sábado, 10 de outubro de 2015

A SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Na agenda das consciências cumpre-se hoje o Dia Mundial da Saúde Mental que, como muitas afirmo, é o parente pobre das políticas de saúde. Algumas notas a pensar sobretudo nos mais novos.
Um estudo divulgado este ano realizado pela Faculdade de Psicologia e Educação da Universidade de Coimbra em colaboração com entidades estrangeiras sugere que 8% por cento dos adolescentes portugueses que frequentam o 8.º e o 9 º ano apresentam sintomatologia depressiva e 19% estarão em risco de desenvolver a doença. O estudo contempla também um programa de prevenção a promover em meio escolar, com a participação dos pais, que parece indiciar bons resultados.
A saúde mental, designadamente, no que se refere a crianças e adolescentes é, do meu ponto de vista uma área desvalorizada e um parente pobre das políticas de saúde pública. Acontece que os dados disponíveis apontam para maior número de casos e de crianças mais novas afectadas.
Em Maio de 2014, o Expresso relatava que em 2013 se tinham registado cerca de 20 000 novas consultas de pedopsiquiatria, mais 30% que em 2011. É um indicador preocupante e ainda mais preocupante pela inexistência de resposta adequada e acessível para muitas crianças e adolescentes.
Recordo também que em 2014 foi noticiada a interrupção dos apoios a crianças e adolescentes da região do Algarve pois o programa de que beneficiavam, Grupos de Apoio à Saúde Mental Infantil, que já tinha merecido prémios de boas práticas, foi suspenso em vez de ser generalizado. Esta suspensão foi obviamente sentida com grande inquietação por famílias e profissionais.
Em 2012 esteve em Portugal um especialista nesta área, Peter Wilson, que, naturalmente, referia a necessidade de que nas escolas e na comunidade próxima existam apoios aos professores, às famílias e às crianças com dificuldades emocionais, a única forma, entende, apoiado na sua experiência, de minimizar e ajudar neste tipo de problemas que, não sendo acautelados, têm quase sempre efeitos devastadores em termos pessoais e sociais. Segundo Peter Wilson, os estudos em Inglaterra sugerem a existência de três crianças com problemas do foro emocional em cada sala de aula pelo que o apoio é muito mais eficaz e económico prestado na escola ou na comunidade próxima a alunos, famílias e professores. Este entendimento é partilhado, creio, pela generalidade dos profissionais e famílias, também em Portugal e os dados conhecidos apontam nesse sentido.
Suspender um programa de apoio a situações de doença mental em crianças e adolescentes, reconhecidamente de qualidade, é algo de inquietante mas, como se vê não é a única fonte de inquietação.
Há algum tempo a imprensa referia a inexistência de camas nos serviços de pedopsiquiatria que possam acomodar adolescentes em tratamento o que leva a que em muitas circunstâncias adolescentes sejam internados em serviços de adultos o que na opinião dos especialistas pode ser uma experiência "traumatizante" sendo, aliás, contrárias às boas práticas de qualquer país civilizado em matéria de saúde mental. A propósito recordo que de acordo com o relatório "Portugal Saúde Mental em Números 2013", só 16,2% das pessoas com perturbações mentais ligeiras e 33,8% das que sofrem de perturbações moderadas recebem tratamento em Portugal.
Está nos livros e nas experiências que em situação de crise os mais vulneráveis, crianças e adolescentes, por exemplo, são, justamente, os mais sofredores com as dificuldades. Acresce que, actualmente, se verifica em muitos agregados familiares e em contextos escolares a emergência de discursos que pressionam os mais novos no sentido de atingirem a excelência nos resultados escolares ou em qualquer actividade “importante” pois será, dizem, a “única” forma de atingir um patamar de sucesso futuro.
Como se sabe e a experiência mostra, muitas crianças e adolescentes não suportam tranquilidade esta pressão o que se repercute no seu bem-estar e na sua saúde mental. Para complicar um pouco mais, ainda se verifica que algumas pessoas desvalorizam estes fenómenos, entendendo que é preciso ser exigente e bem sucedido e não entendendo o sofrimento de algumas crianças e jovens.
Por outro lado é também conhecida a enorme dificuldade que muitas instituições que acolhem menores estão a passar dificultando a resposta com a qualidade bem como a possibilidade de responder a novas situações.
Os miúdos nas famílias, preferencialmente, ou nas instituições, necessitam de um aconchego, um ninho, uma qualidade de vida que os cuidadores, por diversas razões, não sabem, não querem, não podem ou não são capazes de providenciar. Tal cenário implica riscos fortíssimos de compromisso do seu futuro pelo que os apoios e resposta não podem, não devem, falhar.
Como o povo diz, é de pequenino que se torce o … destino.

UM DIA CABANEIRO

Está o primeiro dia cabaneiro deste Outono neste canto do Alentejo. Por aqui um dia cabaneiro é um dia bom para estar na cabana.
Na verdade está a chover, o vento assobia no telhado do monte, está mais frio mas ainda assim sem justificar o lume de chão ou a salamandra. Assim será lá mais para a frente.
É daqueles dias que convidam à leitura e à escrita. Já lá vamos.
A água já estava a fazer falta e é bem vinda. talvez torne a azeitona um pouco mais grada se entretanto não vier um tempo quente que a estrague. Este ano as oliveiras não estão muito carregadas nas vêem-se umas borlas com boa azeitona.
Uma das tarefas de hoje era, justamente, colher alguma para retalhar e outras para conserva. Vai sendo tempo e ficam com um sabor que nem vos conto.
Entretanto apareceu o Mestre Zé, com este tempo não esperava por ele. Veio para um café e, claro, para umas lérias. Ganha-se sempre.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

MIÚDOS COM SONO


Sem prejuízo de se reflectir se a organização dos horários escolares é a mais ajustada e do meu ponto de vista existem mesmo alguns aspectos a carecer de ajustamento, creio que há muito a fazer no que respeita à qualidade e suficiência do sono em crianças e adolescentes.
Recordo que diversos estudos mostram que um número significativo de adolescentes, em algumas investigações mais de metade, apresenta quadros de sonolência excessiva e evidenciam hábitos de sono pouco saudáveis. Esta constatação vai no mesmo sentido de outros trabalhos com crianças mais novas. A falta de qualidade do sono e do tempo necessário acaba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes. Todos nos cruzamos frequentemente nos Centros Comerciais, por exemplo, com crianças, mais pequenas ou maiores, a horas a que deveriam estar na cama e que, penosa mas excitadamente, deambulam atreladas aos pais.
Várias investigações sugerem que parte das alterações verificadas nos padrões e hábito relativos ao sono remetem para questões ligadas a stress familiar e sublinham o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.
É certo que as situações de stress familiar serão importantes mas parece-me necessário não esquecer alguns aspectos relacionados com os estilos de vida, quer com as rotinas incluindo as escolares, quer com a utilização regulada das novas tecnologias. Durante o dia, as crianças e adolescentes passam boa parte do seu tempo saltitando de actividade para actividade, passam tempos infindos na escola e, muitos deles, são pressionados para resultados de excelência. Segundo alguns estudos, perto de 50% das crianças até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período que seria dedicado ao sono, sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.
Creio que, com alguma frequência, os comportamentos dos miúdos, sobretudo nos mais novos, que são de uma forma aligeirada remetidos para o saco sem fundo da hiperactividade e problemas de atenção, estarão associados aos seus hábitos e padrões de sono como, aliás, os estudos parecem sugerir.
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais, eles próprios com níveis baixos de alfabetização informática. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para que a utilização imprescindível e útil seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.
A experiência mostra-me que muitos pais desejam e mostram necessidade de alguma ajuda ou orientação nestas matérias.

ESTAVA ESCRITO NAS ESTRELAS

Estava escrito nas estrelas. após alguns meses no jogo do "agarrem-me senão candidato-me" o mediático "entertainer político", também conhecido por Professor Marcelo, é candidato à Presidência da República.
Não foi necessário, por enquanto, um mergulho nas águas do Tejo e também desta vez Cristo não precisa de descer à Terra, o Professor é candidato.
Ao que parece a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa não era a mais desejada por Passos Coelho mas como anos de tempo de antena e visibilidade mediática podem fazer a diferença e como se diz em "futebolês" as eleições, tal como as finais, "não são para jogar, são para ganhar" é melhor apanhar boleia no Professor Marcelo.
Assim sendo  e como é notório, a proliferação de candidaturas que possam dividir o eleitorado, designadamente, o eleitorado do PS, são um excelente apoio ao Professor Marcelo e ao grande objectivo "uma maioria, um presidente". 
Neste contexto é muito claro que a coligação viu com muito bons olhos a candidatura de Maria de Belém por quem, evidentemente, nutre sincera simpatia e admiração das quais vai deixando alguns sinais.
Os estrategas eleitorais da coligação anseiam por uma campanha centrada nas figuras do Professor Marcelo e de Maria de Belém, é muito provável que nem segunda volta exista. A decisão da direcção política do PS cedendo à pressão das contas internas vem, também, dar uma ajuda.
O PCP faz a sua parte, apresenta um candidato próprio, eventualmente para desistir à boca das urnas e apoiar Sampaio da Nóvoa mas, do meu ponto de vista, embora se perceba o benefício em tempos de antena, a estratégia favorece a candidatura do Professor Marcelo.
A única forma de contrariar este cenário tecido nas teias da partidocracia é a manutenção da candidatura de Sampaio da Nóvoa e a luta difícil e dura para que possa passar a uma segunda volta a disputar com Marcelo Rebelo de Sousa.
Nessas circunstâncias acredito que os eleitores que maioritariamente não escolheram a coligação proporcionarão uma votação maioritária a Sampaio da Nóvoa.
Apesar dos directórios políticos partidários e da sua pequenina luta pelo poder interno e, ou, da defesa dos seus interesses imediatos.

O ENSINO VOCACIONAL GENERALIZADO ANTES DE SER AVALIADO

Recordo que esta fase “piloto” se iniciou em 2013/2014 no ensino básico com cerca de 300 alunos e neste momento existem 1700 turmas que envolvem mais de 35 000 estudantes.
Não conheço, qualquer avaliação a esta fase “piloto”, antes pelo contrário, são conhecidas dificuldades nos recursos, na definição da oferta, na aprovação das propostas das escolas, etc., como em diferentes circunstâncias os directores têm referido.
No entanto, o MEC refere que está provado o "impacte positivo" desta via "no combate ao abandono e na promoção do sucesso escolar, na inclusão dos jovens em risco de abandono, no cumprimento efectivo da escolaridade obrigatória".
De novo algumas notas.
Do meu ponto de vista, já o afirmei e a questão foi suscitada numa peça do Expresso em Março deste ano, este modelo (tal como está concebido e a ser operacionalizado), apesar de boas experiências, em vez de uma verdadeira resposta ao insucesso ou uma forma, será mais uma forma de "mascarar" estatísticas pois chumbam em Portugal cerca de 150 000 alunos por ano e para estes cursos são "empurrados" todos os alunos que a partir dos 13 anos já tenham mais de um "chumbo".
Na altura a peça do Expresso já referia aspectos como a tipologia dos alunos, a inadequação da oferta, a falta de recursos e meios técnicos e humanos, etc.
Acontece que todos os alunos deverão cumprir uma escolaridade de 12 anos, a idade de entrada no mercado de trabalho é aos 16 e o modelo parece francamente desajustado. Nada de novo, como já aqui tenho referido considerando que este modelo contém alguns equívocos.
É curioso que sem terminar a avaliação de uma "experiência-piloto", Nuno Crato tenha decido generalizar a oferta o que é interessante como metodologia, generaliza-se independentemente da avaliação a que o período experimental estava sujeito. É certo que Ramiro Marques, um dos cráticos gurus, bem se esforçou por bem vender o "produto" e ele aí está. Como se sabe, Nuno Crato nunca se engana e raramente tem dúvidas. Passou-se, aliás, o mesmo com as mudanças curriculares que se produziram sem que se realizassem avaliações sérias aos modelos anteriores.
A decisão do MEC por esta opção também não é estranha pois corresponde a uma linha importante das opções políticas, um persistente e determinado caminho de ir aliviando o "ensino regular" dos alunos "preguiçosos" e "burros" que só atrapalham e não deixam que os resultados escolares, quer dizer, os exames, o mantra de Nuno Crato, sejam excelentes. Na verdade, é mais interessante criar turmas de "descamisados", uma espécie de "alunão", um recipiente para onde se enviam a partir dos 13 anos os alunos que não prestam e devem ser reciclados, do que estruturar apoios e recursos que os mantenham, tanto quanto possível, no ensino "regular". Esta ideia é vendida sob o princípio ajustado e que deve ser considerado de diferenciar e diversificar os percursos educativos mas contém o pecado original de se destinar privilegiadamente e "obrigatoriamente" aos chumbados como todos sabemos que na prática acontecerá.
No entanto, gostava de recordar que Relatórios da OCDE e da UNESCO têm sustentado que a colocação dos alunos com piores resultados escolares em ensino de carácter técnico e vocacional, muito cedo, em vez da aposta nas aquisições escolares fundamentais, aumenta a desigualdade social.
Quero deixar claro, tenho-o escrito e afirmado, que é importante diversificar a oferta formativa, a diferenciação de percursos, de forma a conseguir um objectivo absolutamente central e imprescindível, todos os alunos devem atingir alguma forma de qualificação, única forma de combater a exclusão e responder mais eficazmente à principal característica de qualquer sala de aula actual, a heterogeneidade dos alunos. Aliás, a oferta formativa de natureza profissional a alunos mais velhos, no âmbito do ensino secundário que também está a acontecer, pode ser um passo nesse sentido desde que não canalizado para os "que não servem" para a escola.
A questão que considero fortemente discutível num plano técnico e ético é a introdução desta diferenciação tão cedo e “obrigatória” para os que chumbam. Poucos sistemas educativos assumem este entendimento e o facto de o ensino alemão, a inspiração de Crato e colaboradores, o admitir não é nenhuma chancela de correcção do modelo como atestam as apreciações internacionais.
Os alunos com insucesso, estamos a falar, presumo, de gente com capacidades "normais" irão “obrigatoriamente para” o ensino vocacional. Sabe-se que o insucesso escolar é mais prevalente em famílias mais desfavorecidas embora também conheçamos as excepções, muitas. Assim, mantemos a velha ordem, os mais pobres "destinados" preferencialmente para o trabalho manual, os mais favorecidos preferencialmente para o trabalho intelectual como a UNESCO reconhece.
A diferenciação dos percursos, necessária e imprescindível mas, reafirmo, deve surgir mais tarde, como se verifica na maioria dos sistemas educativos que se preocupam com os miúdos, com todos os miúdos.

PS - O MEC divigulgou no mesmo dia em que sai a portaria de generalização do ensino vocacional o documento da Comissão de Avaliação Externa a esta iniciativa. Não estranho o calendário, estou habituado à habilidade política do MEC. Do que foi conhecido no Relatório nada altera o que escrevi acima e a questão essencial, este modelo alimenta a desigualdade social como, insisto, é reconhecido internacionalmente.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O DIREITO E O DEVER DE SAMPAIO DA NÓVOA

Face à decisão “tanto faz e depois logo se vê” do PS e da habitual peça litúrgica da apresentação de um candidato próprio do PCP ganha, como já escrevi, mais sentido e importância a presença na campanha de alguém que esteja liberto dos jogos de equilíbrio e poder no interior da partidocracia.
Insisto que não se trata de um discurso contra os partidos pois, cito o que já afirmei, “… sendo os partidos peças centrais das sociedades democráticas não podem, não devem, ter o monopólio da actividade cívica e política sob o risco de se virarem para dentro, se encapsularem e de se transformarem em espaços fechados dominados por interesses de conjuntura e luta pelo poder, organizados em aparelhos cujo controlo permite o domínio do partido e o acesso ao poder.”
Não sei, evidentemente, o resultado eleitoral que espera Sampaio da Nóvoa.
Sei sim que o espera uma campanha dura em que se mobilizarão argumentos e armas que não os méritos dos candidatos ou a sua visão e projecto para Portugal no âmbito das funções de Presidente da República. Vejam-se alguns títulos ou informações divulgadas na comunicação social nos últimos dias e a forma com diferentes candidaturas vão sendo “fabricadas”.
Também sei, que depois da apresentação da candidatura a não desistência nas actuais circunstâncias é um segundo passo de enorme relevo que Sampaio da Nóvoa cumpre nesta estrada difícil.
Tinha o direito a desistir mas tem o dever político de continuar e os Homens cumprem com o seu dever. Sampaio da Nóvoa cumpre o seu dever em nome da esperança de muita gente em que uma visão humanista, presente, centrada em pessoas, em todas as pessoas, e no seu bem-estar informe, dentro dos limites constitucionais, a acção do Presidente da República.
Vai ser difícil, está tão mais difícil quanto mais necessário mas, por isto mesmo, tem que ser possível.

DOS RANKINGS ESCOLARES

Em síntese, predomínio persistente e claro das escolas privadas, que, aliás, durante o período considerado aumentou e a constatação de que a mobilidade ascendente no ranking também se verifica maioritariamente entre as escolas privadas. Acontece também que as escolas privadas que persistentemente apresentam piores resultados tendem a encerrar, o mercado não perdoa.
O estudo sugere a selecção de alunos e professores e a baixa autonomia das escolas públicas como razões para que este cenário se verifique.
Parece-me claro que, para quem conhece minimamente o país educativo, estes dados são obviamente previsíveis. Embora entenda que a informação relativa aos resultados dos alunos possa e deva ser tratada e divulgada, a minha questão é “Qual o contributo significativo da organização e divulgação destes “rankings” para a melhoria da qualidade do sistema?”. No meu entendimento a resposta é, “pouco relevante”, porque é possível antecipar os seus resultados sem grande margem de erro e porque não se traduzem em medidas de política educativa.
Como afirma Gert Biesta da Universidade Stirling numa obra notável, "Good Education in a Age of Measurement - Ethics, Politics, Democracy", uma obsessão centrada na medida, assenta na gestão continuada de uma dúvida, "medimos o que valorizamos ou valorizamos o que medimos?" que ontem também citei a propósito de um estudo que defende mais exames e que será apresentado hoje no âmbito da iniciativa da Fudação. Aliás, numa entrevista ao Público em 2011, o Professor Biesta afirmava sugestivamente, “Os rankings são muito antiquados e não devem ter lugar numa sociedade civilizada".
É reconhecido que existem escolas, privadas e públicas que recusam matrículas de alguns alunos para proteger a sua posição no ranking, como também se sabe que uma excessiva centração nos exames pode não ser o maior e melhor contributo para o sucesso como vários especialistas e a OCDE têm vindo a alertar.
A política recente do MEC é clara neste sentido, medir, medir tudo, esquecendo que os processos educativos são complexos e não cabem numa fórmula ou conjunto de fórmulas que se entendem como "infalíveis" ou "objectivas". Se assim fosse, não seriam necessários professores ou políticas educativas que solicitam escolhas, conhecimentos, metodologias, valores éticos e morais, etc., bastariam uns burocratas a papaguear aulas ("contents delivery", como já se fala do ensino em algumas paragens), outros burocratas a medir saberes e uns outros ainda a construir fórmulas de gestão num qualquer serviço centralizado.
No entanto, não tendo uma atitude fundamentalista, admito que se elaborem rankings com o maior cuidado possível mas que sobretudo se promova a análise em cada escola do seu próprio trabalho. Sendo um defensor intransigente de uma cultura e prática de exigência, avaliação e qualidade, parece-me bem mais importante o aprofundamento dos mecanismos de autonomia e responsabilização e a constituição obrigatória em todos os agrupamentos ou escolas de Observatórios de Qualidade que integrem também elementos exteriores à escola. Existe capacidade técnica e recursos suficientes. O trabalho realizado por esses Observatórios, este sim, deveria ser divulgado e discutido em cada comunidade e passível de leituras cruzadas com os resultados nacionais.
Para terminar, a questão central, mais do que ordenar escolas a partir dos resultados dos alunos e independentemente das variáveis consideradas no tratamento, é reflectir seriamente sobre o que fazer para a melhoria dos processos de ensino e aprendizagem traduzida, também, em exames.
Neste sentido, parecem-me preocupantes alguns dos caminhos que têm vindo a ser trilhados. Um primeiro exemplo será o aumento do número de alunos por turma que, para a maioria das comunidades educativas, é claramente excessivo. Temos também uma reforma curricular e o estabelecimento de metas curriculares que, apesar da importância da definição do que deve ser aprendido, estão formuladas em moldes pouco sustentáveis e que poderão vir a ser parte do problema e não da solução, como alguns estudos em curso relativos ao 1º ciclo, os que conheço, sugerem tal como o sugerem as apreciações de associações de professores. Uma referência também ao abaixamento dramático do número de professores inibindo dispositivos de apoio a alunos e professores obviamente necessários. Finalmente mas não menos importante a falta de autonomia das escolas, o MEC não confia nos professores e nas escolas, e o desinvestimento no ensino e escola pública em nome de uma chamada “liberdade de educação” que é um logro se atentarmos nos resultados do estudo que foi divulgado.

O INSULTO DE JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS

José Rodrigues dos Santos diz que Quintanilha foi "eleito ou eleita"


Num país de gente decente e responsável o "engraçadista" José Rodrigues dos Santos seria fortemente condenado pela sua insultosa afirmação no Telejornal de ontem.
Não é possível que tal comportamento seja tolerado num espaço informativo no serviço público de televisão.
Exige-se uma actuação em conformidade com a gravidade desta irresponsabilidade.

PS - Sendo certo que é razoável conceder o benefício da dívida, a natureza e conteúdo das desculpas, a incompetêmcia e amadorismo que revelam e a propensão "engraçadista" e de mau gosto que não são raras neste personagem levam-me a manter que este episódio deveria merecer a mais viva condenação.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O PS E AS PRESIDENCIAIS, UMA DECISÃO "TANTO FAZ" E "DEPOIS LOGO SE VÊ"

Apesar de estar habituado a que boa parte das decisões políticas tenho como objectivo a clientela interna e os jogos de poder da partidocracia a decisão "tanto faz", "demitida", da direcção política  do PS relativamente às presidenciais ainda me surpreende.
Após uma derrota eleitoral para a qual uma campanha cheia de erros, reactiva e não proactiva, à deriva, contribuiu significativamente, o PS tem pela frente um cenário complicado pois, ou se "compromete" com a viabilização da coligação e se "apaga" pela indeferenciação, ou assume a liderança de uma maioria parlamentar de esquerda asumindo todas as consequências que daí possam resultar. Percebo a hesitação e a necessidade de ponderação no caminho a seguir.
No entanto, julgo que as próximas presidenciais poderiam constituir um processo de reagrupamento político que expressasse a maioria que à esquerda se definiu no parlamento. Neste sentido, o PS teria de adoptar também neste processo uma estratégia de liderança que pudesse contribuir para federar um visão para as presidenciais e tentar restituir um equilíbrio no quadro político português que não continue "uma maioria, um presidente", chegam oito anos de Cavaco Silva. 
Submetendo-se à clientela interna e aos seus jogos de poder, a direcção do PS, António Costa, anuncia uma decisão "tanto faz", votem em qualquer um e depois logo se vê. O grande risco, já o afirmei ontem, é que não tenhamos sequer segunda volta pelo que "logo" ... "não se vê" coisa alguma.
A dispersão de votos dos militantes e simpatizantes socialistas entre Maria de Belém, Sampaio da Nóvoa e Henrique Neto podem transformar, como ontem escrevi a campanha eleitoral do "entertainer político" mais conhecido por Professor Marcelo num passeio que acabará à primeira volta nos jardins do Palácio de Belém. Na verdade, Maria de Belém é uma candidatura fabricada, inócua, sem nada dentro e Henrique Neto dificilmente sairá de limites restritos de mobilização apesar da sua seriedade e competência.
Parece-me, pois, que a decisão do PS é, manifestamente, uma cedência às lutas e equilíbrios do aparelho partidário com o enorme risco de hipotecar a possibilidade de que como Presidente da República tivéssemos alguém, Sampaio da Nóvoa, que constrói a sua candidatura num "espaço de cidadania", o seu maior valor e uma necessidade imperiosa e urgente nestas dias que vivemos. Precisamos como nunca de uma visão e de um sentido de missão informados por valores que estejam libertos dos limites da partidocracia.
Sublinho que sendo os partidos peças centrais das sociedades democráticas não podem, não devem, ter o monopólio da actividade cívica e política sob o risco de se virarem para dentro, se encapsularem e de se transformarem em espaços fechados dominados por interesses de conjuntura e luta pelo poder, organizados em aparelhos cujo controlo permite o domínio do partido e o acesso ao poder.
Em todo este contexto, a emergência de movimentos ou iniciativas com protagonistas como Sampaio da Nóvoa no exercício desse inalienável “espaço de cidadania” podem ser também um contributo para a renovação da “praxis” política que conduziu à partidocracia e se traduz no afastamento dos cidadãos como os níveis assustadores e crescentes da abstenção bem demonstram e em 4 de Outubro ficou de novo bem claro.
É de tudo isto que o PS parece desvalorizar abdicando de um papel forte, proactivo, com visão de futuro numa função tão relevante como a Presidência da República 

CADA UM TEM O SEU "INGLÊS"

O Vítor entrou na biblioteca para entregar o CD que tinha levado para fazer o trabalho de História com o grupo dele. O Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, enquanto arrumava o CD, perguntou como é que estavam a correr as coisas lá na turma do Vítor.
Olha Velho, tudo bem, o trabalho ficou fixe, a setôra gostou e o resto da turma também, até deu uma grande discussão. Vê lá que até o Luís, sabes, aquele assim … diferente, queria dizer qualquer coisa.
O Luís é aquele teu colega que tem um problema chamado Paralisia Cerebral?
Sim Velho, é esse, mas ele fala muito atrapalhado e devagar, a gente percebe pouco e por isso a gente não fala muito com ele.
Vítor, já falas bem inglês?
Velho, as notas não são assim muito altas mas falo alguma coisa, já estou no 7º.
Mas aposto que quando alguém fala para ti em inglês, percebes mais coisas do que consegues dizer quando és tu a falar e até aprendes alguma coisa quando ouves.
Claro Velho, até percebo coisas que oiço nos filmes.
Talvez o Luís perceba mais o vosso “inglês” do que é capaz de vos dizer no “inglês” dele. Sabes que cada um tem o seu “inglês” e se falarem com ele o ”inglês” de todos fica melhor. 

SUCESSO ESCOLAR, AVALIAÇÃO E EXAMES

Segundo os dados disponibilizados no portal Infoescolas do MEC e que merecem uma análise não compatível com este espaço podemos constar que, em síntese, apenas 41.5% dos alunos realizaram o 3º ciclo em 14/15 sem retenção num ano anterior e com sucesso nos exames nacionais de Português e Matemática. No 2º ciclo a percentagem de alunos que concluíram os exames nacionais do 6º ano também em 14/15 com nota positiva e sem retenções anteriores no ciclo é de 53%.
Os dados mostram também que as taxas de retenção no 7º, 8º e 9º estão mais altas em 14/15 que em 10/11.
Por coincidência amanhã realiza-se uma iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos em que será feita a defesa do aumento de exames como forma de promover a qualidade do desempenho de alunos, professores e escolas. A intervenção é da investigadora Margaret Raymond, Centro de Investigação em Resultados Educativos da Universidade de Stanford que estudou a realidade portuguesa.
Para além desta visão sobrevalorizadora dos exames e da medida na aprendizagem, a investigadora defende que a redução de alunos por turma não tem impacto evidente nos resultados escolares e ainda “a necessidade de reduzir o corpo docente” que em Portugal foi “ignorada de forma criativa”.  A Professora Margaret afirma ainda em entrevista que "Os jovens que querem ser professores dizem que preferem ser remunerados conforme o sucesso que conseguem. Portanto, a progressão deve estar ligada a um sistema de compensação". 
Curioso este conjunto de informações que serão música nos ouvidos de Nuno Crato e um bom serviço prestado à sua política mas que os dados teimam em não confirmar. Algumas notas.
A avaliação escolar, através de diferentes dispositivos, cumpre três funções essenciais, a certificação, da aquisição de saberes ou de competências por exemplo, a ordenação, os resultados dos alunos dispersam-se por um escala, 0 a 20 ou 0 a 100, e a de regulação, recolher informação que permita identificar fragilidades nos processos de trabalho com vista à sua correcção.
Os exames nacionais procuram cumprir, sobretudo a primeira e segunda funções, a certificação e a ordenação. Neste cenário surgem as primeiras questões, que competências ou saberes devem ser adquiridos. Não é fácil, antes pelo contrário, que um só exame consiga avaliar o "tudo" que pode ser avaliado, por esta razão, o exame não pode ser o "tudo" em matéria de avaliação.
Uma outra questão que se reflecte nos resultados e na sua ordenação, prende-se com o grau de dificuldade das avaliações. Como é óbvio, se mais difíceis descem as médias, mais fáceis sobem as médias. A questão central nesta matéria é construir um exame que não se destine a "passar muitos" ou a "chumbar muitos", mas um exame que contenha o grau de dificuldade ajustado, face às competências e saberes em avaliação. Os bons professores sabem, certamente, como construir um bom exame. O problema é que é neste campo que assenta boa parte da gestão política, ou seja, a tentação de construir resultados mais ou menos simpáticos conforme a agenda dos interesses. Temos tido muitos exemplos ao longo dos últimos anos.
A este propósito, recordo, de novo, um trabalho notável do Professor Gert Biesta, "Good Education in a Age of Measurement - Ethics, Politics, Democracy", onde afirma que uma obsessão centrada na medida, assenta na gestão continuada desta dúvida, "medimos o que valorizamos ou valorizamos o que medimos?"
Na linha do que tenho vindo a escrever por aqui, reconhecendo a óbvia importância dos exames, creio que questão central da qualidade não é a avaliação através dos exames, mas os conteúdos e os processos de ensinar e aprender e, naturalmente, os seus resultados. É nesta matéria que me parece que devemos centrar as atenções, na qualidade na extensão e conteúdos dos programas, na correcta definição dos objectivos a atingir, nas metodologias de trabalho de professores e alunos e, finalmente, na disponibilidade de apoios oportunos e eficazes às dificuldades de alunos e professores, justamente o que parece faltar à política educativa. Os dispositivos de avaliação final são uma parte fundamental, imprescindível e integrada de todo este processo e não O fim das aprendizagens. Dito de outra maneira, dentro das três funções essenciais para a avaliação escolar que acima enunciei, esta função reguladora assume uma importância que é esbatida pela sobrevalorização mágica que a actual equipa da 5 de Outubro faz dos exames.
Por outro lado, como um Relatório do CNE deste ano sublinhou e muitos estudos, nacionais e internacionais, também mostram, os alunos que começam a chumbar, tendem a continuar a chumbar, ou seja, a simples repetição do ano, não é para muitos alunos, suficiente para os devolver ao sucesso.
Nesta conformidade e do meu ponto de vista insisto, a questão central é que tipo de apoio, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional. Como é evidente este tipo de discurso não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação, uma tentação a que nem sempre se resiste.
Neste cenário a insistência na introdução de mais exames como panaceia da qualidade corre, do meu ponto de vista, o risco levar a que o trabalho escolar se organize quase que exclusivamente centrado na preparação dos alunos para a multiplicidade de exames que realizam.
Esta perspectiva, mais exames como fonte de qualidade, parece decorrer da estranha convicção de que se medir muitas vezes a febre, esta irá baixar o que é, no mínimo, ingénuo.
A qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc. É o que acontece, genericamente, nos países com mais baixas taxas de retenção como também foi referido na recomendação do CNE.
O problema é que de há muitos anos a educação anda à deriva das agendas políticas.
A defesa de mais exames, como muitas vezes é feita, corre o risco de sustentar um discurso demagógico, as referências a exigência e a rigor vendem bem, facilitista este sim, mas deixa de lado os aspectos mais essenciais.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

AS LEGISLATIVAS E AS PRESIDENCIAIS

Os resultados das legislativas não podiam deixar de se repercutir, evidentemente, no processo relativo às presidenciais.
No lado direito do espectro o famoso “entertainer político” também conhecido por Professor Marcelo já se está posicionar para a muito curto prazo assumir o que obviamente já estava escrito nas estrelas, vai ser candidato. Rui Rio que chegou a ter esperança parece fora da corrida e fica de reserva, provavelmente, para a liderança do PSD no pós-Passos Coelho.
Mas no lado esquerdo as coisas parecem bem mais complicadas.
A derrota eleitoral do PS deixa António Costa fragilizado face aos barões e aparelho do partido.
É sabido que Sampaio da Nóvoa tinha o apoio implícito de António Costa quando há meses lançou a sua candidatura às presidenciais.
Entretanto, no âmbito dos ajustes de conta internos foi lançada a candidatura de Maria de Belém que como bem afirmou Henrique Neto, outro candidato presidencial da área do PS, se caracteriza por “entrar calada e sair silenciosa” em tudo o que tem sido a sua actividade política. Esta candidatura é, no mínimo, cinzenta e inócua.
Não estão em causa as qualidades pessoais ou a simpatia de Maria de Belém. Muito menos considero que opiniões contra esta candidatura traduzam, como demagogicamente Manuel Alegre afirmou, a existência de "preconceitos machistas ou sexistas". A coisa é mais simples, trata-se da irrelevância política de Maria de Belém de que se não conhece um qualquer conjunto de ideias para e sobre o país.
Curiosamente mas não por acaso, já foram divulgadas sondagens que começam a fazer o caminho de “fabricar” as candidaturas convenientes. As notícias hoje divulgadas referindo a possibilidade do PS não apoiar nenhuma das candidaturas parece-me algo de inaceitável e um tiro no pé. Um partido como o PS não pode "não ir a jogo" em eleições presidencias e reservar-se por cobardia política e jogos de poder interno para uma decsão de circunstância numa segunda a volta que muito provavelmente nem haverá dada o presente oferecido a Marcelo Rebelo de Sousa.
A candidatura de Maria de Belém tornará, evidentemente, as eleições presidenciais um passeio tranquilo para Marcelo Rebelo de Sousa e serve com é reconhecido os interesses da coligação que se prepara para continuar a governar o país com o desgoverno para as pessoas que temos sofrido. 
Neste cenário, apesar da maior dificuldade criada pois não é garantido que António Costa consiga “impor” ao partido o apoio a Sampaio da Nóvoa, esta candidatura torna-se ainda mais importante e necessária. 
É fundamental, do meu ponto de vista, que no actual contexto político, não continuemos a ter em Belém alguém que construa e alimente cumplicidades com as políticas que a maioria do povo que votou a 4 de Outubro não subscreve, como será Marcelo Rebelo de Sousa. 
Este alguém só pode ser Sampaio da Nóvoa. É um homem não hipotecado às lutas e equilíbrios da partidocracia e representa seguramente um reforço da cidadania e de uma visão humanista na Presidência da República. É um homem, que dentro das competências constitucionais, pode ser a voz de todos os portugueses, em particular dos que têm menos voz.
Será difícil, aliás, penso que está mais difícil, mas mais necessário que nunca pelo que terá de ser possível.

SEXUALIDADE E DEFICIÊNCIA

Julgo ser fundamental a visibilidade destas matérias. Recordo as iniciativas do movimento, Sim, Nós Fodemos, que se bate por desmistificar a sexualidade nas pessoas com deficiência e que organizou uma Conferência sobre este universo que se realizou no Porto em Fevereiro deste ano-
Na verdade, estes passos podem ser importantes no sentido de desfazer um enorme equívoco, sexualidade na deficiência não é a mesma coisa que deficiência na sexualidade.
A experiência e alguns estudos dizem-me que este equívoco está também presente em discursos e atitudes de famílias e técnicos para além da comunidade em geral.
É uma questão complexa, no caso das pessoas com deficiência cognitiva mais severa pode colocar-se a questão da auto-determinação e do risco de abuso, por exemplo, sendo muito contaminada pelos valores do indivíduos, dos técnicos e das famílias incluindo, naturalmente, as das pessoas com deficiência, quer relativos à sexualidade, quer relativos à vida e direitos das pessoas com deficiência. Aliás, com demasiada frequência parece esquecer-se que muitos dos problemas que as pessoas com deficiência e as suas famílias sentem, não são matérias de opção, são matéria de direitos.
Acresce ainda que em muitas circunstâncias é uma matéria da qual "se foge" pois subsistem as dúvidas sobre o que pensar, como agir ou atitudes a adoptar.
Neste contexto, a Conferência realizada no Porto e o trabalho do Público são peças que ajudam a reflectir e a mudar.

OS SALÁRIOS DOS DOCENTES. (Take 2)

Docentes colocados depois de 1 de setembro receberam subsídio de desemprego, foi-lhes pedido que o devolvessem. Escolas também não têm ordem para pagar salários nesses dias.

Será que a situação destes professores também está contemplada nas estatísticas que sustentam que os professores portugueses são dos mais bem pagos?
E quanto aos "subsídios de sobrevivência" a que chamam salários que são pagos a muitos professores das AECs? Também são considerados?

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

OS SALÁRIOS DOS DOCENTES


Professores portugueses entre os que mais recebem em relação à riqueza do país


É o habitual. Tal como acontece com os números relativos ao custo por aluno no ensino público ou no ensino privado, também os números sobre o vencimento dos professores portugueses em comparação com a situação de outros países nunca correspondem à realidade.
Quer num caso, quer noutro as contas não parecem especialmente complicadas. Ou são? E porquê?

DIA MUNDIAL DO PROFESSOR

De acordo com o calendário das consciências, o 5 de Outubro é também o Dia Mundial do Professor. Algumas notas.
Sem novidade, tenho para mim que miúdos e professores são os dois grupos em que assenta qualquer comunidade nas sociedades contemporâneas. Os miúdos porque são o futuro e os professores porque, naturalmente, o preparam, tudo passa pela escola e pela educação. Hoje em dia e em Portugal, este entendimento ainda me parece mais justificado porque, devido a ajustamentos na organização social e familiar e, é minha convicção, devido a políticas sociais a políticas educativas inadequadas, os miúdos passam tempo excessivo na escola, diminuindo a influência real das famílias no quotidiano dos miúdos o que sobrevaloriza o papel da escola através dos professores.
Raramente a profissão professor tem estado tanto em foco como nos últimos anos bem como a necessidade de defender a qualidade da escola pública sob ameaça significativa. Têm verificado múltiplas acções políticas que contribuíram para degradar a sua função, a sua imagem social e o clima e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas
Opções políticas assumidas e em curso têm contribuído para uma atenção continuadamente dirigida para a educação e para os professores. Essa atenção advém de boas e más razões. Não cabe aqui um balanço, e entendo que, tal como os miúdos, os professores não têm sempre razão. No entanto, gostava de deixar algumas notas.
Em primeiro lugar importa desde logo sublinhar que ser professor no ensino básico e secundário por razões conhecidas e por vezes esquecidas, é hoje uma tarefa de extrema dificuldade e exigência que social e politicamente justifica o maior reconhecimento.  Pensemos no que é ser professor em algumas escolas que décadas de incompetência na gestão urbanística e consequente guetização social produziram.
Pensemos ainda na forma como milhares de professores cumprem a sua carreira, muitos deles sem a possibilidade de desenharem projectos de vida para si quando são os principais responsáveis por lançar projectos de vida para os miúdos com quem trabalham. Nos últimos anos milhares de professores, de bons professores e professores necessários, foram constrangidos à reforma e muitos ao desemprego por uma política de contabilidade inimiga da educação pública e da qualidade. Como exemplo extremo veja-se o caótico processo em curso de colocação de professores e as situações dramáticas que a incompetência e a arrogância do MEC produziram.
Pensemos em como os professores são injustiçados na apreciações de muita gente que no minuto a seguir a dizer uma ignorante barbaridade qualquer, vai numa espécie de exercício sadomasoquista entregar os filhos nas mãos daqueles que destrata, depreendendo-se assim que, ou quer mal aos filhos ou desconhece os professores e os seus problemas.
Pensemos como é imprescindível que a educação e os problemas dos professores não sejam objecto de luta política baixa e desrespeitadora dos interesses dos miúdos, mesmo por parte dos que se assumem como seus representantes.
Pensemos em como a forma como os miúdos, pequenos e maiores, vêem e se relacionam com os professores está directamente ligada à forma como os adultos os vêem e os discursos que fazem.
Pensemos finalmente nos professores que nos ajudaram a chegar ao que hoje cada um de nós é, aqueles que carregamos bem guardadinhos na memória, pelas coisas boas, mas também pelas más, tudo contribuiu para sermos o que somos.
A valorização social e profissional dos professores, em diferentes dimensões é uma ferramenta imprescindível a um sistema educativo com mais qualidade. Aliás, uma das características dos sistemas educativos melhor considerados é, justamente, a valorização dos professores.
Gostava ainda de deixar uma ideia do enorme João dos Santos, “O Professor João, foi meu professor porque foi meu amigo” e uma convicção pessoal que a idade cada vez mais cimenta, qualquer professor ou educador, tanto ou mais do que aquilo que sabe, ensina aquilo que é.
A prova é que de todos os professores que connosco se cruzaram os que mais nos marcaram positivamente foi sobretudo pelo que eram e menos pelo que nos ensinaram.

A VOZ DAS MINORIAS

Ainda uma nota relativa às eleições legislativas.
Pelo círculo de Lisboa foi eleito deputado pelo Bloco de Esquerda Jorge Falcato, um elemento activo e empenhado no movimento (d)Eficientes  Indignados a quem aqui deixo felicitações e a esperança num trabalho profícuo no qual confio.
Tal situação não deveria merecer qualquer comentário, é apenas uma questão de cidadania mas assim não é, as minorias não tem o mesmo tratamento que qualquer outro elemento das comunidades e é importante que a sua voz se encontre com representação parlamentar.
De facto, como muitas vezes refiro, a voz das minorias é sempre muito baixa, ouve-se mal, existem variadíssimas áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente educação, saúde, apoio social, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são enormes.
Importa também sublinhar que os direitos fundamentais não são variáveis em função de contextos ou hipotecados às oscilações de conjuntura.
Muito já se conseguiu, muito já se mudou.
Está ainda quase tudo para fazer.

MÚSICA NO ESPETO

Espetadores vão fazer música com telemóveis na Casa da Música


São dispensáveis os comentários. O exemplo, mais um, da insanidade anedótica e do atentado que o Acordo Ortográfico constitui contra a Língua Portuguesa é suficientemente elucidativo.

O PRAZO DE VALIDADE DE UMA VITÓRIA ELEITORAL

A abstenção voltou a subir, 43.07% a que se juntam 2.09% de votos brancos e 1.61% de votos nulos.
A PàF elege 104 deputados. Todos os outros partidos com deputados eleitos somam 122 deputados.
A PàF recolheu 38.36% dos votos expressos. Todos os outros partidos representados no Parlamento recolheram 62.27% da votação expressa.
Julgo ser necessária a maior das prudências quando se fala de vitória.
Esta vitória da FàF terá certamente um prazo de validade curto a não ser que o PS opte por uma estratégia de aniquilamento estabelecendo acordos com a PàF em nome e em troca de ...
É possível governar contra as pessoas quando se tem uma maioria obediente e de consciência hipotecada no Parlamento.
É impossível governar contra uma maioria com representação parlamentar e insistir em políticas contra as pessoas a não ser que o PS dê uma ajuda que representará o seu declínio tal como aconteceu na Grécia.
A ver vamos.

domingo, 4 de outubro de 2015

OS RESULTADOS DAS ELEIÇÕES PONTO A PONTO

A coligação PSD/CDS-PP, a confirmarem-se os resultados projectados, ganhou com clareza embora perdendo com clareza a maioria absoluta. Ponto.
Entendendo a campanha eleitoral como uma campanha destinada a vender um produto, a PàF fez a mais eficaz campanha de que me lembro. Pode vir a ser usada como caso de estudo nos cursos de comunicação em política. Ponto.
O PS, António Costa, geriu a campanha à deriva e raramente entendeu o discurso e estratégia que vinha da PàF aos quais foi reagindo sem eficácia. Tornou-se progressivamente incapaz de promover um discurso e uma visão que federassem o enorme descontentamento que persiste em muitos portugueses mesmo certamente entre os que votaram PàF. Ponto.
Os partidos à esquerda, precisariam de uma visão pragmática, como a que informou os estrategas da PàF que diferenciasse o "cliente interno" do "cliente externo". Isto quer dizer que empenharam boa parte do seu esforço a combaterem-se estendendo uma passadeira ao partidos à direita. Ponto.
Se se confirmar que a PàF não atinge maioria absoluta teremos eleições antecipadas com a mãozinha do "irrevogável". Ponto. 
Com a vitória da PàF o "entertainer político" também conhecido por "Professor", Marcelo Rebelo de Sousa, será certamente o próximo Presidente da República, Antóni Costa não terá força para sustentar Sampaio da Nóvoa contra parte do aparelho do PS. Uma desgraça nunca vem só. Ponto.
O governo da PàF fez mal a muita gente e bem a muito poucos. Não podia ganhar. Ponto.
Só nos discursos dos políticos é que a realidade é a projecção dos seus desejos. Perdi, perdemos, apesar de como sempre alguns perdedores afirmarem vitória. Ponto.
Daqui a algum tempo parecerá mais claro o quanto perdemos. Ponto.


ESTUDAR COMPENSA. DE NOVO

O aumento exponencial da procura de mestrados radica em vários fenómenos. Em primeiro lugar e desde logo porque o desenvolvimento das comunidades exige mais e melhor qualificação.
Em segundo lugar é de considerar que a chamada Reforma de Bolonha encurtou as licenciaturas, retirando-lhes valor, proporcionando valores muito mais simpáticos do número de pessoas com ensino superior e minimizando os custos públicos com o ensino superior pois o grau seguinte, mestrado, é suportado pelos estudantes e famílias.
Acontece ainda que, por um lado pela desvalorização da licenciatura, passando a três anos o que se fazia em cinco, levou a que muita gente entendesse continuar a estudar para além da licenciatura, por outro lado, existem áreas de formação em que o requisito para o exercício profissional é de cinco anos de formação de base pelo, obrigatoriamente qualquer candidato a essas áreas terá de fazer licenciatura e mestrado. É o caso da minha área de intervenção, realizei uma licenciatura de cinco anos que me habilitou para a profissão e os meus colegas mais novos têm de realizar licenciatura e mestrado para acederem aos cinco anos de formação inicial exigidos.
Ainda em matéria de demografia importa salientar que nos últimos anos estamos a assistir a um preocupante abaixamento da procura de formação superior que alguns estudos associam às dificuldades das famílias e às percepções sobre empregabilidade e precariedade. Registe-se positivamente que este ano aumentou o número de estudantes matriculados no ensino superior.
Toda esta questão está, do meu ponto de vista contaminada por vários equívocos.
O primeiro, radica no discurso recorrentemente difundido, ampliado por alguma imprensa preguiçosa, de que, dada a enorme taxa de desemprego de jovens com qualificação superior, o investimento numa qualificação superior não compensa pois não existe mercado de trabalho, alguns empregos que surgem são precários e mal pagos e muita gente qualificada está a ser empurrada para fora por falta de futuro cá.
Um outro equívoco remete para o estatuto salarial. Apesar da política de proletarização do mercado de trabalho, da precariedade e do manhoso recurso a estágios, nem sempre remunerados ou seguidos de emprego, a formação superior ainda compensa.
É claro que não podemos esquecer o altíssimo e inaceitável nível de desemprego entre os jovens, em particular entre os jovens com qualificação superior, obrigando tantos a partir à procura de um futuro que por cá não vislumbram mas esta questão decorre do baixo nível de desenvolvimento do nosso mercado de trabalho, de circunstâncias conjunturais e de erradas políticas de emprego e não da sua qualificação.
Neste cenário e como sempre afirmo, o discurso muitas vezes produzido no sentido de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação sendo, um autêntico tiro no pé de uma sociedade pouco qualificada como a nossa que, efectivamente e contrariamente à tão afirmada quanto errada ideia de que somos um país de doutores, continua, em termos europeus, com uma das mais baixas taxas de qualificação superior em todas as faixas etárias incluindo as mais jovens apesar das afirmações insustentáveis de Angela Merkel.
Conseguir níveis de qualificação compensa sempre e é imprescindível. Estudar e conseguir qualificação de nível superior compensa ainda mais.
Portugal não tem gente qualificada a mais, tem é desenvolvimento a menos. Temos também um mercado de trabalho que a cegueira da austeridade e do empobrecimento tem vindo a proletarizar e que não absorve a mão-de-obra qualificada, sobretudo jovem. Não podemos acolher a mensagem de que a qualificação não é uma mais-valia.
É um tiro no pé.

ELEIÇÕES

Dia de eleições.
Não consigo evitar que em todos os dias que se realizam eleições me lembre dos dois primeiros actos eleitorais em que me envolvi. Em primeiro lugar, as eleições para a então Assembleia Nacional em Outubro de 1969, durante a chamada “Primavera” Marcelista, tempo que aparentava uma pequena abertura no regime. Concorreram a União Nacional, a Comissão Eleitoral de União Democrática, a Comissão Eleitoral Monárquica e a Comissão Democrática Eleitoral. Participei em algumas acções durante esta campanha embora ainda não pudesse votar.
Lembro-me de assistir a alguns comícios muito bem vigiados pela polícia política e enquadrados pelas forças policiais, lembro-me por exemplo da interrupção, por decisão policial, de um acção em Almada em que participava José Afonso, lembro-me de alguns “incómodos” na família e em famílias conhecidas causados pelo envolvimento nestas actividades. Não sei se será isto a que se pode chamar “asfixia democrática” mas não posso deixar de recordar. Por curiosidade e para os mais novos, a União Nacional, o “partido” do regime ficou “surpreendentemente” com a totalidade dos 120 deputados eleitos.
O segundo acto eleitoral de que sempre me lembro foi o que se realizou em 1975 para a Assembleia Constituinte, as primeiras eleições livres. Um dia que com muita luta tardou em chegar e absolutamente inesquecível.
Creio que já aqi referi, passei uma manhã inteira numa interminável fila para, finalmente, poder votar, pela primeira vez, sem constrangimentos. Na rua, a gente falava de votar como de algo mágico. Desde esse tempo muita coisa se passou, umas mais bonitas, outras menos bonitas, os últimos tempos têm sido particularmente feios, mas é bom não esquecer.
Façam o que quiserem com o voto, e esta é a questão essencial, eu faço o que quero com o meu voto. Também me parece que seria bom que os partidos que têm vindo a transformar a democracia numa partidocracia capturando consciências e participação cívica não se esquecessem. Pouco a pouco começamos a guardar os nossos votos e decidimos não os dar a ninguém, sobe a abstenção, ainda assim uma decisão nossa.

sábado, 3 de outubro de 2015

É TÃO TRISTE NÃO SABER LER



“Na prisão, aprendi que um livro faz parte de nós”


No Público apresenta-se um trabalho extraordinário e que merece divulgação. No âmbito de um projecto, “ A poesia não tem grades”, desde 2004 milhares de reclusos de diferentes estabelecimentos prisionais têm tido oportunidade de ler e ouvir poesia. Os testemunhos recolhidos merecem reflexão.
Já que estou no Meu Alentejo e relembrando a cultura popular através do cancioneiro alentejano recordo uma moda que diz:

"É tão triste não saber ler
Como é triste não ter pão
Quem não conhece uma letra
Vive numa escuridão"

O DIA DA REFLEXÃO

Manda a liturgia dos processos eleitorais que o dia anterior se dedique à reflexão. Como em outras ocasiões tenho afirmado não estou muito de acordo com este cenário, do meu ponto de vista, ainda que pareça estranho, deveríamos ter o dia de reflexão no dia seguinte às eleições.
Em primeiro lugar não julgo necessário o dia de reflexão antes do acto eleitoral porque não entendo que essa reflexão influencie significativamente os resultados eleitorais pois, se por um lado a abstenção continua a crescer, deixando cada vez mais o voto no eleitorado fidelizado, por outro lado, o eleitorado flutuante não decide na véspera, decide, creio, face a contextos e circunstâncias, alimentando a alternância de poder no chamado centrão.
Em segundo lugar, porque na verdade, em termos de futuro parece ser mais significativo reflectir nos resultados eleitorais que se verificarem.
Aproveito, no entanto e desde já o dia de reflexão para deixar um apelo muito sentido.
Apelo vivamente aos senhores integrantes da classe política que a propósito das eleições de amanhã se inibam de elaborar comentários como “queria felicitar o povo português pela forma tranquila como está a decorrer, ou decorreu, o acto eleitoral”, “quero registar a normalidade que o povo português evidencia no cumprimento do seu dever cívico”, “os cidadãos mais uma vez mostram a sua maturidade democrática” ou ainda “o acto eleitoral está a decorrer, ou decorreu, com toda a normalidade em todo o território”. Considero afirmações desta natureza um insulto à esmagadora maioria dos cidadãos eleitores em Portugal. Que diabo pensam de nós, para se surpreenderem com a “normalidade” do nosso comportamento?
Então não é de esperar que participar num acto eleitoral, das diferentes formas possíveis,  seja algo de normal e tranquilo?
Lembro-me daqueles pais e professores que ao falarem de miúdos acrescentam de imediato “e até se portam bem”, como se o comportamento adequado seja uma surpresa e a excepção. Como se dizia no PREC, “repudio veementemente tais afirmações”.
Já agora, nós, os cidadãos que votamos, ou não, com normalidade democrática, gostávamos de poder comentar as campanhas dos políticos dizendo que tudo decorreu com a elevação, sentido ético e de esclarecimento normais. Mas não, existem sempre os insultos, a demagogia, a trafulhice nas ideias e nas promessas, a falta de esclarecimento e debate sério, etc.
A campanha que ontem terminou constituiu um autêntico manual.
A actividade política das lideranças é que não decorre com normalidade e tranquilidade democráticas. Não tratem os cidadãos como gente incapaz e de quem sempre se espera o pior.

新闻汉语教学 (NOTÍCIAS DO ENSINO DO MANDARIM)

Ao que parece está a verificar-sevalgum atraso no início das aulas de mandarim nas escolas que se candidataram. Nada de estranho, se as aulas do currículo regular não têm começado a horas e como o sistema é coerente também as aulas de mandarim começam mais tarde e adivinhem a razão, isso mesmo, a colocação de professores embora esta situação tenha uma atenuante, os professores vêm de longe, de muito longe, da China.
Tudo em conformidade e dentro da normalidade visando cumprir o anúncio de Nuno Crato feito em Pequim em Maio de 2014, “Há uma grande notícia”. Aguçaram-se os espíritos face a uma grande notícia saída da 5 de Outubro e … “o ensino do mandarim vai integrar de forma opcional os currículos do 3º ciclo e do ensino secundário”.
Na altura a comunidade educativa portuguesa exultou com o grande salto em frente sob a orientação do Grande Timoneiro.
Alguns menos avisados e até alguns conservadores maledicentes poderão entender que os problemas em matéria de currículo no sistema educativo português são bastante mais importantes e urgentes que o ensino do mandarim, a “grande notícia”. Estão errados evidentemente, a decisão é, como sempre, genial.
Como sabem, o ensino do mandarim em Portugal está em alta, existe já uma oferta significativa para crianças, sobretudo no ensino particular, sempre muito atento ao mercado. Aliás, alguns pais ouvidos em trabalhos da imprensa, referem o impacto e importância futura que pode ter para as criancinhas o ensino do mandarim. O programa de privatizações que tem vindo a ser seguido autoriza esta ideia, a China foi o maior investidor em Portugal durante 2014, e consta que Eduardo Catroga, António Mexia e mais uns quantos também frequentam as aulas de mandarim.
Por outro lado, os chineses numa espécie de missão evangélica e desinteressada apoiam através do Instituto Confúcio estas iniciativas que em muitos países têm sido recusadas e vista com sérias reservas.
De início, ainda tive algumas dúvidas mas quando pensei melhor, é sempre tempo, comecei a perceber o alcance e a visão de decisões desta envergadura. De facto, a aprendizagem do mandarim é a porta para entrar no futuro.
Esqueçam a importância do inglês, do francês ou do alemão, são ferramentas antiquadas e inúteis. O nosso futuro passa pelo "maior mercado da humanidade", a ida de milhares de portugueses para a China e a vinda de milhões de chineses para Portugal, num tráfego infernal de “charters”, genialmente antecipada por Paulo Futre, exige que depois do português, ou mesmo em vez de, todos nós dominemos o普通話 (mandarim). Acresce que, como é sabido, a nossa generosa oferta de "vistos gold", apesar de alguns sobressaltos e negociatas, é muito significativamente aproveitada por cidadãos chineses que carregados de dinheiro chegam a Portugal e não têm com quem falar a não ser com os seus compatriotas de lojas e restaurantes. Não pode ser, nós portugueses vamos aprender mandarim para que possamos receber os generosos cidadãos chineses que vêm realizar os seus investimentos em Portugal bem como os empresários chineses que vão comprando as nossas empresas
O Ministro da Educação (教育部) mostra como visão e audácia são o caminho para o futuro e para tal conta com a desinteressada e nebulosa "ajuda" da China.

PS – Para o que der e vier ...  我也正在學習 (Também já estou a aprender) - Com o auxílio do tradutor do Google. Não sei se será uma boa escolha.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

OS MIMOS A MAIS

Algumas notas breves sobre este universo em complemento do trabalho referido.
Acontece com razoável frequência quando se assiste ou se comentam alguns comportamentos dos miúdos, sobretudo quando se trata de birras ou a imposição de desejos ou vontades aos adultos, quase sempre os pais, surgirem explicações como “é dos mimos”. Neste tipo de diálogos, “mimos” é entendido quase como sinónimo de “afecto”, “amor”, “gostar”, etc.
Tal justificação costuma depois servir para se afirmar a ideia de que as crianças hoje em dia têm muitos mimos que as estragam, dito de outra maneira, têm “afecto” a mais ou ainda “gosta-se de mais” das crianças. Estes discursos parecem-me sempre muito curiosos pois assentam, do meu ponto de vista, num enorme equívoco.
As crianças, de uma forma geral, não terão afecto ou elogios a mais, pode existir “afecto a mais” "elogio excessivo" mas se for excessivo é mau afecto é mau elogio. Não é mau por ser muito, é mau porque asfixia, oprime, não deixa que os miúdos cresçam, distorce a percepção da criança de si própria. Mas não é este o tipo de situações que leva as pessoas a falar dos mimos ou dos elogios a mais.
Insisto, as crianças não têm elogios ou mimos a mais, têm nãos de menos, os adultos sendo quase sempre capazes de dar os mimos e os elogios, muitas vezes mostram-se incapazes de dar os nãos, de estabelecer os limites e as regras que, como sempre digo, são tão necessárias às crianças como respirar e alimentar-se.
Esta dificuldade dos adultos em oferecer os nãos aos miúdos, decorre muitas vezes de alguma desconforto culpabilizante sentido com as circunstâncias e estilos de vida que inibem o tempo e a disponibilidade que desejariam ter para os filhos. Ficando sem nãos, muitas crianças, a coberto do afecto ou dos elogios dos pais, transformam-se em pequenos ditadores que infernizam a vida de toda a gente, a começar por si próprios.
Mas não têm mimos, afecto, elogios a mais. Têm, repito, nãos a menos.
Por outro lado, também é muito frequente falar dos comportamentos das crianças constatando que “não páram”, são “agitadas”, “só gritam”, etc.
Por vezes digo que as crianças gritam muito e agitam-se porque nós, por várias razões, ficamos mais surdos, só quando gritam as ouvimos e só quando se agitam” reparamos nelas. E os miúdos são inteligentes, percebem que assim é e agem em conformidade.
Neste contexto fomentar e ajudar os pais a desenvolverem comportamentos de disponibilidade e escuta dos miúdos, a assumirem com firmeza e sem culpa a necessidade de definir regras e limites, de elogiar e mostrar afecto sem que se sintam a dar “mimos” a mais e que “estragam” as crianças só pode ser um bom trabalho.
De pequenino é que se torce o destino.

AS ARRUADAS

Lamentavelmente a campanha eleitoral acaba hoje. Por um qualquer conjunto de razões que eu próprio não consigo entender muito bem acho muito estimulantes e interessantes um fenómeno típico das campanhas eleitorais que dá pelo nome de “arruadas”, o passeio de um qualquer candidato pela via pública ou por espaços públicos, designadamente as feiras embora concorram com as praças ou ruas bem frequentadas. É certo que em qualquer altura a deslocação de uma figura política ao que gostam de chamar o “país real” é já uma amostra, mas em campanha pela conquista de mais um voto o espectáculo é deveras estimulante. Sim, eu sei que é estranho mas mesmo assim acho piada.
Tentem entender o meu ponto de vista e reparem, por exemplo, no comportamento e atitude das figuras de segunda linha que aparecem sempre coladas aos “importantes”. Normalmente, seguem um passo atrás de qualquer entidade que leve uma câmara de televisão a segui-la. Os figurantes constituem um grupo numeroso. Por este facto, nem sempre cabem no ecrã e então, assiste-se, por vezes de forma pouco discreta ao esforço para aparecerem. Compõem um sorriso circunspecto e enquanto a entidade é entrevistada é ver os figurantes a inclinar a cabeça em sinal de aprovação ao mesmo tempo que procuram compor um ar inteligente e condescendente para com a comunicação social. Têm a secreta esperança de merecer um primeiro plano que constitua prova de vida.
Acho também muito estimulante o papel dos “operacionais”, quase sempre os elementos das “juventudes partidárias” os que fazem o alarido, agitam as bandeiras e gritam as palavras de ordem e que, numa preventiva iniciativa para que não fiquem tão à rasca mais tarde, vão fazendo a sua formação que lhes permita uma carreira aparelhística ou, pelo menos, a esperança de um empurrãozinho na vida profissional.
Uma outra parte do espectáculo é o comportamento dos anónimos que se cruzam com a arruada e expressam o que lhes vai na alma face às cores do desfile fazendo com que a arruada pare ou acelere o passo em busca de melhor ambiente. Outra gente anónima que entra na arruada é a que se bate pelos brindes que obrigatoriamente são distribuídos pelas segundas figuras da comitiva. A luta e o melhor posicionamento pela conquista de um boné, saco ou esferográfica é um exemplo de empreendimento e esforço que se esperam recompensados.
Mas o que eu gosto mesmo, é de ver o entusiasmo com que a generalidade dos candidatos é abraçado e abraça muitíssimas vezes, distribui beijinhos pelas criancinhas e velhinhas com um carinho e de uma forma tão genuína que enternece. Então nestes dias que tema estado ainda alguma quentura a coisa é ainda mais agradável e o ar fresco e disponível dos candidatos é de uma autenticidade convincente. Acho mesmo que as eleições nunca deveriam realizar-se no tempo quente, as arruadas fazem-se melhor com tempo fresco.
Não sei se vos convenci, mas como diz o povo, “cá p´ra mim” as arruadas são mesmo o que de melhor as eleições têm. O resto é conhecido e pouco interessante.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

AS CRIANÇAS AGENDA

O crescimento desta oferta é algo que aqui já tenho referido e que justifica algumas notas.
É minha convicção que uma criança que frequente uma creche ou jardim-de-infância de qualidade não tem qualquer necessidade de actividades “extracurriculares”, a multiplicidade de conteúdos e de actividades realizadas será suficiente para o seu desenvolvimento e aprendizagem. Esta perspectiva não tem qualquer natureza fundamentalista pois admito que com bom senso algo mais possa estar presente na vida dos miúdos.
No entanto, de forma que considero inquietante, fruto dos estilos de vida e das dificuldades genéricas que enfrentamos e de uma cultura que tem vindo a instalar-se de mansinho em muitos pais, frequentemente acompanhados pelas instituições educativas, de uma atitude e um discurso de exigência e de pressão para a excelência no desempenho dos miúdos, a começar pelos resultados escolares e a estender-se a inúmeras outras actividades que a imaginação possa sugerir que se afirmam como imprescindíveis e “fantásticas” para as crianças.
Dito de outra maneira, os miúdos são cada vez mais pressionados para a produção e de alto nível de rendimento. Esta excelência que é exigida é extensiva a todas as áreas em que os miúdos se envolvem, devem ser excelentes a tudo e este “tudo” é muito.
Conheçam muitos pais que olham para este cenário com reserva mas também com receio que as suas crianças podem ficar “para trás” se não “beneficiarem” das actividades “extracurriculares. Algumas instituições alimentam, claro, estas dúvidas.
De tudo isto, para além do tempo, muitas vezes excessivo que os miúdos passam na instituição, surge uma oferta, interna ou externa, com uma diversidade espantosa que tornará as crianças fantásticas, excelentes, em montanhas de coisas que lhes fazem uma falta tremenda para se prepararem para o futuro, basta atentar na oferta disponível. O mercado não está distraído e alimenta com imaginação esta oferta.
A vida de muitas crianças transforma-se assim num espécie de agenda, passando o dia, incluindo fins-de-semana, a saltar de actividade "fantástica" em actividade "fantástica", numa agitação sem fim.
Acontece que algumas crianças, por questões de maturidade ou funcionamento pessoal, suportam de forma menos positiva esta pressão e dispersão esgotante o que poderá gerar o risco de disfuncionamento, rejeição escolar e, finalmente, insucesso.
Também sei que em muitas destas actividades estará presente uma genuína preocupação dos seus responsáveis pela qualidade e adequação do trabalho que realizam com os miúdos. A questão é que esse trabalho é apenas um dos mil trabalhos com que se vai enchendo a vida dos miúdos.
A melhor forma de preparar os miúdos para o futuro é cuidar bem deles no presente, desejavelmente sem faltas, mas também sem excessos.

PROGRAMAS ELEITORAIS E EDUCAÇÃO

Uma colaboração na SIC Notícias sobre a análise aos programas eleitorais no que respeita à educação.
O formato do programa retira bastante tempo de análise e condiciona conteúdos pelo que matérias como a autonomia das escolas ou as respostas educativas aos alunos com necessidades educativas especiais não foram abordadas apesar da sua enorme relevância.


PRECÁRIA DE VIDA

Acresce que ainda de acordo com o EUROSTAT em Portugal existiriam 248 000 jovens, 14,6%, entre os 18 e os 29 anos que não estudam nem trabalham, a geração “nem, nem”, um termo e uma dimensão devastadora. Se alargarmos ao intervalo até aos 34 anos teríamos 15.2%, 363 000 jovens e jovens adultos nessa situação. Impressionante.
É também de registar a utilização abusiva e escandalosa de estágios profissionais não remunerados, sobretudo de jovens qualificados, situação que permite aos empregadores aceder a mão-de-obra gratuita por alguns períodos de tempo, expediente que podendo ter impacto nas estatísticas não muda a vida das pessoas.
Por outro lado, a precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Por outro lado, as políticas de emprego em curso continuam a insistir na maior flexibilização das relações laborais.
Neste cenário, os desequilíbrios fortíssimos entre oferta e procura em diferentes sectores, a natureza da legislação laboral favorável à precariedade e insensibilidade social e ética de quem decide, promovem a proletarização do mercado de trabalho mesmo em áreas especializadas ou mesmo o recurso a uma forma de exploração selvagem com uma maquilhagem de "estágio" sem qualquer remuneração a não ser a esperança de vir a merecer um emprego pelo qual se luta abdicando até da dignidade.
Acontece ainda que alguns dos vencimentos que se conhecem, atingindo também camadas altamente qualificadas, não são um vencimento, são um subsídio de sobrevivência.
É justamente a luta pela sobrevivência que deixa muita gente, sobretudo jovens sem subsídio de desemprego e à entrada no mundo do trabalho, sem margem negocial, altamente fragilizadas e vulneráveis, que entre o nada e a migalha "escolhem amigavelmente" a "migalha", ou mesmo uma remota hipótese de um emprego no fim de período de um indigno trabalho gratuito. Como é evidente esta dramática situação vai de mansinho alargando e numa espécie de tsunami vai esmagando novos grupos sociais e famílias.
É um desastre. Grave e dramático é que as pessoas são "obrigadas" a aceitar. Os mercados sabem disso, as pessoas são activos descartáveis.

EU QUE ME COMOVO POR TUDO E POR NADA



Passos mostra crucifixo do qual não se consegue separar

Eu que me comovo por tudo e por nada confesso que fiquei deveras emocionado com esta confissão cândida do Senhor Primeiro-ministro. 
Só alguem completamente insensível ficaria indiferente ao uso de um crucifixo no bolso que nunca se abandona e da expressão de fé nas pessoas.
É certo que algumas opiniões mal intencionadas e irão dizer que tal confissão e genuinidade tem a ver com o estarmos em campanha elitoral. Não acredito, com os sentimentos não se brinca e o Senhor Primeiro-ministro não o faria.
Senti-me, por assim dizer, como o menino que está no mítico quadro.