domingo, 12 de junho de 2016

PROMOÇÃO DO SUCESSO ESCOLAR

No dia 9 foi também conhecido o Parecer do CNE “Organização da escola e promoção do sucesso escolar”. Um trabalho que numa primeira leitura me pareceu sólido e que de facto pode ser um contributo para a definição de políticas educativas mais adequadas.
Dada a sua extensão e densidade e a natureza deste espaço, para além de recomendar a sua leitura, sublinham-se três ideias-chave:
Autonomia das escolas e dos professores;
Diferenciação de Percursos Escolares, da Organização da escola e do seu funcionamento e das Metodologias;
Recursos e dispositivos de apoio ao trabalho de alunos e professores.
Uma peça importante de um caderno de encargos em matéria de política educativa.
Voltaremos a este Parecer com abordagens mais específicas.

DA AVALIAÇÃO DAS ESCOLAS

O Público de hoje tem um extenso trabalho sobre a avaliação das escolas. O ponto de partida é o facto de que com a substituição de alguns exames finais por provas de aferição haverá menos indicadores disponíveis criando dificuldades à comparação entre escolas e, portanto, à sua avaliação.
Este ponto de partida radica justamente numa questão que aqui tenho referido, a sobrevalorização dos resultados escolares, exames nacionais, na avaliação externa das escolas. Recorde-se que o modelo de avaliação em vigor assenta em três domínios, resultados escolares, prestação de serviço e educativo e liderança e gestão. É no entanto reconhecido a importância fortíssima dos resultados escolares dos alunos que também alimenta a construção dos rankings. Apesar da evolução verificada na sua construção continuam a ser, só por existirem A avaliação das escolas.
Como tantas vezes tenho dito, a avaliação, sendo imprescindível na promoção da qualidade é tanto mais eficaz nessa função quanto mais competente e simples possa ser.
A questão é que, como dizia o Mestre João dos Santos, o mais difícil em educação é trabalhar de uma forma simples.
Uma das questões levantadas no trabalho do Publico é a não existência de avaliação do trabalho em sala de aula o que, aliás, apenas se verifica em Portugal para além da Estónia e Turquia. No entanto, esta matéria é mais uma das muitas em que a polémica é forte. Recordemos as discussões sobre a observação de aulas no contexto da avaliação de professores e os discursos, práticas e equívocos instalados.
Uma outra questão importante remete para os efeitos da avaliação. Alterado o desajustado modelo anterior assente, sobretudo, na atribuição de mais créditos horários às escolas com melhores resultados importa que de facto a avaliação das escolas tenha efeitos ao nível de dispositivos de apoio a dificuldades encontradas e de incentivos a boas práticas e projectos.
Aceitando a importância que continuará a ter a avaliação interna importa considerar que a forma como é realizada, altamente burocratizada, solicitando uma carga enorme de informação, extensa, redundante e parte dela inútil, da forma que é requerida. A produção desta informação consome centenas de horas de trabalho a muitos docentes, roubadas à essência do seu trabalho.
O nível de informação solicitada e as regras impostas de funcionamento e organização mostra, de facto, um sistema altamente centralizado, burocratizado e com a tentação de manter um controlo absoluto sobre a organização e funcionamento das escolas.
É também por isto que reafirmo a necessidade de aprofundar, de facto, a autonomia das escolas.
Como afirma Joaquim de Azevedo, não é impossível construir um algoritmo mais “complexo e rigoroso” que sustentasse uma avaliação das escolas que envolva resultados e processos.
Não, não é impossível, basta querer.

sábado, 11 de junho de 2016

A LAVOURA PERDEU UMA VOZ

Ver reportagens televisivas sobre feiras dedicadas à agricultura, caso da de Santarém que está a decorrer e não ver o Dr. Paulo Portas de boné aos quadrados a comentar a lavoura com aquele peculiar frémito no olhar deixa uma sensação de vazio e o mundo da agricultura mais pobre.
Ganha a construção civil, em particular a Mota-Engil, com a aquisição de um enorme facilitador. 
O "Dr." Relvas que se cuide. 

EDUCAR E CUIDAR

No Público aborda-se a questão levantada pela decisão do Tribunal de Cascais de entregar a guarda de duas crianças de 4 e 6 anos ao pai que foi condenado por violência doméstica grave e repetida exercida sobre a mãe das meninas. Acresce que estes episódios se passavam algumas vezes com as crianças a assistir.
A decisão do tribunal suscita apreciações diferentes.
Algumas pessoas ouvidas na peça colocam em causa a bondade da decisão do Tribunal pois as directivas europeias vão no sentido de que os tribunais levem em conta a violência doméstica na decisão sobre processos de custódia e visitas aos filhos. Existem também estudos que associam o testemunho de violência entre os pais ao maior risco de desenvolvimento posterior de comportamentos de agressão ou de sujeição à vitimização.
Por outro lado, um especialista não identificado entende que “Uma condenação por violência doméstica contra uma companheira não inibe automaticamente o exercício das responsabilidades parentais”. Acrescenta que “Há que perceber se as relações afectivas das crianças com o progenitor são superiores ao sofrimento causado por terem assistido a violência doméstica.
Um comentário de forma breve.
De uma forma simples podemos dizer que a acção educativa familiar pode definir-se em torno de duas dimensões essenciais, educar e cuidar. Curiosamente em língua inglesa encontra-se por vezes referências a "educare" ligando justamente, o educar com o cuidar
Um pai que assume regularmente violência grave para com a mãe dos seus filhos, condenado judicialmente e separado entretanto, pode, vamos admitir embora tenha a maior das reservas, ser um cuidador eficiente e satisfazer algumas das necessidades básicas das crianças.
No entanto, no que respeita ao envolvimento afectivo e aos cuidados afectivos prestados por um pai que tem como ferramenta relacional a violência as minhas dúvidas são enormes apesar da opinião do especialista citado que admite que um individuo que agride repetidamente e de forma grave a mãe dos filhos à frente destes pode, ao mesmo tempo, estabelecer vínculos afectivos robustos e positivos com essas crianças. Será?
Por outro lado, considerando a segunda dimensão, educar, as reservas são ainda maiores. Educar é o contributo para a construção pessoal, a comunicação e a relação com os outros de forma positiva e adequada, é a construção de valores, regras e limites, é o aprender a ser. Educa-se com o que se sabe mas, sobretudo, educa-se com o que se é, o comportamento gera comportamento
Tenho a maior convicção em que as pessoas são capazes de mudar o seu comportamento e reabilitar-se. Muitas vezes precisam de tempo e apoio.
O que não consigo entender é como sem que esse processo de reabilitação seja minimamente garantido se decide entregar a responsabilidade duas crianças a um agressor comprovado e reincidente.
Costuma dizer-se que in dúbio pro reo mas importa não esquecer um princípio fundamental, o superior interesse da criança, ou seja, in dubio pro puer (se o tradutor ajudou).

DA LIDA NO ALENTEJO

Da lida no Alentejo que começou bem cedo.
Umas horas compridas em cima do tractor a colher batata. Com a ajuda do Mestre Marrafa e da minha companheira de estrada a deste ano já está.
Não ficou muito grada e não é muita mas a agricultura é assim, umas vezes melhor, outras vezes pior. 
Algumas que ficaram cortas já farão cairão no preto agora ao almoço passadas por azeite, alhos  e orégãos depois de cozidas. 
Já merecemos.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

AINDA OS CONTRATOS DE ASSOCIAÇÃO. O SENHOR ARCEBISPO ESTÁ ENGANADO

O arcebispo de Braga, Jorge Ortiga, equiparou nesta quinta-feira a posição do Governo sobre os contratos de associação com colégios ao “totalitarismo de Estado”, frisando que se trata de uma "campanha" e de "uma questão ideológica".
O Senhor Arcebispo está enganado, por assim dizer e para ser simpático.
A liberdade de escolha, seja lá isso o que for, será uma questão ideológica, os contratos de associação têm nada a ver com liberdade de escolha.
O estabelecimento de contratos de associação quando não existe resposta pública ou é insuficiente constitui uma forma legalmente definida e mantida quando necessário de cumprir o direito à educação consagrado constitucionalmente.
Financiar estabelecimentos de ensino privado quando existe na mesma zona resposta pública suficiente é alimentar negócios privados com dinheiros públicos.
Os negócios privados sujeitam-se às regras da oferta e da procura não ao dinheiro público dos contribuintes.
O Senhor Arcebispo sabe evidentemente que assim é, os contratos de associação aplicam-se em 3% do universo dos colégios privados. Campanha?! Questão ideológica?! Totalitarismo?! É muito feio mentir e nem lhe fica muito bem falar de totalitarismo. 
Insisto numa dúvida. Nunca dei conta da preocupação do Senhor Arcebispo nem da Conferência Episcopal Portuguesa com os muitos milhares de crianças que foram deslocalizados devido ao encerramento das suas escolas e a concentração de alunos em Centros Educativos e mega-agrupamentos e, tão pouco, com o destino de milhares de professores que em consequência de políticas educativas que mais pareciam políticas contabilísticas foram empurrados para fora do sistema.
Estava distraído Senhor Arcebispo? Também não acompanha a imprensa?
No entanto, como Senhor também afirma, não se inquiete em excesso, em devido tempo chegarão algumas notícias, a mão que tira também é a mesma mão que dá. 
Vamos ver.

DA CONDIÇÃO DOCENTE

A Recomendação do Conselho Nacional de Educação, “A condição docente e as políticas educativas” ontem conhecida levanta um conjunto de questões muito importantes mas que não cabem numa análise genérica num espaço desta natureza. A esta Recomendação iremos voltando em termos mais específicos.
No entanto, o seu conteúdo recordou-me um texto que já aqui deixei justamente sobre o ser professor actualmente em Portugal. Aqui fica.
Sem novidade, tenho para mim que miúdos e professores são os dois grupos em que assenta qualquer comunidade nas sociedades contemporâneas. Os miúdos porque são o futuro e os professores porque, naturalmente, o preparam, tudo passa pela escola e pela educação.
Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública sob ameaça significativa. Desencadearam-se múltiplas acções políticas que contribuíram para degradar a sua função, a sua imagem social e o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas.
Opções políticas assumidas e em curso têm contribuído para uma atenção continuadamente dirigida para a educação e para os professores. Essa atenção advém de boas e más razões. Não cabe aqui um balanço alargado o, e entendo que, tal como os miúdos, os professores não têm sempre razão. No entanto, gostava de deixar algumas notas.
Em primeiro lugar importa desde logo sublinhar que ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica o maior reconhecimento. Pensemos no que é ser professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Pensemos ainda na forma como milhares de professores cumprem a sua carreira, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. Nos últimos anos milhares de professores, de bons professores e professores necessários, foram constrangidos à reforma e muitos ao desemprego por uma política de contabilidade inimiga da educação pública e da qualidade. Veja-se os sucessivos processos de colocação de professores e as situações dramáticas que a incompetência e a arrogância de diferentes equipas na 5 de Outubro produziram.
Pensemos em como os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma ignorante barbaridade qualquer, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.
Pensemos como é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Pensemos em como a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.
Pensemos finalmente nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.
Gostava ainda de deixar uma ideia do enorme João dos Santos, “O Professor João, foi meu professor porque foi meu amigo” e uma convicção pessoal que a idade cada vez mais cimenta, qualquer professor ou educador, tanto ou mais do que aquilo que sabe, ensina aquilo que é.
A prova é que de todos os professores que connosco se cruzaram os que mais nos marcaram positivamente foi sobretudo pelo que eram e menos pelo que nos ensinaram.

MEU CARO PORTUGAL

Neste 10 de Junho, dia em que te comemoras, aqui estou a escrever-te, de novo. Ainda sou do tempo em que se escreviam cartas aos amigos.
Se bem te recordas, a carta que te enviei o ano passado não era particularmente optimista. Tinha razão, lamentavelmente. O ano, tal como os últimos, foi complicado para muita gente, para demasiada gente.
Como sabes, conhecemo-nos há umas décadas. Quando te conheci eras um tipo tristonho, cinzento, com a gente calada e com medo de quem em ti mandava. A partir de certa altura, entraste em guerra e a nossa relação complicou-se, assim como a situação de toda a gente. Nesses tempos, o resto do mundo vivia longe e todos nós, que te habitávamos, nos sentíamos distantes de tudo e tudo era difícil de conseguir.
Um dia, tu mudaste. De repente, ficaste a cores, o longe ficou perto, a tristeza ficou alegre, o impossível parecia possível. Foram os tempos da brasa, dizíamos. Tudo era depressa, tudo era ontem, até a guerra. Foi um tempo para descobrir, transgredir, aprender e progredir. Para a democracia, finalmente. Lembras-te? Fizemos as pazes.
Meu caro Portugal, a poeira entretanto começou a assentar e entrámos na chamada normalidade democrática, campanhas, eleições, mudanças de governo, desenvolvimento, etc. Apesar de alguns solavancos fomos mantendo uma relação tranquila. Então, juntaste-te a outros mais desenvolvidos, a União Europeia, e perdeste um bocado a voz que gostávamos de ouvir, por nós. Para um tipo pequeno como tu, pode ter sido boa ideia, embora, é preciso dizê-lo, a entrada na "CEE" também tenha estado associada a uma devastadora e irresponsável destruição nas áreas das pescas, agricultura e indústria de que ninguém assume a responsabilidade.
E aqui estamos meu caro, mais velhos, sabes que entretanto passei à condição mágica de avô, e vamos mantendo uma relação como a que os velhos amigos têm. Zangamo-nos, fazemos as pazes, zangamo-nos de novo e, de novo nos entendemos. Quando me afasto de ti sinto saudades, quando estou contigo aborreces-me e vamos andando nisto.
Ultimamente, tenho-te sentido diferente. Pareces-me mais desalentado, triste e com muita desesperança nos rostos. É certo que a situação à tua volta também não ajuda e contigo as coisas não vão bem, mas é importante que te sintas com futuro. Isso para nós é fundamental, para nos sentirmos bem contigo. Embora nos tenham dito para partir, é contigo que gostamos de estar. Por ti, pelos nossos filhos e pelos filhos dos nossos filhos.
Se bem te lembras na carta que te enviei o ano passado já te dizia que não te sentia bem, achava-te em baixo, como diz o teu povo.
Nestes últimos anos continuou instalada por todo o mundo uma complicada situação a que tu também não tens conseguido fugir e que piorou. Muita gente sem trabalho, vamos envelhecendo sem esperança em dias melhores. Os tempos vão crispados, feios, marcados pela indignidade da pobreza. Dizem que existem uns sinais positivos mas as pessoas ainda não sentem.
Entretanto verificaram-se eleições e temos um cenário político diferente, para uns, é o meu caso, que traz alguma esperança em mudanças que em alguns aspectos já se verificam e noutros tardam. Para outra gente este novo cenário político não agrada e antecipam a desgraça. Oxalá se enganem.
O problema, meu caro Portugal, é que boa parte das lideranças que acolhes, em diferentes áreas também não têm sido capazes de promover a esperança, parecem mais parte do problema que parte da solução. Aliás, poder-se-á dizer que muita desta gente que nos tem governado não tem currículo, tem cadastro.
Entretêm-se nos jogos da política pequenina, provavelmente por falta de competência para a política grande.
Como se não bastasse a crise instalada ainda foi aparecendo uma rapaziada, todos bons amigos, a gerir estruturas e empresas públicas que acumulam tantos prejuízos como essa rapaziada acumula prémios que, em decisões difíceis de entender, terão de ser pagos com o dinheiro e sacrifícios do cidadão, prejuízos e prémios. Na banca, como sabes, continuaram a acumular-se situações de delinquência e incompetência dos que a administram com as consequências habituais, pagamos nós.
Os casos de corrupção e manhosices dos pequenos e grandes poderes não têm fim e ninguém parece substantivamente empenhado em contribuir para que terminem.
Ao que nos foram vendendo, para colocarem as tuas contas em ordem, colocaram a nossa vida em desordem, chamaram-lhe austeridade e tinha que ser assim, custe o que custar, dizem. Disseram e insistiram que vivíamos acima das nossas possibilidades mas de há algum tempo para cá muitos portugueses vivem abaixo das suas necessidades.
A gente que agora chegou ao poder está a tentar fazer diferente, esperemos que consigam, por nós e por ti.
Como sabes também temos um Presidente da República novo, o conhecido Professor Marcelo. O homem não pára e não se cala. Vamos ver o que vai dar mas Cavaco não me deixou saudades.
Pois é meu caro e velho Portugal, estás a atravessar um período nada fácil. Alguns com responsabilidade mas sem visão foram sugerindo que talvez fosse melhor ir embora de ti. Na verdade, é o que tem estado a acontecer a muita gente nova, procurar a sorte noutras paragens, noutras aragens, como cantava o Manuel Freire. O futuro aqui parece inacessível mas, como já te disse, é aqui que gostamos de ser gente.
Que está a acontecer meu velho? Podemos ter esperança?
Não pode ser, temos que dar a volta a isto. Apesar de pequeno tens que protestar, não podemos ser apenas uma feitoria de quem não considera as pessoas mas os mercados. Não podemos aceitar não ter futuro meu caro, temos que nos organizar para um projecto de futuro. Para que te cumpras meu caro Portugal.
Espero que para o próximo ano te possa encontrar em melhor estado. Até lá recebe um abraço de confiança.

10 de Junho de 2016

quinta-feira, 9 de junho de 2016

OS VAMPIROS


Não é possível ver este título de primeira página do CM sem um sobressalto. O bebé sobreviveu a uma tragédia sem nome perdendo uma mãe que não conheceu e que criou com a ajuda de um milagre da medicina.
Este bebé, um sobrevivente, que esperemos se recomponha acaba de perder também o pai que, diz o CM, o rejeitou.
Não sei, não quero saber as circunstâncias deste cenário. Sei, tenho a certeza, que este tipo de dramas pessoais não pode ser assim tratado. Não pode estar à mercê do despudor, da falta de sensibilidade ética e moral de vampiros que têm apenas como objectivo vender o que acham que as pessoas querem comprar e como princípio "quanto mais sórdido melhor".
Este bebé vai sobreviver, tem de sobreviver e vai ser massacrado e perseguido por estes vampiros que em vez de celebrarem o milagre vendem e promovem a dor.
Não pode valer tudo.

PORTUGAL VAI VENCER O EUROPEU, CLARO

«É altura de ganhar o Europeu»
Humberto Coelho
Ao que parece começa a instalar-se a ideia de que Portugal será seguramente campeão europeu no campeonato que se iniciará em França dentro de poucos dias.
Felizmente ainda não se desencadeou aquela onda dos tempos de Scolari  com o país engalanado de bandeirinhas.
Apesar de alguns erros de casting a selecção portuguesa é capaz de atingir um resultado positivo.
Despretensiosamente e sem querer competir com os grandes nomes, Rui Santos ou Luís Freitas Lobo, por exemplo, aqui fica um contributo de natureza técnico-táctico-estratégica-psicológica para que a selecção portuguesa triunfe em terras gaulesas.
Em primeiro lugar importa jogar olhos nos olhos com quem quer que seja. Também é importante fazer uma abordagem jogo a jogo.
É preciso confiar no grupo de trabalho e no que o mister definir.
Creio que será fundamental um jogo com transições rápidas entre os vários momentos.
A equipa não pode jogar de forma curta, compacta, tem que se estender e apostar na pressão alta.
Importa que se explore o espaço entre linhas, com os alas em movimentos de fora para dentro.
Atenção às bolas paradas e aos posicionamentos defensivos e ofensivos.
Os níveis de concentração terão de estar no máximo e teremos de ser uma equipa solidária e confiante.
Atenção ao Pepe, que ele de vez em quanto passa-se. É bom alguém sempre por perto que o oriente.
As marcações, à zona ao homem, consante os momentos do jogo não podem falhar e a equipa ser apanhada em contrapé.
É necessário que se assegure posse de bola e uma circulação eficaz sempre a criar linhas de passe em progressão.
A equita ter´de ser forte psicológicamente e jogar nos limites, claro.
Creio que com estes conselhos a prestação da equipa portuguesa poderá ser um sucesso e atingir os nossos objectivos, campeões.
Uma pequena nota ainda, é um pormenor mas como sabem os grandes jogos decidem-se nos pormenores. É imprescindível que em cada jogo se marque sempre pelo menos mais um golo que o adversário e se sofra o menor número de golos possível.

O VOO DOS ABUTRES

Vivemos hoje em Portugal uma das situações mais terríveis e perturbadoras da humanidade: a lenta gestação de uma catástrofe.
Não, não é a frase de entrada de um livro ou da sinopse de filme-catástrofe. É apenas a aprimeira frase do artigo de iluminado, João César das Neves no DN.
Sob a capa da "análise", da "opinião", os opinadores radicais e tóxicos tentam demonstar com atrás da direita ... só o dilúvio, a catástrofe.
Não podem dizê-lo, fica-lhes mal, mas anseiam que tudo corra mal, quanto pior melhor, as desgraças que anunciam serão a confirmação dos seus desejos.
Não, não me afligem as diferenças ideológicas, é o que se deve esperar de sociedades democráticas e abertas.
Só me aflige o preço que desejam que paguemos para que tenham razão.
Não terão.
Mas é assim o voo dos abutres.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

DAS REVERSÕES, COMO AGORA SE DIZ

A reversão que não podia ter acontecido. Não, não é demagogia, trata-se mesmo de uma decisão que não podia ter sido tomada, seja qual for a justificação. 
Desculpem mas também não preciso de explicar porque assim penso. É óbvio, em nome do pudor e da decência.
Governo aprova fim dos limites salariais à gestão da CGD

"IMPLEMENTAÇÃO DE MEDIDAS QUE PROMOVAM MAIOR INCLUSÃO ESCOLAR DE ALUNOS COM NEE"

Com a sempre atenta ajuda do João Adelino Santos soube que dando cumprimento à decisão do conselho de Ministros de 24/3 foi publicado o Despacho n.º 7617/2016 que determina “A criação de um grupo de trabalho com o objetivo de apresentar um relatório com propostas de alteração ao Decreto -Lei n.º 3/2008, de 7 de janeiro, alterado pela Lei n.º 21/2008, de 12 de maio, e respectivo enquadramento regulamentador, incluindo os mecanismos de financiamento e de apoio, com vista à implementação de medidas que promovam maior inclusão escolar dos alunos com necessidades educativas especiais” (o acordês é, como se sabe, a língua oficial do Diário da República).
Dada a natureza deste espaço umas notas muito breves.
Inúmeras vezes tenho referido a necessidade de mudanças no quadro legal que suporta a educação de alunos com necessidades educativas especiais nas escolas regulares. Apesar da retórica preambular assente na promoção da inclusão muitas das disposições acomodam práticas de exclusão ampliadas por um sistema educativo sem regulação eficaz.
Quer no Atenta inquietude, quer em intervenções e textos no contexto profissional, quer em audições no ME, no CNE ou na AR para as quais tiveram a gentileza de me convidar tenho acentuado várias das mudanças que do meu ponto de vista são necessárias e diria urgentes.
Retomo aquilo que costumo designar por “pecado original” do DL 3/2008, a base legal mais “pesada” nesta matéria, a introdução do critério de elegibilidade para que os alunos possam aceder a apoios educativos.
Esta decisão que contestei desde o início e uma das mais emblemáticas incompetências da passagem de Maria de Lurdes Rodrigues implicou que milhares de crianças com dificuldades deixassem de ter apoio educativo.
Em educação não existe “elegibilidade”. A justificação dada na altura é que muitos alunos eram apoiados sem que se justificasse. Como? Qualquer aluno que experimente algum tipo de dificuldade, mais ligeira, mais pesada ou mesmo não identificada mas sentida pelos professores deve ter algum tipo de apoio, deve ser avaliada, bem avaliada, e a intervenção ou orientação será conforme essa avaliação. Não deve ser considerada elegível ou não elegível.
Estabelecendo este errado entendimento tornou-se necessário encontrar forma de dividir os alunos. Recorreu-se a uma instrumento muito interessante para várias objectivos mas não avaliação educativa a CIF - Classificação Internacional de Funcionalidade, um instrumento de classificação produzido no âmbito da Organização Mundial de Saúde para fins que, evidentemente, não se dirigiam à educação.
Como consequência, milhares de alunos ficaram sem apoios. Mais recentemente tem-se assistido a um outro processo, se não forem elegíveis os alunos não têm apoios e as escolas, os professores e técnicos, sentem-se obrigados a recorrer a um rótulo que os torne elegíveis e, portanto, a acederem a apoio de que precisam ao qual não acederiam se não fossem “classificados” como elegíveis.
Esta é uma questão central do meu ponto de vista. Importaria também simplificar e clarificar procedimentos e terminologia.
A título de exemplo apenas a referência a uma coisa bizarra chamada CEI – Currículo específico Individual, uma originalidade, ainda não encontrei nada assim designado, dado que se um currículo é individual, dificilmente não será específico. Esta coisa já está em aplicação a alunos do 1º ciclo em circunstâncias inquietantes pelo impacto no futuro educativo dos alunos.
Neste sentido creio que se deveria reflectir de forma alargada em tudo o que envolve questões de natureza curricular ou organização das respostas, escolas de referência, unidades estruturadas, etc. que apesar de algumas boas práticas em algumas circunstâncias são espaços de exclusão em nome … da inclusão.
As questões relativas à avaliação escolar merecem também ajustamento mas de forma integrada relativamente a todo o sistema de avaliação da escolaridade obrigatória.
Julgo ainda fundamental que se criassem com apoios externos dispositivos de regulação e supervisão do trabalho desenvolvido de forma a minimizar a enorme latitude de experiências e práticas que variam entre a excelência e o atropelo de direitos de alunos e famílias bem como de desrespeito do trabalho de professores e técnicos.
Finalmente apenas mais uma referência à urgência de repensar os modelos de envolvimento de entidades e técnicos exteriores à escola no período da escolaridade obrigatória. Com base em fórmulas de outsourcing muito dificilmente se promove educação de qualidade e inclusiva.
Muitas outras questões merecem atenção pelo que, provavelmente, voltaremos a esta matéria
A ver vamos o que acontecerá. No entanto, seria crucial que desde logo se assumisse que sendo importante "melhorar o enquadramento legal" tudo o resto é fundamental, autonomia das escolas, efectivo de turma, recursos, meios, qualificação, supervisão e regulação, envolvimento e participação dos pais, etc., etc.

DO ENSINO SUPERIOR

O Governo considera a hipótese de que o Ensino Politécnico atribua o grau de doutoramento.
A proposta assenta no entendimento de que este doutoramento teria uma natureza mais profissional e maior ligação às empresas em nome da sempre presente “funcionalidade” e “aplicabilidade” do conhecimento.
Parece-me ajustado que a formação de 3º ciclo, o doutoramento, possa ser de natureza profissionalizante, mesmo no cenário actual em que os doutoramentos são da responsabilidade exclusiva das universidades ou institutos universitários, mas tenho alguma reserva face à intenção agora conhecida até porque, como a tutela entende, muitos dos institutos politécnicos difilmente terão condições para atribuição do grau.
O que me parece essencial, mas evidentemente mais difícil politicamente, é a reorganização da rede e a análise do papel do ensino superior universitário e politécnico num país com a nossa escala e com uma rede, pública e privada, altamente sobredimensionada.
Porque não a transformação dos Institutos Politécnicos em Universidade com a integração e diversificação da tipologia da oferta? Porque não o aprofundamento de associações ou consórcios que racionalizassem a oferta, em vez de todos a fazer tudo ou quase tudo, numa dispersão por vezes redundante para a nossa escala e a introdução de mais “oferta” com contornos pouco claros?
Este caminho de “meia licenciatura”, “meio mestrado” e, eventualmente “meio doutoramento”, é mais fácil, vai ao encontro das necessidades estatísticas, mas coloca dúvidas relativamente à sua eficácia e à manutenção de uma rede manifestamente desajustada e mais pesada em termos económicos, a que acresce ainda o subsistema privado, universitário e politécnico.

OS CASTIGOS NA FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS. Umas notas na Visão

Umas notas na Visão sobre a temática sempre em discussão do uso de castigos na educação de crianças e adolescentes.

OS CASTIGOS NA FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS

A SINISTRA PACC FINOU-SE. DEFINITIVAMENTE

O Presidente da República promulgou a legislação que põe fim Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades de acesso à carreira docente.
É definitivo, a sinistra PACC - Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades para acesso à carreira de professor, tal como a conhecemos, finou-se. Ainda bem, esta "coisa", da forma que foi estruturada, não avaliava nem conhecimentos nem capacidades para se ser professor. Para além de incompetência estava também ferida de indignidade.
A única forma de avaliar “conhecimentos e capacidades” para se ser professor é avaliar o trabalho em sala de aula. Não é novo, não é difícil, é preciso, "apenas" decidir que assim seja.
A sinistra PACC, tal como foi operacionalizada, era uma coisa "facilitista" vindo de um Governo que tinha como bandeira combater o "facilitismo". É verdade que não foi a única contradição nestes termos.
No entanto, convém não esquecer, a memória atraiçoa-nos por vezes, que a PACC foi legislada pelo PS que agora votou pelo seu fim.
Continua ainda por construir um verdadeiro sistema de avaliação de professores, uma ferramenta imprescindível na promoção da qualidade do trabalho educativo, na regulação e valorização do desempenho profissional e na valorização social dos professores.

terça-feira, 7 de junho de 2016

NINGUÉM CABE NUMA FOTOGRAFIA

(Foto de Mico)

O Professor velho lá da minha escola disse-me uma vez que ninguém cabe numa fotografia, sempre.
Um dia, vou ser capaz de sair desta fotografia. Então, vão ver o mundo bonito que vai ser o meu.

OUTRA HISTÓRIA DA INCLUSÃO

Ao que se lê na imprensa existe um grupo de seis alunos com autismo, com idades entre os 16 e os 18 anos, que frequenta a Escola EB 2,3 de Gualtar. Dado o seu trajecto escolar estes alunos já deveriam estar a frequentar a Escola Secundária do Agrupamento, a Escola Carlos Amarante. Esta alega a falta de sala embora segundo a notícia não seja plausível a justificação. Um vereador do Município de Braga afirma ”Entendemos que não faz sentido que jovens com 18 anos se arrastem na frequência escolar, de ano para ano, numa escola básica, desde logo fora do contexto e quando têm, ainda por cima, níveis de aproveitamento satisfatório”.
Estou a referi-me a esta situação através de uma notícia que, evidentemente, não posso confirmar. No entanto, conheço algumas outras situações com contornos da mesma natureza.
Muito brevemente recordo alunos que são precocemente e sem qualquer fundamentação sólida colocados ao abrigo de uma coisa bizarra chama CEI, rótulo de que não se livram e os condena a um espaço curricular, quando não físico, guetizado e sem participação nas actividades comuns da escola. Recordo práticas observadas em Unidades de Ensino Estruturado cujas actividades têm um baixíssimo contacto com a restante comunidade escolar. Recordo Unidades de Apoio Especializado a Alunos com Multideficiência que alunos com multideficiência têm … nenhum e estruturam-se em espaços fechados nas escolas. Recordo … . Curiosamente tudo isto acontece, tal como as boas experiências, em nome da inclusão.
É verdade que quem como eu acompanha este universo há algumas décadas não pode deixar de reconhecer o quanto se avançou mas é imperativo reconhecer o quanto está por fazer por uma educação de qualidade e de qualidade para todos. Neste sentido é fundamental a importância e a necessidade de uma pressão constante no sentido de promover uma educação que acomode a diversidade e necessidades de todos os alunos.
A educação inclusiva e a equidade em educação não decorrem de uma moda ou opção científica, são matéria de direitos pelo que devem ser assumidas através das políticas e discutidas, evidentemente, na sua forma de operacionalizar. Aliás, poderá afirmar-se, citando Biesta, que a história da inclusão é a história da democracia, a história dos movimentos que lutaram pela participação plena de todas as pessoas na vida das comunidades, incluindo, evidentemente, a educação.
Nesta perspectiva e apesar de excelentes exemplos de boas práticas os tempos que vivemos continuamos também tempos de exclusão, de competição, de desregulação ética e de oscilação de valores que atingem, evidentemente, os mais frágeis, caso das crianças e jovens com necessidades educativas especiais e as suas famílias.

PARTIU JEROME BRUNER

Aos 100 anos partiu ontem Jerome Bruner, uma figura do maior relevo na Educação, na Psicologia, na Cultura.
Para todos nós foi os que nos movemos nestas áreas, é e será seguramente um referência.
Fica a inspiração e o conhecimento. Guardo ainda uma simpática mensagem pessoal deixada num dos seus livros quando esteve em Lisboa em 2013 para receber um Doutoramento Honoris Causa na nossa escola.
Deixou ainda nessa sessão mais uma notável conversa. Fica aqui o registo dessa memorável manhã.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

TEMOS QUE SER AMIGUINHOS

Paulo Portas vai trabalhar com a Mota-Engil

O Dr. Portas é claramente um construtor de altíssimo nível e com um currículo invejável. A Mota-Engil acaba de adquirir um activo, como agora se diz, altamente valioso e uma autência gazua económica, abre negócios como ninguém. Depois do Dr. Coelho vem o Dr. Portas.
Ainda dizem que não há consensos.

UM DIA PERFEITO

Estranhamente, porque não era hábito, levantou-se com a melhor das disposições para enfrentar mais um dia.
A mulher, já a pé a despachar os filhos para a escola, sorriu para ele. Estranhou, não era hábito.
A torrada não ficou queimada como de costume e saiu de casa estranhamente bem-disposto, mas com a vaga sensação de que se tinha esquecido de algo.
O Luís, o do café, para sua surpresa não gozou com o seu Sporting enquanto tomava a bica. Mantinha a sensação de que se tinha esquecido de alguma coisa.
A manhã de trabalho no banco foi perfeita, só clientes simpáticos e com problemas simples. Estranhou, a si sempre lhe tocavam os chatos que só percebem o que se lhes explica à décima vez. Continuou com a sensação de que se tinha esquecido de algo.
O almoço foi excelente no sítio do costume. Até, contra o que era hábito, o seu prato preferido ainda não tinha esgotado. Ainda deu para dar uma volta no centro comercial e cruzar-se com duas mulheres, lindíssimas, que lhe retribuíram o sorriso. Mas a sensação de que se tinha esquecido de algo continuava.
O resto do dia de trabalho correu lindamente. O Chefe, o Dr. Lopes, em vez de o chatear ao fim do dia com algum processo para despachar com urgência, teve quase uma hora de conversa sobre banalidades e namoradas. Quando voltou para casa, sempre com a sensação de que se tinha esquecido de alguma coisa, os miúdos estavam entretidos a brincar, quietinhos, sem a algazarra do costume e sem o obrigarem a deitar-se no chão para os levar às cavalitas. A mulher, que o recebeu com um beijo daqueles de que já não se lembrava, tinha preparado um petisco de se lhe tirar o chapéu. A sensação de que se tinha esquecido de algo continuava. Já tarde, contra o que era hábito, recordou com a mulher as primeiras noites de paixão. Quando, depois do dia perfeito, se preparava para dormir, lembrou-se, finalmente, do que se tinha esquecido logo de manhã.
Tinha-se esquecido de acordar.

ESTÃO AÍ AS PROVAS DE AFERIÇÃO

Cerca de 175 000 alunos do ensino básico do 2º, 5º e 8º ano do ensino básico iniciam hoje a realização das provas de aferição. Estes alunos pertencem a 2800 escolas, as que decidiram realizar este ano estas provas e que correspondem a 57% do universo de escolas.
Como já aqui tenho escrito, este processo desenvolveu-se com vicissitudes dispensáveis e com conteúdos que me levantam alguma reserva embora considere genericamente que as provas de aferição são uma opção correcta.
A eliminação dos exames e a sua substituição pelas provas de aferição não ocorreu com o calendário mais aconselhável, depressa e bem não há quem.
Por outro lado, as reacções levaram o ME a definir que em nome da autonomia as escolas decidiriam se as realizariam ou não este ano. No entanto, curiosamente, a autonomia das escolas nesta matéria extingue-se para o próximo ano pois as provas serão de realização obrigatória. Evitável.
Como também tenho afirmado, continuo com muitas dúvidas sobre a realização das provas de aferição em anos intermédios dos ciclos, 2º. 5º e 8º. Uma aferição, creio, deverá ser realizada no final de um período de aprendizagem. Só nessa altura será possível “aferir” os resultados que se encontram face aos resultados que se esperam e ter uma visão global comparativa.
Uma avaliação durante um período de trabalho com o objectivo de detectar dificuldades e corrigir trajectórias é evidentemente um requisito de qualidade mas é, do meu ponto de vista, uma avaliação de diagnóstico, de regulação, não de aferição.
Por outro lado, no seu desenho e conteúdo, estas provas de aferição são mais completas que o modelo antigo o que me parece de sublinhar.
Em primeiro lugar, no 1º ciclo contemplam a área curricular “Estudo do Meio” e para o ano contemplarão as Expressões.
No 5º e 8º este ano serão apenas avaliadas as áreas de Português e Matemática mas a partir do próximo ano envolverão rotativamente outros conteúdos curriculares.
É ainda relevante que em Português será também avaliada a componente da oralidade.
Uma outra questão que também já referi em textos anteriores é a disponibilização para pais e encarregados de educação de um Relatório detalhado do desempenho dos seus educandos nas provas de aferição. As escolas, terão também, naturalmente, a informação completa.
Entendo, claro, que os pais e encarregados de educação devem ser, tanto quanto possível, envolvidos e informados sobre o trajecto escolar dos seus educandos. No entanto, também sei das dificuldades sentidas neste envolvimento e o nível de literacia e qualificação escolar dos pais e encarregados de educação, factor que continua, aliás, a ser uma das variáveis mais fortemente associada ao desempenho escolar dos filhos.
Sendo provável que os alunos com desempenho mais baixo terão os pais com menor nível de qualificação escolar coloca-se uma questão em termos de educação familiar. Que farão os pais destes alunos com o “relatório” que receberão sobre o desempenho dos filhos nas provas de aferição? Partindo do pressuposto da sua dificuldade em os ajudar e da impossibilidade de recorrer a ajudas externas à escola fica a eterna questão, que fará a escola com estes resultados que, aliás, serão certamente coerentes com os resultados das avaliações realizadas em sala de aula pelos professores no âmbito do seu regular processo de trabalho?
Aqui surgem algumas dúvidas pois, defendendo as provas de aferição como instrumento regulador e imprescindível como ferramenta contributiva para o trabalho de alunos e professores, coloca-se uma questão, terá a generalidade das escolas recursos (tempo, docentes e técnicos) e autonomia para organizar dispositivos de correcção de trajectórias escolares de insucesso ou em risco detectadas nestas provas de aferição?
Gostava de ser optimista, quero ser optimista mas … espero para ver.

DA INCLUSÃO. A HISTÓRIA DO RICARDO

O Ricardo foi impedido de entrar com uns amigos numa discoteca de Lisboa. O Ricardo usa cadeira de rodas para se deslocar e como justificação para a recusa disseram-lhe que não havia acesso rampeado às casas de banho.
Recusaram ao grupo o livro de reclamações mas duas amigas já no interior conseguiram reclamar. A situação alterou-se um pouco sendo então o Ricardo autorizado a entrar se cada elemento dos 15 que constituíam o grupo pagasse 300€. Outra maneira de barrar o acesso.
Mais uma história sobre o que está por fazer e de como a vida das pessoas com deficiência é uma contínua corrida de obstáculos sendo que os mais difíceis de minimizar ou eliminar são os muros dentro das cabeças e das atitudes.
Como sempre afirmo o verdadeiro critério da inclusão é a participação nas actividades comuns das comunidades em que as pessoas, todas as pessoas, vivem. Tem sido sempre assim, a história da inclusão é a história da democracia, da participação de todos.
O episódio mostra como essa participação é inibida e recusada, explicitamente..
No entanto e a este propósito volto a uma questão que várias vezes aqui refiro e que me preocupa muitíssimo, a proliferação de situações, desde crianças a adultos com necessidades especiais, que "vivem do lado de fora" das actividades das comunidades educativas e das actividades comuns das comunidades a que pertencem.
Pois é Ricardo, essa coisa de ir a um espaço de diversão com os amigos não é para todos., Desculpa lá, pá, mas usas uma cadeira de rodas e os outros clientes podem ficar incomodados, vai até casa e vê televisão. É melhor para ti, é mais sossegado. Para todos.

domingo, 5 de junho de 2016

ALUNOS COM NECESSIDADES ESPECIAIS E ENSINO SUPERIOR

Deputados do PS vão apresentar um projecto de resolução no sentido de tornar a frequência do ensino superior mais “amigável”, por assim dizer, a alunos com necessidades especiais.
Dados de 2014 mostram que em 94 de 291 instituições do ensino superior afirmaram a existência de serviços de apoio para alunos com deficiência.
O projecto de resolução envolve a disponibilização de apoio pedagógico personalizado e adequação do processo de matrícula, das unidades curriculares, do processo de avaliação. É ainda referido o incremento da ”potencialidades da era digital”.
Por princípio, qualquer iniciativa no sentido de minimizar a longa corrida de obstáculos que é a vida das pessoas com necessidades especiais é bem-vinda e merece registo.
No entanto, creio que, para além de aspectos mais evidentes como a acessibilidade, o apoio pedagógico e a utilização de dispositivos diferenciados nos materiais de apoio das unidades curriculares, da diferenciação nos processos de avaliação ou o recurso às tecnologias não serão os grandes obstáculos. Tenho alguma experiência de docência no superior com alunos com necessidades especiais e não sinto que sejam estas as questões centrais.
Também não me parece imprescindível que as instituições sejam “obrigadas” a criar “serviços de apoio” a alunos com deficiência. Do meu ponto de vista, procurar responder da forma a adequada às necessidades de TODOS os seus alunos é a essência do trabalho de qualquer instituição educativa e de qualquer docente, com maior ou menor dificuldade.
A questão mais importante decorrerá, creio, das barreiras psicológicas e das atitudes, pessoais e institucionais, seja de professores, direcções de escola, da restante comunidade, incluindo, naturalmente, os alunos com necessidades especiais.
Também é minha convicção de que as preocupações com a frequência do ensino superior por parte de alunos com necessidades especiais é fundamentalmente dirigida aos alunos que que manterão as capacidades suficientes para aceder com sucesso à oferta formativa tal como ela existe,
No entanto, um grupo muito significativo de alunos é desde muito cedo trancado num gueto chamado CEI (Currículo Específico Individual) e acontece que muitos destes alunos no final da escolaridade obrigatória são “aconselhados” a recorrer a instituições especializadas.
Eu sei que existem boas práticas mas já tenho referido por aqui muitas situações desta natureza.
E para estes não há o “depois” da escolaridade obrigatória, a institucionalização generalizada não parece a mais ajustada em nome do que se defende para a sua educação até aos 18 anos e para sua vida como cidadãos, educação e inclusão, sendo certo que o recurso generalizado ao CEI não é, em muitos casos a forma adequada de promover … inclusão.
A inclusão assenta em quatro dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade).
O envio destas pessoas para as instituições contraria tudo isto e o que foi procurado fazer antes dos 18 anos ainda que, como vimos, nem sempre bem.
As pessoas com NEE depois dos 18 anos devem ser, estar, participar e pertencer aos contextos que todas as outras pessoas com mais de 18 anos estão.
Porque não podem frequentar estabelecimentos de ensino superior? Sim, frequentar o ensino superior onde estão jovens da sua idade e em que a oferta educativa e a experiência proporcionada pode ser importante.
Porque não podem frequentar espaços de formação e aprendizagem profissional?
Porque não podem frequentar espaços laborais?
Porque não podem frequentar espaços de recreio, cultura e lazer?
Porque não pode envolver-se em instituições sociais não como “clientes” mas como actores?
Porque não …
Não, não é nenhuma utopia. Muitas experiências mostram que não é utopia.
O primeiro passo é o mais difícil, tantas vezes o tenho afirmado. É acreditar que eles são capazes e entender que é assim que deve ser.
Será que os deputados pensaram nestas pessoas? Vou acreditar que sim e esperar para ver.

A CRIANÇA É UMA ARMA

Dois colégios privados investigados por pressionarem alunos

Como há poucos dias aqui escrevi não existem guerras limpas. A turbulência e o peso dos interesses atropelam e esmagam ética e valores.
Esta guerra, a dos contratos de associação com estabelecimentos de ensino privado, tem mostrado coisas muito feias e tóxicas. É particularmente inquietante que tudo isto se passe no território da educação e em nome da qualidade.

(IN)DIFERENÇA

Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez 
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.
Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

Este texto, “Indiferença”, atribuído a Brecht vem a propósito da existência de uma unidade hoteleira no Minho que não aceita gays e lésbicas nas suas instalações.
Será que ficamos indiferentes?

O ILUMINADO HENRIQUE MONTEIRO E OS NEGÓCIOS EM EDUCAÇÃO

De uma forma mais ou menos explícita o Expresso vai cumprindo a sua agenda.
O texto de Henrique Monteiro, "Estado, Público e Privado" é um exemplo muito elucidativo de como a manipulação, a intoxicação e a manhosice com as palavras se colocam ao serviço da ideia que se quer vender. Neste caso vende-se a ideia de que o estado deve financiar negócios privados de educação mesmo quando existam respostas públicas de qualidade e suficientes. 
Conclui o opinador que “o que é publico não tem de ser propriedade do Estado” porque “público quer dizer acessível a todos e, tal com os espectáculos públicos, não tem de ser pertença do Estado”.
Como é evidente, não tenho forma saber se o opinador quando escreveu isto conseguiu fazê-lo sem se rir, mas que é um extraordinário exemplo de empreendedorismo intelectual, lá isso é.
Na verdade, se não fosse sério, seria anedótico.
O despudor é grande.

sábado, 4 de junho de 2016

NASCER E CRESCER PRESO

Como fala Sam The Kid existe uma percentagem que a sondagem nunca mostra. O DN aborda a situação de crianças até aos 3 anos que vivem na prisão com as respectivas mães que cumprem penas.
Estas crianças já nascem ou crescem presas. Não duvido que seja tentado disponibilizar a melhor atenção possível em instalações e cuidados educativos mas … estão presas.
Sim, eu sei que as suas mães cometeram algum tipo de crime que justificará a sua reclusão. Mas que crime cometeram estes miúdos? Terão nascido no lado errado da vida.
Terão a possibilidade de (cres)ser como os outros miúdos? Ficarão presos em várias formas de prisão durante a sua vida como acontece a tantos outros?
Não seremos capazes de fazer melhor?

DA GERINGONÇA

O Congresso do PS, como todos, tem uma forte componente litúrgica. Do caderno de encargos está a destacar-se a tentativa, falando para dentro e para fora como se costuma dizer, de reforçar e  mostrar a solidez da geringonça.
Não me substituo aos analistas políticos, aos comentadores, opinadores e demais politólogos mas, do meu ponto de vista, é importante que a geringonça funcione. 
Como já escrevi e muita gente afirma são tempos históricos e, do meu ponto de vista, uma oportunidade única para reverter, como agora se diz, uma política fundamentalista austeritária que atropelou muitos milhares de pessoas empurradas para desemprego, exclusão e pobreza.
Uma nota. Não sou simpatizante fidelizado de nenhum dos partidos signatários do acordo o que não obsta a que tenha um posicionamento de natureza ideológica, sim ideológica, que me faça assumir a necessidade e a esperança num caminho diferente do tivemos com PSD e CDS-PP.
As dificuldades internas e externas serão imensas, os mercados e e os seus servidores desejam um falhanço que devolva o poder a quem os serve. Podemos, aliás, verificar como se esforçam nesse sentido.
O caminho é difícil, os obstáculos e armadilhas são muitos e grandes, a margem de erro é estreita, mas não podem falhar na construção e manutenção de uma outra via mais amigável para as pessoas. É esse o sentido da mudança necessária.
Não podem falhar por responsabilidade vossa.
A história não vos absolverá. Não transformem a geringonça que anda numa passarola voadora que não voou.

TOURADA PEDAGÓGICA

No DN pode ler-se uma entrevista um senhor que podemos designar por aficionado, o nome dados aos que gosta de touradas, da “festa brava”.
A entrevista previsivelmente girou em defesa da arte taurina com os argumentos mais habituais.
Desta bondade e riqueza pedagógica e educativa apoiada numa elaborada justificação nunca me lembraria ao ver um “espectáculo tauromáquico”.
Neste sentido e procurando entrar nesta dimensão mais pedagógica e educativa aqui fica uma pequena e despretensiosa história.
Era uma vez uma terra, ou melhor, várias terras, em que num espaço fechado se juntam muitos animais a assistir a um espectáculo em que outro grupo de animais faz sofrer outros animais. Uns animais, a pé ou montados noutros animais. espetam ferros nos animais. Em algumas terras, alguns animais matam também com uma ferro, uma espada, os outros animais para acabar o espectáculo. Dizem que é um espectáculo cultural.
Nessas terras também existem animais que não gostam do que os outros animais fazem aos animais e protestam.
Parece que agora se discute se alguns animais mais pequenos podem assistir ao espectáculo dos animais maiores a fazer sofrer outros animais, ou mesmo, se os animais mais pequenos devem poder fazer sofrer outros animais. Alguns animais acham que esse espectáculo de fazer sofrer outros animais pode não ser bom para os animais pequenos, outros animais acham que não faz mal, a vida dos animais é assim.
Parece na verdade muito complicado o mundo dos animais. Talvez as coisas se alterem quando os animais mais pequenos acharem assim um bocado estranho haver uns animais grandes que se divertem a fazer sofrer outros animais.
Até lá, de vez em quando, teremos touradas. Lamentavelmente.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

GOSTEI DE LER, "A MORALINA FRANCISCANA"

Gostei de ler o texto de António Guerreiro, "A moralina franciscana".
É uma peça que produz uma análise fina da estatura intelectual e do pensamento(!) político de Francisco Assis, um dos iluminados opinadores da praça. O texto tem ainda a vantagem de, do meu ponto de vista, expressar um sentido de humor que apreciei.

(...)
O político intelectual procede através de grandes conceitos: ele é a “razão na sua versão ocidental”, ele é a “a ideia de progresso”, ele é o Iluminismo. Trata-se de um processo que consiste em insuflar grandes palavras e conceitos, de modo a inchar demagogicamente o discurso. Mas quando os olhamos de perto, os grandes conceitos reduzem-se a significações pindéricas.
(...)

DA DESMATERIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO

Apesar de terem sido descontinuados, como agora se diz, alguns estabelecimentos de ensino privado, realizarão provas finais de 4º e 6º ano. Estas provas realizam-se de forma experimental através de resposta online. O presidente do IAVE entende que este dispositivo pode vir a ser generalizado também ao ensino público enunciando algumas das potenciais vantagens.
Como é evidente, sinais dos tempos, também na educação o recurso a metodologias desta natureza é inevitável e foi iniciado há muito.
No entanto, do meu ponto de vista, provavelmente algo conservador, a “desmaterialização” nos processos educativos tem alguns limites.
O trabalho educativo, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade, assentará sempre na relação entre professor e alunos que não pode, não deve, ser “desmaterializada”. Um dos riscos de turmas muito grandes é, justamente, o risco de comprometer a relação educativa por insuficiência de tempo e recursos.
Quando abordo estas questões cito com frequência uma afirmação de 2000 do Council for Exceptional Children, "O factor individual mais contributivo para a qualidade da educação é a existência de um professor qualificado e empenhado".
No entanto, a existência de professores qualificados e empenhados não depende só de variáveis individuais de cada docente, decorre também de um conjunto de políticas educativas que promovam a qualificação, a motivação e a valorização a diferentes níveis do trabalho dos professores.
De políticas educativas que em termos genéricos e em termos mais particulares como currículos, sistema de organização, recursos humanos docentes, técnico e funcionários, tipologia e efectivo de escolas e turmas, autonomia das escolas são apenas alguns exemplos.
E nesta matéria ainda temos muito trabalho para materializar.
A desmaterialização, as novas tecnologias, é mais uma do conjunto de ferramentas e dispositivos ao serviço do essencial, a relação professor - aluno.

PROFETAS DA DESGRAÇA

A leitura do Observador é sempre uma lição sobre a partidocracia e a gestão da agenda dos seus interesses.
É admirável a persistência, o esforço, e habilidade criativa e manhosa com que diariamente se profetizam as desgraças que a "esquerda", a "geringonça" vai trazer. Todos os números, todos os indicadores, pertinentes ou não, são torturados, manipulados e vendidos mostrando que o o inferno vem já aí, está por pouco tempo.
Sob a capa da "análise", da "opinião", os opinadores radicais e tóxicos tentam demonstar com atrás da direita ... só o dilúvio.
Não podem dizê-lo, fica-lhes mal, mas anseiam que tudo corra mal, quanto pior melhor, as desgraças que anunciam serão a confirmação dos seus desejos.
Não, não me afligem as diferenças ideológicas, é o que se deve esperar de sociedades democráticas e abertas.
Só me aflige o preço que que desejam que paguemos para que tenham razão. 
Não terão.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

DAS LEIS NECESSÁRIAS

Foi aprovada e entrará brevemente em vigor legislação que determina que em todas as entidades “públicas e privadas, singulares e colectivas que prestem atendimento presencial ao público” as pessoas com deficiência, grávidas, com crianças pequenas e idosos passam a ter direito, agora em forma de lei, a atendimento prioritário.
Idealmente, uma sociedade desenvolvida, eticamente saudável e atenta a todos os seus elementos e às suas necessidades não deveria precisar de leis desta natureza. No entanto, de há muito que aprendi que a realidade não é a projecção dos meus desejos apesar de muitos discursos de lideranças políticas definirem o que é a realidade por maior que seja a diferença entre o que dizem e o que vemos e sentimos.
Esta matéria recordou-me um episódio passado num no qual participei realizado numa cidade alentejana e dedicado às questões da inclusão, em particular das pessoas com deficiência.
Uma das pessoas presentes, que se desloca em cadeira de rodas, contou uma história interessante e elucidativa.
Ao deslocar-se de automóvel para uma zona comercial da cidade onde vive e quando se preparava para estacionar no espaço reservado a pessoas com deficiência, estava a estacionar um cidadão sem deficiência a quem o nosso amigo chamou a atenção para a sua condição e para o facto de aquele ser um espaço reservado.
Sintetizando a história, acabou por ouvir do "cidadão" que "tinha sorte em ser deficiente porque se o não fosse as coisas não ficavam assim". Esclarecedor.
O meu amigo, homem que entende não dever resignar-se procurou um agente da autoridade para apresentar queixa da ameaça e da infracção.
O agente da autoridade aconselhou o nosso amigo a não se "chatear" só por causa de um lugar de estacionamento. O nosso amigo não aceitou o conselho e continuou a reclamar os seus direitos. Acontece que é brasileiro e o agente da autoridade acabou por achar que ele devia era estar no país dele em vez de andar por aqui a chatear cada um.
Creio que é dispensável comentar quer a atitude do "cidadão", quer a atitude e comportamento do "agente da autoridade".
Por este tipo de coisas e a regularidade com que acontecem, o nosso amigo que usa a cadeira de rodas dizia que mais do que o "peso" da cadeira de rodas é difícil suportar as dificuldades criadas pelas atitudes e valores de muitas pessoas.
É só um exemplo do muito que está por fazer.
Assim sendo, que se protejam legalmente os direitos das pessoas bem como se regulamentem os deveres. Pode ser que mudem os comportamentos.

HISTÓRIA COM DOIS MIÚDOS E MUITOS BRINQUEDOS

Um dia, a Maria precisou de levar o filho, o Luís, para a casa onde trabalhava porque ele não podia ficar na escola naquela tarde. Por coincidência, o Martim, o filho da Sra. Dra., miúdo quase da mesma idade do Luís, também veio mais cedo do colégio. Os dois miúdos aproveitaram para brincar um bocado. A lida da escola quase nem deixa tempo para brincar.
Quando o Luís entrou no quarto do Martim ficou um bocado admirado.
Tantos brinquedos, são mesmo muitos.
Dão-me muitos brinquedos, estão sempre a trazer, muitas vezes nem peço nada.
Fixe. Posso jogar com esta consola?
Podes, tenho três, essa é a mais nova.
Três, grande sorte.
Tu não tens consola?
Não.
A tua mãe não te compra?
Compra, eu é que não quero. E tens dois computadores!
Sim esse portátil e aquele em cima da mesa com o ecrã grande para ver filmes.
Mesmo fixe.
Não tens computador?
Tinha um que me deram na escola, o Magalhães mas está avariado há muito tempo.
A tua mãe não te compra um?
Compra, eu é que não quero. Mas tens tantos jogos! E filmes! E livros!
Que filmes é que tu tens, podíamos trocar.
Eu não tenho filmes.
A tua mãe não te compra filmes?
Compra, eu é que não quero.
Entretanto a Maria, a mãe do Luís, veio chamá-lo para irem embora, já tinha chegado a Sra. Dra. e ficava com o Martim. O Luís saiu a olhar para aquelas coisas todas que a mãe não lhe comprava porque ele não queria.

PS – Vem este texto a propósito da notícia referente ao ressurgimento da Majora, sim, a Majora dos jogos da nossa infância. Num clima em que o tempo para brincar vai rareando e é sobretudo dirigido à electrónica é bom voltar a encontrar os jogos de tabuleiro e outros brinquedos produzidos pela Majora.
O brincar da infância vai-se encurtando, algum dia os miúdos vão nascer crescidos para já não precisarem de brincar.
No entanto, como sempre digo, brincar é a coisa mais séria que as crianças fazem. No brincar põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que vão ser.

ENCONTREI O MEU AMIGO CAJÓ, NÃO ANDA NADA BEM

Há dias fui à inspecção com o carro e à saída fui tomar uma bica e encontrei o meu amigo Cajó, vocês sabem quem é, tem um Punto todo kitado e trabalha como mecânico na oficina do Sr. Manel.
Estranhei o Cajó, um tipo sempre bem disposto, estava no café com uma cara que até a mini estava assustada.
Então Cajó, algum problema com algum carro aqui na inspecção? É consigo? A família está bem?
Ó amigo Zé, tudo bem consigo? A Odete tá fina e os putos também, a vida é que tá complicada. O Sr. Manel anda a dizer que a oficina tá a dar pouco, o piple não tem grana, corta-se nas revisões e ainda demoram a pagar. O homem diz que assim não é fácil ter guito ao fim do mês para pagar ao je. Tá a ver, a minha Odete agora só faz as folgas da prima na loja do centro comercial e os putos só pedem dinheiro pá escola. Tou aqui tou a ficar arrasca, se o Sr. Manel não se orienta, atão inda é pior.
É, a vida está difícil
Para lixar mais a cabeça a um gajo, você viu o ganda roubo que fizeram ao meu Sporting? Foi sempre a gamar o Sporting, acham que somos uns tótós e carregam, veja lá se se metem com o Pintinho do Porto ou com vocês, os lampiões?  Basta ouvir o Octávio e vê-se logo como é que vocês ganharam o campeonato. Para ajudar, a mãe da Odete também anda mal das varizes, o médico diz que era melhor operar, mas a velhota tá com medo e diz que não tem massa, sei lá. Tá a ver o granel onde tou metido. Inda por cima a directora de turma do meu Tólicas mandou dizer que o chavalo se tinha passado na aula e mandou um calduço numa miúda. Tive que lhe dar, já tenho cenas que cheguem para me dar cabo da carola. Depois um gajo vê aí pessoal que crise é mentira, não lhes falta nada, não percebo donde é que ele vem. Cá p’ra mim andam metidos nuns caldinhos. Eu ando armado em boa pessoa, fico arrasca, e esses gajos orientam-se na boa. O mundo tá uma merda, amigo Zé.
É preciso calma Cajó.
Calma o caraças, amigo Zé. Você já viu, o Governo mudou e eu tou na mesma. Os gajos orientam-se e pr’á gente nada. Agora anda aí essa cena dos colégios, ganda treta, cheira-me que é um ganda negócio.
Estava aqui a ler que o Governo quer que a gente se mexa mais, suba escadas e não use o elevador.
Outra tanga, os gajos que não fazem nada é que andam nessa cena dos ginásios, têm massa e tempo. Um gajo como eu passa o dia a vergar a mola e vai fazer exercício. Tão mas é queimados.
Vai mais uma mini Cajó?
Pode ser, ao menos a mini não tá em crise, tá sempre boa. Por falar em boa, você já viu aquela dama que vem a entrar? Passava-me já a crise.
O Cajó é um cromo, por assim dizer.

A LER, "ILEGÍTIMAS EXPECTATIVAS ... PORQUE SERÁ?"

Interessante o texto do Professor Filinto Lima no Público, "Ilegítimas expectativas ... Porque será?", ainda sobre a questão dos contratos de associação entre o ME e alguns estabelecimentos de ensino privado.

Ilegítimas expectativas… Porque será?

quarta-feira, 1 de junho de 2016

UMA OUTRA LIBERDADE DE ESCOLHA EM EDUCAÇÃO

Ainda a propósito da desgastada liberdade de escolha que, nas mais das vezes, significa verdadeiramente a liberdade de escolher os alunos que “dignifiquem” a nossa escola e mantenham o seu prestígio recupero uma história que fala de uma outra liberdade de escolha em educação, esta verdadeiramente impossível. Já verão.
Um dia destes estava à bica num café pequenino, daqueles de bairro, e ouvi, não pude deixar de o fazer, uma conversa entre duas mães que me pareceram Mães, isto é, mulheres que adoptaram verdadeiramente os filhos, porque há mulheres, poucas felizmente, que são mais prestadoras de serviços à infância do que propriamente mães.
Uma delas, mais faladora, mostrava alguma preocupação e inquietações relativamente à educação de um gaiato, pelo que percebi, de uns oito anos. Achei curioso o discurso e vou tentar recuperá-lo.
Pois é, muitas vezes, nem sei o que fazer, ele faz asneiras, vou para me zangar com ele e lembro-me que estou tão pouco tempo com ele que se me zangar, nem esse tempo me sabe bem. Eu acho que ele vem cansado da escola, está lá desde as 8, vai com o pai porque eu saio às 7 de casa, vou buscá-lo eu já perto das sete e meia, eu também venho cansada. Depois é a lida do jantar e do banho, estás a ver que tempo é que eu tenho para ele. Dizem que a gente devia brincar com os filhos, falar com eles, mas quando? Quase sempre é preciso ainda um tempo para os trabalhos de casa e também tenho que dar uma ajuda que ele já não se aguenta. Ao jantar, aproveitamos para ir vendo as notícias que é quando temos alguma hipótese. Por vezes ainda começo a falar com ele ao deitar mas ele adormece logo e eu também vontade não me falta. Este ano ainda não consegui ir às reuniões da escola, foram sempre a horas que eu não podia. Lá no trabalho se falto começam logo a fazer má cara, como as coisas estão, sabes como é. Não sei se aconteceu contigo, mas este ano pediram para comprar muitas coisas para a escola. Não foi nada fácil, está tudo muito caro, a gente tem que fazer alguns sacrifícios mas fica difícil, lá comprámos o computador, ele ficou contente e não quer outra coisa. Às vezes já me explica algumas coisas, eu percebo pouco daquilo mas ele fica contente de me explicar, mas é um bocadinho ao fim-de-semana, sempre com falta de tempo. Mas é a vida assim, a gente é mãe, é para isto não é, a gente é que quisemos que eles nascessem e ainda bem. E quando vejo o ar dele a dormir, bem quieto, até parece que está rir-se para dentro, fico contente e acho que vale a pena a luta dos dias.
Sabes o que ele me disse no outro dia já nem me lembro a que propósito, “mãe, se os miúdos pudessem escolher as mães, eu escolhia-te à mesma”.
Eu também, pensei para comigo.
Mas nesta matéria não há mesmo liberdade de escolha.

BAIXEM O SOM

Finalmente. Trata-se de uma medida de protecção da saúde pública e de contenção na pressão da publicidade.

Aumento do som das televisões durante a publicidade acaba hoje

O DIA DOS MIÚDOS

A agenda das consciências determinou para hoje o Dia da Criança. A liturgia variada associada à efeméride vai acontecer, como de costume. As visitas, os passeios, as festas, etc., as idas a espectáculos de todas as naturezas mostrarão uma comunidade preocupada em fazer as crianças felizes, muitas até parecem, outras terão de passar por um dia calorento e cansativo. 
A imprensa fará eco das múltiplas eventos dirigidos às crianças, ouvirá, por uma vez as crianças e produzir-se-ão, certamente, muitos discursos dirigidos aos miúdos e ao seu mundo. 
Claro, neste dia, ouvi-las sobre o que pensam do mundo, do seu mundo e da vida das pessoas, é "giro". É verdade que passa depressa, amanhã já não as ouvimos sobre o que as inquieta e lá voltam os miúdos, muitos, a gritar e a agitar-se para se fazerem ouvir.
Tudo bem, pois que seja. Este tipo de efemérides serve também para isso mesmo, a encenação, sempre bem intencionada da preocupação que descansa as consciências
É verdade, felizmente, que muitas crianças vivem felizes, por assim dizer, adoptadas pelos pais, acolhidas pela escola e pela comunidade, são o futuro a crescer.
No entanto e nestas alturas lembro-me com frequência do Mestre Almada que na Cena do Ódio falava sobre, "a Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões". De facto, apesar da vaga de discursos e iniciativas em nome das crianças, muitos passam mal, muito mal, todos sabemos. Não cabem no Dia da Criança.
Não cabem os que diariamente são vítimas de crimes e maus-tratos.
Não cabem muitos dos que vivem numa instituição esperando por uma família que nunca virá.
Não cabem os que, por várias razões, são alvo de discriminação e a quem são negados direitos básicos.
Não cabem os que vivem em famílias que os não desejam e mal os suportam.
Não cabem os que apenas comem o que refeição única na escola lhes possibilita.
Não cabem os que vivem em famílias a quem roubaram a dignidade do trabalho e que, por isso, sobrevivem envergonhadamente na pobreza que nos deveria envergonhar a nós.
Não cabem os que a escola não consegue ajudar a construir um futuro a que valha a pena aceder e sofrem políticas educativas pouco amigáveis para os miúdos.
Não cabem os que sofrem de solidão e isolamento sem que se perceba como não estão bem.
Na verdade, estes miúdos de vos acabei agora de falar quase não existem, os que existem são transparentes, às vezes nem os vemos. Por isso, comemora-se o Dia Mundial da Criança com a convicção ingénua ou voluntarista de que, como dizia Pessoa, "o melhor do mundo são as crianças" e que elas são felizes, todas.
O que, obviamente, não corresponde à realidade mas os poetas ... são uns fingidores.