segunda-feira, 15 de setembro de 2014

COM AMIGOS DESTES ...

Segundo o CM, a Troika já terá arrecadadado 5,6 mil milhões de euros em comissões e juros com o generoso e desinteressado plano de ajuda que nos disponibilizou, por solidariedade, evidentemente.
Gostava de recuperar a entrevista dada em Maio ao Público por Phippe Legrain, ex-conselheiro económico de Durão Barroso, que constitui um excelente contributo  para entender como a ajuda "solidária" e "generosa" e dos nossos parceiros e que nos empobreceu foi, fundamentalmente, resultante da incompetência das lideranças da Comissão Europeia e da protecção dos interesses da banca francesa e, sobretudo, alemã. Nada de novo, apenas o reforço de que a via seguida, austeridade e empobrecimento, não era a única alternativa mas foi imposta para defender interesses particulares e aceite sem sobressalto por uma gente sem espinha que abdicou da sua soberania.
Recordo, aliás, que em Novembro de 2013, já alguns países europeus consideravam cada vez mais as políticas económicas da Alemanha como o principal obstáculo à resolução da crise económica que atravessamos, referindo-se que a Comissão Europeia iria desencadear uma investigação sobre os excedentes comerciais e as contas correntes alemãs. No entanto, a situação privilegiada da Alemanha é conhecida de há muito.
Segundo dados oficiais, a Alemanha poupou cerca de 41 mil milhões de euros com a crise das dívidas soberanas na zona euro devido à queda das taxas de juro sobre a sua taxa de dívida pública, considerada um "refúgio seguro" pelos investidores do mercado.
Recordo ainda dados de Julho de 2013 que mostravam como os grupos empresariais franceses e alemães foram os que mais beneficiaram das políticas de ajuda do BCE sendo prejudicadas as empresas espanholas e portuguesas. As taxas de juro do BCE decididas como medidas de apoio à economia e a forma como os bancos gerem as taxas de juro nos empréstimos às empresas, levaram a que, de acordo com a Comissão Europeia as pequenas e médias empresas portuguesas, gregas, espanholas e cipriotas as que mais são penalizadas pagando taxas de juro por empréstimos bancários entre os 6% e os 7% sendo que as alemãs e as francesas beneficiam de uns mais simpáticos 2% a 3%. Muito interessante e elucidativo.
Aliás, segundo o "Financial Times", com base em dados do Banco Central Europeu estima-se uma diminuição de cerca de 42 mil milhões de euros em pagamentos de dívida pelas empresas europeias nos próximos cinco anos. Acontece que esta diminuição envolve sobretudo os grandes grupos empresariais alemães e franceses admitindo-se uma poupança de 14 e 9 mil milhões de euros, respectivamente e a Itália, com uma diminuição de 2,3 mil milhões. No entanto e curiosamente, Portugal e Espanha verão as suas empresas ainda mais penalizadas do que já estão com o aumento do pagamento.
Um mês antes, dados do Eurostat mostravam como de 2009 para 2012 os países do Centro e Norte da Europa ficaram mais ricos e os do Sul mais pobres, ou seja e como sempre, a crise tornou os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Para exemplificar, Portugal em 2009 tinha Portugal um PIB per capita 80% da média da EU27 para em 2012 passar para 75% sendo agora um dos quatro países com menor poder de compra.
A análise dos dados mostra como os países envolvidos em programas de austeridade impostos pela "ajuda" se afundaram em dificuldades e os países que generosamente "ajudam" vão enriquecendo.  Deve ser a isto que chama solidariedade e coesão europeias.
Parece claro que para além das enormes responsabilidades políticas internas, importa considerar como, sem surpresa face a muitos dados já conhecidos, que os países mais ricos têm beneficiado fortemente com os pacotes de "ajuda solidária" dirigidos, impostos, aos países mais pobres com os resultados conhecidos. Esta desinteressada ajuda acontece mediante a cobrança de juros altíssimos. Mais um exemplo, dados de final de 2013, Portugal paga por ano 4,4% do seu PIB em juros, 7,2 mil milhões de euros, valor que voa dos nossos bolsos para "dezenas de cofres de Estados e bancos europeus" como afirmava na altura o I num trabalho sobre esta matéria.
Por outro lado e como também se sabe,  as economias fortes do norte da Europa financiam-se a taxa zero ou mesmo, estranhamente a taxas negativas, enquanto nós, as economias do sul e a Irlanda pagamos juros altos cujo montante seria um excelente contributo para a redução dos nossos problemas de equilíbrio. Está certo, somos pobres, temos o dinheiro mais caro, os mais ricos têm o dinheiro mais barato. Deve ser isto a que chamam os mercados a funcionar.
Eu sei que sou estúpido, a economia e as finanças constituem uma matéria inacessível ao cidadão comum, mas parece-me, certamente de forma errada, que assim se torna mais difícil que os países em dificuldades deixem de ser pobres e que haja maior equidade e coesão económica e política na União Europeia.
Que não me levem a mal os nossos generosos amigos, mas às vezes até penso que é justamente isso que pretendem com a ajuda desinteressada que nos dão, que, naturalmente, temos de pagar mas que nos vai deixando pobres.

Tenho até medo de estar a ser injusto para com a sua generosidade e para com os feitores que em seu nome nos administram e estão de forma tão empenhada e eficaz a promover o nosso empobrecimento.

domingo, 14 de setembro de 2014

AGORA É A SÉRIO

Amanhã as aulas começam "a sério". Com a competente ajuda do MEC não começarão para todas as crianças nem para todos os professores. Os responsáveis(?) refirmam que é normal, num estranho entendimento do que significa normalidade. Algumas notas a pensar, sobretudo, nos que vão iniciar a escolaridade obrigatória.
Para a maioria das crianças e apesar da sua experiência na educação pré-escolar, a "entrada" na escola, ou melhor, o processo de início da escolaridade obrigatória, continua a ser uma experiência fundamental para o lançamento de um percurso educativo com sucesso.
Em muitíssimas circunstâncias da nossa vida, quando alguma coisa não correu bem, é possível recomeçar e tentar de novo esperando ser melhor sucedido. Todos nós experimentámos episódios deste tipo.
Pois bem, o  processo de início da escolaridade envolve na verdade um conjunto  de circunstâncias irreversíveis, ou seja, quando corre mal já não é possível voltar atrás e recomeçar com a esperança de que a situação vá correr melhor. Por isso se torna imprescindível que o começo seja positivo. Para isso, importa que seja pensado e orientado, que crie as rotinas, a adaptação e a confiança em miúdos e em pais indispensáveis à aprendizagem e ao desenvolvimento bem sucedidos.
É fundamental não esquecer que os miúdos à "entrada" na escola não estão todos nas mesmas condições, pelas mais variadas razões, ambiente e experiências familiares, percurso anterior, características individuais, etc. o que exige desde o início uma atenção diferenciada que combata a cultura de que devem ser todos tratados da mesma maneira, normalizando o diferente, que alguma opinião publicada e ignorante defende.
Antes de, com voluntarismo e empenho, se tentar ensinar aos miúdos as coisas da escola é preciso, como sempre afirmo, dar tempo, oportunidade e espaço para que os miúdos aprendam a escola. Depois de aprenderem a escola estarão mais disponíveis para aprender então as coisas da escola.
Vai começar o tempo do trabalho "a sério" e muitas crianças irão rapidamente sentir-se pressionados para a excelência, o mundo não é para gente sem sucesso. Vão ter que adquirir competências, muitas competências, em variadíssimas áreas, porque é preciso ser bom em tudo e é preciso preparar para o futuro, curiosamente, descuidando, por vezes, o presente.
E vão também começar a perceber como anda confusa a cabeça dos adultos, como estamos sem perceber o nosso próprio presente e com dificuldade em antecipar o futuro, que será o presente deles.
Vão, parte deles, desaprender de rir, de se sentir bem e de brincar, a coisa mais séria que sempre fizeram.
Vão ouvir cada vez mais frequentemente qualquer coisa como "não podes fazer isso, já és uma mulherzinha, ou um homenzinho", como se as mulherzinhas e os homenzinhos já crescidos não fizessem asneiras.
Vão conhecer tempos em que se sentem sós e perdidos com um mundo demasiado grande pela frente.
Mais cedo ou mais tarde, alguns deles, vão sentir uma dor branda que faz parte do crescer mas que, às vezes, não passa com o crescer.
Também sei, felizmente que a grande maioria vai continuar a sentir-se bem, por dentro e para fora.
Pode parecer-vos um pouco estranho, mas gostava que a estes miúdos que agora vão começar "a escola", tal como aos outros que já a cumprem, lhes apetecesse "fugir para a escola" e que nós possamos ser capazes de lhes dizer "Cresçam devagarinho, não tenham pressa".
É que depressa e bem, não há quem, como se costuma dizer.
Boa sorte para alunos, professores e pais.

NÃO SEI PORQUÊ MAS GOSTO DESTE NOME

"Stock da Cunha, do Lloyds, vai substituir Vítor Bento"

O Banco de Portugal e o Governo escolheram Stock da Cunha para liderar o Novo Banco resultante dos velhos negócios do velho BES sob a reponsabilidade dos velhos Espírito Santo.
Não sei explicar porquê mas gosto deste nome, Stock da Cunha. 
Parece estimulante para gerir negócios em Portugal.

O MEDO QUE ASFIXIA

Liliana venceu Portugal, o país do medo

O Público apresenta um trabalho cuja leitura se recomenda vivamente direccionado para uma dimensão de natureza psicológica, o medo, que, de mansinho, se instala nas nossas vidas e as condiciona de forma asfixiante em várias áreas.
Estamos perante uma versão actual de uma sociedade constrangida, triste, com medo de lutar pelos seus direitos, esmagada pela arrogância, pelas derivas ideológicas e  por modelos económicos e sociais que nos roubam a dignidade e a esperança.
Tragicamente, muitas vezes, as migalhas de que muita gente precisa para assegurar a sobrevivência ou as circunstâncias inultrapassáveis da dependência e da necessidade em diferentes domínios da nossa vida em comunidade que, aliás, os diferentes poderes alimentam habilmente, inibem a indignação e revolta, levando a que aceitemos o inaceitável.
Até quando?

sábado, 13 de setembro de 2014

O DEFICIENTE NÃO PODE ESTAR À VISTA

Hospital esconde varredor deficiente durante visita de secretário de Estado

Manuel Sobrinho varre todos os dias à volta do pavilhão masculino do Hospital de Gaia. Diz que ontem o mandaram esconder-se porque iria passar ali um secretário de Estado. Manuel varre de muletas.

Estamos mesmo a andar para trás, não dá para acreditar, Uma pessoa com deficiência, trabalhora do Hospital de Gaia, recebeu ordem ordem da sua chefia para se "esconder" pois estava a decorrer a visita de um Secretário de Estado. A Chefe entendeu, certamente, que a presença de um "deficiente" não seria uma visão agradável para a passagem de Secretário de Estado.
Será que, para não variar, este comportamento delinquente vai passar impune?
O Portugal dos Pequeninos, mesmo pequeninos.

ORIENTAÇÕES POLÍTICAS "INFORMAIS"

"Serviços recebem indicações para cortarem 12% dos funcionários públicos em 2015"

A capacidade deste Governo para gerar perplexidade é notável.
Ao que parece, terá feito chegar aos serviços da administração de forma “totalmente informal” a orientação para que na preparação do orçamento para 2015 seja previsto um corte de 12% no pessoal.
Segundo o Público, o Ministério das Finanças nega a “orientação” mas vários dirigentes confirmam a sua existência e mostram-se apreensivos com os efeitos.
Esta política do corte a “metro” mostra competência e a capacidade de planeamento sustentado de boa parte das políticas. Neste caso surge a “informalidade” da orientação que, assim, pode ser negada. Gente manhosa e sem escrúpulos políticos ou éticos.
Aplicam-se percentagens, indicadores, rácios, etc. de forma cega e administrativa e sem acautelar especificidades ou contextos. É assim na educação, no encerramento de escolas ou na gestão do número de professores através das “orientações” centralistas para a constituição de turmas, é assim na saúde, na segurança social, etc.
Neste caso, alguns dirigentes exprimem a preocupação com o impacto do corte de 12% das pessoas em serviços onde se verifica falta de recursos.
Qual falta de recursos, qual quê, corta-se 12% das pessoas que ainda estão e mais nada.
E a qualidade do serviço?
Ainda vai ficar melhor, vão dizer-nos. Recordemos que Nuno Crato entende que as universidades estão a funcionar melhor depois de terem sofrido cortes orçamentais muito significativos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O MEC, AS SOLUÇÕES E OS PROBLEMAS

"Professores dizem que a bolsa de contratação é "o mais obscuro dos concursos""

"Início do ano lectivo está a “correr melhor” do que no ano passado, diz Passos Coelho"

O Secretário de Estado do Ensino e da Administração Escolar afirmou há dias que o MEC para "cada problema (na colocação de professores) encontra uma solução".
Cada vez estou mais convencido que Casanova de Almeida se enganou na formulação. Queria o Secretário de Estado dizer que o MEC "para cada situação, cria um problema", ou vários.
Só assim é possível manter este processo, que Passos Coelho afirmou "ter corrido melhor que em anos anteriores", com um altíssimo nível de incongruências, falhas, atrasos e instabilidade.
Tal cenário leva o MEC a considerar que tudo continua correr "bem no essencial" e dentro da normalidade, evidentemente.

HÁ AQUI QUALQUER COISA QUE NÃO RIMA

"Inspecção-geral das Actividades Culturais autoriza touros de morte em Monsaraz"

Inspecção-geral das Actividades Culturais autoriza touros de morte em Monsaraz. Actvidades Culturais, touros de morte, não rima, aparentemente. 
Para além desta decisão e ao que conseguimos apurar, a Inspecção-geral das actividades Culturais tem em estudo por dois grupos de trabalho a autorização para que por razões culturais atendíveis e de preservar se possa dar uma "carga de porrada na mulher"  e outra "carga de porrada" nos filhos.
A intenção é promover as actividades profundamente enraizadas na nossa cultura e que não devem perder-se pois são parte da nossa identidade.

UM HOMEM CHAMADO PORMENOR

Era uma vez um homem que se chamava Pormenor. Era pequenino e muito discreto. Durante toda a sua vida nunca foi objecto de grande atenção.
Foi o último de seis irmãos, a família limitou-se a assegurar os serviços mínimos educativos. Enquanto andou na escola, o Pormenor passava o tempo a um canto das salas ou do recreio, sem dar nas vistas, praticamente despercebido.
Viveu só e anónimo num apartamento minúsculo de uma daquelas torres enormes dos subúrbios onde nem os vizinhos conhecia, embora de quando em vez se cruzasse com alguns nos elevadores.
Com alguma sorte e a “ajuda” de um tio bem colocado o Pormenor arranjou um emprego tranquilo onde numa secretária colocada a um canto de uma sala mal iluminada passava os dias viajando entre o computador e os papéis.
Quando morreu, um dos irmãos mandou tratar do funeral a que ninguém compareceu.
E assim foi a sua pequenina e discreta vida. No fundo, não passava de um Pormenor e, como se sabe, o mundo não liga a pormenores. Mesmo que sejam pessoas.

REVISTA DE IMPRENSA

Convidaram-me para participar hoje no Jornal das 10 da SIC Notícias procedendo à "revista de imprensa",
Deram-me os jornais diários e meia hora para "rever" com o conselho de não exceder as cinco referências de modo a ter algum tempo para as comentar. Deixem-me partilhar as escolhas, difíceis aliás, face ao volume de informação disponível.
Comei pelas notícias relativas ao arranque do ano escolar e da estranha normalidade reclamada e reafirmada pelo MEC sobre um processo que tem tudo menos normalidade. Foi ainda possível referir algumas notas sobre o impacto negativo da instabilidade e de algumas das medidas da política educativa neste início de ano lectivo.
Uma segunda nota para, a propósito da situação da menina que estava desaparecida, alegadamente, "raptada" pelo pai no quadro de uma separação familiar complicada, chamar a atenção para o sofrimento, às vezes invisível ou desvalorizado, de muitas  crianças e adultos em processos desta natureza que não têm necessariamente de correr mal, antes pelo contrário, é melhor uma boa separação que uma má família. É, no entanto necessário bom senso e sensatez para evitar sofrimento que em algumas situações pode ser pesado e com eventuais consequências negativas.
Abordei também algo que me parece estranho e que já referi como a "conspiração das plataformas informáticas". Os últimos dias têm sido férteis em referências ao colapso da plataforma que serve o sistema judiciário, como têm sido férteis as referências ao disfuncionamento da plataforma do MEC no que respeita à colocação de docentes, como têm sido referenciadas dificuldades na plataforma informática do Ministério da Saúde. Que estranha força de bloqueio se esconderá por detrás desta reacção negativa das plataformas informáticas às políticas do Governo?
Uma nota breve ainda sobre mais uma afirmação pouco feliz da Dra. Isabel Jonet, a existência de "profissionais da pobreza", gente acomodada e que de geração para geração vive de mão estendida. Pelo menos 20% da população portuguesa a viver em situação de pobreza não autoriza afirmações desta natureza embora saibamos que existem situações de fraude e subsiodiodependência mas que, evidentemente, são uma minoria e decorrem da falta de regulação e de modelos mais assistencialistas.
Com o pouco tempo disponível ainda uma nota sobre a deriva extraordinária do Dr. Marinho Pinto que deixou o MPT e irá fundar um partido que o levará ao Parlamento, pelo menos e para já. Um discurso populista e antisistema, um cataventismo agitado, uma atitude gurrilheira de combate aos afirmados interesses instalados, dos quais faz parte como é óbvio, podem ser perigosos e ser mais um problema que uma solução.
Lamento, mas não falei da novela do BES, das primárias no PS e da saída do Paulo Bento.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

MIÚDOS, PAIS E ESCOLA

Uma colaboração minha num trabalho do Observador sobre questões no âmbito da educação familiar e escolar nos quais sempre me parece oportuno reflectir.

NUNO CRATO E O BURRO DO INGLÊS

O Ministro Nuno Crato não pára de me, nos, surpreender. Em entrevista à RTP elogiou o trabalho de reitores e presidentes dos politécnicos afirmando que as instituições de ensino superior estão a funcionar melhor apesar dos cortes orçamentais de 20% nos últimos anos.
Citando do Expresso, ""O que é extraordinário é que as universidades, os diretores das instituições, os reitores, os investigadores, os professores conseguiram, apesar disto acontecer [cortes] que as universidades funcionassem melhor que tivessem mais receitas próprias, que tivessem mais projetos de investigação".
Não vale a pena retomar as afirmações sobre as dificuldades que as instituições estão a conhecer e o impacto negativo fortíssimo na investigação e produção científica dos cortes nos orçamentos do sector. O Ministro vai negar a realidade, como sempre.
Lembrei-me apenas da velha e conhecidíssima história do burro do Inglês. O Inglês dono do burro, para poupar, foi dando cada vez menos comer ao burro  até que este se finou. Pensou o Inglês, "agora que o burro já conseguia estar sem comer é que morreu".
Haja alguém que rapidamente conte ao Ministro Nuno Crato esta história.
Há palavras e discursos que não se podem produzir, por gente intelectualmente séria, evidentemente.

FILHOS, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE MAS POUCO ACESSÍVEL

"Portugal registou menos 957 nascimentos até Agosto"

A situação portuguesa no que respeita aos nascimentos e renovação geracional continua a agravar-se. Apesar da retórica política sobre esta matéria, parece cada vez mais difícil reverter a tendência como alguns países europeus já conseguiram, casos da França e Irlanda.
Aguarda-se o repetidamente anunciado pacote de medidas do Governo com o objectivo de "remoção dos obstáculos à natalidade". Algumas notas registando como encaro com reservas medidas que não alterem alguns aspectos das políticas seguidas nos últimos anos.
Como aqui escrevia há dias, Portugal integra o grupo com menores apoios sociais para que os pais fiquem mais tempo em casa com filhos pequenos sendo que sobretudo nas zonas mais urbanas, (o interior desertifica-se o que também contribui para a baixa natalidade), a oferta de estruturas formais de acolhimento de bebés e crianças é insuficiente. Acresce que Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças.
Vivemos com uma taxa de desemprego que, oficialmente, ronda agora os 15% mas que sabemos atingir bastante mais gente. Muitas destas pessoas são sobretudo jovens ou mais idosos, o que, por razões diferentes, uns não podem assumir o encargo com filhos, os outros porque não têm recursos para ajudar os seus filhos, torna difícil a promoção da natalidade.
Importa ainda não esquecer a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc. Foi recentemente noticiado que algumas empresas exigem às mulheres um compromisso de que não irão engravidar nos próximos 5 anos. Não adianta argumentar com o quadro legal existente ou que venha a existir. Em Portugal a lei tem mais um carácter indicativo que imperativo.
Em tempos altamente competitivos com a proletarização do trabalho com cortes sucessivos nos salários e nas prestações sociais, as pessoas hipotecam os projectos de vida em troca das migalhas que permitam a sobrevivência o que lhes retira margem negocial ou liberdade de escolha.
A fiscalização e regulação são insuficientes, uso e abuso de estágios não remunerados ou miseravelmente pagos e que não asseguram continuidade, condições de trabalho degradantes cuja não aceitação implica a perda do lugar em troca por alguém ainda mais necessitado e, portanto, calado.
A promoção de projectos de vida familiar que incluam filhos implica, necessariamente, intervir nas políticas de emprego e protecção do emprego e da parentalidade, na discriminação e combate eficaz a abusos e a precariedade ilegal, na inversão do trajecto de proletarização com salários que não chegam para satisfazer as necessidades de uma família com filhos e custos elevados na educação apesar de uma escolaridade dita gratuita, na fiscalidade, por exemplo. A questão é que a política que tem vindo a ser seguida não permite acreditar que existam alterações.
Por outro lado, é urgente a acessibilidade real (na distância e nos custos) aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida.
É uma questão de futuro.

PROFESSOR, "A MAIS BELA E EXIGENTE PROFISSÃO DO MUNDO", (Nuno Crato)

Da entrevista de Nuno Crato à Visão que não tive ainda oportunidade de ler, registo uma referência que encontrei na imprensa, “professor é a mais bela e exigente profissão do mundo”. Recordo que já em Setembro de 2012 tinha afirmado que os professores “têm a profissão mais linda do mundo” acrescentando que ser professor “é um privilégio”, assente na possibilidade de transmitir saber às crianças.
Desta vez, finalmente, estou de acordo com o Professor Nuno Crato e acrescentaria que, se ser professor “é um privilégio”, ter acesso à educação de qualidade é um direito.
Creio que também estaremos de acordo que “a profissão mais bela e exigente do mundo”, “a profissão mais linda do mundo”, de quem tem o enorme “privilégio” de contribuir fortemente para que os miúdos sejam gente, deve ser exercida num contexto que a defenda e que defenda a qualidade do seu exercício envolvendo os professores, os alunos e as famílias.
Nesta perspectiva, apesar do romântico enunciado do Ministro sobre a "mais linda profissão do mundo", diria até se ele não se incomodasse, que se trata de um discurso salpicado de algum eduquês que certamente desagradará a José Manuel Fernandes e Guilherme Valente, ficam ainda mais incompreensíveis algumas medidas da PEC – Política Educativa em Curso de que Nuno Crato é responsável.
Não vou falar da questão do desemprego a que muitas pessoas que estavam e eram necessárias na “profissão mais bela do mundo” foram e vão ser votadas. Nem vou falar do insulto e humilhação que impôs a milhares de docentes que tinham o privilégio de desempenhar ou queriam aceder à “profissão mais linda do mundo” submetendo-os a uma sinistra PACC..
Mas vale a pena referir o aumento do número de alunos por turma que em muitos territórios educativos transformarão potencialmente a sala de aula num inferno que mais não serve do que para diminuir necessidades de profissionais com a “mais bela profissão do mundo”.
Vale a pena referir a regular deriva nos processos de colocação e o clima instalado nas escolas.
Vale a pena referir a espécie de reforma curricular operada, os mega-agrupamentos com dimensões insustentáveis, os apoios a alunos e professores insuficientes e desadequados.
Vale a pena referir …
Na verdade, dramaticamente, muitos professores não vão sentir o “privilégio” de desempenhar a “mais bela profissão do mundo” mas vão certamente perceber e sentir o quão exigente é, em qualquer circunstância, mesmo em ambientes tranquilos. Muitos têm, terão, um clima infernal nas escolas e nas salas de aula que deriva em boa parte do entendimento do Professor Nuno Crato sobre o que deve ser um sistema público de educação e ensino.
Ainda assim, são palavras bonitas, ficam sempre bem, mas fazem-nos duvidar.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A CIÊNCIA EUROPEIA EM ALERTA VERMELHO

"Carlos Moedas é o novo comissário da Investigação, Ciência e Inovação"

Ao que conseguimos apurar a comunidade científica europeia entrou em alerta vermelho ao tomar conhecimento de que Carlos Moedas será o Comissário Europeu da Investigação, Ciência e Inovação.
A preocupação não advém, evidentemente, do extenso e sólido currículo do novo Comissário em matéria de Ciência, Investigação e Inovação.
As reservas e procupações decorrem, sobretudo, do seu envolvimento numa política  de "Science killers" do Governo português e dos resultados notáveis do seu empenho e responsabilidade num Inovador modelo de intervenção económica que tem sido desenvolvido em Portugal.
Os excelentes resultados excelentes obtidos em diferentes áreas com o contributo inovador e com rigorosa fundamentação científica de Carlos Moedas terão aconselhado vivamente Juncker a esta nomeação que alimenta as maiores expectativas. 


AINDA FALTA TANTO TEMPO PARA O INÍCIO DAS AULAS, QUAL É A PRESSA. SIM QUAL É PRESSA?

"Directores e professores relatam "situações inexplicáveis" que "apontam para erros" na colocação de professores"

"Depois das colocações ainda há 3435 horários de professores por preencher nas escolas"

Ainda existem nas escolas 3435 horários de professor por preencher, um número insignificante.
Existem processos cheios de sobressaltos, inacabados, relativos à contratação e colocação de docentes, inquinados por critérios e decisões que dificilmente se compreendem.
Os directores, os professores e os pais expressam a sua preocupação com o arranque do ano lectivo.
Ainda falta imenso tempo para o início das aulas que apenas começarão bastante lá mais para frente, entre 11 e 15 de Setembro.
É também irrelevante os professores terem algum conhecimento prévio sobre a escola e os grupos de alunos com quem vão trabalhar. Na perspectiva do MEC, cada vez mais clara, o professor é um "entregador de conteúdos", não interessa conhecer a quem, nem como. No final fazem-se os exames e quem aprendeu, aprendeu e quem não aprendeu, aprendesse ... e vai para as vias vocacionais ou profissionais. Neste sentido os professores podem chegar às escolas na véspera das aulas ou mesmo depois, não tem problema nenhum, está tudo certo.
Neste cenário não consigo entender a preocupação que alguns expressam. Como diria uma conhecida figura da nossa praça, "Qual é a pressa? Sim qual é a pressa?"
Na verdade, a repetição anual desta situação sob a responsabilidade de uma equipa que pauta o seu discurso por referências constantes ao rigor, à qualidade, à exigência seria uma anedota se não representasse um patamar de incompetência e desrespeito pelos professores e pelos seu trabalho que não conhece limites.
É evidente que o MEC, numa já pouco saudável relação com a realidade virá, pela enésima vez afirmar que tudo está a correr dentro da normalidade.
No entanto, como há dias afirmava, começo a pensar que Nuno Crato terá mesmo razão e muitos de nós estaremos enganados, a incompetência, o desrespeito,  a demagogia passaram a ser a normalidade, portanto, está tudo bem.

Sem retorno.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA QUASE GRATUITA E QUASE UNIVERSAL

De acordo com um estudo divulgado há dias, as famílias portuguesas irão gastar em média cerca de 509 euros no início das aulas sendo que a despesa prevista por filho é de 346 euros.
Este montante inclui manuais, os respectivos e caros "anexos" (cadernos de fichas ou actividades, CDs, etc.) que, aliás, aumentaram de preço num valor superior à inflacção, material escolar e outro equipamento considerado necessário à vida escolar.
Como é sabido no quadro constitucional vigente, lê-se no Artº 74º (Ensino), “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito; 
Desta leitura resulta de forma que creio clara a vinculação do Estado ao providenciar a escolaridade obrigatória de forma gratuita.
O MEC anunciou uma disponibilização de 2,2 milhões de euros para apoio às famílias mais carenciadas para a compra de manuais e material escolar. Para a aquisição de manuais haverá um aumento global da comparticipação em 5,7%. Relativamente ao material escolar o anunciado seria ridículo se não fosse grave, a comparticipação passa de 13 euros (2.º ciclo) ou 15 euros (3.º ciclo e ensino secundário) no escalão A para 16 euros, o que corresponde a um aumento de 23% e 6,5%, respectivamente. No escalão B, passa de 6,5 euros (2.º ciclo) e 7,5 euros (3.º ciclo e ensino secundário) para oito euros, correspondendo, em termos percentuais, ao mesmo aumento. Pode verificar-se a subida extraordinária dos apoios às famílias.
Na verdade, como referimos regularmente, o ensino obrigatório nunca foi gratuito nem universal, vejam-se as taxas de abandono, e os custos incomportáveis para muitas famílias dos manuais e materiais escolares num quadro em que a acção social escolar é insuficiente e tem vindo a promover sucessivos ajustamentos nos valores e critérios de apoio disponibilizados. No universo particular das famílias com crianças com necessidades especiais os custos da escolaridade obrigatória e gratuita são ainda mais elevados, bem mais elevados.
Num tempo em que a Constituição está sob escrutínio e é vista como bloqueio a iniciativas sobretudo no âmbito dos direitos e garantias e também num tempo em que a escola pública está sob ameaça, sendo um dos países europeus com maior assimetria na distribuição da riqueza, importa prevenir o risco acrescido de instalação de condições de insucesso escolar e abandono que, aliás, estão a aumentar preocupantemente com repercussões graves no acesso à qualificação, a base da mobilidade social, promovendo iniquidade e atropelando o direito à educação.

EDUCAÇÃO EM PORTUGAL VISTA DA OCDE

O habitual Relatório Anual da OCDE relativo à educação foi hoje divulgado, “Education at a Glance 2014”
O Relatório, apesar de estar em linha com os dos últimos anos, merece uma leitura atenta e uma reflexão pouco compatível com este espaço.
No entanto, algumas notas telegráficas de alguma leitura rápida ainda por aqui nos Açores.
Verifica-se um abaixamento do investimento no sistema de ensino público sendo bastante mais evidente no 1º e 2º ciclo e no ensino superior, (1º e 2º ciclo, 4660 € por aluno/ano € vs 6213 € em média na OCDE e 7764 € vs 10876 € em média na OCDE no ensino superior) o que contraria a tese crática de que não desce o investimento em educação, designadamente no ensino superior. Acresce ainda que é um dos países em que as famílias realizam mais esforço para apoiar a frequência de ensino superior.
Aumenta o número de jovens entre os 15 e os 29, 17%, bem superior à média da OCDE que não estudam nem trabalham o que é uma ameaça catastrófica sobre o seu futuro.
Portugal continua com um nível preocupantemente baixo de pessoas com qualificação abaixo do secundário e, apesar dos progressos, também no ensino superior o que contraria a imagem criada de um “país de doutores”.
Apesar do elevado nível de desemprego entre os licenciados, Portugal continua a ser um dos países em que a qualificação mais compensa ao nível da empregabilidade e estatuto salarial quando comparado com jovens sem o mesmo nível de qualificação. Este cenário desaconselha vivamente o discurso errado e recorrente “estudar para quê?” que, do meu ponto de vista, para além das dificuldades económicas das famílias estará associado a um abaixamento da procura na frequência do ensino superior.
Existe uma referência que alimentará alguns equívocos, Portugal apresenta um rácio de 1/10 entre professores e alunos que alimentará a tese dos “professores a mais” tão cara ao MEC e a algumas vozes com agenda própria mas importa, por exemplo, conhecer a dimensão e características de turmas das escolas com mais dificuldades.
Provavelmente voltaremos a mais alguns aspectos do Relatório.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

UMA BOA NOTÍCIA VINDA DA 5 DE OUTUBRO

"Escolas com piores resultados vão ter créditos horários"

Acabei de ler no Blogue do Paulo Guinote e, desculpa lá Paulo, mas fui ver para crer. Não me orgulho de o afirmar, mas fico sempre com alguma reserva face a notícias emanadas da 5 de Outubro.
E de facto o Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, João Granjo, referiu que oitenta escolas com níveis significativos de insucesso também acederão a credito horário de forma a criarem dispositivos de apoio que minimizem dificuldades. Esta decisão corrige uma situação inaceitável. 
A atribuição de mais meios ou recursos, no caso créditos horários a escolas que tenham promovido melhoria de resultados das escolas tinha, evidentemente, aspectos positivos. No entanto, como tenho referido desde a introdução deste dispositivo, era incompreensível que as escolas que mais dificuldades sentem na promoção de trabalho mais eficaz de alunos e professores, justamente as que mais apoios e recursos precisariam para lidar com esse enorme conjunto de dificuldades não acedessem a crédito horário.
Por outro lado e como também tenho dito, para além das especificidades de natureza contextual que contribuem para cenários mais complicados, vários dos aspectos da PEC - Política Educativa em Curso estarão associados a dificuldades criadas às escolas como cortes de professores e funcionários, insuficiência de dispositivos de apoio, mudanças curriculares inconsequentes, a excessiva concentração de alunos, o clima e a instabilidade nas escolas, a centralização excessiva que retira autonomia às escolas, etc.
Neste quadro deve sublinhar-se a evolução na posição do MEC nesta matéria.
Desejável seria que tal evolução se registasse também noutros aspectos da PEC.

ESCOLA A TEMPO INTEIRO OU EDUCAÇÃO A TEMPO INTEIRO

"Crianças de Gaia podem estar na escola entre as 7h30 e as 19h30"

A propósito desta notícia e sem questionar o empenho dos técnicos e instituições em promover com as crianças o melhor trabalho possível, gostava de partilhar algumas notas.
Sabemos todos como os estilos de vida actuais colocam graves problemas às famílias para assegurarem a guarda das crianças em horários não escolares. A resposta tem sido prolongar a estadia dos miúdos nas instituições escolares radicando no que considero um equívoco, o estabelecimento de uma visão de “Escola a tempo inteiro” em vez de “Educação a tempo inteiro”. Do meu ponto de vista seria também importante que se alterassem aspectos como a organização do trabalho, verificada em muitos países, que minimizassem as reais dificuldades das  famílias.
De acordo com o quadro existente e como se vê na experiência de Gaia as crianças podem estar na escola entre as 7:30 e as 19:30, doze horas, é obra!
È preciso o maior dos esforços, equipamentos e recursos humanos qualificados para que se não transforme a escola numa “overdose” asfixiante para muitos miúdos.
É verdade que existem boas práticas neste universo mas também conhecemos todos situações em que existe a dificuldade óbvia e esperada de encontrar recursos humanos com experiência e formação em trabalho não curricular com crianças dos 6 aos 10. Este obstáculo acaba por resultar na réplica com as crianças de aulas e actividades pensadas para pré-adolescentes e adolescentes. O benefício imediato é quase nulo e a consequência a prazo poderá ser a desmotivação, no mínimo.
Já aqui descrevi o horário de um grupo de 1º ano (crianças com 6 anos): trabalham com a professora da turma das 9h às 12 e das 13 e 15 às 15 e 15, e todos os dias têm a seguir dois ou três tempos de 45 minutos até às 17 e 30 ou 18.
Verificamos assim que as crianças estão envolvidas em tarefas de natureza escolar durante um tempo que nestas idades se torna completamente excessivo e contraproducente.
Quero sublinhar que tanto quanto o tempo excessivo de estadia na escola, me inquieta a natureza “disciplinarizada” desse trabalho, ou seja, organizado por tempos, de forma rígida e ocupado com conteúdos e tarefas nem sempre proporcionadas de forma compatível com crianças deste escalão etário.
Assim, corremos o risco de em vez de tentarmos estruturar um espaço que seja educativo a tempo inteiro com qualidade, preenchido na escola ou em espaços e equipamentos da comunidade, assistirmos à definição de uma pesada agenda de actividades que motiva situações de relação turbulenta e reactiva com a escola.
Sendo optimista vamos esperar que tudo corra bem.

domingo, 7 de setembro de 2014

SERÁ A NOSSA ESCOLA INCLUSIVA?

A lida profissional trouxe-me de novo aos Açores, a Ponta Delgada, respondendo a um convite simpático para partilhar com colegas do mundo da educação umas ideias em torno de “Será a nossa escola Inclusiva?". Acabado de chegar de uma viagem com atraso significativo e com uma janela de hotel virada para uma tarde comum nestas paragens, chuvosa e cinzenta por cima e verde por baixo, estava a pensar no desafio.
Tenho a certeza de que o convite decorre de uma genuína vontade de reflectir sobre esta questão, educação e escola inclusiva. Confesso, no entanto, que estou aflito e preciso da vossa ajuda.
Que poderei dizer sobre "Será a nossa escola inclusiva?" num tempo em que a Educação, no sentido mais nobre e vasto do termo, está revista em baixa, transformando-se cada vez mais em Aprendizagem de competências instrumentais normalizadas e que de Inclusiva tem muito pouco?
Logo de muito novos os miúdos começam a passar por sucessivos crivos, exames escolares ou Classificações de outra natureza. Muitos são identificados por etiquetas, "repetentes", "dificuldades de aprendizagem", "necessidades educativas especiais permanentes", "hiperactivos" "autistas", etc., agrupam-se os miúdos com base nessas etiquetas, do ensino vocacional, às unidades ou escolas de referência e guetizam-se por espaços, entre a escola e as instituições, de novo e cada vez mais.
É verdade que também excelentes exemplos de trabalho em comunidades educativas que, tanto quanto possível e com os recursos de que dispõem, se empenham em estruturar até ao limite ambientes educativos mais inclusivos em que todos, mesmo todos, participem. Como sempre afirmo, a participação é um critério essencial de inclusão.
Devo falar do copo meio cheio ou do copo meio vazio?
Existem miúdos que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que estão, não “integrados” mas “entregados”, por várias razões e nem sempre por dificuldades próprias.
Existem pais que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa em que os seus filhos cumprem os dias.
Existem professores que não estão ou não se sentem a fazer parte da comunidade educativa onde se empenham e querem trabalhar apesar dos meios e recursos tantas vezes insuficientes e desadequados.
Existem orientações normativas e políticas que, sempre em nome da inclusão, acabam por promover ou facilitar a exclusão.
Existem direcções, poucas evidentemente, que gostariam de ver as suas escolas ou agrupamentos mais “bem frequentadas”, alguns miúdos só criam dificuldades e atrapalham os resultados das escolas.
Será a nossa escola inclusiva?
Que devo ou posso responder?

AGORA NO ENSINO SUPERIOR

"Menos candidatos colocados no acesso ao ensino superior na primeira opção"

São conhecidos os resultados do acesso ao ensino superior. Cerca de 89% dos candidatos ficaram colocados, 54% conseguiram uma colocação na sua primeira opção e 88% numa das três primeiras.
A colocação e as escolhas assenta, naturalmente, nas motivações dos candidatos e das suas expectativas face ao futuro.
Umas notas breves na linha do que aqui já tenho escrito.
Sou dos que entendem que cada um de nós deve poder escrever, tanto quanto as circunstâncias o permitirem, a sua narrativa, cumprir o seu sonho. Por outro lado, a vida também nos ensina que é preciso estar atento aos contextos e às condições que os influenciam, sabendo ainda a volatilidade e rapidez com que hoje em dia a vida acontece.
Nesta perspectiva, parece-me importante que um jovem, sabendo o que a sua escolha representa, ou pode representar, nas actuais, sublinho actuais, condições do mercado de trabalho, faça a sua escolha assente na sua motivação ou no projecto de vida que gostava de viver e, então, informar-se sobre opções, sobre as escolas e respectivos níveis de qualidade.
Por outro lado, é esta questão que nesta notas queria sublinhar, boa parte da questão da empregabilidade, mesmo em situações de maior constrangimento, relativiza-se à competência, este é o ponto fulcral.
Na verdade, o que frequentemente me inquieta, como muitas vezes afirmo, é a ligeireza com que algumas pessoas parecem encarar a sua formação superior, assumindo logo aqui uma atitude pouco "profissional", cumprem-se os serviços mínimos e depois logo se vê. O caso de Miguel Relvas é apenas um exemplo extremo deste entendimento, a formação não é um conjunto de saberes e competências, é um título que se cola ao nome.
Mesmo em áreas de mais baixa empregabilidade, ou assim entendida, continuo a acreditar que, apesar dos maus exemplos que todos conhecemos, a competência e a qualidade da formação e preparação para o desempenho profissional, são a melhor ferramenta para entrar nesse "longínquo" mercado de trabalho. Dito de outra maneira, maus profissionais terão sempre mais dificuldades, esteja o mercado mais aberto ou mais fechado.
Assim sendo, importa que o investimento, a preocupação com a aprendizagem e a aquisição de saberes e competências possam ser uma preocupação que pode, e deve, coexistir com o desenvolvimento de uma vida académica socialmente rica, divertida e fonte de bem-estar e  satisfação. É desejável resistir à tentação do facilitismo, do passar não importa como, da fraude académica, da competição desenfreada que inibem partilha, cooperação e apoio para momentos menos bons.
O futuro vai começar dentro de momentos.

Boa sorte e boa viagem para todos os que vão iniciar agora esta fase fundamental nas suas vidas.

sábado, 6 de setembro de 2014

A MAGISTRAL LIÇÃO UNIVERSITÁRIA DE MARIA LUÍS ALBUQUERQUE

"Ministra das Finanças pede “mais eficiência” ao ensino superior"

A Ministra das Finanças desenvolveu uma lição magistral na Universidade de Verão do PSD, umas das mais prestigiadas Universidades do nosso sistema, muitíssimo bem colocada nos rankings de produção e difusão de conhecimento científico em aparelhismo, alpinismo político e gestão de carreiras.
Disse a Ministra que ao Ensino Superior "é pedido que sejam mais eficientes, que consigam produzir mais e melhores resultados com recursos mais reduzidos que obrigam também a uma melhor gestão".
A Ministra afirmou ainda numa análise de extraordinária pertinência e sustentada por décadas de investigação financiada e reconhecida, que o ensino superior, sendo superior e envolvendo as elites, tem uma responsabilidade acrescida, "devem ser os primeiros a compreender as dificuldades e a estar do lado de quem as quer resolver". O modelo teórico desenvolvido pela Ministra é notável. Aos pobres e pouco qualificados ainda se pode desculpar que não entendam o empobrecimento a que têm estado sujeitos, são pobres, burros e mal agradecidos. Está-se a criar pobreza e exclusão em nome de um futuro que não se vislumbra e eles não compreendem. Mas entende-se, decorre da sua incapacidade e ignorância, não fazem parte da nata.
É que as elites não têm justificação para não compreender como desinvestir em educação, desinvestir no ensino superior e na investigação liquidando o futuro a milhares de jovens investigadores e a muitos centros de investigação, constitui, evidentemente, o caminho que nos leva ao desenvolvimento
Não assisti, claro, à magistral lição, mas presumo que as elites universitárias presentes aderiram entusiasmadas a tão profunda teorização sobre o ensino superior, a ciência e a ligação entre educação, conhecimento e desenvolvimento.
A Universidade a que pertencem, sendo de excelência, desde o recrutamento dos melhores alunos à altíssima taxa de empregabilidade em lugares cimeiros de diferentes estruturas, públicas e privadas, constituiu o cenário ideal para a extraordinária lição de Maria Luís Albuquerque.

CHUMBAR PARA APRENDER ... OU NÃO

"Projecto “inovador” torna Agrupamento Escolas de Carcavelos num dos melhores de Cascais"
Uma experiência muito interessante e bem sucedida no Agrupamento de Escolas de Carcavelos merece reflexão e divulgação. Partindo do princípio de que, afirma o Director, "Não acreditamos que a retenção dos alunos seja a melhor forma de lhes dar sucesso. Só há repetentes se houver mesmo necessidade disso e a decisão tem de ser unânime pelos 13 professores que compõe o conselho de turma", a escola desenvolveu um conjunto de estratégias e objectivos que permitiu passar de Agrupamento com os piores resultados do Concelho de Cascais em 2003 para actualmente ser o segundo melhor e frequentado por 2500 alunos. O Director afirma que "Nós não estamos preocupados com o 'ranking', o sucesso é a transição dos alunos e, nisso, temos hoje uma taxa de sucesso de 97 por cento", o que representa um progresso notável.
Na verdade, muitos estudos, nacionais e internacionais, mostram que os alunos que começam a chumbar, tendem a continuar a chumbar, ou seja, a simples repetição do ano, não é para muitos alunos, suficiente para os devolver ao sucesso. Os franceses utilizam a fórmula “qui redouble, redoublera” quando referem esta questão.
Nesta conformidade e do meu ponto de vista, a questão central não é o chumba, não chumba e quais os critérios ou o número de exames, mas sim que tipo de apoio, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias, desde o início da percepção de dificuldades, de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional. Importa ainda que as políticas educativas sejam promotoras de condições de sucesso para alunos e professores. O aumento do número de alunos por turma no Ensino Básico e no Secundário é, apenas, um exemplo do que não deve ser feito se, efectivamente, se quiser promover qualidade e sucesso.
Como é evidente este tipo de discurso não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação, uma tentação a que nem sempre se resiste.
Por outro lado, a tendência examocrata que se verifica sustentanto a introdução de mais e mais exames como se, só por existirem, melhorassem a qualidade merece reflexão pois, como tenho afirmado, corremos o risco do trabalho escolar se organizar centrado na preparação dos alunos para a multiplicidade de exames que realizam, ou seja, como me dizia há tempos um professor do ensino secundário, "o trabalho com os alunos é muito interessante mas a partir de certa altura sou eu e eles contra os exames".
Esta perspectiva, mais exames como fonte de qualidade, parece decorrer da estranha convicção de que se medir muitas vezes a febre, esta irá baixar o que é, no mínimo, ingénuo.
A "febre" baixa com "tratamento" continuado, adequado e oportuno, como acontece no Agrupamento de Escolas de Carcavelos. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A CONSPIRAÇÃO DAS PLATAFORMAS INFORMÁTICAS

"Tribunais estão a receber instruções para se absterem de usar sistema informático"

Têm-se verificado recorrentemente problemas com as plataformas informáticas que servem sectores importantes da administração.
São conhecidas dificuldades nos serviços de saúde, os últimos dias têm sido catastróficos no processo de colocação dos professores e, finalmente, verifica-se o colapso do Citius, o sistema informático do Ministério da Justiça que bloqueou diligências em muitos tribunais.
Decididamente, como não acredito em incompetência, como se sabe tudo é muito bem feito e sem falhas, esta série de problemas só pode dever-se a uma conspiração das plataformas informáticas contra as políticas do governo em áreas chave como a saúde, a educação e a justiça.
Depois do Tribunal Constitucional emergiu uma nova e fortíssima força de bloqueio.

DESOCULTAR AS FACES

"Armando Vara condenado a 5 anos de prisão efectiva"

A decisão do Tribunal relativamente ao processo Face Oculta, um dos muitos envolvendo corrupção e amiguismo, ao condenar o ex-ministro Armando Vara, o empresário Manuel Godinho, o ex-presidente da REN e outros a penas de prisão efectiva pode representar um sinal no caminho de desocultação das muitas faces destes processos que, em escalas diferentes, são estruturais em Portugal, fazem parte da cultura  do sistema.
É certo que agora se iniciará o longo e complexo caminho dos recursos, das manobras dilatórias, da manha na utilização dos alçapões que a legislação acomoda, pelo que estamos longe de ver o fim a este processo.
No entanto, para já e pelo menos, estas faces estão visíveis, já não estão ocultas.
Faltam todas as outras.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DA INCOMPETÊNCIA

"MEC liga a directores escolares à noite dando-lhes duas horas para evitarem horários-zero"

A equipa da 5 de Outubro, apesar de pouco dada a essas irrelevâncias da pedagogia, terá consciência que a criatividade e inovação são ingredientes importantes em matéria de educação.
Assim sendo, importa registar que o MEC ainda nos consegue surpreender. Agora, no meio de um atrasado e conturbado processo de contratação e colocação de professores, cerca das 20 horas de ontem os directores de escolas receberam telefonemas, para num prazo de 2h indicar o nome dos docentes das suas escolas ou agrupamentos que concorreram a destacamento por ausência de componente lectiva e para os quais, entretanto, surgiram horários.
Esta forma de trabalhar numa equipa que pauta o seu discurso por referências constantes ao rigor, à qualidade, à exigência seria uma anedota se não representasse um patamar de incompetência e desrespeito pelos professores e pelos seu trabalho que não conhece limites.
É evidente que o MEC, numa já pouco saudável relação com a realidade virá, pela enésima vez afirmar que tudo está a correr dentro da normalidade.
No entanto, começo a pensar que Nuno Crato terá mesmo razão e muitos de nós estaremos enganados, a incompetência, o desrespeito,  a demagogia passaram a ser a normalidade, portanto, está tudo bem.
Sem retorno.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A LER, "A PERVERSÃO DA LIBERDADE"

"A perversão da liberdade"

Paulo Guinote desenvolve no Público uma abordagem a um aspecto central das políticas educativas que merece reflexão.
De há uns anos para cá têm-se ouvido insistentemente discursos assentes numa visão “mágica” da chamada liberdade de educação que se caracterizam frequentemente por demagogia e referências a uma qualidade que as experiências e os estudos conhecidos em muitas realidades não autorizam.
Por outro lado, temos vindo a percorrer um processo fortíssimo de encerramento de escolas, que em algumas circunstância poderia ser defensável, mas em que muitas outras ocorre com evidente prejuízo das crianças e das famílias obedecendo a interesses outros que não a qualidade da educação. A questão económica também não pode justificar todas as decisões pois o investimento em educação de qualidade é de retorno garantido.
Na perspectiva de Paulo Guinote uma das consequências deste processo é justamente, um ataque à liberdade de educação num sentido mais sólido, a escolha que possa não estar só dependente do poder de compra.
Na verdade, fechando escolas, centralizando respostas com lotação elevada, as famílias terão menos possibilidade de aceder a escolas integradas no sistema público de ensino e educação.
A questão é que este movimento se inscreve na visão e missão a que Nuno Crato deitou mãos. De facto, nos seus tempos de opinador eram muito conhecidas as suas teses contra o construtivismo e contra o eduquês, seja lá isso o que for.
Ao chegar a Ministro e de uma forma cada vez mais clara, Nuno Crato reciclou o seu discurso, convertendo-se ao politiquês, negação da realidade, discursos demagógicos cheios de referências que vendem bem, rigor, excelência, avaliação, por exemplo, e, mais do que isso, assumiu uma visão não construtivista mas destrutivista. Assim, empreendeu a destruição tranquila do sistema público de ensino e educação, cortes nos professores, encerramento de escolas, incremento dos dispositivos de selecção, desvalorização dos professores, etc.
Neste contexto, e de acordo com a agenda, promove-se a procura das respostas educativas fora do sistema público, ou seja, algumas famílias poderão aceder aos melhores serviços, até com apoio estatal, dado diretamente às famílias ou disponibilizado aos estabelecimentos de ensino.
Como também é sabido, a cultura mais generalizada entende os estabelecimentos de ensino privado como exclusivos e muitos deles são profundamente selectivos na população que acolhem, o que leva, justamente, muitos pais  a escolher "comprar", por assim dizer, essa exclusividade, que só por existir já é um negócio, um bom negócio.
O problema grave e inquietante é que a maioria das famílias irá, evidentemente, manter os seus filhos nas escolas públicas que sofrendo forte desinvestimento terão menos recursos, apoios e autonomia e em que os professores serão obrigados a funcionar num registo de "contents delivery" a turmas enormes de alunos que através de sucessivos exames passarão por uma espécie de "darwinismo educativo" sobrevivendo os clientes mais fortes, sendo os mais fracos enviados para o "trabalho manual".
Sopram ventos adversos, são os mercados a funcionar, dizem, também na educação. Os clientes mais "favorecidos", para utilizar um eufemismo frequente, comprarão bons serviços educativos e os menos "favorecidos" ... assim continuarão.
Sem liberdade de educação, como refere Paulo Guinote.
É o destino.

A RETOMA

"A vida é assim em 2014: operários ganham menos e administradores ganham mais"

De acordo com um estudo da Mercer Total Compesation Portugal 2014, as funções de topo estão a registar maiores subidas de salário que os outros funcionários em que alguns grupos, comerciais e operários, perdem mesmo rendimento.
Está certo, é um sinal da retoma e mostra como alguns portugueses já sentem melhorias significativas na sua vida.
No entanto e como se sabe, existe um velho ditado que afirma, “A retoma quando nasce não é para todos”.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

UMA ANÁLISE POLÍTICA OU UM PROBLEMA DE LATERALIDADE?

"Poiares Maduro diz que Governo português pode ser considerado um dos mais à Esquerda da Europa".

O Génio Poiares Maduro escolheu um cenário perfeito, o ambiente universitário da Universidade Verão do PSD, para uma tirada, mais uma, absolutamente arrasadora, as políticas do Governo colocam-no claramente como um dos governos europeus mais à Esquerda.
Baseou a sua genial análise na correcção de desequilíbrios e preocupação distribuitiva promovida e revelada pelo Governo.
Creio que as centenas de milhares de desempregados, emigrados, reformados e pensionistas e de forma geral o pessoal que suporta a maior carga fiscal da nossa história irão ficar com as mãos em brasa de tanto aplaudir a correcção de desequilíbrios e a preocupação distribuitiva.
Aliás, o Governo faz o pleno, um grupo alargado de gente com responsabilidade na gestão da banca e do lamaçal de fraudes e manhas que provocaram, de gente ligada a grandes grupos económicos e financeiros com habilidades fiscais pouco claras também ficarão com as mãos em brasa de tanto aplaudir a correcção de desequilíbrios e a preocupação distributiva.
O Génio Poiares Maduro apresenta um sério problema de organização da sua lateralidade. Os Génios têm destas coisas.

MAS NÃO ESTAVA TUDO A CORRER BEM "NO ESSENCIAL" "COMO PREVISTO E PLANEADO"?

"MEC cedeu a protesto dos professores e prorrogou prazo para candidatos à Bolsa de Contratação"

E pronto, lá veio a maldita realidade intrometer-se e atrapalhar um processo que estava a correr "no essencial" dentro da normalidade e sem sobressaltos, o da contratação de professores. Aliás, o MEC afirmou que os “procedimentos concursais (…) estão a processar-se como previsto e planeado de modo a garantir a colocação dos docentes necessários ao normal funcionamento dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas”. 
Problemas informáticos e inacessibilidade, critérios complexos e indecifráveis, "Experiência profissional com incidência sobre a execução de actividades inerentes ao posto de trabalho e grau de complexidade das mesmas"  ou "Anos lectivos na leccionação da disciplina de Geometria Descritiva A”, com duas possibilidades de resposta, "mais de 1 e menos de 2" e "mais de 2 e menos de 3", são duas pérolas que se podem encontrar entre eles.
Nem sequer percebo os problemas que os professores vêem neste processo, ainda só estamos a 3 de Setembro e as aulas começam bastante lá mais para a frente, entre 11 e 15 de Setembro,
Como diria uma conhecida figura da nosa praça, "Qual é a pressa? Sim qual é a pressa?"
Na verdade não se deve ter pressa, é que "depressa e bem não há quem", nem mesmo o destrutivismo crático. 

DO CONTRA O CONSTRUTIVISMO E O EDUQUÊS AO DESTRUTIVISMO E AO POLITIQUÊS

"Uma avaliação destruidora"

Um texto interessante do Professor Carlos Fiolhais sobre o processo insustentável da avaliação do sistema científico nacional.
Registo as posições que têm vindo a ser tomadas sobre esta matéria pelo Professor Carlos Fiolhais mas recordo que antes do destrutivismo Crático se ter abatido sobre o ensino superior  e investigação o Professor Nuno Crato vivia em estado de graça, também aos olhos do Professor Carlos Fiolhais que nele depositava simpatia e expectativas elevadas como referiu num texto também no Público.
De facto, muita gente não antecipava que o encantatório discurso de Nuno Crato sobre os efeitos malignos do construtivismo e do eduquês continham, na verdade, uma visão destrutivista do sistema público de educação, ensino e investigação e uma espantosa capacidade de se converter às manhas do politiquês.
Os ventos da história são, quase sempre, assim, reveladores.

A PARQUE ESCOLAR, O PARQUE ESCOLAR E AS PESSOAS NO PARQUE ESCOLAR

"Obras na Escola Secundária de Alverca podem ficar mais dois anos paradas"

As obras promovidas pela Parque Escolar na Escola Secundária Gago Coutinho de Alverca, iniciadas em 2010 e suspensas em 2011 depois de gastos cerca de 10 milhões de euros vão continuar paradas mais dois anos, pelo menos. A parte acabada não está a ser utilizada, está a degradar-se afectando cerca de 1200 alunos e causando perturbações sérias no funcionamento da escola.
Esta situação não é caso único. Em Abril noticiava-se a existência de cerca de 5 000 alunos com aulas em contentores. Algumas notas também justificadas pelo arranque do ano lectivo.
Era, é, reconhecido por toda a gente a necessidade de modernização do parque escolar, em algumas situações inaceitavelmente degradado, pelo que o processo desencadeado sob a responsabilidade da Parque Escolar merecia concordância, independentemente da agenda político-partidária que gere os discursos das lideranças políticas.
A verificada derrapagem nas contas de muitas das obras relacionadas, que se não estranha em Portugal, têm sido apenas e lamentavelmente a "rotina" das obras geridas por capitais públicos. No caso particular da recuperação e modernização de edifícios escolares, a avaliação do que foi realizado foi mostrando algo que muitas pessoas que conhecem as escolas tinham como claro, o desajustamento de algumas soluções técnicas, o novo-riquismo saloio de alguns equipamentos e materiais, o custo exorbitante de manutenção que as soluções adoptadas implicam, etc. Estas opções, a “Festa” como lhe chamou Maria de Lourdes Rodrigues, comprometeram o desenvolvimento do programa com consequências muito negativas em várias escolas que ainda continuam em eternas obras.
Sublinho que a recuperação do parque escolar e a modernização do equipamento das escolas era, é, uma exigência no sentido de dotar alunos, professores e funcionários de condições de trabalho que sustentem a qualidade que todos desejamos, não é um privilégio que se concede à comunidade escolar.
No entanto e como sempre, esse é o meu ponto, para além dos recursos e equipamentos que por direito dos miúdos devem estar disponibilizados em cada momento com a melhor qualidade possível, no fim temos as pessoas. E de facto, a escola, mais do que equipamentos e meios que se desejam de qualidade, é feita pelas pessoas, todas as pessoas, que na sua função específica lhe dão sentido e qualidade e os últimos tempos têm sido particularmente gravosos para uma parte das pessoas da escola, os professores, maltratados de forma inaceitável por várias medidas da política educativa dos últimos anos.
Desde o aparelho do MEC, na definição das políticas educativas adequadas nas mais variadas dimensões, ao trabalho das direcções das escolas e agrupamentos, ao trabalho dos professores nas suas diferentes funções, ao trabalho dos alunos e dos pais através do nada fácil trabalho educativo familiar, o exercício da responsabilidade e intervenção individual são o mais sólido instrumento de qualidade ao serviço do sistema.
É nesta dimensão que me parece necessário insistir. A comunidade deve ser mais exigente face ao desempenho e à qualidade no que respeita a políticas educativas, na organização e funcionamento das escolas, no que respeita ao trabalho com os miúdos e dos miúdos, no que respeita à responsabilização e envolvimento das famílias, etc. Os meios e os recursos sendo fundamentais, só por si não garantem sucesso e qualidade.
A questão é que a actual PEC – Política Educativa em Curso, apesar de já não apostar nos edifícios, também não aposta nas pessoas e na qualidade do seu trabalho, corta custos de forma cega e está cada vez mais claramente assente numa agenda de desinvestimento na escola pública.
Essa é que é a questão, está para lá da melhor ou pior qualidade dos edifícios escolares.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O ENSINO DO INGLÊS NO 1º CICLO

"MEC prepara lançamento da disciplina de Inglês no 1.º ciclo para 2015"

Ao que parece, em 2015 os alunos, todos os alunos do 3º ano do 1º ciclo do E. Básico vão aceder ao ensino do Inglês o que é uma mudança importante na posição do MEC. É ainda de sublinhar que se prevê que o ensino seja assegurado por docentes com formação ou experiência no trabalho com este grupo etário.
A Fenprof levanta algumas reservas considerando que a existência de um docente a leccionar Inglês compromete o regime de monodocência do 1º ciclo. Embora me pareça de considerar a questão, que remete para a necessidade de acautelar a articulação das equipas docentes, recordo que com alunos do 1º ciclo já trabalham vários outros profissionais sem que daí advenha algum risco potenciais quando se assegura a articulação das intervenções o que, na verdade, nem sempre acontece.
Continuo a pensar que a organização curricular do 2º ciclo e do 3º ciclo, o número de disciplinas e conteúdos e mesmo a existência de três ciclos no ensino básico com esta configuração levantam mais reservas do ponto de vista da adequação pedagógica.
Sabemos todos que ajustamentos de natureza curricular mais significativos terão muito provavelmente impacto no número de professores e respectivas carreiras. O MEC tem, justamente, procedido a mudanças curriculares que parece terem como sentido fundamental a "poupança" de professores. Aliás, vários outros aspectos das políticas educativas 
Vamos aguardar desenvolvimentos, clarificar como se irá gerir a provável insuficiência de docentes no arranque em 2015 por exemplo, embora me pareça que se corrigiram dois aspectos fundamentais do imprescindível ensino do Inglês no 1º ciclo, ser destinado desde início a todos alunos do 3º ano e assegurado por docentes com formação e experiência adequadas.

O QUERER DOS MIÚDOS

Quando eu era miúdo, a propósito dos comportamentos dos mais novos e das suas "birras"  era usual ouvir-se a expressão, "as crianças não têm querer, é assim e acabou-se". Muitas vezes acabava-se. Na verdade, as crianças, maiores ou menores, com mais ou menos dificuldades, têm "quereres" e é bom que sejam considerados mesmo quando as crianças, por várias razões, não são capzes de os afirmar.
No entanto, é também evidente que em muitos circunstâncias e do meu ponto de vista, parece termos passado para o outro lado, o "querer" das crianças nem sempre é contrariado e transforma-as em pequenos ditadores.
Talvez fosse boa ideia não esquecer que a não aceitação de todos os "quereres" dos miúdos bem como o respeito por alguns dos seus "quereres", se torna indispensável ao seu comportamento adequado e à capacidade de o regular, aprendendo a gerir a regra e o limite.
A reentrada na escola e o ajustamento a rotinas e actividades diferentes pode ser uma boa ocasião.

A REALIDADE ESTÁ ENGANADA, EU É QUE ESTOU CERTO. ESTÁ TUDO BEM

"Ministro nega atraso na divulgação das listas de professores"

Um dia, talvez eu, que sou um crente optimista nas qualidades do ser humano, ainda consiga perceber a estranha convicção que boa parte da classe política assume quando chega ao poder, “a realidade está errada, eu é que estou certo, ou seja, a realidade passa a ser a projecção dos meus desejos”. Dito de outra maneira, assumem que a realidade está enganada, o que eles pensam e o que afirmam é que está certo.
O Ministro Nuno Crato e a sua equipa constituem um exemplo notável deste bizarro funcionamento. Tudo o que se passa no mundo da educação, por mais disfuncional ou errado que seja está sempre dentro da normalidade  e a correr conforme se espera. A 1 de Setembro os resultados dos concursos de professores ainda não são conhecidos, os directores têm muitíssimos horários por preencher mas ... está tudo bem e o processo irá terminar "no essencial" antes de se iniciarem as aulas. É claro que o Professor Nuno Crato tem uma visão do trabalho de professor que o transforma num "entregador de conteúdos" não interessa como e não interessa muito conhecer a quem, porque no final fazem-se exames e quem aprendeu, aprendeu e quem não aprendeu, aprendesse ... e vai para as vias profissionais. Neste sentido os professores podem chegar às escolas na véspera das aulas ou mesmo depois, não tem problema nenhum, está tudo certo.
Na verdade, esta gente, com mais ou menos habilidade, torturam dados e conhecimentos e bombardeiam-nos sistematicamente até que, por exaustão ou acomodação, se convencem de que nos convencem. A realidade, acreditam, rendeu-se, passou a ser exactamente aquilo que eles querem que seja.
O problema é que a maldita realidade teima em desmenti-los.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A HISTÓRIA DO RAPAZ CHAMADO TEMAMANIAQUÉESPERTO

Era uma vez um rapaz chamado Temamaniaquéesperto. Tinha quinze anos e as pessoas não simpatizavam muito com ele.
O Temamaniaquéesperto fazia questão de ter opiniões e ideias sobre qualquer assunto que estivesse em discussão. Além de ter e expressar as suas opiniões, estas, frequentemente, não eram coincidentes com as da maioria.
Nessa altura, o que muitas vezes acontecia, o Temamaniaquéesperto conseguia utilizar mil e um argumentos para, persistentemente, defender os seus pontos de vista, sem desistência.
Como é de prever, este comportamento exasperava as pessoas que pouco a pouco se foram afastando do Temamaniaquéesperto. Todas as conversas que estivessem a acontecer diluíam-se imediatamente sempre que ele se aproximava e, com ele presente, o silêncio passou a ser regra.
O rapaz começou sentir-se distante e, finalmente, só. Esta situação foi-se tornando insustentável para alguém que precisava desesperadamente da relação com os outros para se sentir bem. Uma noite, mais uma sem dormir, pensou descobrir a solução, o que aliás era de esperar em alguém que sempre tinha ideias. A partir da manhã seguinte, devagarinho, começou a concordar com tudo o que ouvia. Opiniões ou ideias, todas repetia e todas apreciava.
Como ele previra tudo mudou. As pessoas que antes o rejeitavam, passaram a mostrar o maior dos apreços pela sua presença e, algumas, até achavam que ele em vez de se chamar Temamaniaquéesperto deveria chamar-se Inteligente. E, assim, viveu infeliz para sempre.

MAS A ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA NÃO É ATÉ AOS 18 ANOS?

"Governo admite alargar pagamento de vales sociais de educação até aos 18 anos"

Sendo a escolaridade obrigatória até aos 18 anos não faz sentido que qualquer medida de natureza fiscal apenas contemple as famílias com filhos até aos 16 anos.
Também sabemos que a escolaridade obrigatória, apesar de gratuita, tem custos elevados para as famílias pelo que os cálculos para a fiscalidade que incide sobre os rendimentos das famílias têm que considerar, evidentemente, todo o período de escolaridade obrigatória.
É certo que estamos habituados a uma fiscalidade injusta para as famílias para além de um peso esmagador como nunca tivemos mas não haja senso e pudor.

O FECHAMENTO

A Justiça agora mora a quatro horas de viagem e é preciso partir de véspera

A reforma injusta de um injusto sistema de justiça, tal como no que tem acontecido com o fechamento das escolas, apesar de assentar num princípio sustentável de racionalização de meios e recursos parece ter como resultado previsível colocar as populações com um serviço pior do que tinham.
Os efeitos desta reforma judiciária na desertificação do país, na dificuldade do acesso à justiça das populações, sobretudo do interior do interior e dos concelhos que perdem tribunais, não compensam eventuais ganhos de natureza económica que nem sequer estão comprovados.
Prossegue o fechamento do país contra as pessoas e em nome de coisa nenhuma.

A RESSUSCITAÇÃO

"Mais um caso de socialista falecido com quotas pagas"


A campanha interna do PS relativa às primárias, para além de esclarecedora sobre ideias e políticas tem revelado uma promissora capacidade milagrosa.
Ao que parece, são já vários os casos de defuntos que militantes dados como mortos que ressuscitaram, pagaram as suas quotas ao partido e agurada-se a sua participação no acto eleitoral.
Estes acontecimentos são uma verdadeira agitação na pasmaceira cinzenta e pantanosa em que nossa cena política tem vindo a cair e permitem antecipar dias bem mais luminosos.
Quem ressuscita pessoas é, certamente, capaz de ressuscitar um país.
Aguardemos, pois, na tenda dos milagres.