quarta-feira, 13 de maio de 2015

VIOLÊNCIA ENTRE JOVENS, NOVO EPISÓDIO

A comunidade está em sobressalto com o vídeo chocante da agressão de um adolescente por um grupo também de adolescentes que ocorreu na Figueira da Foz, ao que parece, há mais de um ano mas só agora conhecido por ter “caído” nas redes sociais.
Como é habitual as autoridades, a escola de pertença do agredido, a Comissão de Protecção já estão a acompanhar o caso. Algumas notas.
Os comportamentos agressivos e abusos entre jovens em contexto escolar, bullying por exemplo, ou fora deles são de sempre ainda que os estudos destes fenómenos sejam mais recentes. O volume e a gravidade de alguns episódios e, sobretudo, a sua mediatização através das redes sociais dão também uma maior visibilidade ao fenómeno.
Na verdade e com alguma preocupação, em vários estudos muito recentes constata-se que os adolescentes tendem a encarar a violência entre si e de uma forma geral, como normal o que não surpreenderá os mais atentos. A sociedade da informação e os sistemas de valores actuais banalizaram a violência, não são os adolescentes que a banalizaram.
Por outro lado, a escola e o meio circundante, por serem os espaços onde os adolescentes e jovens passam a maior parte do seu tempo são, naturalmente, os espaços onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que os alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola, família e outros actores da comunidade dm assumir responsabilidades.
No entanto, sem desresponsabilizar as famílias importa não esquecer que alguns pais se sentem tão perdidos quanto os filhos, têm elas próprias dificuldades e disfuncionalidades que são parte do problema e não da solução pelo que também elas precisam de apoio, só responsabilizá-las não chega.
No que respeita à violência entre jovens, um fenómeno complexo, existem ainda duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos alunos, ou adultos, vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações e encontrar dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa, sobretudo entre os mais novos. É importante também que os actores da escola e da comunidade saibam detectar nos alunos sinais que indiciem vitimização.
Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. As escolas, tal como a comunidade em geral podem e devem assumir atitudes, discursos e montar dispositivos que, visivelmente, mostrem um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.
É também importante que famílias e escolas estejam atentas e que estas possam ser dotadas de meios e recursos que permitam o desenvolvimento de iniciativas no plano da formação e apoio aos adolescentes e jovens, integrados ou não nos conteúdos curriculares que, tanto quanto possível, minimizem o risco de incidentes como o que agora conhecemos.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização destes incidentes que minam a qualidade cívica da nossa vida.

GOSTEI DE LER, "EDUCAR PARA UM FUTURO PIOR"

o texto de Raquel Matos, "Educar para um futuro pior",  no Público de hoje. Merece leitura e reflexão atentas.
Vem ao encontro das minhas inquietações patentes num texto que aqui coloquei há dias "A pressa de aprender".

terça-feira, 12 de maio de 2015

HISTÓRIAS DA POLÍTICA EDUCATIVA

"Senhor Professor, quando for preciso, se ele se portar mal, dê-lhe".
Lá para os idos do início da década de 60, o meu tempo de escola, primária como se chamava na altura, uma altura triste, sublinhe-se, este tipo de frases dirigidas por pais aos professores eram, creio, recorrentes.
Com as muitas mudanças que fomos vivendo foram desaparecendo, felizmente, digo eu, infelizmente dirão outros.
Hoje ocorreu-me esta lembrança ao ler que o IAVE enviou às escolas e agrupamentos uma comunicação na qual se pedia aos directores que perante os professores que se portaram mal deveriam "agir em conformidade". Referia-se aos professores que alegando a realização de greve não participaram nas acções de formação da PPP que dá pelo nome de PET - Preliminary English Test.
Nem mais, portam-se mal castigam-se. Temendo que os Directores tenham uma mão branda para com professores grevistas relembra-lhes a necessidade de "agir em conformidade". Grande Educador é o IAVE.
No mesmo comunicado acena com a oferta de uns trocos suplementares e não previstos aos professores bem comportados e que revelem mais produtividade, ou seja, se realizarem mais de seis provas orais do PET terão um bónus em euros.
Esta edificante história é o que considero um muito elucidativo exemplo de política educativa.

O ABANDONO ESCOLAR NO ENSINO SUPERIOR

Através da comparação das taxas de abandono dos alunos com bolsa ou candidatos a bolsa com os números globais, os autores minimizam as carências económicas familiares enquanto variável contributiva de forma significativapara o abandono sublinhando o papel preditor da média de entrada e na necessidade das instituições de ensino superior desenvolverem programas de apoio e acolhimento aos alunos que entram no 1º ano.
Julgo que esta questão merece uma reflexão mais fina na medida em que em Portugal temos um efeito ainda muito presente de ligação significativa do rendimento escolar dos filhos ao nível de escolaridade dos pais e, potencialmente, ao seu nível social, cultural e económico. Isto pode significar que, provavelmente, os alunos que se candidatam com médias mais baixas são oriundos predominantemente de famílias com mais baixos níveis de escolarização.
Como também se reconhecerá, este nível não tem que ser necessariamente associado a candidaturas a bolsa pois muitas famílias de rendimentos mais baixos e de nível de escolaridade mais curto em muitas situações não são elegíveis para atribuição de bolsa.
Aliás, são conhecidas as dificuldades de promoção de mobilidade social que o sistema educativo português, e não só, atravessa registando ainda níveis baixos de qualificação e perto de 300 000 jovens que não estudam nem trabalham.
Por outro lado, talvez seja de recordar no que respeita aos custo de frequência do ensino superior que muitos jovens portugueses estão a emigrar para realizar os seus estudos superiores em países em que as propinas são mais baratas que em Portugal, não existem de todo ou são financiadas, casos da Dinamarca, Reino Unido ou o Canadá e a Austrália fora da Europa.
Lembrando ainda o episódio das disparatadas afirmações de Angela Merkel sobre os licenciados a mais que Portugal apresentará, vale a pena recordar algo que nem todos saberão também. Na Alemanha não existem propinas nas universidades. Há uns meses, a Baixa Saxónia foi o último estado alemão a abolir as propinas. Deixem-me partilhar a afirmação da Ministra da Ciência e da Cultura deste estado que justificou a decisão de tornar gratuito a frequência do ensino superior “Livramo-nos das propinas porque não queremos que o Ensino Superior dependa da riqueza dos pais”. Elucidativo da forma como é vista a qualificação de nível superior.
Mais algumas notas. Segundo o Relatório "Sistemas Nacionais de Propinas no Ensino Superior Europeu", divulgado em Outubro de 2014  pela Comissão Europeia, Portugal é um dos cinco países, entre os 28 Estados membros da União Europeia, que cobram propinas a todos os alunos do ensino superior. Integra também o grupo de países em que menos de metade acede a bolsas de estudo.
Recordo que também em 2014 um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar.
Importa ainda acrescentar que estamos desde há anos com um abaixamento significativo da procura de ensino superior apesar deste ano se ter registado uma pequena subida. As dificuldades económicas são a principal razão para não continuar.
É também de acentuar que, de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia, 23,6%.
Como a atribuição de apoios sociais a estudantes em dificuldades aos estudos tem sido revista em baixa é fácil perceber a opção de muito jovens portugueses que, dificilmente, voltarão a Portugal de depois de terminada a sua formação inicial pois as possibilidades de formação pós-graduada são também, como sabemos, bastante mais acessíveis e diversificados na diversidade e na qualidade.
A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível. 
O abandono que se verifica a par da baixa da procura por formação superior são comprometedores do futuro.

DE PEQUENINO É QUE SE TORCE O DESTINO

A imprensa de hoje faz referência a um Programa da responsabilidade da Universidade de Coimbra, “Anos Incríveis”, que envolverá 60 jardins-de-infância implantados em meios sociais desfavorecidos e que, através do envolvimento dos pais, educadores e técnicos de saúde, visa prevenir problemas de comportamento e promover competências sociais nas crianças.
Assenta na chamada parentalidade positiva, disponibilidade e tempo para os pais interagirem com os filhos, privilegiar o elogio em detrimento da crítica, definição consistente de regras e limites, envolvimento dos educadores e técnicos de saúde no trabalho com as famílias, etc.
O Programa, já ensaiado em Portugal e com origem nos Estados Unidos revela bons resultados na prevenção do “mau comportamento” das crianças bem como no minimizar de “problemas de comportamento” já instalados.
Este tipo de iniciativas é essencial, deve ser estudado e, desejavelmente generalizado, a grande falha de múltiplas acções que oferecem bons resultados mas que só se mantêm enquanto dura o “Projecto” ou o “programa”.
Algumas notas sobre pais e crianças pequenas.
Acontece com razoável frequência quando se assiste ou se comentam alguns comportamentos dos miúdos, sobretudo quando se trata de birras ou a imposição de desejos ou vontades aos adultos, quase sempre os pais, surgirem explicações como “é dos mimos”. Neste tipo de diálogos, “mimos” é entendido quase como sinónimo de “afecto”, “amor”, “gostar”, etc.
Tal justificação costuma depois servir para se afirmar a ideia de que as crianças hoje em dia têm muitos mimos que as estragam, dito de outra maneira, têm “afecto” a mais ou ainda “gosta-se de mais” das crianças. Estes discursos parecem-me sempre muito curiosos estes discursos pois assentam, do meu ponto de vista, num enorme equívoco.
As crianças, de uma forma geral, não terão afecto ou elogios a mais, pode existir “afecto a mais” "elogio excessivo" mas se for excessivo é mau afecto é mau elogio. Não é mau por ser muito, é mau porque asfixia, oprime, não deixa que os miúdos cresçam, distorce a percepção da criança de si própria. Mas não é este o tipo de situações que leva as pessoas a falar dos mimos ou dos elogios a mais.
Insisto, as crianças não têm elogios ou mimos a mais, têm nãos de menos, os adultos sendo quase sempre capazes de dar os mimos e os elogios, muitas vezes mostram-se incapazes de dar os nãos, de estabelecer os limites e as regras que, como sempre digo, são tão necessárias às crianças como respirar e alimentar-se.
Esta dificuldade dos adultos em oferecer os nãos aos miúdos, decorre muitas vezes de alguma desconforto culpabilizante sentido com as circunstâncias e estilos de vida que inibem o tempo e a disponibilidade que desejariam ter para os filhos. Ficando sem nãos, muitas crianças, a coberto do afecto ou dos elogios dos pais, transformam-se em pequenos ditadores que infernizam a vida de toda a gente, a começar por si próprios.
Mas não têm mimos, afecto, elogios a mais. Têm, repito, nãos a menos.
Por outro lado, também é muito frequente falar dos comportamentos das crianças constatando que “não páram”, são “agitadas”, “só gritam”, etc.
Por vezes digo que as crianças gritam muito e agitam-se porque nós, por várias razões, ficamos mais surdos, só quando gritam as ouvimos e só quando se agitam” reparamos nelas. E os miúdos são inteligentes, percebem que assim é e agem em conformidade.
Neste contexto fomentar e ajudar os pais a desenvolverem comportamentos de disponibilidade escuta dos miúdos, a assumirem com firmeza e sem culpa a necessidade de definir regras e limites, de elogiar mostrar afecto sem que se sintam a dar “mimos” a mais e que “estragam” as crianças só pode ser um bom trabalho.
De pequenino é que se torce o destino.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

OS PROBLEMAS ESPECIAIS DAS PESSOAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS

Famílias carenciadas estão a ficar com o subsídio de ensino especial para pagar despesas básicas. Há terapeutas sem receber e crianças que já deixaram de ser acompanhadas.
De há muito que venho a defender a pertinência de repensar todo o modelo dos subsídios de educação especial atribuídos às famílias para apoios especializados a crianças com necessidades especiais.
Entretanto e ao que se noticia muitas famílias estão a usar os subsídios para assegurar despesas básicas. Os técnicos e centros de prestação dos serviços deixam de os prestar e, ao que parece, existem crianças já  sem apoio.
Mais uma razão para repensar o modelo e para evitar que se possam criar situações em que crianças com necessidades reais deixam de ter resposta.
Não é nada de novo, os mais vulneráveis são sempre os que sofrem mais.
Mas não é uma fatalidade, fazemos os dias assim, como cantam os Trovante.

A VOZ DAS MINORIAS

No ranking que mede como são respeitados os direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgénero, o Reino Unido continua a ocupar o 1.º lugar. Malta é dos que mais sobe na Europa — era 11.º em 2014 e passou este ano para 8.º. E Portugal desce quatro posições — é 10.º, numa lista de 49 países.
Às minorias, de uma forma geral, falta voz, ouvem-se pouco e mal.
Acresce que os níveis de desenvolvimento das comunidades também se afere pela forma como lidam com as suas minorias.

                                              (Foto de Mico)

Para onde foram todos?
Sabem que não gosto de ficar só.

Mas quando estão todos,
também me sinto só.

A PRESSA DE APRENDER

No Observador encontra-se um trabalho interessante e pertinente sobre o universo das crianças. Reflecte-se sobre os conhecimentos e competências que muitas crianças revelam precocemente e se esta situação é positiva e, portanto, de incentivar ou se, pelo contrário, deve ser encarada com alguma prudência  e atenção. Parece-me de sublinhar pela sua habitual qualidade e bom senso a colaboração dos Professores Gomes Pedro e Mário Cordeiro.
Uma pequena história a propósito desta matéria, as crianças que aprendem cedo.
Um dia destes, estava um grupo pequeno de volta de um café na sala de professores a aproveitar uns, poucos, minutos de paragem, quando alguém se referiu ao cansaço que nesta altura se começa a sentir nos miúdos, tornando-os dificilmente mobilizáveis para o trabalho.
No grupo estava o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros. No seu jeito de sempre, tranquilo e sem levantar muito a voz disse “é da pressa”. Os colegas estranharam e o Velho acrescentou: “Acho mesmo que é da pressa, muitas famílias logo que os miúdos nascem, mas sobretudo quando entram na escola, começam a entender os próximos anos como sendo fundamentalmente a preparação para ser adultos. Então, muitas vezes sem se dar conta pressionam os miúdos para crescer rapidamente e bem preparados para enfrentar a idade adulta.
Dão-lhes escola até os intoxicar, é preciso aprender muito e depressa. Enviam-nos para actividades sem fim que lhes desenvolvem imensas capacidades e competências que são fundamentais, dizem, para que se transformem em adultos realizados, ou como mais frequentemente afirmam, em pessoas com sucesso. Estimula-nos ao máximo para que aprendam o mais que puderem.
Estes pais não toleram a falha, exigem a excelência, detestam a brincadeira que entendem como uma perda de tempo.
Esquecem-se ou nunca perceberam que a infância é um tempo que vale por si só, irrepetível e imprescindível. Miúdos a quem roubam a infância, um dia vão querê-la de volta e nessa altura vão fazer asneiras que já podem ser complicadas, o tempo e a idade já serão outros. É certo que a infância também é um tempo em que se enche a mochila que nos vai acompanhar em adultos, mas é preciso não esquecer, é fundamental que a infância seja vivida enquanto infância, sem pressa.
Depressa e bem não há quem diz o povo."
Entretanto acabou o intervalo, sem tempo para mais conversas, é sempre à pressa.

domingo, 10 de maio de 2015

GOSTEI DE LER A ENTREVISTA DE SAMPAIO DA NÓVOA

ao Público. Do meu ponto de vista, a entrevista de Sampaio da Nóvoa representa um olhar diferente, estimulante e lúcido sobre o cenário político em Portugal e sobre a função presidencial. A lucidez que também revela ao perceber como os defensores do status quo estão a reagir e, sobretudo, vão reagir à medida que a candidatura ganhe consistência e apoio. Será difícil, mas é possível.
Sublinho a leitura de natureza proactiva dos poderes presidenciais que não pode ser um mero espectador mumificado quando não cúmplice de interesses partidário como estamos mais habituados.
É neste ponto que julgo importante reflectir também a propósito da entrevista de Sampaio da Nóvoa. De facto, à questão "Quando vier a ter apoios partidários como é que vai ser? Vão integrar-se nessa forma de fazer campanha que defende?" responde "Fico contente por utilizar o “quando”, eu teria tendência a utilizar o “se” [Risos]. Se vier a ter, as pessoas terão de funcionar no interior destas dinâmicas. É uma característica pessoal: a pior coisa que me podem fazer é tentar encostar-me à parede. Há muita arrogância no poder em Portugal. As pessoas a mim levam-me por bem, mas constrangendo-me é impossível. Eu vou fazer o possível dos impossíveis. Com uma entrega total. Mas quem vai fazer isto são os portugueses.".
E ainda à questão, "Diz-se um homem de esquerda. Nunca houve maiorias de coligação à esquerda. Acha que o sistema político está demasiado inclinado ao centro?"
Acho que mais do que inclinado ao centro, criou-se uma convicção de que só se podia governar ao centro. É o famoso “arco da governação”, que eu acho uma coisa verdadeiramente insuportável, até porque é um conceito que logo à partida exclui 20% dos portugueses. A inevitabilidade do centro é a inevitabilidade de certas políticas. Sou completamente contrário a isso."
Estas duas respostas parecem-me de profundo significado e são particularmente estimulantes. Será difícil mas é possível.
Em Portugal, como Sampaio da Nóvoa tem salientado, as presidenciais resultam de uma iniciativa individual de candidatura e, evidentemente, os partidos são uma trave mestra da democracia tal como a entendemos embora, na minha perspectiva, as praxis partidárias, centradas nos aparelhos e na luta pelo poder, fechada, tenha capturado a intervenção cívica dos cidadãos tornando- quase impossível fora da sua tutela, criando, assim, uma partidocracia que tem vindo a corroer a saúde ética da nossa democracia.
No entanto, também sabemos que uma iniciativa individual fora do espectro partidário e sem o apoio das máquinas partidárias parece inviável.
Neste contexto a candidatura de Sampaio da Nóvoa precisará do apoio do PS e de, eventualmente de outros, partidos mais à esquerda para ser bem sucedida. Acontece que apesar da recusa de António Guterres, a opção de sempre do PS, ainda não é linear que o apoio seja dirigido a Sampaio da Nóvoa, vejam-se as posições públicas de várias figuras do partido.
Por outro lado, se esse apoio se concretizar e como "em política não há almoços grátis" o PS quererá, evidentemente, capturar a candidatura e o projecto político de Sampaio da Nóvoa que, já dá para perceber, não é coincidente em várias dimensões com o PS actual, desde logo na questão identificada por Nóvoa como central "O meu ponto de partida é o da crítica das políticas de austeridadee também na opção por um claro posicionamento à esquerda e contrário ao alternante sem alternativa "arco da governação".
Conseguirá Sampaio da Nóvoa resistir a esta tentativa de "colonização" do PS caso se venha a verificar o apoio do partido à candidatura?
Conseguirá Sampaio da Nóvoa emergir e ser bem sucedido num cenário sem apoio partidário dos partidos do "arco da governação"?
Acredito que as respostas podem ser em qualquer dos casos, sim é difícil mas vai ser possível.

MÃES PRECOCES, PROBLEMAS MADUROS

Embora se registe uma diminuição Portugal continua a ser um dos países da Europa com mais alta taxa de gravidez na adolescência. Nos últimos anos quatro anos nasceram em Portugal 212 crianças de mães com menos de 15 anos o que indicia o número elevado de mães muito novas sendo que a mairoria não decorre desituações de violação. Tal facto, evidencia a atenção que esta situação deveria receber.
Parece oportuno relembrar que segundo os especialistas a diminuição do número de partos de adolescentes decorre da prevenção. Embora nestas matérias, como em todas as que dizem respeito à vida das pessoas, se deva considerar o universo de valores em presença, bem diferentes, é fundamental não esquecer as consequências devastadoras e dramáticas que a maternidade adolescente pode implicar. Recordo que há algum tempo desencadeou-se algua discussão pública sobre a distribuição de preservativos nas escolas e foi possível a perceber a grande disparidade e diferenças de ponto de vista sobre a questão.
Como referem vários dos técnicos a gravidez surge para muitas adolescentes e jovens como "um projecto de vida na ausência de outros" e num quadro de insucesso educativo.
Sabemos, a experiência mostra, que uma adolescente pode revelar-se uma excelente mãe, tanto quanto uma mulher madura pode ser uma péssima mãe. Não podemos, nem devemos, promover avaliações prévias de competências maternais, a ética e a moral impedi-lo-iam, mas podemos combater discursos hipócritas sobre a educação em matéria de sexualidade e comportamentos de risco.
Estes discursos alimentam a manutenção de situações que promovem em adolescentes, muitas vezes sem projecto de vida, um caminho e uma experiência para a qual não estão preparadas nem desejam, e com o risco sério de implicar sofrimento para todas as pessoas envolvidas, a começar, obviamente por uma criança, que sem ser ouvida, entra a sofrer neste mundo.

GOSTEI DE LER, "A ORQUESTRA GERAÇÃO"

Na Venezuela diz-se que quem pega num instrumento não pega numa arma. A Orquestra Geração adaptou o exemplo à realidade portuguesa e centenas de miúdos de bairros difíceis agarram-se à escola para aprender música e ganhar um futuro. 
Como muitas vezes refiro, estamos num tempo em que a educação e a escola tendem a ser pensadas em torno de saberes "essenciais" levando a que, de mansinho, se vão desvalorizando ou mesmo expurgando do currículo um conjunto de contúdos fundamentais à construção de cidadãos globalmente bem formados e qualificados.
Conteúdos relativos a formação cívica, actividade física e desporto, actividades expressivas ou artísticas, por exemplo, desaparecem ou são desvalorizados sendo que, de uma forma geral, todo o universo das ciências sociais é depreciado, do ensino básico ao superior e investigação.
O Projecto da Orquestra Geração é apenas mais um exemplo, um bom exemplo, da importância de diferentes abordagens para promover a adesão dos miúdos à vida escolar mostrando que podem ser um enorme contributo para o seu desenvolvimento e para contrução de um projecto de vida viável e positivo.

A REALIDADE ESTÁ ENGANADA

Um dia, talvez eu que sou um crente optimista nas qualidades do ser humano ainda consiga perceber a estranha convicção que boa parte da classe política com diferentes origens assume, sobretudo quando chega ao poder. Todo o seu discurso passa a assentar na ideia de que, “a realidade está errada, eu é que estou certo, ou seja, a realidade passa a ser a projecção dos meus desejos”. Dito de outra maneira, assumem que a realidade está enganada, o que eles pensam e o que afirmam é que está certo. Sempre.
Na verdade, esta gente, com mais ou menos habilidade, torturam dados, conhecimentos, informação e experiência e bombardeiam-nos sistematicamente até que, por exaustão ou acomodação, se convencem de que nos convencem. A realidade, acreditam, rendeu-se, passou a ser exactamente aquilo que eles querem que seja.
O problema é que a maldita realidade teima em desmenti-los.
Vem esta introdução a propósito da afirmação ontem produzida pelo Primeiro-ministro num comício do PSD no Algarve,
O Governo "não falhou em matéria social" e, mesmo nos períodos de maior dificuldade, conseguiu prestar apoio às franjas mais carenciadas da população.

Só para citar alguns dados, segundo a Cáritas Europa Portugal foi o país em que o risco de pobreza mais subiu em 2014 sendo que cerca de 25% de crianças estão nesta situação.
Mais de metade dos desempregados não acede a subsídio de desemprego. Foram cortados milhares de subsídios de abono de família e de outras prestações sociais como o rendimento social de inserção. Milhares de famílias caíram na insolvência sobretudo em consequência do desemprego brutal que as esmagou.
Maldita realidade, sem ela tudo estaria tão bem.

sábado, 9 de maio de 2015

IMPRENSA E PODER

Do meu ponto de vista foi positiva a reacção das empresas de comunicação social à tentativa, ao que parece de geração espontânea, de um grupo de deputados do centrão, CDS-PP, PSD e PS, que sem surpresa são capazes de estabelecer consensos, de instituir um visto prévio na cobertura da campanha eleitoral.
Essa proposta caiu e o CDS-PP e PSD apresentam nova proposta de cobertura das campanhas eleitorais que está a merecer as críticas de duas dezenas de responsáveis editoriais de órgãos de comunicação social.
Algumas notas sobre este universo, a relação dos poderes, designadamente do poder político, com a comunicação social que tem algumas particularidades interessantes.
Se estivermos atentos, reparamos como todos se procuram servir da comunicação social para a defesa dos seus interesses pessoais, partidários, institucionais, económicos, etc. Nada de novo, sabemos o peso que a comunicação social tem nas sociedades actuais e nos últimos tempos também temos tido sucessivos episódios ilustrativos dessas nebulosas relações.
Nesta matéria, para além das consequências óbvias destes comportamentos, parece-me particularmente irritante a forma quase infantil, está um pouco na moda este tipo de infeliz comparação mas não resisto, como algumas figuras reagem ao ser abordadas pela imprensa sobre assuntos sobre os quais, por várias razões, não lhes interessa discorrer. Surgem então as afirmações patéticas, “não tenho nada a acrescentar”, “desculpem, não comento”, “não estou aqui para falar dessas matérias,” “no estrangeiro não comento questões nacionais”, etc., etc. Este pessoal desenvolve assim uma espécie de surdez selectiva, só ouve o que lhe convém, de mutismo selectivo, só fala do que lhe convém, de cognição selectiva, só conhece o que lhe convém.
No entanto, são também estas as figuras que directamente ou através de terceiros, lambem as botas às redacções e aos jornalistas (quanto mais influentes melhor) e pedem, exigem, tempo de antena quando tal serve os seus diferentes interesses.
Algumas dessas figuras quando, quase sempre fruto do alpinismo partidário, ascendem a alguma forma de poder conseguem ainda ir mais longe nessa relação com a imprensa, se não lhes agrada calam-na como também não é raro. É um método velho e intemporal.
Devo confessar que tal cenário é, para mim, profundamente irritante e patético, sinto que nos insultam, que nos consideram destituídos, como se por não abordarem as diferentes matérias, elas não se passassem ou não existissem ou, noutros processos, que somos manipulados de forma nem sempre perceptível pela opacidade das situações.
Finalmente, incomoda-me também uma comunicação social, boa parte dela, passiva e resignada, que não confronta as figuras públicas com estes comportamentos, não os denuncia, e que acorre solícita quando essas figuras entendem que têm algo a dizer, as mais das vezes, irrelevante. Também lhe convém esta subserviência interesseira que alguns profissionais mantêm, também têm as suas agendas. Às vezes são recompensados.
É, quase, tudo farinha do mesmo saco como dizia a minha Avó Leonor.

E SE FABRICÁSSEMOS DIAS LOUREIROS?

Por diversas ocasiões tenho aqui manifestado a minha reserva face ao entendimento de que tudo o que possa de alguma forma dizer envolver os mais novos deve ser ensinado na escola. Esta visão obesa da escola não funciona, nem tudo deve ser transformado em disciplinas escolares, para além de que a escola tem um conjunto de funções incontornáveis que tornam finita a sua capacidade de responder.
Uma primeira nota para sublinhar que, ao que parece, os pais não são informados da realização destas acções de formação, sendo que alguns pais não autorizam a participação dos filhos pela discordância com as perspectivas e conteúdos que as informam.
Para ilustrar, cito do Público, “Aos seis anos, os alunos deverão reconhecer por exemplo, “como os membros de uma família dependem de várias empresas para satisfazer as suas necessidades e desejos”. E descobrir num mapa onde é que os membros da família os poderão satisfazer. Entre os 10 e os 12 anos já deverão avaliar “as etapas de valor acrescentado para a produção de um determinado produto e discutir as vantagens de escolher um país em vez de outro para a produção.
No 3.º ciclo os alunos são incentivados “ a usar o pensamento crítico para aprender algumas competências empreendedoras que suportem atitudes positivas, enquanto exploram as suas aspirações de carreira”. E chegados ao secundário podem ter acesso ao “ programa bandeira da Junior Achievement”: “A Empresa”. No seu âmbito os alunos criam uma mini-empresa e depois, ao longo de um ano lectivo, “reúne, capital através da venda de títulos de participação, criam um produto ou serviço, colocam-no no mercado e, por último, liquidam a operação e pagam os dividendos aos titulares”.
Como síntese parece elucidativa. Sem surpresa e como também é referido na peça o programa tem apoiantes. Não me parece estranho nos tempos que correm.
Na verdade, tem vindo a desenhar-se, não só em Portugal mas também em Portugal, a ideia de uma educação, de uma escola, fundamentalmente centrada em competências instrumentais, em saberes “úteis”, "essenciais" como lhes chama Nuno Crato, que forme “técnicos” e não “cidadãos” qualificados. Os currículos são progressivamente aliviados de conteúdos que não sejam “práticos”, promotores de “produtividade”, “domínio de técnicas” como seja toda a área da formação cívica, dos valores, das expressões e conteúdos artísticos, etc.
A escola deve formar empresários, poucos e técnicos qualificados e de formação estreita, muitos.
Estas ideias traduzem-se nos conteúdos curriculares, nos modelos de avaliação, nas concepções do que deve ser o trabalho dos professores, na organização do sistema educativo, selectivo, prescritivo e incapaz de acomodar diferenças entre os alunos, etc.
Estas ideias traduzem-se também na forma como o Primeiro-ministro mostra repetidamente que Dias Loureiro, um empreendedor, é um exemplo paradigmático do que deve ser o sucesso.
Como de há algum tempo afirmo, não é bem esta a escola, a educação, que desejo para o meu neto.

TELELIXO

A indigna situação a que se assistiu no Programa Ídolos da SIC em que um jovem foi tratado de uma forma inaceitável em termos éticos e morais desencadeou um conjunto de reacções levando a que a estação venha agora oferecer apoio ao jovem maltratado que, ao que parece, tem tido reacções de sofrimento pela situação em que foi irresponsavelmente envolvido.
Talvez o episódio do jovem maltratado possa contribuir para que a própria opinião pública se torne mais exigente e não tão acriticamente consumidora de produtos, boa parte dos chamados reality shows por exemplo, que alimentam audiências, justamente, através de indecorosos produtos em que, genericamente, as pessoas são tratadas de forma absolutamente inaceitável e atentatória da sua dignidade. Não colhe o argumento de que são adultos e autodeterminados pelo que a escolha é sua. É mesmo mau..
É claro que as lágrimas de crocodilo da SIC são irrelevantes e logo que a poeira assentar, ou mesmo antes, o vale tudo para garantir audiência vai regressar.
Não vale a pena acreditar que as estações televisivas se preocupam com valores, ética, etc. As estações vendem os produtos que os consumidores querem consumir. É o mercado.
A questão é connosco, não é com eles. Eles só nos dão o quisermos ver.
É preciso dizer que lixo é para reciclar, não é para passar na televisão.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

OS RESULTADOS DA SINISTRA PROVA

O IAVE divulgou ontem os resultados da componente específica da sinistra Prova de Avaliação de Capacidades e Conhecimentos para aceder à carreira de professor. Dos resultados obtidos nas diferentes áreas científicas está a merecer destaque  a percentagem de "chumbos" que em Português e Física atingiu mais de metade dos docentes. 
Provavelmente não será a última vez que o farei mas mais umas notas telegráficas.
Em primeiro lugar parece-me absolutamente necessário afirmar que estes resultados não branqueiam nem justificam a existência da sinistra PACC. 
Qualquer pessoa minimimamente conhecedora destas matérias e que não embarque na agenda e demagogia do Ministro Nuno Crato entende que os conhecimentos e as capacidades para se ser professor não são de todo avaliáveis por um dispositivo deste tipo. A única forma séria de avaliar as Capacidades e Conhecimentos para o exercício da função docente é o desempenho em sala de aula. É assim que acontece na generalidade dos países, a existência, aliás, já prevista em Portugal de um período probatório. Ponto.
Crato também sabe disso, evidentemente, mas a manha e a agenda determinam este caminho. Nuno Crato aproveitou a sua existência legal, está prevista desde 2007, para num exercício, mais um de, de desbaste nos professores e candidatos a professores eliminar uns quantos.
Por outro lado e tendo-se realizado, creio que os resultados obtidos, designadamente em Física e em Português deveriam merecer alguma reflexão e uma análise mais fina procurando perceber, por exemplo, se existe alguma relação entre os resultados agora conhecidos e as escolas de formação dos docentes. As próprias instituições, politécnicas e universitárias, teriam interesse nessa análise.
Uma nota final para o discurso do IAVE e certamente do MEC que cavalgam estes resultados construindo um discurso demagógico e manhoso sobre competência, rigor e exigência sobre os professores que é mais um contributo para a degradação da sua imagem. Convido-vos a passar os olhos pelas caixas de comentários da imprensa online sobre esta matéria. Dá para ficar inquieto.
Esta degradação não pode, evidentemente, deixar de se ligar à forma como alunos e pais se rlacionam com os professores e como a sua percepção de autoridade e função ficam fragilizadas. Se alguns dos 
responsáveis do MEC e ou do IAVE fossem mais competentes perceberiam que nos países com melhores sistemas educativos os professores são prestigiados, discriminados positivamente e apoiados pelas estruturas de tutela.
O contrário do que por cá se verifica com resultados preocupantes.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

E A FORMAÇÃO CÍVICA?

Aliás, as questões de natureza curricular estão permanentemente em agenda. No que respeita ao ensino religioso, como não esquece João Duque e sabemos todos, o Artº 43ª da Constituição, no ponto 3 dispõe, "O ensino público não será confessional".
No entanto, a Concordata em vigor com o Vaticano estabelece que é dever do Estado Português garantir “as condições necessários para assegurar, nos termos do direito português, o ensino da moral e religião católicas nos estabelecimentos de ensino público não superior, sem qualquer forma de discriminação”.
Assim, no cenário actual temos a oferta obrigatória nas escolas portuguesas da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica assegurada por professores pagos pelo Estado e com carreira integrada. A oferta de disciplinas de outras confissões religiosas é possível mas a expensas próprias e com professores fora do sistema.
Parece claro que esta situação viola, por um lado o princípio constitucional do ensino "não confessional" e, por outro lado, um princípio de equidade face à também consignada constitucionalmente liberdade religiosa.
Podemos discorrer longamente sobre a justificação para que este quadro permaneça com estes contornos, no entanto, não é esse o meu ponto.
Sou dos que continua a entender que a educação deve integrar imprescindivelmente uma dimensão de formação pessoal, ética e cívica, o entendimento expresso por João Duque e a justificação para que exista a obrigatoriedade do ensino religioso que se centraria, sobretudo, na formação pessoal e cívica e menos no “catolicismo”.
Como tenho afirmado, se tal não acontecer temos "apenas" ensino de um conjunto de saberes instrumentais que sendo importante não pode ser, não deve ser, o "tudo" da educação.
Acontece que o mesmo Estado que tem assumido os custos da permanência da oferta obrigatória da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, de frequência facultativa, é o mesmo Estado que erradicou a Formação Cívica para todos os alunos dos conteúdos curriculares assumindo uma visão redutora e perigosa do que é educação e entende por bem expurgar os currículos de tudo o que Crato não considere “essencial”.
Esta é, do meu ponto de vista, a questão central.
Assim sendo, creio que João Duque, em vez de reclamar a obrigatoriedade do ensino religioso católico, andaria melhor se perguntasse a Nuno Crato porque retirou a formação cívica do currículo de todos os alunos ao mesmo temo que o sistema sustenta a frequência opcional da Educação Moral e Religiosa Católica num quadro constitucional que define um ensino público laico.

OS GUETOS DA SAÚDE MENTAL

O Público de ontem referia o arranque para Junho do Projecto de cuidados continuados em saúde mental. Este programa vai assentar na construção de unidades e aumento do número de camas na tutela, das Misericórdias e de outras instituições de solidariedade social. A opção é criticada pelo director do Programa Nacional para a Saúde Mental que entende por mais ajustado a aposta em equipas comunitárias e apenas um número reduzido de camas para situações mais críticas de adultos ou crianças para as quais faltam de facto, camas levando ao seu inaceitável internamento em serviços para adultos.
Na verdade, as orientações actuais, quer do ponto de vista científico, quer do ponto de vista dos custos, determinam que a qualidade e eficácia deste tipo de apoios, deve, tanto quanto possível, assentar em estratégias de proximidade, aproximando, assim, o serviço clínico da comunidade e da vida das pessoas. É importante recordar que apesar de algum atraso também em Portugal se tem assistido ao movimento de desinstitucionalização das pessoas com doença mental afirmado, aliás, no Plano Nacional de Saúde Mental e, daí, a posição de Álvaro de Carvalho.
Os modelos defendidos pela comunidade científica actual, a defesa dos direitos humanos e da qualidade de vida, tornaram insustentável a manutenção das grandes instituições psiquiátricas que encerravam muitas câmaras de horrores e casos de isolamento e privação. Ainda me lembro do incómodo causado por visitas realizadas no início da minha formação ao Hospital Júlio de Matos. Este universo é bem retratado no mítico “Jaime” de António Reis e Margarida Cordeiro.
No entanto, este movimento de retirada das pessoas com doença mental das grandes instituições não está a ser devidamente suportado pela or unidades locais que providenciem apoio terapêutico, social e funcional tão perto quanto possível das comunidades de pertença dos doentes e com o mínimo recurso ao internamento. Aliás. A intenção do Governo, agora conhecida, mostra um sentido contrário.
Tal opção, parece claro, cria sérios obstáculos aos processos de reabilitação e inserção comunitária acentuando ou mantendo os fenómenos de guetização das pessoas com doença mental e respectivas famílias.
Não estranho, os doentes mentais são os mais desprotegidos dos doentes, pior, só os doentes mentais idosos. Os custos familiares e sociais da guetização são enormes e as consequências são também um indicador de desenvolvimento das comunidades.

GOSTEI DE LER, "O Acordo Ortográfico: rejeitar o abuso"

E, por isto, continuarei a escrever desacordadamente.

O Acordo Ortográfico: rejeitar o abuso

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O RAPAZ CHAMADO ESCONDIDO

Era uma vez um rapaz chamado Escondido. Tinha aí uns catorze ou quinze anos que, como se lembram, é uma idade em que muitos de nós, ou nos mostramos em demasia, gostamos de ter as pessoas, sobretudo os amigos, a olhar para nós, ou, pelo contrário, nos escondemos demasiado com medo que os outros reparem naquilo que achamos não ser ou não ter.
Pois o Escondido era dos que não gostava que olhassem para ele. Desde que acordava, o Escondido passava o tempo a tentar esconder-se. Como era um tipo esperto arranjava muitas maneiras de o conseguir. Escondia-se atrás de um boné a cair para os olhos. Também gostava de usar blusões com carapuço que punha sobre a cabeça e os olhos no chão. Ninguém o “via”. Como seria de prever tinha a permanente companhia do telemóvel, com os phones nas orelhas não o interpelavam e ele, claro, continuava Escondido.
Na escola, escondia-se na última fila, atrás de um livro aberto que não lia e de um ar ausente de quem estava a viajar bem longe dali. Aos intervalos, o Escondido deslizava para um qualquer canto da escola onde se arrumava, discretamente, a jogar no telemóvel.
Escondia-se de tal maneira o Escondido, que nem olhava o espelho com medo de se descobrir a ele próprio.
Se bem atentarmos há, muitas vezes, um Escondido perto de nós, mais pequeno ou maior.

DA TRANSPARÊNCIA DA PPP DOS TESTES DE INGLÊS

Acontece também que o IAVE recusa divulgar os custos da PPP, vários parceiros não falam sobre o assunto e ninguém esclarece porque mistério os recibos do pagamento dos certificados solicitados pelas famílias, certa de 20 mil alunos (bem menos do que o esperado dada a sua quase inutilidade), foram passados pela Fundação Bissaya Barreto, algo de estranho numa iniciativa do MEC através do IAVE.
A Fundação empurra a explicação para o IAVE que ... não explica.
Ainda neste âmbito e ao que hoje se noticia, o IAVE terá enviado emails aos professores referindo a possibilidade de acederem a um desconto na Livraria Britânica, se publicitasse alguns manuais preparatórios do Preliminary English Test cuja parte escrita se realiza hoje, se se realizar, claro.
Toda esta situação é bastante curiosa mas, lamentavelmente, não traz nada de novo. Como todos sabemos e reconhecemos o universo das PPPs em Portugal é tudo menos transparente.
Assim sendo, também não seria de esperar que a PPP que envolve a realização do teste de Inglês que de pouco serve, não convence as famílias, destrata os professores e perturba as escolas, fosse clara e transparente. Of course.

O PAPEL DA JUNTA NÃO CHEGA ÀS ESCOLAS

840 alunos sem papel higiénico 
Câmara promete solução para os próximos dias. 
Cerca de 840 crianças – dos 3 aos 9 anos – do Agrupamento de Escolas de Portela e Moscavide (Loures) estão sem papel higiénico e toalhetes para as mãos. 
A direção pede 1 euro aos pais para comprar 500 rolos e 570 maços de toalhetes, num total de 700 euros. Em causa estão três escolas do 1º ciclo (720 alunos) e dois jardins de infância (120) – gestão das autarquias. 
Notícias da municipalização. Dentro da normalidade, como de costume, perdão, as usual, para me enquadrar no "writing" do Preliminary English Test.
Sim eu sei, é uma não notícia, é irrelevante no meio de problemas tão sérios. Mas, desculpem lá, a vida da gente também se faz destas "minudências" e, no fundo, é apenas mais um retrato do país que funciona bem e a educação ainda melhor.

terça-feira, 5 de maio de 2015

UM HOMEM INVULGAR QUE DECIDIU SER O QUE ESCOLHEU

Com o pouco que foi noticiado já dá para antecipar uma entusiasmante leitura.
Conforme já tinha sido anunciado, foi publicada uma nova biografia de Passos Coelho após uns longuíssimos quatro anos da saída da primeira, "Um Homem Invulgar".
Este novo trabalho, não foi realizado pela prestigiada jornalista Felícia Cabrita mas sim por uma não menos prestigiada escritora de biografias, Sofia Aureliano, uma funcionária do PSD com funções de assessora. O título é de uma desarmante e humilde simplicidade, aliás, bem de acordo com o biografado, Passos Coelho, "Somos o que Escolhemos Ser".
É evidente que a longa carreira profissional e política e a dimensão de Passos Coelho, excessiva para um país como nós, justifica uma biografia de quatro em quatro anos. Torna mais fácil o acompanhamento de tão rico e denso trajecto e um extensíssimo ciclo de acontecimentos..
O título escolhido contém todo um mundo de um homem determinado, visionário, empreendedor, inspirador, acima de minudências como pagar impostos, realizar descontos ou problemas comezinhos como procurar emprego. Não, "Somos o que Escolhemos Ser". E mais nada, nem é preciso tornar-se num animal feroz.
Veja-se, apenas um pequeno exemplo, a diferença entre esta postura e capacidade e a situação de gente medíocre e pequena que se resolveu fazer formação universitária na área em que escolheu ser e, por falta de visão, solidez, determinação, capacidades, competências, etc., acabou por partir do país porque, pobres incapazes, não conseguiram Ser o que Escolheram Ser.
E para não conseguir ser o que escolheram contaram, também, com o prestimoso contributo das políticas praticadas pelo Grande Líder Passos Coelho, um homem de uma estatura política e ética verdadeiramente inspiradoras. Que me perdoem mas até mais inspiradora e exemplar que Dias Loureiro.
Vou já adquirir um meu exemplar. Pelo menos.

DO BULLYING

Esta constatação e o conhecimento de que, caso de Portugal,  diferentes estudos sugerem cerca de um terço dos adolescentes entre os 13 e os 15 anos é vítima de bullying sublinham a particular importância deste fenómeno com uma particular preocupação com a subida significativa do cyberbullying.
Sabe-se também que a ocorrência de situações de bullying é bem superior ao número de casos que são relatados. Uma das características do fenómeno, nas suas diferentes formas, incluindo o emergente cyberbullying, é justamente o medo e a ameaça de represálias a vítimas e assistentes que, evidentemente, inibem a queixa pelo que ainda mais se justifica a atenção proactiva e preventiva de adultos, pais, professores ou funcionários.
Estima-se que nos últimos três anos o fenómeno tenha provocado pelo menos 12 suicídios nos Estados Unidos. Recordo ainda que foi anunciado em 2013 que a Direcção-geral de Saúde iria promover em várias escolas do país um projecto de prevenção do suicídio dirigido a adolescentes. Felizmente, a taxa de suicídio adolescente em Portugal não é muito alta, embora um só caso já seja uma tragédia. No entanto, os comportamentos de natureza auto-destrutiva são bem mais prevalentes do que se pensa. Em algumas circunstâncias, mais tarde estes comportamentos podem culminar em suicídio.
Neste contexto e dada a gravidade e frequência com que ocorrem estes episódios é imprescindível que lhes dediquemos atenção ajustada, nem sobrevalorizando, nem tudo é bullying, o que promove insegurança e ansiedade, nem desvalorizando, o que pode  negligenciar riscos e sofrimento.
Neste universo importa considerar dois eixos fundamentais de intervenção por demais conhecidos, a prevenção e a intervenção depois dos problemas ocorrerem. Esta intervenção pode, por sua vez e de forma simplista, assumir uma componente mais de apoio e correcção ou repressão e punição, sendo que podem coexistir. Com alguma demagogia e ligeireza a propósito do bullying, as vozes a clamar por castigo têm do meu ponto de vista falado mais alto que as vozes que reclamam por dispositivos de prevenção, intervenção e apoio para além da óbvia punição, quando for caso disso.
Relembro que o Portal sobre o bullying teve durante o seu primeiro ano de funcionamento cerca de 650 000 visitas e respondeu a 700 solicitações.
Esta utilização mostra a necessidade de dispositivos de apoio e orientação absolutamente fundamentais para que pais, professores e alunos possam obter informação e apoio. Lamentavelmente, este serviço é exterior às escolas e ilustra a falta de resposta estruturada e global do sistema educativo, para além das insuficiências na formação de técnicos e de professores sobre esta complexa questão, desde logo para o seu reconhecimento. A existência de dispositivos de apoio sediados nas escolas, com recursos qualificados e suficientes, designadamente no que respeita aos assistentes operacionais com funções de supervisão dos espaços escolares, é, a par de ajustamentos nos modelos de organização e funcionamento das escolas e de uma séria reestruturação curricular, uma tarefa urgente.
Do meu ponto de vista, o argumento custos não é aceitável porque as consequências de não mudar são incomparavelmente mais caras. Depois das ocorrências torna-se sempre mais fácil dizer qualquer coisa mas é necessário. Muitas crianças e adolescentes evidenciam no seu dia-a-dia sinais de mal estar a que, por vezes, não damos atenção, seja em casa, ou na escola, espaço onde passam um tempo enorme.
Estes sinais não podem, não devem, ser ignorados ou desvalorizados. O resultado pode ser trágico. Como o estudo hoje referenciado demonstra.

O PET À DERIVA

Dentro da habitual linha de rigor e competência por parte do MEC, o PETPreliminary EnglishTest, a PPP estabelecida com Cambridge e um conjunto de outras entidades, continua à deriva.
Sintetizando, já tivemos a questão do nível de dificuldade, o adiamento da parte oral para sobrecarregar os professores, uma preocupação desde sempre revelada pelo MEC como é sabido, a exigência de que os professores de inglês qualificados e reconhecidos em Portugal deveriam ser avaliados por Cambridge, o custo dos diplomas no âmbito da escolaridade obrigatória, etc., sabemos agora que aos alunos que são “obrigados” a realizar a prova não serão penalizados se … não a realizarem. Ainda bem, diria, mas de facto não se entende.
Fica, assim, a ideia de que o PET é apenas um programa de ocupação de tempos livres para alunos e professores e que, evidentemente, tem pouco préstimo.
Entretanto, as escolas sentem muitas dificuldades em acomodar a realização do “writing”, do “listening” e do “speaking” num terceiro período em que a aproximação dos exames finais se transforma no quase tudo da vida da escola, de alunos, pais e professores.
Acontece ainda que, dadas as incidências, as correcções dos níveis de dificuldade e, portanto, de certificação e a pouca adesão, claro, aos “diplomas” ou certificados” que, aparentemente, só o IAVE entende de enorme importância, todo este processo com enorme desgaste acaba por ser irrelevante.
E andamos nisto.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

TRABALHO A PRÉMIO

Os trabalhadores dos impostos vão receber 5% das cobranças coercivas de impostos realizadas em 2014. Nada de estranho, creio. A produtividade merece incentivo e depois de propostas relativas aos médicos e polícias a manutenção deste dispositivo para os trabalhadores da área tributária é normal e aguarda-se a sua extensão a outras funções. Como se sabe, o Governo é um obsessivo promotor de produtividade.
A leitura desta peça recordou-me uma das expressões com que mais convivia nos meus tempos de miúdo na casa familiar, o "prémio", mais rigorosamente, "o trabalho a prémio". Já vos tenho dito, o meu pai foi serralheiro nos estaleiros do Arsenal do Alfeite. Em algumas alturas ele chegava contente a casa e dizia que ia começar um trabalho a prémio. Tanto quanto me lembro, por vezes aparecia alguma tarefa mais urgente de reparação ou construção naval, nos tempos em que existia construção e reparação naval em Portugal e as chefias decidiam propor a recompensa do trabalho feito em prazos mais curtos do que seria habitual.
O que nos mais deixava mais satisfeitos era que o prémio ia direitinho para as poupanças familiares que permitiam a participação numa excursão a realizar no Verão, quase sempre organizada pelo Sr. Fernando, o sapateiro, que, às vezes, até nos levava ao estrangeiro, a Sevilha ou a Badajoz, viagens longínquas, deve dizer-se, para os nossos horizontes da altura.
Actualmente, a ideia do trabalho a prémio generalizou-se, sofreu mudança de nome, chama-se incentivo ou, de forma mais sofisticada, trabalho por objectivos, tudo isto, é claro, em nome da produtividade exigida pelo deus mercado.
De tal forma se tem vindo a genereralizar o uso de incentivos, de estímulos à produtividade, que, naturalmente, também  chegou aos mais novos que cada vez mais são pressionados para a produção e para a produção ao nível da excelência. Esta excelência que é exigida é extensiva a todas as áreas em que os miúdos se envolvem, têm de ser excelentes a tudo.
Tal como se verificava com o meu pai, em muitas situações esta pressão sobre os miúdos é "envolvida" em incentivos que assumem valores e números diferentes, podem ser quase diários ou mais diferidos no tempo, mas muitos pais estão a começar agora o plano de incentivos, prémios, uma vez que o ano escolar está a aproximar-se da sua fase crítica, a das grandes decisões.
Todos conhecemos as promessas enunciadas  que vão do prémio grande no resultado final até ao pagamento em géneros ou espécie por comportamentos ou resultados escolares atribuídos com muita regularidade.
Também sabemos como muitos miúdos são bons negociadores e conseguem excelentes contrapartidas, prémios, incentivos o que lhes quisermos chamar e, como os meus pais, arranjam uns extras para acederem aos sonhos que outros preocupados com a produtividade lhes impingem.
No fundo, estaremos todos e cada vez mais ... a prémio.

OS EXAMES, ESTÃO AÍ NÃO TARDA

Nesta altura do ano lectivo dificilmente me cruzo com professores, alunos ou pais que não refiram a sua preocupação com os exames e de como todo o trabalho que está a ser feito se organiza em função dos exames, da avaliação externa, como lhes chamam.
Parece-me, aliás, que, sobretudo nos anos finais de ciclo, esta azáfama e inquietação não acontecem apenas no terceiro período, é vivida durante todo o ano lectivo e ocupa também os períodos de férias escolares levando, sobretudo na Páscoa, a que os centros de explicações estejam lotados.
A avaliação das aprendizagens é uma ferramenta imprescindível na regulação da qualidade e sucesso do trabalho de alunos e professores mas a febre da medida que está a criar um ensino examocrático que não pode ser o tudo da educação no contexto escolar, o tudo dos processos de ensino e aprendizagem.
Aliás, os resultados dos alunos nos exames nacionais de 4º e 6º ano em que já se pode realizar comparações não sugerem que os exames só por existirem promovam qualidade. A existência de 150 000 alunos retidos anualmente é uma realidade pouco compatível com qualidade, sucesso e não modificável só com a existência de exames.
Não caminhando no sentido certo, apoios suficientes, preparados e oportunos, mobilizados às primeiras dificuldades e ao longo do trajecto escolar ou a promoção de mudanças, na organização e conteúdos curriculares, por exemplo, resta definir alternativas para os excluídos pela selecção ou gerir politicamente as dificuldades dos exames de modo a tornar as estatísticas mais simpáticas ,justificando, assim, a bondade, de tudo medir e só medir, até na educação pré-escolar onde já se sente a febre da medida mas ainda, por enquanto, sem exames.

domingo, 3 de maio de 2015

DUAS LÍNGUAS

Do texto releva as vantagens potenciais desta situação ainda que, como sempre em matéria de educação, seja necessário considerar variáveis de natureza individual, contextual, social e cultural.
A constatação não é nova e existem estudos em Portugal que apontam no mesmo sentido, realizados por exemplo, na Universidade do Minho.
Curiosamente, sempre foram defendidas as vantagens da aprendizagem de mais do que uma língua para as crianças de meios mais favorecidos, por assim dizer, mas, coisa bizarra e interessante, afinal os estudos que sucessivamente vão sendo conhecidos alargam o impacto e sugerem benefícios para todas as crianças, mesmo oriundas de ambientes menos favorecidos.
No entanto, esta constatação pode não ser suficiente para desmontar um dos mais enraizados equívocos instalados na nossa cultura escolar, o de que crianças que se confrontam com duas línguas estão “condenadas” a sentir dificuldades de aprendizagem.
Como é evidente, já aqui o referi, algumas pessoas que genuinamente assumem este entendimento, são as mesmas que proporcionam aos seus filhos pequenos a aprendizagem, por exemplo, do inglês, e não entendem que isso lhes provoque dificuldades na aprendizagem, antes pelo contrário, é benéfico como os estudos comprovam e para todas as crianças.
A razão deste equívoco remete para a representação sobre a segunda língua envolvida, ou seja, se para além do português as crianças estiverem a aprender, inglês, alemão, espanhol ou francês, por exemplo, isto é benéfico. No entanto se estiverem a aprender português e crioulo vão, com toda certeza, sentir dificuldades escolares. Dito de outra maneira é o estatuto atribuído às línguas envolvidas que determina a natureza da apreciação sobre os resultados esperados.
Seria desejável que os dados conhecidos pudessem contribuir para contrariar a representação instalada, mesmo entre alguns professores, de que crianças que lidam diariamente com o português e com outra língua, crioulo, por exemplo, estão condenadas a sentir dificuldades ou mesmo ao fracasso.
Não estão e não é um problema, pode ser uma vantagem se a soubermos, quisermos e conseguirmos aproveitar.

DIA DA MÃE, PALAVRAS OUTRAS

O calendário das consciências determina para hoje o Dia da Mãe.
Considerando que a parte simpática e de festa está acautelada pelas campanhas comerciais envolvendo as ofertas para a Mãe, pelos rituais das escolas e jardins-de-infância na construção da mais variada gama de produtos que oferecerão à Mãe e ainda pelas reportagens da comunicação social envolvendo os meninos e as suas mães, uma palavra de solidariedade para o lado menos bonito e simpático do Dia da Mãe, umas palavras outras.
Uma palavra para as mulheres que não conseguem cumprir, pelas mais variadas razões, incluindo económicas, o sonho da maternidade.
Uma palavra para as mulheres que tragicamente perderam filhos ficando na dramática condição de mães órfãs de filhos.
Uma palavra para as mães que por mais longe que tenham os filhos não deixam de ser mães, não vão de férias e nunca se reformam.
Uma palavra para as crianças que têm mães que não desejavam sê-lo e que, portanto, nunca aprenderam a gostar de ser mães, adoptando os seus filhos.
Uma palavra para os milhares de crianças institucionalizadas sem mãe na sua vida.
Uma palavra para as mulheres sós ou mal acompanhadas, que em situações muitas vezes difíceis constroem o bem-estar dos seus filhos.
Para finalizar, António Variações em "Deolinda de Jesus".
A minha mãe.
É a mãe mais bonita,
Desculpem, mas é a maior,
A minha mãe,
É a mãe mais amiga,
Certeza, com que posso contar,


sábado, 2 de maio de 2015

DIAS LOUREIRO, "O INSPIRADOR"

Passos dá Dias Loureiro como exemplo: "se queremos vencer na vida, temos de ser exigentes e metódicos

O Povo, que é sábio, costuma afirmar, "Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és".
É evidente, que é perfeitamente legítimo Passos Coelho admirar Dias Loureiro e o seu percurso, devo dizer que nem sequer estranho, afinal, cada um com as suas "tecnoformices". É uma questão de escala e objectivos mas é tudo farinha do mesmo saco.
No entanto, talvez seja um pouco mais despudorado e sem sentido ético que nos apresente a todos, publicamente, a sinistra figura de Dias Loureiro, como um bom exemplo.
A pequenez desta gente já não é propriamente uma surpresa.

ESCREVER NA CABEÇA

Para não variar, acabada a lida aqui no Monte eu o Mestre Zé Marrafa ficámos algum tempo nas lérias, acompanhados de umas "minis", evidentemente.
A conversa foi parar, já não me recordo o caminho, a uma situação em que o Mestre Zé aconselhou um companheiro aqui da Vila que tinha uns cães de caça bem adoentados e em risco, a dar umas "arranitas" aos "canitos", abrindo-lhes a boca e enfiando as rãs,  o que quase de certeza lhes faria bem.
Não me façam perguntas, mas, sempre seguindo o Mestre Zé, a verdade é que os cães sobreviveram e ficaram bons, o dono ainda hoje acha o Mestre Zé um grande veterinário. 
Perguntei ao Mestre Zé como ou onde é que tinha aprendido tal "medicina". 
Contou-me que há muitos anos num monte onde trabalhava tinha visto um companheiro fazer esta tratamento a um canito doente que também ficou muito bem e naquele jeito dele, olhos pequenos, pretos a riem-se e a passar os dedos pelo bigode conclui, "ora, a gente vai andando na vida, vai vendo, vai ouvindo, e alguns, eu cá sou assim, vão escrevendo na cabeça e sempre ficamos a saber algumas coisas".
Pois é Mestre Zé, mas muitos, parece que não vêem, parece que não ouvem e ... não escrevem nada na cabeça.
Recordando outro velho sábio que conheci e de quem já vos falei, o Sr. Bata de Inhambane, Moçambique, que dizia, "há gente que são uns sem cabeça, só a usam quando vão à rua e é par terem onde pendurar o chapéu.
Os Velhos, Marrafa e Bata, são uns sábios.

O SOZINHISMO

O Público de hoje divulga a generosa iniciativa de uma instituição que com base no voluntariado "faz companhia" a velhos que vivem sós e estão isolados. De facto, existem velhos que vivem sós e por dignidade e preservação da autonomia vivem sós, mas não estão isolados. Outros acumulam, por impotência, falta de recursos ou de família.
Apesar do que consta nas certidões de óbito, estou convencido que a verdadeira causa da morte de muitos velhos é o sozinhismo, a doença que ataca os que vivem sós, isolados, que perderam o amparo.
Trata-se de uma doença moderna, cujas causas são conhecidas, cujo terapia também está encontrada, mas que parece difícil combater.
Quem não vive só, isolado, mais facilmente resiste às mazelas de diferente natureza que a idade traz quase sempre. As pessoas são, espera-se, fonte de saúde e calor. 

PRECÁRIA DE VIDA

Acresce que entre os países da OCDE Portugal é o quarto país com taxa de desemprego jovem mais elevada, 35% face a uma média de 14.3%.
É também de registar a utilização abusiva e escandalosa de estágios profissionais não remunerados, sobretudo de jovens qualificados, situação que permite aos empregadores aceder a mão-de-obra gratuita por alguns períodos de tempo que podendo ter impacto nas estatísticas não muda a vida das pessoas.
Vale a pena recordar também que, em Janeiro de 2014 e segundo o EUROSTAT, Portugal era o quinto país europeu, dos 21 considerados, em que mais jovens entre os 25 e os 24 vivem com os pais, 46 %. Para comparação, Dinamarca, Suécia e Finlândia têm percentagens inferiores a 5 %.
Este cenário não é mais grave porque muitos milhares de jovens, sobretudo qualificados, estão a sair do país, emigrando para outras paragens. A emigração parece assim constituir-se como via quase exclusiva para aceder a um futuro onde caiba um projecto de vida positivo e viável como tem vindo a verificar-se.
Acresce que de acordo com um Relatório da Organização Internacional do Trabalho em 2011, 56 % dos jovens portugueses com trabalho têm contratos a prazo. Há algum tempo uma informação do Banco de Portugal referia que em cada dez empregos novos para jovens, nove são precários.
Segundo um estudo da CGTP, 51% dos jovens com menos de 25 anos ganha menos de 500 € e 24,5% dos jovens entre os 25 e os 35 recebe também menos de 500 € mesmo com qualificações de nível superior. Este cenário evidencia a enorme precariedade do trabalho e baixa qualificação do mesmo.
A precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Por outro lado, as políticas de emprego em curso sempre insistem na maior flexibilização das relações laborais e ainda muito recentemente Passos Coelho reforçou a necessidade de aprofundar o abaixamento dos custos do trabalho.
Neste cenário, os desequilíbrios fortíssimos entre oferta e procura em diferentes sectores, a natureza da legislação laboral favorável à precariedade e insensibilidade social e ética de quem decide, promovem a proletarização do mercado de trabalho mesmo em áreas especializadas ou mesmo o recurso a uma forma de exploração selvagem com uma maquilhagem de "estágio" sem qualquer remuneração a não ser a esperança de vir a merecer um emprego pelo qual se luta abdicando até da dignidade.
Acontece ainda que alguns dos vencimentos que se conhecem, atingindo também camadas altamente qualificadas, não são um vencimento, são um subsídio de sobrevivência.
É justamente a luta pela sobrevivência que deixa muita gente, sobretudo jovens sem subsídio de desemprego e à entrada no mundo do trabalho, sem margem negocial, altamente fragilizadas e vulneráveis, que entre o nada e a migalha "escolhem amigavelmente" a "migalha", ou mesmo uma remota hipótese de um emprego no fim de período de um indigno trabalho gratuito. Como é evidente esta dramática situação vai de mansinho alargando e numa espécie de tsunami vai esmagando novos grupos sociais e famílias.
É um desastre. Grave e dramático é que as pessoas são "obrigadas" a aceitar. Os mercados sabem disso, as pessoas são activos descartáveis.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

QUE MOVE VASCO PULIDO VALENTE CONTRA SAMPAIO DA NÓVOA?

Mais uma vez venho solicitar a vossa generosa ajuda.
Dada a minha incapacidade para conhecer os sofisticados meandros da profundíssima análise do opinador Vasco Pulido Valente, um historiador que tem por missão, impossível, evidentemente, ensinar história a um "povo miserável" ou, noutra versão, recorrentemente utilizada por si, aos "indígenas", nós, não consigo entender o que o move contra Sampaio da Nóvoa.
Na verdade, em duas das suas crónicas no Público com referência a Sampaio da Nóvoa, o Sr. Sampaio, como elegantemente o designa inspirando-se, certamente, noutra enorme e erudita figura, o Dr. Alberto João Jardim, Vasco Pulido Valente recorre a uma tão insultuosa quanto vazia crítica que tenho enorme dificuldade em compreender.
Não seria de estranhar a divergência de ideias entre Vasco Pulido Valente e Sampaio da Nóvoa. No fundo, sabemos que Vasco Pulido Valente apenas concorda consigo próprio e, provavelmente, nem sempre.
Mas o que podemos ler não é opinião, é apenas uma prosa arruaceira e arrogante.
Que move Vasco Pulido Valente contra Sampaio da Nóvoa?

Degradação


O MUNDO DO AVESSO


Criança de 13 anos está grávida de oito meses do próprio pai
Mãe fechava filho no quarto com um balde
As coisas nem sempre são o que parecem, o que pensamos que são ou mesmo o que gostávamos que fossem.
Na verdade, há pais que fazem mal aos filhos.
Na verdade, há filhos que fazem mal aos pais.
Na verdade, há professores que fazem mal aos alunos.
Na verdade, há alunos que fazem mal aos professores.
Na verdade, há velhos que fazem mal aos novos.
Na verdade, há novos que fazem mal aos velhos.
Na verdade, ...
Na verdade, há pessoas que fazem mal a pessoas.
Na verdade, ... o mundo é um lugar estranho e ... às vezes ... muito feio

MANIFESTO DOS CIDADÃOS E CIDADÃS EM IDADE ESCOLAR


Porque hoje é 1 de Maio.

Companheiros e Companheiras em idade escolar

No mundo inteiro celebra-se hoje, 1 de Maio, o Dia do Trabalhador. Muitos de vós não saberão que o dia 1 de Maio foi escolhido para homenagear os trabalhadores de Chicago, nos Estados Unidos, que em 1886 começaram a reivindicar o dia de trabalho com oito horas, o que veio a ser constituído como regra na maior parte dos países.
Mas não para nós, companheiros e companheiras. Nós que andamos nas escolas temos cargas horárias que podem ir até às onze horas por dia, se juntarmos as horas curriculares, as actividades de enriquecimento curricular e a componente de apoio à família. Muitos de nós ainda desempenhamos outras actividades de diferentes naturezas. Acontece ainda que somos cada vez mais pressionados para a produtividade, para a excelência, criando para muitos de nós níveis de pressão difíceis de sustentar.
Não podemos aceitar esta situação.
Dizem os adultos que, fora da escola, não há quem tome conta de nós quando estão a trabalhar. Mudem a organização do trabalho e a gestão dos horários deles. Não sendo nossa a responsabilidade pela situação profissional dos adultos, não temos que sofrer nós as consequências. Muitos de nós, companheiros e companheiras, acabamos por estabelecer péssimas relações com os nossos locais de trabalho, as escolas, com tanto tempo lá vivido e, por vezes, mal vivido.
Além disso, quando chegamos a casa já quase não temos tempo e disponibilidade para a vida familiar, para a relação, para a brincadeira, com os nossos pais e irmãos que, como sabem, é fundamental para a qualidade de vida dos seres humanos. Aliás, muitos de nós ainda somos obrigados a levar trabalho para realizar em casa ou continuar a trabalhar em centros de explicações. É também isto que faz parte do estado social de que os adultos tanto falam, a pensar sobretudo nos problemas deles que sendo importantes, não devem fazer esquecer os nossos.
Os adultos lutaram por mudanças nas condições do trabalho, com preocupações de ergonomia e criatividade nas tarefas. E nós? O equipamento é, frequentemente, de má qualidade bem como algumas das instalações, as tarefas são muitas vezes repetitivas, algumas de que dificilmente percebemos o sentido, geridas por profissionais eles próprios a funcionar em más condições, passamos horas e horas sentados em mobiliário desconfortável. Ninguém pensa no risco de desenvolvermos doenças profissionais e nas consequências ao nível da motivação para progredirmos nas nossas carreiras.
Alguns de nós que experimentamos algumas dificuldades não temos acesso aos apoios e suporte que nos são devidos como cidadãos com direitos.
Nos últimos anos temos ainda sofrido vários processos de deslocalização, com alteração nos nossos locais de trabalho, sem que alguém tivesse a mínima preocupação em ouvir-nos.
Os adultos sempre cuidaram primeiro de si e dos seus direitos e só depois, de nós e dos nossos direitos. Não existem estruturas representativas dos nossos interesses e a nossa voz é pouco ouvida, por isso, muitos de nós tanto gritam e assumem comportamentos de indignação e revolta.
Se já tivéssemos a capacidade de votar talvez nos prestassem mais atenção, mas temos que ser exigentes.
É chegada a hora de nos ouvirem. Assim, proclamamos e exigimos:
“As crianças e jovens em idade escolar exigem que lhes seja reconhecido e estabelecido o direito a que o seu dia de trabalho não ultrapasse as sete horas, como já acontece para muitos adultos”.


Portugal, 1 de Maio de 2015