terça-feira, 22 de julho de 2014

RESULTADO DA PROVA: UMA PÁGINA NEGRA PARA A EDUCAÇÃO

"“Nenhum professor será prejudicado”, diz Nuno Crato"

"Faltas de professores do quadro estão a inviabilizar provas em várias escolas"

Já não é o tempo de ouvir, pela enésima vez, o MEC afirmar que tudo decorreu dentro da "normalidade" quando são conhecidas muitíssimas perturbações ou os representantes dos professores afirmarem mais uma grande vitória pois em algumas escolas a sinistra Prova não se realizou.
Na verdade, o saldo deste processo que se iniciou, é bom lembrar, em 2007 com a institucionalização desta Prova e que Crato recuperou da maneira aberrante que temos vindo a assistir com um primeiro episódio em 18 de Dezembro de 2013, é profundamente negativo.
Já o tenho afirmado, este processo estabelece uma das páginas mais negras da educação em Portugal e um enorme humilhação e desrespeito à classe docente, a todos os Professores.
Em termos breves e em jeito de balanço, estabelecer uma Prova de acesso à carreira docente que não envolva avaliação das práticas durante algum tempo é, podemos afirmar assim, incompetência. Nenhuma prova, finita, curta e que não envolve o trabalho educativo pode avaliar a preparação de um professor para leccionar.
Mas Nuno Crato consegue ir mais longe, recupera a Prova definida em 2007 e constrói um modelo com uma componente comum, com itens de resposta múltipla e que mais não são do que charadas lógicas sem qualquer relação com o exercício da profissão professor e uma "resposta extensa orientada" com um número de palavras entre 250 e 350 a que acresce uma Componente específica sobre a disciplina que o docente se propõe leccionar.
A esta aberração sujeitar-se iam todos os professores que não estão nos quadros. Acontece que muitos destes professores são-no há vários anos, com prática avaliada e a reacção foi imediata. Com a colaboração prestimosa da FNE, o MEC assume a generosidade de decidir que a Prova só deverá ser realizada peos professores com menos de 5 anos. Acrescenta-se, assim, incompetência e manha pois que diferença de "Conhecimentos e Capacidades" existirá entre professores com mais ou menos uns dias de experiência.
Marca-se a data para Sinistra Prova e o alarido e confusão foram grandes pelo que muitos docentes não a realizaram. O MEC insiste, elimina a componente específica como se passasse a confiar no antes desconfiava, o conhecimento científico dos professores sobre o se propõem ensinar, e num processo absolutamente indigno e deplorável em ética e transparência, cheio de habilidades certamente "normais", marca nova Prova, a que hoje se estará a realizar.
Não é possível que alguém conhecedor deste processo e dos seus conteúdos, designadamente do modelo de Prova, possa aceitar tal ofensa e humilhação. Não é acertando na resolução de problemas de lógica que se evidencia qualidade e preparação para se ser professor. Esta Prova não tem rigorosamente a ver com a avaliação de desempenho dos professores, confusão que transparece em inúmeros comentários que se ouvem e lêem. Tal confusão, creio, será, também, da responsabilidade também dos professores e seus representantes. Ao MEC interessa uma opinião pública mal informada e "contra" o professores como scessivas equipas da 5 de Outubro têm alimentado.
De facto, para terminar, o saldo de tudo isto é algo de muito negro para a educação em Portugal, pelo modelo de avaliação, pelo processo, pelo modelo e contéudos da Prova e, sobretudo, pela humilhação e desrespeito aos professores e pela sua profissão, cujos saberes compeência não cabem em 32 itens e uma resposta "extensa orientada" até 350 palavras.
Tentei ser sintético mas gastei neste balanço 583 palavras. Chumbava, como chumbaria este Ministro se fosse sujeito a um exame.

EXAME FÁCIL OU DIFÍCIL? DEPENDE.

"Exame de Matemática foi “extenso” e “não respeitou o programa”"

Quando era aluno do Básico e do Secundário não me lembro de achar que um teste ou exame era fácil. No entanto, sempre havia um adulto por perto que fazia questão de afirmar que para quem sabe, os testes e exames não são difíceis, só para quem não sabe. Ouvia e seguia o meu caminho num tempo em que a pressão para a excelência como condição de sucesso ainda não tinha sido inventada ou, pelos menos, não era muito generalizada, o que me permitiu ir fazendo um trajecto sem rasgos mas bem sucedido até ao final do Secundário e entrar no superior para cumprir a paixão que se mantém até hoje.
Vem esta introdução, provavelmente, estranha, a propósito de uma questão que me parece sempre curiosa, as apreciações divergentes sobre a dificuldade dos exames realizadas pelos especialistas, ou seja, por gente que sabe.
De facto e por exemplo, é sempre com curiosidade que vejo a divergência frequente entre a Associação dos Professores de Matemática e a Sociedade de Matemática na apreciação ao grau de dificuldade dos exames nacionais da disciplina. Desta vez trata-se do exame de da segunda fase do 12º e, para não variar, a Associação dos Professores de Matemática acha o exame “demasiado extenso” e “não respeitou o programa” pelo que  os alunos com médias do secundário entre os 10 e os 12 valores “não têm hipótese nenhuma no exame”. No meu tempo estaria liquidado.
Ao contrário a Sociedade Portuguesa de Matemática considera que o exame conforme os programas e o exame de ontem “permite que o aluno médio, que se tenha preparado devidamente, possa obter uma classificação que reflita adequadamente o seu nível de conhecimentos e preparação”.
Como se explica esta recorrente divergência?
Volto à minha questão, os exames constituem-se, do meu ponto de vista, como uma arma privilegiada da gestão política do universo da educação.
Neste contexto, através da "modulação", por assim dizer, da sua dificuldade, poder-se-á influenciar os resultados no sentido esperado e mais favorável a interesses de circunstância. Da mesma forma, acreditando na competência científica dos elementos de diferentes entidades que se pronunciam sobre a dificuldade ou ajustamento das provas, as divergências tão significativas estarão certamente contaminadas por outros factores como visão da educação, o papel dos exames, a conflitualidade partidária, etc.
Não é que não possa acontecer e ser legítima a diferença. Apenas me parece que tudo devia ser mais claro e transparente.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O CONSENSO RELATIVO À SINISTRA PROVA

Num país onde tanto se fala de consensos e da sua falta, aqui fica um consenso registado às 18:48 relativo à sinistra Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades para o exercício da profissão docente.

(No Público online)

Parece-me curioso este resultado.

OS AMIGOS SÃO PARA AS OCASIÕES

"Contrato de 2,5 milhões para ex-colaborador de Passos"

"Fernando Sousa, antigo colaborador de Pedro Passos Coelho na Tecnoforma, empresa em que o atual primeiro-ministro foi consultor, ganhou um contrato público de 2,5 milhões de euros para "seleção, eliminação e inventariação das fontes documentais existentes nos Governos Civis", através do Cepese (Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade)."

O que sempre escrevo a propósito dos recorrentes episódios elucidativos dos negócios da família.

"A roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma família alargada que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre entidades e empresas públicas e entidades privadas, promovendo frequentemente em negócios que insultam os cidadãos. 
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios obscuros de natureza multifacetada e de escala variável, desde o jeitinho para o emprego para o amigo até aos negócios de muitos milhões.
Acontece ainda e isto tem efeitos devastadores, que muitos dos negócios que esta família vai realizando envolve com frequência dinheiros públicos e com pesados encargos para os contribuintes.
Esta família conta ainda com a cooperação de um sistema de justiça talhado à sua medida pelo que raramente se assiste a alguma consequência decorrente dos negócios da família.
Curiosamente, mas sem surpresa, todos os membros desta família, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.
Esta é a pantanosa pátria, nossa amada." 

Aguarda-se o próximo episódio.

PENSAR FAZ DOER

"Pensar é muito incómodo. Cientistas tentam saber porquê"

Cientistas vêm agora sustentar que "pensar incomoda".
É verdade, todos, quase todos, o sentimos, pensar faz doer, às vezes muito doer, mesmo.
Provavelmente, é essa a razão pela qual tanta gente não "pensa".
Vive muito mais feliz ou, pelo menos ... pensa que sim.

PÃO E CIRCO

Na falta do pão que não falte o circo.


UMA PROVA SINISTRA, UM MINISTRO SINISTRO


"Ministério da Educação não quer sindicatos dentro das escolas no dia da prova dos professores"

A participação dos docentes em plenários convocados para o dia de realização da sinistra Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (?!) como resposta ao eticamente delinquente processo desencadeado pelo MEC não lhes retira salário.
Por outro lado, a participação dos docentes, avaliados e "vigilantes", na sinistra Prova rouba-lhes a dignidade, a todos, incluindo os que nela não estão envolvidos.
Em novo desenvolvimento, o MEC esgravatou no arsenal do armamento e da manhosice mascarada de "tudo dentro da legalidade" e em nome do "rigor" e da "excelência" e desencantou uma proibição de permanência na escola de pessoas não envolvidas na Prova com o fim de boicotar a realização das reuniões convocadas pelos sindicatos.
Não sei se a decisão do MEC tem cobertura legal, eventualmente terá. Aliás acho irrelevante. Entendo que não pode valer tudo para provocar e insultar uma classe. Não me lembro de alguma vez ter visto mobilizar tal medida mas Nuno Crato já não me consegue surpreender em manha, despudor e um comportamento ético que indigna e revolta.
Está a escrever-se uma página muito negra da educação em Portugal. O MEC bateu no fundo.
E no fundo está certo. Para uma Prova sinistra um ministro sinistro

domingo, 20 de julho de 2014

ESTUDAR É MUITO CARO

"Abertas as candidaturas a bolsas de 1200 euros por ano para “retomar” o ensino superior"

No início do ano um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar. É também preocupante que apenas 56% dos estudantes que realizaram os últimos exames nacionais do Secundário não revelam a intenção de continuar estudos no ensino superior. O número tem vindo a baixar ao longo dos últimos anos sendo que as dificuldades económicas são a principal razão para não continuar.
É ainda de relembrar que de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia, 23,6%.
Esta informação não é nova. Na verdade e como é do conhecimento das pessoas mais perto deste universo, o ensino superior em Portugal, contrariamente ao que muita gente afirma de forma leviana, tem um dos mais altos custos de propinas da Europa. Conforme dados de 2011/2012 da rede Eurydice, Portugal tem o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerarem as excepções criadas em cada país, tem efectivamente o terceiro custo mais alto no valor das propinas.
Em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior particular o esforço é ainda maior. Percebe-se assim a taxa altíssima de jovens que exprimem a dificuldade de prosseguir estudos.
Tem vindo a ser regularmente noticiada a desistência da frequência dos cursos por muitos alunos que, por si, ou os respectivos agregados familiares não suportam os encargos com o estudo.
As dificuldades pelas quais passam muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado, são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Neste quadro, a redução significativa das bolsas e apoios, as dificuldades enormes que muitas famílias atravessam e o desemprego mais elevado entre os jovens, que poderia constituir uma pressão para continuar os estudos, as elevadas propinas, designadamente no 2º ciclo, tornam ainda mais difícil a realização de percursos escolares que promovam mobilidade social e que se traduzem, por exemplo, no aumento das desistências.
Considerando, tal como Relatório da OCDE refere, o ainda baixo nível de qualificação da população portuguesa e quando se espera e entende que a minimização das assimetrias possa, também, depender da educação e qualificação, o seu preço e as dificuldades actuais, longe de as combater, alimenta-as.

TRANSPARÊNCIA NO DIZER

Muitas vezes nos referimos à riqueza e criatividade da língua portuguesa. Uma das particularidades que mais me fascina, é a forma como mascaramos ideias ou sentimentos através das expressões utilizadas. Alguns exemplos para ilustrar este comportamento.
Quando a alguém, sisudo e triste, perguntamos, “o que é que tens?”, deveríamos utilizar um mais difícil “o que é que te falta?”.
Quando a uma pergunta sobre o seu bem-estar nos respondem “assim, assim” ou “vamos andando”, deveremos entender “não estou bem”.
Quando a resposta a um retórico “tudo bem?” é um apagado “cá estamos”, deveremos acrescentar “mal, cansado e sem ânimo”.
Quando a uma solicitação de ajuda ou conselho, ouvimos “nem sei o que te diga”, deveremos entender, “sei o que te diga, mas não sei se devo ou posso”. Quando uma apreciação a algo é “nada por aí além”, deveremos considerar que é algo “muito aquém”. Quando alguém “não é particularmente interessante”, quer dizer que é um chato que não se aguenta.
Noutra formulação, quando alguém “até nem é mau tipo”, deve entender-se que é um fulano intragável.
Quando se diz de alguém é "interessante" deve entender-se como "é esquisito".
Quando se diz de alguém que se conheceu "é simpático, parece uma pessoa simples" deve entender-se "não parece muito inteligente".
A incerteza sobre “como é que te hei-de explicar” significa, na verdade, “duvido que sejas capaz de entender”.
Já imaginaram o custo pessoal e social que teria a transparência no dizer?

A ABSURDIDADE DA SINISTRA PROVA

"Afinal, o que é que um professor tem de saber para dar aulas?"

Foi conhecido o modelo para a sinistra Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (?) que se realiza no próximo dia 22 numa manobra inqualificável, eticamente delinquente, do MEC.
Esta sinistra Prova não terá a componente específica, os conteúdos próprios das disciplinas que os professores se propõem leccionar. Talvez Nuno Crato se tenha convencido que os professores têm conhecimento científico das matérias que ensinam.
A componente comum mantém o seu insultoso modelo, 32 itens de escolha múltipla (80% da "nota" a atribuir ao docente) e uma "pergunta de desenvolvimento" como dizem os alunos, que deverá compreender ente 250 e 350 palavras. O MEC chama chama-lhe "resposta extensa orientada” (!!!) com o peso de 20% na "nota" final.
As questões de resposta múltipla, tal como em Dezembro, serão do tipo de questões e problemas de lógica que se encontram nas revistas para entretenimento e servem de "exercício" mental.
Se não estivéssemos em presença de algo muito sério tudo isto seria anedótico. Ninguém minimamente conhecedor do trabalho de professor pode aceitar que assim se avaliam "Conhecimentos" e "Capacidades" para o exercício da profissão de professor. Só por existir, esta Prova é aberrante, nestes termos é um insulto à inteligência, aos conhecimentos sobre ensino e aprendizagem, aos professores, a todos os Professores, designadamente aos que a irão (?) realizar e aos que a irão (?) vigiar e corrigir.
Deixem-me recordar uma pequena história. No dia 18 de Dezembro, durante a tarde, estava a participar num programa de SIC sobre a Sinistra Prova. O jornalista tinha-me perguntado porque lhe chamo sinistra. A certa altura os espectadores podiam intervir pelo telefone. Uma professora que entrou em linha, disse que tinha realizado a Prova e começou a ler algumas das questões. Confesso que até eu fiquei embaraçado, todas as pessoas que estavam no estúdio se começaram a rir do disparate de perguntas que, supostamente, deveriam avaliar "Conhecimentos" e "Capacidades" para se aceder à carreira de professor. O jornalista percebeu melhor porque razão chamaria eu sinistra a esta aberração.
Como já referi e em Dezembro sublinhei, esta sinistra Prova de Avaliação e Conhecimentos Capacidades é uma ofensa. Mas não é uma ofensa aos que a vão realizar, é uma ofensa a Todos os Professores.

sábado, 19 de julho de 2014

MAS AS CRIANÇAS, SENHORES,

porque lhes dais tanta dor?
Porque padecem assim.

"As crianças são a principal baixa da guerra em Gaza"

Nada pode justificar tal brutalidade.

A INDOMESTICÁVEL VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

continua.

"Número de presos condenados por violência doméstica quadruplicou em quatro anos"

Para além da gravidade e frequência com que continuam a acontecer episódios gravíssimos de violência doméstica, é ainda inquietante o facto de que alguns realizados em Portugal evidenciam um elevado índice de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando mais qualificada. Muitos dos intervenientes remetem para um perturbador entendimento de normalidade o recurso a comportamentos que claramente configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.
Importa ainda combater de forma mais eficaz o sentimento de impunidade instalado, as condenações são bastante menos que os casos reportados e comprovados, bem como alguma “resignação” ou “tolerância” das vítimas face à percepção de eventual vazio de alternativas à separação ou a uma falsa ideia de protecção dos filhos que as mantém num espaço de tortura e sofrimento.
Nesta perspectiva, torna-se fundamental a existência de dispositivos de avaliação de risco e de apoio como instituições de acolhimento acessíveis para casos mais graves e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere.

O "DIRTY WORK" ENCOMENDADO PELA FCT À EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION.

"Avaliação da FCT definia à partida que metade dos centros de investigação ficaria pelo caminho"

Um trabalho muito interessante no Público sobre o recente e catastrófico processo de avaliação dos Laboratórios e Centros de Investigação veio mostrar o que a comunidade científica já sabia, aliás, mais do que saber, tinha sentido.
A coisa resume-se facilmente. A Fundação para a Ciência e Tecnologia contratou uma moribunda European Science Foundation para um trabalho sujo, liquidar parte significativa das estruturas de investigação existentes em Portugal.
Definiu à partida que metade das entidades deveriam ser eliminadas logo na primeira fase e a ESF  que fizesse o trabalho. Para dar suporte às decisões recorreu-se de forma absolutamente delirante à tirania dos índices bibliométricos através da Elsevier e constituíram-se equipas de avaliadores que sem dar a cara se dispuseram a fazer o trabalho sujo.
O resultado deste tenebroso processo é conhecido, pode aceder-se a muitos exemplos no blogue Rerum Natura onde têm sido reportados sucessivos exemplos de avaliações e tomas de posição de investigadores e estruturas.
Nas avaliações realizadas verificou-se de tudo, critérios ambíguos e falta de transparência, avaliação de áreas científicas por avaliadores fora dessa área e sem peso científico, avaliações completamente contraditórias, mal fundamentadas, sobre o mesmo trabalho, ignorância sobre algumas temáticas em avaliação, desconhecimento das variáveis contextuais, etc.
O resultado pretendido pela FCT foi atingido, boa parte do tecido de investigação em Portugal foi, vai ser, destruído. Muitos Laboratórios e Centros de investigação com resultados impostantes e reconhecidos vêem fortemente comprometido, quando não impossibilitado, o seu trabalho. É uma irresponsabilidade delinquente.
Nada disto quer dizer, evidentemente, que a investigação não deva ser avaliada e escrutinados os apoios financeiros. A questão é que esta avaliação deve ser séria e competente, com critérios claros e por avaliadores reconhecidos e competentes  nas áreas  que avaliam.
Também sem surpresa e na linha das apreciações do Ministro Nuno Crato, o Presidente da FCT, Miguel Seabra, vem dizer que o processo foi competente e adequado, promove a excelência, o rigor ... blá, blá, blá. Trata-se do estranho entendimento de normalidade que faz escola no MEC. 
A questão é que este processo montado para eliminar muitas estruturas terá custos brutais para o Portugal. Com há dias afirmava o Professor Carlos Fiolhais, esta decisão do Gobverno "está a matar a árvore do desenvolvimento”.
Na verdade, está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.
Este processo vai ameaçar, em muitos casos acaba mesmo os excelentes resultados que muitos centros, laboratórios e unidades de investigação e as instituições de ensino superior têm vindo a alcançar e que atestam o esforço e a competência da comunidade científica portuguesa e o trabalho realizado no âmbito do ensino superior e investigação, traduzidos no reconhecimento internacional das nossas instituições.
Como em quase tudo é uma questão de escolhas e prioridades de quem lidera. O problema como referia também o Professor Sobrinho Simões num entrevista de há algum tempo sobre estas questões é que "os nossos políticos têm um problema ... alguns não se apercebem do valor do ensino superior e da investigação".
A negrura crática que cai sobre a investigação vai ter consequências brutais em termos de desenvolvimento científico e económico para além, evidentemente, do impacto nas carreiras pessoais assim ameaçadas de milhares de pessoas que investigam, criam conhecimento, promovem desenvolvimento e que, provavelmente, desistem ou emigram.
E assim se destrói uma política científica que vinha a produzir  resultados positivos.
A história não os absolverá.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

É MELHOR QUE NUNO CRATO NÃO LEIA

Lei boliviana permite que crianças trabalhem aos 10 anos



"A nova legislação reflete as necessidades do país", justifica o vice-presidente da Bolívia. 

É melhor que Nuno Crato não leia. Trata-se de uma versão extraordináriamente económica do ensino dual pois dispensa a parte ensino o que potencia os efeitos de experiência nas empresas.
Como por cá também se entende que os direitos das pessoas e a Constituição são de geometria varivável, dirão que se acautelam as "necessidades do país".

PELA SAÚDE DOS MIÚDOS. E NÃO SÓ

"Aos quatro anos, mais de 90% das crianças já consome sal a mais"

Muitas vezes aqui tenho referido esta questão, os hábitos alimentares dos mais novos. Dada a sua relevância de novo umas notas.
De acordo com um estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, aos 4 anos mais de 90% das crianças ultrapassa já “os valores toleráveis de sal” para a sua idade. Tal situação é preocupante e requer urgente atenção.
Neste universo, o bem estar dos miúdos e os seus hábitos alimentares, recordo que segundo um estudo publicado na Lancet, creio que de 2013, em Portugal  28,7% dos rapazes, 27,1% das raparigas, 63,8% dos homens e 54,6% das mulheres evidenciam excesso de peso, enquanto a obesidade afecta 8,9% dos rapazes, 10,6% das raparigas, 20,9% dos homens e 23,4% das mulheres. Estes indicadores vão na linha dos que a OMS divulgou há algum tempo, sobretudo no que respeita à população mais nova.
Na Europa, mais de 27% das crianças com 13 anos e 33% com 11 têm excesso de peso. Portugal é um dos países com indicadores mais inquietantes, 32% das crianças com 11 anos têm peso a mais.
Nada de novo, recordo um estudo, “EPACI Portugal 2012 – Estudo do Padrão Alimentar e de Crescimento na Infância”, segundo o qual, 31.4% das crianças portuguesas entre os 12 e os 36 meses apresentam excesso de peso e 6.5% situações de obesidade. Os dados são preocupantes mas não surpreendem indo no mesmo sentido de dados envolvendo outras idades.
A Direcção-Geral de Saúde tem vindo a recomendar às escolas que alimentos hipercalóricos, como doces ou bolos, não sejam expostos, devendo ficar visíveis aos olhos dos alunos os alimentos considerados mais saudáveis em como estão em curso medidas no sentido de baixar a publicidade a alimentos e bebidas com maior carga calórica.
Apesar de parecer uma birra ou teimosia acho sempre importante sublinhar a importância que deve merecer a questão dos hábitos alimentares, sobretudo nos mais novos.
Recordo ainda um estudo divulgado há meses da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, encontrou 17% de rapazes e 26% de raparigas de quatro anos, sublinho, quatro anos, com excesso de peso e obesidade e níveis de colesterol elevados, um cenário verdadeiramente preocupante e de graves consequências futuras.
Creio ainda de sublinhar que estudos realizados em Portugal mostram que a obesidade infantil é já um problema de saúde pública, implicando, por exemplo, o disparar de casos de diabete tipo II em crianças.
Na verdade, a obesidade infantil afecta um número muito significativo e crescente de crianças e adolescentes e assenta fundamentalmente nos estilos de vida dos mais novos de que releva o sedentarismo excessivo e a péssima qualidade genérica ao nível dos hábitos alimentares. É de registar que as escolas têm vindo a fazer um esforço no sentido de aumentar a qualidade alimentar da oferta, o que não parece ser acompanhado pelas famílias, ilustrado pela desproporcionalidade do consumo de água e de refrigerantes no contexto familiar. Ainda não há muito, estava na sala de espera no Centro de Saúde da minha zona e uma mãe andava de um lado para o outro com uma bebé que ainda mal andava e que, evidentemente, aparentava peso a mais. Para conseguir que a miúda se calasse ia-lhe dando bolachas que eram despachadas em pouco tempo. Tal situação mostra como é preciso insistir.
Sabe-se também que em adultos e sem surpresa os números pioram, 50% dos homens e 30% das mulheres estarão em situação de pré-obesidade ou obesidade.
As consequências potenciais deste quadro em termos de saúde e qualidade de vida são muito significativas, quer em termos individuais, quer em termos sociais. Assim, e como já tenho referido, um problema de saúde pública desta dimensão e impacto justifica a definição de programas de prevenção, educação e remediação que o combatam. Provavelmente, teremos algumas reacções contra o chamado “fundamentalismo nos hábitos individuais” mas creio que são também de ponderar as implicações colectivas e sociais do problema.

No entanto, como sabemos, o excesso de peso e os riscos associados não serão, para a esmagadora maioria das miúdos e graúdos nessa situação, uma escolha individual, é algo de que não gostam e sofrem, de diferentes formas, com isso.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

OS FILHOS ESTÃO MUITO CAROS. E VÃO CONTINUAR

"Querem pôr portugueses a ter mais bebés? Arranjem-lhes um emprego"

A situação portuguesa no que respeita aos nascimentos e renovação geracional é de tal forma preocupante que qualquer iniciativa que possa contribuir para minimizar a queda de nascimentos ou, melhor, reverter esta tendência como já alguns países europeus, conseguiram, casos da França e Irlanda, é de registar.
No entanto, temo que do conjunto de medidas agora propostas pelo Primeiro-ministro com o objectivo de "remoção dos obstáculos à natalidade", acabem por se tornar algumas bem intencionadas ideias, pouco dirigidas à questão central e avulsas ou inexequíveis pois são contraditórias com as políticas que o Governo tem levado a cabo.
Como aqui escrevia há dias, Portugal integra o grupo com menores apoios sociais para que os pais fiquem mais tempo em casa com filhos pequenos sendo que sobretudo nas zonas mais urbanas, (o interior desertifica-se o que também contribui para a baixa natalidade), a oferta de estruturas formais de acolhimento de bebés crianças é insuficiente sendo que temos um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças.
Vivemos com uma taxa de desemprego que, oficialmente, ronda agora os 15% mas que sabemos atingir bastante mais gente. Muitas destas pessoas são sobretudo jovens ou mais idosos, o que, por razões diferentes, uns não podem assumir o encargo com filhos, os outros porque não têm recursos para ajudar os seus filhos, torna difícil a promoção da natalidade e as medidas anunciadas não parecem eficazes.
Importa ainda não esquecer a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc. Foi recentemente noticiado que algumas empresas exigem às mulheres um compromisso de que não irão engravidar nos próximos 5 anos. Não adianta argumentar com o quadro legal existente ou que venha a existir. Em Portugal a lei tem mais um carácter indicativo que imperativo.
Em tempos altamente competitivos com a proletarização do trabalho com cortes sucessivos nos salários e nas prestações sociais, as pessoas hipotecam os projectos de vida em troca das migalhas que permitam a sobrevivência o que lhes retira margem negocial ou liberdade de escolha.
A fiscalização e regulação são insuficientes, uso e abuso de estágios não remunerados ou miseravelmente pagos e que não asseguram continuidade, condições de trabalho degradantes cuja não aceitação implica a perda do lugar em troca por alguém ainda mais necessitado e, portanto, calado.
A promoção de projectos de vida familiar que incluam filhos implica, necessariamente, intervir nas políticas de emprego e protecção do emprego e da parentalidade, na discriminação e combate eficaz a abusos e a precariedade ilegal, na inversão do trajecto de proletarização com salários que não chegam para satisfazer as necessidades de uma família com filhos e altos custos nos serviços educativos apesar de uma escolaridade dita gratuita, por exemplo. A questão é que a política que tem vindo a ser seguida não permite acreditar que existam alterações.
Por outro lado, é urgente a acessibilidade real (na distância e nos custos) aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida.
É uma questão de futuro. Não chega um conjunto de medidas, algumas positivas, mas que podem permanecer avulsas e voluntaristas e sem impacto significativo.

A SINISTRA PROVA ESTÁ DE VOLTA COM A VERGONHA E A ÉTICA REVISTAS EM BAIXA.

"Prometidas acções de boicote para o dia da prova dos professores contratados"

Está tudo dito sobre a sinistra Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades para os professores que irá a acontecer no próximo dia 22 para os professores que não a realizaram a 18 de Dezembro. Num novo número de manha e habilidade e de indignidade a que estamos habituados por parte do Ministro, o processo foi agora desencadeado com prazos apertadíssimos e enormes dificuldades de organização com o evidente objectivo de inibir as reacções dos professores. A vergonha e a ética foram, de novo, revistas em baixa, estão no nível "lixo". Algumas notas.
Não é necessário conhecimento muito sofisticado na área da Avaliação ou da Formação de Professores para entender que a sinistra Prova não avalia de forma alguma os conteúdos e competências exigidas para a função professor, razão pela qual este modelo não existe em qualquer país sério aplicado a professores já em função e raramente aplicado a professores que querem iniciar a carreira.
Aplicar este modelo de prova para os objectivos enunciados, Avaliação de Capacidades e Conhecimentos para o exercício da função professor, nem que fosse a um só candidato, só a um repito, com ou sem experiência, seria um procedimento insultuoso de tanta incompetência e manhosice.
A Sinistra Prova, reafirmo, é má, porque é má nos objectivos, modelo, conteúdos, processos e circunstâncias. Nada muda nesta situação pelo facto de se aplicar a menos professores ou a mais professores depois do inaceitável compromisso da FNE. A avaliação de conhecimentos e capacidades para um professor exercer a sua função só é adequada quando inclui com algum espaço temporal o desempenho em sala de aula, em exercício. Aliás, o primeiro ano de prática ser um ano de avaliação e constituir base de acesso à carreira nem sequer é inédito no nosso sistema e é pratica comum em muitos sistemas educativos.
Nada do que Nuno Crato afirma tem a este propósito tem a mínima relação com a Prova que, o Ministro sabe muito bem, não pretende avaliar competências e capacidades de professores, os objectivos do Ministro fazem parte de outra agenda. Este modelo de Prova destinado a avaliar Capacidades e Conhecimentos é algo de delirante, recordem-se as questões que foram colocadas na Prova de 18 de Dezembro sobre refeitórios e transporte de alunos pelo que não merece, deste ponto de vista, muitos comentários, é demasiado mau o que temos para reflectir.
É evidente que por mais que Nuno Crato afirme, com a maior das hipcrisias, que a Prova “dignifica” os professores”, permite “selecionar” os melhores, a realização desta Prova com o modelo, com os conteúdos, objectivos e circunstância em que aconteceu e, provavelmente, acontecerá é uma página negra, muito negra, da política educativa das últimas décadas.
No entanto e como era previsível, a insanidade continua, a incompetência, a arrogância e a manha política são incompatíveis com a humildade do reconhecimento do erro.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

ONDE É QUE ELA SE METEU?

(Foto de Mico)

É sempre a mesma coisa.
Digo à minha mãe para não sair do carro sem ser ao pé de mim e ela não me liga.
Nunca faz o que lhe digo.
Estou farta de dizer às minhas amigas.
Hoje em dia, é tão difícil tomar conta das mães, só fazem o que querem.
Depois, se alguma coisa corre mal, vêm ter connosco a choramingar para pedir ajuda.
As mães de agora são tão irrequietas.

NÃO VALE A PENA, AS CRIANÇAS NÃO PERCEBEM

"Os bebés treinam mentalmente a fala meses antes de começarem a falar"

A propósito da divulgação deste estudo sobre a relação dos bebés com a linguagem, umas notas aqui colocadas em Abril de 2011.

As muitas conversas em que me envolvo com pais levam-me, por vezes, a ficar com alguma inquietação sobre como comunicam com os filhos pequenos. Estas inquietações têm várias direcções. Numas situações porque basicamente pode dizer-se que não há conversa, a família é um grupo de pessoas com a chave da mesma casa, no dizer de um sociólogo cujo nome não recordo. Outras situações inquietam-me porque encontro pais que entendem que tudo, mas tudo, deve ser falado com as crianças e outras situações ainda os que entendem que não vale a pena conversar com as crianças pequenas porque elas não entendem.
Hoje, umas notas sobre este último cenário. Não é raro que alguns pais não desenvolvam com os miúdos conversas que não passem do registo do quotidiano imediato da escola ou da brincadeira. Por vezes até utilizam um tom que sublinha o facto de se dirigirem a pessoas (os miúdos) que não conseguem entender e conversar sobre coisas “mais sérias”, ou seja, infantilizam conteúdos e formas de comunicação.
Pergunto com frequência aos pais com quem estou se alguém fala alguma coisa de inglês e, como é natural, há pessoas que apenas sabem meia dúzia de palavras até as que dominam a língua inglesa com alguma proficiência. Mas quando pergunto se toda a gente compreende mais em inglês do que aquilo que é capaz de expressar nessa língua, a resposta é afirmativa por parte de todos. Na verdade, independentemente do nível dos nossos conhecimentos, entendemos mais do que nos dizem do que aquilo que sabemos dizer. E é também assim que aprendemos.
Com os miúdos passa-se algo do mesmo tipo. Entendem bastante mais do que, por vezes, são capazes de exprimir, mesmo as crianças com mais dificuldades. Assim sendo, vale a pena conversar com eles, envolvê-los nas nossas conversas desde adequadas às idades (isto é uma outra questão que fica para outra altura). Eles entendem bem mais do que acreditamos, valorizam a sua presença e o facto de partilharmos ideias e opiniões com eles.
É bom para todos, sobretudo porque se trata de uma família.

O PROGRAMA DE AJUSTAMENTO NO ENSINO SUPERIOR

"Desde 2008 que não havia tão poucas vagas disponíveis no ensino superior"

Já aqui afirmei muitas vezes a necessidade imperiosa de regulação na oferta do ensino superior, um universo fortemente enviesado com uma oferta sobredimensionada e com distorções fortíssimas ao nível da qualidade, da assimetria da rede e das implicações na empregabilidade.
Um Relatório, também da A3ES e reportando dados de 2011, mostrava uma taxa de 69.79% de preenchimento de vagas e da análise a 71 áreas de estudo conclui-se que em 80% existe excesso de oferta. O Relatório, encomendado pelo Conselho de Reitores, aponta a óbvia necessidade de racionalização da rede. De há muito que defendo este entendimento. Na verdade, o ensino superior em Portugal tem como questão estrutural o sobredimensionamento da rede de ensino superior em Portugal.
O problema é que o ensino superior em Portugal é, como muitíssimas outras áreas, vítima de equívocos e de decisões políticas nem sempre claras. Uma das grandes dificuldades que enfrenta prende-se com a demissão durante muito tempo de uma função reguladora da tutela que, sem ferir a autonomia universitária, deveria ter impedido o completo enviesamento da oferta, pública e privada, que se verifica. Esta demissão é, aliás, afirmada no relatório da A3ES.
Um país com a nossa dimensão não suporta tantos estabelecimentos de ensino superior, sobretudo, se atentarmos na qualidade. As regiões e autarquias reclamam ensino superior com a maior das ligeirezas. Durante anos, a pressão vinda da procura e a incapacidade de resposta do subsistema de ensino superior público, associada à demissão da tutela da sua função reguladora, promoveu o crescimento exponencial do ensino superior com situações que, frequentemente, parecem incompreensíveis à luz de um mínimo de racionalidade e qualidade.
Nesta matéria, a qualidade e o redimensionamento da rede, o processo de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior é um contributo, ainda que não isento de questões, e desde que não desenvolvido de uma forma cega e resistente à pressão, às pressões. Existem cursos que apesar de alguma menor empregabilidade se inscrevem em áreas científicas de que não podemos prescindir com o fundamento exclusivo no mercado de emprego. Podemos dar como exemplo formações na área da filosofia ou nichos de investigação que são imprescindíveis num tecido universitário moderno. Será também importante que o processo permita desenvolver e incentive modelos de cooperação, universitário e politécnico, público e privado, que potencie sinergias, investimentos e massa crítica.
O enviesamento da oferta de que acima falava, alimenta a formação em áreas menos necessárias e não promove a formação em áreas carenciadas. Tal facto, conjugado com o baixo nível de desenvolvimento do país e com uma opinião publicada pouco cuidadosa na informação, leva a que se tenha instalado o equívoco dos licenciados a mais e destinados ao desemprego, quando continuamos a ser um dos países da UE com menos indivíduos com formação superior, já o disse aqui muitas vezes. 

NÚMERO DE ALUNOS E TAXAS DE CONCLUSÃO COM REVISÃO EM BAIXA

"Pré-escolar e Ensino Básico continuam a perder alunos"

O MEC disponibilizou hoje o relatório "Estatísticas da Educação 2012-2013".
Algumas notas.
Uma primeira referência para o abaixamento demográfico no Ensino Básico o que vem legitimar as teses da PEC - Política Educativa em Curso no que respeita aos cortes de professores e ao fechamento das escolas. O problema da qualidade é um pormenor corrigível através dos exames, mais exames, e pelo incremento do ensino vocacional em modo dual, versão Crato. Esta abordagem é bastante mais económica ainda que de efitos discutíveis.
Em consequência do aumento da escolaridade obrigatória a população a frequentar o ensino secundário subiu. No entanto, merece reflexão o facto de que a subida do número de alunos não se verifica na frequência do "ensino regular", desceu,  mas nos cursos profissionais e cursos de aprendizagem. Isto poderá querer dizer que os alunos que entram no secundário estão a derivar para percurso alternativos e não creio que se possa dizer com segurança que se trata de opção de alunos e famílias mas de uma franja de alunos em risco de insucesso que serão orientados para esta trajectória que continua a ser muito percepcionada como de "segunda". Esta percepção é compreensível dado que os discurso políticos sobre o ensino vocacional, reforçam a ideia de que se destina, sobretudo, para os que não têm jeito para a escola.
Uma referência ainda às taxas de conclusão. É preocupante que de 2011-2012 para 2012-2013 a taxa de conclusão no Ensino Básico tenha  baixado de 91.3" para 82.2%. Talvez possamos encontrar aqui algumas razões para exames mais fáceis no 9 º ano neste ano lectivo. Vamos certamente ver subir a taxa de conclusão. Por outro lado, vale a pena interrogarmo-nos sobre o que explicará descida tão acentuada. Terá a ver com medidas como o aumento do número de alunos por turma, falta de recursos para dispositivos de apoio, clima das escolas, entre outras?
Justifica-se uma análise mais cuidada.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A ESCOLA NÃO PODE CONTINUAR A ENGORDAR

"Adolescentes portugueses são incapazes de gerir finanças pessoais"

Segundo um estudo da Universidade Portucalense, os alunos do 3.º ciclo e do ensino secundário “não são capazes de gerir as suas finanças, não possuem hábitos de poupança, nem estão familiarizados com a linguagem financeira” não tendo uma formação financeira adequada às necessidades da vida quotidiana.
A autora do estudo entende a formação nestas matérias deve ser dada para "de forma a adquirirem uma relação saudável com o dinheiro, competências para poupar e planear as suas despesas, tomar decisões e fazer escolhas financeiras, sem grandes oscilações económicas ao longo das suas vidas”.
Para que tal aconteça, continua a autora, torna-se necessário investir neste tipo de educação não só nos currículos escolares, mas também nas rotinas familiares.
Concordando com a importância da acção das famílias, por exemplo através da velha mesada (quando isso é possível) ou de outras acções no contexto familiar uma nota sobre a inscrição da literacia financeira nos currículos escolares para que "o papel da escola passe por disponibilizar conceitos, como custos, poupança, características de um bom empreendedor”. Esta ideia vem também ao encontro da ideia visionária de Pires de Lima, Ministro da Economia, que há meses defendia a introdução  de disciplina de Empreendedorismo. Algumas notas.
Uma das questões que no universo a educação estarão sempre em aberto é a que envolve os conteúdos e organização curricular. De facto, a velocidade de produção e acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento, as mudanças nos sistemas e no quadro de valores das comunidades determinam a regular reflexão e ajustamento sobre o que a escola deve ensinar, sobretudo durante a escolaridade obrigatória. Por outro lado, o tempo da escola e a competência da escola são finitos, isto é, a escola não tem tempo nem pode ou deve ensinar tudo. Lembram-se certamente das discussões sobre se matérias como educação sexual, educação cívica ou educação para a saúde, para citar apenas alguns exemplos, deverão, ou não, constituir-se como "disciplinas" e integrar os currículos escolares.
Vejo sempre com algumas reservas estas propostas de introdução de mais uma disciplina, mais um manual, como se a escola, o currículo escolar, pudesse continuar a engordar indefinidamente.
Como é evidente, existirão conteúdos ou competências dentro do universo do que possa ser o "Empreendedorismo" ou "literacia financeira" que poderão integrar o trabalho escolar. Estou a lembrar-me da educação matemática, evidentemente, mas também da promoção da autonomia, reflexão, criatividade, regulação, análise, etc., etc. que são inerentes à própria formação escolar e pessoal e não necessariamente confináveis a uma só disciplina.
Na verdade, nem tudo o pode ser interessante saber terá de caber numa disciplina da escola e nem tudo o que se pode saber se aprende na escola.

A DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA

"Um quarto da riqueza de Portugal está nas mãos de 1% da população"

Apesar dos discursos com que nos querem convencer de que as assimetrias no rendimento de ricos e pobres e na distribuição da riqueza se vão esbatendo, às vezes torturando alguns números para que a realidade pareça diferente, um estudo do Banco Central Europeu vem afirmar que em Portugal o peso da fortuna dos mais ricos é superior ao que se acreditava, um quarto da riqueza pertence a 1% da população.
Considerando os nove países da zona euro analisados, Portugal é o terceiro país com uma maior concentração da riqueza, atrás da Áustria e da Alemanha.
Sabemos ainda que a esta concentração também corresponde uma das maiores assimetrias da Europa entre o rendimento da minoria mais favorecida e os mais pobres. Por outro lado, como também tem sido referenciado, um dos muitos efeitos perversos da crise tem sido o acentuar generalizado desta assimetria, cá e noutras paragens.
Como algumas vezes oiço alguém referir, falamos de pobreza, quando o nosso problema é com a riqueza, está mal distribuída e todos queremos ser ricos, muito ricos. É neste quadro que se acentua e promove a desregulação que leva ao enorme fosso entre os mais ricos e os mais pobres.
Nós precisamos de combater a assimetria da distribuição da riqueza e produzir mais riqueza, precisamos de combater mordomias e desperdício de recursos e meios ineficientes e muitas vezes injustificados que alimentam clientelas e interesses outros. Nós precisamos de combater a teia de protecção legal e política aos interesses dos mercados e dos seus empregados que conflituam com os interesses das pessoas.
O que precisamos é de coragem e visão sem subserviência ao ditado dos mercados e dos seus agentes para definir modelos económicos, sociais e políticos destinados a pessoas e não a mercados ou a grupos minoritários de interesses.
Como vamos conseguir?

A LER. A negrura crática sobre a investigação científica

"O prédio está a cair, mas a FCT diz que está tudo bem"


Um texto interessante de Vítor Malheiros sobre a delirante avaliação de centros e unidades de investigação que ameaça destruir boa parte do tecido científico português com particular impacto nas ciências sociais algo que a cultura crática considera irrevante e um desperdício.
De facto, a negrura crática que cai sobre a investigação vai ter consequências brutais em termos de desenvolvimento científico e económico para além, evidentemente, do impacto nas carreiras pessoais assim ameaçadas de milhares de pessoas que investigam, criam conhecimento, promovem desenvolvimento e que, provavelmente, desistem ou emigram
Está estudada e reconhecida de há muito a associação fortíssima entre o investimento em educação e investigação e o desenvolvimento das comunidades, seja por via directa, qualificação e produção de conhecimento, seja por via indirecta, condições económicas, qualidade de vida e condições de saúde, por exemplo.
Com o desinvestimento fortíssimo no ensino superior e investigação que tem vindo a verificar-se e vai continuar, com o catastrófico processo de avaliação de centros e unidades, corremos o sério risco de ver ameaçados e destruídos os excelentes resultados que os centros, laboratórios e unidades de investigação e as instituições de ensino superior têm vindo a alcançar e que atestam o esforço e a competência da comunidade científica portuguesa e o trabalho realizado no âmbito do ensino superior e investigação, traduzidos no reconhecimento internacional das nossas instituições.
Vai cheirar a terra queimada.

A COISIFICAÇÃO DAS PESSOAS

"Portugal na rota de traficantes de menores nigerianas"

Este negócio, o tráfico de pessoas, designadamente dos grupos mais vulneráveis como as crianças, um dos mais florescentes e rentáveis em termos mundiais, alimenta-se da vulnerabilidade social, da pobreza e da exclusão o que, como sempre, recoloca a imperiosa necessidade de repensar modelos de desenvolvimento económico que promovam, de facto, o combate à pobreza e, caso evidente também em em Portugal, às escandalosas assimetrias na distribuição da riqueza.
As pessoas, muitas pessoas, apenas possuem como bem, a sua própria pessoa, o seu corpo, e o mercado aproveita tudo, por isso, compra e vende as pessoas dando-lhe a utilidade que as circunstâncias, a idade, e as necessidades de "consumo" exigirem.
O que parece ainda mais inquietante é o manto de silêncio e negligência, quando não cumplicidade, que frequentemente cai sobre este drama tornando transparentes as situações de escravatura, não se vêem, não se querem ver.
Neste universo não conseguimos ouvir o coro dos escravos, não têm voz, são coisas. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

NÃO SR. MINISTRO, A FOME NÃO É UMA "CONDIÇÃO PRÓPRIA" DE TEMPO NENHUM, FÁCIL OU DIFÍCIL

"Hospitais atendem cada vez mais grávidas com fome"

A pobreza e o seu cortejo de horrores, fome, exclusão, indignidade, é o maior falhanço das sociedades modernas.
É um dever ético, moral e legal das comunidades das suas lideranças combater até ao limite o risco de pobreza.
Não tenho nenhuma visão idealista ou romântica do mundo mas considero que independentemente das circunstâncias difíceis, dos recursos,, seja do que for não se pode considerar "normal" a situação de pobreza.
Por isso indignam até à medula discursos e políticas que nos afirmam e impõem o empobrecimento como caminho para a felicidade, para os amanhãs que cantam.
Serve esta introdução para uma referência à perplexidade, primeiro, e revolta depois que causaram as palavras do Ministro da Saúde, Paulo Macedo.
São conhecidas situações de bebés e crianças a que os hospitais não dão alta porque as famílias não têm condições para lhes assegurar as necessidades básicas ou o caso também recorrente de grávidas que chegam às consultas com fome dando-se o exemplo do Hospital Pedro Hispano que já tem mantido grávidas em internamento apenas para lhes providenciar alimentação, algo de perturbador.
Ao comentar estas situações, reconhecendo a sua existência o que registo pois é mais habitual colegas seus afirmarem que a realidade está enganada, o Ministro Paulo Macedo afirmou que chegam cada vez mais ao Serviço Nacional de Saúde “pessoas em condições difíceis próprias dos tempos difíceis em que estamos”.
Como? Condições difíceis próprias dos tempos difíceis?
Não, Senhor Ministro, a fome não é uma "condição própria" de tempo nenhum, fácil ou difícil, de terra nenhuma.
A fome é uma acusação terrível, é um atentado aos direito das pessoas.
A fome é uma acusação, a si, aos seus colegas, aos abutres que gerem os modelos económicos que produzem a pobreza e a fome, aos sucessivos governos, aos que, a  maioria de nós, não conseguimos dizer basta.
Existem palavras (mal)ditas. Foi o caso.

MÉDIAS DE PORTUGUÊS E MATEMÁTICA DO 9º REVISTAS EM ALTA

Notas do 9.º ano subiram a Português e a Matemática

Referências na imprensa na altura da realização dos exames de Matemática e Português do 9º ano.
Na mesma altura escrevi "... os exames constituem-se, do meu ponto de vista, como uma arma privilegiada da gestão política do universo da educação.
Neste contexto, através da "modulação", por assim dizer, da sua dificuldade, poder-se-á influenciar os resultados no sentido esperado e mais favorável a interesses de circunstância. Este entendimento minimiza o impacto das análises comparativas. Veja-se, por exemplo, a discussão recorrente e raramente consensual sobre o grau de dificuldade e adequação dos exames.".
E também, " ... umas médias um bocadinho mais altas vinham mesmo a calhar. Permitiriam aquele discurso em pose de estado com ar de missão cumprida vindo da 5 de Outubro afirmando que os alunos, os professores, as escolas e as famílias "corresponderam" com o seu trabalho ratificando a bondade das medidas de política educativa em curso".
Foram conhecidos hoje os resultados e, adivinhem, as médias subiram com nitidez, de 49% para 56% a Português e de 49% para 53% a Matemática embora um terço dos alunos tenha reprovado.
O MEC regista  com agrado a subida das médias e afirma que, “em termos gerais, estas classificações evidenciam uma subida significativa em comparação com os resultados do ano anterior”. Sublinha ainda a “diminuição significativa da taxa de reprovação das disciplinas de Português e de Matemática em, respectivamente, 3 e 4 pontos percentuais, relativamente ao ano transacto”.
O IAVE vem entretanto dizer que não é possível de forma consistente apreciar a maior ou menor dificuldade dos exames e as diferenças não são relevantes do ponto de vista estatístico. Também não permitem "fazer inferências consistentes e válidas sobra a evolução da qualidade do desempenho dos alunos”
Em que ficamos?
E entretanto ... que fazemos com estes resultados?

A MENINA CHAMADA RECEOSA

Era uma vez uma menina, chamava-se Receosa. Tinha seis anos. Parecia uma menina como as outras crianças, e era, e tinha uns pais que se pareciam com os outros pais, e eram. Explicando melhor, a menina crescia com os medos e receios com que os miúdos crescem, uns maiores, outros mais pequenos e os pais ajudavam a menina a crescer como os medos e receios com que os pais ajudam os filhos a crescer, uns maiores e outros mais pequenos.
Mas houve uma altura em que os pais começaram a ter medos maiores do que era habitual e ficaram muito assustados. Por isso, a Receosa, quando viu os pais muito assustados e ouviu os seus medos passou a ter ainda mais medos e receios do que habitualmente tinha o que, como é natural, serviu para aumentar os receios dos pais.  
Um dia, os pais da Receosa foram à escola e encontraram o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala como livros, e conversaram sobre os receios da Receosa.
O Velho falando baixinho como é seu hábito  disse, “Quando encontramos os medos que estão na cabeça dos miúdos ou achamos que alguns medos os devem tornar cuidadosos, é preciso que os ajudemos a lidar com esses medos, ou seja, o que pensar, o que dizer, a quem dizer, o que fazer, o que quer dizer, etc. para eles perceberem o medo, mas não se assustarem com o medo. Se não, pode acontecer que fiquem sós com o medo e não sabem o que lhe fazer. Aí  é que se atrapalham. Os crescidos quando falam dos medos não devem parecer assustados e com muito medo. Os pequenos, que esperam protecção e segurança dos mais velhos, vão sentir-se mais desprotegidos.
No fim de tudo, é também muito importante que a Receosa aprenda a olhar para o que é bonito e não faz medo, que é quase tudo, ficará mais forte”.
“Velho, isso quer dizer que podemos ajudar a Receosa a ficar com menos medo”, perguntaram os Pais. 
“Claro, mas primeiro fiquem vocês como menos medos e receios, mais tranquilos, ela vai sentir-se melhor”, disse o Professor Velho.

MANHOSICES


"O Estado e os subsídios para empregados"
A imprensa de hoje refere uma situação que, creio, é do conhecimento generalizado mas pouco escrutinada. Os interesses em jogo aconselham essa discrição, por assim dizer.
Com alguma satisfação e recorrente referência pelo Governo temos vindo a assistir à diminuição da taxa de desemprego.
Acontece que cerca de 90% dos empregos criados no âmbito do IEFP são subsidiados pelo estado sendo que a taxa de 15.1% passaria a uns bem mais graves 18.2 % se fossem acrescentadas as pessoas em formação (estágios) ou envolvidas em programas como Contrato Emprego - Inserção e o programa Estímulo Emprego. Estão em situações desta natureza cerca de 162 000 pessoas.
Está assim claro que a recuperação do emprego, tão referida pela máquina de propaganda assenta numa habilidade que, muito provavelmente, a prazo se revelará ineficaz. É sabido que muitos empregadores usam e abusam de estagiários promovendo uma altíssima rotação. Como é evidente, o "esquema" serve às empresas, acedem a mão de obra qualificada e barata, é subsidiada, e quando se esgota o tempo haverá alguém que substitui quem sai. As pessoas entre o nada e a migalha hipotecam a dignidade em nome da sobrevivência.
A formação profissional sempre foi uma área em que se verificam situações envoltas em "habilidades". Todos conhecemos pessoas no desemprego, em particular de longa duração, que são chamadas e "obrigadas" a fazer formação que chega a ser anedótica e um desperdício mas que lhes garante um subsídio e ao mesmo tempo torna as estatísticas mais simpáticas.
Não há muito a fazer, é a política ... estúpido. Habilidosa e manipuladora como muitas vezes é.

NUNCA ME ENGANO E RARAMENTE TENHO DÚVIDAS. Agora em modo crático

A entrevista de Nuno Crato ao Expresso que só há pouco li recordou-me o mítico enunciado de Cavaco Silva, "nunca me engano e raramente tenho dúvidas".
De facto, Nuno Crato não mostrou a mais pequena dúvida sobre as políticas que tem vindo a executar e também entende que tudo o que foi feito, foi bem feito. Aliás, apenas não fez mais por limitações orçamentais que curiosamente potenciou no universo da educação.
Em todos os temas abordados na entrevista, os exames e papel do IAVE, as questões curriculares, ensino vocacional, avaliação e contratação de professores, o ensino do Inglês, o aumento do número de alunos por turma ou ensino superior e ciência, o Ministro Nuno Crato considera ter tomado a melhor decisão. Muita gente tem expresso sérias dúvidas mas trata-se de incompreensão face à genealidade das decisões.
Mais refere que a sua passagem pelo MEC vai deixar marcas no pensamento educativo. Estou absolutamente de acordo e por isso muito preocupado.
A marca que quer imprimir não é "por ser mais ideológico" é por "ser mais focado nos resultados".
Esta é uma questão essencial e muito reveladora.
A visão de Nuno Crato tem, obviamente, uma fortíssima marca ideológica. Aliás não me parece estranho, não existe acção política em nenhum sector das sociedades como as nossas que não tenham dimensão ideológia, A questão é saber qual. A visão de Nuno Crato está cada vez mais clara.
Por outro lado, em educação, como em todas as áreas que envolvem pessoas, os resultados não são tudo, os processos são fundamentais e condicionam os resultados. No entanto para Nuno Crato estas ideias são irrelevantes. 
Assim sendo, o caminho a prosseguir é mais avaliação, mais exames, mais alunos por turma, menos investimento na educação, menos investimento na investigação e ciência, menos professores, menos escolas, menos técnicos, menos recursos, os alunos com mais dificuldades ou com menos qualidade vão para as empresas para o trabalho manual e alguns talvez mesmo para instituições, na escola só atrapalham e não atingem resultados.
Os resultados estão à vista.

domingo, 13 de julho de 2014

A SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

“Há uma legião de jovens em grande sofrimento e a precisar de ajuda”

O Público de hoje apresenta um interessante e oportuno trabalho centrado nos problemas da saúde mental de crianças e adolescentes. A propósito da época de exames em curso, em que se verifica o aumento de situações de ansiedade e ou depressão, por exemplo, é abordado o crescimento das situações globais de perturbação da saúde mental, por vezes não valorizadas, e das dificuldades em providenciar respostas adequadas.
Algumas notas, sublinhando a importância e oportunidade desta questão.
Em Maio, o Expresso relatava que em 2013 se tinham registado cerca de 20 000 novas consultas de pedopsiquiatria, mais 30% que em 2011. É um indicador preocupante e ainda mais preocupante pela inexistência de resposta adequada e acessível para muitas crianças e adolescentes.
Recordo também que em Março foi noticiada a interrupção dos apoios a crianças e adolescentes da região do Algarve pois o programa de que beneficiavam, Grupos de Apoio à Saúde Mental Infantil, que já tinha merecido prémios de boas práticas, foi suspenso em vez de ser generalizado. Esta suspensão foi obviamente sentida com grande inquietação por famílias e profissionais.
Em 2012 esteve em Portugal um especialista nesta área, Peter Wilson, que, naturalmente, referia a necessidade de que nas escolas e na comunidade próxima existam apoios aos professores, às famílias e às crianças com dificuldades emocionais, a única forma, entende, apoiado na sua experiência, de minimizar e ajudar neste tipo de problemas que, não sendo acautelados, têm quase sempre efeitos devastadores em termos pessoais e sociais. Segundo Peter Wilson, os estudos em Inglaterra sugerem a existência de três crianças com problemas do foro emocional em cada sala de aula pelo que o apoio é muito mais eficaz e económico prestado na escola ou na comunidade próxima a alunos, famílias e professores. Este entendimento é partilhado, creio, pela generalidade dos profissionais e famílias, também em Portugal e os dados connhecidos apontam nesse sentido.
Suspender um programa de apoio a situações de doença mental em crianças e adolescentes, reconhecidamente de qualidade, é algo de inquietante mas, como se vê não é a única fonte de inquietação.
Há alguns meses a imprensa referia a inexistência de camas nos serviços de pedopsiquiatria que possam acomodar adolescentes em tratamento o que leva a que em muitas circunstâncias adolescentes sejam internados em serviços de adultos o que na opinião dos especialistas pode ser uma experiência "traumatizante" sendo, aliás, contrárias às boas práticas de qualquer país civilizado em matéria de saúde mental. A propósito recordo que de acordo com o relatório "Portugal Saúde Mental em Números 2013", só 16,2% das pessoas com perturbações mentais ligeiras e 33,8% das que sofrem de perturbações moderadas recebem tratamento em Portugal.
Está nos livros e nas experiências que em situação de crise os mais vulneráveis, crianças e adolescentes, por exemplo, são, justamente, os mais sofredores com as dificuldades. Acresce que, actualmente, se verifica em muitos agregados familiares e em contextos escolares a emergência de discursos que pressionam os mais novos no sentido de atingirem a excelência nos resultados escolares ou em qualquer actividade “importante” pois será, dizem, a “única” forma de atingir um patamar de sucesso futuro. 
Como se sabe e a experiência mostra muitas crianças e adolescentes não suportam tranquilidade esta pressão o que se repercute no seu bem-estar e na sua saúde mental. Para complicar um pouco mais, ainda se verifica que algumas pessoas desvalorizam estes fenómenos, entendendo que é preciso ser exigente e bem sucedido e não entendendo o sofrimento de algumas crianças e jovens.
Por outro lado é também conhecida a enorme dificuldade que muitas instituições que acolhem menores estão a passar dificultando a resposta com a qualidade bem como a possibilidade de responder a novas situações.
Os miúdos nas famílias, preferencialmente, ou nas instituições, necessitam de um aconchego, um ninho, uma qualidade de vida que os cuidadores, por diversas razões, não sabem, não querem, não podem ou não são capazes de providenciar. Tal cenário implica riscos fortíssimos de compromisso do seu futuro pelo que os apoios e resposta não podem, não devem, falhar.
Como o povo diz, é de pequenino que se torce o … destino.

sábado, 12 de julho de 2014

ANJOS DA GUARDA

Este foi o primeiro fim de semana de quentura brava aqui no Meu Alentejo. Por coincidência a tribo familiar veio completa.
As noites estão quentes, serenas e com Lua Grande, convidam a estar fora de casa e apreciar só à luz do céu. Com calma, a alma do Alentejo.
Ao mais novo, o meu neto, gaiato que completou há dias o seu primeiro ano, chegou a hora do sono. 
Colocado no carrinho andou uns metros com os olhos fixos na Lua Grande e ... adormeceu. Acho que a caminho da Lua Grande.
Fiquei uns minutos sentado no banco de pedra a vê-lo dormir, a acompanhar a sua viagem à Lua Grande.
Senti-me assim ..  desculpem lá ... um anjo da guarda.
Na verdade, que mais deve ser um pai ou um avô que não um anjo da guarda.
Às vezes, não sabemos, não percebemos. não queremos ou não podemos.
Mas é bonito.

OS ESCOLANTES

"Falta motivação nas escolas? O rap pode dar uma ajuda"

Eu sei que alguns acharão estas notas um disparate.
Eu sei que alguns que acharão estas notas um disparate não sabem de gente pequena e das coisas da escola. Eu também sei que alguns que acharão estas notas um disparate pensam genuinamente que este é um caminho errado e, por isso, discordam,
Eu sei que a cultura da escola, as actividades da escola, os conteúdos dos programas, a forma de trabalhar os conteúdos dos programas, a relação a estabelecer com a escola, com os professores, enfim, todas as dimensões do trabalho escolar são desenhadas e destinadas ao que poderemos chamar de “aluno ideal” não porque seja “perfeito” mas porque se “encaixa”, se “acomoda” no que a escola estrutura para si.
Eu sei, todos sabemos, que alguns alunos, por várias razões, mais de dentro ou mais de fora, não se “encaixam”, não se “acomodam” na escola e traduzem essa situação em comportamento, insucesso, desmotivação ou abandono.
Eu sei que poderemos insistir em dar mais do mesmo e esperar por mudanças que provavelmente não acontecerão.
Eu sei que poderemos achar que talvez seja melhor proporcionar-lhes outra estrada, orientá-los “vocacionalmente”, por assim dizer.
Eu sei que podemos até desistir, afinal nem toda a gente tem jeito ou motivação para a escola. Já ouvi mesmo enunciar o direito a não aprender.
Eu sei que lidar com estas situações é tremendamente difícil. Ainda mais se torna quando o clima, a visão, os recursos disponíveis, não são particularmente amigáveis para a ideia de que é “preciso fazer alguma coisa por esta gente”, “não se pode perder”.
Eu sei, conheço várias situações, de professores e escolas que desenvolvem experiências notáveis ajudando a criar com os miúdos “não acomodáveis”, que não se “encaixam” verdadeiros projectos de vida e de sobrevivência.
Finalmente, eu sei, estes professores e estas escolas também sabem, que para agarrar os alunos é preciso “procurá-los” onde eles “existem” e não, por mais boa vontade e empenho que tenhamos, onde gostaríamos que eles existissem. Na verdade, alguns só “existem” na rua, no rap, no CR7, nas ruas do Bairro ou perdidos de qualquer coisa.
Mas, provavelmente, estas notas são mesmo um disparate.
A escola deve ser para quem quer aprender, para quem quer ter sucesso, para os que querem e são capazes de ser excelentes no que nós achamos que devem ser excelentes. Os outros só atrapalham, são uns escolantes, só vêm à escola, quando vêm, não estudam nem se interessam.

Qua andam cá a fazer? A arranjar problemas, é claro.

CHARLIE HADEN PARTIU

"Morreu o contrabaixista Charlie Haden"

Partiu Charlie Haden, um dos Grandes que nos ajudam a dar sentido à vida, à arte. Aqui fica um um momento mágico. Com outro Grande, Carlos Paredes.