sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A AVÓ QUE NÃO SABIA DE LETRAS

Hoje, não sei a que propósito, lembrei-me de uma história acontecida numa das várias conversas com grupos de pais em que regularmente participo.
Como frequentemente ocorre estavam algumas Avós. A certa altura a conversa girava em torno do que se passa em casa, dos trabalhos da escola e das dificuldades que muitos pais sentem na ajuda aos filhos, quer por razões de funcionalidade, quer porque sentem dificuldade ou desconhecimento relativamente às matérias escolares.
Uma das Avós presentes pede para intervir e explica que não sabe ler, na aldeia dela poucas raparigas foram à escola, mas que ajudou muito os dois netos que tem, eles ficavam com ela quando saíam da escola. E ajudou-os bem, disse a Avó, um é economista e o outro é arquitecto. Acrescentou ainda que até os ajudava nos trabalhos de casa. Uma senhora que estava ao seu lado não resistiu a comentar como é que Avó ajudava os netos nas coisas da escola senão sabia ler.
Com o ar que teria quando ajudava os netos, a Avó explicou à senhora que ainda só era Mãe Primeira, como sabem, ser Avó é ser mãe duas vezes, que os miúdos não precisam só das letras, precisam de aprender muitas coisas que os professores não sabem ou não podem ensinar, era isso que ela fazia. Pelos vistos bem.
É por questões deste tipo que já aqui me tenho referido ao papel que os mais velhos, muitos deles sós, poderiam desempenhar junto dos mais novos. Creio que seria bom, para uns e outros, e bem melhor que parte do trabalho que se faz em muitos espaços ao abrigo de uma coisa chamada Actividades de Extensão Curricular que em algumas situações mais provavelmente se tornam Actividades de Extinção da vontade de saber e de gostar da escola para alguma miudagem.

OS MUROS

A imprensa continua inundada pela nauseante análise do debate entre Passos Coelho e António Costa centrando boa parte dessa análise em aspectos acessórios e por referências à construção de muros e vedações como forma de travar a entrada de refugiados na Europa.
São estranhos os movimentos da história.
O ano passado a quase totalidade da Europa comemorou os 25 anos da queda do Muro de Berlim. Em 2015 a quase totalidade da Europa assiste sem grandes sobressaltos das suas lideranças à proliferação da construção de muros e barreiras de arame farpado alimentando a vida de terror e drama de muitos milhares de pessoas a viver num inferno que, também, foi ateado pela incompetência de decisões políticas dessas mesmas lideranças.
Talvez a relativa tranquilidade com que se assiste à construção de muros e barreiras em diversos pontos acabe por não ser estranha.
Eles vão sendo construídos nas nossas vidas conduzindo no limite à construção de "condomínios de um homem só" rodeado de muros para que ninguém entre.
Estes muros são menos visíveis mas não perdem eficácia.
Na verdade, existem muros que transformam a vida de muitas crianças, jovens e adultos, sobretudo e como sempre dos mais vulneráveis, numa permanente corrida de obstáculos em que são atropelados alguns dos seus direitos.
Estes muros são constituídos, por um lado, por constituído por dimensões mais tangíveis, falta de recursos humanos e técnicos, barreiras físicas e acessibilidade, insuficiência de apoios de natureza social, etc.
Por outro lado, boa parte deste muro é constituído por dimensões de outra natureza, desvalorização dos problemas das minorias, intolerância, o entendimento de que os direitos humanos são de geometria variável e dependentes da conjuntura, ou seja, se existir mais dinheiro, teremos mais direitos.
Muitas crianças, jovens e adultos estão ou sentem-se excluídos ou “tolerados” num canto das suas comunidades e são também eles refugiados de um quotidiano que os maltrata e é tantas vezes insuportável.
As comunidades, mais do que a mediocridade das suas lideranças, não podem deixar que estes muros se mantenham e, mais grave, que se construam novos muros e barreiras.
Um dia, sem darmos conta, ao querer olhar para o que está à nossa volta já não conseguimos, o muro com que nos fecharam não o permite.
Aí talvez seja um pouco tarde.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O DEBATE E A EDUCAÇÃO

Com um tempinho disponível fui ouvir a parte do debate relativa à educação, com uma referência mais particular à educação especial e ao ensino artístico.
António Costa falou do reforço da educação inclusiva e referiu a diminuição de recursos da para os apoios a alunos com necessidades educativas especiais e ao ensino da música. Presumo que isto possa significar que pensará reverter isto.
No entanto, não consegui perceber o que serão os objectivos programáticos do PS nestas matérias.
Passos Coelho, sem surpresa, cola a educação especial aos apoios especializados o que traduz com clareza o pensamento sobre a educação inclusiva.
Promove o habitual malabarismo numérico para nos explicar que no ensino artístico não há desinvestimento e que na educação foram vinculados 4 000 professores. Existe um pequeno problema, alguns milhares de crianças não vão ter ensino musical e no que respeita aos professores, segundo as Sínteses Estatísticas do Emprego Público divulgadas no boletim do terceiro trimestre de 2014 da Direcção-geral da Administração e do Emprego Público, de 2011 para 2014 saíram cerca de 30 000 professores.
Relativamente ainda à educação especial o aumento significativo do número de alunos referenciados como tendo necessidades educativas especiais não teve correspondência no aumento de professores e técnicos para trabalho com estes alunos com consequências evidentes na falta de apoio de qualidade a muitos alunos.
Passos Coelho sublinhou ainda o reforça da escolas pública e da autonomia o que atendendo à centralização extraordinária e plataformicamente burocratizada nos deixa a inquietação do que seria se não tem acontecido “tanta” autonomia e “tanto” apoio à escola pública.
Fez ainda a apologia do reforço do sistema selectivo do ensino, também conhecido por ensino dual em modo Crato, que alimenta as assimetrias sociais e divide o sistema nos bons e nos maus escrutinados pela obsessão pela medida traduzida na examocracia instalada.
De modo que a coisa promete, entre a retórica sem conteúdos claros que pode ser inconsequente e a promessa de continuidade do que de mau se tem verificado, fiquei deveras inquieto.

DO DEBATE

Não vi (ouvi) o debate. Parece que desta vez ganhou Passos Coelho.
Utilizou mais pressão alta, pressão sobre o homem que transporta à bola, jogou olhos nos olhos, como se fala em "futebolês" e a táctica funcionou, dizem.
O desempate será jogado a 4 de Outubro.
Não se espera uma assistência recorde pois as equipas em presença praticam um futebol de qualidade pouco atractiva e os espectadores têm vindo a afastar-se do estádio.
A arbitragem também não ajuda pois ou está em estado de modorra ou apita com imparcialidade e a destempo. Terão ficado vários cartões por mostrar.
Na zona de entrevistas rápidas e ao que parece ambos os jogadores reclamaram o estatuto de vencedor.
As críticas ao desafio a que já tive acesso falam de alguns bons remates de parte a parte, algumas oportunidades perdidas e esperava-me melhor jogo de cabeça.
Os intervenientes revelaram-se bons executantes nos lances de bola parada.
Boa parte de nós é assim, com a bola parada somos os melhores.
A bola está agora do nosso lado.
Que vamos fazer com ela?

UM POVO AMIGO DO SEU AMIGO

Os portugueses sempre foram um povo solidário, preocupado com o bem estar do outro, amigo do seu amigo. Tanto ajuda um banco como ajuda o vizinho ou o sem-abrigo da vida. 
Nós somos assim.
E pagamos por isso.

Cada português já pagou 1950 euros para salvar bancos


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A ESTRANHA RELAÇÃO DE NUNO CRATO COM A REALIDADE

Nuno Crato afirmou hoje que o ano lectivo está a arrancar com “melhores escolas”, um “corpo docente mais estabilizado” e um melhor sistema educativo. O ano lectivo será seguramente “de mais sucesso”, com “ofertas mais estabilizadas”, “mais ensino profissionalizante”, um “currículo mais bem organizado”. Mais acrescentou que, "Criou-se um mito que as aulas iam começar uma semana mais tarde, não é verdade.” e “não há desinvestimento nenhum no ensino artístico".
Decididamente, começa a ser difícil entender este processo de negação da realidade que é transformada nos desejos de quem olha para ela.
Recordemos algumas outras afirmações.
Em Julho dizia que "Este país, apesar da crise, progrediu na Educação. Isso é reconhecido nos indicadores internacionais, no reforço do ensino profissional e na qualidade de ensino. Foram anos difíceis, mas em que não esquecemos o que é mais importante que é o futuro dos nossos jovens". 
Numa entrevista na RTP 2 em Junho ouvimos.
 “O ano passado verificou-se um erro pontual, este ano tudo correrá atempadamente.”
“Todos os efeitos para os alunos decorrentes dos atrasos do início do ano lectivo, foram corrigidos”, “foram dados todos os recursos às escolas e agora tudo está bem”.
“Temos um ponto de equilíbrio nas disciplinas estruturantes, metas curriculares mais exigentes e melhor organizadas”,
“As escolas têm uma panóplia de meios adequados às aprendizagens dos alunos”.
“As escolas têm grande liberdade para organização dos tempos lectivos e da oferta curricular”.
“A municipalização promove a descentralização sem diminuir a autonomia das escolas”
Podemos ainda acrescentar que Nuno Crato afirmou há algum tempo que estamos num “ano de ouro da ciência”.
Recordo que em Fevereiro Nuno Crato já tinha afirmado que de 2011 para cá o País está melhor na Educação e na Saúde.
O Ministro Nuno Crato afirma tudo isto com uma enorme convicção, até se convence que a realidade é mesmo esta.
No entanto vejamos duas notas retiradas da imprensa de hoje cuja divulgação apenas pretende, evidentemente, aborrecer Nuno Crato.
Um estudo do Observatório da Deficiência e dos Direitos Humanos encomendado pelo Parlamento Europeu sobre as respostas educativas alunos com necessidades educativas especiais conclui que, lê-se no Público “as falhas na educação começam logo ao nível dos programas de intervenção precoce, aos quais faltam meios técnicos e humanos, e continuam ao longo de todo o percurso escolar.
A segunda referência remete para o ensino da música. Os cortes no financiamento aos conservatórios impossibilitam a abertura de turmas do 5.º ano, o primeiro do ensino articulado de música. Tal situação implica, evidentemente, que muitas crianças vejam comprometidos os seus sonhos. Como se sabe os sonhos, estes sonhos, cmeçam cedo ou nunca mais começarão. 
Não vale a pena, o espaço não permite e seria repetir o que tantas vezes aqui tenho escrito e quem conhece a realidade bem sabe que o universo das escolas não é o mar de rosas descrito pelo Ministro Nuno Crato. Seria bom que fosse mas não é.
O despudor e falta de seriedade intelectual parecem não ter limites.

DOS "HORÁRIOS ZERO"

Neste arranque de ano lectivo o processo de colocação de professores está a correr sem os sobressaltos graves do ano anterior. O calendário eleitoral, perdão, o calendário escolar com o atraso no início das aulas veio dar uma ajudinha.
Ainda assim e ao que se lê no DN mais de 800 professores do quadro estão ainda com “horário zero” apesar de a alguns destes poder ainda vir a sair a lotaria de um trabalho em substituição de colegas já colocados. Aos outros restará um indigno processo de "requalificação", a antecâmara do desemprego.
Não consigo ouvir sem inquietação esta insultuosa designação “horário zero” atribuída a professores do quadro com anos de experiência avaliada e que estão sem alunos.
Conforme já escrevi frequentemente, entendo que as necessidades de docentes do sistema educativo constituem uma questão complexa e com múltiplas variáveis que deve ser tratada de forma séria, competente e serena o que não tem acontecido.
Para além das oscilações da demografia que são abordadas de forma habilidosa e não justificam a saída de dezenas de milhares de professores nos últimos anos, entre essas variáveis destacam-se algumas das consequências da PEC - Política Educativa em Curso, designadamente a criação dos insustentáveis mega-agrupamentos, mudanças curriculares destinadas a poupar professores e o aumento de alunos por turma que, não servindo a qualidade da educação, reduzirá o número de lugares de docentes.
Este quadro promove, naturalmente, um problema de absorção de muitos docentes, já no sistema, e que correm o risco de passar aos chamados “horários zero”, bem como na estabilização dos que se mantêm contratados durante anos por conta das eternas necessidades transitórias.
Conhecendo os territórios educativos do nosso país, julgo que faria sentido que os recursos que já estão no sistema, pelo menos esses e incluindo os contratados com muitos anos de experiência, fossem aproveitados em trabalho de parceria pedagógica, que se permitisse a existência em escolas mais problemáticas de menos alunos por turma ou ainda que se utilizassem em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades. Estas medidas no âmbito de uma autonomia real das escolas seriam possíveis se o MEC confiasse nas escolas e nos professores
Os estudos e as boas práticas mostram que a presença de dois professores na sala de aula são um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos.
Sendo exactamente estes os dois problemas que afectam os nossos alunos, talvez o investimento resultante da presença de dois docentes ou de mais apoios aos alunos, compense os custos posteriores com o insucesso, as medidas remediativas ou, no fim da linha, a exclusão, com todas as consequências conhecidas.
É só fazer contas. E nisso o Ministro Nuno Crato é especialista.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

DAS PRAXES

Nesta altura do ano e muitas vezes por um período prolongado, tal como nos movimentos migratórios, as cidades com ensino superior começam a ser invadidas por uma população curiosa, os caloiros. Andam aos bandos pelas ruas, com um ar patético, mascarado de divertido, enquadrados por uma rapaziada de negro, trajada, como gostam de dizer. É o tempo das praxes aos que chegam ao ensino superior.
Não sei se em resultado de alguns episódios lamentáveis, até com consequências graves do ponto de vista físico o que levou alguns estabelecimentos a "desencorajar" ou mesmo proibiras praxes, se em resultado das escolhas dos próprios estudantes ou em resultado dos esforços do MATA (Movimento Anti-Tradição Académica), parece que as “actividades” de praxe têm vindo a ser mais brandas apesar de alguns excessos que sempre se verificam.
Fico satisfeito com esta alteração, sobretudo se corresponder a decisões assumidas pelos estudantes no seu conjunto e não fruto de ameaças ou determinações da tutela ou da direcção das diferentes escolas, estamos a falar de gente crescida e, espera-se, autodeterminada.
De facto, como regularmente aqui afirmo partindo de um conhecimento razoavelmente próximo deste universo, a regulação dos comportamentos nas praxes tem-me parecido indispensável. Parece-me ainda importante que os dispositivos de regulação das praxes integrem o respeito por posições diferentes por parte dos estudantes sem que daí advenham consequências implícitas ou explícitas para a sua participação na vida académica que, frequentemente, não sendo "enunciadas", são, evidentemente, praticadas.
Estamos a falar de gente crescida e, espera-se, autodeterminada, seja numa posição favorável ou desfavorável. Os repetidamente referidos "Códigos de Praxe", nas suas diferentes designações, não parecem suficientes para inibir abusos dos comportamentos e as consequências negativas sobre os não aderentes às praxes.
Na verdade, de forma aparentemente tranquila coexistem genuínas intenções de convivialidade, tradição e integração na vida académica com boçalidade, humilhação e violência sobre o outro, no caso o caloiro, a “besta” como elegantemente é designado. Tenho assistido e todos temos conhecimento de cenas absolutamente deploráveis por mais que os envolvidos lhes encontrem virtudes.
Apesar dos discursos dos seus defensores, continuo a não conseguir entender como é que, a título de exemplo, humilhar rima com integrar, insultar rima com ajudar, boçalidade rima com universidade, abusar rima com brincar, ofender rima com acolher, violência rima com inteligência ou coacção rima com tradição. Devo, no entanto sublinhar que não simpatizo com estratégias de natureza proibicionista, sobretudo em matérias que claramente envolvem valores. Nesta perspectiva, parece-me um passo positivo uma anunciada iniciativa de regulação envolvendo diferentes academias.
Quando me refiro a esta questão, surgem naturalmente comentários de pessoas que passaram por experiências de praxe que não entendem como negativas, antes pelo contrário, afirmam-nas como algo de positivo na vida universitária. Acredito e obviamente não discuto as experiências individuais, falo do que assisto e conheço.
A minha experiência universitária, dada a época, as praxes tinham entrado em licença sabática, por assim dizer, foi a de alguém desintegrado, isolado, descurriculado, dessocializado e taciturno porque não acedeu ao privilégio e experiência sem igual de ser praxado ou praxar. Provavelmente, advém daí a minha reserva.

AS CRIANÇAS E O TELEMÓVEL

No DN encontra-se um trabalho sobre o acesso das crianças ao telemóvel tentando responder à inevitável questão, “A partir de que idade esse acesso deve ser facultado?”
Em muitos encontros com pais também esta questão me é colocada recorrentemente. Recordo que uma mãe de uma criança de 4 anos que acabava de me interpelar acrescentava que a filha pedia insistentemente o telemóvel porque outros colegas da mesma idade também tinham.
Como em várias outras matérias, sair à noite por exemplo, não creio que exista a “idade certa” depende das circunstâncias de contexto, da maturidade individual, da justificação para a o uso do telemóvel, etc.
Parece razoavelmente claro que até aos 10 ou 12 anos a “necessidade” do telemóvel é mais dificilmente justificada.
No entanto, do meu ponto de vista, a questão é de outra natureza não decorre fundamentalmente da necessidade, decorre dos valores e cultura que se vão instalando. O telemóvel passou a ser um instrumento que TODA a gente tem e sem o qual, como vários outros bens, não se é Gente.
Neste quadro e sem surpresa os mais novos também querem ser Gente e, para isso, querem ter um telemóvel.
Deve ainda considerar-se que o comportamento de muitos pais, tempos significativos com o telemóvel ou outro dispositivo, induzem nas crianças, por um lado, a percepção que “aquilo” é para se ter, pai, mãe, toda a gente tem. Por outro lado, muitos adultos tendo o telemóvel sempre à mão entendem quase sem se dar conta que é um “brinquedo” que também pode ir para as mãos das crianças que, evidentemente, não o querem largar.
Sabemos também que o mercado, sempre o mercado, também percebe que os mais novos são um “target”, como se diz em publicidade, extremamente atractivo pelo que produzem telemóveis especialmente destinados às crianças que, naturalmente, usam todo o seu enorme e irresistível poder de persuasão e “charme” para convencer os pais a adquirir.
Como em tudo na vida das crianças são requeridos dois condimentos imprescindíveis, bom senso e regras.
Neste sentido, apesar da insistência das crianças importa que se resista ao ter (dar) tudo em qualquer altura. As crianças (muitos adultos também) precisam imprescindivelmente de saber que não se pode ter tudo, no minuto que se quer. Neste processo oferecer alternativas, “isto não mas isto sim” e não ceder pode ajudar as crianças a lidar com a óbvia frustração e, simultaneamente, a interiorizar que NÃO se pode ter tudo no tempo em que se deseja.
Depois, a partir do momento em que se acede ao telemóvel, momento que o bom senso dirá quando deve ser, importa a sua utilização com regras.
Muitas vezes aqui tenho referido que as regras, os limites, são bens de primeira necessidade para o desenvolvimento saudável das crianças. Assim sendo, também o uso do telemóvel, é disso que hoje estou a falar, deve ser realizado com regras claras e CUMPRIDAS.
A questão é que em muitas famílias, por diferentes razões que aqui já tenho escrito, nem sempre este processo de definição de regras e limites é o mais eficiente e coerente.
Não é bom para as crianças e para o seu desenvolvimento  como também não é bom para os pais.
Mas é o caminho, se for preciso com ajuda de educadores, professores e técnicos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

PAULO PORTAS E AS MULHERES

"As mulheres sabem que têm de organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos"

A irrevogável tradição segundo Paulo Portas.
E, como é evidente, se falharem merecem uma carga de porrada que é para aprender qual é o seu dever e o seu papel.
O resto são modernices sem sentido. 

SAÚDE MENTAL. GUETIZAÇÃO E O PARENTE POBRE DAS POLÍTICAS DE SAÚDE

De acordo com o Relatório do programa da União Europeia "Joint Action on Mental Health and Well-being" este ano divulgado, Portugal está muito longe do desejável no que respeita à prestação de cuidados no domicílio e serviços na comunidade a pessoas com doença mental. Estima-se que menos de 20% dos doentes tenha acesso a este tipo de cuidados. O coordenador do Programa, Caldas de Almeida, afirma, “A maior parte dos hospitais continuam a fazer tudo no hospital e muito pouco cá fora”.
Acresce que segundo o relatório Portugal – Saúde Mental em Números 2014, divulgado em Dezembro pela Direcção-Geral da Saúde e na linha de dados anteriores, Portugal tem uma das mais altas prevalências de perturbações de saúde mental, mais de um quinto da população portuguesa, 22.9%. Esta prevalência potencia os efeitos desta má opção.
A ausência de respostas adequadas leva a um recurso excessivo à prescrição de psicofármacos mesmo em situações não justificadas.
Também o estudo Trajectórias pelos Cuidados de Saúde Mental em Portugal, promovido pela Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental e publicado em Março, defendia o encerramento, positivo entenda-se, dos hospitais psiquiátricos não foi acompanhado da criação de serviços na comunidade pelo que a desinstitucionalização falhou e “agravou os problemas de muitos doentes”. Afirmava-se no Relatório que a Rede de Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental não se concretizou e escasseiam os recursos.
Entretanto, em Maio, o Governo anunciou para Junho o arranque deste Projecto. No entanto e com alguma surpresa o programa assentará na construção de unidades e aumento do número de camas na tutela, soube-se agora, de Misericórdias e instituições religiosas, algumas sem experiência. Ficam de fora instituições com experiência nesta área e capacidade para estruturar resposta de proximidade. Alguns especialistas definem a opção como a promoção de mais uma área de negócio. Sem estranheza.
A opção foi e é criticada pelo director do Programa Nacional para a Saúde Mental que entende por mais ajustado a aposta em equipas comunitárias e apenas um número reduzido de camas para situações mais críticas de adultos ou crianças para as quais faltam de facto, camas levando ao seu inaceitável internamento em serviços para adultos.
Na verdade, as orientações actuais e matéria de saúde mental, quer do ponto de vista científico, quer do ponto de vista dos custos, determinam que a qualidade e eficácia deste tipo de apoios, deve, tanto quanto possível, assentar em estratégias de proximidade, aproximando, assim, o serviço clínico da comunidade e da vida quotidiana das pessoas.
Os modelos defendidos pela comunidade científica actual, a defesa dos direitos humanos e da qualidade de vida, tornaram insustentável a manutenção das grandes instituições psiquiátricas que encerravam muitas câmaras de horrores e casos de isolamento e privação. Ainda me lembro do incómodo causado por visitas realizadas no início da minha formação ao Hospital Júlio de Matos. Este universo é bem retratado no mítico “Jaime” de António Reis e Margarida Cordeiro.
No entanto, este movimento de retirada das pessoas com doença mental das grandes instituições não está a ser devidamente suportado pela criação de unidades locais que providenciem apoio terapêutico, social e funcional tão perto quanto possível das comunidades de pertença dos doentes e com o mínimo recurso ao internamento. Aliás. a intenção do Governo divulgada em Maio mostra um sentido contrário.
Tal opção, parece claro, cria sérios obstáculos aos processos de reabilitação e inserção comunitária acentuando ou mantendo os fenómenos de guetização das pessoas com doença mental e respectivas famílias.
Não estranho, os doentes mentais são os mais desprotegidos dos doentes, pior, só os doentes mentais idosos. Os custos familiares e sociais da guetização são enormes e as consequências são também um indicador de desenvolvimento das comunidades.

AOS VOSSOS LUGARES, AS AULAS VÃO COMEÇAR

A partir de amanhã e durante os próximos dias as aulas vão começar. Seria desejável que se iniciassem em condições normais, em termos de espaços adequados e professores, funcionários e técnicos já totalmente colocados nas escolas. Apesar do progresso substantivo relativamente ao catastrófico arranque do ano lectivo passado ainda não será desta que a “normalidade” nasce para todos.
Algumas notas pensando fundamentalmente nos que vão iniciar a escolaridade obrigatória.
Para a maioria das crianças e apesar da sua experiência na educação pré-escolar, a "entrada" na escola, ou melhor, o processo de início da escolaridade obrigatória, continua a ser uma experiência fundamental para o lançamento de um percurso educativo com sucesso.
Em muitíssimas circunstâncias da nossa vida, quando alguma coisa não correu bem, é possível recomeçar e tentar de novo esperando ser melhor sucedido. Todos nós experimentámos episódios deste tipo.
Pois bem, o processo de início da escolaridade envolve na verdade um conjunto de circunstâncias irreversíveis, ou seja, quando corre mal já não é possível voltar atrás e recomeçar com a esperança de que a situação vá correr melhor. Por isso se torna imprescindível que o começo seja positivo. Para isso, importa que seja pensado e orientado, que crie as rotinas, a adaptação e a confiança em miúdos e em pais indispensáveis à aprendizagem e ao desenvolvimento bem-sucedidos.
É fundamental não esquecer que os miúdos à "entrada" na escola não estão todos nas mesmas condições, pelas mais variadas razões, ambiente e experiências familiares, percurso anterior, características individuais, etc. o que exige desde o início uma atenção diferenciada que combata a cultura de que devem ser todos tratados da mesma maneira, normalizando o diferente, que alguma opinião publicada e ignorante defende. Muitas vezes os lugares da escola não conseguem acomodar a diversidade dos alunos.
Antes de, com voluntarismo e empenho, se tentar ensinar aos miúdos as coisas da escola é preciso, como sempre afirmo, dar tempo, oportunidade e espaço para que os miúdos aprendam a escola. Depois de aprenderem a escola estarão mais disponíveis para aprender então as coisas da escola.
Vai começar o tempo do trabalho "a sério" e muitas crianças irão rapidamente sentir-se pressionados para a excelência, o mundo não é para gente sem sucesso. Vão ter que adquirir competências, muitas competências, em variadíssimas áreas, porque é preciso ser bom em tudo e é preciso preparar para o futuro, curiosamente, descuidando, por vezes, o presente.
E vão também começar a perceber como anda confusa a cabeça dos adultos, como estamos sem perceber o nosso próprio presente e com dificuldade em antecipar o futuro, que será o presente deles.
Vão, parte deles, desaprender de rir, de se sentir bem e de brincar, a coisa mais séria que sempre fizeram.
Vão ouvir cada vez mais frequentemente qualquer coisa como "não podes fazer isso, já és uma mulherzinha, ou um homenzinho", como se as mulherzinhas e os homenzinhos já crescidos não fizessem asneiras.
Vão conhecer tempos em que se sentem sós e perdidos com um mundo demasiado grande pela frente.
Mais cedo ou mais tarde, alguns deles, vão sentir uma dor branda que faz parte do crescer mas que, às vezes, não passa com o crescer.
Também sei, felizmente que a grande maioria vai continuar a sentir-se bem, por dentro e para fora.
Pode parecer-vos um pouco estranho, mas gostava que a estes miúdos que agora vão começar "a escola", tal como aos outros que já a cumprem, lhes apetecesse "fugir para a escola" e que nós possamos ser capazes de lhes dizer "Cresçam devagarinho, não tenham pressa".
É que depressa e bem, não há quem, como se costuma dizer.
Boa sorte para alunos, professores, técnicos, funcionários e pais.

domingo, 13 de setembro de 2015

A POLÍTICA EDUCATIVA EM BALANÇO

Identificam-se áreas chave de impacto das políticas e ouvem-se alguns especialistas obre essas questões. A avaliação é genericamente negativa como não podia deixar de ser se pensarmos no interesse dos alunos, de todos os alunos, e das famílias e da comunidade que acredita que o investimento e valorização da educação, designadamente da educação e ensino públicos, é a melhor forma de promover desenvolvimento e bem-estar.
Uma pequena nota introdutória para referir que a entrada de Nuno Crato foi, por assim dizer, em estado de graça, e entusiasmou muita gente, incluindo algumas figuras mais mediáticas que posteriormente se tornaram bastante críticas.
Tenho para mim, fui falando sobre isso ao longo destes anos, que a visão de Nuno Crato sobre a educação era conhecida e, por isso, não surpreendentes as suas políticas. Creio, aliás, que boa parte das apreciações positivas que lhe eram feitas decorriam sobretudo da sua reacção às políticas desenvolvidas na altura, sobretudo durante a perturbadora passagem de Maria de Lourdes Rodrigues pela 5 de Outubro, do que da percepção mais profunda do que verdadeiramente Nuno Crato defendia. Ficou para a história a célebre afirmação sobre a implosão do Ministério. Os resultados estão à vista.
O tempo, designadamente, os tempos mais recentes "apenas" mostram os aspectos operacionais da sua visão sobre educação e uma enorme incompetência na gestão de processos onde era suposto não falhar que erguia como bandeiras a excelência, o rigor e a competência.
No Público referem-se algumas áreas que assim sintetizo emprestando a minha visão.
A transformação dos exames como a poção mágica para a qualidade, a obsessão com a medida, que transformou a vida de alunos e professores num processo de contínuo de treino para exames, hipervalorizando resultados em detrimento de processos e promovendo exclusão.
Uma revisão curricular cujas finalidades principal parecem ter sido, diminuir o número de professores, esbater a imprescindível formação integral dos alunos retirando peso a áreas como expressões ou mesmo eliminado a formação cívica. Destaca-se ainda a construção de currículos extensos, prescritivos assentes em centenas de inoperacionais metas curriculares que apensa se destina a servir um modelo direccionado para a medida.
Um processo contínuo de desvalorização dos professores levando a que muitos milhares fossem empurrados para fora do sistema sem que as alterações demográficas o justifiquem apesar da habilidosa abordagem que o MEC faz a esta questão. Esta desvalorização culminou com uma sinistra Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades que é um insulto no modelo que assumiu e inaceitável como forma de avaliação de docentes.
O desenvolvimento de um modelo importado da Alemanha e que, tal como está montado e em complemento com os exames, cria um sistema selectivo, darwinista, criando percursos de primeira e de segunda para os “sem jeito para a escola”, “preguiçosos”, menos dotados ou outra qualquer condição que lhes não possibilite serem alunos de uma sistema “normalizado” até ao limite e incapaz de acomodar a diversidade, justamente a característica mais evidente de qualquer grupo de alunos actual. Uma referência mais particular ao universo dos alunos com necessidades educativas especiais que, frequentemente, têm negado o direito à educação adequada, de qualidade e incluídos de forma participada nas comunidades educativas.
Um desinvestimento contínuo no financiamento da escola pública e da sua autonomia sendo que os apoios ao ensino privado à luz de uma falaciosa “liberdade de escolha” vão progredindo e alimentando os negócios da educação.
Finalmente, uma referência para o forte desinvestimento no ensino superior e na investigação com um processo absolutamente escandaloso e despudorado de avaliação dos centros, unidades e laboratórios da rede de investigação nacional que respondendo à encomenda que foi feita pela FCT está, espera-se que possa ser revertido, a liquidar uma boa parte das estruturas de investigação em Portugal designadamente na área das Ciências Sociais.
Nesta altura, do meu ponto de vista, começa a emergir uma outra questão, a herança que a actuação de Nuno Crato irá deixar no sistema educativo português. Qual será? Que fazer com essa herança?
Creio que ainda nos esperam, para não variar, dias agitados na educação.

O PEDITÓRIO, AS PALAVRAS (MAL)DITAS

Pressionado por uma manifestação dos chamados "lesados do BES" Passos Coelho avança com a brilhante ideia de uma subscrição pública para a qual ele seria o primeiro a contribuir para conseguir fundos que garantam o acesso à justiça por parte deste grupo de cidadãos.
Esta gente não se enxerga. Não têm que ser humanos, no entanto, poderiam, pelo menos, tentar parecer. Na verdade, com alguma regularidade são produzidas afirmações que me deixam alguma perplexidade. Lembrar-se-ão também de afirmações do Primeiro-ministro considerando que o "desemprego pode ser uma oportunidade para mudar de vida" e "não tem de ser visto como negativo". Recordo ainda os discursos aconselhando a emigração, a necessidade de se sair da "zona de conforto" ou ainda a famosa referência à necessidade de não sermos "piegas".
Umas notas breves e requentadas de um não especialista, sobre a questão da comunicação, sobretudo das lideranças políticas.
A primeira questão é exactamente essa, o peso social do mensageiro condiciona o conteúdo da mensagem, ou seja, a mesma frase não tem o mesmo valor afirmada por um cidadão comum ou proferida por uma figura com responsabilidades de decisão sobre a vida das pessoas. Assim sendo, as lideranças políticas assumem maior responsabilidade pelas afirmações que fazem.
Uma segunda nota prende-se com a justificação das afirmações, o seu conteúdo e forma. Todos os dias a imprensa e responsáveis de instituições de solidariedade social nos dão conta de situações de pessoas, milhares de pessoas, que estão a viver abaixo de um limiar que lhes garanta padrões mínimos de qualidade de vida, incluindo dificuldades de alimentação afectando crianças. Conhecemos muitas histórias de inacessibilidade a tratamentos e serviços de saúde por dificuldades económicas. Muitos milhares de famílias têm entregado as suas casas à banca por incumprimento de créditos, etc. Para muitas destas pessoas, afirmações como as que estão em análise são quase insultuosas e, portanto, inaceitáveis. Na verdade, este cenário devastador aumenta a pressão sobre o discurso dos líderes políticos, exactamente os que são responsabilizados pelos problemas ou, pelo contrário, de quem se espera a minimização desses problemas.
Pode sempre afirmar-se que haverá alguma razão nas afirmações ou que a intenção não é a de desvalorizar os dramas que afectam muitos milhares de pessoas.
No que respeita à eventual razão, mesmo que em algumas situações pudessem ser entendidas, toda a gente as ouve pelo que não podem deixar de se sentir envolvidas e agredidas. Quanto à intenção, a sua não existência, e acredito que não exista, não colhe. Numa certa altura do desenvolvimento dos miúdos, o seu desenvolvimento moral e intelectual leva-os a considerar que a sua não intenção de realizar algo, desculpa o que aconteceu, tal entendimento traduz-se no frequente "foi sem querer" e como "foi sem querer", não tem problema.
A questão é que os líderes políticos, os que verdadeiramente são líderes, apesar de não possuírem, felizmente, o dom da infalibilidade e da perfeição, não podem, não devem proferir determinadas palavras e persistirem teimosamente na sua afirmação.
São palavras (mal)ditas.

sábado, 12 de setembro de 2015

MATAR A ÁRVORE DO DESENVOLVIMENTO

PIB investido em ciência caiu em quatro anos seguidos

O Governo “está a matar a árvore do desenvolvimento”, afirmou há tempos o Professor Carlos Fiolhais.
Na verdade, está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.
Com o desinvestimento fortíssimo no ensino superior e investigação e a inviabilização de boa parte dos centros e estruturas de investigação através de um incompetente e despudorado processo de avaliação  que tem vindo a verificar-se e vai continuar, corremos o sério risco de ver ameaçados e destruídos os excelentes resultados que os centros, laboratórios e unidades de investigação e as instituições de ensino superior têm vindo a alcançar e que atestam o esforço e a competência da comunidade científica portuguesa e o trabalho realizado no âmbito do ensino superior e investigação, traduzidos no reconhecimento internacional das nossas instituições.
Como em quase tudo é uma questão de escolhas e prioridades de quem lidera. O problema como referia também o Professor Sobrinho Simões num entrevista de há algum tempo sobre estas questões é que "os nossos políticos têm um problema ... alguns não se apercebem do valor do ensino superior e da investigação".
A negrura crática que cai sobre a investigação vai ter consequências brutais em termos de desenvolvimento científico e económico para além, evidentemente, do impacto nas carreiras pessoais assim ameaçadas de milhares de pessoas que investigam, criam conhecimento, promovem desenvolvimento e que, provavelmente, desistem ou emigram.
E assim se destrói uma política científica que vinha a produzir  resultados positivos.

E É ESCREVER ASSIM, DESACORDADAMENTE. De novo.

Cidadãos contra o novo Acordo Ortográfico manifestam-se no Parlamento

Realiza-se hoje em Lisboa uma manifestação contra o Acordo Ortográfico que se inscreve num movimento que pretende levar à realização de um refrendo.
Repetindo notas que já aqui deixei e enquanto for tempo de evitar o atentado à Língua Portuguesa que o Acordo Ortográfico representa vale a pena insistir, importa que não nos resignemos. Não vou repetir os motivos pelos quais, do meu ponto de vista de leigo nestas matérias, o Acordo deveria ser repensado, muitas vezes aqui os enuncio. 
É também verdade que as explicações que os defensores, especialistas ou não, adiantam não me convencem da sua bondade, antes pelo contrário, acentuam a ideia de que esta iniciativa não defende a Língua Portuguesa. O seu grande defensor Malaca Casteleiro refere até "incongruências" o que me parece curioso, desencadeamos um acordo com esta amplitude e implicações para manter "incongruências e imperfeições" que transformam a ortografia da Língua Portuguesa numa mixórdia.
Entendo, evidentemente, que as línguas são estruturas vivas, em mutação, pelo que requerem ajustamentos, por exemplo, a introdução de palavras novas ou mudanças na grafia de outras, o que não me parece sustentação suficiente para o que o Acordo Ortográfico estabelece como norma.
Por outro lado, a grande razão, a afirmação da língua portuguesa no mundo, também não me convence pois não me parece que o inglês e o castelhano/espanhol que têm algumas diferenças ortográficas nos diferentes países em que são língua oficial, experimentem particulares dificuldades na sua afirmação, seja lá isso o que for. 
De facto, não tenho conhecimento de alguma perturbação ou drama com origem nas diferenças entre o inglês escrito e falado na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas isto dever-se-á, certamente, a ignorância minha e à pequenez irrelevante daquelas comunidades anglófonas. O mesmo se passa entre a comunidade dos países com o castelhano/espanhol como língua oficial.
O que vamos conhecendo com exemplos extraordinários é a transformação da Língua Portuguesa numa mixórdia abastardada.
E, por agora, páro (deveria escrever paro) por aqui e vou continuando a escrever desacordadamente.
Nota - A subscrição da Iniciativa do Referendo, pode ser realizada através do site https://referendoao90.wordpress.com/, ou no grupo do Facebook Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990,  é https://www.facebook.com/cidadaoscontraAO90?fref=ts.

UM MUNDO ÀS AVESSAS

Sem qualquer tipo de juízo sobre este episódio que o tribunal avaliará, espero, e decidirá de acordo com as eventuais responsabilidades pelos alegados comportamentos de educadoras e funcionárias, insisto, de novo.
As coisas nem sempre são o que parecem, o que pensamos que são ou mesmo o que gostávamos que fossem.
Na verdade, há pais que fazem mal aos filhos.
Na verdade, há filhos que fazem mal aos pais.
Na verdade, há professores que fazem mal aos alunos.
Na verdade, há alunos que fazem mal aos professores.
Na verdade, há velhos que fazem mal aos novos.
Na verdade, há novos que fazem mal aos velhos.
Na verdade, ...
Na verdade, há pessoas que fazem mal a pessoas.
Na verdade, ... o mundo é um lugar estranho e ... às vezes ... muito feio.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

NOMES

Gosto quando me chamam.
Às vezes, muitas vezes, não me chamam. Outras vezes chamam-me nomes que não são meus. Os crescidos chamam-me preguiçoso, distraído, parvo, bebé, coitadinho e outros nomes, sempre nomes que não são meus.
Os outros miúdos chamam-me badocha, gordo, bolacha, caixa de óculos, def e outros nomes, sempre nomes que não são meus.
Eu acho que as pessoas, todas as pessoas, só deviam ter um nome, o seu.

POR UMA OUTRA EDUCAÇÃO

Tendo recebido um generoso e honroso convite vou hoje participar num debate, "Por uma outra Educação", realizado no âmbito da candidatura presidencial de Sampaio da Nóvoa. O debate realiza-se na Escola Superior de Educação de Setúbal às 16:30 e contará com a presença de Sampaio da Nóvoa.
Espero estar à altura da tarefa.
Retomo a ideia de Mandela, "A educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo". Assim sendo, o futuro passa pela Educação e por uma visão que coloque a educação no centro das políticas de desenvolvimento e pelo investimento e valorização da escola e ensino públicos.
Estranhamente o tema educação esteve completamente ausente do recente e mediático debate entre António Costa e Passos Coelho, os candidatos mais fortes a gerir os destinos de Portugal o que é profundamente significativo.
Também recordo, estamos na margem sul, Sebastião da Gama, e o seu enunciado, "Pelo sonho é que vamos". Sem negar o papel estimulante e visionário do sonho, atrevo-me a reformular, "Pela educação é que vamos".
Vou partilhar algumas ideias que creio poderem constituir-se como modestos contributos, não para uma "Outra Educação", mas para uma Educação que seja mais do que Ensino e que num quadro de enorme e enriquecedora diversidade responda da melhor forma possível aos desafios que nos esperam e que por imperativos éticos não podemos deixar de enfrentar com sucesso, Equidade, Qualidade, Inclusão e Participação.
Esta resposta passará pelo investimento, valorização e confiança na escola pública, nas escolas e nos professores.
Do meu ponto de vista, Sampaio da Nóvoa em Belém e dentro dos limites constitucionais pode desempenhar um importante papel neste caminho que não podemos deixar de percorrer.
Será difícil mas é possível.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

OS TRABALHOS DA ESCOLA

Esta iniciativa é desenvolvida no âmbito do Programa WhySchool integrado projecto EEA Grants (linha de financiamento concedida pela Islândia, Liechtenstein e Noruega aos Estados Membros da União Europeia) gerido pela Administração Central do Sistema de Saúde do Ministério da Saúde.
Algumas notas breves.
Como já tenho referido parece-me importante que os professores lidando com crianças e adolescentes muitas horas por dia estejam atentos aos seus sinais de mal-estar e que recebam formação para que essa atenção seja mais consistente e informada. De facto, os problemas que carregam na mochila tmbém vão para a escola onde passam o dia e onde podem ser observados sinais desses problemas.
No entanto, como também afirmo frequentemente, é preciso ter uma enorme prudência. As escolas, os professores, não podem gerir tudo e lidar com todos os problemas que possam surgir com crianças e adolescentes, não é a sua função, não é a sua competência, não tem e não pode ter recursos para toda a gama de problemas.
A escola pode, evidentemente, contribuir para a solução mas não pode ser A solução. Neste sentido, atribuir aos professores responsabilidades pela “triagem, referenciação e apoio aos casos em risco” parece-me claramente desajustado. Acresce que as escolas não têm em número suficiente outros recursos nesta área, psicólogos por exemplo. Além disso, estima-se que apenas 10 a 15% das crianças e adolescentes com problemas de saúde mental acedem a ajuda. A saúde mental, tem sido claramente o parente pobre das políticas de saúde.
Neste cenário, apesar de não duvidar da importância do programa de formação para estes professores, temo que possa contribuir para não alterar a eficiência da resposta alimentando a indesejável e muito frequente situação de crianças, adolescentes ou famílias que estão “sinalizadas”, ou “referenciadas” em várias áreas de problemas mas … sem qualquer tipo de apoio sendo notícia quando alguma coisa de grave acontece.

O DEBATE

Não vi o debate. Parece que António Costa ganhou.
E os portugueses?

PS - Parece que não houve no debate uma palavra sobre educação. Não estranho. Nos grandes debates só cabem as grandes questões. A educação é, evidentemente, uma questão menor sem estatuto para ser incluída nos debates que envolvem dois candidatos a governar o país.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O ENSINO DA MÚSICA

Nuno Crato deixa milhares de alunos sem ensino musical

A formação de maior profundidade em áreas como a música, as artes expressivas em geral ou o desporto, por exemplo, não pode ser, por razões óbvias de recursos e competência, providenciada de forma generalizada pelas escolas públicas.
Nesta conformidade, o trabalho desenvolvido na área do ensino da música e da formação musical pelos conservatórios privados é, evidentemente, serviço público e por isso imprescindível a um sistema educativo global, multi-dimensionado e com uma perspectiva adequada da educação, do desenvolvimento e da formação integral dos indivíduos orientada para diferentes áreas do saber e do fazer.
Não se compreende assim os cortes brutais nos apoios do MEC ao funcionamento dos conservatórios privados que levarão a que milhares de alunos corram o sério risco de deixar de ter acesso a esta área de formação.
Sabemos também que a formação, nesta como noutras áreas, deve ocorrer desde as primeiras idades, não pode esperar que os anos passem e que se reúnam condições para então aceder ao ensino da música.
Eu sei que os recursos são finitos mas políticas adequadas estabelecem prioridades adequadas.
Não investir em formação, em formação nas diferentes áreas, não é uma forma de poupar dinheiro, é uma forma de desinvestir no futuro a troco de quase nada no presente.
Um Ministro da Educação e da Ciência deveria saber disto.
A questão é que uma visão redutora e instrumental do que é educação, “o ensino das matérias estruturantes”, transforma em acessório dispensável tudo o que não caiba na estreiteza deste olhar. Agora foi o ensino da música.
Perdemos todos.

FAMÍLIA PRECISA-SE. URGENTE

Sem que tal signifique minimizar o qualidade de que este processo e deve revestir não pode deixar de se considerar uma boa medida,
Os processos de adopção em Portugal demoram muito frequentemente mais de três anos pelo que muitas crianças permanecem institucionalizadas por tempo demais.
Em Portugal verifica-se um dos mais elevados índices europeus de institucionalização. No mesmo sentido Portugal tem um dos mais baixos valores no que respeita a colocação de crianças em acolhimento familiar, 4,5 % face aos 30% verificados em Espanha ou 66% em França. No Reino Unido a taxa de acolhimento familiar é ainda mais elevada, 77%, mas este indicador, do meu ponto de vista, deverá ser analisado à luz de algumas particularidades que estes processos apresentam e que têm sido objecto de algumas reservas.
Apesar da evolução que se tem constatado, continuamos com uma elevada quantidade de crianças institucionalizadas, muitas das quais sem projectos de vida viáveis pese o empenho dos técnicos e insttuições. Seria desejável que se conseguisse até ao limite promover a sua desinstitucionalização das crianças por múltiplas e bem diversificadas razões.
Recordo um estudo da Universidade do Minho mostrando que as crianças institucionalizadas revelam, sem surpresa, mais dificuldade em estabelecer laços afectivos sólidos com os seus cuidadores nas instituições. Esta dificuldade pode implicar alguns riscos no desenvolvimento dos miúdos e no seu comportamento.
A conclusão não questiona, evidentemente, a competência dos técnicos cuidadores das instituições, mas as próprias condições de vida institucional e aponta no sentido da adopção ou outros dispositivos como forma de minimizar estes riscos e facilitar os importantes processos de vinculação afectiva dos miúdos. Também deve acentuar-se o trabalho de grande qualidade que muitas instituições procuram desenvolver. Além disso, sabemos todos, que existem contextos familiares que por razões de ordem variada não devem ter crianças no seu seio, fazem-lhes mal, pelo que a retirada pode ser uma necessidade justificada pelo supremo interesse da criança, um princípio estruturante das decisões neste universo.
Acontece ainda que se verifica uma enorme dificuldade de algumas crianças em ser adoptadas devido a situações como doença, deficiência, existência de irmãos ou uma idade já elevada. Assim, muitas crianças estarão mesmo condenadas a não ter uma família. Existem casos de famílias interessadas na adopção de bebés que esperam até cinco anos porque entre os mais pequeninos passíveis de adopção, o número é menor, situação que se mantém, os candidatos à adopção preferem as crianças abaixo dos 3 anos.
Como é óbvio, um processo de adopção é algo cuja qualidade não pode em momento algum ser hipotecada minimizando o risco de "devolução" de crianças em processo de adopção, situação altamente penalizadora para todos os envolvidos. No entanto, parece claro que o processo carecia de agilização de modo a que os candidatos à adopção não desistam assustados com a morosidade. A alteração legislativa agora publicada vai neste sentido.
Recordo uma afirmação de um autor muito conhecido na área da educação e do desenvolvimento, Bronfrenbrenner, "Para se desenvolver bem todas as crianças precisam que alguém esteja louco por elas".

terça-feira, 8 de setembro de 2015

É TÃO TRISTE NÃO SABER LER

Por pouco esquecia-me. O calendário das consciências manda que hoje estejamos a atentos ao analfabetismo, regista o Dia Mundial da Literacia.
Segundo dados consultados na PORDATA, considerando os Censos de 2011 em Portugal teria 5,2% de analfabetismo. Desde 1970 com 25,7% o progresso foi muito significativo.
No entanto, ainda há muito a fazer considerando também o analfabetismo funcional.
Lá pelo Alentejo canta-se:
(…)
É tão triste não saber ler
Como é triste não ter pão
Quem não conhece uma letra
Vive numa escuridão
(…)

A MINHA MADRASTA É A MINHA MÃE

Foi publicada ontem legislação que introduz alterações no “regime de exercício das responsabilidades parentais” que valorizam o papel educativo e cuidador de madrastas e padrastos. Este novo quadro normativo dá maior peso aos laços afectivos entre crianças e adultos face aos laços biológicos com outros elementos da família o que me parece de registar. No entanto, segundo alguns especialistas a legislação pode criar alguma conflitualidade que deverá ser gerida pelos tribunais de família e menores.
A maioria das situações que envolvem a existência de padrastos ou madrastas decorrem de separações familiares.
Como afirmo como muita frequência, é preferível uma boa separação a uma má família, uma família que está casada por fora e “descasada” por dentro, situação que, evidentemente, não passa despercebida às crianças ou adolescentes.
A separação poderá permitir que se reconstruam famílias que possam ser mais felizes.
Acontece que do ponto de vista legal importa proteger os direitos de padrastos e madrastas que tendo-se tornado verdadeiros pais e mães poderão perder essa “condição” em caso de desaparecimento do seu parceiro ou parceira que seja pai ou mãe de “filhos” que sentem e se sentem como seus. Assim sendo, “o superior interesse da criança” deveria ser acautelado e ficar com o padrasto ou madrasto.
Como sempre que falo nestas matérias recordo a mágica expressão de Laborinho Lúcio, “Só as crianças adoptadas são verdadeiramente felizes, felizmente a maioria dos pais adoptam os seus filhos”.
Os padrastos e as madrastas também adoptam os filhos das pessoas com quem se unem, deixem que essas crianças e adolescentes possam continuar felizes.

A GENUINIDADE DO BAILE DE MÁSCARAS

Passos e Costa estão a treinar para serem genuínos no debate

Ao que se lê no DN, Passos Coelho e António Costa estão a "treinar para serem genuínos" no debate televisivo entre ambos que ocorrerá amanhã.
Achei curiosa esta ideia de treinar a genuinidade.
Estava eu convencido, ingenuamente, que a genuinidade era uma coisa, por assim dizer, ... genuína.
Afinal a genuinidade não é genuína, pode ser treinada.
Assim sendo, iremos assistir a uma espécie de baile de máscaras em que os figurantes procuram genuinamente convencer-nos de que estão a ser genuínos.
Na verdade, estou genuinamente farto deste trocatintismo em que se transformou boa parte da praxis política no Portugal dos Pequeninos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

AGORA NO ENSINO SUPERIOR

São conhecidos os resultados do acesso ao ensino superior. Cerca de 87,1% dos candidatos ficaram colocados, 50,5% conseguiram uma colocação na sua primeira opção e 84,4% numa das três primeiras escolhas.
A colocação e as escolhas de curso assentam, naturalmente, nas motivações dos candidatos e das suas expectativas face ao futuro e nos constrangimentos e enviesamentos da oferta. Se repararmos que apenas cerca de metade vai frequentar o curso que é a sua primeira escolha existe o risco de frustração e desmotivação que pode levar à desistência e desmotivação, esperemos que corra bem.
Umas notas breves na linha do que aqui já tenho escrito.
Sou dos que entendem que cada um de nós deve poder escrever, tanto quanto as circunstâncias o permitirem, a sua narrativa, cumprir o seu sonho. Por outro lado, a vida também nos ensina que é preciso estar atento aos contextos e às condições que os influenciam, sabendo ainda a volatilidade e rapidez com que hoje em dia a vida acontece.
Nesta perspectiva, parece-me importante que um jovem, sabendo o que a sua escolha representa, ou pode representar, nas actuais, sublinho actuais, condições do mercado de trabalho, faça a sua escolha assente na sua motivação ou no projecto de vida que gostava de viver e, então, informar-se sobre opções, sobre as escolas e respectivos níveis de qualidade.
Por outro lado, é esta questão quero sublinhar, boa parte da questão da empregabilidade, mesmo em situações de maior constrangimento, relativiza-se à competência, este é o ponto fulcral.
Na verdade, o que frequentemente me inquieta, como muitas vezes afirmo, é a ligeireza com que algumas pessoas parecem encarar a sua formação superior, assumindo logo aqui uma atitude pouco "profissional", cumprem-se os serviços mínimos e depois logo se vê. O caso mediatizado e ainda não concluído do “Dr.” Miguel Relvas é apenas um exemplo extremo deste entendimento, a formação não é um conjunto de saberes e competências, é um título que se cola ao nome.
Mesmo em áreas de mais baixa empregabilidade, ou assim entendida, continuo a acreditar que, apesar dos maus exemplos que todos conhecemos, a competência e a qualidade da formação e preparação para o desempenho profissional, são a melhor ferramenta para entrar nesse "longínquo" mercado de trabalho. Dito de outra maneira, maus profissionais terão sempre mais dificuldades, esteja o mercado mais aberto ou mais fechado.
Assim sendo, importa que o investimento, a preocupação com a aprendizagem e a aquisição de saberes e competências possam ser uma preocupação que pode, e deve, coexistir com o desenvolvimento de uma vida académica socialmente rica, divertida e fonte de bem-estar e satisfação. É desejável resistir à tentação do facilitismo, do passar não importa como, da fraude académica, da competição desenfreada que inibem partilha, cooperação e apoio para momentos menos bons.
O futuro vai começar dentro de momentos.
Boa sorte e boa viagem para todos os que vão iniciar agora esta fase fundamental nas suas vidas.

VELHICE CLANDESTINA

Até Julho foram encerrados 52 lares para idosos, 9 com urgência, pelo Instituto de Segurança Social em resultado de 337 inspecções a equipamentos desta natureza. Em 2014 foram encerradas 83 instituições. É também sabido que a insuficiência da fiscalização e a impunidade dos responsáveis leva a que alguns, depois de verem encerradas algumas instalações, "deslocalizam-nas" e abram outros espaços por vezes bem próximos ou até nas antigas instalações.
As instituições para idosos são um mercado em crescimento, teremos perto de um milhão de portugueses acima dos 75 anos e dado o envelhecimento progressivo, o futuro do negócio parece assegurado. Aliás, sabe-se que muitas das instituições para idosos têm longas listas de espera.
Este universo, o acolhimento, institucional ou familiar dos velhos é uma questão complexa, tão complexo e difícil como é, muitas vezes, viver na condição de velho.
Um relatório de 2013, creio, da OMS identificava Portugal como um dos cinco países europeus em que os velhos sofrem mais maus-tratos. Cerca de 39,4% dos velhos sofrem alguma forma de maus-tratos, que envolvem, por exemplo extorsão, abuso psicológico, físico ou negligência.
De facto, nos últimos tempos têm sido recorrentes as notícias sobre os maus tratos aos velhos, aos seniores, como agora se diz. Regularmente, surgem na imprensa referências à forma inaceitável como os velhos estão a ser tratados.
Começam por ser desconsiderados pelo sistema de segurança social que com pensões miseráveis, transforma muitos velhos em pobres, dependentes e envolvidos numa luta diária pela sobrevivência. Continua com um sistema de saúde que deixa muitos milhares de velhos dependentes de medicação e apoio, sem médico de família.
Em muitas circunstâncias, as famílias, seja pelos valores, seja pelas suas próprias dificuldades e estilos de vida, não se constituem como um porto de abrigo, sendo parte significativa do problema e não da solução produzindo cada vez mais situações de solidão e isolamento entre os velhos, com consequências que têm feito manchetes, muitos velhos morrem de sozinhismo, de solidão.
Estão em extinção as relações de vizinhança e a vivência comunitária, fontes privilegiadas de protecção dos mais velhos.
É certo que existe, felizmente, um pequeno número de idosos que além do apoio familiar, ainda possuem meios que lhes permitem aceder a bens e equipamentos que contribuem para uma desejável e merecida qualidade de vida no fim da sua estrada.
Finalmente, as instituições, muitas delas, subordinam-se ao lucro e escudam-se numa insuficiente fiscalização não oferecendo a qualidade exigida. Por outro lado, os equipamentos de qualidade são inacessíveis aos rendimentos de muitos dos nossos velhos.
Lamentavelmente, boa parte dos velhos, sofreu para chegar a velho e sofre a velhice.
Não é um fim bonito para nenhuma narrativa.

domingo, 6 de setembro de 2015

O MEU FILHO ESTÁ NA TURMA DOS MAUS. ELE VAI FICAR BOM?

Na Região Autónoma da Madeira inicia-se no próximo ano lectivo em sete estabelecimentos escolares um projecto de combate ao insucesso e abandono escolar através da constituição de turmas apenas com alunos com dificuldades. Num dos estabelecimentos é também constituída uma “Turma de Desenvolvimento” com os melhores alunos. O objectivo, lê-se no Público, é “estimular o grupo nivelando-o por cima”.
É recorrente, creio que será cada vez mais, a tentação de operacionalizar este tipo de respostas.
Aliás, no Continente o Despacho Normativo 13/2014 do MEC prevê constituição de "grupos de homogeneidade relativa" de alunos. A designação seria uma pérola em "eduquês" mas Nuno Crato não é, evidentemente, homem para certas liberdades discursivas, é um homem de rigor como todos os aspectos da política educativa demonstram.
O normativo estabelece que para além de turmas de alunos com dificuldades as escolas podem também constituir turmas de alunos com "elevadas capacidades".
Como já tenho referido, em algumas situações, bem avaliadas todas as variáveis envolvidas, posso entender a constituição por um período de tempo bem delimitado de grupos de alunos com algum tipo de dificuldade escolar para a realização de um trabalho de apoio específico. Existem algumas boas experiências neste campo.
No entanto, a constituição, assim enunciada, de grupos de alunos com dificuldades e de grupos de alunos com "elevada capacidade" abre a porta a situações que me parecem profundamente discutíveis e esta inquietação não tem rigorosamente a ver a argumentação fraquinha, muito fraquinha, do referindo dimensões como o estafado e improdutivo "politicamente correcto”.
Esta medida já existiu em tempos com as turmas de nível e quem conhece a realidade sabe que os resultados dos alunos "maus" continuaram, genericamente maus, o povo diz junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior do que eles.
A constituição de grupos nivelados, "homogéneos", com base no rendimento escolar, no comportamento ou na origem social e familiar, não é rara nas nossas escolas, é do conhecimento da tutela que tolera o procedimento.
Sabemos todos de turmas maioritariamente constituídas por repetentes ou oriundos de alguns bairros, bem como, pelo contrário, turmas maioritariamente constituídas por bons alunos, filhos de docentes ou de funcionários ou de alguém com “capacidade” para influenciar a definição da turma para o seu filho ou, como agora se define de alunos com "elevada capacidade". Nada de novo, portanto.
A questão central coloca-se em dois patamares, a eficácia e o impacto nos alunos. Vamos por partes. A experiência e os estudos realizados sobre estas questões mostram que sem recorrer a apoios eficazes e adequados, separando apenas por competência, os “bons” continuam bons os “maus” também continuam maus, apenas deixam, crê-se, de atrapalhar o trabalho dos bons. 
O trabalho dos maus, sendo nivelado por baixo introduz um tecto nas aprendizagens que inibe um percurso do mesmo tipo e qualidade que o dos bons mesmo que sejam bem-sucedidos, o que só acontece pelo trabalho de apoio adequado e não por estarem junto de outros maus.
Nós aprendemos mais e melhor com quem sabe mais que nós.
Quanto ao impacto, parece óbvio que a diversidade é sempre preferível a uma falsa homogeneidade. As atitudes de discriminação negativa não apresentam nenhuma espécie de vantagem pessoal ou social, guetizam, estigmatizam e promovem quer nos bons, quer nos maus, uma relação desconfiada e tensa facilitadora de problemas.
As dificuldades escolares gerem-se com apoios e recursos que terão certamente de ser diferenciados mas não podem, não devem, implicar a criação de “guetos” para os “maus” ou de "condomínios" para os "bons".
Finalmente, creio que esta medida, grupos de nível, se inscreve num processo de selecção “neodarwinista” que o MEC tem vindo de mansinho a instalar.
O caminho é este, dos fracos não reza a história.
O problema é que se não for a escola, a educação, a promover equidade de oportunidades e a combater a exclusão não restará nada nem ninguém que o faça. O Ministro da Educação e Ciência deveria saber isto.

MAIS ALUNOS NO SUPERIOR. UMA BOA NOTÍCIA

Ao que os dados mostram e apesar de algumas mudanças pouco significativas, parece continuar a verificar-se algum enviesamento na oferta de toda a rede de ensino superior, pública e privada que se traduz na sobrevalorização de escolhas ou na existência de muitos cursos sem procura
Já aqui afirmei muitas vezes a necessidade imperiosa de regulação na oferta do ensino superior, um universo fortemente enviesado com uma oferta sobredimensionada e com distorções fortíssimas ao nível da qualidade, da assimetria da rede e das implicações na empregabilidade.
O problema é que o ensino superior em Portugal é, como muitíssimas outras áreas, vítima de equívocos e de decisões políticas nem sempre claras. Uma das grandes dificuldades que enfrenta prende-se com a demissão durante muito tempo de uma função reguladora da tutela que, sem ferir a autonomia universitária, deveria ter impedido o completo enviesamento da oferta, pública e privada, que se verifica. Existem cursos que apesar de alguma menor empregabilidade se inscrevem em áreas científicas de que não podemos prescindir com o fundamento exclusivo no mercado de emprego. Podemos dar como exemplo formações na área da filosofia ou nichos de investigação que são imprescindíveis num tecido universitário moderno. Será também importante que se insiste e aprofundem modelos de cooperação, universitário e politécnico, público e privado, que potencie sinergias, investimentos e massa crítica.
Voltando à boa notícia da subida do número de alunos, alguns especialistas entendem que a subida se deverá a maior sucesso no ensino secundário, a melhoria na condição económica de algumas famílias e ao aumento de confiança na formação superior.
Na verdade e contrariamente ao muitas vezes se entende Portugal, as famílias portuguesas enfrentam um dos mais caros sistemas de ensino superior da UE e da OCDE.
Por outro lado, tem vindo a instalar-se a perigosa e falsa ideia de que "somos um país de doutores". De facto temos uma das mais baixas taxas de pessoas com formação superior entre os países da OCDE e somos também um dos países em que considerando o estatuto salarial médio mais compensa adquirir formação de nível superior.
Aliás, não cumpriremos certamente o objectivo de formação superior estabelecido na UE para 2020 mesmo com a ajuda da "meia licenciatura" recentemente criada.
Neste quadro, saber que está a aumentar o número de estudantes que vai frequentar o ensino superior é mesmo uma boa notícia.

sábado, 5 de setembro de 2015

TODO O CUIDADO É POUCO

Uma criança de cinco anos morreu na tarde desta sexta-feira depois de ser atacada por um cão em Ribolhinhos, freguesia de Castro D’Aire, em Viseu. O menino de cinco anos foi mordido no pescoço por um pastor alemão, o cão dos avós.
Continuamos a ser um dos países europeus em que acontece maior número de acidentes domésticos com crianças. Nas mais das vezes verifica-se alguma negligência ou excesso de confiança da nossa parte, adultos, na vigilância dos miúdos a que se junta a inexperiência e o à vontade próprios dos mais pequenos.
A dor e a culpa que alguém pode carregar depois de episódios desta natureza serão, creio, suficientemente fortes para que deixemos de lado o aspecto da culpabilização que aqui nada acrescenta.
O que me parece importante sublinhar é que num tempo em que os discursos e as práticas sobre a protecção da criança estão sempre presentes, também se verifica um número altíssimo de acidentes, por vezes mortais, o que parece paradoxal. Por um lado, protegemos as crianças de forma e em circunstâncias que, do meu ponto de vista, me parecem excessivas e, por outro lado, em muitas situações adoptamos atitudes e comportamentos altamente negligentes e facilitadoras de acidentes que, frequentemente, têm consequências trágicas.
E não adianta pensar que só acontece aos outros.

OS AMIGOS SÃO PARA AS OCASIÕES

Ainda o ajuste directo, os amigos são para as ocasiões. Teremos eleições e nunca se sabe o que pode acontecer, a coisa está muito equilibrada. É melhor ir arranjando uns lugarzinhos. 
Trata-se, evidentemente. de promover o emprego e porque não começar pelos amigos. 
Tudo isto sempre em alternância, é claro.

É FÁCIL E DÁ MILHÕES

Entre janeiro e agosto, Estado fez ajustes diretos de oito mil milhões - metade dos contratos públicos.

É fácil e dá milhões.
Os amigos que o digam, os amigos que o digam.

O ANIMAL FEROZ

Em plena época de caça (ao voto) foi solto o animal feroz.
Está por saber que influência pode ter nas actividades da coutada. Os comportamentos dos animais ferozes são, por vezes, imprevisíveis.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

CABEÇAS SEM DONO

Há poucos dias trouxe aqui uma história das minhas viagens por Moçambique. Hoje deixo outra. Nessa viagem estive a trabalhar em Inhambane, a terra da boa gente.
Uma noite estava à conversa com o meu anjo da guarda naquela estadia, o Velho Bata, um homem que como ele dizia, “sabia escrever nem que fosse com uma Parker e era capaz de ler até à última letra”.
Não me recordo porquê mas na conversa entraram aquelas pessoas que passam a vida a querer agradar aos outros, que dizem, pensam e fazem o que alguém mandar, de pessoas que “não existem” por si, que não têm ideias próprias, etc. Depois de umas trocas de exemplos e considerações sobre as nossas experiências de vida nesta matéria, o velho Bata rematou.
Sabe, há pessoas que têm a cabeça guardada numa gaveta e quando têm que sair e pôr um chapéu, vão buscar a cabeça para o segurar, são umas cabeças sem dono.

Esta coisa de uma cabeça sem dono pareceu-me curiosa. De vez em quando ainda me interrogo se consigo mesmo ser o dono da minha cabeça, é inquietante a quantidade de cabeças sem dono e mais inquietante ainda como tanta gente tenta ser o dono da cabeça dos outros.

O LEILÃO INDIGNO

Durante muitos anos aqui no Alentejo, no largo da vila, regularmente, os moirais, os feitores, escolhiam os trabalhadores, perdão, "os activos" que fossem necessários nas herdades para umas jornadas sazonais e que ansiosamente esperavam pelo privilégio da escolha.
Os outros, "os que não obtinham colocação", ficavam no largo, à espera, sem trabalho e com a vida adiada.
Nestes tempos negros e de horror que vivemos, estamos a assistir de novo a esta espécie de leilão mas com contornos ainda mais dramáticos e incompatíveis com valores mínimos de ética, moral e dignidade.
Os medíocres líderes dos países Europeus, quais feitores ou moirais, licitam o número de pessoas, refugiados, que podem acolher. Decidem os que sobrevivem ou os que serão condenados ao inferno de onde saíram, a um novo inferno ou mesmo à morte às portas do sonho. E nem aos meninos põe Deus a mão por baixo.
Discutem números como quem discute mercadoria. Os números de que falam deixarão de fora muitos mais. Tenham paciência, dizem-lhes, não deviam ter nascido ou, pelo menos, vindo de lá desses países à procura de fazer Vida pela Europa. 
Sim, eu sei que a situação é complexa. Por isso é que para problemas complexos se exigem respostas complexas que desafiam a capacidade de quem as decide.
E o problema é, justamente, este, a incapacidade, a mediocridade da generalidade dos líderes europeus que para além de dinamitarem a sobrevivência desta gente, dinamitam um Projecto visionário de uma Europa coesa, solidária e aberta que alguns, mais competentes, sonharam e em  que muitos acreditaram.
Que apodreçam no inferno.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A SALA DE PROFESSORES UM ESPAÇO EM EXTINÇÃO. SERÁ?

Após as férias aconteceu o retorno formal à lida profissional. Foi um excelente recomeço, um encontro com umas largas dezenas de professores do concelho do Cadaval.
O pretexto para a conversa foi a indisciplina em meio escolar e eu lá vou cumprindo o melhor que posso a minha penitência, falar sobre a indisciplina para tentar expiar os pecados acumulados numa carreira de aluno indisciplinado.
Não me orgulho do “currículo” mas também não posso apagá-lo, resta-me umas desculpas tardias aos professores, alguns, com quem me cruzei nesses anos. Refiro alguns porque, como todo sabemos, a generalidade dos alunos indisciplinados não são igualmente indisciplinados com todos os professores. Aliás, com muita frequência “esquecemos” ou não estamos atentos ao que pode justificar um “melhor” comportamento com alguns docentes e continuamos centrados no “mau” comportamento evidenciado com outros. Reflectir sobre a primeira situação pode ajudar a entender a segunda.
No entanto, esta nota decorre de um comentário de um professor a intervenção que gostava de partilhar.
Estando em conversa os apoios (a falta deles) aos professores e às suas dificuldades de natureza variada nestes tempos complexos o colega referia que se notava a falta da “sala de professores”.
No seu entendimento, por razões múltiplas, organização e funcionamento das escolas, mudanças pouco adequadas nos currículos e nos tempos lectivos, burocracia excessivo que asfixia os professores quase desapareceu das escolas esse espaço, a “sala de professores”.
Nelas se falava das dificuldades, das angústias, do que corre bem, dos miúdos e das actividades. Era, insistia o colega, um espaço informal de conforto, de apoio, de “troca” que está vias de extinção e que tanta falta ele acha que faz.
É uma perspectiva que me parece curiosa e que merece, creio, alguma reflexão.