sexta-feira, 18 de março de 2016

A HISTÓRIA DO IRMÃO DA MARTA

No último dia de aulas à saída da escola o Miguel encontrou o Professor Velho, aquele que está na biblioteca e fala com os livros.

Olá Miguel tudo bem contigo?
Sim Velho e a Marta, a minha irmã, também está bem.
E a escola como é que correu este período?
Mais ou menos. À Marta, a minha irmã, correu bem.
E o teu comportamento já foi um bocadinho melhor?
Nem por isso. A Marta, a minha irmã, portou-se bem. Ela comporta-se sempre bem.
Mas achas que vais passar de ano?
Não sei Velho. Vamos ver se no terceiro período consigo ter mais notas positivas. A Marta, a minha irmã, vai passar. Ela passa sempre, tem notas muito altas.
Mas Miguel deixa que te diga, continuas um miúdo simpático, quase todos os professores, gostam de ti.
Mas gostam mais da Marta, a minha irmã.
Olha lá Miguel, estou a falar contigo e de ti e tu só me falas da Marta.
É assim Velho, para toda a gente eu não sou o Miguel, sou o irmão da Marta. Já me habituei.

HOJE A IMPRENSA TAMBÉM É NOTÍCIA

Hoje a imprensa também é notícia. Sai para as bancas o último número do Diário Económico. Apesar da sua continuidade online o desaparecimento de um jornal é sempre um embaraço cívico, em articular com as características do Diário Económico.
Os jornais são um dos alicerces da democracia.
É recorrente, não só em Portugal, a discussão da questão da sobrevivência da imprensa e, naturalmente, da sua independência face aos poderes, político e económico, designadamente. Sabemos das tentativas recorrentes de controlo político da imprensa, como também sabemos da eventual agenda implícita dos investimentos dos grupos e poderes económicos na imprensa. São vários os exemplos recentes.
Por outro lado, a evolução do próprio mundo dos jornais, a evolução exponencial do universo do on-line, a conjuntura económica inibidora de gastos das famílias em bens “não essenciais” e, caso particular de Portugal, o baixo nível de hábitos de leitura e consumo da imprensa escrita, produzem dificuldades de sobrevivência de títulos de qualidade, chamados de referência, abrindo caminho à chamada imprensa tablóide que, apesar das oscilações, se mantém relativamente saudável, o que se entende. São também tablóides os tempos.
Como leitor de jornais desde muito novo, é sempre com inquietação e tristeza que penso nestas questões e vou assistindo ao abaixamento das tiragens e, finalmente, ao desaparecimento.
Numa entrevista ao Público há já algum tempo, um especialista, Tom Rosenstiel afirmava que se o jornalismo, (os jornais), deixar de ser rentável e, como tal, correr o risco de desaparecimento, as democracias poderão sofrer um "cataclismo cívico". Creio que a cidadania de qualidade exige uma imprensa não só voltada para o imediatismo da espuma dos dias e acredito que apesar das mudanças em tecnologia e das incidências do mercado a que os jornalistas e os jornais deverão adaptar-se, os jornais em papel são como os dias, nunca acabam. Se forem jornais, bons jornais, independentemente do suporte.
A imprescindível sobrevivência dos jornais, dos bons jornais, para além da qualidade e competência do seu próprio trabalho, garante-se na escola, nos hábitos de leitura, na educação. Na cidadania.
Aguentem-se Jornais, aguentemos os jornais, fazem falta.

DOS ESTÁGIOS PROFISSIONAIS

O Secretário de Estado do Emprego afirma em entrevista ao Público, “Não faz sentido diabolizar os estágios profissionais.”
Estamos de acordo, os estágios profissionais podem ser uma interessante e positiva porta de entrada no mercado de trabalho.
O que não pode acontecer, e acontece, é que sejam usados por alguns empregadores como acesso a mão-de-obra gratuita.
O que não pode acontecer, e acontece, é que muitos jovens sejam tentados pela miragem de um contrato de trabalho no fim do estágio profissional e o que os espera é uma mão cheia de nada.
O se torna imprescindível uma regulação efectiva do mercado de trabalho, uma política de emprego e legislativa que combata a precariedade.
Uma política de emprego que promova, de facto, emprego, e não formas criativas de mascarar estatísticas.
O acesso a um emprego com um mínimo de estabilidade é uma peça imprescindível à construção de um projecto de vida.
É essa, também, a responsabilidades das políticas. Criarem, no que lhes compete, as condições para que os cidadãos possam construir projectos de vida viáveis e positivos.
Como muitas vezes afirmo e muitos estudos sugerem, o inverno demográfico que atravessamos com uma preocupante baixa natalidade está fortemente associada à dificuldade de muitos jovens construírem e sustentarem projectos de vida em que caibam os filhos.

quinta-feira, 17 de março de 2016

NÃO PODIA ACONTECER

Não podia acontecer. Como o povo diz o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita.
Os que acompanham este espaço e o que penso sobre a educação sabem que entendo como indispensável a avaliação externa como também sabem que não me parece que essa a avaliação externa deva ser realizada através de exames, sobretudo no 1º ciclo.
Apesar deste entendimento recordarão que discordei da oportunidade e conteúdo da decisão de acabar com os exames finais do 1ºe 2º ciclos e a introdução das provas de aferição em anos intermédios2º, 5º e 8 anos. Não cumprem o que se espera de uma prova de “aferição”, são mais uma prova externa de diagnóstico a meio de um trajecto de ciclo o que, evidentemente, não é uma aferição.
Recordarão ainda que manifestei várias vezes a estranheza pela ausência de calendário  de avaliação quando estamos a terminar o segundo período.
Hoje é conhecido que o ME, em entendimento com a assessora de Educação do PR, Isabel Alçada, estabeleceu que as provas de aferição não serão obrigatórias para este ano sendo as escolas a decidir se as realizam ou não.
O ME estabeleceu ainda que, se assim o entenderem, as escolas também podem realizar os exames finais de 4ºe 6º ano que foram abolidos.
Confuso? Não, não é confuso é “apenas” o que não podia acontecer.
Deixando de lado o estranho entendimento entre Belém e a 5 de Outubro esta deriva não serve o interesse da qualidade e serenidade do trabalho de alunos e professores.
A devolução às escolas da decisão de realizarem ou não as provas de aferição este ano bem como os finados exames do 4º e 6º causa perplexidade.
Os finados exames são “bons” ou não? A decisão de os abolir foi justificada (com algumas razões que me merecem concordância) pela sua “dispensabilidade” para ser simpático. No ent6anto se as escolas quiserem podem realizá-los. Como?! Então passam a uma boa ferramenta educativa?!
Atribuir às escolas a decisão relativa às provas que realizam em nome da autonomia é algo patético e um fingimento de autonomia na medida em se estabelece que a regra é transitória. Para o ano tudo é obrigatório (já haverá tempo para preparar) e … acaba-se a autonomia.
Dá para entender?
Não, não poderia ter acontecido assim.

CRIANÇAS QUE PASSAM MAL NÃO APRENDEM

Cerca de uma em cada 14 famílias portuguesas salta refeições por não ter comida suficiente. São dados de sistema de monitorização da Direcção-Geral da Saúde constantes no relatório “Portugal –Alimentação Saudável em Números 2015” que esta quinta-feira é apresentado em Lisboa.
Como é sabido as situações de carência assumem sempre consequências mais graves nos grupos mais vulneráveis, designadamente crianças e velhos.
Recordo o estudo do CNE e da Fundação Francisco Manuel dos Santos há pouco tempo divulgado mostrando com clareza que a esmagadora maioria dos alunos com insucesso é oriunda de famílias com estatuto económico e social muito baixos e vivem em situação de pobreza e carência.
O impacto das circunstâncias de vida no bem-estar das crianças e de forma mais particular no rendimento escolar e comportamento é por demais conhecido e essas circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências significativas ao nível das necessidades básicas.
Um Relatório de 2013, "Food for Thought", da organização Save the Children, afirmava que 25% das crianças terão o seu desempenho escolar em risco devido à malnutrição com as óbvias e pesadas consequências em termos de qualificação e qualidade de vida de que a educação é uma ferramenta essencial.
Em qualquer parte do mundo, miúdos com fome, com carências, não aprendem e vão continuar pobres. Manteremos as estatísticas internacionais referentes a assimetrias e incapacidade de proporcionar mobilidade social através da educação. Não estranhamos. Dói mas é “normal”, é o destino.
Quando penso nestas matérias sempre me lembro da história que conto com frequência e foi umas das maiores lições que já recebi, acontecida há uns anos em Inhambane, Moçambique. Ao passar por uma escola para gaiatos pequenos o Velho Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda durante a estadia por lá, disse-me que se mandasse traria um camião de batata-doce para aquela escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos teriam de comer até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.
Pois é Velho, miúdos com fome não aprendem e vão continuar pobres.

DOS PROFESSORES DE BAIXA E ABSENTISTAS

Um dia comprido não me deixou tempo para uma referência a breve às notícias sobre a falta de controlo sobre as faltas e tempo de baixa médica por parte dos professores que ontem alguma imprensa divulgou.
É um clássico. Recordo a habilidade revelada nesta matéria por Maria de Lurdes Rodrigues.
Levantar esta questão e da forma que habitualmente é tratada ajuda a manter uma pressão social sobre a classe dos professores através da opinião pública “plantada” que é oportuna. Certamente será uma coincidência mas vão abrir os concursos e, mesmo ao arrepio de determinações da UE, muitos professores com imensos anos de serviço avaliado e contínuo continuarão a não aceder a um lugar de quadro, uma peça fundamental na estabilidade profissional, pessoal e familiar para além de se tratar de um evidente incumprimento das disposições legais.
Claro que nunca se aborda esta matéria de forma integrada com indicadores resultantes de estudos sobre os níveis de stresse e risco de burnout que afectam um número altíssimo de professores.
Claro que não se aborda esta matéria integrando o clima instalado nas escolas, competitivo, instável, burocratizado e sem apoios.
Claro que nunca se aborda esta matéria considerando o trabalho de um professor com várias turmas e muitas dezenas de alunos, pressionado por um currículo que oprime pela sua extensão e carácter normativo. Se esta circunstância não é amigável para os alunos, os dados do trabalho ontem divulgado pela OMS mostram a apreciação muito negativa os alunos sobre as aulas, pense-se no efeito que terá sobre o trabalho dos professores.
Claro que nunca se aborda esta matéria considerando o impacto negativo da concentração nos mega-agrupamentos e centros educativos.
Outros aspectos poderiam ser considerados mas estes exemplos mostram o óbvio. A pressão criada sobre os professores com notícias assim colocadas e trabalhadas cumprem um objectivo claro, fragilizar a classe.
É um tiro no pé. Todos os que lidam com as questões da educação sabem que uma das características dos sistemas educativos melhor sucedidos é, justamente, a valorização dos professores.

quarta-feira, 16 de março de 2016

O FALHANÇO DE UMA PEDAGOGIA ACONCHEGADA E CALOROSA

Ao que se lê no Público, a Associação de Pais e Encarregados de Educação de Santa Comba Dão vem protestar publicamente e já o fez junto dos serviços competentes do ME pelos problemas sentidos por alunos, professores e funcionários com o frio.
Apesar do Inverno relativamente ameno em termos de temperatura as condições da sala e da escola são de má qualidade o que se reflecte, naturalmente, no trabalho por todos desenvolvido.
Parece, assim, claro o falhanço de uma política educativa que procura promover uma escola mais aconchegada e calorosa.
Embora não fosse enunciado de uma forma explícita, a agenda política em educação nunca o é, o grande objectivo do aumento do número de alunos por turma para além do inaceitável bem como da criação de grandes centros educativos e escolas com centenas e milhares de alunos que, juntando-se a professores, técnicos e funcionários num ambiente de grande proximidade, seria a promoção de ambientes escolares e de salas de aula mais quentes, mais calorosos e mais aconchegantes.
Provavelmente, será mesmo melhor providenciar o arranjo dos dispositivos de aquecimento da escola.

DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA. QUE DEVO DIZER?

Daqui a pouco vou fazer-me à estrada até Odemira para responder a um convite simpático para conversar sobre “Inclusão: Desafios das Escolas e dos CRIS” com elementos da comunidade educativa.
Como sempre, tenho a certeza de que o convite decorre de uma genuína vontade de reflectir sobre esta questão, educação e escola inclusiva. Confesso, no entanto, que sempre fico algo inquieto ao abordar estas questões em grupos alargados de profissionais e pais.
Que poderei dizer sobre educação inclusiva e futuro num tempo em que a Educação, no sentido mais nobre e vasto do termo, está revista em baixa, transformando-se cada vez mais em Aprendizagem de competências instrumentais normalizadas, sujeitas a uma febre de medida que passa a ser o tudo da educação e que de Inclusiva tem muito pouco?
Como tantas vezes tenho escrito e afirmado, logo de pequenos muitas crianças começam a passar por filtros e objecto de Classificações de diferentes naturezas.
São arrumadas em “gavetas” que só por existirem determinam o seu presente e o seu futuro.
Assim, grupos com rótulos como "repetentes", "dificuldades de aprendizagem", "necessidades educativas especiais permanentes", "hiperactivos" "autistas", etc., agrupam-se em espaços físico ou curriculares, do ensino vocacional, às unidades ou escolas de referência e guetizam-se por espaços, entre a escola e as instituições, de novo e cada vez mais.
Passam ser conhecidos de forma bizarra e insultuosa como os NEEs, os CEIS, carregam PEIS e PITS e outras ferramentas “imprescindíveis” são objecto de intervenções de que já aqui falei que, em algumas circunstâncias, são parte do problema e não parte da solução. Parte dos apoios e das intervenções, mesmo em idade de escolaridade obrigatória são desenvolvidas ao abrigo de modelos desajustados promovendo uma espécie de “outsourcing” que mais difícil torna realizar um trabalho adequado.
Mais uma vez a afirmação de que a inclusão assenta em quatro dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). Estas dimensões devem ser operacionalizadas numa perspectiva de diferenciação justamente para que acomodem a diversidade das pessoas.
À luz deste entendimento é justo afirmar que temos excelentes exemplos de trabalho em comunidades educativas que, tanto quanto possível e com os recursos de que dispõem, se empenham em estruturar até ao limite ambientes educativos mais inclusivos em que todos, mesmo todos, participem.
Devo então falar do copo meio cheio ou do copo meio vazio?
Na verdade existem alunos que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que estão, não “integrados” mas “entregados”, por várias razões e nem sempre por dificuldades próprias.
Existem pais que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que os seus filhos cumprem os dias.
Existem professores que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa onde se empenham e querem trabalhar apesar dos meios e recursos tantas vezes insuficientes e desadequados.
Existem orientações normativas e políticas que, sempre em nome da inclusão, acabam por promover ou facilitar a exclusão.
Existem direcções escolares, poucas quero acreditar, que gostariam de ver as suas escolas ou agrupamentos mais “bem frequentadas”, alguns miúdos só criam dificuldades e atrapalham os resultados das escolas.
Como responderemos aos desafios da educação inclusiva?
Passará, de facto, o futuro da nossa escola pública pelos princípios da educação inclusiva?
Que devo ou posso dizer?
Eu quero acreditar que sim.

terça-feira, 15 de março de 2016

OS ADOLESCENTES NÃO GOSTAM DA ESCOLA

“A escola mudou pouco, os adolescentes mudaram muito”

Uma colaboração numa peça do Público que pretende comentar os resultados do Relatório Health Behaviour in School-aged Children, hoje divulgado.

FUGIR PARA A ESCOLA

Como acontece regularmente, é divulgado O Relatório Health Behaviour in School-aged Children, da responsabilidade da OMS, coordenado em Portugal pela excelente equipa da Professora Margarida Gaspar de Matos.
No estudo com 42 países e regiões e dados de 14/15, foram envolvidos em Portugal cerca de 6 000 adolescentes com idades de 11, 13 e 15 anos, alunos do 6º, 8º e 10º ano.
Pela sua extensão e riqueza o Relatório merece leitura atenta e uma reflexão não compatível com espaços desta natureza.
Algumas notas breves mais relacionadas com a sua percepção da relação estabelecida com a escola.
Os alunos portugueses expressam uma apreciação negativa da escola, das mais baixas entre os 42 países participantes, apenas 11% dos rapazes e 14% das raparigas aos 15 anos afirma gostar da bastante da escola, resultado mais baixo que em edições anteriores.
Os alunos portugueses são dos que menos competentes em termos escolares se percebem e dos que se sentem mais pressionados para os resultados escolares.
Gostam dos colegas e dos intervalos e não gostam das aulas porque as consideram aborrecidas e com matéria excessiva.
Esta apreciação negativa, das mais negativas e em crescimento, não surpreende quem conhece o ambiente e clima das escolas e, evidentemente, deveria ser um motivo de forte preocupação para a comunidade a começar pela tutela.
É claro que a escola não pode organizar-se e funcionar assentando exclusivamente nas percepções que os alunos têm do que deveria ser e acontecer mas é claro que não pode, não deve, esquecer o que eles pensam e como sentem relativamente à sua presença na escola.
É necessário analisar de forma aprofundada, sem preconceitos e fora das lutas da partidocracia pelo controlo da escola, a sua organização, tempos e funcionamento.
É necessário reflectir sobre os conteúdos curriculares que carecem de adequações dada a sua extensão e carácter prescritivo e normativo.
É necessário e urgente a promoção da estabilidade do corpo docente e da sua valorização como factor estruturante da sua relação com os alunos.
É importante a definição de uma oferta educativa diferenciada, em tempo ajustado no trajecto escolar dos alunos e de forma a que não seja percebida pelas comunidades educativas como uma via de primeira destinada aos bons alunos ou de segunda destinada aos falhados e menos competentes.
É necessário promover uma verdadeira desburocratização e autonomia das escolas e dos professores,facilitadoras da definição de climas de escola amigáveis para professores, funcionários pais e alunos. Esta autonomia deveria contemplar obrigatoriamente aspectos como a constituição das turmas e o seu efectivo
Assegurar a existência de apoios eficazes e competentes às dificuldades de professores e alunos, e de técnicos com intervenção em processos de aconselhamento, orientação e regulação de comportamentos e aprendizagem, etc., etc.
Entre outras, estas são dimensões essenciais para uma melhor escola, mais amigável para todos os que nela habitam e que, do meu ponto de vista, a política educativa dos últimos anos não tem acautelado, não promovendo uma escola assente em princípios de educação inclusiva e com qualidade e com os recursos necessários.
Ao contrário, tem-se construído uma escola que faz o pleno, muitos alunos, professores e funcionários embora gostem genericamente da escola, desgostam da sua escola, da escola que têm.
Ao escrever estas notas estava a recordar que há algum tempo me convidaram a participar numa iniciativa que tinha com título genérico "Fugir para a escola" que achei curioso e hoje recordei.
Seria muito interessante, mas não passa, provavelmente, de um romantismo não compatível com a dureza crispada, agressiva e feia, dos tempos e da vida actual, imaginar que os miúdos quisessem fugir para a escola, não porque fugissem de algo mau, o contexto familiar, por exemplo, e que em bom rigor e lamentavelmente é por vezes tão mau que obriga a fugir, mas porque os miúdos quisessem correr para a escola por nela se sentirem bem e não apenas nos intervalos e com os amigos.
Por outro lado, nos tempos que correm também muitos professores, bons professores, mostram por cansaço ou desesperança que já não fogem para a escola, um lugar de realização, de trabalho duro mas com uma das maiores compensações que se pode ter, ajudar gente pequena a ser gente grande.
O clima institucional, a burocracia, a deriva política foram, vão, levando a que a escola não apeteça. Felizmente, muitos outros professores ainda conseguem fugir para escola, os alunos desses professores são gente com sorte.
Será que ficou mesmo impossível acreditar que alunos e os professores, de uma forma geral, queiram fugir para escola?

segunda-feira, 14 de março de 2016

NO PORTUGAL DOS PEQUENINOS

Desde adolescente que habitando a mítica Margem Sul, a margem certa do Tejo, caminho para Lisboa para estudar e trabalhar. Logo que a idade permitiu passei a utilizador da mota, mesmo no Inverno. Quem diariamente tem que atravessar a Ponte 25 de Abril às horas de ponta ou estacionar em Lisboa percebe a opção. 
É também verdade que tenho uma precoce paixão pelas motas pelo que o seu uso é um prazer e não apenas uma questão de funcionalidade e rapidez.
À semelhança do que se passa em muitas cidades da Europa e creio que também em algumas artérias do Porto, a Câmara de Lisboa vai permitir a circulação das motas pelos corredores bus em três ruas durante um período experimental, admitindo generalizar a medida.
Esta decisão só peca por tardia. É claramente um ganho de segurança para os motociclistas, qualquer um de nós sente isso mesmo face às condições de trânsito em Lisboa. Difícil é entender porquê só agora e porquê só aquelas três artérias e não outras com maior circulação. Aliás, quem por lá anda verifica que a situação já é corrente, eu próprio sempre que existe cometo a gravíssima ilegalidade  de conduzir a mota pela faixa bus.
O que me causa a maior das perplexidades é a posição imediata de rejeição da ANTRAL, representativa de taxistas, e da CARRIS.
A ANTRAL alega que a decisão vai “inviabilizar o fim que esteve na origem da sua criação” e a CARRIS diz que a medida é “penalizadora da velocidade comercial do transporte público”.
É verdade que a gestão da conflitualidade de interesses deve ser considerada mas como é que se pode defender que a circulação desimpedida de motas penaliza a velocidade dos transportes públicos e “ofende” o privilégio de autocarros e taxistas. É evidente que estas reacções corporativas e sem fundamento sólido, basta conhecer o trânsito de Lisboa e o funcionamento de taxistas e CARRIS, nem sequer consideram a irrelevante questão da seguranças dos que com ganhos para todos, aqui sim, na fluidez do trânsito, trocam o carrinho pelas duas rodas. Como disse, sempre que existe eu já uso a faixa bus, delinquente me confesso, e nunca senti que obrigasse um autocarro a andar mais devagar ou a ofender o privilégio dos taxistas  porque nem sequer percebo porque os possa atrapalhar
É ridícula e embaraçantemente mesquinha esta posição da ANTRAL e da CARRIS.
Coisas do Portugal dos Pequeninos.

DA GRATUITIDADE DOS MANUAIS ESCOLARES, UM PRIMEIRO PASSO

Foi aprovada a gratuitidade dos manuais escolares para o 1º ano de escolaridade no próximo ano lectivo.
É um passo positivo no sentido do cumprimento da Constituição, Art.º 74º (Ensino), “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito;
Gostava que o caminho a percorrer em matéria de manuais escolares passasse também por uma trajectória que contrarie o que costumo designar por uma excessiva manualização do ensino que emerge de práticas pedagógicas pouco diferenciadas muito decorrentes de conteúdos curriculares demasiado extensos, prescritivos e normalizadores. Seria desejável atenuar a fórmula predominante, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.
O número de alunos por turma é também um facto contributivo para este cenário. A anunciada redução do número de alunos por turma ao abrigo de uma verdadeira autonomia das escolas e dos professores, permitiria a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes incrementando, por exemplo, a acessibilidade a conteúdos e informação diversificada que as novas tecnologias oferecem. Sem surpresa este entendimento é um dos eixos da reforma em curso na Finlândia.
A questão é que os manuais escolares constituem um importantíssimo nicho de mercado potenciado pela enorme quantidade de materiais que os acompanham os manuais.
Esta será também a razão que impede novos modelos de manuais que permitam a sua reutilização num dispositivo que me parece o mais ajustado e em uso em muitos países. Os manuais escolares são disponibilizados pelas escolas e devolvidos pelos alunos no final do ano lectivo ou da sua utilização. As famílias são responsabilizadas pelo seu eventual dano ou extravio e ficando, assim, com "folga" para aquisição de outros materiais, livros por exemplo, um bem com pouca presença em muitos agregados familiares.

DA SÉRIE METE-ME ESPÉCIE. OS PROFESSORES

Uma curiosidade a que não resisto é espreitar a caixa de comentários na imprensa online quando se trata de notícias que envolvam professores ou educação.
É espantosa a ignorância e a boçalidade com que muitas pessoas falam do trabalho educativo e do desempenho e problemas dos professores que são quase sempre absolutamente destratados. 
É gente que tem soluções para todas as questões, claro, e a responsabilidade (culpa) de todos os problemas é atribuída a uma classe que não passa de uma cambada de energúmenos, incompetentes, mercenários e absentistas.
Na verdade nem sequer estranho, gente com mais responsabilidade e conhecidos opinion makers fazem, com um maior grau de sofisticação justiça lhes seja feita, apreciações desta natureza.
Mete-me espécie uma coisa.
Boa parte dos autores destes comentários e dos que peroram assim em espaços de opinião tem ou teve filhos em idade escolar e que frequentam ou frequentaram a escola.
Será que detestam tanto os filhos ou são tão negligentes que os colocam todos dias nas mãos destes malandros, os professores?
Ou serão tão ignorantes que falam do que não sabem tomando considerando o todo através de uma experiência eventualmente menos positiva?
Não estou com isto a branquear incompetência ou erros, existem, claro que existem e o sistema carece de melhor regulação.
Estou apenas a dizer que boa parte destes discursos fazem parte do problema e alimenta o clima pouco amigável em que decorre a difícil acção educativa de professores e pais.
Uma análise e uma reflexão aprofundada sobre os conteúdos, os seus significados e interpretações, destes espaços de opinião, as caixas de comentários, dariam certamente origem a um interessante trabalho de investigação.

DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E DAS HUMANIDADES

No DN encontra-se um trabalho muito interessante sobre a questão da escolha de formação no ensino superior na área das Ciências Sociais e das Humanidades questionando a sua utilidade e empregabilidade. São inquiridos alguns jovens que defendem com entusiasmo a sua opção pela formação nesta área apesar das dificuldades que sabem existir.
Na verdade, nos últimos anos emergiram discursos que de forma mais explícita ou implícita desvalorizam o papel desta área.
Mesmo ao nível da investigação científica e do seu financiamento a área das Ciências Sociais foi arrasada pela crática negrura que se abateu sobre o tecido científico e de investigação em Portugal.
A visão centra-se quase que exclusivamente na empregabilidade e “utilidade” destas áreas científicas, as Ciências Sociais e as Humanidades.
As Universidades tendem a ser vistas uma escola profissional para as empresas o que assenta num equívoco tremendamente perigoso, confundir desenvolvimento tecnológico com desenvolvimento científico.
Este equívoco esteve claramente presente na política de Crato para a ciência e investigação com o esmagamento das Ciências Sociais e das Humanidades ou em discursos como do então Ministro da Economia, Pires de Lima quando afirmava com preconceito e ignorância que é preciso que a investigação (maioritariamente desenvolvida enquadrada pelas universidades) "se traduza em produtos, marcas e serviços que possam fazer a diferença no mercado e devolver à sociedade o investimento que fizemos".
Tal entendimento mostra mais uma vez a ignorância sobre a ciência, o seu desenvolvimento e o papel fundamental no desenvolvimento das sociedades, eliminando pura e simplesmente as ciências sociais e das humanidades, evidentemente inúteis por não criarem "produtos, marcas e serviços".
É evidente que a empregabilidade e a transferência de conhecimentos para o tecido económico são dimensões a considerar na organização da oferta formativa mas existe um conjunto vasto e imprescindível de formação universitária de que não podemos prescindir com o fundamento exclusivo no mercado de emprego. Podemos dar como exemplo formações na área da filosofia ou nichos de investigação que são imprescindíveis num tecido universitário e social moderno e que cumpra o seu papel de construção e divulgação de conhecimento e desenvolvimento em todas as áreas. 
As universidades não podem ser o departamento de formação profissional das empresas.
Uma sociedade com gente formada e investigar nestas áreas é uma sociedade mais desenvolvida.

domingo, 13 de março de 2016

SUCESSO

Desde cedo, ainda pequeno, começou a ouvir.
Ainda não está perfeito. Aguenta. Tens que te esforçar mais. Tens que ser o melhor. Não chores. Tens que estar na frente. Não desistas.
Durante algum tempo ainda ouviu.
Só os melhores, como tu, vencem. O sucesso vai fazer-te feliz. Não percas tempo. Tens que chegar lá. Não podes ficar para trás. O mundo não é para quem falha.

Um dia.
Foi perfeito, esforçou-se e conseguiu. Ninguém mais soube dele.

DE HELSÍNQUIA A LISBOA

É verdade que as comparações entre realidades diferentes devem ser realizadas com prudência. No entanto, a análise dessas realidades, sobretudo de experiências bem-sucedidas podem ser inspiradoras de mudanças e ajustamento que, respeitando diferenças, possam potenciar evolução e progresso.
Vem esta introdução a propósito do trabalho do Expresso sobre as mudanças em curso na Finlândia e que serão apresentadas na próxima semana em Portugal.
Neste contexto e para lá da recomendação de leitura da peça, algumas notas.
Contrariamente às primeiras referências que se divulgaram não estará em causa a abolição de disciplinas, elas mantêm e suportam a aquisição e domínio de saberes considerados essenciais a nível nacional.
O que parece ser intenção é o desenvolvimento de formas de trabalho em sala de aula que transcendam a lógica do trabalho interior a cada disciplina, definindo um conjunto de tópicos que exigem saberes oriundos das diferentes disciplinas e que serão trabalhados de forma transversal. Do meu ponto de vista, a ideia não é nova e informava o que seriam os objectivos da extinta Área de Projecto no nosso sistema educativo embora esta fosse um dispositivo para lá do currículo, existiam as áreas disciplinares e ao lado a Área de Projecto. Em torno de um Projecto (um tópico na proposta finlandesa) seriam desenvolvidos trabalhos/projectos de natureza transversal que mobilizando os saberes que os alunos adquiriam no âmbito do trabalho de cada disciplina. No entanto, as práticas desenvolvidas e o próprio modelo nem sempre correspondiam a estes objectivos que na proposta finlandesa surgem com a "nobreza" de um modelo curricular e não algo para lá do currículo.
Esta Reforma assenta ainda em alguns eixos fundamentais:
A colaboração entre professores em sala de aula, modelos de coadjuvação ou co-teaching, por exemplo, como forma de concretizar a intenção de transversalidade nos projectos a desenvolver pelos alunos.
Um outro eixo remete para a questões como o clima de sala de aula, a promoção as escolas como "comunidades de aprendizagem", a importância da "alegria de aprender, a cooperação entre alunos e a sua autonomia, que são identificados como "objectivos chave" para esta reforma como refere Irmeli Halinen, Head of Curriculum Development  doFinnish National Board of Education.
Um outra dimensão é a avaliação das aprendizagens. Nesta sempre complexa matéria a proposta de Reforma envereda com clareza pela promoção da dimensão formativa da avaliação, pelo envolvimento e promoção da autonomia do aluno na avaliação do seu próprio trajecto de aprendizagem retomando a ideia conhecida de "aprender a aprender" entendimento que nos últimos anos foi diabolizado em Portugal.
O sistema finlandês e a reforma em curso acentuam essa dimensão e assentam na autonomia de escolas e dos professores que são altamente valorizados e qualificados, outra marca distintiva.
Do meu ponto de vista esta Reforma corresponde a uma "modernização" do pensamento educativo introduzindo uma dimensão de globalidade e mobilização integrada e contextualizada dos saberes aprendidos de forma mais compartimentada nas diferentes disciplinas dando-lhes um sentido que potenciará a motivação e a aprendizagem e aquisição de uma formação global não segmentada que actualmente se requer.
A referida autonomia das escolas e das comunidades locais permite que, mantendo o currículo nacional, se possam construir projectos que traduzam especificidades contextuais e, portanto, com maior potencial de impacto, motivação e aprendizagem.
Numa sintética abordagem comparativa com a política educativa em Portugal diria que a visão sobre educação e escola que informa esta Reforma está muitíssimo longe do que, do meu ponto de vista tem informado a política educativa em Portugal.
A estrutura curricular actual assenta em programas demasiados extensos, excessivamente prescritivos e na definição de metas curriculares que, na forma como estão formuladas, fazem correr o sério risco de que o ensino se transforme na gestão de uma espécie de "check list" das metas estabelecidas implicando a impossibilidade de acomodar as diferenças, óbvias, entre os alunos, os seus ritmos de aprendizagem.
Acontece ainda que o nosso sistema se encaminhou no sentido de uma hipervalorização da avaliação externa em detrimento da avaliação de natureza mais formativa. A avaliação externa é imprescindível mas não pode tornar-se o tudo na vida da escola.
Uma nota ainda para algumas referências identificadas como base da Reforma Finlandesa e já referidas, "a questão do clima de sala de aula", o entendimento das escolas como "comunidades de aprendizagem"", "a importância da "alegria de aprender"", "a cooperação entre alunos e a sua autonomia" ou "aprender a aprender" que são identificados como "objectivos chave" e que, do meu ponto de vista, são isso mesmo, "aspectos chave".
No entanto, é minha convicção que por cá ainda teremos muita gente, já não Nuno Crato enquanto Ministro, que considerará tais "objectivos chave" como um típico discurso "eduquês" (seja lá isso o que for) e, como tal, identificados como uma fonte do mal, algo sem sentido.
Finalmente uma chamada de atenção para o entendimento finlandês de que as reformas em educação se devem processar regularmente, de forma participada, avaliada, com ciclos de vida para além dos ciclos político-eleitorais. Em Portugal, a educação é um terreno altamente permeável e apetecível para as lutas de poder e controlo da partidocracia vigente o que lhe retira serenidade e em que as mudanças são constantes, inconsistentes e à deriva.
Não conseguiremos fazer melhor?

sábado, 12 de março de 2016

PARTIU KEITH EMERSON

É assim. Partiu Keith Emerson, a alma dos Emerson, Lake & Palmer. Outro som significativo na banda sonora da minha estrada.
Só para recordar.


DIAS CRIADORES

Aqui no Alentejo, neste Alentejo que não é igual ao Alentejo do Henrique Raposo, quando no fim do Inverno ou, sobretudo, durante a Primavera, surgem uns dias de sol, quentes, a seguir a algum tempo de chuva, chamamos-lhes dias criadores. Hoje está um dia assim.
Tudo o que a terra tiver vai crescer, criar-se, a olhos vistos. A sério, se tivermos paciência e soubermos olhar, quase que dá para ver crescer o pasto, para ver as árvores a enfeitar-se para receber o Verão. Na horta, o que se lá colhe vem com uma frescura e um viço que lavam a alma e o estômago.
Gosto destes dias criadores.
Também gostava que estes dias criadores fizessem criar esperança em vez da secura da desesperança.
Também gostava que estes dias criadores fizessem criar confiança em vez da secura do medo.
Também gostava que estes dias criadores fizessem criar ...

DO NÚMERO DE ALUNOS COM NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS

No Público abordam-se os dados divulgados pelo ME relativos aos alunos com NEE o nosso sistema educativo. É evidenciado o aumento do número global de alunos referenciados como tendo necessidades educativas especiais e o facto de que os rapazes considerados com NEE são em número bastante superior ao das raparigas.
Para além de outras razões é de considerar, por exemplo, que entre os rapazes é mais frequente a existência de problemáticas de natureza social, emocional e comportamental que se reflectem, evidentemente, no número de casos identificados.
No entanto, a questão do aumento do número de alunos referenciados merece umas notas. Porque me parecem actuais, vou usar algumas das considerações que divulguei em texto no Público há alguns meses e relativo aos dados de 14/15 que eram substancialmente superiores a 10/11 o termo de comparação usado.
Uma primeira ideia para afirmar que o número de alunos apoiados em anos anteriores estavam bem mais longe das necessidades do que actualmente se encontram.
De facto, por efeito de filtros de uma natureza discutível na disponibilização de apoios e recursos a alunos que evidenciam dificuldades, o número de alunos com apoio era muito menor do que o número de alunos que necessitavam e das estimativas de necessidades com base em critérios internacionalmente aceites. Esta recorrente situação tem sido objecto de análise quer pela Inspecção-Geral de Educação, quer pelo Conselho Nacional de Educação
Neste cenário, por pressão dos professores e pais confrontados com muitos alunos a necessitar de ajuda começou a verificar-se progressivamente que, mesmo com os normativos desfavoráveis que filtravam o acesso a apoios, as escolas foram tentando com os recursos disponíveis providenciar algum tipo de ajuda o que contribui para esta subida fortíssima de alunos com NEE em apoio nas escolas portuguesas.
No entanto, este aumento não significa, evidentemente, uma alteração com o mesmo grau de significado no padrão e quadros de necessidades dos alunos no que se refere, sublinho, a situações de NEE apesar da confusa e pouco sólida definição e conceitos que os normativos utilizam. A estranha diferença entre o carácter permanente ou “transitório(!)” das NEE que um aluno possa evidenciar é apenas um exemplo. É também neste entendimento que julgo poder olhar-se para os dados agora divulgados.
Por outro lado, um sistema educativo que tem vindo a tornar-se cada vez mais “normalizado” (currículos extensos, prescritivos, assentes em centenas de metas curriculares por disciplinas), competitivo, selectivo (“darwinista”), assente em filtros sucessivos, os exames, os rankings, os incentivos às escolas com sobrevalorização da avaliação externa dos alunos, etc. acaba, necessariamente, por se tornar incapaz de acomodar as diferenças entre os alunos, nem sequer estou a falar de NEE, e induz um aumento do número de alunos que podem sentir dificuldade em acompanhar o “ritmo” do trabalho.
Mais uma vez, por inexistência de recursos de outra natureza, muitas escolas providenciam alguns apoios a esta franja de alunos através dos dispositivos de educação especial o que também contribui para o aumento do número de alunos apoiados considerados como apresentando NEE.
Tudo isto considerado surge o que considero a questão central, que apoios e recursos estão a ser disponibilizados a alunos, professores e pais? Serão suficientes, quer em docentes (apesar do aumento verificado), técnicos (número de psicólogos baixou) ou assistentes operacionais? Serão adequados? Contribuem para o sucesso real dos alunos considerando todas as suas capacidades e competências? São informadas por princípios de educação inclusiva cujo critério fundamental é a participação, tanto quanto possível, nas actividades comuns das comunidades escolares?
Gostava de ser mais optimista mas apesar do esforço notável da generalidade das direcções escolares, dos professores, técnicos e assistentes, da existência de práticas e experiências de excelente nível, a realidade está aquém do que seria desejável.
Sucessivos Relatórios da Inspecção-Geral de Educação e do Conselho Nacional de Educação, a que já aludi, mostram enormes insuficiências e necessidades. Desde legislação não cumprida, por exemplo, no que se refere ao número de alunos com NEE por turma, a colocação tardia e insuficiente de professores, a inexistência de técnicos e assistentes operacionais de acordo com o necessário, um discutível modelo de articulação entre escolas e Centros de Recursos para a Inclusão que por falta de regulação dá cobertura tanto a boas práticas como a experiências que de inclusão e qualidade têm pouco, etc. a realidade é, de facto, preocupante.
Assim, a inquietação de professores e pais é como responder de forma adequada e exigente, sim devemos ser exigentes, às necessidades e dificuldades educativas ou escolares de todos os alunos que em qualquer circunstância as possam evidenciar, independentemente da sua natureza. Aliás, a necessidade de uma avaliação educativa sólida e competente das reais necessidades ou dificuldades é o primeiro passo para uma resposta adequada.
Simplificando, teremos de escolher um caminho.
Primeiro caminho. Enviam-se para fora da escola regular pública os alunos que mais dificuldades colocam e apresentam, sobretudo adolescentes e jovens, (os dados deste ano mostram esse aumento) retornando às instituições, por exemplo, às quais se garante uns apoios, a diminuir evidentemente, para que por lá mantenham esses alunos.
Nega-se de forma irresponsável e administrativa as suas dificuldades ou a condição de alunos com necessidades especiais, "normalizam-se" e passam a ser tratados como todos os outros alunos e espera-se que a selecção e a iniciativa das famílias leve os meninos que atrapalham para fora da sala de aula, primeiro, e para fora da escola, depois.
Agrupam-se os alunos por tipo ou grau de dificuldades em espaços curriculares ou físicos, dentro ou fora das escolas, que os remetem para baixos ou inexistentes níveis de participação nas actividades das comunidades educativas a que por direito pertencem, ficando, assim, mais “entregados” que “integrados”
Segundo caminho. O sistema vai sendo dotado de forma empenhada e consistente dos apoios e recursos necessários a um efectivo e exigente apoio às dificuldades e necessidades de todas as crianças e adolescentes e a resposta é estruturada, tanto quanto possível, num cenário de participação, envolvimento e pertença nas e às comunidades educativas de que que fazem parte.
Do meu ponto de vista a escolha é clara. Na verdade, a educação inclusiva e a equidade em educação não decorrem de uma moda ou opção científica, são matéria de direitos pelo que devem ser assumidas através das políticas e discutidas, evidentemente, na sua forma de operacionalizar. 

sexta-feira, 11 de março de 2016

DA EDUCAÇÃO E DA INCLUSÃO

O meu amigo e companheiro de estrada profissional, David Rodrigues, divulga hoje no Público um texto estimulante, A Inclusão e os “peritos em possibilidades””.
Logo no início afirma, “Hoje, Portugal é um dos países mais avançados do mundo no capítulo da educação dos alunos com condições de deficiência.” Será? O que significa “mais avançado”?
No entanto, todo o restante enunciado se dirige às necessidades de promoção das mudanças necessárias para que as escolas inovem e se transformem em escolas menos selectivas e mais inclusivas. Talvez o avanço não seja assim tão grande.
É verdade que quem como eu acompanha este universo há algumas décadas não pode deixar de reconhecer o quanto se avançou mas é imperativo reconhecer o quanto está por fazer por uma educação de qualidade e de qualidade para todos. Neste sentido e dada a importância e a necessidade de uma pressão constante no sentido de promover uma educação que acomode a diversidade e necessidades de todos os alunos, aqui deixo umas notas breves.
A educação inclusiva e a equidade em educação não decorrem de uma moda ou opção científica, são matéria de direitos pelo que devem ser assumidas através das políticas e discutidas, evidentemente, na sua forma de operacionalizar. Aliás, poderá afirmar-se, citando Biesta, que a história da inclusão é a história da democracia, a história dos movimentos que lutaram pela participação plena de todas as pessoas na vida das comunidades, incluindo, evidentemente, a educação.
Nesta perspectiva e apesar de excelentes exemplos de boas práticas os tempos que vivemos são tempos de exclusão, de competição, de desregulação ética e de oscilação de valores que atingem, evidentemente, os mais frágeis, caso das crianças e jovens com necessidades educativas especiais e as suas famílias.
Logo de muito novos os miúdos começam a passar por sucessivos crivos, exames escolares ou Classificações de outra natureza. Muitos são identificados por etiquetas, "repetentes", "dificuldades de aprendizagem", "necessidades educativas especiais permanentes", "hiperactivos" "autistas", etc., agrupam-se os miúdos com base nessas etiquetas, do ensino vocacional, às unidades ou escolas de referência e “guetizam-se” por espaços, curriculares ou físicos, entre a escola e as instituições, de novo e cada vez mais.
É verdade que também temos excelentes exemplos de trabalho em comunidades educativas que, tanto quanto possível e com os recursos de que dispõem, se empenham em estruturar até ao limite ambientes educativos mais inclusivos em que todos, mesmo todos, participem. Como sempre afirmo, a participação é um critério essencial de inclusão.
Deveremos então falar do copo meio cheio ou do copo meio vazio?
Existem miúdos que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que estão, não “integrados” mas “entregados”, por várias razões e nem sempre por dificuldades próprias.
Existem pais que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que os seus filhos cumprem os dias.
Existem professores que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa onde se empenham e querem trabalhar apesar dos meios e recursos tantas vezes insuficientes e desadequados.
Existem orientações normativas e políticas que, sempre em nome da inclusão, acabam por promover ou facilitar a exclusão.
Existem direcções escolares, poucas, quero acreditar, que gostariam de ver as suas escolas ou agrupamentos mais “bem frequentadas”, alguns miúdos só criam dificuldades e atrapalham os resultados das escolas.
Será a nossa escola inclusiva? Passará o futuro da nossa escola pública pelos princípios da educação inclusiva e pela a garantia da equidade educativa?
Eu quero acreditar que sim, já percorremos muito caminho mas ainda falta muito mais caminho.

DA SÉRIE METE-ME ESPÉCIE

Bruxo do Sporting recebe 250 mil € por época

Eu pensava que o futebol era uma ciência com diferentes especilistas e uma paixão para as pessoas como eu. E pensava que o mundo científico do futebol teria no Mestre da Táctica, Jorge Jesus, um dos seus grandes nomes, um cérebro, por assim dizer.
Mete-me espécie que afinal seja coisa de bruxos.
É verdade que eu não acredito em bruxas mas que ...

PROLETARIZAÇÃO DA ECONOMIA

Que será necessário para que se entenda que políticas de empobrecimento e proletarização da economia e do trabalho, com baixos salários e precariedade, não produzem desenvolvimento?
Na verdade, boa parte dos vencimentos em empregos mais recentes, mesmo com gente qualificada, não são um vencimento, são um subsídio de sobrevivência, uma indignidade.
Um caminho de diminuição dos custos do trabalho através do aumento da carga horária, da precariedade e do abaixamento de salários não será a forma mais eficaz de combater o desemprego, promover desenvolvimento e criação de riqueza.
Parece razoavelmente claro que a proletarização da economia e o empobrecimento das famílias não poderão ser a base para o desenvolvimento e promoção de coesão social.

quinta-feira, 10 de março de 2016

PROFESSORES QUE CANTAM

O final de tarde de ontem foi passado numa estimulante s simpática conversa com professores em Abrantes em torno das dificuldades e da necessidade de conseguirmos responder o melhor possível às diferenças entre os alunos, a a mais óbvia e inultrapassável característica de qualquer grupo de alunos de qualquer das nossas escolas.
Como não podia deixar de ser reflectiu-se como muitas das circunstâncias e o clima que de uma forma geral se foi instalando nas escolas são pouco amigáveis para esse trabalho tão necessário quanto difícil.
As dificuldades e o clima as escolas são assuntos recorrentes nas conversas com e entre professores.
No entanto, a minha passagem por Abrantes começou por algo que me pareceu muito positivo e estimulante.
Refiro-me à actuação empenhada, divertida e competente do Grupo de Cantares do Agrupamento nº 1. O Grupo é constituído por docentes, funcionários, alguns pais e alunos. Será uma reformulação em modo musical da ideia de comunidade educativa. Tem ainda particularidade de ter como maestro um professor de Educação Física num exemplo, mais um, dos múltiplos talentos dos professores.
Vim mais optimista, obrigado pelo convite.



DA INDISCIPLINA ESCOLAR

Um trabalho desencadeado pelo Alexandre Henriques do blogue ComRegras e com o apoio da Associação Nacional de Directores de Agrupamento e Escolas Públicas vem reafirmar o volume significativo de episódios de indisciplina na escola com particular incidência no 3º ciclo, na linha, aliás, dos estudos já realizados sobre estas questões.
Quando os professores são inquiridos sobre eventuais factores contributivos para  a indisciplina em sala de aula são recorrentemente identificados o contexto familiar dos alunos, as políticas educativas e os seus efeitos, os alunos, as direcções de escola e os próprios professores, formação, experiência, apoio e valorização, etc.
Outros estudos sugerem que uma parte bastante significativa do tempo dos professores em sala de aula é gasta na gestão do comportamento dos alunos em detrimento das tarefas de ensino.
Algumas notas que não sendo novas me parecem justificadas.
Em primeiro lugar julgo que importa clarificar o que está em causa. Permitir, por exemplo, que um telemóvel toque na sala de aula ou outros comportamentos desadequados em sala de aula ou na escola serão indisciplina, insultar, humilhar, confrontar fisicamente um professor, comportamentos frequentes de agressão ou roubos a colegas configuram pré-delinquência ou delinquência e comportamentos disruptivos podem ainda estar ligados a perturbações de natureza psicológica.
A escola não pode ser responsabilizada e considerada competente por e para todo este universo de problemas nos comportamentos dos mais novos. Para situações de pré-delinquência ou perturbações do comportamento pode, evidentemente, dar contributos mas não assumir a responsabilidade pelo que importa clarificar a análise.
Centremo-nos então na indisciplina escolar que considero matéria de competência da escola e matéria de responsabilidade de toda a comunidade, incluindo os pais, naturalmente, e todas as figuras com relevância social, por exemplo, não se riam, políticos ou jogadores de futebol.
O Estatuto do Aluno, no qual o ME depositava públicas esperanças que me pareceram, desde sempre, sobrevalorizadas e desadequadas face aos seus conteúdos e à realidade das escolas e comunidades actuais, qualquer que seja, é um regulador, melhor ou pior, mas nunca A solução e, pela mesma razão, nunca será A causa da indisciplina.
Parece-me também de referir que todas as figuras sociais a que se colam traços de autoridade por exemplo, pais, professores, médicos, polícias, idosos, etc., viram alterada a representação social sobre esses traços. Dito de outra maneira, o facto de ser velho, polícia, professor ou médico, já não basta, só por si, para inibir comportamentos de desrespeito pelo que importa perceber o impacto destas alterações nas relações entre professores e alunos.
As mudanças significativas no quadro de valores e nos comportamentos criam dimensões novas em torno de um problema velho, a indisciplina. Daqui decorre, por exemplo, que restaurar a autoridade dos professores, tal como era percebida há décadas, é uma impossibilidade porque os tempos mudaram e não voltam para trás. Pela mesma razão, não se fala em restaurar a relação pais – filhos nos termos em que se processava antigamente e falar da "responsabilização" dos pais é interessante, mas é outro nada.
Um professor ganha tanta mais autoridade quanto mais competente, apoiado e valorizado  se sentir. O apoio aos professores é um problema central no que respeita à indisciplina mas não só.
Assim sendo, o ME não pode desenvolver políticas que socialmente deixem o professor desapoiado, que comprometam o clima e a qualidade de trabalho nas escolas e, simultaneamente, afirmar que vai restaurar a sua autoridade e promover a sua valorização social.
Também por isto se questiona a incompetente constituição de mega-agrupamentos e de escolas e turmas com dimensões excessivas, variável associada à indisciplina escolar.
É também importante reajustar a formação de professores. As escolas de formação de professores não podem “ensinar” só o que sabem ensinar, mas o que é necessário ser aprendido pelos novos professores e pelos professores em serviço. Problemas "novos" carecem também de abordagens "novas".
Parece também importante a existência de estruturas de mediação entre a escola e a família o que implica a existência de recursos humanos qualificados e disponíveis. Veja-se o trabalho dos GAAFs apoiados pelo IAC, experiências no âmbito da intervenção da Associação EPIS ou iniciativas que algumas escolas conseguem desenvolver e que permitam apoiar os pais dos miúdos maus que querem ter miúdos bons e identificar as situações para as quais, a comprovada negligência dos pais exigirá outras medidas que envolvam, eficazmente e em tempo oportuno as CPCJ.
Um caminho de autonomia, com a alteração desejável dos modelos de organização e funcionamento das escolas e na gestão curricular, deveriam permitir que as escolas, algumas escolas, mais problemáticas tivessem menos alunos por turma, mais assistentes operacionais com formação em mediação e gestão de conflitos ou ainda que se utilizassem, existindo, professores em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades.
Por outro lado, os estudos e as boas práticas mostram que a presença simultânea de dois professores é um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos.
As dificuldades dos alunos estão com muita frequência na base do absentismo e da indisciplina, os alunos com sucesso, em princípio, não faltam e não apresentam grandes problemas de indisciplina.
Os professores também sabem que na maior parte das vezes, os alunos indisciplinados não mudam os seus comportamentos por mais suspensões que sofram. É evidente que importa admitir sanções, no entanto, fazer assentar o combate à indisciplina nos castigos aos alunos e, eventualmente, nas multas e retirada de apoios aos pais, é ineficaz, é facilitista na medida em que é a medida mais fácil e mais barata, é demagógica porque vai ao encontro dos discursos populistas que aplaudem a ideia do "prender" do "expulsar" até ficarem só os nossos filhos.
O problema é quando também nos toca a nós, aí clamamos por apoios.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização dos muito frequentes incidentes de indisciplina que minam a qualidade cívica da nossa vida além, naturalmente, da qualidade e sucesso do trabalho educativo de alunos, professores e pais.

quarta-feira, 9 de março de 2016

DOS MANUAIS ESCOLARES

O Governo confirma a decisão de introduzir a gratuitidade dos manuais escolares para o 1º ano de escolaridade no próximo ano lectivo e estendê-la progressivamente.
É um passo positivo que deve registar-se mas ainda deixa muito por fazer nesta matéria. Algumas notas repescadas.
De facto, a questão dos manuais escolares é uma matéria importante e não só pelos custos para as famílias. Apesar do esforço desenvolvido em diversas iniciativas promovendo a reutilização dos manuais vários factores como uma excessiva “manualização” do trabalho dos alunos potenciado com o aumento do número de alunos por turma e pelo modelo de currículos assente nas metas curriculares, não porque existem mas pela forma excessiva e inadequada como foram definidas. Acresce ainda a rápida mudança de currículos ou dos manuais aprovados nas escolas e agrupamentos que também obrigam à substituição de manuais. Importa ainda considerar o habitual conjunto de cadernos de actividades, fichas e CDs que acompanham os manuais e que se reflectem significativamente os custos globais.
Tal situação tem óbvias implicações didáctico-pedagógicas e, naturalmente, económicas pelo peso nos orçamentos familiares acrescido
Recordo que no quadro constitucional vigente, lê-se no Art.º 74º (Ensino), “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito;
Na verdade, o ensino obrigatório nunca foi gratuito nem universal, vejam-se as taxas de abandono, e os custos incomportáveis para muitas famílias dos manuais e materiais escolares num cenário em que a acção social escolar é insuficiente e tem vindo a promover sucessivos ajustamentos nos valores e critérios de apoio disponibilizados. No universo particular das famílias com crianças com necessidades especiais os custos da escolaridade obrigatória e gratuita são ainda mais elevados, bem mais elevados.
Sem retomar considerações de natureza mãos didáctico-pedagógica que já tenho abordado creio que a redução da dependência dos manuais passaria, entre outros aspectos, por uma reorganização curricular, diminuindo a extensão de alguns conteúdos, a redução do número de alunos por turma ao abrigo de uma verdadeira autonomia das escolas, o que permitiria a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes incrementando, por exemplo, a acessibilidade a conteúdos e informação diversificada que as novas tecnologias oferecem.
É importante caminharmos no sentido de atenuar a fórmula predominante, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.
Julgo também que seria de considerar a possibilidade dos manuais escolares serem disponibilizados pelas escolas e devolvidos pelos alunos no final do ano lectivo ou da sua utilização, sendo as famílias penalizadas pelo seu eventual dano ou extravio e ficando, assim, com "folga" para aquisição de outros materiais, livros por exemplo, um bem com pouca presença em muitos agregados familiares. Este modelo não é novo, é usado em vários sistemas educativos.
Como é evidente, dentro desta perspectiva, a própria concepção dos manuais deveria ser repensada no sentido de permitir a sua reutilização.
Não esqueço, no entanto, o peso económico deste mercado e como são os mercados que mandam ... 

PARTIU NANÁ VASCONCELOS

Partiu Naná Vasconcelos. Ocupa um espaço muito significativo na banda sonora da minha estrada. Assisti a vários concertos, com vários formatos, sempre muito bons.
Um excerto do memorável "Eventyr" com Jan Garbarek e John Abercrombie.


DOS "SUBSÍDIOS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL"

Tribunais estão a mandar repor Subsídio de Educação Especial

Desde o início que me parece que o que deveria ser repensado é todo o modelo no qual assenta a prestação de apoios especializados a alunos com necessidades educativas especiais a frequentar estabelecimentos de ensino regular.
Nesta reflexão deve ser incluído o processo de avaliação e decisão sobre necessidades e apoios carece de melhoria face a situações bem conhecidas por quem tem alguma proximidade estas matérias e às quais já me tenho referido. Como hoje se noticia algumas destas decisões chegaram aos Tribunais.
A introdução de pequenos ajustamentos de natureza processual não muda significativamente o conjunto de problemas enormes verificados, falta de recursos, falta de apoios, tempos de apoio que seriam ridículos se não estivesse em causa crianças e jovens com problemas sérios, etc.
Este conjunto de problemas é bem conhecido por parte de milhares de famílias. Não estranham mas sabem, sentem, que os seus direitos não são cumpridos.
Qualidade e EDUCAÇÂO inclusiva não são muito compatíveis com um modelo que assenta no "outsourcing", na falta de articulação, coerência e de um maior envolvimento das escolas, apesar de algumas boas práticas que se conhecem. Em boa parte dos casos trata-se alunos no cumprimento da sua escolaridade obrigatória para os quais os apoios são fundamentais.
Não é nada de novo, os mais vulneráveis são sempre os que sofrem mais.
Mas não é uma fatalidade, fazemos os dias assim, como cantam os Trovante.

A PARTIDA DO POLÍTICO QUE NÃO ERA POLÍTICO

Através de uma porta pequena Cavaco Silva sai da actividade política.
Cavco Silva foi o cidadão como uma mais longa e relvante carreira política em Portugal depois de 1974.
Sempre se apresentou como um não político e com um discurso arrogante pequenino face à política. Considerou-se sempre acima dos "mesquinhos" interesses da classe "política".
Um fado conhecido da Manuela de Freitas e cantado por José Mário Branco diz, "canta com aquilo que és, só podes dar o que é teu".
Cavaco Siva sempre quis dar o que não era seu, a visão a clarividência, a seriedade política e intelectual, a isenção face aos interesses partidários.
Cavco Silva sempre agiu com o que era seu, a pequenez auto-centrada, a arrogância, a defesa clara dos políticos e das ideias" amigas", uma máscara mal composta de Homem acima dos homens.
Parte sem saudades, sem peso, sem grandeza.

PRONTO, SAIU ASNEIRA

"Se nós não encontrarmos um equilíbrio nestas matérias, só teremos professores no parlamento. Se calhar não teremos gente das empresas, de outras áreas da nossa sociedade, o que pode não ser o melhor para a nossa política"
Assunção Cristas espalhou-se, evidentemente.
No entanto, os “professores “ teriam certamente melhor desempenho no Parlamento que a “gente” imprescindível que ela pretende proteger teria nas escolas.
Mais a sério. Pensar um pouco antes de falar é um exercício que faz bem e nos poupa a asneiras.

terça-feira, 8 de março de 2016

E É ESCREVER ASSIM DESACORDADAMENTE. DE NOVO E SEMPRE

A imprensa de hoje retoma a questão do Acordo Ortográfico de 1990 e a sua eventual revisão por influência de Marcelo Rebelo de Sousa a quem o Presidente da Academia de Ciências de Lisboa dirige um pedido de reabertura desta questão.
Seria uma muito boa notícia se tal acontecesse.
Repetindo notas que já aqui deixei e enquanto for tempo de evitar este atropelo à Língua Portuguesa que o Acordo Ortográfico representa vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. Não vou repetir os motivos pelos quais, do meu ponto de vista de leigo nestas matérias, o Acordo deveria ser repensado, muitas vezes aqui os enuncio.
É também verdade que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" o que me parece curioso, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições" que transformam a ortografia da Língua Portuguesa numa mixórdia.
Entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.
De facto, não tenho conhecimento de alguma perturbação ou drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano/espanhol como língua oficial.
O que vamos conhecendo com exemplos extraordinários é a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia abastardada.

UM DIA NO FEMININO

Avivada a memória apela recente publicação do “08/03/08 – Memórias da grande Marcha dos Professores” do Paulo Guinote este 8 de Março recordou-me o que aqui escrevi há 8 anos.

“A história tem páginas curiosas. Hoje escreve-se uma delas. Numa sociedade em que o género ainda é factor de discriminação negativa, no Dia Internacional da Mulher, 100 000 docentes, na sua maioria mulheres, protestam contra a política dirigida por uma mulher. Entre as razões para o protesto figuram “tratamento indigno”, “medidas ofensivas e desrespeitadoras”, “humilhação”, etc. Segundo os relatos, muitas destas mulheres protestam na rua pela primeira vez.
Será que os tempos estão mesmo a mudar?
Já o velho Dylan dizia que sim.”

Sim os tempos mudaram, o tempo não pára. Mas será que mudaram significativamente para os Professores? As marcas de Maria de Lurdes Rodrigues e as marcas de Nuno Crato permanecem. Boas? Más?
E o que se segue?
Os Professores sentem-se melhor que há 8 anos? Mais valorizados? Mais apoiados? Mais recompensados e reconhecidos? Mais preparados?
Tenho medo das respostas. Gostava de não ter.

MULHERES

Não há volta a dar, 8 de Março, o calendário das consciências manda reparar nas mulheres, no seu universo, nos seus problemas. Para além das iniciativas, discursos e referências na imprensa que fazem parte da liturgia comemorativa, reparemos então.
Reparemos como se mantêm em níveis dramáticos os episódios de violência doméstica incluindo homicídios. Acresce que ainda existem muitíssimas situações que não são do conhecimento público e, portanto, boa parte dos episódios não são sequer objecto de procedimento.
Reparemos como se mantém a diferença de oportunidades e a desigualdade salarial apesar das mudanças legislativas. Segundo alguns dados serão precisas décadas para atingir equidade no estatuto salarial.
Reparemos na dificuldade que muitas mulheres em Portugal têm em conciliar maternidade com carreira, adiando ou inibindo uma ou outra, sendo cada mais preterida a maternidade. A intenção expressa de ter filhos é um obstáculo no acesso ao emprego.
Reparemos em como as mulheres portuguesas são das que na Europa mais horas trabalham fora de casa e também das que mais trabalham em casa.
Reparemos na necessidade de imposição legal de quotas para garantia de equidade.
Reparemos na desigualdade no que respeita à ocupação de postos de chefia.
Reparemos nos números do tráfico e abuso de mulheres que também passa por Portugal.
Reparemos na criminosa mutilação genital feminina, também realizada em Portugal.
Reparemos como a igreja continua a discriminar as mulheres.
Reparemos na quantidade de mulheres idosas que vivem sós, sobrevivem isoladas e acabam por morrer de sozinhismo sem que ninguém, quase, se dê conta.
Reparemos, finalmente, no que ainda está por fazer.
Na verdade, a metade do céu que as mulheres representam carrega um fardo pesado.
Até para o ano, portanto.

segunda-feira, 7 de março de 2016

O PROFESSOR QUE NÃO SABIA ALEMÃO

Aos olhos dos miúdos mais pequenos os professores, felizmente, são figuras importantes, aliás, acredito que para a esmagadora maioria dos alunos assim acontece apesar da turbulência, do esforço que alguns fazem para os desvalorizar, por omissão, intenção, negligência ou incompetência e das mudanças dos tempos que atravessamos.
Como ia dizendo, os mais pequenos têm uma relação engraçada com os que imaginam como fontes do que irão aprender. Reparem nesta história que me foi contada há algum tempo por um professor do 1º ciclo numa escola do interior centro.
Estava a acontecer na aula uma conversa sobre os saberes que as pessoas possuem e como diferentes pessoas têm diferentes saberes. O professor achou por bem ilustrar o discurso com a situação de um aluno presente que, tendo vindo da Alemanha com os pais, sabia falar alemão coisa que mais ninguém no grupo sabia, nem ele. Um dos gaiatos, não se conteve e pergunta, “O Professor não sabe mesmo falar alemão?”. Depois da resposta confirmativa, o miúdo, completamente decepcionado, não resiste, ”Chiii!! É professor e não sabe alemão”. De facto, como pode um professor não saber, o que quer que seja.
O que o miúdo ainda não sabia é que professores não são só os que sabem, são os que nos ensinam. Até a ser capazes de aprender o que eles não sabem. Como sempre digo e cada vez mais acredito, a gente ensina mais o que é do que aquilo que sabe.

ENTRE O NADA E A MIGALHA ESCOLHO A MIGALHA

O presidente da CIP, António Saraiva, afirma em entrevista ao Diário Económico que “Mais vale ter trabalho precário que desemprego”.
Creio que a boa parte das pessoas, sobretudo as que melhor sabem ou sentem as dificuldades económicas e indignidade do desemprego tenderão a concordar com esta afirmação.
Acontece no entanto que como tem sido recorrentemente divulgado existe um conjunto de situações  no universo do trabalho e emprego que deve ser considerado e não pode ser mascarado.
É frequente, por exemplo, a utilização abusiva e escandalosa de estágios profissionais não remunerados, sobretudo de jovens qualificados, situação que permite aos empregadores aceder a mão-de-obra gratuita por alguns períodos de tempo, expediente que podendo ter impacto nas estatísticas não muda a vida das pessoas, antes pelo contrário, é um atentado à sua dignidade e direitos.
Por outro lado, a precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Por outro lado, as políticas de emprego em curso continuam a insistir na maior flexibilização das relações laborais o que apoia a afirmação de António Saraiva, evidentemente.
Neste cenário, os desequilíbrios fortíssimos entre oferta e procura em diferentes sectores, a natureza da legislação laboral favorável à precariedade e insensibilidade social e ética de quem decide ou emprega, promovem a proletarização do mercado de trabalho mesmo em áreas especializadas ou mesmo o recurso a uma forma de exploração selvagem com uma maquilhagem de "estágio" sem qualquer remuneração a não ser a esperança de vir a merecer um emprego pelo qual se luta abdicando até da dignidade.
Acontece ainda que alguns dos vencimentos que se conhecem, atingindo também camadas altamente qualificadas, não são um vencimento, são um subsídio de sobrevivência.
É justamente a luta pela sobrevivência que deixa muita gente, sobretudo jovens sem subsídio de desemprego e à entrada no mundo do trabalho, sem margem negocial, altamente fragilizadas e vulneráveis, que entre o nada e a migalha "escolhem” a "migalha", ou mesmo uma remota hipótese de um emprego no fim de período de um indigno trabalho gratuito. Como é evidente esta dramática situação vai de mansinho alargando e numa espécie de tsunami vai esmagando novos grupos sociais e famílias.
É um desastre. Grave e dramático é que as pessoas são "obrigadas" a aceitar. Os mercados sabem disso, as pessoas são activos descartáveis.

O APOIO PÚBLICO AO ENSINO PRIVADO

O director executivo da Associação dos Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo, Queiroz e Melo, anunciou que está a ser preparado um “livro branco” que pretende caracterizar de forma aprofundada os 79 estabelecimentos de ensino privado que têm contrato de associação com o ME.
É público que o ME anunciou a intenção de analisar também em profundidade esta situação para avaliar a justificação das turmas subsidiadas e evitar “redundâncias”.
Na divulgação deste trabalho Queiroz e Melo afirmou, “Há valores sociais – de coesão, de integração, de combate à exclusão e abandono escolar – da maior importância por trás de alguns destes contratos que importa conhecer em toda a sua dimensão”.
Dou por adquirido que ainda poderão existir situações em que a inexistência de resposta na educação e escolas públicas possa justificar o contrato de associação. Tais situações poderão até dever-se ao desinvestimento verificado nos últimos anos na oferta pública. Aliás, como também sabido até desapareceu do quadro legal a exigência de ausência de resposta pública para que se estabeleçam os contratos.
O que acho interessante e curioso na afirmação de Queiroz e Melo é a referência a que as vantagens por si identificadas, “coesão, integração, combate à exclusão e ao abandono escolar” estarão presentes em alguns, sublinho alguns, desses contratos de associação.
E nos outros Dr. Queiroz e Melo?
Bom, nos outros estarão presentes os interesses dos negócios da educação financiados com dinheiros público com o apoio simpático e generoso das políticas educativas.
Nada de novo, registo a transparência do director executivo da AEEP.