segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O VOO DOS ABUTRES

"Fundos "abutre" interessados na dívida do Banco Espírito Santo"

É assim o voo dos abutres. Pairam, sempre no alto, sempre lá por cima, mal se vêem. Apenas descem para se alimentar à custa dos mais vulneráveis, dos mais frágeis.
E são recompensados. Quase sempre.
Pelos seus tratadores.
É esta a vida na selva em que transformaram e transformámos a nossa vida, o despudorado aproveitamento da miséria e das dificuldades alheias, seja de uma pessoa, de uma família, de uma empresa ou, finalmente, de um país. É apenas uma questão de escala, de juros e de oportunidade.
Os abutres com a sua reconhecida capacidade de detecção dos mais frágeis e vulneráveis estão atentos, não dormem, vivem sem alma, sem afecto, sem ética, sem escrúpulos de qualquer espécie. Ao mínimo sinal de fraqueza avançam e esmagam, são empreendedores, atentos às oportunidades e, às vezes, até dizem que estão a "ajudar", a apoiar programas de "assistência".
A vida da gente, de muita gente, é um inferno. Manter-se vivo e proteger a dignidade até ao limite da resistência é o dia a dia da vida na selva.
Decididamente, o mundo anda mesmo feio, com gente muito feia. E não se pode exterminá-los.

A COISIFICAÇÃO DAS PESSOAS

"Nunca houve tantas condenações por tráfico de pessoas em Portugal"

Também de acordo com o Observatório do Tráfico de Seres Humanos do Ministério da Administração Interna o número de pessoas sinalizadas em Portugal como “presumíveis vítimas” de tráfico de seres humanos de 2012 para 2013, passou 81 situações para 299 o que representa um crescimento de 269%.
São frequentes as referências na imprensa a situações de tráfico de pessoas que se realiza em Portugal envolvendo, fundamentalmente, mulheres no mundo da prostituição ou pessoas em situação pessoal e social de vulnerabilidade para "trabalho escravo" na agricultura, em Portugal ou, muitas vezes, em explorações agrícolas espanholas. Importa ainda sublinhar que os especialistas entendem que as situações identificadas são uma pequena parte da realidade.
Para além das questões de valores e da rentabilidade do crime, o actual contexto de enormes dificuldades para muita gente não pode deixar de se relacionar com o tráfico de pessoas.
Este cenário, o tráfico de pessoas e a escravatura, tal como a pobreza, a fome e a exclusão, é das matérias que maior embaraço pode causar em sociedades actuais, deveria ser algo de improvável no séc. XXI em sociedades desenvolvidas.
A escravatura parece algo “fora do tempo” e de impossível existência nos nossos países. Mas existe e é sério o problema que, como não podia deixar de ser, atinge os mais vulneráveis, como as crianças, sem abrigo, mulheres ou os que lutam desesperadamente pela sobrevivência.
Este negócio, o tráfico de pessoas, um dos mais florescentes e rentáveis em termos mundiais, alimenta-se da vulnerabilidade social, da pobreza e da exclusão o que, como sempre, recoloca a imperiosa necessidade de repensar modelos de desenvolvimento económico que promovam, de facto, o combate à pobreza e, caso evidente em Portugal, às escandalosas assimetrias na distribuição da riqueza.
Estes tempos, marcados por competição, diminuição de direitos e apoios sociais, pressão sobre a produtividade, tudo isto submetido a um deus mercado que não tem alma, não tem ética e é amoral, podem alimentar algumas formas de escravatura mais "leves" ou, sobretudo em casos de particular fragilidade dos envolvidos, bastante pesadas.
As pessoas, muitas pessoas, apenas possuem como bem, a sua própria pessoa, o seu corpo, e o mercado aproveita tudo, por isso, compra e vende as pessoas dando-lhe a utilidade que as circunstâncias, a idade, e as necessidades de "consumo" exigirem.
O que parece ainda mais inquietante é o manto de silêncio e negligência, quando não cumplicidade, que frequentemente cai sobre este drama tornando transparentes as situações de escravatura, não se vêem, não se querem ver.
Neste universo não conseguimos ouvir o coro dos escravos, não têm voz, são coisas. 

QUERIDA FAMÍLIA, AMIGOS E PROTECTORES

"Professor acusado de abusar de nove alunos menores 439 vezes"

É consensual o entendimento de que a "explosão" do chamado caso Casa Pia colocou uma luz mais forte sobre este universo negro, os abusos sexuais sobre crianças, pelo que a comunidade parece ter ficado mais atenta o que é, aliás, salientado pelo Juiz-conselheiro Armando Leandro, presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco. A prova desta maior atenção pode encontrar-se no facto de desde o início do processo em 2002 e até 2009, ter triplicado o volume de denúncias. No entanto, as pessoas que conhecem este tipo de problemáticas sabem que o volume de denúncias é apenas uma parte das situações de abuso. 
Continua com uma regularidade impressionante a revelação casos de abusos sexuais sobre crianças e adolescentes, a maioria em situações envolvendo familiares, amigos ou conhecidos da crianças ou famílias e também instituições que lidam com as menores como é o caso recente de instituições de natureza religiosa.
Esta circunstância decorre de um aspecto que me parece fundamental não esquecer, nunca e que os dados agora divulgados sublinham de forma muito nítida. A maioria dos abusos sexuais sobre crianças ocorre nos contextos familiares e envolve família e amigos, não em instituições que, provavelmente na sequência do caso Casa Pia, até se terão tornado mais atentas e eficazes na prevenção de abusos embora, como foi o caso do Seminário do Fundão, continuem a acontecer.
Apesar das mudanças verificadas em termos legais e processuais, a fragilidade ainda verificada, na criação de uma verdadeira cultura de protecção dos miúdos leva a que muitos estejam expostos a sistemas de valores familiares que toleram e mascaram abusos com base num sentimento de posse e usufruto quase medieval. Muitas crianças em situação de abuso no universo familiar ou por pessoas conhecidas ainda sentem a culpa da denúncia das pessoas da família ou amigos, a dificuldade em gerir o facto de que pessoas que cuidam delas lhes façam mal e a falta de credibilidade eventual das suas queixas bem como das consequências para si próprias, uma vez que se sentem quase sempre abandonadas e sem interlocutores em que possam confiar ou ainda o medo das consequências da denúncia.
A este cenário acrescem os riscos que as novas tecnologias vieram introduzir, sendo conhecidos cada vez mais casos em que a internet é a ferramenta utilizada para construir o crime.
Neste quadro continua a ser absolutamente necessário que as pessoas que lidam com crianças, designadamente na área da saúde e da educação, sejam capazes de “ler” os miúdos e os sinais que emitem de que algo se passa com eles.
Esta atitude de permanente, informada e intencional atenção aos comportamentos e discursos dos miúdos é, do meu ponto de vista, uma peça chave para minimizar a tragédia dos abusos sobre as crianças.

domingo, 17 de agosto de 2014

PRECÁRIA DE VIDA

"Os que aprenderam a transformar a necessidade em virtude"

Entre os países da OCDE Portugal é o terceiro país com taxa de desemprego jovem mais elevada. Recordo ainda que segundo os últimos dados conhecidos Portugal, tem cerca de 440 000 jovens entre os 15 e os 34 anos que nem estudam nem trabalham, um grupo social que vai sendo designado por geração “nem, nem”, um termo e uma dimensão devastadora que nos deveria embaraçar.
Acresce ainda que se está a verificar também a utilização abusiva e escandalosa de estágios profissionais não remunerados, sobretudo de jovens qualificados, situação que permite aos empregadores aceder a mão-de-obra gratuita por alguns períodos de tempo que podendo ter impacto nas estatísticas não muda a vida das pessoas.
Vale a pena recordar também que, em Janeiro e segundo o EUROSTAT, Portugal era o quinto país europeu, dos 21 considerados, em que mais jovens entre os 25 e os 24 vivem com os pais, 46 %. Para comparação, Dinamarca, Suécia e Finlândia têm percentagens inferiores a 5 %.
Este cenário não é mais grave porque muitos milhares de jovens, sobretudo qualificados, estão a sair do país, emigrando para outras paragens. A emigração parece assim constituir-se como via quase exclusiva para aceder a um futuro onde caiba um projecto de vida positivo e viável como tem vindo a verificar-se.
Acresce que de acordo com um Relatório da Organização Internacional do Trabalho em 2011, 56 % dos jovens portugueses com trabalho têm contratos a prazo. Há algum tempo uma informação do Banco de Portugal referia que em cada dez empregos novos para jovens, nove são precários.
Segundo um estudo da CGTP, 51% dos jovens com menos de 25 anos ganha menos de 500 € e 24,5% dos jovens entre os 25 e os 35 recebe também menos de 500 €. Este cenário evidencia a enorme precariedade do trabalho e baixa qualificação do mesmo.
A precariedade nas relações laborais quase duplicou na última década. Portugal é o segundo país da Europa, a seguir à Polónia, com maior nível de contratos a prazo. Por outro lado, as políticas de emprego em curso incluem maior flexibilização das relações laborais.
Neste cenário, os desequilíbrios fortíssimos entre oferta e procura em diferentes sectores, a natureza da legislação laboral favorável à precariedade e insensibilidade social e ética de quem decide, promovem a proletarização do mercado de trabalho mesmo em áreas especializadas ou mesmo o recurso a uma forma de exploração selvagem com uma maquilhagem de "estágio" sem qualquer remuneração a não ser a esperança de vir a merecer um emprego pelo qual se luta abdicando até da dignidade.
Acontece ainda que alguns dos vencimentos que se conhecem, atingindo também camadas altamente qualificadas, não são um vencimento, são um subsídio de sobrevivência. É justamente a luta pela sobrevivência que deixa muita gente, sobretudo jovens sem subsídio de desemprego e à entrada no mundo do trabalho, sem margem negocial, altamente fragilizadas e vulneráveis, que entre o nada e a migalha "escolhem amigavelmente" a "migalha", ou mesmo uma remota hipótese de um emprego no fim de período de um indigno trabalho gratuito. Como é evidente esta dramática situação vai de mansinho alargando e numa espécie de tsunami vai esmagando novos grupos sociais e famílias.
É um desastre. Grave e dramático é que as pessoas são "obrigadas" a aceitar. Os mercados sabem disso, as pessoas são activos descartáveis.

DROGA DE VIDA

"Mortos em acidentes de viação mostram mais casos de consumo de cannabis"

"Cannabis: “Efeito pode ser semelhante ao álcool pois inibe reflexos e avaliação do perigo”"

"Legalizar a cannabis é o passo que se segue?"

Como muitas vezes tenho afirmado, existem áreas de problemas que afectam as comunidades em que os custos da intervenção são claramente sustentados pelas consequências da não intervenção, ou seja, não intervir ou intervir mal é sempre bastante mais caro que a intervenção correcta em tempo oportuno.
A toxicodependência e o consumo do álcool são exemplos dessas áreas. No entanto, o Governo, numa cedência óbvia aos interesses económicos, determinou a existência de álcool “bom” que pode ser adquirido aos 16 anos e de um álcool “mau” que só pode ser adquirido aos 18 anos.
É também reconhecido que os tempos que atravessamospotenciam o aumento dos consumos ou as recaídas o que merece a maior das atenções.
Quadros de dependência não tratados desenvolvem-se habitualmente, embora possam verificar-se excepções, numa espiral de consumo que exigem cada vez mais meios e promove mais dependência. Este trajecto potencia comportamentos de delinquência, alimenta o tráfico, reflecte-se nas estruturas familiares e de vizinhança, inibe desempenho profissional, promove exclusão e “guetização” para além de outros efeitos graves na saúde, física e mental, ou nos comportamentos, veja-se a notícia sobre o volume de acidentes em que as pessoas envolvidas acusam consumos, diferentes consumos. Este cenário implica por sua vez custos sociais altíssimos, persistentes e difíceis de contabilizar.
Os consumos, de diferentes substâncias, designadamente por parte dos adolescentes e jovens podem relacionar-se com alguma negligência paternal mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber, desejando que o tempo “cure” se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão. De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles, justificando-se a criação de programas destinados a pais e aos adolescentes que minimizem o risco do consumo excessivo.
Costumo dizer em muitas ocasiões que se cuidar é caro, façam as contas aos resultados do descuidar.

sábado, 16 de agosto de 2014

SOMOS UM DESTINO FANTÁSTICO. É o futuro

"Lisboa à pinha com enchente de turistas"

Como tem vindo a ser noticiado, Portugal está, em várias vertentes, a ser considerado um excelente destino turístico. Parece ser mesmo o sector da nossa economia em melhor estado o que tem, aliás, sido sublinhado pelo Governo e repetido na imprensa. São boas notícias.
No entanto, este cenário deixa-me também a sensação um pouco incómoda de que corremos o risco de nos transformarmos, num destino "fantástico" ... para os outros. Nós, muitos de nós, sobretudo gente nova, vê-se obrigada a partir para outros destinos, porventura, menos fantásticos.
Também me lembro de muitos outros "destinos" a que muitos de nós se deslocam e encontram "ilhas" de bem-estar e luxo cercadas por um oceano de pobreza, de que se livram a elite do costume e a meia dúzia que subservientemente serve os "turistas" e torna a sua estadia "fantástica", numa terra "fantástica" que, nas mais das vezes, nem visitam, não saindo dos "resorts" "fantásticos para não "ver misérias". Ah, claro, também achamos que as pessoas desses "destinos" são "fantásticas", mesmo simpáticas.
Talvez seja esse o nosso destino, como alguns defendem, tornarmo-nos a Flórida da Europa, "destino" muito interessante para visitar, mas pouco atractivo para viver, sobretudo para os indígenas como nos chama Vasco Pulido Valente.
Com um lema  SPA – Portugal (Simpatia, Profissionalismo, Atenção) ninguém nos bateria como destino turístico e não só no ALL Garve ou Lisboa como hoje a imprensa refere.
Vejam. Com a introdução do inglês no 1º ciclo extraordinariamente bem-sucedida, a comunicação com estrangeiros já não é um obstáculo. Com o sucesso das Novas Oportunidades e agora com o ensino dual, os portugueses profissionalizam-se e o tempo do pano às costas e um palito na boca nos serviços de restauração acabou. Tudo quanto é paisagem interessante passa a PIN (Projecto de Interesse Nacional) e, consequentemente, transforma-se em resort fantásticos e campos de golfe fantásticos em cada distrito, concelho ou freguesia ou bocadinho de praia ou campo ainda não destruídos.
Ao mesmo tempo, cada turista passa, ele próprio, a ser também um PIN (Projecto de Interesse Nacional) daí o ser tratado com Atenção. Temos pobres e zonas degradadas que poderão dar um ar de exotismo permitindo excelentes fotografias em safaris especializados, um nicho de mercado com muitos clientes que depois mostram aos amigos as fotografias que tiraram aos indígenas, até com algum risco, convém dizer para impressionar.
Por fim, apesar de umas malandrices sem grande significado, somos respeitadores e bem comportados com os estrangeiros, especialmente com os que cá metem dinheiro, e ainda temos uma polícia de costumes a ASAE de uma eficácia inultrapassável que zelará pela qualidade de vida de turistas e empregados, nós.
PS – Temos uns políticos assim para o fraquinho mas podemos prometer que não os deixamos incomodar os turistas, nós já estamos habituados.


ELES, OS GAJOS

"Salgado culpa crise e gestores da família"

Ao que parece, um antigo Espírito Santo e actual Ricardo Salgado vai assentar a sua estratégia de defesa na cena canalha em que está envolvido, responsabilizando a crise e todos os outros que andavam à sua volta.
Confesso que esperava um pouco mais de um Espírito Santo. Culpar a crise e os outros parece pouca coisa. O enxame de advogados muito bem pagos que se responsabilizarão pela parte operacional terão de ser mais criativos e eficientes. Estou, aliás, convencido de que o serão e farão uso de todas os buracos e alçapões que as leis que esses escritórios de advogados também produziram contêm para que finalmente um espírito Santo passe a ser um Espírito Livre, provavelmente, à nossa custa.
No entanto a ideia de Ricardo Salgado para a sua defesa é uma manifestação da sua "tugalidade", é um verdadeiro tuga.
De facto, também ele acredita na existência de uma entidade mítica responsável por tudo, sobretudo de menos bom, o que nos acontece e nos diz respeito. Não, não estou a falar de uma entidade divina, de um Espírito Santo, estou a falar de algo mais complexo, se assim se pode dizer. Estou a referir-me a “ELES”. Se bem repararem, “ELES” estão absolutamente enraizados nos nossos discursos quotidianos. Apenas alguns exemplos. “Só querem o deles”, “Eles é que mandam”, “A culpa é deles”, “Eles querem assim, a gente faz”, “Eles apanham-se lá e estão-se nas tintas”, “Eles não fazem nada”, “Eles aumentam tudo”, “Isso é que era bom, faço como eles, que se lixe”, “Eles só fecham coisas”, “Eles só falam”, “Eu fazer mais? Façam eles”, “Eles têm grandes ordenados e depois não chega para a gente”, “Eles dão maus exemplos querem que a gente faça o quê?”, “Eles estão cheios dele e a malta na miséria”. “Eles pensam que somos parvos”, "Eles lá na Europa decidem e a gente lixa-se", etc. etc.
O mais curioso, é que quando se tenta perceber sobre quem objectivamente estamos a falar, parece que se trata de todos menos de mim, ou seja, é sobre ELES. E assim explicamos a nossa vidinha. Como se vê no discurso de Ricardo Salgado, é apenas uma questão de escala.

PS – Por vezes, a referência a “ELES” é substituída pela fórmula, “OS GAJOS” o que empresta uma natureza bastante mais popular aos discursos.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

SER PEQUENO

Dado o inexorável movimento dos dias, cumpro hoje mais um marco de uma estrada que já vai ficando longa. Na minha terra era costume, creio que ainda é muito frequente em Portugal, referir que quando se celebra um aniversário, se é "pequeno". Assim sendo, hoje sou "pequeno", coisa que não é fácil imaginar.
Embalado por essa ideia lembrei-me de quando era mesmo pequeno, coisa que parece inevitável cada vez que ficamos mais velhos.
Lembrei-me de como brincava, ao que brincava e com quem brincava, quase sempre na rua.
Depois lembrei-me de como brincava com o meu filho, quando ele era pequeno, grandes viagens em grandes brincadeiras.
Agora brinco com o meu neto, é ele o pequeno. Muito a gente se diverte. E havemos de nos divertir ainda mais a brincar. Palavra de avô.
A este propósito e com já vos tenho dito e, certamente, alguns estranharão, acho que por estes dias os miúdos brincam pouco.
Eu sei que os tempos são diferentes e os estilos de vida mudaram significativamente. No entanto, não me parece que sejam razões suficientes. A questão é, creio, de outra natureza.
As brincadeiras já não brincadeiras, passaram a chamar-se actividades. E os miúdos têm muito pouco tempo para brincar, é quase todo destinado a actividades, muitas actividades, que, dizem, são fantásticas e fazem bem a tudo e mais alguma coisa, promovem competências extraordinárias.
Deixem os miúdos brincar, faz-lhes bem, é mesmo a coisa mais séria que fazem e, como sabem, é importante lidar desde pequeno com coisas sérias.
Agora vou brincar com o meu neto, hoje sou pequeno, vou aproveitar ainda mais.
Até depois, fiquem bem.

DEFICIÊNCIA E PARTICIPAÇÃO

"Primeiro treinador em cadeira de rodas no Manchester United Sohail Rehman treina camadas jovens do clube."
(...)
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
(...)
António Machado,

Defendo com muita frequência que o verdadeiro critério de avaliação das políticas e práticas de inclusão envolvendo as pessoas com deficiência, considerando grandes domínios da vida das comunidades como educação, vida social e profissional, é o seu nível de participação nos diferentes contextos em análise.
Participação é interagir e envolver-se com a comunidade e com todas as pessoas da comunidade na generalidade das actividades de acordo, evidentemente com competências e capacidades, de qualquer um, e não só das pessoas com deficiência.
A grande questão, já o tenho referido, é que, apesar do empenho e investimento que é colocado no trabalho e apoio a estas pessoas, muitos de nós não acreditamos que eles … são capazes. No caso de se tratar de pessoas com deficiência mental a situação é ainda mais óbvia.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

CONTRIBUIÇÃO DE SUSTENTABILIDADE SEM SUSTENTABILIDADE CONSTITUCIONAL

"Tribunal Constitucional chumba cortes de pensões e permite cortes salariais só até 2015"

A Contribuição de Sustentabilidade, é estimulante a criatividade destas designações, que incidiria sobre as pensões, não revelou, do ponto de vista do Tribunal Constitucional, sustentabilidade constitucional. Os cortes nos salários podem ficar mais um aninho.
Claro que vamos pagar de uma outra qualquer forma mais este inconseguimento legislativo-orçamental por parte do Governo.
Dado o estrado frustracional decorrente, lá teremos que levar com o incontornável Marco António, o rapaz destinado para estas tarefas, a bater nos Juízes do Palácio Ratton que sendo mal escolhidos, não são amiguinhos e lembram-se de arreliar o Governo com minudências constitucionais. É também certo que outras figuras virão fazer, com pose de estado seja lá isso o que for,  o discurso da "normalidade democrática"  e da procura de alternativas. Nós sabemos.
Fica também escrito uma parte do discurso de Passos Coelho para a festa algarvia do PSD.
Os pensionistas que não respirem fundo que a coisa ainda não acabou.
Mais a sério e mais uma vez, o Tribunal Constitucional entende que instrumentos legislativos propostos pelo Governo ferem o texto constitucional.
Em termos muito breves, a Constituição estabelece um quadro normativo e orientador que não é perfeito, longe disso, é datado e, também por isso, carece, evidentemente, de alterações e actualização.
Os actores políticos conhecem muito bem os termos em que a Constituição pode ser revista, sendo que até os próprios termos da revisão podem ser alterados. Parece claro.
No entanto, enquanto não for alterado o texto constitucional, os governos estão obrigados ao seu cumprimento, parece evidente e desejável num estado que respeite as suas próprias leis.
A excessiva frequência com que surgem iniciativas legislativas que são consideradas anticonstitucionais, mais do que "simples" inabilidade e incompetência que não é, evidentemente, cria focos de instabilidade, desconfiança e ineficácia que têm custos elevados.
Acresce que o discurso recorrente de pressão sobre o Tribunal Constitucional, a escolha dos juízes e a justificação dos resultados de uma política desastrosa com os chumbos do TC, habituais no Governo têm, do meu ponto de vista, efeitos perversos e contrários criando uma fortíssima instabilidade, promovendo tensões e discursos que não contribuem para a solução ou minimização dos problemas do país, pelo contrário, alimentam-nos e ampliam-nos.
De uma vez por todas, se a Constituição carece de alterações, alterem-na, enquanto não a alteram, cumpram-na.

UM SANTO ESPÍRITO, RICARDO SALGADO

"Ricardo Salgado: “Vou lutar pela honra e dignidade, minha e da minha família”"

Ricardo Salgado saiu do silêncio para vir afirmar a intenção de lutar pela honra e pela dignidade, sua e da família.
Na conversa citou profusamente o Papa Francisco.
Felizmente, o Papa Francisco não sabe como inspirou o discurso do Dr. Ricardo Salgado  não tendo, por isso, de vir afirmar, "Perdoai-lhe Senhor".
É evidente, um estado de direito, assim o exige, que o Dr. Salgado, expectuando aquela irrelevância dos milhões esquecidos na declaração de impostos, ainda não está condenado por coisa alguma pelo que poderá defender a sua inocência.
Agora vir falar de honra e de dignidade, uma de duas coisas significa, ou não sabe o que significam tais dimensões ou menospreza a nossa inteligência.
É verdade que não sendo o único que menospreza a nossa inteligência e seriedade da vida pública tudo isto pode ainda vir a acabar com uma daquelas frequentes narrativas por cá, há crimes, existem vítimas mas não existem criminosos mas cumprimos nós a pena.
Deixem lá ver, como se diz no Alentejo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O MUNDO É UM LUGAR ESTRANHO

"Uma menina de meses entre mais de mil migrantes, um recorde nas chegadas por barco a Espanha"

"Chama-se Fátima, o bebé que deu à costa em Tarifa"

No Mediterrâneo, a tentar a entrada em Itália ou Espanha, morrem muitas centenas de pessoas vindas do outro lado e que arriscam a vida para procurar um futuro que possa ser diferente do inferno de pobreza, miséria e desesperança que vivem.
Por cá, mas não só, oferecem-se uns vistos gold com acesso ao espaço europeu a uma rapaziada que traga uns sacos de dinheiro não importa de onde nem como foi arranjado.
O mundo é, na verdade, um lugar estranho.

DELINQUÊNCIA E JUVENTUDE. SERÃO EDUCATIVOS OS CENTROS?

"Tribunais avisados de que centros educativos já não têm lugar para mais jovens condenados"

Ao que parece, os Centros Educativos, estruturas que acolhem adolescentes envolvidos em casos de delinquência estão sobrelotados e impossibilitados de receber mais indivíduos. Tal situação impossibilitará novas condenações a penas de internamento pelo que os Tribunais terão sido informados nesse sentido, criando uma cenário, no mínimo, estranho.
No âmbito deste universo, os Centros Educativos como resposta a casos de delinquência envolvendo adolescentes e jovens, algumas notas.
À sobrelotação dos Centros e à falta reconhecida de recurso humanos com qualificação, acresce uma problema grave, segundo um estudo divulgado há meses, o Programa de Avaliação e Intervenção Psicoterapêutica no Âmbito da Justiça Juvenil, promovido pela Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e co-financiado pela Comissão Europeia, revelou que a média etária dos rapazes dos centros é de 16,6 anos. Em geral, acumulam mais de três anos de chumbos na escola, e, em 80% dos casos, são de famílias cujo estatuto socioeconómico é baixo. É ainda relevante que mais de 90% dos que foram entrevistados têm pelo menos uma perturbação psiquiátrica, “o que é um dado astronómico”, como classificou Daniel Rijo, professor da Universidade de Coimbra, um dos autores do trabalho para a DGRSP. Nem todos têm o acompanhamento que seria necessário, admitiu.
Por outro lado, segundo dados ainda da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, 24% dos jovens de alto risco de envolvimento em comportamentos de delinquência e a quem foram aplicadas medidas tutelares incluindo o internamento em Centros Educativos reincidiram nos primeiros 12 meses e ao fim de 26 meses a taxa de reincidência sobe para 48.6%.
Julgo importante ainda recordar dados divulgados em 2012 que sublinharam o aumento da delinquência urbana, sendo que 86% dos incidentes registados são protagonizados por gente jovem,  dos 16 aos 35 anos.
Sempre que estas matérias são discutidas, os especialistas acentuam a importância da prevenção e da integração comunitária como eixos centrais na resposta a este problema sério das sociedades actuais.
Parece ser cada vez mais consensual que mobilizar quase que exclusivamente dispositivos de punição, designadamente a prisão, parece insuficiente para travar este problema e, sobretudo, inflectir as trajectórias de marginalização de muitos dos envolvidos mais novos em episódios de delinquência. É também reconhecido que as equipas técnicas e recursos disponíveis nos Centros Educativos são insuficientes e inibem a resposta ajustada na construção de programas de educação e formação profissional.
Parece ser cada vez mais consensual que mobilizar quase que exclusivamente dispositivos de punição, designadamente a prisão, parece insuficiente para travar este problema e, sobretudo, inflectir as trajectórias de marginalização de muitos dos envolvidos, sobretudo os mais novos, e minimizar os riscos de reincidência.
No entanto a discussão sobre estas matérias é inquinada por discursos e posições frequentemente de natureza demagógica e populista alimentados por narrativas sobre a insegurança e delinquência percebida, alimentadora de teses securitárias.

Apesar de, repito, a punição e a detenção constituírem um importante sinal de combate à sensação de impunidade instalada, é minha forte convicção de que só punir e prender não basta. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A NOVA POLÍTICA DO BANCO DE PORTUGAL, EMPREGO POR CONVITE

"Banco de Portugal contratou por convite filho de Durão Barroso"

Ao que se lê no Nornal de Negócios, o Banco de Portugal contratou o filho de Durão Barroso por ajuste directo, por assim dizer. Bem, sejamos claros, foi mesmo por convite e não por concurso pois o currículo académico e profissional jovem estrela dispensam o vexame humilhante de um concurso ou de uma PACC - Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades. O jovem Barroso irá certamente ganhar uma "pipa de massa".
Trata-se, evidentemente, de um exemplo muito elucidativo do que o génio emergente João Miguel Tavares designou por "nova política" assumida pelo Banco de Portugal.
Não sei porquê ... lembrei-me do Sérgio Godinho


EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO

"Novo corte no financiamento do ensino superior pode chegar aos 14 milhões de euros"

O MEC informou que no próximo Orçamento Geral do Estado voltará a baixar o financiamento do ensino superior, cerca de 1,5%, 14 milhões de euros. Curiosamente este ano subiu o número de candidatos a este patamar de ensino contrariando alguns anos de descida.
Segundo o Público, nos três anos troikados o financiamento do ensino superior perdeu 260 milhões de euros. É corte.
Como é habitual, a educação é um terreno privilegiado para os cortes orçamentais pelo que globalmente a proposta não surpreende. No entanto, como sempre, é importante não esquecer os riscos desta política cega e suicida.
Está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.
Sendo certo que importa racionalizar custos e optimizar recursos combatendo desperdício e ineficácia, o caminho que temos vindo a percorrer é justamente o contrário, o desinvestimento na educação, do básico ao superior com custos que o futuro se encarregará de evidenciar.
O empobrecimento e o desinvestimento em educação nunca poderão ser factores de desenvolvimento.

AS UNIVERSIDADES DE VERÃO. O FUTURO PASSA POR AQUI

"CDS aposta em “jovens quadros” num ano em que o PS suspendeu a Universidade de Verão"

Com o ensino superior a viver momentos agitados face ao desinvestimento do MEC e à conjuntura desfavorável, existe um pequeno nicho do ensino “universitário” que no final do Verão entra em franca actividade e sem aparentes sobressaltos.
Refiro-me às Universidades de Verão organizadas pelas estruturas partidárias. Devido à disputa interna o PS não realiza a sua Universidade de Verão, o PSD mantém a tradição e o CDS-PP avança com uma coisa mais moderna, “A Escola de Quadros”.
Confesso que fico sempre impressionado com estas iniciativas e julgo que devem ser olhadas com particular atenção.
Em primeiro lugar porque penso que os estudantes que as frequentam, depois de passarem por sucessivos dispositivos de selecção e exames que certifiquem a qualidade da sua preparação, são certamente de um nível de excelência que autoriza a pensar estarmos na presença de uma elite de que o país muito espera e, seguramente, beneficiará.
Por outro lado, o corpo docente destas Universidades é todo ele de uma qualidade científica que obviamente levará a que os estudantes se sintam verdadeiramente privilegiados pela oportunidade de lidar com professores de uma craveira ímpar.
Para além de figuras reconhecidas do mundo universitário, os estudantes têm a possibilidade de ouvir lições de notáveis “aparelhistas” dos respectivos partidos que carregam uma enorme experiência em alpinismo social político, em jogos de bastidores e em gestão de interesses que contribuirão de forma marcante para a formação dos jovens quadros que estão na forja e seguirão as passadas de figuras brilhantes e incontornáveis de ex-jovens quadros como Pedro Passos Coelho ou António José Seguro.
Na verdade, estas Universidades de Verão, ou escola de Quadros, culminam um longo trabalho de formação e qualificação produzido pelas juventudes partidárias e que finalmente é certificado com a excelência aqui atingida.
É nestas actividades académicas que se forjam verdadeiramente os líderes de amanhã, é importante segui-las com atenção. O futuro passa por aqui.

PARTIU ROBIN WILLIAMS

Partiu Robin Williams. Fica, como sempre, a memória.



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

PEDE REVISÃO, PÁ. A NOTA SOBE QUASE SEMPRE

"Valeu a pena pedir revisão dos exames para a maioria dos alunos"

Após o termo da época de exames são regularmente divulgados dados que me causam alguma perplexidade até pela forma discreta como são acolhidos.
No ensino secundário, nos exames da primeira fase, em 73% dos 7081 pedidos de revisão das provas verificou-se a subida da classificação, em 17% manteve-se e em 10% a nota desceu.
No ensino básico em 1187 pedidos de revisão, 82% registou subida, 11% manteve a nota e 7% desceu.
Esta situação, recorrente nos últimos anos, causa-me, alguma estranheza e dificuldade de entendimento além de que, creio, mina de forma severa a credibilidade e confiança no sistema de avaliação.
Sabe-se que a avaliação escolar contém uma incontornável dimensão de subjectividade e complexidade, por isso, é necessário um trabalho muito consistente ao nível da qualidade dos exames, da solidez, clareza e coerência dos critérios de avaliação e, naturalmente, da competência dos avaliadores. Estes aspectos são, aliás, objecto de muitas referências na imprensa durante a época de exames.
Como explicar tal número de pedidos de revisão acolhido, na maioria subindo a classificação? Como confiar na avaliação se muitos professores aconselham os alunos a recorrer pois a probabilidade de verem a nota alterada é grande?
É fundamental que se reflicta sobre esta situação e que os exames e a sua classificação mereçam a confiança de alunos e famílias.

O ILUMINADO ALEXANDRE HOMEM CRISTO E A AVALIAÇÃO DE PROFESSORES

"Temos maus professores"

  • Alexandre Homem Cristo
O iluminado opinador Alexandre Homem Cristo ataca de novo. Os malandros, preguiçosos, incultos, pobres e desqualificados dos professores voltam a ser zurzidos pela vara inflexível do grande educador e justiceiro. O opinador teima, como outros, a confundir intencionalmente, a sinistra Prova de selecção de professores com a avaliação de professores. Socorre-se também, claro, da preciosa ajuda dos erros ortográficos que os desqualificados dos professores cometeram na prova de selecção para acesso à carreira, sublinho.
O opinador não quer, não pode ou não sabe entender, embora o saiba muito bem, é, pelo menos, Mestre nestas coisas das Políticas Comparadas, que esta sinistra Prova não avalia Conhecimentos e Capacidades para se ser professor. Só incluindo a avaliação do trabalho em sala de aula tal pode acontecer. Aliás, se fizesse algum trabalho de casa veria sem dificuldade que a utilização exclusiva de uma prova desta NATUREZA é raramente usada para seleccionar professores. Presumo que aceitará que os inúmeros países, muitos dos que nos estão mais próximos, que não usam um dispositivo desta natureza não estarão todos errados ou não preocupados com a competência dos seus professores.
Dito isto, é verdade que os erros em Língua Portuguesa que se verificaram na Prova merecem, evidentemente, análise e reflexão. No entanto, não branqueiam a aberração humilhante e completamente desadequada que esta prova representa e muito menos confundir intencionalmente e de forma manhosa esta aberrante prova com avaliação de professores
Creio que tudo isto parece razoavelmente claro mas, como é evidente, Alexandre Homem Cristo corre noutra pista, tem uma outra agenda.

UM PAÍS DO AVESSO

"Portugal perdeu quase meio milhão de jovens na última década"

O país tem vindo a enfrentar um esvaziamento da camada de população mais jovem. Entre o abaixamento dos nascimentos e a emigração forçada de muitos milhares de jovens por não vislumbrarem a possibilidade construir um projecto de vida viável por cá, perderam-se quase meio milhão de pessoas entre os 15 e os 30 anos.
Os que resistem lutam com um desemprego catastrófico, a proletarização do mercado de trabalho empreendida em nome de uma suicidária ideia de que o empobrecimento nos fará ricos e desenvolvidos e níveis de precariedade que arruinam qualquer ideia de estabilidade e construção de vida pessoal e autónoma.
Prolonga-se a estadia em casa dos pais e adiam-se ou eliminam-se projectos de parentalidade que alimentarão a, como agora se diz, espiral recessiva em matéria de nascimentos.
No meio, temos um grupo etário, entre os 30 e os 60, marcado por desemprego de longa duração e abaixamento extraordinário de rendimentos, assustado com um presente e um futuro próximo que não vislumbrava e  se sente ameaçado e inseguro com o chão que sente fugir debaixo dos pés. Finalmente, depois temos os velhos, a maioria com rendimentos que não asseguram um fim de vida sereno e tranquilo, muitos vivem sós, alguns isolados, a padecer de sozinhismo ou, muitos outros emprateleirados em lares, às vezes clandestinos pois o preço é mais acessível. 
O país parece virado do avesso, perde os jovens, destrata os do meio e descuida dos velhos.

O CHAMAMENTO

"A campanha por Santana Lopes à Presidência já começou no Facebook"

Parece estar em andamento o caminho que levará o Menino Guerreiro, o Dr. Santana Lopes, à candidatura à presidência da República com o apoio do PSD.
É verdade que a bem jogada aparição de Marcelo Rebelo de Sousa, mais conhecido por "O Professor" no Congresso do PSD veio baralhar as contas. A coisa estava a correr bem depois da anunciada "desistência" do Professor Marcelo face ao perfil presidencial enunciado por Passos Coelho na sua moção de estratégia, mas o malabarismo político de Marcelo atrapalhou o caminho.
O contacto que a Provedoria da Santa Casa da Misericórdia lhe permitiu com o mundo real, a vida é assim, tem destas voltas, mudou-lhe o estilo, agora funciona em modo solidariedade social. Nunca é tarde para se conhecer o mundo real e a preocupação enunciada com os mais pobres é sempre uma mais valia nos discursos.
Por outro lado, como transparece na suas sucessivas entrevistas nos últimos tempos, Santana Lopes empenha-se denodadamente para nos mostrar como sempre foi um homem esclarecido, lúcido, com razão antes do tempo e com uma visão salvífica para o país.
Na verdade, como já tinha afirmado em 2013 ao Diário Económico, Santana Lopes está a sentir o chamamento para a missão de, mais uma vez, se sacrificar e colocar a sua genialidade ao serviço do País.

A coisa promete.

domingo, 10 de agosto de 2014

A SUPER LUA

Está uma noite de Super Lua, uma Lua Grande ainda maior que a Cheia. Aqui no Monte, no Meu Alentejo, sem luzes por perto, está mesmo ali pertinho, ao alcance da mão. 
Na verdade parece maior e mais brilhante.
Talvez consiga acolher e iluminar todos os miúdos que, dizem, passam o tempo com a cabeça na Lua.

O CARRO VASSOURA

"Lisboa confirmou primeira Volta para Gustavo Veloso"

Terminou hoje a Volta a Portugal. Quando vejo notícias sobre a Volta Portugal lembro-me de quando era miúdo e a caravana da Volta passava à beira da minha terra. Quase sempre havia uma etapa que, se bem me lembro, começava em Cacilhas, e levava aos ciclistas para Sul passando no Laranjeiro onde íamos “ver passar os ciclistas”
Era dia de romaria, ia-se cedo para encontrar o melhor local de visão e o melhor acesso aos brindes distribuídos pela "carros dos anúncios", como lhes chamávamos.
A passagem da caravana era breve e marcada pela tentativa de saber se à frente passava um ciclista do Sporting, João Roque, Firmino Bernardino ou o incontornável Joaquim Agostinho ou, claro, do Benfica, Américo Silva ou Peixoto Alves, por exemplo. O segundo grande momento era a passagem, antes dos ciclistas, dos "carros dos anúncios" e a distribuição de ninharias cuja caça era uma tarefa complicada mas um desafio irresistível. O terceiro momento mais aguardado era a passagem do carro-vassoura que nos deixava sempre um pouco a pensar e a discutir entre nós como deveria ser difícil desistir, não poder seguir com os outros, e ser recolhido numa viatura com o "simpático" nome de carro-vassoura. Quase sempre chegávamos à conclusão que um ciclista deveria mesmo sentir-se mal quando nele entrava, o que nos fazia ter "respeito", como dizíamos, pelo carro-vassoura.
Com esta memória da Volta a Portuga acesa de repente lembrei-me dos miúdos que vão entrar na escola daqui a umas semanas e que, de mansinho, mais cedo ou mais tarde, por uma razão ou por outra, começam a não ser capazes de acompanhar os outros e vão acabando, também eles, por entrar nos diferentes carros-vassoura que a vida vai pondo à frente dos que não acompanham o ritmo, seja ele qual for.
O problema é que, contrariamente ao que se passava no carro-vassoura da Volta a Portugal de onde se sai no fim de cada corrida para iniciar uma outra, muitos dos miúdos vão passar boa parte da sua vida nalgum carro-vassoura.

CASADOS POR FORA E DESCASADOS POR DENTRO

"Divórcio é um luxo em tempos de crise"

O número anual de divórcios tem vindo a diminuir. Esta situação não parece decorrer de uma maior estabilidade e duração das relações familiares mas dos custos económicos da separação e reconstrução de vidas individuais
Neste cenário tem vindo a crescer o número de situações de casais que, apesar de separados, continuam a coabitar o mesmo espaço ou que nem sequer assumem a separação, criando uma situação de "casados por fora" e "descasados por dentro", que poderá implicar, quando existem filhos, algumas ansiedades e inquietações nos pais sobre a forma de lidar com um contexto em que aparentemente existe uma família, quando na verdade já são duas com uma ou mais crianças entre elas.
Por outro lado, as crianças e adolescentes também percebem, sentem, muito bem quando as coisas se alteram. Na maioria das situações as coisas correm bem, é sempre preferível uma boa separação a uma má família, mas a convivência de um grupo de pessoas que não se separa e já não é uma família pode conter alguns riscos de insegurança e instabilidade para os mais novos.
Como sempre, há que estar atento.

sábado, 9 de agosto de 2014

AS PESSOAS QUE SOBRAM

Durante a manhã aqui no monte enquanto se andava na rega, eu e o Mestra Zé Marrafa íamos trocando umas lérias, como sempre acontece.
O Mestre Zé é homem de setenta e alguns com uma capacidade de trabalho e uma sabedoria sobre as coisas da terra e da vida alentejana que não tem fim e não poucas vezes me deixa embaraçado quando tenho de parar e ele se ri com aqueles olhos pequenos.
A conversa de hoje desenrolou-se sobre as pessoas, as suas qualidades e os seus defeitos. Às tantas, o Velho Marrafa diz que há pessoas que sobram sempre. Nunca me lembro de ter ouvido tal enunciado assim aplicado e a curiosidade levou ao pedido de explicação.
Olhou com aqueles olhos pretos sempre a rir e afirmou qualquer coisa nestes termos, "Ora Sr. Zé, uma pessoa que sobra é assim que alguém que não tem grande serventia, serve para pouca coisa, não gosta de trabalhar, não tem jeito para nada, às vezes nem para o cante ou para as lérias, que é coisa que toda a gente gosta, sobram sempre, não são companheiros para nada desta vida, olhe, alguns nem servem de companha para comer".
E continuou mais uns minutos a explicar com toda a gente deve saber e querer saber fazer alguma coisa que seja útil. Uma pessoa que saiba fazer qualquer coisa, nunca sobra, tem sempre companheiros.
Nunca tinha pensado nas pessoas que sobram, a partir deste ponto de vista. Sempre a aprender com o Velho Marrafa. 
O Velho Marrafa nunca sobra, sabe muito, é bom de companha, para usar as suas palavras.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

DEFINITIVAMENTE, NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES

"Há mais estudantes candidatos ao ensino superior do que há um ano"

Desde 2008 que a procura para frequência do Ensino Superior tem vindo a diminuir. Este ano voltou a subir o que constitui, evidentemente, uma boa notícia.
Contrariamente ao que tantas vezes se afirma não somos um “país de doutores”, antes pelo contrário, estamos ainda muito longe, apesar dos progressos dos últimos anos, de atingir a média europeia de cidadãos licenciados e mais longe ainda da meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos.
A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.

AINDA OUTRA DÚVIDA. Esta gente vai viver de quê?

"Nunca tantos idosos perderam complemento solidário como em Junho"

"Peso de desempregados sem qualquer tipo de subsídio está a subir desde Janeiro"

Entre Junho do ano passado e Junho deste ano, 52 000 idosos perderam o Complemento Solidário para Idosos, o maior abaixamento registado. É de recordar que este apoio é disponibilizado a pessoas acima dos 65 anos com rendimentos inferiores ao limite de pobreza, 409 € mensais. Trata-se de uma enormidade que colocou milhares de velhos a viverem uma vida de luxo.
Entre os mais novos a coisa também se complica, mais, aumenta o número de desempregados sem subsídio, 49.6% em Janeiro e 54.3% em Junho.
Daqui do cantinho de férias na quentura do Alentejo coloca-se-me uma outra dúvida.
É verdade que nos têm vendido e imposto o empobrecimento como caminho para a salvação.
Mas enquanto não chega a salvação esta gente vai viver de quê?

AS DÚVIDAS DOS PORTUGUESES

"Sondagem i/Pitagórica. Maioria dos portugueses não acredita no sucesso das investigações da justiça no caso BES"

Daqui do cantinho de férias na quentura do Monte no Alentejo coloca-se-me uma dúvida face aos resultados desta sondagem.
Porque será que a maioria dos portugueses não acredita no sucesso das investigações da justiça no caso BES?
Continuamos em alerta vermelho relativamente ao sistema de justiça.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

HÁ ERROS QUE CAEM DO CÉU

"Incumprimento de Acordo Ortográfico só explica 10% dos erros dos professores nas provas"

Os resultados da Sinistra Prova, designadamente, o preocupante volume de erros na Língua Portuguesa, não branqueiam a aberração humilhante que esta Prova constitui e que Crato teimosamente insistiu em promover, sabendo muito bem que um dispositivo desta natureza não pode de forma alguma avaliar Conhecimentos e Capacidades para se ser professor. Só uma avaliação que inclua o desempenho em sala de aula o pode fazer de forma adequada.
No entanto, estes resultados caíram do céu apesar de, em bom rigor, havia o exemplo espanhol, se pudesse esperar algo desta natureza ainda que de menor significado.
O Ministro ganhou uma enorme ajuda na diabolização dos professores, das suas competências e, portanto, na justificação para as suas políticas.
Estes resultados vão ser explorados "ad nauseam" sempre mostrando como a decisão sobre a sinistra Prova foi positiva e, sempre, sempre, um contributo para a excelência, para o rigor.
Basta olhar para muitos comentários nas notícias online sobre esta matéria para ver como se acentuou esta desvalorização dos professores e das suas competências. O Ministro ainda virá dizer, tal como uma sua antecessora, "perdi os professores, mas ganhei a opinião pública".
Na verdade, há erros que caem do céu.
Dito isto, importa na verdade reflectir sobre o nosso ensino, todo ele, incluindo a formação de professores, no sentido de perceber a qualidade das aprendizagens em matéria de língua portuguesa, mas não só.
Não, não estou, também eu, a responsabilizar os professores, do 1º ciclo ao superior, estou apenas a defender que a forma como a língua portuguesa é maltratada por tanta gente, com maior ou melhor qualificação académica, deveria merecer reflexão

UMAS NOTAS NO PÚBLICO ONLINE

"Estudar é caro mas a qualificação é um bem de primeira necessidade"

Umas notas minhas no Público online sobre a imprescindível necessidade de promover a qualificação dos jovens quando se verifica o abaixamento do número de alunos que terminam o Ensino Secundário e não continuam os estudos.

UMA HISTÓRIA DE TERROR

"Professora foi forçada a dar aulas em estado terminal. Filha recebe indemnização de 20 mil euros"

Esta história de terror, já comprida e agora cumprida, não podia ter acontecido.
A indignidade e o desrespeito pelo sofrimento e por direitos básicos não serão nunca ressarcidos por uma miserável indemnização.
Tão miserável como o comportamento criminoso de meia dúzia de burocratas mal formados que se satisfazem com um poder que possuem na ponta de caneta que usam para atropelar o outro, sempre mais vulnerável.
Esta gente não tem consciência, se a tivesse teria uma vida infernal. Assim são uns zombies que assombram a nossa vida nestas histórias.
Existem muitas quando se trata de decidir sobre apoios a outras pessoas, conhecemos todos algumas histórias. A frieza e a indiferença perante o sofrimento alheio são criminosas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A PRODUTIVIDADE DOS MÉDICOS

"Se as consultas demorassem só 15 minutos, não havia falta de médicos de família"

Uma auditoria do Tribunal de Contas aos serviços de saúde sugere duas orientações que pretendem a melhoria do Serviço Nacional de Saúde e que merecem umas notas breves.
A primeira orientação é aligeirar a carga de funções administrativas imputadas aos médicos libertando-os para a prática clínica. Habituados que estamos a esta excessiva burocracia nos serviços da administração e nos custos em desperdício de tempo e esforço e perda de eficácia poderá fazer sentido.
A segunda orientação e que suscita alguma inquietação envolve encurtar o tempo médio de consulta de 21 minutos, a duração média em 2013 para 15 minutos, se for "razoável" acautelam os auditores. Tal medida, afirmam, eliminaria a falta de médicos de família que afectava, em 2013, 21,4% da população utente, 1,6 milhões de portugueses que sofrem a degradante e indigna situação que as frequentes notícias reportam, a luta por uma consulta, sem garantia de a conseguir, indo a meio da noite para a porta do centro de saúde.
Aqui está uma espécie de ovo de Colombo, levando à letra a conhecida "visita de médico" haveria médicos para todos. Com um pouco mais de ambição, porque não 5 minutos ou ainda menos?
Oxalá Nuno Crato não se lembre de diminuir mais as horas de aulas para precisar de menos professores que se juntariam aos 30 000 que saíram nos últimos três anos.
Parece razoavelmente claro que para realização de uma consulta médica, não apenas o preenchimento de receituários ou da requisição de exames complementares, 15 minutos são insuficientes para um trabalho de qualidade.
Como é sabido, muitas das pessoas que recorrem às consultas são idosas que frequentemente sofrem de “sozinhismo”,a doença de quem vive só, que se minimiza no convívio com outros sós na sala de espera e na atenção de um médico que escuta, por vezes, mais a dor da alma que as dores do corpo.
Já estive envolvido em circunstâncias, pessoais ou acompanhando familiares, em que o médico claramente estava pressionado pelo tempo que (não) podia dedicar, a atitude que (não) podia demonstrar, a comunicação que (não) podia estabelecer. As muitas pessoas com horas de espera na sala inibem-no na disponibilidade e tempo necessário a uma consulta que, de facto, o seja, e não um acto administrativo realizado sob pressão da "produtividade".
Ainda assim nada que se estranhe num tempo em que os números se sobrepõem às pessoas.

PORQUE NÃO UM PORTUGAL BOM E UM PORTUGAL MAU?

Esta decisão engenhosa de resolver os problemas causados pela gestão fraudulenta do Grupo BES criando um Banco Bom e um Banco Mau pode ser inspiradora a uma escala maior.
Considerando os problemas graves do País, porque não criarmos um Portugal Bom e um Portugal Mau. Talvez sejamos capazes.
No Portugal Mau ficariam todos os activos tóxicos produzidos por décadas de partidocracia e defesa de interesses de ocasião em vez do interesse geral.
Poderiam ficar boa parte das lideranças, das famílias, que têm determinado o estado de coisas a que chegámos.
Poderiam ficar os activos que hipotecaram a nossa soberania aos ditados dos mercados. Poderiam ficar os mamarrachos e atentados ao património, cultural, arquitectónico e natural que foram realizados quase sempre na maior impunidade.
Poderiam ficar, enfim, todos os que nos trouxeram até aqui.
No Portugal Bom ficariam os activos e património valiosíssimos que o país ainda possui e que têm sobrevivido à sanha destruidora de boa parte dos que têm passado pelos diferentes poderes.
Ficariam aqueles que acham que as pessoas e o seu bem-estar são a justificação e motor dos modelos políticos, económicos, sociais e de desenvolvimento.
Ficariam aqueles que entendem que os direitos das pessoas, de todas as pessoas, não são de geometria variável.
Ficariam aqueles para quem a dignidade e a cidadania de qualidade são bens de primeira necessidade.
Ficariam aqueles que estão a partir por falta de futuro cá.
No Portugal Bom ficariam, evidentemente, muita gente e muitas coisas.

Talvez seja excessivamente optimista mas creio que o Portugal Bom seria um país rico e amigável para as pessoas.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

NÃO TEMOS QUALIFICAÇÃO A MAIS, TEMOS DESENVOLVIMENTO A MENOS

"O meu filho acabou o secundário mas não vai para a universidade"

Umas notas sobre o universo em abordagem no Público sobre os jovens que não prosseguem estudos no ensino superior.
No início do ano um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar. É também preocupante que apenas 56% dos estudantes que realizaram os últimos exames nacionais do Secundário revelaram a intenção de continuar estudos no ensino superior. O número tem vindo a baixar ao longo dos últimos anos sendo que as dificuldades económicas são a principal razão para não continuar.
É ainda de relembrar que de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia, 23,6%.
Esta informação não é nova. Na verdade e como é do conhecimento das pessoas mais perto deste universo, o ensino superior em Portugal, contrariamente ao que muita gente afirma de forma leviana, tem um dos mais altos custos de propinas da Europa. Conforme dados de 2011/2012 da rede Eurydice, Portugal tem o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerarem as excepções criadas em cada país, tem efectivamente o terceiro custo mais alto no valor das propinas.
Em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior particular o esforço é ainda maior. Percebe-se assim a taxa altíssima de jovens que exprimem a dificuldade de prosseguir estudos.
Tem vindo a ser regularmente noticiada a desistência da frequência dos cursos por muitos alunos que, por si, ou os respectivos agregados familiares não suportam os encargos com o estudo.
As dificuldades pelas quais passam muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado, são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Neste quadro, a redução significativa das bolsas e apoios, as dificuldades enormes que muitas famílias atravessam e o desemprego mais elevado entre os jovens, que poderia constituir uma pressão para continuar os estudos, as elevadas propinas, designadamente no 2º ciclo, tornam ainda mais difícil a realização de percursos escolares que promovam mobilidade social e que se traduzem, por exemplo, no aumento das desistências.
Considerando, tal como Relatório da OCDE refere, o ainda baixo nível de qualificação da população portuguesa e quando se sabe que a minimização das assimetrias depende, também, da educação e qualificação, o seu preço e as dificuldades actuais, longe de as combater, alimenta-as. Portugal é um dos países em que a qualificação de nivel superior é mais compensadora. Nós não temos qualificação a mais, temos desenvolvimento a menos.
Também o objectivo estabelecido pela UE de que em 2020 se atingisse 40% de licenciados entre os 30 e os 34 anos parece cada vez mais inatingível.
Boas férias se e quando for caso disso.

MISERICÓRDIA PARA O MENINO GUERREIRO

"Futuro da Misericórdia de Lisboa pode estar em causa, dizem auditores"

Aqui do cantinho de férias, esta notícia sobre a gestão do Menino Guerreiro, o Dr. Santana Lopes, na Misericórdia de Lisboa parece-me que só pode ser mau-olhado ou uma campanha negra da imprensa inimiga.
O Dr. Santana Lopes tem-se esforçado tanto para mostrar como a idade lhe trouxe sensatez, solidariedade paa com os problemas sociais e se converteu à missão de ajudar o próximo e agora vêm estas auditorias levantar problemas. É uma jogada, evidentemente.
Agora que o Governo tinha decido reconduzi-lo para novo mandato à frente dos destinos da Misericórdia e com tanto bem-fazer que ainda está por fazer, vêm dizer que gere mal e a Misericórida pode ficar em apuros. São uns malandros.
Agora que o Dr. Santana Lopes sentiu o chamamento e se perfila para se candidatar a Belém, surge esta notícia a dificultar-lhe a vida. Só pode ser medo e desespero face à entusiasmante possibilidade de em vez da figura baça e circunspecta de Cavaco Silva, termos como Presidente uma figura sólida, coerente, com ideias claras e conhecidas, com um currículo extraordinário e com sentido de estado. Um homem que começou a sofrer ainda na incubadora mas é assim que se forjam os grandes homens.
Não desista Dr. Santana Lopes, o seu destino é servir. Apenas precisa de estar atento e decidir a quem, como e quando. No caso da Misericórdia também tem servido e bem alguns amigos com o cartão partidário certo.

O BANCO BOM MAIS O BANCO MAU. E O BANCO DOS RÉUS?

"Crédit Agricole admite processar antiga equipa de gestão do BES"

Aqui no cantinho de férias, ou melhor, do repouso activo, surge-me uma interrogação sobre esta engenharia do Banco de Portugal e patrocinada pelo Governo para lidar com os desvarios fraudulentos no Grupo Espírito Santo.
Sabemos que foi decido criar dois Bancos, o Banco Mau e o Banco Bom, chamam-lhe Novo Banco.
Considerando o que já vai sendo conhecido e que o sonolento Banco de Portugal, tal como no BPN, deixou prolongar mais do que devia, parece cada vez mais evidente que é imperativo criar um terceiro Banco, o Banco dos Réus.
A questão é que parece existir uma incompatibilidade estrutural entre as mega-fraudes e a justiça em Portugal. Não é verdade Dr. Dias Loureiro? Não é verdade Dr. Oliveira e Costa? Não é verdade Dr. João Rendeiro? Não é verdade Dr. ...?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

OS RESULTADOS DA SINISTRA PROVA, UMA DUPLA HUMILHAÇÃO

"1500 professores chumbaram na prova de conhecimentos"

"Quase 86% dos candidatos a professores passam na prova de avaliação"

Foram conhecidos os resultados da Sinistra Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades para acesso à carreira de docente. Recordemos que esta prova foi realizada por docentes com menos de 5 anos de serviço, alguns com prática avaliada. Uma nota breve para sublinhar uma visão de copo meio cheio do Público e outra de copo meio vazio do Expresso.
Os resultados são curiosos, por assim dizer. Dos 10220 docentes que sofreram a humilhação de realizar uma insustentável Prova que só a teimosia, a arrogância e incompetência de Nuno Crato impuseram, quase 15% chumbou e a média ficou-se pelos 63%.
Os "chumbados" não poderão candidatar-se a dar aulas no próximo ano, justamente o que o MEC pretendia. Contrariamente aos exames de 4º e 6º ano nesta prova não será dada uma segunda oportunidade para que, depois de um período de explicações e estudo, os professores ignorantes e preguiçosos e que nem português conseguem escrever sem erros possam melhorar os resultados.
O Ministro Nuno Crato veio dizer, claro, que estes resultados mostram como é importante a prova que avalia capacidades lógicas e o conhecimento do português, dimensões fundamentais para ser professor. Um modelo de demagogia e oportunismo na defesa do indefensável.
Se esta Prova, um conjunto de charadas e perguntas de interpretação com resposta múltipla e um texto curto (250 a 350 palavras no qual 63% dos candidatos cometeu erros ortográficos, parte dos quais resultante, certamente, do atentado à Língua Portuguesa que dá pelo nome de Acordo e que agora alimentam uma discussão importante mas não essencial, neste contexto) de comentário, tivesse alguma coisa a ver com a função de professor, teríamos sérias razões para ficarmos preocupados com estes resultados e com a preparação dos pessoas que se candidatam a professor alguns já com anos de experiência. As escolas superiores e as universidades deveriam sentir-se muito incomodadas com o resultado do seu trabalho.
Acontece que, como qualquer pessoas minimamente conhecedora destas matérias entende, os conhecimento e as capacidades para se ser professor não são de todo avaliáveis por um dispositivo deste tipo. Crato também sabe disso, evidentemente, mas a manha e a agenda determinam este caminho.
Nuno Crato aproveitou a sua existência legal, está prevista desde 2007, para num exercício, mais um de, de desbaste nos professores e candidatos a professores eliminar uns quantos.
Se a realização da sinistra Prova constituiu uma página negra da educação em Portugal, os seus resultados são a cena final deste filme de mau gosto e representam uma dupla humilhação.
Crato não será absolvido pela história, é mau demais este episódio.

O ÍMPETO REFORMISTA DE NUNO CRATO

"Crato "cortou" 30 mil professores em três anos letivos"

"Reorganização da rede, da oferta pedagógica e do trabalho nas escolas. Aposentações em massa. Incentivos à rescisão de contrato. Com estes fatores, desde 2011-12, a rede pública perdeu em média dez mil professores por ano"

A análise dos dados da demografia discente e da saída de docentes nos últimos anos mostra com clareza que a justificação da demografia para os cortes no número de professores carece de sustentação, não existe proporcionalidade entre as variações da demografia escolar e a saída de professores. Esta saída muito significativa é bem mais resultado da PEC - Política Educativa em Curso que das variações do número de alunos. Vejamos alguns exemplos.
Em primeiro lugar, a mudança no número de professores necessário decorre do aumento do número de alunos por turma que, conjugado com a constituição de mega-agrupamentos e agrupamentos leva que em muitas escolas as turmas funcionem com o número máximo de alunos permitido e, evidentemente, com a as implicações negativas que daí decorrem.
As mudanças curriculares com a eliminação das áreas não curriculares que, carecendo de alterações registe-se, também produzem um desejado e significativo “corte” no número de professores, a que acrescem outras alterações no mesmo sentido.
O Ministro “esquece-se” obviamente destes “pormenores”, apenas se refere à demografia e aos recursos disponíveis para, afirma, definir as necessidades do sistema.
Por outro lado, o Ministério tem também vindo a sustentar o número de vagas definido com “a actual conjuntura económica e financeira” pelo que promove “a empregabilidade possível”, sendo que as “vagas colocadas a concurso foram definidas em função das necessidades reais e futuras do sistema” o que aliás nem sequer corresponde ao que na verdade aconteceu e, provavelmente, irá acontecer.
Como já tenho referido, parece-me claro que a questão do número de professores necessário ao funcionamento do sistema é uma matéria bastante complexa que, por isso mesmo, exige serenidade, seriedade, rigor e competência na sua análise e gestão, exactamente tudo o que tem faltado nesta matéria, incluindo a alguns discursos de representantes dos professores.
Para além da questão da demografia escolar que, aliás, o MEC tratou de forma incompetente e demagógica, importa não esquecer uma multiplicidade de aspectos como variáveis de natureza organizacional das escolas e agrupamentos, variáveis de contexto que num quadro real de autonomia solicitam diferenciação nos recursos docentes das escolas e agrupamentos, adequação dos recursos em matéria de apoio ao trabalho de alunos e professores, etc., etc.
No entanto, à cautela e com efeitos preparatórios, já se tem vindo a avisar que o número de alunos vai ser revisto em baixa. Tal como o dos professores.

OS VIDEOJOGOS E OUTROS ECRÃS NA VIDA DOS MIÚDOS

"Jogar videojogos uma hora por dia torna as crianças mais felizes e sociais"

Segundo um estudo com a chancela da Universidade de Oxford o uso moderado dos videojogos, até uma hora por dia, pode ter efeitos positivos nas crianças. A utilização mais demorada, acima das três horas, repercute-se negativamente em aspectos psicossociais.
É sempre interessante aprofundar o conhecimento sobre estas matérias mas o estudo não traz nada de novo e, do que se conhece, não foi considerada uma variável extremamente importante, o tipo de videojogos.
Volto a umas notas sobre esta matéria tão dentro da vida dos miúdos e adolescentes.
Na verdade, a utilização dos videojogos não é uma matéria de simples abordagem, existem opiniões de sentido bem diferente.
Uns opinam que os estudos sugerem riscos no uso excessivo destes materiais, recordo uma conferência há algum tempo realizada no ISCTE por Bruce D. Bartholow. Por outro lado, alguns socorrem-se de estudos que não encontram nenhuma relação de causa efeito entre o consumo de vídeojogos violentos e o desencadear de comportamentos de extrema violência, sendo ainda que existe quem defenda, em abstracto, o potencial educativo dos vídeojogos. Sobre este último ponto recordo um Relatório de 2009 do Parlamento Europeu coordenado por Toine Manders em que se afirmava, curiosamente, que os resultados “contradizem muitos estudos que sublinham a dependência e a violência que os videojogos podem provocar nos mais pequenos, deixando alguns pais mais tranquilos” e, citando o próprio relatório, os vídeojogos estimulam “a aprendizagem de factos e habilidades como a reflexão estratégica, a criatividade, a cooperação e o sentido de inovação”. O relatório também referia, no entanto, que alguns vídeojogos podem não ser apropriados. O acesso extraordinariamente facilitado a videojogos com conteúdos obviamente desajustados algumas idades constitui justamente a base das opiniões mais cautelosas.
Julgo que se trata de uma matéria em que, por estranho que pareça, todos podem ter razão, ou seja, em muitas crianças, adolescentes ou adultos, comportamentos de enorme violência aparecem associados ao consumo de vídeojogos violentos mas nem todos os miúdos adolescentes ou jovens que os consomem desenvolvem comportamentos de violência, daí a inexistência de uma relação de causa-efeito.
A questão, do meu ponto de vista, não é sobre se os videojogos fazem mal ou se fazem bem, é sobre o tempo que ocupam na vida dos miúdos e a qualidade e os conteúdos disponíveis considerando a idade das crianças. Muitos de nós, especialistas ou não, inquietamo-nos com o tempo excessivo que muitas crianças e adolescentes passam sós, ou com outros "sós" do outro lado, agarradas a um ecrã, numa espécie de teledependência pouco positiva. Esta preocupação não tem nada a ver com um entendimento definitivo de que os vídeojogos fazem mal. Existem excelentes vídeojogos que, naturalmente, serão úteis e positivos na vida dos miúdos.
Uma outra questão, é o espaço que estes produtos ocupam na vida dos miúdos. Segundo alguns estudos, perto de 50% das crianças até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel e também se conhece o tempo imenso que muitas crianças e adolescentes dedicam aos ecrãs. Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.
Comer faz bem às crianças, mas comer excessivamente e produtos de má qualidade, provoca sérios problemas de saúde. Que se eduque o consumo, sem se diabolizar ou exaltar disparatadamente o produto.

Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais, eles próprios com níveis baixos de alfabetização informática. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para que a utilização imprescindível seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.