segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

DOS PERFIL DOS ALUNOS PARA O SÉC. XXI

Ainda a propósito do “Perfil dos Alunos para o Séc. XXI””, documento que se encontra em discussão pública, algumas notas e pequenas dúvidas.
Entrei para o universo da educação há 57 anos, estávamos ainda no Séc. XX. Há 40 anos, ainda no Séc. XX assumi com a maior motivação uma carreira no mundo da educação que tem passado por instâncias diferenciadas e se mantém até hoje, já Séc. XXI.
Este caminho longo permite-me dizer que quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam saber utilizar diferentes textos e linguagens pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam saber aceder a informação e saber comunicar pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam aprender a relacionar-se, a interagir e a cooperar pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam aprender a raciocinar e a resolver problemas pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam desenvolver pensamento crítico e pensamento criativo pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam ser autónomos e com formação pessoal adequada pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam aprender a promover o seu bem-estar e saúde pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam desenvolver sensibilidade estética e artística pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam aceder ao saber técnico e domínio de tecnologias pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam ter consciência e domínio do corpo pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que de se deveriam desenvolver projectos interdisciplinares promovendo a articulação e integração de conteúdos de diferentes disciplinas pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que se deveria promover a educação para a cidadania e a formação cívica pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que os testes não deveriam constituir a única forma de avaliação pareceu-me bem.
Quando lá para o Séc. XX se começou a falar de que deveriam ser valorizadas as diferentes disciplinas e equilibradas as suas cargas horárias pareceu-me bem.
Bom, o caminho tem sido o que conhecemos e chegados ao Séc. XXI cá estamos com uma nova formulação destas intenções. Mais uma vez … parece-me bem.
Tenho algumas pequenas dúvidas de que deixo alguns exemplos.
Tudo isto será desenvolvido com que calendário e metodologia de mudança?
Tudo isto será desenvolvido com que estabilidade e perspectiva de consistência no tempo?
Tudo isto será desenvolvido com que organização curricular, conteúdos e cargas horárias, por disciplina e globais?
Tudo isto será desenvolvido com que quadro de autonomia?
Tudo isto será desenvolvido com que dimensão das turmas e das escolas? Eu sei que nem todas são excessivamente grandes mas algumas são.
Tudo isto será desenvolvido com que ajustamento em práticas, capacidade e recursos de promover diferenciação para acomodar a diversidade dos alunos promover um menor peso dos manuais no trabalho de alunos e professores?
Tudo isto será desenvolvido com que modelos e dispositivos de avaliação de alunos, professores e escolas?
Deixem lá ver, como diz o Velho Marrafa lá no Alentejo.

PAIS, FILHOS E PRÁTICA DESPORTIVA

No Público encontra-se um trabalho muito interessante sobre a forma negativa como alguns pais se comportam quando assistem à prática desportiva dos filhos seja em treino, seja em competição.
O fenómeno não é novo, evidentemente. Há mais de duas décadas o meu filho era praticante juvenil de uma modalidade colectiva num clube pequeno, hóquei em patins. Por curiosidade era guarda-redes, uma posição ingrata e que me deixava sempre inquieto com os riscos mas de que ele gostava, na qual se empenhava em conjunto com grupo de que ainda hoje conserva amigos.
Nos treinos, mas sobretudo em jogos o comportamento a que assistia por parte de alguns adultos (pais) era, por assim dizer, muito “envolvido”. Nem sequer falo das “orientações” constantes substituindo o treinador ou dos incentivos, da exigência e da pressão sempre ruidosas. Falo de em muitos recintos ver miúdos a ser insultados e ameaçados. Numa circunstância um dos miúdos foi mesmo agredido por uma senhora quando patinava junto à lateral do campo. Quando assistia a jogos em alguns locais o ambiente era preocupante e intimidatório. Estamos a falar de jogos entre crianças. Lamentável e um espelho de um quadro de valores instalado.
No entanto, sendo isto verdade, é importante também dizer que provavelmente mais do que hoje, as condições mudaram, eram o empenho e o voluntarismo de alguns pais que permitiam que muitas crianças praticassem algum desporto em clubes e estruturas muito pequenas e com meios e recursos insuficientes.
Ainda sobre a forma como alguns pais se relacionam com os filhos a propósito da prática desportiva deixo uma cena a que também assisti e que parece elucidativa de uma atitude muito generalizada.
Actores principais - Pai e filho com uns 6 ou 7 anos
Actores secundários - A mãe que entre chamadas no telemóvel grita incentivos para o filho
Cenário - uma zona relvada com dois pinos colocados de forma a simular uma baliza.
Assistentes discretos - o escriba
Guião - O pai ensina o filho a dar pontapés numa bola de futebol em direcção à baliza dos pinos.
Cena e diálogo (reconstruído a partir de excertos ouvidos pelo escriba)
O pai apontando para uma zona do pé do miúdo que tem botas de futebol calçadas - Já te disse que é com esta parte do pé que tens de acertar na bola, vê se tomas atenção.
O miúdo em silêncio faz mais uma tentativa que não sai muito bem, não acerta na baliza.
O pai - Assim não vale a pena, não fazes como te digo, tens que estar concentrado, (aqui lembrei-me do Futre, um homem concentradíssimo e, certamente por isso, um grande jogador).
O filho - Mas eu dei com esta parte.
O pai - És parvo, se tivesses dado com essa parte a bola tinha ido para a baliza. Faz outra vez.
O miúdo com um ar completamente sofredor executa o que em futebolês se chama o gesto técnico e a bola teimosamente voltou a não sair na direcção desejada.
O pai - Pareces burro, se queres ser jogador de futebol, tens que te aplicar, (será que o miúdo quer mesmo ou será o pai que quer viver um sonho que foi dele e que agora cobra no filho?).
O miúdo, desesperado, sentou-se no chão com ar de quem espera o fim do jogo.
O pai, irritado, mandou a bola para longe com um forte pontapé.
O escriba pensou que se o árbitro tivesse visto, o pai merecia um cartão por comportamento incorrecto.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A RITALINIZAÇÃO DOS MIÚDOS. DE NOVO

Desculpem a insistência mas as proporções e gravidade da situação justifica. O JN apresenta um trabalho com presença na primeira página sobre os excessos que se verificam no consumo do metilfenidato por parte de crianças cada vez mais novas. Aliás, no noticiário televisivo da RTP1 das 13 também o tema foi abordado com as opiniões de especialistas de diferentes áreas que acordaram na sobreutilização deste psicofármaco.
Esta medicação é usada na terapêutica das situações de alegados problemas de comportamento, hiperactividade, défice de atenção ou instabilidade. No entanto, é também usada como “auxílio” aos resultados escolares sendo também conhecida pelo “comprimido da inteligência”. 
Esta preocupação tem sido objecto de intervenções recorrentes. Recordo que no Relatório anual do Conselho Nacional de Educação “Estado da Educação 2015” chamava-se a atenção para a questão do consumo de medicação por parte de crianças e adolescentes para alegados problemas de comportamento, hiperactividade, défice de atenção ou instabilidade.
Em 2010 prescreveram-se no SNS 133 562 e em 2016 o número foi 270 492. É ainda de considerar que em 2015 63% do volume do fármaco foi usado entre os 10 e os 19 anos e 26% até aos 9 anos. Os adultos consumiram “apenas” 7% do volume total de prescrições.
São valores impressionantes e altamente preocupantes e que estão em linha com os dados do Infarmed que tem alertado para o disparar do consumo do metilfenidato com os nomes correntes de Ritalina, Concerta ou Rubifen.
Face a este cenário e em diferentes intervenções públicas, especialistas como Mário Cordeiro, Gomes Pedro ou Ana Vasconcelos, que também foi ouvida na peça da RTP1, têm revelado sempre uma atitude cautelosa e prudente face esta hipermedicação ou sobrediagnóstico e alertado para os riscos destas práticas que, aliás, não se verificam em todos os países. Este tipo de discurso, cauteloso e prudente, que subscrevo, contrasta com a ligeireza, que não estranho, de Miguel Palha que referia há algum tempo no Público as “centenas” de crianças que na sua clínica solicitam “diariamente” o fármaco.
Pedindo desculpa ela repetição de escritos anteriores, a forma como olhamos, intervimos e exigimos dos comportamentos e resultados escolares dos mais novos mostram que de há uns tempos para cá uma boa parte dos miúdos e adolescentes parece ter adquirido uma espécie de prefixo na sua condição, o "dis", passam a "dismiúdos".
Se bem repararem a diversidade é enorme, ao correr da lembrança temos os meninos que são disléxicos em gama variada, disgráficos, discalcúlicos, disortográficos ou até distraídos.
Temos também as crianças e adolescentes que têm (dis)túrbios ou perturbações. Estes também são das mais diferenciadas naturezas, distúrbios do comportamento, distúrbio do desenvolvimento, distúrbios da atenção e concentração, distúrbios da memória, distúrbios da cognição, distúrbios emocionais, distúrbios da personalidade, distúrbios da actividade, distúrbios da comunicação, distúrbios da audição e da visão, distúrbios da aprendizagem ou distúrbios alimentares.
Como é evidente existem ainda os que só fazem (dis)parates e aqueles cujo ambiente de vida é completamente (dis)funcional ou se confrontam com as (dis)funcionalidades dem muitos contextos escolares, número de alunos por turma excessivo, currículos desajustados, falta de apoios, etc.
Pois é, há sempre um "dis" à espera de qualquer miúdo e senão, inventa-se, "ele tem que ter qualquer coisa".
De forma propositadamente simplista costumo dizer que algumas destas crianças não têm perturbações do desenvolvimento ou dificuldades de aprendizagem, experimentam perturbações no envolvimento e sentem dificuldades na “ensinagem”.
Agora um pouco mais a sério, sabemos todos que existe um conjunto de problemas que pode afectar crianças e adolescentes, esses problemas devem ser abordados, se necessário com medicação, evidentemente, mas, felizmente, não são tantos as situações como por vezes parece. Inquieta-me muito a ligeireza com que frequentemente são produzidos "diagnósticos" e rótulos que se colam aos miúdos, dos quais eles dificilmente se libertarão e que pela banalização da sua utilização se produza uma perigosa indiferença sobre o que se observa nos miúdos. Aliás, é curioso perceber o que se passa noutros países, França, por exemplo, nesta matéria.
Inquieta-me ainda a ligeireza com que muitos miúdos aparecem medicados, chamo-lhes "ritalinizados", sem que os respectivos diagnósticos conhecidos pareçam suportar seguramente o recurso à medicação. A sobreutilização ou uso sem justificação do metilfenidato e de outros fármacos tem riscos, uns já conhecidos, outros em investigação.
Esta matéria, avaliar e explicar o que se passa com os miúdos e adolescentes, exige um elevadíssimo padrão ético e deontológico além da óbvia competência técnica e científica.
Não se pode aligeirar, é "dis"masiado grave.

NÃO HAVIA NECESSIDADE

Li no Público que de acordo com o novo regulamento para exames em vigor para este ano lectivo os alunos internos no ensino secundário devem inscrever-se obrigatoriamente na 1ª fase dos exames. Se reprovarem e realizarem o exame na 2ª fase terão de pagar 3 € pela inscrição.
Deve ser engano pensei. Mas não,  o Regulamento diz isso mesmo.
Vejamos então. A realização de exames é algo de imprescindível para a conclusão (certificação) de conclusão do ensino secundário e, erradamente, a nota do exame é determinante para o acesso ao ensino superior. Por outro lado, com a organização do nosso sistema, a conclusão do secundário realizada num percurso sem sobressaltos corresponde ao cumprimento da escolaridade obrigatória que é, bem do meu ponto de vista, de doze anos. Eu sei que cumprir a escolaridade obrigatória de doze anos não é, formalmente, igual a fazer o 12º ano mas ... não colhe.
Acontece ainda que no Artº 74º (Ensino) da Constituição que nos rege se determina, “Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito.
Assim sendo, vejo com muita estranheza que um aluno que quer realizar o seu exame em 2ª fase porque reprovou na 1ª tenha que pagar. Posso aceitar que, tal como já estava em vigor, o pagamento possa ser solicitado para melhoria da nota mas para obter a aprovação num exame que corresponde, em princípio, à conclusão da escolaridade obrigatória parece-me um forma pouco aceitável de financiar as escolas conforme se estipula no regulamento agora conhecido.
Não havia necessidade.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

OS RESULTADOS NOS TEIPs. A ESCOLA PODE FAZER A DIFERENÇA

Segundo dados da Direcção-geral de Educação, referidos num trabalho do DN, em 2015/2016 no 1º ciclo, 42.7% das escolas integradas em Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP) conseguiram taxas de retenção e desistência abaixo da média nacional, no 2º ciclo verificou-se 40.5%, no 3º ciclo, 38.7% e no secundário secundário fora das áreas de científico-humanísticas, 38% e nos cursos de científico-humanísticas de 32,7%.
São resultados positivos apesar do decréscimo ao longo dos anos de escolaridade o que também não é estranho. No entanto, verifica-se uma assimetria que merece atenção nos resultados por regiões. As escolas em TEPS no Norte e Centro apresentam resultados significativamente melhores que o resto do país enquanto nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve continuam bastante distantes quer das médias nacionais quer das restantes escolas TEIP.
Estes resultados, em termos globais, são interessantes. Apesar de muitas vezes dizer que todo o território educativo é um conjunto de TEIPs, ou seja, uns são Territórios Educativos de Intervenção Prioritária, outros são Territórios Educativos com a Intervenção Possível, a escola pode fazer a diferença, contrariar o destino e permitir mobilidade social. Para isso, como dizia há algum tempo numa colaboração com o Expresso, sobretudo as que servem populações mais vulneráveis, não podem responder com os mesmos recursos e da mesma forma que as restantes. Têm de ter autonomia e recursos de diferente natureza.
Numa altura em que tantas vezes se questiona e responsabiliza a escola é bom saber, nós sabemos, que, apesar de tudo, a escola … ensina e educa.
Muitas vezes penso que nos falta um pouco a “cultura" de valorizar e divulgar o que corre bem. Embora se compreendam algumas razões estamos quase sempre mais direccionados para os muitos problemas e dificuldades sempre presentes no complexo universo da educação e neste sentido importa, de facto, perceber porque noutras regiões escolas que, em princípio recebem populações com características semelhantes, os resultados são bem diferentes. A escola pode fazer a diferença em diferentes sentidos.
Nesta perspectiva, apesar do peso das variáveis relativas aos alunos e contexto social, económico e cultural, o trabalho na e da escola e dos professores é um factor significativamente explicativo do sucesso dos alunos mais vulneráveis e capaz de contrariar ou minimizar o peso dessas variáveis.
Este trabalho da e na escola envolve dimensões como organização e funcionamento, clima, níveis de colaboração e cooperação, estilo e competência das lideranças, por exemplo e, definitivamente, o trabalho em sala de aula em que surge a diferença produzida pelo professor, pelos professores.
Quando abordo estas questões cito com frequência uma afirmação de 2000 do Council for Exceptional Children, "O factor individual mais contributivo para a qualidade da educação é a existência de um professor qualificado e empenhado".
No entanto a existência de professores qualificados e empenhados não depende só de variáveis individuais de cada docente, decorre também de um conjunto de políticas educativas que promovam a qualificação, a motivação e a valorização a diferentes níveis do trabalho dos professores.
E nesta matéria também temos muito trabalho para realizar.

DA VIOLÊNCIA ENTRE JOVENS. ENÉSIMO EPISÓDIO

A comunidade está de novo em sobressalto com mais um vídeo chocante da agressão de uma adolescente por um grupo também de adolescentes. Como é habitual as imagens chegam à imprensa depois de serem expostas nas redes sociais.
A situação está em investigação das autoridades criminais e foi objecto de queixa familiar. Algumas notas repescadas.
Os comportamentos agressivos e abusos entre jovens em contexto escolar, bullying por exemplo, ou fora deles são de sempre ainda que os estudos destes fenómenos sejam mais recentes. O volume e a gravidade de alguns episódios e, sobretudo, a sua mediatização através das redes sociais dão também uma maior visibilidade ao fenómeno.
Na verdade e com alguma preocupação, em vários estudos muito recentes constata-se que os adolescentes tendem a encarar a violência entre si e de uma forma geral, como normal o que não surpreenderá os mais atentos. A sociedade da informação e os sistemas de valores actuais banalizaram a violência, não são os adolescentes que a banalizaram.
Por outro lado, a escola e o meio circundante, por serem os espaços onde os adolescentes e jovens passam a maior parte do seu tempo são, naturalmente, os espaços onde emergem e se tornam visíveis os problemas e inquietações que os alunos carregam. No entanto, não é possível considerar-se que a escola é mágica e omnipotente pelo que tudo resolverá. Tudo pode envolver a escola, mas nem tudo é da exclusiva responsabilidade da escola, família e outros actores da comunidade dm assumir responsabilidades.
No entanto, sem desresponsabilizar as famílias importa não esquecer que alguns pais se sentem tão perdidos quanto os filhos, têm elas próprias dificuldades e disfuncionalidades que são parte do problema e não da solução pelo que também elas precisam de apoio, só responsabilizá-las não chega.
No que respeita à violência entre jovens, um fenómeno complexo, existem ainda duas questões que me parecem essenciais e contributivas para lidar com a situação. Em primeiro lugar é importante criar nos alunos, ou adultos, vitimizados a convicção de que se podem queixar e denunciar as situações e encontrar dispositivos de apoio que garantam a protecção da vítima pois o medo de represálias é o principal motivo da não apresentação da queixa, sobretudo entre os mais novos. É importante também que os actores da escola e da comunidade saibam detectar nos alunos sinais que indiciem vitimização.
Em segundo lugar, é preciso contrariar no limite do possível a ideia de impunidade, de que não acontece nada ao agressor. As escolas, tal como a comunidade em geral podem e devem assumir atitudes, discursos e montar dispositivos que, visivelmente, mostrem um sinal de que não existe tolerância para determinados comportamentos.
É também importante que famílias e escolas estejam atentas e que estas possam ser dotadas de meios e recursos suficientes e competentes que permitam o desenvolvimento de iniciativas no plano da formação e apoio aos adolescentes e jovens, integrados ou não nos conteúdos curriculares que, tanto quanto possível, minimizem o risco de incidentes como o que agora conhecemos.
Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização destes incidentes que minam a qualidade cívica da nossa vida.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

PROIBIDO A CRIANÇAS, DEPOIS, PROIBIDO A ...

Na Visão encontra-se um trabalho interessante sobe a proliferação da proibição da frequência por parte de crianças de espaços de natureza variada como restaurantes ou equipamentos de hotelaria. Na construção do trabalho a autora, Teresa Campos, solicitou-me um pequeno comentário a esta matéria. Algumas notas em complemento.
De facto, com cada vez maior regularidade surgem notícias sobre espaços de diferente natureza que em nome do sossego e da tranquilidade proíbem ou, para ser mais simpático, condicionam o acesso a crianças.
Começa por se praticar de forma discreta o condicionamento, corrige-se se despertar algum alarido até melhor oportunidade, volata a insistir-se e alargam-se de mansinho as práticas de “limpeza etária”.
Há uns atrás, creio que em 2011, a Ryannair anunciou a intenção de voos proibidos a crianças que creio não ter avançado.
No entanto existem unidades hoteleiras ou de restauração que têm essa interessante atitude de proibir a entrada a crianças.
Recordo que há uns tempos o conhecido tudólogo Miguel Sousa Tavares também sustentou que as crianças nos restaurantes podiam ser tão incomodativas como o fumo dos seus cigarros.
Estas posições parecem-me interessantes. É de notar que logo surgem apoiantes e existe certamente um nicho de mercado, já identificado evidentemente, quer viver longe das crianças estando, por isso, disposto até a pagar um pouco mais só para não correr o risco de levar com uns putos mal-educados a estragar a viagem, a estadia no hotel ou spa, ou a refeição.
Talvez nas companhias aéreas se possa pensar na hipótese das crianças poderem viajar em condições especiais como os animais de companhia.
Com é evidente, todos temos histórias destas, não é uma experiência particularmente agradável ter como companhia de viagem ou de refeição miúdos que se comportam como ditadores, miúdos desregulados no comportamento e muitas vezes acompanhados dos respectivos papás que por incompetência ou negligência são incapazes de manter os miúdos tranquilos. Como é óbvio, temos o direito à tranquilidade.
Só que a questão é a natureza da educação que os miúdos têm e não a proibição da sua presença, os miúdos não são todos assim e, por outro lado, todos já fomos miúdos.
Existem muitos adultos que me incomodam e não vejo como proibir a presença de adultos a bordo dos aviões ou noutro qualquer espaço. Um dia destes pode pensar-se em proibir a presença de velhos, são chatos, sempre a contar histórias, as mesmas histórias. Também pode proibir-se a presença de gente obesa, torna o espaço mais apertado para as outras pessoas. Também se poderia proibir a presença de profissionais da política, incomodam demasiada gente. Não têm limite os exemplos que poderemos antecipar.
Este tipo de discurso mostra, também, de que são feitos alguns dos tempos que vivemos, putos desregulados, a crescer sem regras e gente intolerante, a criar guetos sucessivos e cada vez mais exclusivos.
Vão acabar sós.

PS - Já depois de ter escrito o texto encontro no JN uma notícia interessante, um restaurante de Pádua, Itália, descontou 13,05 euros na conta de grupo familiar devido ao comportamento exemplar das crianças durante a refeição. Tem mais piada que a proibição e pode ser um incentivo às famílias na sua acção educativa.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

CONTAS

Não é necessário ser contabilista ou economista para saber que prestar contas não é o mesmo que ajustar contas.
Também sabemos que em política e em particular na espécie de partidocracia em que vivemos as contas nunca dão certas, ou seja, cada cabeça sua máquina calculadora, perdão, sua agenda.
Sabemos ainda que boa parte destas contas são suportadas por nós.
E são assim os dias do Portugal dos Pequeninos.

NÃO PARA COMPARAR O INCOMPARÁVEL, MAS PARA REFLECTIR

Sim, eu sei que não se devem comparar realidades diferentes. Por isso não é para comparar.
Sim, eu sei que nem sempre os discursos dão um retrato fiel da realidade.
Sim, eu sei que afirmações retiradas do contexto podem sofrer enviesamentos de leitura e interpretação.
Sabendo tudo isto e não para comparar, insisto, mas para reflectir, ficam alguns excertos da entrevista ao Expresso de Jari Lavonen, director do Departamento de Formação de Professores da Universidade de Helsínquia.
Sobre o abaixamento dos resultados dos alunos finlandeses nos estudos internacionais, (PISA).
Devido ao menor financiamento, “As turmas aumentaram de tamanho, o número de professores afectos à educação especial e de assistentes de aulas foi reduzido. (…) Claro com turmas maiores e sem apoio disponíveis para estudantes com dificuldades, estes vão aprender menos
Sobre o currículo.
Há muito tempo que temos um currículo nacional que é revisto a cada 10 anos num trabalho muito participado e colaborativo. O Conselho Nacional de Educação convida professores, investigadores, vários parceiros que têm um papel no sistema para debaterem e darem feedback sobre a discussão. Assim, construir uma visão comum e grandes objectivos. Os professores são chamados a participar na definição dos currículos a nível local.”
Sobre os professores.
É mais difícil entrar nesta formação que em Medicina ou Direito. Seleccionamos 5% dos candidatos.”
Ainda sobre os professores.
Sentem que o seu trabalho é apreciado. Além disso, não têm muita pressão das famílias, não há inspecções escolares, nem um sistema pesado de exames nacionais. É-lhes dada autonomia para planear, pôr em prática e avaliar todo o ensino.”
Sobre a monitorização da qualidade.
É um processo baseado na auto-avaliação, seguido de uma discussão com o director da escola sobre o desenvolvimento profissional, o feedback transmitido pelos alunos e resultados escolares.
Nos últimos anos também iniciámos um processo de formação de professores mentores que dão apoio aos que chegam a o sistema.”
Sobre a mudança em educação.
É muito comum na Finlândia reunir os protagonistas para chegar a um consenso. E de cada vez que é definida uma nova estratégia o Governo aloca recursos para a implementar”.
Como disse, não acho que seja de comparar, não tem sentido e não é adequado. No entanto, julgo mesmo que é interessante reflectir sobre toda a entrevista.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O NÚMERO DE ALUNOS POR TURMA, OS CUSTOS DA EDUCAÇÃO, AS TURMAS COM DIFERENTES ANOS DE ESCOLARIDADE

No âmbito do trabalho da Comissão Parlamentar de Educação e Ciência relativo à intenção de diminuir o número de alunos por turma o Presidente do CNE, David Justino, participou numa audição na qual, segundo relatos da imprensa enfatizou duas questões, os custos, entre 500 a 7000 milhões de euros, das propostas de BE, PCP e Verdes relativas à diminuição de alunos por turma e o problema do número excessivo de turmas que integram alunos de diferentes anos de escolaridade.
Apesar da relação entre as duas questões, algumas notas em separado.
Quanto aos custos, baseando-se numa proposta, não mais do que isso, trata-se apensa de um exercício. Aliás, se nos centramos apenas nos custos, recordo que o em termos de custos também poderia recordar que no Relatório Técnico do Conselho Nacional de Educação sobre a retenção em Portugal divulgado em Fevereiro de 2015 se afirma que o custo estimado por cada aluno que chumba é de 6500€ e também se lê que em cada ano são retidos cerca de 150 000 alunos. Dito de outra maneira os custos da retenção são cerca de 975 milhões.
Quero afirmar que apesar de não desconhecer ou desvalorizar a importância da dimensão económica em matéria de educação, a complexidade deste universo exige a consideração de múltiplas variáveis e não apenas a questão financeira. Quer isto dizer que não gosto da relação que acabei de estabelecer mas foi uma tentação.
Por outro lado, no Estudo "Organização Escolar: As Turmas", também do CNE, pode encontrar-se uma revisão de estudos internacionais da qual releva releva a vantagem genérica, mais ou menos significativa, consoante as variáveis consideradas, de turmas com efectivos menores. Sublinho que os estudos sugerem com clareza impacto positivo no clima da sala, na maior facilidade de práticas educativas mais diferenciadas ou no comportamento dos alunos. Talvez não seja tarefa fácil mas os especialistas em análise de custos custos talvez possam dar uma ajuda.
Qual o valor económico de menos problemas de comportamento?
Qual o valor económico de melhor clima nas salas de aulas?
Qual o valor económico de mais tempo para cada aluno?
Qual o valor o valor económico de maior possibilidade de diferenciação das práticas?
Qual o valor económico de alunos melhor apoiados nas suas dificuldades?
Por favor, educação não prescinde dos euros mas é mais do que euros. A despesa na educação, bem decidida e sem desperdício não é despesa é investimento.
Agora umas notas breves sobre as turmas com vários anos de escolaridade. Este cenário é genericamente entendido como um risco para a qualidade e resultados positivos do trabalho de alunos e professores. É o entendimento do Presidente do Conselho Nacional de Educação e percebe-se a apreciação.
No entanto, não tem que assim acontecer, recordo uma experiência divulgada pelo Público em Maio de 2016 de uma escola numa aldeia do concelho de Santarém composta por alunos do 1º ciclo a frequentar os diferentes anos de escolaridade, do 1º ao 4º. Nesta turma, devido às estratégias adoptadas pelo professor titular e pelo Agrupamento o trabalho tem sido bem-sucedido.
Ainda bem que assim é, mas esta questão das estranhamente chamadas turmas mistas deve ser analisada. Em primeiro lugar importa sublinhar que o trabalho do professor é a variável individual mais contributiva para o sucesso do trabalho dos alunos e que tantas vezes é esquecida a ver pelos tratos sofridos pelos docentes e pelas suas condições de trabalho.
Em segundo lugar é preciso existir um quadro de autonomia que permita a direcções e professores encontrar, face às suas especificidades de contexto, a melhor forma de organizar os alunos e os dispositivos de apoios ao seu trabalho e ao dos professores.
Mais autonomia sustenta melhor trabalho, é assim na generalidade dos sistemas educativos. No entanto, falar recorrentemente de autonomia não é o mesmo que promover, de facto, a autonomia de escolas e agrupamentos, matéria onde há muito que fazer.
É ainda relevante que a dimensão das turmas, esta da notícia do Público tenha 18 alunos, situação que nem sempre se verifica sobretudo nos centros educativos e mega-agrupamentos resultantes de uma necessária reestruturação da rede escolar mas que conduziu a situações de fechamento de escolas e de concentração de alunos em dimensões insustentáveis.
Do ponto de vista curricular e apesar da anunciada “flexibilidade” ainda vigora uma estrutura de metas curriculares que, tal como estão definidas e não por existirem, burocratizam o trabalho dos docentes, são excessivas, prescritivas pelo que dificultam seriamente a acomodação da diversidade dos alunos ainda mais potenciada pela presença de vários anos de escolaridade.
Acresce ainda a disparidade e modelos de resposta no trabalho dirigido a alunos com necessidades educativas especiais que leva à existência de escolas com unidades especializadas de diferentes naturezas em que os professores de educação especial se concentram e, simultaneamente de escolas em que as turmas têm mais alunos com NEE do que está determinado legalmente e se deparam com falta de apoios adequados e suficientes.
Na verdade, a existência de alunos de diferentes anos de escolaridade na mesma turma não tem que necessariamente ser um problema inultrapassável e com consequências negativas inevitáveis. Mas é bom que que se assegurem as condições necessárias.
Caso contrário, pode ser mesmo um problema, não uma solução.

A VOZ DA CRIANÇA

Passou discretamente pelo Expresso mas é algo que me parece interessante. Um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça vem determinar que TODAS as crianças devem ser ouvidas no âmbito dos processos judiciais de promoção e protecção que as envolvam. A lei estabelecia que já era obrigatório ouvir a criança a partir dos doze anos mas agora será sempre obrigatório. Quando pela idade ou por outra razão assim não aconteça o juiz responsável deverá justificar formalmente por escrito a decisão.
Segundo o Acórdão, “A criança ou o jovem tem direito a ser ouvido individualmente ou acompanhado pelos pais, pelo representante legal, por advogado da sua escolha ou oficioso ou por pessoa da sua confiança”. Mais determina que “A falta de audição da criança afeta a validade das decisões finais dos correspondentes processos por corresponder a um princípio geral com relevância substantivas.”
Na verdade, parece-me um passo muito significativo no cumprimento de um direito das crianças, a voz sobre matérias que a envolvem e que, aliás, está inscrito na Convenção dos Direitos da Criança.
Sabemos que a audição de crianças muito novas pode constituir uma tarefa complexa mas também sabemos que mesmo nessas idades e nas circunstâncias adequadas as crianças são capazes de exprimir juízos sobre a sua realidade e contexto de vida.
Aliás, recordo que há algum tempo o Conselho Regional de Lisboa da Ordem dos Advogados tomou a iniciativa de distribuir pelos tribunais de Família e Menores exemplares de um livro destinado a ajudar magistrados, procuradores e advogados a realizar de forma adequada audições a crianças no âmbito de processos de regulação parental.
Esta iniciativa vai no mesmo sentido de duas outras que aqui também referi.
Uma primeira referência para a criação por parte de um grupo de advogados especialistas em direito de família de uma Associação, "Voz da Criança" que "pretende dar voz às crianças nos tribunais e ser uma voz activa junto do poder legislativo".
Esta Associação tem como objectivos latos proteger os direitos das crianças e a forma como, do ponto de vista do direito, são consideradas, bem como analisar e promover ajustamentos nos procedimentos adoptados pelos diversos actores neste universo tendo sempre como grande preocupação o "supremo interesse da criança".
Também na mesma altura, 2013, foi divulgado que a PSP, em pareceria com a APAV, criou nas instalações da Divisão de Investigação Criminal de Alcântara, em Lisboa, um “espaço criança”, destinado exclusivamente às crianças que se deslocam a esta Divisão que tem competência em matéria de investigação de abusos e maus tratos a crianças, por exemplo, no quadro de violência doméstica.
Na verdade, esta atenção à criança e às circunstâncias em que muitas crianças são ouvidas e recebidas devido a questões processuais e de investigação quase que configuram uma nova situação de vitimização ou são percebidas como ameaçadoras e intimidantes. Recordo, por exemplo, sucessivas audições de crianças vítimas de abuso sexual, situação que creio atenuada, mas não resolvida, com os depoimentos para memória futura ou ainda o contacto com os agressores. Quase parece dispensável a necessidade de referir como é violento e capaz de deixar marcas profundíssimas solicitar a uma criança que repetidas vezes relate, relembre e "viva" a situação dramática porque passou, o que significa, certamente, um novo abuso.
Acresce às questões processuais que podem ser, na verdade, outra experiência de violência, a importância do contexto de acolhimento, espaço onde ocorre e a preparação de quem recebe as crianças, nos diferentes serviços.
Também nos casos de regulação parental deve ser protegido o bem-estar das crianças e as audições e inquirições devem decorrer de forma protegida e adequada.
O Acórdão do Supremo que atribui voz a todas as crianças e obriga a justificar quando tal não é considerado parece-me um passo importante e que merece registo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

JÁ CHEIRA A ENXOFRE

Tinham razão nas previsões e avisos. O Diabo e o Inferno estão aí, já cheira a enxofre.
Agora é que vão ser elas. E que vai ser deles?
E que vai ser de nós?

MALTRATAR NÃO RIMA COM GOSTAR

Em dia de S. Valentim voltemos às questões do namoro, agora no seu lado B, a violência e abusos nas relações amorosas entre adolescentes e jovens.
Um trabalho da responsabilidade da UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta que inquiriu 5500 jovens com idade média de 15 anos mostra que comportamentos como coagir para ter relações sexuais, proibir o namorado ou a namorada de se relacionar com alguém ou usar algum tipo de roupa tendem a ser encarados como normais por uma elevada percentagem de jovens. Cerca de 24% dos inquiridos considera normal partilhar fotos intimas ou insultar através das redes sociais e 14% atribuem legitimidade a violência doméstica, 19% declararam ter já sido vítimas desse tipo de violência.
Recordemos que de 2015 para 2016 aumentou 6% o número de queixas à PSP e GNR por violência no namoro. Foram recebidas 1975 participações sendo que muitos episódios não são reportados.
Esta realidade tem vindo a assumir proporções inquietantes e, do meu ponto de vista, não tem merecido a atenção que a sua gravidade e prevalência justificam. Provavelmente começa por aqui a tragédia da violência doméstica que parece indomesticável.
È ainda de recordar um trabalho da responsabilidade da Universidade do Porto envolvendo um grupo populacional significativo, cerca de 3000 jovens nascidos em 1990, divulgado no início de 2014 mostrava que no âmbito das relações de namoro, 60% dos jovens inquiridos relataram pelo menos um caso de agressão psicológica, insultar por exemplo. Um em cada três jovens também refere pelo menos um episódio de coacção sexual e 18 % referiram pelo menos um acto de violência física, bater ou arremessar um objecto com o objectivo de atingir o outro. É ainda de registar que mais de metade dos jovens envolvidos assume o estatuto de vítimas mas também de agressores.
Estes números que são coerentes com outros estudos sobre comportamentos de violência nas relações amorosas indiciam o que está por fazer em matéria de valores e comportamentos sociais. Acresce que boa parte das situações de abuso não são objecto de queixa.
Este conjunto de dados é preocupante, gostar não é compatível com maltratar, mas creio que não é surpreendente. Os dados sobre violência doméstica em adultos que permanece indomesticável deixam perceber a existência de um trajecto pessoal anterior que suporta os dados destes e de outros trabalhos. Aliás, nos últimos anos a maioria das queixas de violência doméstica registadas pela APAV foram de mulheres jovens.
Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores sociais presentes em cada época. De facto, e reportando-nos apenas aos dados mais gerais, é relevante a percentagem de jovens, incluindo estudantes universitários, que afirmam um entendimento de normalidade face a diferentes comportamentos que evidentemente significam relações de abuso e maus-tratos.
Como todos os comportamentos fortemente ligados à camada mais funda do nosso sistema de valores, crenças e convicções, os nossos padrões sobre o que devem ser as relações interpessoais, mesmo as de natureza mais íntima, são de mudança demorada. Esta circunstância, torna ainda mais necessária a existência de dispositivos ao nível da formação e educação de crianças e jovens; de uma abordagem séria persistente nos meios de comunicação social; de um enquadramento jurídico dos comportamentos e limites numa perspectiva preventiva e punitiva e, finalmente, de dispositivos eficazes de protecção e apoio a eventuais vítimas.
Só uma aposta muito forte na educação, escolar e familiar, pode promover mudanças sustentadas nesta matéria. É uma aposta que urge e tão importante como os conhecimentos curriculares. Neste sentido foi também hoje anunciada Secretária de estado para a Cidadania e Igualdade o desenvolvimento a partir do próximo ano de uma abordagem preventiva nas escolas “Educação para aa Cidadania” que se espera produzir efeito na qualidade das relações interpessoais.
Entretanto e enquanto não mudo, "só faço isto, porque gosto de ti, acreditas não acreditas?"

ELA DISSE QUE SIM

Ainda hoje não sei se o meu envolvimento nesta história é motivo de orgulho ou de constrangimento. Lembro-me dela em cada dia de S. Valentim e passou-se num tempo em que ainda não tinha sido inventado mais este nicho de mercado
Tínhamos uns treze ou catorze anos e dançávamos entre as coisas da escola e a descoberta dos afectos, o bem-querer a alguém. Do grupo fazia parte o Paulo, o Pirolito já não me recordo porquê. O Pirolito, um tipo daqueles que não se aquieta um minuto, andava infeliz, tinha uma paixão pela Joana que, desconsolo supremo, não lhe ligava. O Pirolito era a tristeza feita gente, então quando nos via inchados com os nossos bem-querer, os olhos eram um espelho de mágoas.
Um dia, o Zé, que namorava, como esta palavra nos soava bem, com a Sofia, a melhor amiga da Joana, teve uma ideia, esquisita, achámos todos. E se através da Sofia se pedisse, no maior dos segredos, à Joana que aceitasse o Pirolito como namorado, mesmo só uns dias.
Não é que a Joana aceitou. Encorajámos o Pirolito que, cheio de medo, de novo tentou a Joana. E ela disse que sim. O Pirolito, como hoje se diria, passou-se, creio mesmo que foi ele o primeiro homem, rapaz na verdade, a ir à Lua.
Alguns dias depois, com um qualquer pretexto, o namoro acabou. Curiosamente, o grupo envolvido não mais conversou sobre esta trama.
Com os anos a passar não mais soube do Pirolito nem da Joana, mas tenho duas convicções. O Pirolito viveu certamente alguns dos dias mais felizes da sua vida e a Joana, cuja acção gosto de interpretar como generosidade, deve continuar a fazer felizes as pessoas à sua beira, mesmo por momentos.
E eu, como vos disse, não sei se me devo orgulhar desta história, ou se me envergonhe da batotice que fizemos. Mas, aqui para nós, não estou muito preocupado com isso.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

DESCALÇA NA RELVA? NÃO, TEM BICHOS, FICAS DOENTE

Tal como no texto anterior, venho referir uma experiência educativa muito interessante. Um projecto que envolve vários Jardins de Infância de Coimbra e estruturas de ensino superior leva as crianças a brincar no exterior, na mata do Choupal, qualquer que seja o tempo. As poças, as árvores ou os trilhos com lama, são equipamentos educativos.
De facto, muitas vezes aqui tenho referido a importância das actividades ao ar livre que deveriam ser uma rotina e não uma excepção na educação formal e não formal dos mais novos.
Somos dos países da Europa em que adultos e crianças menos desenvolvem actividades no exterior contrariamente, por exemplo ao que se verifica nos países nórdicos. É verdade que esses países têm habitualmente climas bastante mais amenos que o nosso mas, ainda assim, poderíamos ter durante mais tempo crianças e adultos a realizar actividades no exterior. O Estudo do Meio poderia também por regra o Estudo no Meio.
Tal como se refere na peça do Público as vantagens destas actividades são de diferente natureza e positivas pelo que não vale a pena repetir.
Deixo apenas umas notas a partir de uma cena a que assisti e que se enquadra neste texto.
Num fim de tarde em que fazia uma corridinha num espaço verde aqui da zona, o Parque da Paz passei por um grupo familiar e a minha estonteante velocidade deu para perceber que uma gaiata pequenina vinha descalça ao colo do pai e pedia para que ele a pusesse no chão relvado. Ouvi o pai dizer que não se pode andar descalço, para ela não ser teimosa porque se quis descalçar e agora tinha que ir ao colo. Para convencer a criança, falava-lhe, cito dos "bichos que estão no chão”, da “quantidade doenças que apanharia de andar na relva descalça" e mais que entretanto já não ouvi. Reparei ainda que a criança vinha a comer qualquer coisa que ia retirando de um pacote.
É notável, aquele pai revelava uma enorme preocupação com os riscos gravíssimos de andar descalço num relvado bem tratado e, habitualmente, sem a visita dos cães e achava aparentemente, natural a criança comer qualquer coisa hipercalórica certamente muito perto da hora de jantar.
Esta atitude ilustra algo que entre nós está muito presente, um aparente discurso de preocupação que, embora se perceba, eu diria excessiva, com muitas das actividades que as crianças podem, eu diria devem, fazer e, ao mesmo tempo, somos frequentemente negligentes com aspectos verdadeiramente graves de que cito como exemplos o enorme número de acidentes domésticos com crianças ou a obesidade infantil que já é um problema sério de saúde pública.
Muitas vezes, estes pais que protegem tanto as crianças dos riscos de andar descalço, por exemplo, estão também entre os que descansam, no seu entendimento, quando as crianças estão "livres de riscos" no quarto, sós, trancadas num ecrã.
Deixem lá os putos andar descalços e rebolar na relva. E já agora juntem-se a eles. Faz bem a todos.”
Finalmente, ainda uma chamada de atenção para duas peças muito interessantes sobre estas questões expressas por dois especialistas.
A primeira, uma entrevista ao pediatra Pedro Oom a propósito do seu novo livro, “Infectário”. A segunda, também uma entrevista ao investigador Brett Finlay, co-autor do livro “Deixe-os Comer Terra”. Em ambas as entrevistas se sublinha a importância de repensar a nossa acção educativa muito marcada pela inibição de experiências e actividades importantes a vários níveis para o desenvolvimento e bem-estar das crianças.

DAS BOAS EXPERIÊNCIAS EM EDUCAÇÃO

É sempre importante que as boas práticas e experiências que diariamente se desenvolvem em muitas das nossas escolas sejam divulgadas. Não para serem replicadas mas para serem pensadas, conhecidas, Rreconhecidas, reconstruídas e, se for caso disso, desenvolvidas com as devidas adequações noutras realidades e com outros protagonistas.
Serve esta introdução para referir a experiência hoje divulgada no JN.
A Escola Dr. Joaquim Gomes Ferreira de Valadares desenvolve há alguns e com bons resultados o Projecto Saber em que alunos do Secundário trabalham em regime de voluntariado com colegas seus do básico ajudando no estudo de diferentes disciplinas, na realização dos trabalhos de casa e na importante construção de um sentimento de envolvimento, pertença e participação na escola. Os alunos tutorandos pertencem sobretudo a contextos familiares menos favoráveis.
Os resultados têm sido positivos e os alunos, tutores e tutorandos ouvidos, realçam o impacto positivo na sua vida escolar, uns por umas razões, os outros por razões diferentes.
Esta experiência vem, mais uma vez, comprovar que os alunos, do mesmo ano, da mesma sala, ou de anos e idades diferente, podem ser bons recursos para a ensinagem e não “apenas” actores da aprendizagem.
As relações estabelecidas são de natureza diferente e os níveis de motivação podem subir face à relação com pares e não apenas com professores.
É também de sublinhar o impacto que este tipo de trabalho pode ter na cultura da escola, cooperação e apoio, no desenvolvimento, como já referi, de sentimentos de pertença, participação e suporte a dificuldades em alunos que apoiam, alunos que são apoiados e em toda a comunidade escolar.
Por último e também de considerar nos tempos que correm, trata-se de uma medida de custos económicos baixos e com retorno seguro.
É quase dispensável referir que esta experiência não significa, do meu ponto de vista, qualquer desconsideração, seja de que natureza for, antes pelo contrário, do trabalho dos professores. Julgo, aliás, que os bons resultados que se verificam também se devem justamente ao trabalho dos docentes.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O PERFIL DO ALUNO DO SÉCULO XXI

Foi ontem divulgado o resultado do trabalho do Grupo coordenado por Guilherme d’Oliveira Martins que definiu o perfil de competência que um aluno deve possuir no final da escolaridade obrigatória, o "Perfil do Aluno do Século XXI".
Não conheço ainda o trabalho para além do que se encontra na comunicação social.
O documento vai entrar em discussão pública pelo que mais adiante será possível uma leitura atenta que é, evidentemente, justificada.
São identificadas 10 áreas de competências a saber: linguagens e textos, informação e comunicação, relacionamento interpessoal, raciocínio e resolução de problemas; pensamento crítico e pensamento criativo; desenvolvimento pessoal e autonomia; bem-estar e saúde; sensibilidade estética e artística; saber técnico e tecnologias; consciência e domínio do corpo. Parece-me importante salientar a ideia de uma visão integrada e não hierarquizada das áreas de saber e a recuperação de uma visão de formação global. De facto, educar é mais que ensinar e aprender é mais do que dominar saberes instrumentais, por mais úteis que sejam.
São ainda definidos oito princípios estruturantes de que é salientada a ideia de flexibilidade.
As escolas poderão gerir dentro do seu quadro de autonomia, mais afirmado que real, parte do currículo e pretende-se aumentar o grau de diferenciação das abordagens curriculares, das metodologias e da integração de conteúdos.
É muito frequente no universo da educação que quando se fala de mudanças surjam inúmeras referências centradas no excesso de alterações o que retira estabilidade e pensamento a prazo a este universo.
Paradoxalmente, ou talvez não, existem outras tantas referências que afirmam a necessidade de mudanças.
A este cenário não será alheio um mundo de conflitualidade de interesses e visões em matéria de educação. Acresce ainda que as opiniões sobre o excesso de mudanças ou a sua necessidade são de uma percepção altamente dispersa, quase individualizada, em modo “cada cabeça, sua sentença”.
Relativamente às mudanças em matéria de currículo, ao seu anúncio correspondeu de imediato o habitual coro de “lá vem mudança”, “retorno do facilitismo”, etc. O outro coro afina pela necessidade de ajustamento, embora para ambas as posições seja ainda pouco claro o sentido, o alcance, o calendário ou o método da mudança.
É verdade que existiam opiniões que entendiam como ajustadas as opções actuais em matéria de currículo. No entanto, creio que muitos professores de diferentes áreas disciplinares consideram os currículos extensos, demasiado prescritivos e normativos, pouco amigáveis para as diferenças entre alunos e para o número de alunos habitual em algumas turmas que, com frequência, são as que integram alunos em situação mais vulnerável.
Não estando em causa, do meu ponto de vista, a definição de metas de aprendizagem, com esta ou outra designação, dificilmente 998 metas curriculares para os nove anos do ensino básico em Português ou 703 metas curriculares para Português e Matemática no 1º ciclo do básico, bem como o conteúdo de muitas destas metas, podem ser algo de muito positivo para o trabalho bem-sucedido de alunos e professores, antes pelo contrário.
Em que ficamos?
O que vai sendo conhecido parece ir ao encontro dos modelos curriculares de muitos países habitualmente considerados como possuindo sistemas educativos com qualidade reconhecida.
É verdade que mudar, só por mudar, é errado e tem consequências negativas a vários níveis.
Mas também é verdade que não mudar algo que não é positivo tem custos muito elevados, prolongados e com impacto negativo em diferentes dimensões.
Finalmente, creio que o impacto positivo de mudanças de natureza curricular não decorre “apenas” de questões centradas no currículo. Para além de questões como a avaliação, a organização dos ciclos e das áreas disciplinares, envolve, por exemplo, recursos docentes, turmas com efectivos adequados, apoios a alunos e professores em tempo oportuno, suficientes e competentes.
É nesta área que temo que se mantenham alguns obstáculos aos efeitos potencialmente positivos de uma orientação de mudanças necessárias em matéria de currículo.
Com melhor conhecimento do ‘Perfil dos Alunos para o Século XXI’ retomaremos esta questão.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

DA AVALIAÇÃO DE PROFESSORES

A intervenção da Maria de Lurdes Rodrigues num evento ontem realizado reintroduziu na agenda a questão da avaliação dos professores. Não tive oportunidade de assistir mas pelos ecos na imprensa a iniciativa terá sido também mais um encontro de busca pela paternidade da melhoria dos resultados no PISA.
Retomando a avaliação de professores, Maria de Lurdes Rodrigues entende que ela “terá acabado” em Portugal. Face às dificuldades que sentiu no seu mandato face à imposição de um incompetente modelo de origem chilena acha que os confrontos e crispações inviabilizam a montagem de um sistema de avaliação sendo necessário encontrar alternativas, o que não se percebe muito bem o que seja.
Algumas notas. Em primeiro lugar parece-me necessário afirmar a mais profunda convicção de que a esmagadora maioria dos professores defende que o seu trabalho seja avaliado. Em qualquer área de desempenho a avaliação é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento da qualidade.
Em segundo lugar, é possível construir um modelo de avaliação competente, transparente e com um grau de justiça elevado, tanto quanto podem ser competentes e justas as obras humanas. Existem conhecimento e experiência que o permite.
Retomo o exemplo da extinta e sinistra PACC em que sendo possível avaliar a qualificação global para entrar na carreira através da única forma possível, o trabalho em sala de aula, se decidiu por algo de verdadeiramente aberrante e mesmo humilhante para os professores, um teste bizarro.
Por outro lado, do meu ponto de vista seria benéfico repensar o que me parece ser um pecado original em todo o processo de avaliação, a colagem quase "automática" da avaliação de desempenho à progressão na carreira. Não tem que ser assim.
Parece-me também necessário afirmar que a carreira é um peça fundamental de valorização dos professores em termos salariais, funcionais e sociais, não passível de congelamentos eternos e indefensáveis que a desvalorizam, o congelamento não é só uma questão de recursos, é uma questão sobretudo política.
Nesta perspectiva a progressão nesta carreira deve assentar em concursos abertos, transparentes e de entre os critérios a utilizar deverá, naturalmente, constar a avaliação de desempenho. Se assim for, os docentes classificados com notas mais altas terão mais probabilidade de aceder a escalões superiores. Nesta perspectiva também se exige que qualquer profissional que à luz dos critérios utilizados, sejam eles quais forem, mereça a classificação de excelente, deve tê-la sem que seja travado por decisões administrativas como a existência de quotas.
Na verdade, não é possível dizer a alguém, "à luz de todos os critérios é, reconhecidamente, um professor excelente, mas já não cabe, não pode ter excelente, tenha paciência fica para a próxima".
Quando se fala de também se considerar como critério de avaliação de desempenho dos docentes os resultados dos alunos a prudência deve ser enorme pois sabe-se que estes resultados dependem de um conjunto muito variado de dimensões, que transcendem a acção individual de um professor num determinado ano da vida escolar dos alunos. Considero, no entanto, que não é impossível encontrar ponderações dos contributos dos professores para esses resultados. Aliás este tipo de problemas coloca-se também na avaliação das escolas que não podem, obviamente, assentar exclusivamente nos resultados escolares dos alunos.
Quanto à observação das aulas, a experiência e os estudos mostram que a partilha e o conhecimento entre os pares, da forma de trabalhar, de lidar com as dificuldades, etc. são uma ferramenta fundamental de desenvolvimento profissional pelo que a abertura à presença de “observadores” avaliadores poderia ser uma rotina bem aceite embora possa desafiar uma ainda forte cultura de trabalho isolado.
 A questão, do meu ponto de vista, coloca-se de novo no impacto directo da avaliação na progressão da carreira que inquina a relação entre os professores, sejam os observadores/avaliadores da mesma escola ou de outras. Acontece ainda que estes processos exigem formação e transparência que estão longe de ser suficientes.
Como várias vezes tenho afirmado, não me parece particularmente difícil, muitos países conseguiram-no, elaborar um modelo de avaliação de professores competente, tão justo quanto as obras humanas possam ser justas, e, de facto, promotor da qualidade do trabalho educativo, fim último de qualquer processo avaliativo.
A carreira profissional, a sua organização, duração e forma de progressão, por exemplo, representa um outro conjunto de questões que, aliás, está exposto a uma fortíssima pressão de natureza política e económica. A questão da conflitualidade é incontornável, em primeiro lugar porque existem diferentes visões sobre o universo da educação e a sua discussão e gestão pode ser uma oportunidade de desenvolvimento e, por outro lado, a educação é um dos mais apetecíveis territórios para o exercício das lutas da partidocracia, é inevitável e temos de conviver com estes custos.
Creio que sem separar um pouco mais estas duas matérias a avaliação e a progressão na carreira, dificilmente chegaremos a um modelo de avaliação que cumpra o seu grande objectivo, o desenvolvimento da qualidade.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

EXISTE EDUCAÇÃO PARA ALÉM DO PISA

No DN encontra-se uma entrevista interessante a Andreas Schleicher, quadro directivo da OCDE e responsável pelo PISA.
O entrevistado, que se encontra em Lisboa justamente para participar numa iniciativa sobre a evolução de Portugal no PISA considera que “Portugal é a maior história de sucesso da Europa no PISA”.
Ao longo da entrevista elogia o trabalho e progresso realizado e alerta para questões como a ainda elevada e ineficaz retenção e a necessidade de investir em apoios precoces que minimizem o risco de retenção que claramente atinge populações mas vulneráveis economicamente.
Considera ainda importante a existência de respostas educativas mais diferenciadas e capazes de acomodar as diferenças entre alunos e a valorização do trabalho dos professores.
Como já tenho referido, os resultados do PISA devem ser sublinhados e são importantes. Aliás, são mais importantes do que discussão que na altura da divulgação dos dados ocorreu sobre a paternidade do progresso. Foi quase patética a luta pela entrada na fotografia com muita gente que deveria ter algum pudor a colocar-se em bicos de pés para aparecer. Sem surpresa parecia quase esquecido o trabalho de professores e alunos.
No entanto e sem beliscar a importância dos progressos registados no PISA voltava a uma outra ideia, existe Educação para além do PISA.
Neste sentido retomo um documento a que em Dezembro também fiz referência que foi publicado no The Guardian em 6 de Maio de 2014 que foi enviado a Andreas Schleicher por um grupo alargado, significativo e de vários países de académicos e especialistas em educação ou representantes de entidades a operar neste universo.
O documento, faz uma leitura muito interessante do PISA e também contempla algumas sugestões para o seu desenvolvimento.
Um pequeno excerto para apelar à leitura e, sobretudo, à reflexão.

DA INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ. 10 ANOS DEPOIS DO REFERENDO

Cumprem-se 10 anos da realização do referendo que determinou a legislação actual sobre a interrupção voluntária da gravidez. O Expresso mostra um interessante trabalho sobre o seu impacto.
Em síntese, diminuiu significativamente o número de casos de IVG embora se tenha verificado uma subida nos anos mais pesados da crise económica, o perfil das pessoas que recorrem à IVG continua a registar a situação económica vulnerável e mulheres jovens, a ausência desde 2012 de qualquer morte materna por esta causa, o aumento do uso de dispositivos de contracepção, uma média de realização de IVG abaixo da média da UE e a maioria das mulheres que realizaram IVG fizeram-na por uma única vez
Estes índices não confirmam as teses catastrofistas que antecipavam o exponencial crescimento de situações. No entanto e do meu ponto de vista, importa não esquecer que muitas das situações que levam à interrupção voluntária da gravidez, situação que, creio, ninguém deseja, decorrem de gravidezes indesejadas, mães adolescentes, por exemplo, felizmente em abaixamento, ou de questões que se prendem com as condições de vida que dificultam projectos de maternidade.
Assim sendo, mais do que a insistência em teses assentes em juízos morais, legítimos, mas, frequentemente, inconsequentes que se continuam a ouvir, parece desejável que se considerem duas vias de análise e desenvolvimento de políticas nesta matéria, a maternidade e a família.
Em primeiro lugar sublinhar a importância da informação e acção educativa preventiva de gravidezes indesejadas, sobretudo entre as mulheres muito novas. Sobre esta questão veja-se a recente polémica a propósito do Referencial da Educação para a Saúde a utilizar nas escolas com a retoma de discursos e argumentação absolutamente deploráveis ainda que possam ser legítimos os pontos de vista que defendem.
Por outro lado, é imprescindível considerar a posição da mulher e as dificuldades das famílias nas nossas comunidades. Os salários baixos são uma das razões que “obrigam” a que as famílias revejam em baixa os projectos relativos a filhos. Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que, naturalmente, é igualmente um obstáculo para projectos de vida que envolvam filhos e que, por vezes estão dramaticamente na base do recurso à interrupção voluntária da gravidez.
Não pode ainda esquecer-se a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc. Como é óbvio este cenário não será alheio a muitas decisões de interromper uma gravidez.
Tudo isto torna necessária e urgente a definição de verdadeiras políticas de apoio à família e à maternidade o que seguramente contribuiria para baixar o recurso a uma situação, que, insisto, a esmagadora maioria das mulheres que a ela recorrem não desejam mas a isso, por várias razões, se sentem "obrigadas".

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

DO TRUMPISMO. A SECRETÁRIA DA EDUCAÇÃO

O desempenho de Betsy DeVos, a individualidade escolhida por Donald Trump para Secretária da Educação, perante o Senado que deve aprovar a sua designação foi algo de verdadeiramente inacreditável. A síntese que se encontra no Expresso é elucidativa. O currículo já era impressionante, a prestação foi arrasadora.
O problema mais sério é que não é ficção, a senhora foi aceite,
Como é possível?! 

LEVAR OS MIÚDOS À REVISÃO

Um amigo meu que tem gaiatos pequenos costuma dizer que os leva à revisão quando vai às consultas de rotina do pediatra.
Acho curiosa esta aproximação da "manutenção" dos miúdos à manutenção dos carros. Na verdade, muitos pais fazem com os miúdos o que fazem com os carros, nos primeiros anos tratam de uma manutenção mais cuidadosa e regular, à medida que o tempo passa vão ficando mais negligentes limitando-se ao combustível e ao mínimo que mantenha o carro a funcionar.
Por outro lado, os carros ainda trazem um manual de instruções com uma definição bem clara dos modos e tempos da manutenção mesmo que depois não sejam observados, mas os miúdos continuam a ser "adquiridos" sem virem acompanhados de manual de instruções o que, além de ser ilegal, complica o entendimento da sua manutenção.
Acresce a isto, o facto de os carros mais modernos serem "cada vez mais electrónica e cada vez menos mecânica", ou seja, estraga-se algo não se arranja, substitui-se o "chip". Os miúdos continuam com mecanismos muito complexos, com mais mecânica e menos electrónica, exigem mecânicos à antiga, daqueles que percebem os carros e o seu funcionamento, que afinam de ouvido, sabem escutar e interpretar, percebem e compõem.
É assim que funcionam os bons pais e os bons professores, como os velhos mecânicos, não têm manual de instruções para cada "modelo", mas sabem o que são os miúdos e como funcionam, sabem escutar, perceber os sinais dos problemas de funcionamento e com as ferramentas adequadas sabem afinar o "trabalhar", seja ao "ralenti", seja em rotações mais elevadas.

DO ABANDONO ESCOLAR PRECOCE

Segundo dados do INE ontem divulgados a taxa de abandono escolar precoce subiu ligeiramente face a 2015. Entre os 18 e os 24 anos 14% dos jovens não tinha concluído o secundário nem fretam programas de formação.
É verdade que há 10 anos nos confrontávamos com taxas de 38.5% mas ainda assim continuamos com uma das mais altas taxas da UE e parece difícil atingir o objectivo dos 10% em 2020.
Como muitas vezes afirmo a exclusão escolar é quase sempre a primeira etapa da exclusão social e em países mais desenvolvidos, portanto com maiores exigências de qualificação dos seus cidadãos, o sucesso educativo traduzido também numa qualificação profissional é uma questão central e a base de um futuro melhor.
No entanto, julgo pertinente chamar atenção para que não se caia na tentação, está acontecer, de que a manutenção dos jovens no sistema educativo, que por princípio é boa, naturalmente, seja promovida em torno de modelos de elitização do ensino e de uma resposta de "segunda" para os outros.
Importa estruturar percursos formativos diferenciados, nem todos têm que acabar no ensino superior, evidentemente, mas esta diferenciação na oferta formativa e na duração dos percursos de educação e qualificação não pode assentar na ideia de percurso de "primeira", para os mais dotados, e de percursos de "segunda" para os outros.
Os estudos, mostram sem surpresa, aqui a tradição ainda é o que era, que o abandono precoce tem ainda uma profunda marca de classe, ou seja, atinge predominantemente as famílias menos qualificadas e de menor estatuto social, económico e cultural. Se estes jovens são empurrados para vias de "segunda" a mobilidade social" está evidentemente comprometida. As experiências de outros países mostram claramente estes riscos, veja-se o caso da Alemanha e os efeitos do seu modelo de ensino dual.
Recordo também o Programa Novas Oportunidades que partiu de uma boa ideia e se abastardou quando passou a ser uma ferramenta de promoção rápida de certificação escolar para criar estatísticas s simpáticas, mas sem corresponder a efectiva qualificação, pois certificar à pressa, não é qualificar.
Esta situação complexa e de difícil ultrapassagem tem, obviamente, sérias repercussões nos projectos de vida das gerações que estão a bater à porta da vida activa. Entre outras, contar-se-ão o retardar da saída de casa dos pais por dificuldade no acesso a condições de aquisição ou aluguer de habitação própria ou o adiar de projectos de paternidade e maternidade que por sua vez se repercutem no inverno demográfico que atravessamos e que é uma forte preocupação no que respeita à sustentabilidade dos sistemas sociais. As gerações mais novas que experimentam enormes dificuldades na entrada sustentada na vida activa, vão também, muito provavelmente, conhecer sérias dificuldades no fim da sua carreira profissional.
No entanto, um efeito muito significativo mas menos tangível deste quadro precário ou sem alternativas aparentes, é a promoção de uma dimensão psicológica de precariedade face à própria vida no seu todo e que, com alguma frequência, os discursos das lideranças políticas acentuam. Dito de outra maneira, pode instalar-se, está a instalar-se, uma desesperança que desmotiva e faz desistir da luta por um projecto de vida de que se não vislumbra saída motivadora e que recompense.
Este problema que não é um exclusivo português, longe disso, exige uma visão e um conjunto de políticas que a não acontecerem comprometem a construção sustentável do futuro.
Podemos estar perante a tragédia das gerações perdidas de que há algum tempo se falava.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

EDUCAÇÃO FAMILIAR, COMPORTAMENTO E ESCOLA

A imprensa de hoje refere um estudo da Universidade de Pittsburgh publicado na "Child Development” em que associa o que é designado por “parentalidade severa” a baixo rendimento escolar e a problemas de comportamento dos filhos.
O estudo que considerou diferentes variáveis envolveu 1482 alunos acompanhados durante nove anos, seguidos ao longo de nove anos.
Por “parentalidade severa” entendeu-se gritar, bater ou outro tipo de comportamento coercivo, além de ameaças físicas e verbais como forma de punição.
Certamente por coincidência, esta divulgação ocorre um dia depois de ser conhecido um trabalho do Alexandre Henriques no ComRegras evidenciando a questão da indisciplina na escola e de como muitos discursos remetem para a esfera familiar e a falta de autoridade dos pais as razões para os problemas de indisciplina.
O estudo hoje divulgado merece leitura atenta mas desde já algumas notas até porque pode gerar alguns equívocos. Um rápido olhar pelas caixas de comentários mostra isso mesmo.
O desenho do estudo é interessante mas os seus resultados globais não são inesperados.
Alguma investigação sobre o que se designa por “estilos parentais”, o padrão de acção educativa dos pais, demonstra resultados no mesmo sentido, um estilo excessivamente autoritário parece estar associado a comportamentos desajustados dos filhos mas é importante sublinhar que também demonstra que pais muito permissivos, mesmo quando procuram estabelecer laços afectivos fortes, podem ter nos comportamentos dos filhos um efeito da mesma natureza que a acção de pais muito autoritários ou, para usar a expressão do estudo, que exercem uma "parentalidade severa”.
Neste cenário, o que se procura criar na acção junto dos pais é um exercício de parentalidade com afecto, evidentemente, mas com regras e limites que são um bem de primeira necessidade para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.
A questão do meu ponto de vista se pode colocar é por que razão verificamos em tantas famílias fragilidades nesta parentalidade “autoritativa” em que se combina de forma adequada o afecto e a definição de regras e limites que conferem segurança e autonomia às crianças e adolescentes.
É ainda importante referir que esta fragilidade não afecta só famílias “problemáticas”, “disfuncionais” ou o que se quiser referir. Muitas famílias com pais interessados, motivados sentem dificuldade neste exercício. A experiência mostra-me que algumas das razões podem ter a ver com os estilos de vida e o tempo disponível para os miúdos, a alteração de valores em que estamos envolvidos e todo o universo de estímulos e experiências em que as crianças e adultos estão envolvidos.
Não é, pois, estranho que algumas crianças, logo desde novas, cheguem à escola “desreguladas” com baixa percepção de regras e limites e de formas adequadas de relação social.
Aqui começa a discutir-se o papel da escola e dos professores e, por vezes, um processo inconsequente de atribuição de culpa. Ninguém é “culpado” e todos somos responsáveis. Pais saudáveis, por que os há “doentes”, não gostam de ter filhos “maus”. Muitas vezes estão perdidos e não sabem como fazer, por insegurança ou menor competência.
Os professores, por outro lado, não podem gastar mais tempo a “tomar conta dos alunos” e a gerir episódios de comportamento que a “ensinar”. Acontece ainda que as crianças e adolescentes estão um tempo enorme na escola e, portanto, é na escola que também emergem as fragilidades da acção educativa parental.
Neste cenário, torna-se necessário que as comunidades encontrem formas de apoio ao exercício positivo e adequado à parentalidade, com dispositivos e recursos suficientes competentes de mediação com as famílias que podem estar sediados nas escolas.
São ainda necessárias respostas aos problemas criados por famílias tóxicas, negligentes ou maltratantes que fazem mal às crianças. Só que nestes casos, fazendo naturalmente parte da solução, a escola não é a solução.
No que respeita ao espaço sala de aula e como ontem referia a propósito da indisciplina, programas de natureza tutorial com tempo, formação e recursos adequados ou a presença de dois docentes na sala de aula podem ser bons contributos para criar melhores climas de funcionamento.

A PROVA DE OBSTÁCULOS

Termina hoje o prazo de 10 anos para que fosse cumprida a legislação que tornasse os espaços, equipamentos e vias públicas acessíveis a cidadãos com deficiência.
Conforme assinalam o Observatório para a Deficiência e Direitos Humanos e a Confederação Nacional dos Organismos de Deficientes são múltiplas e significativas as dificuldades enfrentadas diariamente por pessoas com mobilidade reduzida e de deslocação no acesso a vias, espaços e equipamentos públicos. É certo que muito foi feito mas muito mais está por cumprir.
São regularmente organizadas iniciativas que que procuram alertar a comunidade as entidades responsáveis para esse conjunto de dificuldades mas o impacto é baixo e lento. Os problemas das minorias são, evidentemente, problemas minoritários.
A questão afecta muitos cidadãos e envolve áreas como vias, transportes, espaços edifícios, mobiliário urbano e, sublinhe-se, a atitude e comportamento de muitos de nós.
Boa parte dos nossos espaços urbanos não são amigáveis para os cidadãos com necessidades especiais mesmo em áreas com requalificação recente. Estando atentos identificam-se inúmeros obstáculos.
Quantas passadeiras para peões têm os lancis dos passeios rampeados ou rebaixados ajustados à circulação de pessoas com mobilidade reduzida que recorrem a cadeira de rodas?
Quantas passadeiras possuem sinalização amigável para pessoas com deficiência visual?
Quantos obstáculos criados por mobiliário urbano desadequado?
Quantas dificuldades no acesso às estações e meios de transporte público?
Quantas caixas Multibanco são acessíveis a pessoas com cadeira de rodas?
Quantos passeios estão ocupados pelos nossos carrinhos, com mobiliário urbano erradamente colocado, degradados, criando dificuldades enormes a toda a gente e em particular a pessoas com mobilidade reduzida e inúmeros obstáculos?
Quantos programas televisivos ou serviços públicos disponibilizam Língua Gestual Portuguesa tornando-os acessíveis à população surda?
Quantos Centros de Saúde ou outros espaços da Administração central ou local criam problemas de acessibilidade?
Quantos espaços de lazer ou de cultura mantêm barreiras arquitectónicas?
Quantos …?
Na verdade, apesar do muito que já caminhámos, as crianças, jovens e adultos com necessidades especiais, bem como as suas famílias e técnicos sabem, sentem, que a sua vida é uma árdua e espinhos prova de obstáculos muitos deles inultrapassáveis.
Lamentavelmente, boa parte dessas dificuldades decorre do que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo, entendem ser os direitos, o bem comum e bem-estar das pessoas, de todas as pessoas.