níveis de formação promovem melhor qualidade nos estilos de vida. Não existe qualificação e informação a mais.
Em segundo lugar, quando tanto se fala no estado social, nos limites desse estado, a privatização de serviços, por exemplo na educação e na saúde, é fundamental perceber e entender que a comunidade tem sempre a responsabilidade ética de garantir a acessibilidade de toda a gente aos cuidados básicos de saúde e educação.
Os tempos que temos vivido criando obstáculos ao acesso aos serviços de saúde são ameaçadores.
Como afirma Michael Marmot, todas as políticas podem ser avaliadas pelos seus impactos na saúde. 

À VARA LARGA

Crédito a amigos afunda Caixa
Vara e Santos Ferreira autorizaram os créditos mais complicados.

É à vara larga como o povo costuma dizer. Os amigos são para as ocasiões e a solidariedade é uma coisa muito bonita.
Sobra semre para os mesmos e não acontece nada quanto aos negócios desta a família que se vai abotoando com os milhões que nos tiram
Esta é a pantanosa Pátria nossa amada.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

ESTÃO A CHEGAR OS EXAMES

Estuda miúdo, estuda muito.
Tens que estudar mais. Assim não irás a lado nenhum.
Estuda miúdo, estuda muito.
O mundo não é para gente com notas baixas, o mundo é para os bons.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não te distraias, olha os exames.
Estuda miúdo, estuda muito.
Lê com atenção, tira apontamentos, faz exercícios.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não te atrases para a explicação, põe as dúvidas todas.
Estuda miúdo, estuda muito.
Agora não tens tempo para essas coisas, agora é para estudar, estão aí os exames.
Estuda miúdo, estuda muito.
Já fizeste os exercícios todos? Procura na net, existem muitos, de todas as disciplinas.
Estuda miúdo, estuda muito.
Já sabes como é importante estudar e ser excelente. Só assim terás uma vida boa e serás alguém.
Estuda miúdo, estuda muito.
Estás cansado? Deixa-te de pieguices, é preciso sofrer para termos o que queremos, para sermos o que escolhemos ser.
Estuda miúdo, estuda muito.
Brincar? Não miúdo, brincar é perder tempo. Os melhores não perdem tempo a brincar.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não aguentas? Aguentas sim, tens que aguentar, só os fortes é que chegam lá cima, não podes desistir.
Estuda miúdo, estuda muito.
Não páres, não penses, não vivas …
Estuda miúdo, estuda muito.

PS - Boa sorte miúdo

QUANDO OS SANTOS ERAM (MAIS) POPULARES

Ainda por aqui no Alentejo à conta do S. António de Lisboa soube que a marcha do Bairro onde trabalho, Alfama, ganhou o concurso deste ano. Fico contente pelo pessoal do bairro, cada vez menos e com cada vez mais gente de fora.
Como muitas vezes digo umas das vantagens de ser velho é ter histórias para contar.
Assim, lembro que há muitos anos, no tempo em que eu era miúdo e o subúrbio onde nasci e morava era ainda feito de poucas casas e algumas quintas, a época dos santos era esperada com alguma excitação por nós, os mais pequenos, mas não só.
Na minha zona o santo que nos pertence é o S. João, mas todos nos serviam, o S. António em Lisboa e o S. Pedro no Seixal também eram populares pretextos.
Os adultos organizavam umas festas nas ruas com bailarico e as incontornáveis sardinhas e bifanas com rega, é claro, que os organizadores vendiam para financiar uma excursão ao estrangeiro, a Badajoz quase sempre, que naquele tempo o estrangeiro era perto e o dinheiro sempre curto.
Mas para nós, para além de uns desaparecidos "pirolitos" em garrafas que tinham um berlinde de vidro, os santos eram sobretudo as fogueiras, isso sim, as fogueiras e lançamento de um lindíssimo e artesanal balão de ar quente que umas vezes desaparecia num airoso voo e outras vezes ardia ainda no chão para grande decepção da gente.
Uns dias antes de cada santo, por assim dizer, e por zonas começávamos a juntar lenha. Para tal, fazíamos umas visitas às quintas da terra, ainda havia muitas que agora têm prédios plantados e, sobretudo, organizávamos umas expedições às obras em curso e "recolhíamos" toda a madeira que conseguíssemos e que acumulávamos procurando tê-la sempre debaixo de olho, porque a carne do pessoal das outras zonas era fraca e poderia não resistir à tentação de "levar" a nossa lenha.
Nos dias da celebração a fogueira durava enquanto houvesse lenha e vontade de saltar por cima dela. Tratava-se então de saber quem era mais corajoso e enfrentava as chamas mais altas. À custa destas exibições sempre conseguíamos umas vistosas aterragens falhadas do outro lado ou uma roupa chamuscada. Havia sempre o espectáculo extra de alguns dos adultos já com algum lastro alcoólico, digamos assim, tentarem mostrar dotes de saltadores que muitas vezes também não acabavam bem.
Quase sempre e como número extra, tínhamos direito a uma cena de lambada, sem grandes consequências porque festa é festa, provocada por uma figura mítica da minha terra, o meu saudoso amigo Pedro, mais conhecido pelo Sucata, na altura já nada novo. Era um homem bom, andava por um enorme metro e sessenta, mas era a pessoa mais amiga de arranjar uma confusãozinha de onde saía, invariavelmente, com mais umas lambadas e, é verdade, mais uns amigos que lhe pagavam um copito matéria que nunca negava. Tenho saudades do velho Sucata.
Os santos na minha terra já não são tão populares, limitam-se a oferecer feriados, à vez.

PRECÁRIA DE VIDA

Que será necessário para que se entenda que políticas de empobrecimento e proletarização da economia e do trabalho, com baixos salários e precariedade, não produzem desenvolvimento?
Na verdade, boa parte dos vencimentos em empregos mais recentes, mesmo com gente qualificada, não são um vencimento, são um subsídio de sobrevivência, uma indignidade. Veja-se o caso hoje relatado no JN de docentes universitários com 650 € de vencimento mensal.
Um caminho de diminuição dos custos do trabalho através do aumento da carga horária, da precariedade e do abaixamento de salários não será a forma mais eficaz de combater o desemprego, promover desenvolvimento e criação de riqueza.
Parece razoavelmente claro que a proletarização da economia e o empobrecimento das famílias não poderão ser a base para o desenvolvimento e promoção de coesão social. Neste cenário, os desequilíbrios fortíssimos entre oferta e procura em diferentes sectores, a natureza da legislação laboral favorável à precariedade e insensibilidade social e ética de quem decide ou emprega, promovem a proletarização do mercado de trabalho mesmo em áreas especializadas e com gente altamente qualificada ou mesmo o recurso a uma forma de exploração selvagem com uma maquilhagem de "estágio" sem qualquer remuneração a não ser a esperança de vir a merecer um emprego pelo qual se luta abdicando até da dignidade.
É justamente a luta pela sobrevivência que deixa muita gente, sobretudo jovens sem subsídio de desemprego e à entrada no mundo do trabalho, sem margem negocial, altamente fragilizadas e vulneráveis, que entre o nada e a migalha "escolhem” a "migalha", ou mesmo uma remota hipótese de um emprego no fim de período de um indigno trabalho gratuito. Como é evidente esta dramática situação vai de mansinho alargando e numa espécie de tsunami vai esmagando novos grupos sociais e famílias.
É um desastre. Grave e dramático é que as pessoas são "obrigadas" a aceitar. Os mercados sabem disso, as pessoas são activos descartáveis.

domingo, 12 de junho de 2016

PROMOÇÃO DO SUCESSO ESCOLAR

No dia 9 foi também conhecido o Parecer do CNE “Organização da escola e promoção do sucesso escolar”. Um trabalho que numa primeira leitura me pareceu sólido e que de facto pode ser um contributo para a definição de políticas educativas mais adequadas.
Dada a sua extensão e densidade e a natureza deste espaço, para além de recomendar a sua leitura, sublinham-se três ideias-chave:
Autonomia das escolas e dos professores;
Diferenciação de Percursos Escolares, da Organização da escola e do seu funcionamento e das Metodologias;
Recursos e dispositivos de apoio ao trabalho de alunos e professores.
Uma peça importante de um caderno de encargos em matéria de política educativa.
Voltaremos a este Parecer com abordagens mais específicas.

DA AVALIAÇÃO DAS ESCOLAS

O Público de hoje tem um extenso trabalho sobre a avaliação das escolas. O ponto de partida é o facto de que com a substituição de alguns exames finais por provas de aferição haverá menos indicadores disponíveis criando dificuldades à comparação entre escolas e, portanto, à sua avaliação.
Este ponto de partida radica justamente numa questão que aqui tenho referido, a sobrevalorização dos resultados escolares, exames nacionais, na avaliação externa das escolas. Recorde-se que o modelo de avaliação em vigor assenta em três domínios, resultados escolares, prestação de serviço e educativo e liderança e gestão. É no entanto reconhecido a importância fortíssima dos resultados escolares dos alunos que também alimenta a construção dos rankings. Apesar da evolução verificada na sua construção continuam a ser, só por existirem A avaliação das escolas.
Como tantas vezes tenho dito, a avaliação, sendo imprescindível na promoção da qualidade é tanto mais eficaz nessa função quanto mais competente e simples possa ser.
A questão é que, como dizia o Mestre João dos Santos, o mais difícil em educação é trabalhar de uma forma simples.
Uma das questões levantadas no trabalho do Publico é a não existência de avaliação do trabalho em sala de aula o que, aliás, apenas se verifica em Portugal para além da Estónia e Turquia. No entanto, esta matéria é mais uma das muitas em que a polémica é forte. Recordemos as discussões sobre a observação de aulas no contexto da avaliação de professores e os discursos, práticas e equívocos instalados.
Uma outra questão importante remete para os efeitos da avaliação. Alterado o desajustado modelo anterior assente, sobretudo, na atribuição de mais créditos horários às escolas com melhores resultados importa que de facto a avaliação das escolas tenha efeitos ao nível de dispositivos de apoio a dificuldades encontradas e de incentivos a boas práticas e projectos.
Aceitando a importância que continuará a ter a avaliação interna importa considerar que a forma como é realizada, altamente burocratizada, solicitando uma carga enorme de informação, extensa, redundante e parte dela inútil, da forma que é requerida. A produção desta informação consome centenas de horas de trabalho a muitos docentes, roubadas à essência do seu trabalho.
O nível de informação solicitada e as regras impostas de funcionamento e organização mostra, de facto, um sistema altamente centralizado, burocratizado e com a tentação de manter um controlo absoluto sobre a organização e funcionamento das escolas.
É também por isto que reafirmo a necessidade de aprofundar, de facto, a autonomia das escolas.
Como afirma Joaquim de Azevedo, não é impossível construir um algoritmo mais “complexo e rigoroso” que sustentasse uma avaliação das escolas que envolva resultados e processos.
Não, não é impossível, basta querer.

sábado, 11 de junho de 2016

A LAVOURA PERDEU UMA VOZ

Ver reportagens televisivas sobre feiras dedicadas à agricultura, caso da de Santarém que está a decorrer e não ver o Dr. Paulo Portas de boné aos quadrados a comentar a lavoura com aquele peculiar frémito no olhar deixa uma sensação de vazio e o mundo da agricultura mais pobre.
Ganha a construção civil, em particular a Mota-Engil, com a aquisição de um enorme facilitador. 
O "Dr." Relvas que se cuide. 

EDUCAR E CUIDAR

No Público aborda-se a questão levantada pela decisão do Tribunal de Cascais de entregar a guarda de duas crianças de 4 e 6 anos ao pai que foi condenado por violência doméstica grave e repetida exercida sobre a mãe das meninas. Acresce que estes episódios se passavam algumas vezes com as crianças a assistir.
A decisão do tribunal suscita apreciações diferentes.
Algumas pessoas ouvidas na peça colocam em causa a bondade da decisão do Tribunal pois as directivas europeias vão no sentido de que os tribunais levem em conta a violência doméstica na decisão sobre processos de custódia e visitas aos filhos. Existem também estudos que associam o testemunho de violência entre os pais ao maior risco de desenvolvimento posterior de comportamentos de agressão ou de sujeição à vitimização.
Por outro lado, um especialista não identificado entende que “Uma condenação por violência doméstica contra uma companheira não inibe automaticamente o exercício das responsabilidades parentais”. Acrescenta que “Há que perceber se as relações afectivas das crianças com o progenitor são superiores ao sofrimento causado por terem assistido a violência doméstica.
Um comentário de forma breve.
De uma forma simples podemos dizer que a acção educativa familiar pode definir-se em torno de duas dimensões essenciais, educar e cuidar. Curiosamente em língua inglesa encontra-se por vezes referências a "educare" ligando justamente, o educar com o cuidar
Um pai que assume regularmente violência grave para com a mãe dos seus filhos, condenado judicialmente e separado entretanto, pode, vamos admitir embora tenha a maior das reservas, ser um cuidador eficiente e satisfazer algumas das necessidades básicas das crianças.
No entanto, no que respeita ao envolvimento afectivo e aos cuidados afectivos prestados por um pai que tem como ferramenta relacional a violência as minhas dúvidas são enormes apesar da opinião do especialista citado que admite que um individuo que agride repetidamente e de forma grave a mãe dos filhos à frente destes pode, ao mesmo tempo, estabelecer vínculos afectivos robustos e positivos com essas crianças. Será?
Por outro lado, considerando a segunda dimensão, educar, as reservas são ainda maiores. Educar é o contributo para a construção pessoal, a comunicação e a relação com os outros de forma positiva e adequada, é a construção de valores, regras e limites, é o aprender a ser. Educa-se com o que se sabe mas, sobretudo, educa-se com o que se é, o comportamento gera comportamento
Tenho a maior convicção em que as pessoas são capazes de mudar o seu comportamento e reabilitar-se. Muitas vezes precisam de tempo e apoio.
O que não consigo entender é como sem que esse processo de reabilitação seja minimamente garantido se decide entregar a responsabilidade duas crianças a um agressor comprovado e reincidente.
Costuma dizer-se que in dúbio pro reo mas importa não esquecer um princípio fundamental, o superior interesse da criança, ou seja, in dubio pro puer (se o tradutor ajudou).

DA LIDA NO ALENTEJO

Da lida no Alentejo que começou bem cedo.
Umas horas compridas em cima do tractor a colher batata. Com a ajuda do Mestre Marrafa e da minha companheira de estrada a deste ano já está.
Não ficou muito grada e não é muita mas a agricultura é assim, umas vezes melhor, outras vezes pior. 
Algumas que ficaram cortas já farão cairão no preto agora ao almoço passadas por azeite, alhos  e orégãos depois de cozidas. 
Já merecemos.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

AINDA OS CONTRATOS DE ASSOCIAÇÃO. O SENHOR ARCEBISPO ESTÁ ENGANADO

O arcebispo de Braga, Jorge Ortiga, equiparou nesta quinta-feira a posição do Governo sobre os contratos de associação com colégios ao “totalitarismo de Estado”, frisando que se trata de uma "campanha" e de "uma questão ideológica".
O Senhor Arcebispo está enganado, por assim dizer e para ser simpático.
A liberdade de escolha, seja lá isso o que for, será uma questão ideológica, os contratos de associação têm nada a ver com liberdade de escolha.
O estabelecimento de contratos de associação quando não existe resposta pública ou é insuficiente constitui uma forma legalmente definida e mantida quando necessário de cumprir o direito à educação consagrado constitucionalmente.
Financiar estabelecimentos de ensino privado quando existe na mesma zona resposta pública suficiente é alimentar negócios privados com dinheiros públicos.
Os negócios privados sujeitam-se às regras da oferta e da procura não ao dinheiro público dos contribuintes.
O Senhor Arcebispo sabe evidentemente que assim é, os contratos de associação aplicam-se em 3% do universo dos colégios privados. Campanha?! Questão ideológica?! Totalitarismo?! É muito feio mentir e nem lhe fica muito bem falar de totalitarismo. 
Insisto numa dúvida. Nunca dei conta da preocupação do Senhor Arcebispo nem da Conferência Episcopal Portuguesa com os muitos milhares de crianças que foram deslocalizados devido ao encerramento das suas escolas e a concentração de alunos em Centros Educativos e mega-agrupamentos e, tão pouco, com o destino de milhares de professores que em consequência de políticas educativas que mais pareciam políticas contabilísticas foram empurrados para fora do sistema.
Estava distraído Senhor Arcebispo? Também não acompanha a imprensa?
No entanto, como Senhor também afirma, não se inquiete em excesso, em devido tempo chegarão algumas notícias, a mão que tira também é a mesma mão que dá. 
Vamos ver.

DA CONDIÇÃO DOCENTE

A Recomendação do Conselho Nacional de Educação, “A condição docente e as políticas educativas” ontem conhecida levanta um conjunto de questões muito importantes mas que não cabem numa análise genérica num espaço desta natureza. A esta Recomendação iremos voltando em termos mais específicos.
No entanto, o seu conteúdo recordou-me um texto que já aqui deixei justamente sobre o ser professor actualmente em Portugal. Aqui fica.
Sem novidade, tenho para mim que miúdos e professores são os dois grupos em que assenta qualquer comunidade nas sociedades contemporâneas. Os miúdos porque são o futuro e os professores porque, naturalmente, o preparam, tudo passa pela escola e pela educação.
Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública sob ameaça significativa. Desencadearam-se múltiplas acções políticas que contribuíram para degradar a sua função, a sua imagem social e o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas.
Opções políticas assumidas e em curso têm contribuído para uma atenção continuadamente dirigida para a educação e para os professores. Essa atenção advém de boas e más razões. Não cabe aqui um balanço alargado o, e entendo que, tal como os miúdos, os professores não têm sempre razão. No entanto, gostava de deixar algumas notas.
Em primeiro lugar importa desde logo sublinhar que ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica o maior reconhecimento. Pensemos no que é ser professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Pensemos ainda na forma como milhares de professores cumprem a sua carreira, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. Nos últimos anos milhares de professores, de bons professores e professores necessários, foram constrangidos à reforma e muitos ao desemprego por uma política de contabilidade inimiga da educação pública e da qualidade. Veja-se os sucessivos processos de colocação de professores e as situações dramáticas que a incompetência e a arrogância de diferentes equipas na 5 de Outubro produziram.
Pensemos em como os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma ignorante barbaridade qualquer, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.
Pensemos como é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Pensemos em como a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.
Pensemos finalmente nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.
Gostava ainda de deixar uma ideia do enorme João dos Santos, “O Professor João, foi meu professor porque foi meu amigo” e uma convicção pessoal que a idade cada vez mais cimenta, qualquer professor ou educador, tanto ou mais do que aquilo que sabe, ensina aquilo que é.
A prova é que de todos os professores que connosco se cruzaram os que mais nos marcaram positivamente foi sobretudo pelo que eram e menos pelo que nos ensinaram.

MEU CARO PORTUGAL

Neste 10 de Junho, dia em que te comemoras, aqui estou a escrever-te, de novo. Ainda sou do tempo em que se escreviam cartas aos amigos.
Se bem te recordas, a carta que te enviei o ano passado não era particularmente optimista. Tinha razão, lamentavelmente. O ano, tal como os últimos, foi complicado para muita gente, para demasiada gente.
Como sabes, conhecemo-nos há umas décadas. Quando te conheci eras um tipo tristonho, cinzento, com a gente calada e com medo de quem em ti mandava. A partir de certa altura, entraste em guerra e a nossa relação complicou-se, assim como a situação de toda a gente. Nesses tempos, o resto do mundo vivia longe e todos nós, que te habitávamos, nos sentíamos distantes de tudo e tudo era difícil de conseguir.
Um dia, tu mudaste. De repente, ficaste a cores, o longe ficou perto, a tristeza ficou alegre, o impossível parecia possível. Foram os tempos da brasa, dizíamos. Tudo era depressa, tudo era ontem, até a guerra. Foi um tempo para descobrir, transgredir, aprender e progredir. Para a democracia, finalmente. Lembras-te? Fizemos as pazes.
Meu caro Portugal, a poeira entretanto começou a assentar e entrámos na chamada normalidade democrática, campanhas, eleições, mudanças de governo, desenvolvimento, etc. Apesar de alguns solavancos fomos mantendo uma relação tranquila. Então, juntaste-te a outros mais desenvolvidos, a União Europeia, e perdeste um bocado a voz que gostávamos de ouvir, por nós. Para um tipo pequeno como tu, pode ter sido boa ideia, embora, é preciso dizê-lo, a entrada na "CEE" também tenha estado associada a uma devastadora e irresponsável destruição nas áreas das pescas, agricultura e indústria de que ninguém assume a responsabilidade.
E aqui estamos meu caro, mais velhos, sabes que entretanto passei à condição mágica de avô, e vamos mantendo uma relação como a que os velhos amigos têm. Zangamo-nos, fazemos as pazes, zangamo-nos de novo e, de novo nos entendemos. Quando me afasto de ti sinto saudades, quando estou contigo aborreces-me e vamos andando nisto.
Ultimamente, tenho-te sentido diferente. Pareces-me mais desalentado, triste e com muita desesperança nos rostos. É certo que a situação à tua volta também não ajuda e contigo as coisas não vão bem, mas é importante que te sintas com futuro. Isso para nós é fundamental, para nos sentirmos bem contigo. Embora nos tenham dito para partir, é contigo que gostamos de estar. Por ti, pelos nossos filhos e pelos filhos dos nossos filhos.
Se bem te lembras na carta que te enviei o ano passado já te dizia que não te sentia bem, achava-te em baixo, como diz o teu povo.
Nestes últimos anos continuou instalada por todo o mundo uma complicada situação a que tu também não tens conseguido fugir e que piorou. Muita gente sem trabalho, vamos envelhecendo sem esperança em dias melhores. Os tempos vão crispados, feios, marcados pela indignidade da pobreza. Dizem que existem uns sinais positivos mas as pessoas ainda não sentem.
Entretanto verificaram-se eleições e temos um cenário político diferente, para uns, é o meu caso, que traz alguma esperança em mudanças que em alguns aspectos já se verificam e noutros tardam. Para outra gente este novo cenário político não agrada e antecipam a desgraça. Oxalá se enganem.
O problema, meu caro Portugal, é que boa parte das lideranças que acolhes, em diferentes áreas também não têm sido capazes de promover a esperança, parecem mais parte do problema que parte da solução. Aliás, poder-se-á dizer que muita desta gente que nos tem governado não tem currículo, tem cadastro.
Entretêm-se nos jogos da política pequenina, provavelmente por falta de competência para a política grande.
Como se não bastasse a crise instalada ainda foi aparecendo uma rapaziada, todos bons amigos, a gerir estruturas e empresas públicas que acumulam tantos prejuízos como essa rapaziada acumula prémios que, em decisões difíceis de entender, terão de ser pagos com o dinheiro e sacrifícios do cidadão, prejuízos e prémios. Na banca, como sabes, continuaram a acumular-se situações de delinquência e incompetência dos que a administram com as consequências habituais, pagamos nós.
Os casos de corrupção e manhosices dos pequenos e grandes poderes não têm fim e ninguém parece substantivamente empenhado em contribuir para que terminem.
Ao que nos foram vendendo, para colocarem as tuas contas em ordem, colocaram a nossa vida em desordem, chamaram-lhe austeridade e tinha que ser assim, custe o que custar, dizem. Disseram e insistiram que vivíamos acima das nossas possibilidades mas de há algum tempo para cá muitos portugueses vivem abaixo das suas necessidades.
A gente que agora chegou ao poder está a tentar fazer diferente, esperemos que consigam, por nós e por ti.
Como sabes também temos um Presidente da República novo, o conhecido Professor Marcelo. O homem não pára e não se cala. Vamos ver o que vai dar mas Cavaco não me deixou saudades.
Pois é meu caro e velho Portugal, estás a atravessar um período nada fácil. Alguns com responsabilidade mas sem visão foram sugerindo que talvez fosse melhor ir embora de ti. Na verdade, é o que tem estado a acontecer a muita gente nova, procurar a sorte noutras paragens, noutras aragens, como cantava o Manuel Freire. O futuro aqui parece inacessível mas, como já te disse, é aqui que gostamos de ser gente.
Que está a acontecer meu velho? Podemos ter esperança?
Não pode ser, temos que dar a volta a isto. Apesar de pequeno tens que protestar, não podemos ser apenas uma feitoria de quem não considera as pessoas mas os mercados. Não podemos aceitar não ter futuro meu caro, temos que nos organizar para um projecto de futuro. Para que te cumpras meu caro Portugal.
Espero que para o próximo ano te possa encontrar em melhor estado. Até lá recebe um abraço de confiança.

10 de Junho de 2016

quinta-feira, 9 de junho de 2016

OS VAMPIROS


Não é possível ver este título de primeira página do CM sem um sobressalto. O bebé sobreviveu a uma tragédia sem nome perdendo uma mãe que não conheceu e que criou com a ajuda de um milagre da medicina.
Este bebé, um sobrevivente, que esperemos se recomponha acaba de perder também o pai que, diz o CM, o rejeitou.
Não sei, não quero saber as circunstâncias deste cenário. Sei, tenho a certeza, que este tipo de dramas pessoais não pode ser assim tratado. Não pode estar à mercê do despudor, da falta de sensibilidade ética e moral de vampiros que têm apenas como objectivo vender o que acham que as pessoas querem comprar e como princípio "quanto mais sórdido melhor".
Este bebé vai sobreviver, tem de sobreviver e vai ser massacrado e perseguido por estes vampiros que em vez de celebrarem o milagre vendem e promovem a dor.
Não pode valer tudo.

PORTUGAL VAI VENCER O EUROPEU, CLARO

«É altura de ganhar o Europeu»
Humberto Coelho
Ao que parece começa a instalar-se a ideia de que Portugal será seguramente campeão europeu no campeonato que se iniciará em França dentro de poucos dias.
Felizmente ainda não se desencadeou aquela onda dos tempos de Scolari  com o país engalanado de bandeirinhas.
Apesar de alguns erros de casting a selecção portuguesa é capaz de atingir um resultado positivo.
Despretensiosamente e sem querer competir com os grandes nomes, Rui Santos ou Luís Freitas Lobo, por exemplo, aqui fica um contributo de natureza técnico-táctico-estratégica-psicológica para que a selecção portuguesa triunfe em terras gaulesas.
Em primeiro lugar importa jogar olhos nos olhos com quem quer que seja. Também é importante fazer uma abordagem jogo a jogo.
É preciso confiar no grupo de trabalho e no que o mister definir.
Creio que será fundamental um jogo com transições rápidas entre os vários momentos.
A equipa não pode jogar de forma curta, compacta, tem que se estender e apostar na pressão alta.
Importa que se explore o espaço entre linhas, com os alas em movimentos de fora para dentro.
Atenção às bolas paradas e aos posicionamentos defensivos e ofensivos.
Os níveis de concentração terão de estar no máximo e teremos de ser uma equipa solidária e confiante.
Atenção ao Pepe, que ele de vez em quanto passa-se. É bom alguém sempre por perto que o oriente.
As marcações, à zona ao homem, consante os momentos do jogo não podem falhar e a equipa ser apanhada em contrapé.
É necessário que se assegure posse de bola e uma circulação eficaz sempre a criar linhas de passe em progressão.
A equita ter´de ser forte psicológicamente e jogar nos limites, claro.
Creio que com estes conselhos a prestação da equipa portuguesa poderá ser um sucesso e atingir os nossos objectivos, campeões.
Uma pequena nota ainda, é um pormenor mas como sabem os grandes jogos decidem-se nos pormenores. É imprescindível que em cada jogo se marque sempre pelo menos mais um golo que o adversário e se sofra o menor número de golos possível.

O VOO DOS ABUTRES

Vivemos hoje em Portugal uma das situações mais terríveis e perturbadoras da humanidade: a lenta gestação de uma catástrofe.
Não, não é a frase de entrada de um livro ou da sinopse de filme-catástrofe. É apenas a aprimeira frase do artigo de iluminado, João César das Neves no DN.
Sob a capa da "análise", da "opinião", os opinadores radicais e tóxicos tentam demonstar com atrás da direita ... só o dilúvio, a catástrofe.
Não podem dizê-lo, fica-lhes mal, mas anseiam que tudo corra mal, quanto pior melhor, as desgraças que anunciam serão a confirmação dos seus desejos.
Não, não me afligem as diferenças ideológicas, é o que se deve esperar de sociedades democráticas e abertas.
Só me aflige o preço que desejam que paguemos para que tenham razão.
Não terão.
Mas é assim o voo dos abutres.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

DAS REVERSÕES, COMO AGORA SE DIZ

A reversão que não podia ter acontecido. Não, não é demagogia, trata-se mesmo de uma decisão que não podia ter sido tomada, seja qual for a justificação. 
Desculpem mas também não preciso de explicar porque assim penso. É óbvio, em nome do pudor e da decência.
Governo aprova fim dos limites salariais à gestão da CGD

"IMPLEMENTAÇÃO DE MEDIDAS QUE PROMOVAM MAIOR INCLUSÃO ESCOLAR DE ALUNOS COM NEE"

Com a sempre atenta ajuda do João Adelino Santos soube que dando cumprimento à decisão do conselho de Ministros de 24/3 foi publicado o Despacho n.º 7617/2016 que determina “A criação de um grupo de trabalho com o objetivo de apresentar um relatório com propostas de alteração ao Decreto -Lei n.º 3/2008, de 7 de janeiro, alterado pela Lei n.º 21/2008, de 12 de maio, e respectivo enquadramento regulamentador, incluindo os mecanismos de financiamento e de apoio, com vista à implementação de medidas que promovam maior inclusão escolar dos alunos com necessidades educativas especiais” (o acordês é, como se sabe, a língua oficial do Diário da República).
Dada a natureza deste espaço umas notas muito breves.
Inúmeras vezes tenho referido a necessidade de mudanças no quadro legal que suporta a educação de alunos com necessidades educativas especiais nas escolas regulares. Apesar da retórica preambular assente na promoção da inclusão muitas das disposições acomodam práticas de exclusão ampliadas por um sistema educativo sem regulação eficaz.
Quer no Atenta inquietude, quer em intervenções e textos no contexto profissional, quer em audições no ME, no CNE ou na AR para as quais tiveram a gentileza de me convidar tenho acentuado várias das mudanças que do meu ponto de vista são necessárias e diria urgentes.
Retomo aquilo que costumo designar por “pecado original” do DL 3/2008, a base legal mais “pesada” nesta matéria, a introdução do critério de elegibilidade para que os alunos possam aceder a apoios educativos.
Esta decisão que contestei desde o início e uma das mais emblemáticas incompetências da passagem de Maria de Lurdes Rodrigues implicou que milhares de crianças com dificuldades deixassem de ter apoio educativo.
Em educação não existe “elegibilidade”. A justificação dada na altura é que muitos alunos eram apoiados sem que se justificasse. Como? Qualquer aluno que experimente algum tipo de dificuldade, mais ligeira, mais pesada ou mesmo não identificada mas sentida pelos professores deve ter algum tipo de apoio, deve ser avaliada, bem avaliada, e a intervenção ou orientação será conforme essa avaliação. Não deve ser considerada elegível ou não elegível.
Estabelecendo este errado entendimento tornou-se necessário encontrar forma de dividir os alunos. Recorreu-se a uma instrumento muito interessante para várias objectivos mas não avaliação educativa a CIF - Classificação Internacional de Funcionalidade, um instrumento de classificação produzido no âmbito da Organização Mundial de Saúde para fins que, evidentemente, não se dirigiam à educação.
Como consequência, milhares de alunos ficaram sem apoios. Mais recentemente tem-se assistido a um outro processo, se não forem elegíveis os alunos não têm apoios e as escolas, os professores e técnicos, sentem-se obrigados a recorrer a um rótulo que os torne elegíveis e, portanto, a acederem a apoio de que precisam ao qual não acederiam se não fossem “classificados” como elegíveis.
Esta é uma questão central do meu ponto de vista. Importaria também simplificar e clarificar procedimentos e terminologia.
A título de exemplo apenas a referência a uma coisa bizarra chamada CEI – Currículo específico Individual, uma originalidade, ainda não encontrei nada assim designado, dado que se um currículo é individual, dificilmente não será específico. Esta coisa já está em aplicação a alunos do 1º ciclo em circunstâncias inquietantes pelo impacto no futuro educativo dos alunos.
Neste sentido creio que se deveria reflectir de forma alargada em tudo o que envolve questões de natureza curricular ou organização das respostas, escolas de referência, unidades estruturadas, etc. que apesar de algumas boas práticas em algumas circunstâncias são espaços de exclusão em nome … da inclusão.
As questões relativas à avaliação escolar merecem também ajustamento mas de forma integrada relativamente a todo o sistema de avaliação da escolaridade obrigatória.
Julgo ainda fundamental que se criassem com apoios externos dispositivos de regulação e supervisão do trabalho desenvolvido de forma a minimizar a enorme latitude de experiências e práticas que variam entre a excelência e o atropelo de direitos de alunos e famílias bem como de desrespeito do trabalho de professores e técnicos.
Finalmente apenas mais uma referência à urgência de repensar os modelos de envolvimento de entidades e técnicos exteriores à escola no período da escolaridade obrigatória. Com base em fórmulas de outsourcing muito dificilmente se promove educação de qualidade e inclusiva.
Muitas outras questões merecem atenção pelo que, provavelmente, voltaremos a esta matéria
A ver vamos o que acontecerá. No entanto, seria crucial que desde logo se assumisse que sendo importante "melhorar o enquadramento legal" tudo o resto é fundamental, autonomia das escolas, efectivo de turma, recursos, meios, qualificação, supervisão e regulação, envolvimento e participação dos pais, etc., etc.

DO ENSINO SUPERIOR

O Governo considera a hipótese de que o Ensino Politécnico atribua o grau de doutoramento.
A proposta assenta no entendimento de que este doutoramento teria uma natureza mais profissional e maior ligação às empresas em nome da sempre presente “funcionalidade” e “aplicabilidade” do conhecimento.
Parece-me ajustado que a formação de 3º ciclo, o doutoramento, possa ser de natureza profissionalizante, mesmo no cenário actual em que os doutoramentos são da responsabilidade exclusiva das universidades ou institutos universitários, mas tenho alguma reserva face à intenção agora conhecida até porque, como a tutela entende, muitos dos institutos politécnicos difilmente terão condições para atribuição do grau.
O que me parece essencial, mas evidentemente mais difícil politicamente, é a reorganização da rede e a análise do papel do ensino superior universitário e politécnico num país com a nossa escala e com uma rede, pública e privada, altamente sobredimensionada.
Porque não a transformação dos Institutos Politécnicos em Universidade com a integração e diversificação da tipologia da oferta? Porque não o aprofundamento de associações ou consórcios que racionalizassem a oferta, em vez de todos a fazer tudo ou quase tudo, numa dispersão por vezes redundante para a nossa escala e a introdução de mais “oferta” com contornos pouco claros?
Este caminho de “meia licenciatura”, “meio mestrado” e, eventualmente “meio doutoramento”, é mais fácil, vai ao encontro das necessidades estatísticas, mas coloca dúvidas relativamente à sua eficácia e à manutenção de uma rede manifestamente desajustada e mais pesada em termos económicos, a que acresce ainda o subsistema privado, universitário e politécnico.

OS CASTIGOS NA FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS. Umas notas na Visão

Umas notas na Visão sobre a temática sempre em discussão do uso de castigos na educação de crianças e adolescentes.

OS CASTIGOS NA FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS

A SINISTRA PACC FINOU-SE. DEFINITIVAMENTE

O Presidente da República promulgou a legislação que põe fim Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades de acesso à carreira docente.
É definitivo, a sinistra PACC - Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades para acesso à carreira de professor, tal como a conhecemos, finou-se. Ainda bem, esta "coisa", da forma que foi estruturada, não avaliava nem conhecimentos nem capacidades para se ser professor. Para além de incompetência estava também ferida de indignidade.
A única forma de avaliar “conhecimentos e capacidades” para se ser professor é avaliar o trabalho em sala de aula. Não é novo, não é difícil, é preciso, "apenas" decidir que assim seja.
A sinistra PACC, tal como foi operacionalizada, era uma coisa "facilitista" vindo de um Governo que tinha como bandeira combater o "facilitismo". É verdade que não foi a única contradição nestes termos.
No entanto, convém não esquecer, a memória atraiçoa-nos por vezes, que a PACC foi legislada pelo PS que agora votou pelo seu fim.
Continua ainda por construir um verdadeiro sistema de avaliação de professores, uma ferramenta imprescindível na promoção da qualidade do trabalho educativo, na regulação e valorização do desempenho profissional e na valorização social dos professores.

terça-feira, 7 de junho de 2016

NINGUÉM CABE NUMA FOTOGRAFIA

(Foto de Mico)

O Professor velho lá da minha escola disse-me uma vez que ninguém cabe numa fotografia, sempre.
Um dia, vou ser capaz de sair desta fotografia. Então, vão ver o mundo bonito que vai ser o meu.

OUTRA HISTÓRIA DA INCLUSÃO

Ao que se lê na imprensa existe um grupo de seis alunos com autismo, com idades entre os 16 e os 18 anos, que frequenta a Escola EB 2,3 de Gualtar. Dado o seu trajecto escolar estes alunos já deveriam estar a frequentar a Escola Secundária do Agrupamento, a Escola Carlos Amarante. Esta alega a falta de sala embora segundo a notícia não seja plausível a justificação. Um vereador do Município de Braga afirma ”Entendemos que não faz sentido que jovens com 18 anos se arrastem na frequência escolar, de ano para ano, numa escola básica, desde logo fora do contexto e quando têm, ainda por cima, níveis de aproveitamento satisfatório”.
Estou a referi-me a esta situação através de uma notícia que, evidentemente, não posso confirmar. No entanto, conheço algumas outras situações com contornos da mesma natureza.
Muito brevemente recordo alunos que são precocemente e sem qualquer fundamentação sólida colocados ao abrigo de uma coisa bizarra chama CEI, rótulo de que não se livram e os condena a um espaço curricular, quando não físico, guetizado e sem participação nas actividades comuns da escola. Recordo práticas observadas em Unidades de Ensino Estruturado cujas actividades têm um baixíssimo contacto com a restante comunidade escolar. Recordo Unidades de Apoio Especializado a Alunos com Multideficiência que alunos com multideficiência têm … nenhum e estruturam-se em espaços fechados nas escolas. Recordo … . Curiosamente tudo isto acontece, tal como as boas experiências, em nome da inclusão.
É verdade que quem como eu acompanha este universo há algumas décadas não pode deixar de reconhecer o quanto se avançou mas é imperativo reconhecer o quanto está por fazer por uma educação de qualidade e de qualidade para todos. Neste sentido é fundamental a importância e a necessidade de uma pressão constante no sentido de promover uma educação que acomode a diversidade e necessidades de todos os alunos.
A educação inclusiva e a equidade em educação não decorrem de uma moda ou opção científica, são matéria de direitos pelo que devem ser assumidas através das políticas e discutidas, evidentemente, na sua forma de operacionalizar. Aliás, poderá afirmar-se, citando Biesta, que a história da inclusão é a história da democracia, a história dos movimentos que lutaram pela participação plena de todas as pessoas na vida das comunidades, incluindo, evidentemente, a educação.
Nesta perspectiva e apesar de excelentes exemplos de boas práticas os tempos que vivemos continuamos também tempos de exclusão, de competição, de desregulação ética e de oscilação de valores que atingem, evidentemente, os mais frágeis, caso das crianças e jovens com necessidades educativas especiais e as suas famílias.