segunda-feira, 14 de março de 2016

DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E DAS HUMANIDADES

No DN encontra-se um trabalho muito interessante sobre a questão da escolha de formação no ensino superior na área das Ciências Sociais e das Humanidades questionando a sua utilidade e empregabilidade. São inquiridos alguns jovens que defendem com entusiasmo a sua opção pela formação nesta área apesar das dificuldades que sabem existir.
Na verdade, nos últimos anos emergiram discursos que de forma mais explícita ou implícita desvalorizam o papel desta área.
Mesmo ao nível da investigação científica e do seu financiamento a área das Ciências Sociais foi arrasada pela crática negrura que se abateu sobre o tecido científico e de investigação em Portugal.
A visão centra-se quase que exclusivamente na empregabilidade e “utilidade” destas áreas científicas, as Ciências Sociais e as Humanidades.
As Universidades tendem a ser vistas uma escola profissional para as empresas o que assenta num equívoco tremendamente perigoso, confundir desenvolvimento tecnológico com desenvolvimento científico.
Este equívoco esteve claramente presente na política de Crato para a ciência e investigação com o esmagamento das Ciências Sociais e das Humanidades ou em discursos como do então Ministro da Economia, Pires de Lima quando afirmava com preconceito e ignorância que é preciso que a investigação (maioritariamente desenvolvida enquadrada pelas universidades) "se traduza em produtos, marcas e serviços que possam fazer a diferença no mercado e devolver à sociedade o investimento que fizemos".
Tal entendimento mostra mais uma vez a ignorância sobre a ciência, o seu desenvolvimento e o papel fundamental no desenvolvimento das sociedades, eliminando pura e simplesmente as ciências sociais e das humanidades, evidentemente inúteis por não criarem "produtos, marcas e serviços".
É evidente que a empregabilidade e a transferência de conhecimentos para o tecido económico são dimensões a considerar na organização da oferta formativa mas existe um conjunto vasto e imprescindível de formação universitária de que não podemos prescindir com o fundamento exclusivo no mercado de emprego. Podemos dar como exemplo formações na área da filosofia ou nichos de investigação que são imprescindíveis num tecido universitário e social moderno e que cumpra o seu papel de construção e divulgação de conhecimento e desenvolvimento em todas as áreas. 
As universidades não podem ser o departamento de formação profissional das empresas.
Uma sociedade com gente formada e investigar nestas áreas é uma sociedade mais desenvolvida.

domingo, 13 de março de 2016

SUCESSO

Desde cedo, ainda pequeno, começou a ouvir.
Ainda não está perfeito. Aguenta. Tens que te esforçar mais. Tens que ser o melhor. Não chores. Tens que estar na frente. Não desistas.
Durante algum tempo ainda ouviu.
Só os melhores, como tu, vencem. O sucesso vai fazer-te feliz. Não percas tempo. Tens que chegar lá. Não podes ficar para trás. O mundo não é para quem falha.

Um dia.
Foi perfeito, esforçou-se e conseguiu. Ninguém mais soube dele.

DE HELSÍNQUIA A LISBOA

É verdade que as comparações entre realidades diferentes devem ser realizadas com prudência. No entanto, a análise dessas realidades, sobretudo de experiências bem-sucedidas podem ser inspiradoras de mudanças e ajustamento que, respeitando diferenças, possam potenciar evolução e progresso.
Vem esta introdução a propósito do trabalho do Expresso sobre as mudanças em curso na Finlândia e que serão apresentadas na próxima semana em Portugal.
Neste contexto e para lá da recomendação de leitura da peça, algumas notas.
Contrariamente às primeiras referências que se divulgaram não estará em causa a abolição de disciplinas, elas mantêm e suportam a aquisição e domínio de saberes considerados essenciais a nível nacional.
O que parece ser intenção é o desenvolvimento de formas de trabalho em sala de aula que transcendam a lógica do trabalho interior a cada disciplina, definindo um conjunto de tópicos que exigem saberes oriundos das diferentes disciplinas e que serão trabalhados de forma transversal. Do meu ponto de vista, a ideia não é nova e informava o que seriam os objectivos da extinta Área de Projecto no nosso sistema educativo embora esta fosse um dispositivo para lá do currículo, existiam as áreas disciplinares e ao lado a Área de Projecto. Em torno de um Projecto (um tópico na proposta finlandesa) seriam desenvolvidos trabalhos/projectos de natureza transversal que mobilizando os saberes que os alunos adquiriam no âmbito do trabalho de cada disciplina. No entanto, as práticas desenvolvidas e o próprio modelo nem sempre correspondiam a estes objectivos que na proposta finlandesa surgem com a "nobreza" de um modelo curricular e não algo para lá do currículo.
Esta Reforma assenta ainda em alguns eixos fundamentais:
A colaboração entre professores em sala de aula, modelos de coadjuvação ou co-teaching, por exemplo, como forma de concretizar a intenção de transversalidade nos projectos a desenvolver pelos alunos.
Um outro eixo remete para a questões como o clima de sala de aula, a promoção as escolas como "comunidades de aprendizagem", a importância da "alegria de aprender, a cooperação entre alunos e a sua autonomia, que são identificados como "objectivos chave" para esta reforma como refere Irmeli Halinen, Head of Curriculum Development  doFinnish National Board of Education.
Um outra dimensão é a avaliação das aprendizagens. Nesta sempre complexa matéria a proposta de Reforma envereda com clareza pela promoção da dimensão formativa da avaliação, pelo envolvimento e promoção da autonomia do aluno na avaliação do seu próprio trajecto de aprendizagem retomando a ideia conhecida de "aprender a aprender" entendimento que nos últimos anos foi diabolizado em Portugal.
O sistema finlandês e a reforma em curso acentuam essa dimensão e assentam na autonomia de escolas e dos professores que são altamente valorizados e qualificados, outra marca distintiva.
Do meu ponto de vista esta Reforma corresponde a uma "modernização" do pensamento educativo introduzindo uma dimensão de globalidade e mobilização integrada e contextualizada dos saberes aprendidos de forma mais compartimentada nas diferentes disciplinas dando-lhes um sentido que potenciará a motivação e a aprendizagem e aquisição de uma formação global não segmentada que actualmente se requer.
A referida autonomia das escolas e das comunidades locais permite que, mantendo o currículo nacional, se possam construir projectos que traduzam especificidades contextuais e, portanto, com maior potencial de impacto, motivação e aprendizagem.
Numa sintética abordagem comparativa com a política educativa em Portugal diria que a visão sobre educação e escola que informa esta Reforma está muitíssimo longe do que, do meu ponto de vista tem informado a política educativa em Portugal.
A estrutura curricular actual assenta em programas demasiados extensos, excessivamente prescritivos e na definição de metas curriculares que, na forma como estão formuladas, fazem correr o sério risco de que o ensino se transforme na gestão de uma espécie de "check list" das metas estabelecidas implicando a impossibilidade de acomodar as diferenças, óbvias, entre os alunos, os seus ritmos de aprendizagem.
Acontece ainda que o nosso sistema se encaminhou no sentido de uma hipervalorização da avaliação externa em detrimento da avaliação de natureza mais formativa. A avaliação externa é imprescindível mas não pode tornar-se o tudo na vida da escola.
Uma nota ainda para algumas referências identificadas como base da Reforma Finlandesa e já referidas, "a questão do clima de sala de aula", o entendimento das escolas como "comunidades de aprendizagem"", "a importância da "alegria de aprender"", "a cooperação entre alunos e a sua autonomia" ou "aprender a aprender" que são identificados como "objectivos chave" e que, do meu ponto de vista, são isso mesmo, "aspectos chave".
No entanto, é minha convicção que por cá ainda teremos muita gente, já não Nuno Crato enquanto Ministro, que considerará tais "objectivos chave" como um típico discurso "eduquês" (seja lá isso o que for) e, como tal, identificados como uma fonte do mal, algo sem sentido.
Finalmente uma chamada de atenção para o entendimento finlandês de que as reformas em educação se devem processar regularmente, de forma participada, avaliada, com ciclos de vida para além dos ciclos político-eleitorais. Em Portugal, a educação é um terreno altamente permeável e apetecível para as lutas de poder e controlo da partidocracia vigente o que lhe retira serenidade e em que as mudanças são constantes, inconsistentes e à deriva.
Não conseguiremos fazer melhor?

sábado, 12 de março de 2016

PARTIU KEITH EMERSON

É assim. Partiu Keith Emerson, a alma dos Emerson, Lake & Palmer. Outro som significativo na banda sonora da minha estrada.
Só para recordar.


DIAS CRIADORES

Aqui no Alentejo, neste Alentejo que não é igual ao Alentejo do Henrique Raposo, quando no fim do Inverno ou, sobretudo, durante a Primavera, surgem uns dias de sol, quentes, a seguir a algum tempo de chuva, chamamos-lhes dias criadores. Hoje está um dia assim.
Tudo o que a terra tiver vai crescer, criar-se, a olhos vistos. A sério, se tivermos paciência e soubermos olhar, quase que dá para ver crescer o pasto, para ver as árvores a enfeitar-se para receber o Verão. Na horta, o que se lá colhe vem com uma frescura e um viço que lavam a alma e o estômago.
Gosto destes dias criadores.
Também gostava que estes dias criadores fizessem criar esperança em vez da secura da desesperança.
Também gostava que estes dias criadores fizessem criar confiança em vez da secura do medo.
Também gostava que estes dias criadores fizessem criar ...

DO NÚMERO DE ALUNOS COM NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS

No Público abordam-se os dados divulgados pelo ME relativos aos alunos com NEE o nosso sistema educativo. É evidenciado o aumento do número global de alunos referenciados como tendo necessidades educativas especiais e o facto de que os rapazes considerados com NEE são em número bastante superior ao das raparigas.
Para além de outras razões é de considerar, por exemplo, que entre os rapazes é mais frequente a existência de problemáticas de natureza social, emocional e comportamental que se reflectem, evidentemente, no número de casos identificados.
No entanto, a questão do aumento do número de alunos referenciados merece umas notas. Porque me parecem actuais, vou usar algumas das considerações que divulguei em texto no Público há alguns meses e relativo aos dados de 14/15 que eram substancialmente superiores a 10/11 o termo de comparação usado.
Uma primeira ideia para afirmar que o número de alunos apoiados em anos anteriores estavam bem mais longe das necessidades do que actualmente se encontram.
De facto, por efeito de filtros de uma natureza discutível na disponibilização de apoios e recursos a alunos que evidenciam dificuldades, o número de alunos com apoio era muito menor do que o número de alunos que necessitavam e das estimativas de necessidades com base em critérios internacionalmente aceites. Esta recorrente situação tem sido objecto de análise quer pela Inspecção-Geral de Educação, quer pelo Conselho Nacional de Educação
Neste cenário, por pressão dos professores e pais confrontados com muitos alunos a necessitar de ajuda começou a verificar-se progressivamente que, mesmo com os normativos desfavoráveis que filtravam o acesso a apoios, as escolas foram tentando com os recursos disponíveis providenciar algum tipo de ajuda o que contribui para esta subida fortíssima de alunos com NEE em apoio nas escolas portuguesas.
No entanto, este aumento não significa, evidentemente, uma alteração com o mesmo grau de significado no padrão e quadros de necessidades dos alunos no que se refere, sublinho, a situações de NEE apesar da confusa e pouco sólida definição e conceitos que os normativos utilizam. A estranha diferença entre o carácter permanente ou “transitório(!)” das NEE que um aluno possa evidenciar é apenas um exemplo. É também neste entendimento que julgo poder olhar-se para os dados agora divulgados.
Por outro lado, um sistema educativo que tem vindo a tornar-se cada vez mais “normalizado” (currículos extensos, prescritivos, assentes em centenas de metas curriculares por disciplinas), competitivo, selectivo (“darwinista”), assente em filtros sucessivos, os exames, os rankings, os incentivos às escolas com sobrevalorização da avaliação externa dos alunos, etc. acaba, necessariamente, por se tornar incapaz de acomodar as diferenças entre os alunos, nem sequer estou a falar de NEE, e induz um aumento do número de alunos que podem sentir dificuldade em acompanhar o “ritmo” do trabalho.
Mais uma vez, por inexistência de recursos de outra natureza, muitas escolas providenciam alguns apoios a esta franja de alunos através dos dispositivos de educação especial o que também contribui para o aumento do número de alunos apoiados considerados como apresentando NEE.
Tudo isto considerado surge o que considero a questão central, que apoios e recursos estão a ser disponibilizados a alunos, professores e pais? Serão suficientes, quer em docentes (apesar do aumento verificado), técnicos (número de psicólogos baixou) ou assistentes operacionais? Serão adequados? Contribuem para o sucesso real dos alunos considerando todas as suas capacidades e competências? São informadas por princípios de educação inclusiva cujo critério fundamental é a participação, tanto quanto possível, nas actividades comuns das comunidades escolares?
Gostava de ser mais optimista mas apesar do esforço notável da generalidade das direcções escolares, dos professores, técnicos e assistentes, da existência de práticas e experiências de excelente nível, a realidade está aquém do que seria desejável.
Sucessivos Relatórios da Inspecção-Geral de Educação e do Conselho Nacional de Educação, a que já aludi, mostram enormes insuficiências e necessidades. Desde legislação não cumprida, por exemplo, no que se refere ao número de alunos com NEE por turma, a colocação tardia e insuficiente de professores, a inexistência de técnicos e assistentes operacionais de acordo com o necessário, um discutível modelo de articulação entre escolas e Centros de Recursos para a Inclusão que por falta de regulação dá cobertura tanto a boas práticas como a experiências que de inclusão e qualidade têm pouco, etc. a realidade é, de facto, preocupante.
Assim, a inquietação de professores e pais é como responder de forma adequada e exigente, sim devemos ser exigentes, às necessidades e dificuldades educativas ou escolares de todos os alunos que em qualquer circunstância as possam evidenciar, independentemente da sua natureza. Aliás, a necessidade de uma avaliação educativa sólida e competente das reais necessidades ou dificuldades é o primeiro passo para uma resposta adequada.
Simplificando, teremos de escolher um caminho.
Primeiro caminho. Enviam-se para fora da escola regular pública os alunos que mais dificuldades colocam e apresentam, sobretudo adolescentes e jovens, (os dados deste ano mostram esse aumento) retornando às instituições, por exemplo, às quais se garante uns apoios, a diminuir evidentemente, para que por lá mantenham esses alunos.
Nega-se de forma irresponsável e administrativa as suas dificuldades ou a condição de alunos com necessidades especiais, "normalizam-se" e passam a ser tratados como todos os outros alunos e espera-se que a selecção e a iniciativa das famílias leve os meninos que atrapalham para fora da sala de aula, primeiro, e para fora da escola, depois.
Agrupam-se os alunos por tipo ou grau de dificuldades em espaços curriculares ou físicos, dentro ou fora das escolas, que os remetem para baixos ou inexistentes níveis de participação nas actividades das comunidades educativas a que por direito pertencem, ficando, assim, mais “entregados” que “integrados”
Segundo caminho. O sistema vai sendo dotado de forma empenhada e consistente dos apoios e recursos necessários a um efectivo e exigente apoio às dificuldades e necessidades de todas as crianças e adolescentes e a resposta é estruturada, tanto quanto possível, num cenário de participação, envolvimento e pertença nas e às comunidades educativas de que que fazem parte.
Do meu ponto de vista a escolha é clara. Na verdade, a educação inclusiva e a equidade em educação não decorrem de uma moda ou opção científica, são matéria de direitos pelo que devem ser assumidas através das políticas e discutidas, evidentemente, na sua forma de operacionalizar. 

sexta-feira, 11 de março de 2016

DA EDUCAÇÃO E DA INCLUSÃO

O meu amigo e companheiro de estrada profissional, David Rodrigues, divulga hoje no Público um texto estimulante, A Inclusão e os “peritos em possibilidades””.
Logo no início afirma, “Hoje, Portugal é um dos países mais avançados do mundo no capítulo da educação dos alunos com condições de deficiência.” Será? O que significa “mais avançado”?
No entanto, todo o restante enunciado se dirige às necessidades de promoção das mudanças necessárias para que as escolas inovem e se transformem em escolas menos selectivas e mais inclusivas. Talvez o avanço não seja assim tão grande.
É verdade que quem como eu acompanha este universo há algumas décadas não pode deixar de reconhecer o quanto se avançou mas é imperativo reconhecer o quanto está por fazer por uma educação de qualidade e de qualidade para todos. Neste sentido e dada a importância e a necessidade de uma pressão constante no sentido de promover uma educação que acomode a diversidade e necessidades de todos os alunos, aqui deixo umas notas breves.
A educação inclusiva e a equidade em educação não decorrem de uma moda ou opção científica, são matéria de direitos pelo que devem ser assumidas através das políticas e discutidas, evidentemente, na sua forma de operacionalizar. Aliás, poderá afirmar-se, citando Biesta, que a história da inclusão é a história da democracia, a história dos movimentos que lutaram pela participação plena de todas as pessoas na vida das comunidades, incluindo, evidentemente, a educação.
Nesta perspectiva e apesar de excelentes exemplos de boas práticas os tempos que vivemos são tempos de exclusão, de competição, de desregulação ética e de oscilação de valores que atingem, evidentemente, os mais frágeis, caso das crianças e jovens com necessidades educativas especiais e as suas famílias.
Logo de muito novos os miúdos começam a passar por sucessivos crivos, exames escolares ou Classificações de outra natureza. Muitos são identificados por etiquetas, "repetentes", "dificuldades de aprendizagem", "necessidades educativas especiais permanentes", "hiperactivos" "autistas", etc., agrupam-se os miúdos com base nessas etiquetas, do ensino vocacional, às unidades ou escolas de referência e “guetizam-se” por espaços, curriculares ou físicos, entre a escola e as instituições, de novo e cada vez mais.
É verdade que também temos excelentes exemplos de trabalho em comunidades educativas que, tanto quanto possível e com os recursos de que dispõem, se empenham em estruturar até ao limite ambientes educativos mais inclusivos em que todos, mesmo todos, participem. Como sempre afirmo, a participação é um critério essencial de inclusão.
Deveremos então falar do copo meio cheio ou do copo meio vazio?
Existem miúdos que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que estão, não “integrados” mas “entregados”, por várias razões e nem sempre por dificuldades próprias.
Existem pais que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que os seus filhos cumprem os dias.
Existem professores que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa onde se empenham e querem trabalhar apesar dos meios e recursos tantas vezes insuficientes e desadequados.
Existem orientações normativas e políticas que, sempre em nome da inclusão, acabam por promover ou facilitar a exclusão.
Existem direcções escolares, poucas, quero acreditar, que gostariam de ver as suas escolas ou agrupamentos mais “bem frequentadas”, alguns miúdos só criam dificuldades e atrapalham os resultados das escolas.
Será a nossa escola inclusiva? Passará o futuro da nossa escola pública pelos princípios da educação inclusiva e pela a garantia da equidade educativa?
Eu quero acreditar que sim, já percorremos muito caminho mas ainda falta muito mais caminho.

DA SÉRIE METE-ME ESPÉCIE

Bruxo do Sporting recebe 250 mil € por época

Eu pensava que o futebol era uma ciência com diferentes especilistas e uma paixão para as pessoas como eu. E pensava que o mundo científico do futebol teria no Mestre da Táctica, Jorge Jesus, um dos seus grandes nomes, um cérebro, por assim dizer.
Mete-me espécie que afinal seja coisa de bruxos.
É verdade que eu não acredito em bruxas mas que ...

PROLETARIZAÇÃO DA ECONOMIA

Que será necessário para que se entenda que políticas de empobrecimento e proletarização da economia e do trabalho, com baixos salários e precariedade, não produzem desenvolvimento?
Na verdade, boa parte dos vencimentos em empregos mais recentes, mesmo com gente qualificada, não são um vencimento, são um subsídio de sobrevivência, uma indignidade.
Um caminho de diminuição dos custos do trabalho através do aumento da carga horária, da precariedade e do abaixamento de salários não será a forma mais eficaz de combater o desemprego, promover desenvolvimento e criação de riqueza.
Parece razoavelmente claro que a proletarização da economia e o empobrecimento das famílias não poderão ser a base para o desenvolvimento e promoção de coesão social.

quinta-feira, 10 de março de 2016

PROFESSORES QUE CANTAM

O final de tarde de ontem foi passado numa estimulante s simpática conversa com professores em Abrantes em torno das dificuldades e da necessidade de conseguirmos responder o melhor possível às diferenças entre os alunos, a a mais óbvia e inultrapassável característica de qualquer grupo de alunos de qualquer das nossas escolas.
Como não podia deixar de ser reflectiu-se como muitas das circunstâncias e o clima que de uma forma geral se foi instalando nas escolas são pouco amigáveis para esse trabalho tão necessário quanto difícil.
As dificuldades e o clima as escolas são assuntos recorrentes nas conversas com e entre professores.
No entanto, a minha passagem por Abrantes começou por algo que me pareceu muito positivo e estimulante.
Refiro-me à actuação empenhada, divertida e competente do Grupo de Cantares do Agrupamento nº 1. O Grupo é constituído por docentes, funcionários, alguns pais e alunos. Será uma reformulação em modo musical da ideia de comunidade educativa. Tem ainda particularidade de ter como maestro um professor de Educação Física num exemplo, mais um, dos múltiplos talentos dos professores.
Vim mais optimista, obrigado pelo convite.



DA INDISCIPLINA ESCOLAR

Um trabalho desencadeado pelo Alexandre Henriques do blogue ComRegras e com o apoio da Associação Nacional de Directores de Agrupamento e Escolas Públicas vem reafirmar o volume significativo de episódios de indisciplina na escola com particular incidência no 3º ciclo, na linha, aliás, dos estudos já realizados sobre estas questões.
Quando os professores são inquiridos sobre eventuais factores contributivos para  a indisciplina em sala de aula são recorrentemente identificados o contexto familiar dos alunos, as políticas educativas e os seus efeitos, os alunos, as direcções de escola e os próprios professores, formação, experiência, apoio e valorização, etc.
Outros estudos sugerem que uma parte bastante significativa do tempo dos professores em sala de aula é gasta na gestão do comportamento dos alunos em detrimento das tarefas de ensino.
Algumas notas que não sendo novas me parecem justificadas.
Em primeiro lugar julgo que importa clarificar o que está em causa. Permitir, por exemplo, que um telemóvel toque na sala de aula ou outros comportamentos desadequados em sala de aula ou na escola serão indisciplina, insultar, humilhar, confrontar fisicamente um professor, comportamentos frequentes de agressão ou roubos a colegas configuram pré-delinquência ou delinquência e comportamentos disruptivos podem ainda estar ligados a perturbações de natureza psicológica.
A escola não pode ser responsabilizada e considerada competente por e para todo este universo de problemas nos comportamentos dos mais novos. Para situações de pré-delinquência ou perturbações do comportamento pode, evidentemente, dar contributos mas não assumir a responsabilidade pelo que importa clarificar a análise.
Centremo-nos então na indisciplina escolar que considero matéria de competência da escola e matéria de responsabilidade de toda a comunidade, incluindo os pais, naturalmente, e todas as figuras com relevância social, por exemplo, não se riam, políticos ou jogadores de futebol.
O Estatuto do Aluno, no qual o ME depositava públicas esperanças que me pareceram, desde sempre, sobrevalorizadas e desadequadas face aos seus conteúdos e à realidade das escolas e comunidades actuais, qualquer que seja, é um regulador, melhor ou pior, mas nunca A solução e, pela mesma razão, nunca será A causa da indisciplina.
Parece-me também de referir que todas as figuras sociais a que se colam traços de autoridade por exemplo, pais, professores, médicos, polícias, idosos, etc., viram alterada a representação social sobre esses traços. Dito de outra maneira, o facto de ser velho, polícia, professor ou médico, já não basta, só por si, para inibir comportamentos de desrespeito pelo que importa perceber o impacto destas alterações nas relações entre professores e alunos.
As mudanças significativas no quadro de valores e nos comportamentos criam dimensões novas em torno de um problema velho, a indisciplina. Daqui decorre, por exemplo, que restaurar a autoridade dos professores, tal como era percebida há décadas, é uma impossibilidade porque os tempos mudaram e não voltam para trás. Pela mesma razão, não se fala em restaurar a relação pais – filhos nos termos em que se processava antigamente e falar da "responsabilização" dos pais é interessante, mas é outro nada.
Um professor ganha tanta mais autoridade quanto mais competente, apoiado e valorizado  se sentir. O apoio aos professores é um problema central no que respeita à indisciplina mas não só.
Assim sendo, o ME não pode desenvolver políticas que socialmente deixem o professor desapoiado, que comprometam o clima e a qualidade de trabalho nas escolas e, simultaneamente, afirmar que vai restaurar a sua autoridade e promover a sua valorização social.
Também por isto se questiona a incompetente constituição de mega-agrupamentos e de escolas e turmas com dimensões excessivas, variável associada à indisciplina escolar.
É também importante reajustar a formação de professores. As escolas de formação de professores não podem “ensinar” só o que sabem ensinar, mas o que é necessário ser aprendido pelos novos professores e pelos professores em serviço. Problemas "novos" carecem também de abordagens "novas".
Parece também importante a existência de estruturas de mediação entre a escola e a família o que implica a existência de recursos humanos qualificados e disponíveis. Veja-se o trabalho dos GAAFs apoiados pelo IAC, experiências no âmbito da intervenção da Associação EPIS ou iniciativas que algumas escolas conseguem desenvolver e que permitam apoiar os pais dos miúdos maus que querem ter miúdos bons e identificar as situações para as quais, a comprovada negligência dos pais exigirá outras medidas que envolvam, eficazmente e em tempo oportuno as CPCJ.
Um caminho de autonomia, com a alteração desejável dos modelos de organização e funcionamento das escolas e na gestão curricular, deveriam permitir que as escolas, algumas escolas, mais problemáticas tivessem menos alunos por turma, mais assistentes operacionais com formação em mediação e gestão de conflitos ou ainda que se utilizassem, existindo, professores em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades.
Por outro lado, os estudos e as boas práticas mostram que a presença simultânea de dois professores é um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos.
As dificuldades dos alunos estão com muita frequência na base do absentismo e da indisciplina, os alunos com sucesso, em princípio, não faltam e não apresentam grandes problemas de indisciplina.
Os professores também sabem que na maior parte das vezes, os alunos indisciplinados não mudam os seus comportamentos por mais suspensões que sofram. É evidente que importa admitir sanções, no entanto, fazer assentar o combate à indisciplina nos castigos aos alunos e, eventualmente, nas multas e retirada de apoios aos pais, é ineficaz, é facilitista na medida em que é a medida mais fácil e mais barata, é demagógica porque vai ao encontro dos discursos populistas que aplaudem a ideia do "prender" do "expulsar" até ficarem só os nossos filhos.
O problema é quando também nos toca a nós, aí clamamos por apoios.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização dos muito frequentes incidentes de indisciplina que minam a qualidade cívica da nossa vida além, naturalmente, da qualidade e sucesso do trabalho educativo de alunos, professores e pais.

quarta-feira, 9 de março de 2016

DOS MANUAIS ESCOLARES

O Governo confirma a decisão de introduzir a gratuitidade dos manuais escolares para o 1º ano de escolaridade no próximo ano lectivo e estendê-la progressivamente.
É um passo positivo que deve registar-se mas ainda deixa muito por fazer nesta matéria. Algumas notas repescadas.
De facto, a questão dos manuais escolares é uma matéria importante e não só pelos custos para as famílias. Apesar do esforço desenvolvido em diversas iniciativas promovendo a reutilização dos manuais vários factores como uma excessiva “manualização” do trabalho dos alunos potenciado com o aumento do número de alunos por turma e pelo modelo de currículos assente nas metas curriculares, não porque existem mas pela forma excessiva e inadequada como foram definidas. Acresce ainda a rápida mudança de currículos ou dos manuais aprovados nas escolas e agrupamentos que também obrigam à substituição de manuais. Importa ainda considerar o habitual conjunto de cadernos de actividades, fichas e CDs que acompanham os manuais e que se reflectem significativamente os custos globais.
Tal situação tem óbvias implicações didáctico-pedagógicas e, naturalmente, económicas pelo peso nos orçamentos familiares acrescido
Recordo que no quadro constitucional vigente, lê-se no Art.º 74º (Ensino), “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito;
Na verdade, o ensino obrigatório nunca foi gratuito nem universal, vejam-se as taxas de abandono, e os custos incomportáveis para muitas famílias dos manuais e materiais escolares num cenário em que a acção social escolar é insuficiente e tem vindo a promover sucessivos ajustamentos nos valores e critérios de apoio disponibilizados. No universo particular das famílias com crianças com necessidades especiais os custos da escolaridade obrigatória e gratuita são ainda mais elevados, bem mais elevados.
Sem retomar considerações de natureza mãos didáctico-pedagógica que já tenho abordado creio que a redução da dependência dos manuais passaria, entre outros aspectos, por uma reorganização curricular, diminuindo a extensão de alguns conteúdos, a redução do número de alunos por turma ao abrigo de uma verdadeira autonomia das escolas, o que permitiria a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes incrementando, por exemplo, a acessibilidade a conteúdos e informação diversificada que as novas tecnologias oferecem.
É importante caminharmos no sentido de atenuar a fórmula predominante, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.
Julgo também que seria de considerar a possibilidade dos manuais escolares serem disponibilizados pelas escolas e devolvidos pelos alunos no final do ano lectivo ou da sua utilização, sendo as famílias penalizadas pelo seu eventual dano ou extravio e ficando, assim, com "folga" para aquisição de outros materiais, livros por exemplo, um bem com pouca presença em muitos agregados familiares. Este modelo não é novo, é usado em vários sistemas educativos.
Como é evidente, dentro desta perspectiva, a própria concepção dos manuais deveria ser repensada no sentido de permitir a sua reutilização.
Não esqueço, no entanto, o peso económico deste mercado e como são os mercados que mandam ... 

PARTIU NANÁ VASCONCELOS

Partiu Naná Vasconcelos. Ocupa um espaço muito significativo na banda sonora da minha estrada. Assisti a vários concertos, com vários formatos, sempre muito bons.
Um excerto do memorável "Eventyr" com Jan Garbarek e John Abercrombie.


DOS "SUBSÍDIOS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL"

Tribunais estão a mandar repor Subsídio de Educação Especial

Desde o início que me parece que o que deveria ser repensado é todo o modelo no qual assenta a prestação de apoios especializados a alunos com necessidades educativas especiais a frequentar estabelecimentos de ensino regular.
Nesta reflexão deve ser incluído o processo de avaliação e decisão sobre necessidades e apoios carece de melhoria face a situações bem conhecidas por quem tem alguma proximidade estas matérias e às quais já me tenho referido. Como hoje se noticia algumas destas decisões chegaram aos Tribunais.
A introdução de pequenos ajustamentos de natureza processual não muda significativamente o conjunto de problemas enormes verificados, falta de recursos, falta de apoios, tempos de apoio que seriam ridículos se não estivesse em causa crianças e jovens com problemas sérios, etc.
Este conjunto de problemas é bem conhecido por parte de milhares de famílias. Não estranham mas sabem, sentem, que os seus direitos não são cumpridos.
Qualidade e EDUCAÇÂO inclusiva não são muito compatíveis com um modelo que assenta no "outsourcing", na falta de articulação, coerência e de um maior envolvimento das escolas, apesar de algumas boas práticas que se conhecem. Em boa parte dos casos trata-se alunos no cumprimento da sua escolaridade obrigatória para os quais os apoios são fundamentais.
Não é nada de novo, os mais vulneráveis são sempre os que sofrem mais.
Mas não é uma fatalidade, fazemos os dias assim, como cantam os Trovante.

A PARTIDA DO POLÍTICO QUE NÃO ERA POLÍTICO

Através de uma porta pequena Cavaco Silva sai da actividade política.
Cavco Silva foi o cidadão como uma mais longa e relvante carreira política em Portugal depois de 1974.
Sempre se apresentou como um não político e com um discurso arrogante pequenino face à política. Considerou-se sempre acima dos "mesquinhos" interesses da classe "política".
Um fado conhecido da Manuela de Freitas e cantado por José Mário Branco diz, "canta com aquilo que és, só podes dar o que é teu".
Cavaco Siva sempre quis dar o que não era seu, a visão a clarividência, a seriedade política e intelectual, a isenção face aos interesses partidários.
Cavco Silva sempre agiu com o que era seu, a pequenez auto-centrada, a arrogância, a defesa clara dos políticos e das ideias" amigas", uma máscara mal composta de Homem acima dos homens.
Parte sem saudades, sem peso, sem grandeza.

PRONTO, SAIU ASNEIRA

"Se nós não encontrarmos um equilíbrio nestas matérias, só teremos professores no parlamento. Se calhar não teremos gente das empresas, de outras áreas da nossa sociedade, o que pode não ser o melhor para a nossa política"
Assunção Cristas espalhou-se, evidentemente.
No entanto, os “professores “ teriam certamente melhor desempenho no Parlamento que a “gente” imprescindível que ela pretende proteger teria nas escolas.
Mais a sério. Pensar um pouco antes de falar é um exercício que faz bem e nos poupa a asneiras.

terça-feira, 8 de março de 2016

E É ESCREVER ASSIM DESACORDADAMENTE. DE NOVO E SEMPRE

A imprensa de hoje retoma a questão do Acordo Ortográfico de 1990 e a sua eventual revisão por influência de Marcelo Rebelo de Sousa a quem o Presidente da Academia de Ciências de Lisboa dirige um pedido de reabertura desta questão.
Seria uma muito boa notícia se tal acontecesse.
Repetindo notas que já aqui deixei e enquanto for tempo de evitar este atropelo à Língua Portuguesa que o Acordo Ortográfico representa vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. Não vou repetir os motivos pelos quais, do meu ponto de vista de leigo nestas matérias, o Acordo deveria ser repensado, muitas vezes aqui os enuncio.
É também verdade que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" o que me parece curioso, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições" que transformam a ortografia da Língua Portuguesa numa mixórdia.
Entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for.
De facto, não tenho conhecimento de alguma perturbação ou drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano/espanhol como língua oficial.
O que vamos conhecendo com exemplos extraordinários é a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia abastardada.

UM DIA NO FEMININO

Avivada a memória apela recente publicação do “08/03/08 – Memórias da grande Marcha dos Professores” do Paulo Guinote este 8 de Março recordou-me o que aqui escrevi há 8 anos.

“A história tem páginas curiosas. Hoje escreve-se uma delas. Numa sociedade em que o género ainda é factor de discriminação negativa, no Dia Internacional da Mulher, 100 000 docentes, na sua maioria mulheres, protestam contra a política dirigida por uma mulher. Entre as razões para o protesto figuram “tratamento indigno”, “medidas ofensivas e desrespeitadoras”, “humilhação”, etc. Segundo os relatos, muitas destas mulheres protestam na rua pela primeira vez.
Será que os tempos estão mesmo a mudar?
Já o velho Dylan dizia que sim.”

Sim os tempos mudaram, o tempo não pára. Mas será que mudaram significativamente para os Professores? As marcas de Maria de Lurdes Rodrigues e as marcas de Nuno Crato permanecem. Boas? Más?
E o que se segue?
Os Professores sentem-se melhor que há 8 anos? Mais valorizados? Mais apoiados? Mais recompensados e reconhecidos? Mais preparados?
Tenho medo das respostas. Gostava de não ter.

MULHERES

Não há volta a dar, 8 de Março, o calendário das consciências manda reparar nas mulheres, no seu universo, nos seus problemas. Para além das iniciativas, discursos e referências na imprensa que fazem parte da liturgia comemorativa, reparemos então.
Reparemos como se mantêm em níveis dramáticos os episódios de violência doméstica incluindo homicídios. Acresce que ainda existem muitíssimas situações que não são do conhecimento público e, portanto, boa parte dos episódios não são sequer objecto de procedimento.
Reparemos como se mantém a diferença de oportunidades e a desigualdade salarial apesar das mudanças legislativas. Segundo alguns dados serão precisas décadas para atingir equidade no estatuto salarial.
Reparemos na dificuldade que muitas mulheres em Portugal têm em conciliar maternidade com carreira, adiando ou inibindo uma ou outra, sendo cada mais preterida a maternidade. A intenção expressa de ter filhos é um obstáculo no acesso ao emprego.
Reparemos em como as mulheres portuguesas são das que na Europa mais horas trabalham fora de casa e também das que mais trabalham em casa.
Reparemos na necessidade de imposição legal de quotas para garantia de equidade.
Reparemos na desigualdade no que respeita à ocupação de postos de chefia.
Reparemos nos números do tráfico e abuso de mulheres que também passa por Portugal.
Reparemos na criminosa mutilação genital feminina, também realizada em Portugal.
Reparemos como a igreja continua a discriminar as mulheres.
Reparemos na quantidade de mulheres idosas que vivem sós, sobrevivem isoladas e acabam por morrer de sozinhismo sem que ninguém, quase, se dê conta.
Reparemos, finalmente, no que ainda está por fazer.
Na verdade, a metade do céu que as mulheres representam carrega um fardo pesado.
Até para o ano, portanto.

segunda-feira, 7 de março de 2016

O PROFESSOR QUE NÃO SABIA ALEMÃO

Aos olhos dos miúdos mais pequenos os professores, felizmente, são figuras importantes, aliás, acredito que para a esmagadora maioria dos alunos assim acontece apesar da turbulência, do esforço que alguns fazem para os desvalorizar, por omissão, intenção, negligência ou incompetência e das mudanças dos tempos que atravessamos.
Como ia dizendo, os mais pequenos têm uma relação engraçada com os que imaginam como fontes do que irão aprender. Reparem nesta história que me foi contada há algum tempo por um professor do 1º ciclo numa escola do interior centro.
Estava a acontecer na aula uma conversa sobre os saberes que as pessoas possuem e como diferentes pessoas têm diferentes saberes. O professor achou por bem ilustrar o discurso com a situação de um aluno presente que, tendo vindo da Alemanha com os pais, sabia falar alemão coisa que mais ninguém no grupo sabia, nem ele. Um dos gaiatos, não se conteve e pergunta, “O Professor não sabe mesmo falar alemão?”. Depois da resposta confirmativa, o miúdo, completamente decepcionado, não resiste, ”Chiii!! É professor e não sabe alemão”. De facto, como pode um professor não saber, o que quer que seja.
O que o miúdo ainda não sabia é que professores não são só os que sabem, são os que nos ensinam. Até a ser capazes de aprender o que eles não sabem. Como sempre digo e cada vez mais acredito, a gente ensina mais o que é do que aquilo que sabe.

ENTRE O NADA E A MIGALHA ESCOLHO A MIGALHA

O presidente da CIP, António Saraiva, afirma em entrevista ao Diário Económico que “Mais vale ter trabalho precário que desemprego”.
Creio que a boa parte das pessoas, sobretudo as que melhor sabem ou sentem as dificuldades económicas e indignidade do desemprego tenderão a concordar com esta afirmação.
Acontece no entanto que como tem sido recorrentemente divulgado existe um conjunto de situações  no universo do trabalho e emprego que deve ser considerado e não pode ser mascarado.
É frequente, por exemplo, a utilização abusiva e escandalosa de estágios profissionais não remunerados, sobretudo de jovens qualificados, situação que permite aos empregadores aceder a mão-de-obra gratuita por alguns períodos de tempo, expediente que podendo ter impacto nas estatísticas não muda a vida das pessoas, antes pelo contrário, é um atentado à sua dignidade e direitos.
Por outro lado, a precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Por outro lado, as políticas de emprego em curso continuam a insistir na maior flexibilização das relações laborais o que apoia a afirmação de António Saraiva, evidentemente.
Neste cenário, os desequilíbrios fortíssimos entre oferta e procura em diferentes sectores, a natureza da legislação laboral favorável à precariedade e insensibilidade social e ética de quem decide ou emprega, promovem a proletarização do mercado de trabalho mesmo em áreas especializadas ou mesmo o recurso a uma forma de exploração selvagem com uma maquilhagem de "estágio" sem qualquer remuneração a não ser a esperança de vir a merecer um emprego pelo qual se luta abdicando até da dignidade.
Acontece ainda que alguns dos vencimentos que se conhecem, atingindo também camadas altamente qualificadas, não são um vencimento, são um subsídio de sobrevivência.
É justamente a luta pela sobrevivência que deixa muita gente, sobretudo jovens sem subsídio de desemprego e à entrada no mundo do trabalho, sem margem negocial, altamente fragilizadas e vulneráveis, que entre o nada e a migalha "escolhem” a "migalha", ou mesmo uma remota hipótese de um emprego no fim de período de um indigno trabalho gratuito. Como é evidente esta dramática situação vai de mansinho alargando e numa espécie de tsunami vai esmagando novos grupos sociais e famílias.
É um desastre. Grave e dramático é que as pessoas são "obrigadas" a aceitar. Os mercados sabem disso, as pessoas são activos descartáveis.

O APOIO PÚBLICO AO ENSINO PRIVADO

O director executivo da Associação dos Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo, Queiroz e Melo, anunciou que está a ser preparado um “livro branco” que pretende caracterizar de forma aprofundada os 79 estabelecimentos de ensino privado que têm contrato de associação com o ME.
É público que o ME anunciou a intenção de analisar também em profundidade esta situação para avaliar a justificação das turmas subsidiadas e evitar “redundâncias”.
Na divulgação deste trabalho Queiroz e Melo afirmou, “Há valores sociais – de coesão, de integração, de combate à exclusão e abandono escolar – da maior importância por trás de alguns destes contratos que importa conhecer em toda a sua dimensão”.
Dou por adquirido que ainda poderão existir situações em que a inexistência de resposta na educação e escolas públicas possa justificar o contrato de associação. Tais situações poderão até dever-se ao desinvestimento verificado nos últimos anos na oferta pública. Aliás, como também sabido até desapareceu do quadro legal a exigência de ausência de resposta pública para que se estabeleçam os contratos.
O que acho interessante e curioso na afirmação de Queiroz e Melo é a referência a que as vantagens por si identificadas, “coesão, integração, combate à exclusão e ao abandono escolar” estarão presentes em alguns, sublinho alguns, desses contratos de associação.
E nos outros Dr. Queiroz e Melo?
Bom, nos outros estarão presentes os interesses dos negócios da educação financiados com dinheiros público com o apoio simpático e generoso das políticas educativas.
Nada de novo, registo a transparência do director executivo da AEEP.

domingo, 6 de março de 2016

MIÚDOS E PAIS EM SOFRIMENTO

No DN está uma peça interessante sobre a experiência de crianças e adultos envolvidos em situações que podem considerar-se ao abrigo de uma designação não consensual "síndrome de alienação parental" emergente em casos de separação familiar. A utilização desta designação é controversa, mas o sofrimento de adultos e crianças envolvidas é evidente. Sobre este universo algumas notas.
Dados do Relatório Estatísticas da Justiça de Família e Menores referidos pela Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direito dos Filhos, referem que em 2012 se registaram mais de 17 mil novos processos de regulação parental e 22 mil por incumprimento, um aumento substancial face a anos anteriores. Estas situações que podem implicar várias presenças em Tribunal demoram em média cerca de 30 meses a decidir. Em situações mais difíceis, casos no âmbito da designada "alienação parental" por exemplo, as crianças podem estar todo este tempo sem contacto com pai ou mãe. No entanto, existem ainda situações extremas em que um processo pode durar oito anos.
Importa referir que está estabelecido que a decisão de regulação não deve ultrapassar um mês pelo que o cenário é deveras preocupante.
A Associação refere que existem falhas significativas quer por parte do sistema de justiça, quer por parte do Instituto de Segurança Social legalmente envolvido nos casos de regulação parental.
Em Janeiro de 2013 noticiava-se que o Instituto tinha 154 técnicos para este volume de cerca de 39 000 casos sendo que esses técnicos acumulam ainda outras funções, por exemplo, nas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens.
Temos assim definida uma situação absolutamente deplorável com previsíveis consequências negativas sérias para as crianças, mas também, naturalmente para os adultos que, apesar da separação, não perdem a condição de pais e desejam vê-la regulada. Este facto assume especial relevância em casos de maior litígio ou até na já referida e controversa situação de "alienação parental".
O princípio fundador do nosso quadro normativo, o Superior Interesse da Criança, tantas vezes lembrado e tantas vezes esquecido, exigiria, obviamente, que esta situação fosse minimizada com urgência.
Os estudos na área da sociologia familiar têm vindo a evidenciar um aumento do número de divórcios que parece ligado, entre outras razões, a alterações na percepção social da separação, menos “punitiva” e “culpabilizante” para os envolvidos. Estará a criar-se assim uma situação mais favorável, até do ponto de vista legal, à facilidade do processo de divórcio o que poderá levar a decisões, cuja bondade não avalio, que podem ser apressadas, por decisão não assumida por ambos e não antecipando a necessidade de minimizar eventuais impactos, sobretudo quando existem filhos.
Neste quadro, podem emergir nos adultos, ou num deles, situações de sofrimento, dor e/ou raiva, que “exigem” reparação e ajuda. Muitos pais lidam sós com estes sentimentos pelo que os filhos surgem frequentemente como o “tudo o que ficou” ou o que “não posso, não quero e tenho medo de também perder”.
Poderemos assistir então a comportamentos de diabolização da figura do outro progenitor, manipulação das crianças tentando comprá-las (o seu afecto), ou, mais pesado, a utilização dos filhos como forma de agredir o outro o que torna necessária a intervenção reguladora de estruturas ou serviços que se deseja oportuna no tempo e eficaz na ajuda. Este tipo de situações está ilustrado na peça do DN e em alguns casos pode atingir limites sem retorno como temos vindo a assistir com alguma regularidade.
É obviamente imprescindível proteger o bem-estar das crianças mas não devemos esquecer que, em muitos casos, existem também adultos em enorme sofrimento e que a sua eventual condenação, sem mais, não será seguramente a melhor forma de os ajudar. Ajudando-os, os miúdos serão ajudados.
Quero ainda sublinhar que, por princípio, prefiro uma boa separação a uma má família.

É TÃO TRISTE NÃO SABER LER

No Público encontra-se um trabalho sobre uma matéria a que habitualmente não é dada a importância que justifica, o analfabetismo em Portugal.
Na verdade ainda temos, segundo os Censos de 2011 e de acordo com a PORDATA, 5.15% de analfabetos em Portugal. É verdade que o progresso tem sido significativo, tínhamos 25.7% em 1970, mas ainda estamos com uma das mais altas taxas em termos europeus.
Se a este cenário acrescentarmos o analfabetismo funcional, pessoas que foram escolarizadas mas que não mantêm competências em literacia, a situação é verdadeiramente prioritária.
Também por estas razões continuo a pensar que não temos professores a mais. Os custos pessoais e sociais para as pessoas nesta situação, em várias dimensões, e o impacto económico da falta de competências em literacia justificaria um fortíssimo investimento em minimizar a situação até ao limite possível. Como sempre trata-se de matéria de opções políticas e visão de sociedade.
Lá pelo Alentejo canta-se:
(…)
É tão triste não saber ler
Como é triste não ter pão
Quem não conhece uma letra
Vive numa escuridão
(…)

NÃO É QUE SEJA MUITO IMPORTANTE MAS TALVEZ FOSSE ÚTIL SABER

Eu sei que ainda faltam duas semanas para o final do segundo período.
Também sei que escolas, direcções, professores, alunos e famílias têm uma larguíssima experiência na gestão de mudanças, prazos apertados, planeamento apressado, falta de informação, etc.
Também sei que todas as equipas ministeriais têm sempre todas as situações bem controladas e o planeamento bem estruturado e que toma sempre as decisões em tempo oportuno.
No entanto, talvez não fosse descabido saber quando se realizarão as provas de aferição já anunciadas e o calendário de exames.
Não é por nada de importante como organizar a preparação e abordagem a esse momento de avaliação. Não, é apenas assim uma curiosidade um pouco obsessiva  com o conhecimento do calendário de trabalho.
Claro que … a gente adapta-se, como sempre. Não é que gostemos e seja positivo, apenas não estranhamos.

sábado, 5 de março de 2016

DA CONFIANÇA

O Público comemora hoje 26 anos e apresenta uma edição dirigida por Nelson Évora sobre o tema da confiança que é, aliás, abordado de diferentes perspectivas e em diferentes áreas, incluindo a da educação.
Influenciado por esta ideia decidi-me por umas notas soltas, sem hierarquia de importância, em torno desta questão, a confiança, mas mantendo-me dento do universo da educação.
Era desejável que o Ministério da Educação assumisse definitivamente confiança nos professores e nas escolas e traduzisse essa confiança na definição de um quadro de  autonomia real para o trabalho nas escolas.
Parece-me também importante que se construísse finalmente de forma participada e competente um verdadeiro sistema de avaliação dos docentes que reforçasse a confiança imprescindível no seu trabalho.
É imprescindível que confiemos na educação e ensino público. Por isso devem ser objecto de investimento e valorização.
Até à existência de evidências que o desmintam é fundamental que a escola confie nos pais e que os pais confiem na escola.
Agora alguns aspectos de natureza mais personalizada em que a confiança desempenha também um papel decisivo.
É importante que tenhamos confiança e a expressemos nas capacidades, competências e qualidades dos nossos filhos. Eles sentem essa confiança e é um factor positivo para o seu funcionamento.
Da mesma forma é fundamental, a experiência e muitos estudos sustentam este entendimento, que os professores confiem e expressem essa confiança nas capacidades dos alunos para serem bem-sucedidos. Muitos alunos têm trajectos de insucesso ou dificuldade por questões desta natureza.
No mesmo sentido, é fundamental que a comunidade, pais, professores, técnicos e colegas confiem nas capacidades e competências que todos os alunos com necessidades educativas especiais também possuem e que as expressem e traduzam no trabalho desenvolvido. Só desta forma se podem promover verdadeiros ambientes educativos que suportem a inclusão, ou seja, que todos alunos se sintam reconhecidos, que estejam nos mesmos contextos que todos os outros, que participem nas actividades comuns e que se sintam e sejam percebidos como pertencentes à sua comunidade educativa. Evitaríamos situações insustentáveis como guetização espacial ou curricular, actividades debilizadoras e inadequadas, crescer sem progredir, etc., etc. 
É claro que várias outras reflexões se poderiam acrescentar mas fiquemos por aqui.
De facto, como sabemos, das relações pessoais, passando pelas relações profissionais até às relações com as instituições a confiança é algo de imprescindível.
Precisamos mesmo de sentir mais confiança.

PS - Os 26 anos do Público coincidem, dia a dia, com os meus 26 anos de leitor. Parabéns Público.

ABRIRAM AS FLORES DAS ESTEVAS

Esta semana abriram por aqui no monte as primeiras flores de esteva deste ano.
A filigrana da forma e das cores tornou o monte mais bonito. E há o cheiro inconfundível. A campo.


sexta-feira, 4 de março de 2016

A INTERVENÇÃO PRIORITÁRIA E A INTERVENÇÃO POSSÍVEL.

Em pesquisa por outras razões recordei que em 1996, com o objectivo de melhorar a qualidade da educação em Portugal, foram criados os TEIPs – Territórios Educativos de Intervenção Prioritária.
Passados vinte anos, com a prestimosa colaboração e empenho de sucessivas equipas ministeriais das quais é justo salientar o contributo inexcedível de Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, o conceito tem vindo a ser progressivamente alargado.
Na verdade, o modelo TEIP cobre todo o território. Por um lado temos os Territórios Educativos de Intervenção Prioritária e, por outro lado, temos os Territórios Educativos onde se faz a Intervenção Possível.
É ainda verdade que, quase sempre, a intervenção possível é mesmo prioritária. 

A HISTÓRIA DA BIRRA

Era uma vez um miúdo, o Francisco, com três anos e pouco. Vivia com o pai Daniel, a mãe Maria, a irmã Joana e a avó Jacinta, muito velha e que às vezes inventava histórias esquisitas.
Como muitas famílias naquela terra todos saíam muito cedo de casa e voltavam já tarde. O Francisco para a o Jardim de Infância, a Joana para a escola a tempo inteiro, o pai e a mãe para o trabalho e a avó para o centro de dia dos reformados e velhos.
Quando chegavam a casa, o pai Daniel lia o jornal na sala, a mãe Maria dava banho ao Francisco e fazia o jantar, a irmã Joana fazia os trabalhos de casa e a avó dormia sentada no sofá e, no meio do sono, inventava histórias.
Para despachar o Francisco davam-lhe jantar primeiro e depois ele entretinha-se a brincar, só, enquanto o resto da família jantava a olhar para a televisão por causa de uma telenovela.
Um certo dia, o Francisco resolveu fazer uma birra das grandes para comer a sopa do jantar. A mãe Maria depois de cantar todas as cantigas que sabia, desesperou e chamou o pai Daniel que para entreter o Francisco fazia macaquices, veio também a irmã Joana que trouxe a playstation dela para o Francisco ver. Até a avó Jacinta se levantou do sofá e contava histórias antigas. E começaram a ser assim muito animadas as horas de jantar do Francisco, todos os dias.
Só ele sabia que com a birra conseguia que a família estivesse junta à volta dele.

"SWAPS", UM FILME TÓXICO

Mais um episódio deste filme "SWAPS". Tem um argumento medíocre, é servido por actores medíocres e dirigido por um também medíocres realizadores.
Dada a elevada mediocridade, toxicidade e perigosidade deste produto, continuo a estranhar a não intervenção das autoridades com competência nestas matérias, designadamente a ASAE.
A cada cena rodada o filme adivinha-se mais escabroso e expressamente proibido a gente de bem.
Provavelmente o filme, os actores e as responsabilidades passarão à história e os efeitos continuarão suportados pelos mesmos, os espectadores de um filme que não escolheram e a que não queriam ter assistido ou financiado.
É mau demais.

quinta-feira, 3 de março de 2016

SINALIZADAS, REFERENCIADAS ... MAS A TRAGÉDIA ACONTECE. Enésimo episódio

A 16 do mês passado a propósito da tragédia da morte da duas meninas em Oeiras escrevi o que se segue.
“Mais uma vez, como não é raro que a aconteça, esta família, estas crianças, estavam "sinalizadas", "referenciadas", mas ... a tragédia aconteceu.
De há muito e a propósito de várias questões, que afirmo que em Portugal, apesar de existirem vários dispositivos de apoio e protecção às crianças e jovens e de existir legislação no mesmo sentido, sempre assente no incontornável “supremo interesse da criança, não existe o que me parece mais importante, uma cultura sólida de protecção das crianças e jovens. Poderíamos citar a insuficiência e falta de formação de juízes que se verifica nos Tribunais de Família, as frequentemente incompreensíveis decisões ou demoras em casos de regulação do poder parental, etc.
Temos também em funcionamento as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens que procuram fazer um trabalho eficaz mas em difíceis circunstâncias, para além da falta de agilidade processual na articulação das múltiplas entidades envolvidas como também é frequente entre nós.
É verdade que existem situações que se desenvolvem por vezes de forma extremamente rápida e imprevisível o que torna tudo ainda mais difícil, mas também exige maior celeridade e atenção.
No entanto, boa parte das Comissões têm responsabilidades sobre um número de situações de risco ou comprovadas que transcendem a sua capacidade de resposta. A parte mais operacional das Comissões, a designada Comissão restrita, tem boa parte dos técnicos a tempo parcial. Tal dificuldade repercute-se, como é óbvio, na eficácia e qualidade do trabalho desenvolvido, independentemente do esforço e empenho dos profissionais que as integram.
Este cenário permite que ocorram situações, frequentemente com contornos dramáticos, envolvendo crianças e jovens que, sendo conhecida a sua condição de vulnerabilidade não tinham, ou não tiveram, o apoio e os procedimentos necessários. Ouve-se então uma das expressões que me deixam mais incomodado, a(s) criança(s) estava(m) “sinalizada(s)” ou “referenciada(s)” o que foi insuficiente para a adequada intervenção. Em Portugal sinalizamos e referenciamos com relativa facilidade, a grande dificuldade é minimizar ou resolver os problemas referenciados ou sinalizados.
Por isso, sendo importante registar a menor tolerância da comunidade aos maus-tratos aos miúdos, também será importância que desenvolva a sua intolerância face à ausência de respostas e surgimento de tragédias como a de ontem.
O que me dói ainda mais é que não é a primeira vez que escrevo sobre acontecimentos desta natureza e, provavelmente, não será a última.”
Não, não foi mesmo a última, o Rodrigo partiu, vítima em primeira instância da mão que lhe roubou a vida mas também vítima da nossa incapacidade de o proteger.
Será a última vez que tal acontece?

ARRANJA-ME UM EMPREGO

A ex-ministra das Finanças integrará a administração da Arrow, a partir do próximo dia 7 de Março. A empresa está envolvida na avaliação de activos tóxicos do banco (Banif). A ministra nega qualquer "incompatibilidade" e não deixa o Parlamento
O despudor, a sem-vergonhice com que esta gente se comporta parece manter a infinita capacidade nos surpreender. Repito-me face ao que afirmei ontem a propósito do triste episódio da substituição da presidência do CCB por parte do Ministro João Soares.
Como sempre nestas ocasiões e de acordo com o “script” clássico, os envolvidos dizem que estão de “consciência tranquila” ou em modo Maria Luís Albuquerque, " nenhuma incompatibilidade ou impedimento legal" existe nesta situação. Acredito que tal possa acontecer pois para este pessoal “consciência”, “incompatibilidade”, “ética”, não significam certamente o mesmo que para a maioria das pessoas.
É por demais evidente que para boa parte desta gente, legalidade, transparência, ética ou minudências como pagar contribuições, impostos, cumprir as exigências legais, etc., são “contos para crianças”, coisas, por assim dizer, para “tótós”, nós.
Tecnoformices, relvices, varices, loureirices, salgadices, marquesmendices, amigos mecenas, negócios manhosos e corrupção, tráfico de influências e amiguismo, utilização criteriosa dos alçapões de uma justiça criteriosamente desenhados para efeitos de protecção dos seus interesses e outras habilidades da mesma natureza são ferramentas diariamente usadas por esta família alargada e diversa que há décadas ocupou um largo espectro do nosso contexto político, social e económico.
Cambada de artistas, nem as moscas, às vezes, variam.
São assim as contas da partidocracia. Em alternância pois claro. Sem alternativa, evidentemente.

OS CONSUMOS DOS ADOLESCENTES



O consumo de diferentes substâncias em quantidade e em grupo por adolescentes e jovens, sobretudo ao fim-de-semana, é muitas vezes entendido e sentido como o factor de pertença ao grupo, potenciando a escalada desse consumo, juntos bebemos ou fumamos mais do que sós, como é óbvio e o "estado" que se atinge é sentido como um "facilitador" relacional.
Por outro lado, a acessibilidade aos diferentes produtos não é complicada, antes pelo contrário, processa-se com a maior das facilidades. Muitos adolescentes, ouvidos em estudos nesta matéria, referem ainda a ausência de regulação dos pais sobre os gastos, sobre os consumos ou sobre as horas de entrada em casa, que muitas vezes tem que ser discreta e directa ao quarto devido ao “mau estado” do protagonista.
Como é evidente, já muitas vezes aqui o tenho referido com base na minha experiência de contacto com pais de adolescentes, não estamos a falar de pais negligentes. Podem acontecer situações de negligência mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber desejando que o tempo “cure” porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão.
De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles.
É preciso que a comunidade esteja atenta a estes adolescentes que logo desde os 13 ou 14 anos “acedem” às “litrosas”, aos shots, a qualquer outro produto para fumar ou consumir e também aos seus pais que estão tão perdidos quanto eles.
Para além da legislação de natureza proibicionista, parecem-me imprescindíveis a adequada fiscalização e a criação de programas destinados a pais e aos adolescentes que minimizem o risco do consumo excessivo das diferentes substâncias.
A proibição, como sempre, não basta e se prevenir e cuidar é caro que se façam as contas aos resultados do descuidar.

AFINAL HAVIA OUTRA

Segundo o I o Tribunal de Contas Europeu arrasa a forma como a Comissão Europeia liderada pelo estadista Durão Barroso realizou os programas de “ajustamento” em cinco países, incluindo Prtugal.
Nada de novo. O FMI também tem vindo com evidente despudor a assumir falhas nos seus modelos e previsões que resultaram na devastadora crise que lançou na falência milhares de pequenas e micro empresas e na pobreza e desemprego muitos milhares de portugueses e famílias.
Os programas da Comissão Europeia e do FMI a soldo dos endeusados mercados e diligentemente aplicados pelos feitores que nos administraram são agora tranquilamente considerados desajustados embora Durão Barroso e e o pessoal menor que por cá existe continuem na sua cega e persistente defesa.
Parece cada vez mais claro que a ideia do TINA “- There Is No Alternative era uma mentira mil vezes repetida para se tornar verdade.
Joseph Stiglitz, Nobel da Economia em 2001, afirmou há dois meses na Gulbenkian isso mesmo, o resultado destas opções por políticas de austeridade foram a desigualdade e a pobreza.
Afinal … havia outra. Havia e há outra política possível, Talvez ainda estejamos a tempo.

quarta-feira, 2 de março de 2016

A MAGIA DA AVOZICE

Por privilégio meu a tarde hoje foi mais aliviada relativamente à lida profissional.
Por maior privilégio ainda tive algum tempo para mergulhar no mundo mágico da avozice que está, aliás, perto de aumentar com um novo habitante.
Eu e o meu Mestre de Avozice, o Simão, dedicámo-nos a uma intensa actividade, há que aproveitar. 
Lançámos um papagaio que aproveitando o vento voava bem alto. Devido à inexperiência do "condutor" que largou o fio o papagaio voou livremente e aterrou em cima de um prédio. A sorte protege os audazes e a ponta do fio ainda ficou ao nosso alcance pelo que recuperámos o papagaio.
Em seguida um susto, ao passearmos num terreno quase tropeçámos com uma cobra, nada pequena diga-se, o que deixou o Simão, por assim dizer ... Avô, Avó, vamos para casa.
Em casa voltámos para o quintal, perdão, agora chama-se jardim e o trabalho era abrir buracos.
Entretanto, no meu papel de Avô informei o Simão que era tempo de parar um pouco de brincar e irmos procurar o lanche.
Ainda não Avô, o Simão é um brincador.
É extraordinário e invejável como alguém tem a coragem e a lucidez de se definir como um brincador.
Acho que só mesmo um miúdo que ainda não chegou aos três anos.
Porque será?
É mágico.

OBRIGADO JOÃO. DE NADA ELÍSIO

Este elucidativo episódio, apenas mais um, a substituição do presidente do CCB, António Lamas, por Elísio Summavielle, um boy amigo de João Soares, ele próprio um boy ministro, mostra como a praxis política se mantém velha apesar das repetidas afirmações sobre o tempo novo.
Como sempre nestas ocasiões e de acordo com o “script” clássico, os envolvidos dizem que estão de “consciência tranquila” ou em modo João Soares, "nada me pesa na consciência". Acredito que tal possa acontecer pois para este pessoal “consciência” não significa certamente o mesmo que para a maioria das pessoas.
É por demais evidente que para boa parte desta gente, legalidade, transparência, ética ou minudências como pagar contribuições, impostos, cumprir as exigências legais, etc., são “contos para crianças”, coisas, por assim dizer, para “tótós”, nós.
Tecnoformices, relvices, varices, loureirices, salgadices, marquesmendices, amigos mecenas, negócios manhosos e corrupção, tráfico de influências e amiguismo, utilização criteriosa dos alçapões de uma justiça criteriosamente desenhados para efeitos de protecção dos seus interesses e outras habilidades da mesma natureza são ferramentas diariamente usadas por esta família alargada e diversa que há décadas ocupou um largo espectro do nosso contexto político, social e económico. 
Cambada de artistas, nem as moscas, às vezes, variam.
São assim as contas da partidocracia. Em alternância pois claro. Sem altertantiva, evidentemente.

terça-feira, 1 de março de 2016

ATRÁS DE MIM VIRÁ QUEM DE MIM BOM FARÁ. Nem sempre, nem sempre

A propósito do livro de Paulo Guinote sobre a Grande Marcha dos professores realizada em 8 de Março de 2008 em protesto contra a política da então Ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues. O protesto envolveu cerca de 100 000 docentes algo de inédito e, provavelmente, irrepetível.


A história é importante e o tempo não faz esquecer tudo. Por isso a importância do livro de Paulo Guinote


A HISTÓRIA DA MARIA

A conversa de hoje com um entusiasmado e entusiasmante grupo de gente jovem que está em formação para trabalhar no universo da educação levou-me a recordar a história da Maria.
A Maria era uma menina com 10 anos e não era muito bonita. Há meninos assim, não são bonitos.
A Maria também não era muito boa aluna, os colegas tinham sempre melhores notas que ela. E até se esforçava. Há meninos assim, não têm boas notas e até se esforçam.
Às vezes tinha dúvidas, os professores ajudavam, mas como era pouco tempo ainda ficava sem saber algumas coisas.
Queria e tentava fazer os trabalhos de casa, mas o pai e a mãe não sabiam ajudar porque tinham andado na escola pouco tempo e o irmão era mais novo. A Maria era uma miúda triste.
Um dia a Professora perguntou-lhe porque estava quase sempre assim triste.
Escondida atrás de uns olhos grandes, esses sim, muito bonitos mas tristes disse baixinho: “Eu nunca tive um bom, nem mesmo um bom pequeno. Gostava tanto de ter um”.
Umas aulas depois, a professora avisou que iria realizar uma prova, um teste. A Maria ficou assustada. Como sempre.
Depois de o fazer, achou que tinha corrido bem. Quando a professora devolveu os trabalhos a Maria viu escrito em letras gordas, Bom, Grande. Os olhos que já eram grandes, ficaram maiores, até ela se sentia mais crescida.
Os pais contaram aos vizinhos. A Maria, podia não ter sempre notas tão altas como outros colegas, mas já tinha tido um Bom. Um Bom Grande, aquele Bom Grande. A Professora também ficou Grande. Amiga.

DA SÉRIE JÁ NÃO HÁ SACO

Ao que li no Expresso, o Dr. Miguel Sousa Tavares, um dos mais destacados tudólogos e opinadores portugueses afirmou que "A sociedade portuguesa não está preparada para o debate sobre a eutanásia".
A afirmação foi proferida numa das suas muitas cátedras, a SIC, e vem na linha dos seus múltiplos e inesgotáveis conhecimentos sobre qualquer tema ou área científica incluindo o futebol.
Pois entende o Sr. Dr. que o indigenato, como habitualmente refere de forma erudita e elegante uma outra destacada figura do comentarismo português, Vasco Pulido Valente, não saberá por manifesto atraso discutir tal questão sobre a qual, aliás e como sempre, é possuidor de vasto conhecimento.
Como quase sempre acontece creio que está implícito em muitas opiniões desta natureza que o atrasado povo português é considerado "não preparado" para ter ideias quando se corre risco de que o indigenato não tenha a mesma ideia do grande e preparadíssimo educador que assim opina.
Na verdade, passa-se à condição de povo esclarecido e preparado quando se pensa de acordo com o que desejam estas eruditas figuras.
Eu sei que é um bocadinho demagógico mas ainda sou do tempo em que se achava que o atrasado povo português não estava preparado para a democracia pelo que seria mais sensato esperar que o estivesse para então poder aceder a esse patamar de organização política só adequado a povos evoluídos.
Na verdade já não há saco para tanta arrogância que, no caso de Miguel Sousa Tavares quando fala de educação, mascara uma adiantada ignorância.