sábado, 31 de outubro de 2015

O TEMPO DA AZEITONA

Para a semana continua mas por esta semana a azeitona colhida está no lagar. Está a ser melhor que o ano passado, veremos se não cai a que ainda temos por colher.
Na apanha da azeitona ainda usamos o velho método, é coisa brava, com o frio serve para aquecer mas hoje o dia vai brando.
Os braços ficam moídos de varejar e carregar mas impressionante mesmo, é ver a resistência do Velho Marrafa, homem de mais de setenta anos e que ainda tem a gentileza e generosidade de me deixar trabalhar com a vara mais leve, ameaçando seriamente a minha auto-estima mas protegendo os meus braços e costas.
Este ano temos a ajuda do filho, outro Zé Marrafa, as minhas costas já não são o que eram e as varas parecem mais pesadas. Ou então é impressão minha.
O Velho Marrafa tem um entendimento que eu não me atrevo a discutir sobre a apanha da azeitona aqui no monte, isto é, ao mesmo tempo que se apanha a azeitona procede-se à limpeza das oliveiras. O resultado é que me transformo num agricultor em apuros, estendem-se os panos, colhe-se a azeitona numa catártica actividade de varejamento, corta-se o que há a cortar nas árvores com a motosserra, ensaca-se e carrega-se no tractor. Depois lá vamos a caminho do lagar para a pesagem e entrega. Ainda fica o tratar da lenha sobrante, esgalhar os ramos e traçar a mais grossa para a lareira e para a salamandra, nada se perde. É isso que estamos agora a fazer o resto do dia.
O tempo de espera no lagar, hoje curtinho, passa-se nas lérias e os temas de conversa vão surgindo mas quase sempre, não podia deixar de ser, andam à volta dos enleios e das molengas em que a vida da gente se transformou e da pouca rentabilidade que tanto trabalho dá.
Acho que só lá para o fim de Dezembro quando for ao lagar para buscar o azeite, com o ambiente quentinho das enormes salamandras que impede o azeite de coalhar e o cheirinho inconfundível do azeite novo é que me vou esquecer das agruras da apanha da azeitona.
Bom, lá vou voltar para a lida.

PÉROLAS, DE CRISTAS A BELÉM

Assunção Cristas acha que a sua entrada foi uma inspiração.
Inspirei-me em Jesus que nunca teve medo de se meter com gente pouco recomendável“. 
Paulo Portas, Pires de Lima, Mota Soares, Teresa Caeiro e demais companheiros de aventura agradecem a gentileza e simpatia da apreciação de Assunção Cristas. 

Maria de Belém afirmou em entrevista ao Expresso que não se trata de uma "candidata postiça" e que:
"O que farei está de acordo com o meu percurso."
Acho curiosa a necessidade de Maria de Belém afirmar que não é uma candidata postiça, Também acho. Parece-me mais uma candidatura fabricada no contexto dos acertos de contas internos do PS. Integra-se na mesma "onda" da posição de Francisco Assis hoje tornada pública. Sendo certo que não me parece poder correr-se o risco de a ter como Presidente, ficar saber que agirá como tem sido o seu percurso é uma ameaça séria. A Dra. Maria de Belém, para além de navegar nas águas mansas da partidocracia e do aparelhismo partidário sem grandes sobressaltos, fez exactamente o quê?
No entanto é de agradecer a honestidade e transparência das afrmações de Assunção Cristas e Maria de Belém.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

UMAS NOTAS NO PÚBLICO SOBRE AS PRAXES ACADÉMICAS

Umas notas no Público sobre as praxes académicas.

"Apesar de, como é de tradição, se terem registado e divulgado alguns episódios lamentáveis, até com consequências graves do ponto de vista físico, parece que as actividades de praxe têm vindo a ser mais brandas. Tal abrandamento pode ter acontecido pelo facto de algumas instituições de ensino terem "desencorajado" ou colocado limites, como resultado de alteração nas atitudes e comportamentos dos próprios estudantes, "veteranos" ou "caloiros", ou ainda de uma mudança que se vai fazendo, felizmente, na natureza das próprias actividades de praxe com experiências interessantes de verdadeira integração e fomento de espírito de comunidade."

PORTUGUESES, UMA ESPÉCIE AMEAÇADA

A imprensa refere hoje que segundo dados agora divulgados pelo INE, a população portuguesa continua a diminuir pelo quinto ano consecutivo.
Os portugueses são uma espécie ameaçada e fico deveras inquieto com a aparente despreocupação que as autoridades na matéria e do universo da ecologia revelam.
Ainda há dias o problema da diminuição da população de sardinhas e da necessidade de a proteger fez primeiras páginas e com os portugueses não vejo qualquer iniciativa ou movimento de opinião no sentido da sua protecção.
Na verdade, de há alguns anos para cá os portugueses têm sofrido com alterações a vários níveis que se traduzem na sua diminuição.
As alterações climáticas têm sido de alguma severidade criando um clima tenso, inseguro, que gera desconfiança e desesperança.
Os portugueses têm sido de uma forma geral, exceptuando alguns exemplares mais preparados, vítimas de predadores, mais conhecidos por mercados, que têm criado uma enorme pressão no nosso habitat instalando situações de carência e pobreza que dificultam a construção de projectos de vida que incluam filhos o que acentua o declínio da espécie.
É também sabido que nas espécies mais evoluídas assume especial relevância na sua sobrevivência e evolução o papel e a qualidade das lideranças. Também nesta dimensão se verifica uma enorme fragilidade criando uma deriva inconsequente e dispersão de esforços e ideias. Esta situação é ainda um contributo para as alterações climáticas que referi acima.
Os membros mais novos da espécie têm sido particularmente afectados pelas alterações no seu ecossistema pelo que população adulta tende a abster-se de aumentar o número de indivíduos, condição imprescindível à manutenção da espécie.
Acontece ainda que muitos milhares de portugueses, válidos e qualificados, sem que se sintam capazes da sobrevivência no seu habitat se sentem empurrados e partem para outros territórios onde muito provavelmente se adaptarão e a prazo abandonam, na prática, a sua espécie.
Neste quadro, parece urgente que se exijam medidas de protecção aos portugueses. Urge diminuir a actividade predatória sobre boa parte da população.
Urge aumentar os níveis de protecção e incentivo à natalidade mas de forma séria e não medidas inconsequentes e mais retórica.
Urge aumentar o bem-estar da população no seu todo e não de uma pequena minoria que é insuficiente para a manutenção da espécie.
Urge construir um caminho que possibilite a recuperação e proliferação da espécie.
Não somos uma espécie em extinção.
Somos, é verdade, uma espécie ameaçada.
Mas vamos sobreviver.
E para isso é preciso mudar.
Já.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

NÃO SEI FAZER OS TPCs, A MINHA MÃE TAMBÉM NÃO E O MEU PAI NÃO ESTÁ

No Observador surge um trabalho centrado num tema recorrente mas, também, sempre oportuno, os trabalhos escolares para casa, os velhos TPCs. A peça de decorre de uma situação em Espanha que vale a pena ler. Por me parecer oportuno deixo aqui um texto que em 2014 coloquei no Público sobre esta matéria.
“Com alguma periodicidade reentra na agenda a questão dos trabalhos escolares realizados em casa, os míticos TPCs. Trata-se de uma matéria controversa patente nos discursos e práticas das escolas e também nas opiniões de pais e encarregados de educação.
A OCDE divulgou um relatório interessante, "Does homework perpetuate  inequities in education?" produzido com base em dados recolhidos no âmbito do PISA (Programme for International Student Assessment) nos anos de 2003 e 2012.
Os alunos portugueses de 15 anos, dado de 2012, gastam em média 4h semanais na realização de trabalhos de casa, menos uma hora que em 2003 e menos uma hora que a média dos 38 casos estudados pela OCDE. Do meu ponto de vista, os dados mais relevantes deste relatório remetem para o facto de que os alunos com famílias de meios sociais e económicos mais favorecidos gastarem mais 2 horas em trabalhos de casa que os seus colegas com famílias de estatuto mais baixo o que, sublinha a OCDE, poderá alimentar a falta de equidade.
Neste contexto, parece-me pertinente recordar que o nível de escolaridade dos pais, em Portugal em particular da escolaridade da mãe conforme dados recentemente divulgados, é um fortíssimo preditor do sucesso escolar dos filhos. Aliás, recorrendo aos "rankings escolares" recentemente elaborados, (relativos a 2014), no caso pelo Expresso, verifica-se que na escola pública melhor colocada, a Raul Proença, nas Caldas da Rainha, a média das habilitações das mães é de 12 anos que tem 8,6% dos seus alunos oriundos de famílias carenciadas apoiados no 1º escalão da acção social escolar. Por outro lado, na escola Secundária de Resende, que apresenta a média mais baixa nos resultados, 7,3 valores, as mães dos alunos têm, em média, apenas o ensino primário completo, 5,1 anos de estudo, e tem no escalão mais carenciado 30% dos alunos. Estes dados sustentam o entendimento de que os trabalhos de casa correm o sério risco de alimentar desigualdade de oportunidades e obriga-nos a reflectir sobre a sua utilização.
Alguns mais atentos a estas matérias recordarão que em França, creio que em 2012, François Hollande expressou a intenção de abolir os TPCs. Aliás, é curioso que desde 1956 foi determinada a sua não utilização no ensino primário francês, embora muitas escolas os continuem a prescrever.
Também em França e na mesma altura se noticiou  um apelo realizado pela Fédération des Conseils de Parents d'Élèves (FCPE) e pelos professores representados pela organização Institut Coopératif de l'Ecole Moderne (ICEM) de França, no sentido de se boicotar a feitura dos trabalhos de casa, prescritos por muitos professores apesar de formalmente já eliminados, como referi. Os pais consideravam os TPCs "inúteis" e "cansativos", "empurrando a responsabilidade de ensinar para cima dos pais". A mesma situação que ocorre em Espanha e retratada na peça do Observador.
Os professores entendem que os trabalhos de casa aumentam as desigualdades entre as crianças uma vez que "Nem todas as famílias têm tempo ou conhecimentos suficientes para ajudar os seus filhos".
Parece-me também importante o facto de que no nosso sistema educativo os alunos do 1º, 2º e 3º ciclo podem passar 8 ou 10 horas diárias na escola considerando o tempo lectivo, as Actividades de Enriquecimento Curricular e a Componente de Apoio à família, (no limite algumas crianças poderão estar 55 horas semanais na escola, uma enormidade). Este tempo de permanência na escola é um dos mais longos dos países da OCDE. Acresce que em muitas circunstâncias, muitos alunos têm ainda Trabalhos Para Casa que, nas mais das vezes, são a continuação ou a réplica de trabalhos escolares, ou seja mais do mesmo.
Não tenho nenhuma posição fundamentalista mas creio que deve distinguir-se com clareza o Trabalho Para Casa e o Trabalho Em Casa. O TPC é trabalho da escola feito em casa, o trabalho em casa será o que as crianças podem fazer em casa que, não sendo tarefas de natureza escolar, pode ser um bom contributo para as aprendizagens dos miúdos. O que acontece mais frequentemente é termos Trabalhos Para Casa e não Trabalho Em Casa.
Os TPCs clássicos têm ainda o problema de colocar com frequência os pais em situações embaraçosas, querem ajudar os filhos mas não possuem habilitações para tal. A propósito, numa reunião de pais em que participava e se discutia esta questão, dizia uma mãe, “o senhor, da maneira que fala, se calhar é capaz de ajudar o seu filho, mas na minha casa, chora a minha filha e choro eu, ela porque quer ajuda, eu porque não sou capaz de lha dar.” Colocar os pais nesta posição parece-me inaceitável.
Torna-se, pois, necessário que professores e escolas se entendam sobre esta matéria, diferenciando trabalho de casa, igual ao da escola, de trabalho em casa, trabalho em que qualquer pai pode, deve, envolver-se e é útil ao trabalho que se realiza na escola, como, aliás, refere a organização francesa dos pais e a dos professores que apelaram ao boicote aos TPCs.
Se mesmo assim houver a tentação do trabalho de casa, deveria estar assegurado que a criança tem capacidade e competência para o realizar autonomamente, por exemplo, o treino de competências adquiridas. Na verdade, porque milagre ou mistério, uma criança que tem dificuldade em realizar os seus trabalhos na sala de aula, onde poderá ter apoio de professores e colegas, será capaz de os realizar sozinha em casa? Naturalmente tal só acontecerá com a ajuda dos pais ou, eventualmente, de "explicadores" a que muitas famílias, sabemos quais, não conseguem aceder.
No entanto, do meu ponto de vista, sobretudo nas idades mais baixas, o bom trabalho na escola deveria dispensar o TPC. É uma questão de saúde e qualidade de vida.
Parece ainda de sublinhar que os estudos sugerem que "é sobretudo a qualidade das aulas, mais do que o tempo global de aprendizagem que está associado ao sucesso na aprendizagem. Aliás, neste relatório da OCDE também se conclui que não há uma relação significativa entre o número médio de horas gastas nos TPCs e os resultados escolares.
Citando o relatório,  "But PISA also finds that the average number of hours that students spend on homework or other study set by teachers tends to be unrelated to the school system’s overall performance. This implies that other factors, such as the quality of instruction and how schools are organized, have a greater impact on a school system’s overall performance."”

OS MUROS QUE SE ERGUEM

O ano passado a quase totalidade da Europa comemorou os 25 anos da queda do Muro de Berlim. Em 2015 a quase totalidade da Europa assiste sem grandes sobressaltos das suas lideranças à proliferação da construção de muros e barreiras de arame farpado alimentando a vida de terror e drama de muitos milhares de pessoas a viver num inferno que, também, foi ateado pela incompetência de decisões políticas dessas mesmas lideranças.
Talvez a relativa tranquilidade com que se assiste à construção de muros e barreiras em diversos pontos acabe por não ser estranha.
Eles vão sendo construídos nas nossas vidas conduzindo no limite à construção de "condomínios de um homem só" rodeado de muros para que ninguém entre.
Estes muros são menos visíveis mas não perdem eficácia.

DA HIPOCRISIA

Lagarde alerta para a “excessiva” desigualdade
Não é possível ouvir estes abutres sem se sentir uma profunda indignação, usam modelos que reconhecem errados, produzem previsões que reconhecem erradas, arrasam a vida de milhões, e serenamente "informam", "decidem" que é assim que se deve ser mas, talvez, fosse um bocadinho demais.
E a gente resiste a esta insensível e insensata persistência que os feitores Passos Coelho e Paulo Portas sempre defenderam de espinha dobrada e sem um pingo de vergonha e sentido do que é solidariedade e sensibilidade.
Até quando?

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A ESCOLA NÃO PODE CONTINUAR A ENGORDAR

Mais uma disciplina, “educação financeira”, mais um manual a juntar às montanhas de metas curriculares, manuais, cadernos de fichas e de actividades que submergem alunos e professores. Ainda não há muito tempo se defendia a criação de uma área de “empreendedorismo” que poderia, eventualmente, ser integrada nesta área.
Por diversas ocasiões tenho aqui manifestado a minha reserva face ao entendimento de que tudo o que possa de alguma forma dizer envolver os mais novos deve ser ensinado na escola. Esta visão obesa da escola não funciona, nem tudo deve ser transformado em disciplinas escolares, para além de que a escola tem um conjunto de funções incontornáveis que tornam finita a sua capacidade de responder.
Por outro lado, tem vindo a desenhar-se, não só em Portugal mas também em Portugal, a ideia de uma educação, de uma escola, fundamentalmente centrada em competências instrumentais, em saberes “úteis”, "essenciais" como lhes chama Nuno Crato, que forme “técnicos” e não “cidadãos” qualificados. Os currículos são progressivamente aliviados de conteúdos que não sejam “práticos”, promotores de “produtividade”, “domínio de técnicas” como seja toda a área da formação cívica, dos valores, das expressões e conteúdos artísticos, etc.
A escola deve formar empresários, poucos, e técnicos qualificados e de formação estreita, muitos.
Estas ideias traduzem-se nos conteúdos curriculares, nos modelos de avaliação, nas concepções do que deve ser o trabalho dos professores, na organização do sistema educativo, selectivo, prescritivo e incapaz de acomodar diferenças entre os alunos, etc.
No entanto e independentemente das opções e visões ideológicas, uma das questões que no universo a educação estarão sempre em aberto é a que envolve os conteúdos e organização curricular. De facto, a velocidade de produção e acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento, as mudanças nos sistemas e no quadro de valores das comunidades determinam a regular reflexão e ajustamento sobre o que a escola deve ensinar, sobretudo durante a escolaridade obrigatória. Por outro lado, o tempo da escola e a competência da escola são finitos, isto é, a escola não tem tempo nem pode ou deve ensinar tudo. Lembram-se certamente das discussões sobre se matérias como educação sexual, educação cívica ou educação para a saúde, para citar apenas alguns exemplos, deverão, ou não, constituir-se como "disciplinas" e integrar os currículos escolares.
Vejo sempre com algumas reservas estas propostas de introdução de mais uma disciplina, mais um manual, como se a escola, o currículo escolar, pudesse continuar a engordar indefinidamente.
Como é evidente, existirão conteúdos ou competências dentro do universo do que possa ser "educação financeira" que poderão integrar o trabalho escolar. Estou a lembrar-me da educação matemática, evidentemente, mas também da promoção da autonomia, reflexão, criatividade, regulação, análise, etc., etc. que são inerentes à própria formação escolar e pessoal e não necessariamente confináveis a uma só disciplina.
Na verdade, nem tudo o pode ser interessante saber terá de caber numa disciplina da escola e nem tudo o que se pode saber se aprende na escola.

HISTÓRIAS DE PATRÕES

História 1
Há minutos tocaram à porta cá de casa. 
A minha mulher foi atender. Estava de avental.
Um senhor simpático e com ar de vendedor olhou para ela e disse:
Boa tarde, já vi que não estão os patrões, obrigado e desculpe.
Pois. Disse a minha mulher agradecendo delicadamente.
Fim.

História 2
Cavaco Silva não "retira uma linha" ao discurso em que indigitou Passos Coelho para formar Governo. Na verdade, nada de estranho nesta arrogante teimosia de alguém que "raramente tem dúvidas e nunca se engana". Também nesta afirmação tem absoluta razão. Cavaco Silva raramente tem dúvidas sobre o que e quem defender e nunca se engana nesse objectivo.

Moral das histórias, "Há patrões e patrões".

QUE FAMÍLIA TÃO UNIDA

Expresso revela o parecer em que Calvão da Silva, agora indicado para ministro da Administração Interna, defendeu a idoneidade do antigo líder do BES. Os €14 milhões que o construtor José Guilherme deu a Ricardo Salgado foram um presente dada "ao amigo de longa data" que não punha em causa a "gestão sã e prudente" do BES
A situação que envolve o indigitado ministro da Administração Interna Calvão da Silva parece de alguma nebulosidade mas não, de todo, é bastante transparente, diria mesmo edificante e elucidativa e um grande exemplo de humanismo.
Mudam-se os tempos, mudam as famílias, mas é assim que funcionam, distribuem e alternam entre si o poder, encontram-se nas mesmas lojas e entreajudam-se na vida mostrando que solidariedade, protecção, apoio e amizade não são palavras vãs.
Apenas mais um exemplo mais, são muitos, de como anda a pantanosa pátria, nossa amada.

A PROVA DE OBSTÁCULOS

O Parlamento não está preparado para ele

Este é o título de um trabalho na Visão sobre as dificuldades que Jorge Falcato, deputado eleito pelo BE e com mobilidade reduzida, desloca-se em cadeira de rodas, enfrenta para se deslocar e trabalhar num espaço que manifestamente não foi pensado em matéria de acessibilidade para pessoas com este tipo de problemas. Estranho seria que o tivesse sido.
Nada de novo, certamente, na vida do Jorge Falcato. A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que diminuem os seus direitos e ampliam de forma inaceitável a limitação na mobilidade e funcionalidade que a sua condição, só por si, pode implicar.
Como também é reconhecido, existem muitas áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente educação, apoios sociais, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são elevados traduzido, por exemplo, em taxas de desemprego entre pessoas com deficiência muitíssimo superiores às verificadas na população sem deficiência.
Também por isto tudo e como já afirmei, é muito importante a presença de Jorge Falcato no Parlamento e que faça ouvir a sua voz, a voz de muitos milhares de cidadãos que se ouve pouco. A voz das minorias é sempre muito baixa, mal se consegue fazer ouvir.
Muitas vezes afirmo que os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com as minorias e as suas problemáticas.
No entanto, também nesta matéria sopram ventos adversos.
Importa finalmente sublinhar que os direitos fundamentais não são variáveis em função de contextos ou hipotecados às oscilações de conjuntura.
Muito já se conseguiu, muito já se mudou.
Está ainda quase tudo para fazer.

DAS PRESIDENCIAIS

No âmbito da sua candidatura à Presidência da República Sampaio da Nóvoa tem vindo a sustentar que no quadro político que se desenhou em Portugal na sequência das eleições de 4 de Outubro, assume maior acuidade a emergência de uma candidatura fora das “lógicas partidárias” que minimize o risco de exercício das funções presidenciais de uma forma “parcial”.
Na verdade, como já tenho afirmado, a uma das grandes virtudes da candidatura de Sampaio da Nóvoa é a sua construção num espaço de cidadania, fora das teias da partidocracia mas sem ser contra os partidos, contra nenhum partido, mas com um posicionamento ideológico claro, uma visão proactiva e transparente a função presidencial e das suas competências e uma visão sobre Portugal e os portugueses que não se esconde atrás da oportunidade ou de táctica política.
O actual quadro política ao romper com um democraticamente enviesado “arco da governação”, ou seja, sempre os mesmos partidos ou combinados a definirem as políticas para todos os portugueses introduziu também um risco de crispação e bloqueio que está bem patente no discurso de Cavaco Silva que decidiu que deve corrigir os resultados eleitorais porque não gosta deles. A “naturalidade” com que Sampaio da Nóvoa encara o quadro politico resultante das eleições é um sinal significativo no sentido de introduzir sensatez e respeito pelas disposições constitucionais.
Neste contexto e do meu ponto de vista, um Presidente sem filiação partidária será uma peça fundamental para integrar a diversidade de opiniões e projectos, para a promoção de uma Presidência inclusiva e não exclusiva e mesmo potencialmente mobilizadora de uma cada vez mais significativa franja de eleitores que se abstêm por se sentirem afastados da participação cívica que tem sido capturada quase que exclusivamente pelos aparelhos partidários.  
Este Presidente pode ser Sampaio da Nóvoa.
Vai ser difícil, mas é possível.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A ESCOLHA ACERTADA

Sempre que estamos perante um novo ciclo político emerge uma questão natural, qual a composição do Governo deste novo ciclo político. Também agora se coloca a questão apesar das especificidades do momento actual.
São muitas as dúvidas sobre a longevidade do Governo hoje anunciado que, aparentemente, verá o seu Orçamento e Programa chumbados por uma maioria parlamentar emergente das eleições de 4 de Outubro. A ver vamos.
No entanto e neste momento é este o Governo que conhecemos e que será apresentado. Como me parece claro a questão essencial não é tanto a composição mas as políticas que se colocarão em prática.
Do Governo hoje anunciado não são expectáveis mudanças nas políticas seguidas, todos os discursos insistem no TINA – There Is No Alternative. A utilização deste argumento, intimidatório, é velha, tem uma longa tradição, ou é assim ou é o caos. Pretende criar e induzir o medo e a convicção de que não existe qualquer outro rumo que não o por si traçado.
Existem alternativas, sabemos todos que existem alternativas, que são exequíveis, que são respeitadoras dos compromissos internacionais e da necessidade de equilíbrios orçamentais mas sobretudo, é essa a questão essencial, respeitadoras da dignidade das pessoas.
Esperemos que se afirme a alternativa.
Entretanto e na área que mais acompanho, a Educação, surge a indigitação de Margarida Mano, pertencente aos quadros da Universidade de Coimbra, na Faculdade de Economia e em funções de gestão universitária.
Não estarão, evidentemente, em causa qualidades pessoais, mas o currículo e conhecimento do sector em que se irá responsabilizar pelas políticas a desenvolver.
Deste ponto de vista, parece-me que a escolha de Margarida Mano como Ministra da Educação é, como costuma afirmar a DECO na análise de produtos ou bens, a “escolha acertada”. Veja-se a nota curricular que consta na página da Universidade.
É relevante um Doutoramento em Gestão com interesses científicos em Gestão Estratégica, Qualidade na Administração Pública e Modelos de Governação na Educação Tem ainda experiência no sector privado, funções de direcção da banca e na gestão universitária.
Parece-me clara a adequação curricular. Dado que a política educativa de Nuno Crato se transformou quase que exclusivamente em Política Contabilística a escolha de Margarida Mano parece adequar-se na perfeição à continuidade desta política.
Veremos os desenvolvimentos no próximo capítulo, ou seja, a discussão no Parlamento.
Uma nota final sobre Nuno Crato, tal como aconteceu com a passagem de Maria de Lourdes Rodrigues pela 5 de Outubro a história da educação em Portugal não o absolverá.
Recordo, de novo, uma expressão muito utilizada por uma figura muito querida da tribo familiar, o Velho Tio Matosa um homem bom que já não está connosco, quando alguém menos apreciado partia sempre dizia, “olha, leva muitas saudades que é coisa que cá não deixas".

DA INDISCIPLINA E VIOLÊNCIA NA ESCOLA. De novo

A imprensa de hoje divulga mais um episódio grave de violência escolar, a agressão a uma professora por um aluno que foi admoestado porque … dormia na sala de aula.
De acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2014 verifica-se desde 2008 um trajecto de crescimento de participações às autoridades de situações graves bem como o número de participações de ofensas corporais, de 1292 em 2008 registaram-se 1665 em 2014.
Importa, no entanto, considerar que existem inúmeros casos não reportados pelas escolas, pelo que este tipo de fenómeno requer permanente atenção até porque a concentração de alunos e o aumento do número de alunos por turma potencia a emergência de situações desta natureza. Aliás, tenho a convicção de que as pessoas que não conhecem os meios escolares não têm a percepção da diminuição dos episódios de violência, antes pelo contrário. De novo, algumas notas sobre esta matéria, suficientemente complexa para que sejam tantas as dúvidas quantas as certezas, muitas.
Em primeiro lugar uma referência à função professor. A imagem social dos professores tem estado sob pressão continuada com o risco de sofrer uma erosão significativa. As razões são variadas e dificilmente compatíveis com este espaço mas creio que uma boa parte da política educativa dirigida aos professores nos últimos anos, alguns dos discursos dos líderes das organizações de professores e as afirmações ignorantes e irresponsáveis de alguns "fazedores de opinião" têm dado um bom contributo. Este processo mina de forma muito significativa a relação que pais e alunos têm com os professores, ou seja e sendo deselegante, "uma classe de gente que não trabalha", "que não se interessa pelos alunos", "que não quer ser avaliada", etc., (basta ver muitos dos comentários on-line a notícias que envolvem professores), não é, obviamente uma classe que mereça respeito pelo que se instala de mansinho um clima de reacção, desconfiança e fraqueza que minam o exercício da autoridade. Os pais e alunos que agridem e ofendem professores são uma espécie de "braço armado" dessa imagem social induzida.
Por outro lado, a cultura profissional e institucional em boa parte das nossas escolas e agrupamentos é ainda marcada por um excesso de individualismo. Quero dizer com isto que, lamentavelmente, os professores evidenciam níveis de cooperação e partilha profissional abaixo do que seria desejável. As razões serão várias e não cabem aqui, mas creio que justificam, muitas vezes, a não realização de queixas de incidentes, muitas vezes graves, por receio de exposição e demonstração de fragilidades face a colegas e responsáveis, o que uma cultura de maior cooperação atenuaria. Acresce ainda que, por desatenção, incompetência, negligência ou insuficiência de recursos docentes e de funcionários, muitas direcções de escolas e agrupamentos não vão muito longe na definição de dispositivos de apoio, recorrendo a outros docentes mais experientes ou à presença de dois professores, por exemplo, que dariam aos professores apoio e confiança para o trabalho com os seus alunos.
Importa pois, muitas vezes o refiro, caminhar no sentido do reforço da imagem social dos professores como fonte imprescindível de autoridade, saber e importância e, paralelamente, incentivar a construção nas escolas de dispositivos leves e ágeis de apoio aos professores para que cada um não se sinta entregue a si próprio e com receio de "enfrentar" os alunos e os pais, a pior das situações em que um docente se pode sentir.
Este caminho é da responsabilidade de todos, ministério, sindicatos, direcções de escolas e agrupamentos, pais, professores e alunos.
A segunda nota remete para a instituição escola. Em primeiro lugar, a escola é, será sempre, um reflexo do contexto económico, social e cultural, bem como do sistema de valores em que se integra. Neste quadro, em tempos de violência, a escola espelha essa violência, em tempos de sentimento de insegurança, a escola espelha essa insegurança, em tempos de sentimento de impunidade, a escola espelha esse sentimento de impunidade. Por tudo isto não é possível, como alguns discursos o fazem, responsabilizar exclusivamente a escola, por estas situações. A escola fará certamente parte da solução mas não é, não pode ser, A solução, esta passará por intervenções concertadas no âmbito das comunidades.
Um segundo aspecto prende-se com o trabalho com as famílias. Muitos casos de violência escolar estão associados, não estou a falar de uma relação de causa-efeito, à acção negligente ou menos competente por parte das famílias. Continuo fortemente convicto de que nas escolas devem ser criados dispositivos, com recursos, humanos e de tempo por exemplo, para trabalho sistemático e estruturado com as famílias. Com as metodologias mais frequentes, reuniões de pais e convocatória para famílias problemáticas irem à escola, que se revelam ineficazes, a maioria dos pais nem sequer aparece, creio que será muito difícil alterar ou, pelo menos, minimizar os efeitos das variáveis familiares nos comportamentos dos miúdos.
Uma outra questão ainda dentro da instituição escola, prende-se com o facto conhecido de que os problemas mais significativos sentidos nas escolas, indisciplina, violência, delinquência, bullying, etc. ocorrem, obviamente, nas salas de aula e, sobretudo nos espaços de recreio. Deixando de lado, de momento, a sala de aula parece-me fundamental que se dê atenção educativa aos tempos e espaços de recreio escolar.
Em muitas escolas a insuficiência de pessoal auxiliar não permite a ajustada supervisão desses espaços. Por outro lado, a sua formação em matérias como supervisão educativa e mediação de conflitos, por exemplo, e, ou, o entendimento que têm das suas competências, muitas não valorizadas pela própria comunidade, leva a alguma negligência ou receio de intervenção.
Talvez não seja muito popular mas digo de há muito que os recreios escolares são dos mais importantes espaços educativos, aliás, muitas das nossas memórias da escola, boas e más, passam pelos recreios. Neste sentido, defendo que a supervisão dos intervalos deveria ser da responsabilidade de docentes. A reestrutura da enorme carga burocrática do trabalho dos professores, dos modelos de organização e funcionamento das escolas, por exemplo, poderiam libertar horas de docentes para esta supervisão que me parece desejável.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

ECONOMIA E EDUCAÇÃO

Erik Hanushek veio de novo a Portugal. Lamentavelmente a agenda não me permitiu assistir embora também me parecesse ser fácil antecipar o que iria ouvir. De novo em relação em aparições anteriores a ideia do impacto positivo de eliminar 4% dos piores professores das escolas.
Como vêem a receita é simples, nem se percebe muito bem o que anda o resto da comunidade a fazer e a estudar. Analisa-se o resultado dos alunos em exames nacionais, muitos exames nacionais, registam-se os piores alunos e identificam-se os seus professores, fazem-se umas contas e corre-se com 4% desses incompetentes. Está feito, é ver os resultados a subir.
Na verdade já não há saco. É o discurso habitual do ECONOMISTA da educação, professores avaliados, responsabilizados e pagos diferenciadamente em função dos resultados dos seus alunos. O sábio minimiza o impacto dos factores culturais quando se analisam, por exemplo, os efectivos de turma em alguns países, o eterno exemplo dos países asiáticos, que obtêm bons resultados genéricos.
Como é evidente, melhores professores, obtêm melhores resultados na generalidade das circunstâncias. Como é evidente é imprescindível um dispositivo competente de avaliação dos professores, é uma ferramenta imprescindível à qualidade. Como é evidente é necessário outro tipo de olhar. Nesse sentido, algumas breves notas.
Hanushek, economista da educação, centra a sua análise em resultados e, do meu ponto de vista, desvaloriza ou esquece, dados de natureza processual ou contextual de que as mais recentes investigações em qualidade na educação sublinham a importância.
A título de exemplo e centrando-nos numa realidade que todos conhecemos, a portuguesa, é evidente que um professor de qualidade ou eficiente, seja lá isso o que for, lidará mais tranquila e eficazmente com uma turma de 28 alunos ou mais numa escola que sirva uma população qualificada do ponto de vista escolar, uma das varáveis mais associada ao desempenho dos alunos, do que uma turma com igual número mas constituída por alunos oriundos de famílias com menos qualificação académica, em contextos sociais desfavorecidos, com problemas sociais graves, realidade que, aliás, se espelha nos resultados escolares das escolas que servem de base aos rankings.
Eu sei que mesmo em contextos menos favoráveis os “bons” professores conseguem que os seus alunos obtenham melhores resultados do que os "maus" professores, mas é evidente que devem ser obrigatoriamente consideradas variáveis culturais e de contexto na discussão sobre o efectivo de turma, a definição do critério resultados dos alunos como base da avaliação dos professores ou da definição do seu salário. 
Quase que seria dispensável referir a diferença entre trabalhar com trinta alunos num estabelecimento privado de acesso condicionado ou o mesmo número de alunos num mega agrupamento de uma escola pública em que um professor lida com várias turmas, centenas de alunos ou se desloca entre escolas para trabalhar. Hanushek esquece ou desconhece, que a educação é mais do que economia, os estudos de "input-output" são curtos, importa considerar variáveis de processo e de contexto.
Um outro dado interessante de discutir quando consideramos os resultados escolares dos alunos como base para a avaliação e salário dos professores, será o trabalho educativo com crianças ou jovens com necessidades especiais. Nessa perspectiva, teríamos mais um bom motivo para os retirar das escolas, comprometem o rendimento dos professores pois os seus resultados escolares podem ressentir-se dos seus problemas, a mesma razão porque algumas alunos com falta de rendimento académico são "convidados" a sair de alguns estabelecimentos ou a não se submeter a exames para não comprometer a sua imagem e ranking. Outra realidade que Hanushek esquece ou desconhece.
Finalmente, sublinho um ponto essencial em que concordo em absoluto com Hanushek, o professor é o factor chave do sucesso na educação, tem-no dito embora o discurso me pareça contraditório. Por esta razão me refiro frequentemente à forma preocupante como a classe docente é tratada pelo MEC através de várias das dimensões da PEC - Política Educativa em Curso, por alguns "opinion makers" e também pelos próprios discursos de alguns dos seus "representantes", que me parece ser um péssimo contributo para a qualidade na educação.
Como antecipava a intervenção de Hanushek, tal como noutras ocasiões, legitima alguns dos aspectos da PEC, por exemplo, o aumento do número de alunos por turma. 
Não é grave, é a política, estúpido. Les beaux esprits se rencontrent.

HISTÓRIA SEM JUSTIÇA

O Manel entrou na biblioteca da escola com ar de quem tinha ouvido alguma coisa que não o convenceu. O Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, foi ter com ele e estranhou a cara.
Então Manel, passa-se alguma coisa?
Velho, estivemos na aula a discutir sobre o que é a justiça e ser justo. Mas fiquei um bocado baralhado com a conversa. Escuta lá, os professores são justos?
Eu acho que os professores procuram ser justos embora, por vezes, possam ser injustos.
Também acho. Velho, os pais são justos?
Os pais são como os professores, tentam ser justos mas, às vezes, podem ser não conseguir e serão injustos.
Claro. Velho, os polícias são justos?
Manel, é como os professores e os pais. Tenho para mim que os polícias querem fazer as coisas de forma justa mas, se calhar, não conseguem sempre.
Também me parece. Velho, as pessoas que mandam, assim na política, os políticos, são justos?
Muitas vezes não são justos, mas acham sempre que sim.
É o que diz o meu pai. Velho, aquelas pessoas que estão no tribunal, os juízes, são justos?
Manel, embora a função deles seja ser justo, em algumas situações podem não ser.
Esquisito um juiz não ser justo. Velho, os miúdos são justos?
Eu podia dizer-te que sim mas não é verdade, os miúdos não são sempre justos.
Estás a ver Velho, foi o que eu disse à Setôra. Vocês que são velhos fizeram um mundo em que não se pode confiar em ninguém. Não é justo.

DO MEDO

Os dias vão turbulentos. Na imprensa são múltiplas as referências aos riscos de mudanças na gestão política dos destinos do País.
Para além, evidentemente, dos discursos políticos de quem está no poder, diversos fazedores de opinião, na sua maioria com agendas muito claras, procuram incutir o medo da mudança, o medo de um Governo do PS com o apoio do Bloco de Esquerda e o Partido Comunista.
Antes de continuar, uma brevíssima afirmação. Embora posicionado naquilo que se convenciona designar como esquerda não relação fidelizada filiação com qualquer dos partidos do “arco do medo”, por oposição à configurada fórmula do “arco da governação”.
Os discursos que nos procuram assustar, incluindo a antológica peça do Presidente da República, radicam na instabilidade que se abaterá sobre nós, na reacção negativa dos mercados, no risco de perder o que ganhámos, etc.
Eu percebo, é um clássico, que a mudança assusta e assusta, evidentemente, quem mais tem a perder.
Deste ponto de vista, não creio as pessoas que perderam emprego e não vislumbra a hipótese de retornar ao mercado de trabalho sintam medo.
Não creio, que as pessoas que ficaram mais pobre fiquem com medo.
Não creio que as pessoas que sentem a diminuição do estado social, da degradação e aumento de custos no acesso a cuidados de saúde, sintam medo.
Não creio que as pessoas preocupadas com o desinvestimento na educação e escola pública sintam medo.
Não creio que os velhos que penam num fim de vida em estão mais pobres e abandonados sintam medo.
Não creio que os jovens e menos jovens que emigram em busca de um futuro que por cá não vislumbram sintam medo.
Não creio que as pessoas que têm vidas precárias, algumas a troco de vencimentos que mais não são que subsídios de sobrevivência sintam medo.
Finalmente, creio que a maioria das pessoas que votou a 4 de Outubro votou como votou … porque não tinha medo.
Não queria a continuidade de políticas que, essas sim, são conhecidas e metem medo.

domingo, 25 de outubro de 2015

UMA ANÁLISE AO DERBY

Não vi o Benfica-Sporting, não ouvi nada sobre o jogo, não li nada sobre o jogo mas uma análise serena, rigorosa, aprofundada, imparcial e conhecedora deste apaixonante mundo do futebol permite-me concluir que:
A derrota do Benfica foi injustíssima e a vitória do Sporting, claro, imerecida.
O Benfica foi brilhante em termos técnico-tácticos, na leitura de jogo, na pressão alta, nas transições rápidas, no jogo entre linhas e no flanquear do jogo, entre outros aspectos em que foi claramente superior. Mas, lá está, teve um enorme azar.
A arbitragem foi absolutamente miserável e o Benfica saiu largamente prejudicado enquanto o Sporting foi altamente beneficiado mas lá, o Benfica teve azar.
Tacticamente, o Mestre da Táctica levou um banho mas, lá está, o Benfica não teve a sorte do jogo.
Os jogadores do Benfica mostraram com clareza que individual e colectivamente são infinitamente superiores aos do Sporting mas lá está, tiveram azar.
Enfim, muitas outras dimensões poderiam ser ainda consideradas  nesta análise fria e desapaixonada de um adepto do Glorioso em processo de recuperação de mais uma clamorosa injustiça de que fomos vítimas.
Fica para a semana e no fim fazem-se as contas. Espero. Divirtam-se.

PAGAM OS DO COSTUME, CRIANÇAS E VELHOS


Taxa de utilização de creches e de serviços de apoio a idosos continua a baixar


Segundo o Relatório "Carta Social" elaborado pelo Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Solidariedade e Segurança Social apesar do aumento da oferta, nos últimos anos a utilização de creches e serviços para idosos tem baixado significativamente.
Ainda de acordo com o Relatório as dificuldades das famílias serão um forte contributo para esta quebra do recurso às creches e instituições para idosos.
Parece-me dispensável comentar os efeitos negativos para crianças, famílias e idosos que o não acesso a equipamentos educativos ou de apoio podem implicar.
Apenas uma interrogação.
Será que é por este tipo de efeitos tão positivos conseguidos pelas políticas seguidas que alguma gente se assusta com uma perspectiva de mudança nessas políticas?
Na verdade, o preconceito e uma impenetrável armadura ideológica, a insensibilidade e uma ideia de que a realidade é mentirosa, não permitem perceber que as assimetrias e desigualdades sociais, que a pobreza e a exclusão têm aumentado nos últimos anos e que os grupos mais vulneráveis e atingidos são sempre, sempre, crianças e idosos.
Será que isto não é evidente? 

DEVE SER A ISTO QUE CHAMAM AUTONOMIA DAS ESCOLAS

No DN encontram-se dois bons exemplos da ligeireza, para ser simpático, e consequentes efeitos de algumas decisões em matéria de política educativa.
Uma primeira referência para a situação de muitos alunos do 1º ciclo, o MEC não quantifica, que têm aulas só uma parte do dia. As escolas têm que funcionar em dois turnos por falta de capacidade para acomodar mais turmas em simultâneo. As direcções escolares sentem a maior das dificuldades em proporcionar as estas crianças a mesma qualidade de resposta educativa que aos alunos que frequentam em regime normal, por assim dizer.
A segunda situação tem contornos diferentes mas também decorre da política de fechamento de escolas, de redução de custos, corte em docentes e do aumento do número de alunos por turma.
De facto, são muitíssimo frequentes as situações de turmas, também no 1º ciclo, que possuem mais do que um ano de escolaridade. A questão só por si pode não ser um problema ingerível se o número de alunos for razoável e existirem apoios a alunos e professores o que, lamentavelmente, está longe de se verificar, as turmas são grandes e faltam os apoios.
Em algumas destas turmas que envolvem alunos do 3º e 4º ano acontece que os alunos do 3º ano têm Inglês como conteúdo obrigatório do currículo (uma boa medida) e com avaliação que influencia a avaliação final do ciclo em termos muito discutíveis no quadro global da avaliação externa. Na mesma turma os alunos que são do 4º ano têm Inglês como Actividade de Enriquecimento Curricular e não estão sujeitos ao dispositivo de avaliação dos seus colegas de turma mas que são do 3º ano.
Como é previsível, mais uma vez as escolas têm que inventar soluções para problemas que a ligeireza e incompetência de parte da política educativa criam e dos quais os responsáveis… dizem nada.
Deve ser a isto que chamam autonomia das escolas.

QUEM PARTE E REPARTE E ...

Uma centena de "boys" nomeados com o Governo já em gestão

 
Como é reconhecido, a questão do desemprego é de uma enorme gravidade e complexidade. São urgentes medidas eficazes e diversas de promoção de emprego. Porque não começar pelos amigos? 
Fazem parte de uma lista VIP, têm o cartão certo, portanto ...
Há que começar por algum lado e os amigos são para as ocasiões.
Aliás, o povo costuma dizer, "quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte".
Cambada de artistas, nem as moscas, às vezes, variam.
São assim as contas da partidocracia. Em alternância pois claro.

sábado, 24 de outubro de 2015

MUDANÇA DA HORA. E DO TEMPO?

Mais logo, vai mudar a hora. Lembro-me de quando era miúdo, não sei bem porquê, aguardarmos a mudança da hora com alguma expectativa. Naquele tempo as mudanças eram poucas.
E quando mudará o tempo de agora? O tempo anda de chumbo.

DAS TECNOFORMICES

Projecto de empreendedorismo custou um milhão e não gerou qualquer emprego

Como sempre nestas ocasiões e de acordo com o “script” clássico, os envolvidos dirão que estão de “consciência tranquila”. Acredito que tal possa acontecer pois para este pessoal “consciência” não significa certamente o mesmo que para a maioria das pessoas.
É por demais evidente que para boa parte desta gente, legalidade, transparência, ética ou minudências como pagar contribuições, impostos, etc., são “contos para crianças”, coisas, por assim dizer, para “tótós”, nós.
Tecnoformices, relvices, varices, loureirices, salgadices, amigos mecenas, negócios manhosos e corrupção, tráfico de influências e amiguismo, utilização criteriosa dos alçapões de uma justiça criteriosamente desenhados para efeitos de protecção dos seus interesses e outras habilidades da mesma natureza são ferramentas diariamente usadas por esta família alargada e diversa que há décadas ocupou um largo espectro do nosso contexto político, social e económico.  

FINALMENTE, TEMOS TINO

De forma pouco perceptível fiquei com a sensação de ter ouvido qualquer coisa como “tino entrou na campanha presidencial”.
Meio desatento fiquei a pensar, era bom que assim fosse. Os tempos não vão fáceis e parece existir muita falta de tino em muitas cabecinhas, até em presidenciais cabecinhas.
Dizem-se muitos disparates, vendem-se mentiras como verdades históricas, é mau hoje o que ontem foi bom e vice-versa. O troca-tintismo é rei e senhor de boa parte da opinião publicada e dos discursos políticos. O preconceito alimenta uma histeria que pode ser incendiária.
Enfim, concluí, era mesmo necessário que chegasse algum tino a todo este cenário.
De repente, percebi que afinal se trata do Tino, o de Rans, uma atinada figura tutelar figura de referênciada cena política portuguesa. Anunciou que se vai candidatar à Presidência da República. E já avisou, Marcelo que se cuide a campanha vai ser "entre a academia e as botas de biqueira de aço, a rua e o ar condicionado”.
E pensei, continua o desatino.
E a gente permite? Até quando?

PS - Mais um dia cabaneiro por aqui no Alentejo que não permite a lida lá fora, um homem põe-se a pensar e ainda sente mais a falta de ... tino que por aí anda.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

DE TANTO CHUMBAR ... UM DIA APRENDES


De novo e sempre.
O peso insustentável da retenção no nosso sistema escolar parece assentar na errada convicção de que a repetição só por si conduz ao sucesso e alimenta o que a OCDE já classificou de "cultura da retenção". Importa ainda considerar o impacto económico desta cultura como evidenciou um estudo realizado pela associação Empresários pela Inclusão Social e pelo Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa.
Confesso que fico bastante surpreendido quando ao discutir-se os efeitos da retenção, cerca de 150 000 alunos por ano, algumas vozes, mesmo dentro do universo da educação", clamam que se está a promover o "facilitismo", o "então passam sem saber".
Como me parece evidente não é dada disto. Só como exemplo, a Noruega tem uma taxa de retenção próxima do 0% e não consta que os alunos noruegueses passem sem saber, são, aliás, dos alunos com melhores resultados nos estudos comparativos internacionais.
A questão é saber se o chumbo transforma o insucesso em sucesso. Não transforma, repetir só por repetir não produz sucesso, aliás gera mais insucesso conforme os estudos mostram.
Nesta conformidade e do meu ponto de vista, a questão central não é o chumba, não chumba, e quais os critérios ou o número de exames, mas sim que tipo de apoios, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias desde o início da percepção de dificuldades com o objectivo de evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional. Importa ainda que as políticas educativas sejam promotoras de condições de sucesso para alunos e professores. O aumento do número de alunos por turma no Ensino Básico e no Secundário, a forma como foram definidas as metas curriculares, a cultura de competição e centrada exclusivamente em resultados, os cortes no número de docentes que poderiam desenvolver dispositivos de apoio, são apenas alguns exemplos do que não deve ser feito se, efectivamente, se quiser promover qualidade e sucesso.
Como é evidente este tipo de discurso não tem rigorosamente a ver com "facilitismo" e, muito menos, com melhoria "administrativa" das estatísticas da educação, uma tentação a que nem sempre se resiste.
Assim sendo, o essencial é promover e tornar acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e competentes de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário também diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional mas não nas idades que o MEC defende, criando percursos de "segunda" para os "sem jeito para a escola" e "preguiçosos".
Não tenho nenhum princípio fundamentalista contra os exames, embora no 1º ciclo me pareçam dispensáveis, as provas de aferição cumpriam o papel de regulador do sistema. No entanto, entender que os exames, quanto mais melhor, só por existirem são fonte de qualidade, parece decorrer da estranha convicção de que se medir muitas vezes a febre, esta irá baixar o que é, no mínimo, ingénuo.
A qualidade promove-se, é certo e deve sublinhar-se, com a avaliação rigorosa e regular das aprendizagens, sim, naturalmente, mas também com a avaliação do trabalho dos professores, com a definição de currículos adequados, com a estruturação de dispositivos de apoio a alunos e professores eficazes e suficientes, com a definição de políticas educativas que sustentem um quadro normativo simples e coerente e modelos adequados de autonomia, organização e funcionamento das escolas, com a definição de objectivos de curto e médio prazo, etc.
É o que acontece, genericamente, nos países com mais baixas taxas de retenção escolar.
É o que não acontece em Portugal.
É o que o Ministro Nuno Crato parece entender que não deve existir em Portugal.
Ponto.

DOS PAIS E DOS FILHOS

Um gentil convite da Sociedade Portuguesa de Pediatria para intervir no seu 16º Congresso aqui no Algarve para falar dos tempos, das circunstâncias, das idades em que os pais o são, das dificuldades e também, evidentemente, do privilégio de exercer o “ofício” de pai, mãe.
Lamentavelmente, cada vez menos pessoas experimentam a magia da paternidade e os que experimentam também cada vez o são menos frequentemente, o inverno demográfico parece ter vindo para ficar e número de filhos vai sendo revisto em baixa.
É verdade que, felizmente, as famílias encontram caminhos interiores e próprios para lidar com os desafios da paternidade. Com dificuldades, com ansiedade, com dúvidas, claro, com decisões que nem sempre são as melhores, claro, mas conseguindo o que todos desejamos, ajudar os mais novos a ser gente, gente de bem.
Assim como não gosto de supercrianças e tantas vezes se quer fazer dos miúdos supermiúdos, também creio que não precisamos de superpais. Precisamos de pais atentos e disponíveis. A disponibilidade não é só um problema de tempo, sendo certo que as circunstâncias de vida de muitas famílias são pouco amigáveis também entendo que a atitude e a vontade de ser disponível são determinantes.
No entanto, famílias existem e transversalmente aos patamares sociais que sentem enormes dificuldades e inquietações no dia-a-dia com os filhos.
A estas famílias, a estes pais e a estas crianças e adolescentes, também nós que profissionalmente ou de outra qualquer forma nos relacionamos com este universo, precisamos de estar mais atentos, de ler, de perceber comportamentos, discursos ou omissões que sejam sinais de mal-estar para crianças e pais.
Acontece ainda que os contextos familiares são sempre específicos. Recordo a ideia de Tolstoi em “Anna Karenina”, as famílias felizes parecem-se todas. As famílias infelizes, cada uma é-o à sua maneira. Mais difícil, mas ainda mais importante se torna estarmos atentos.
Demasiadas vezes intervimos para responder e nem sempre conseguimos responder bem, menos vezes intervimos para prevenir. Não pudemos ou não soubemos perceber o que estava a acontecer ou para acontecer.
Por coincidência, também aqui Algarve a imprensa de hoje refere a situação, em Faro, de duas crianças de três anos, gémeas, que de madrugada foram encontradas a brincar de pijama e descalças num parque a 500 metros da sua casa onde dormia a sua mãe. A situação desta família já era acompanhada, como quase sempre, mas …
Estão a nascer menos crianças, temos de saber cuidar melhor das que nascem e ajudar melhor os que as fazem nascer.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O PRESIDENTE FALOU

O Presidente falou.
O Presidente, desta vez, falou com clareza e indigitou Passos Coelho para chefiar o Governo.
O Presidente está zangado com a maioria dos eleitores portugueses.
O Presidente não gostou que estes portugueses não tivessem votado como ele empenhada e desinteressadamente sugeriu mas ele corrigiu os votos dos portugueses porque ele é que sabe, ele é o Presidente.
O Presidente falou e disse “quem não é por nós … é contra o interesse nacional”. Onde é que eu ouvi isto?
O Presidente bem avisou o PS que deveria aceitar o Programa da coligação.
O Presidente não gostou que o PS ande com más companhias, os radicais da esquerda, gente de má vida e de maus costumes.
O Presidente é Presidente dos portugueses de quem gosta e são bem comportados, votam da maneira certa.
O Presidente falou, sem se engasgar e disse “odeio essa malandragem da esquerda”.
O Presidente meteu medo às gentes. Os senhores que mandam lá de fora vão ficar muito zangados se vocês não apoiarem a coligação e depois castigam as pessoas. Portem-se bem.
O Presidente bem falou da democracia mas não tolera a diferença. Também é dos que espera ansiosamente que deputados do PS votem no … PSD. Se ele mandasse seriam obrigados, em nome da democracia e do interesse nacional, é claro.
O Presidente, felizmente, está em final de mandato.
O Presidente fez-me recordar um homem bom cá da tribo familiar que já partiu há muito e que sempre que alguém menos simpático se ia embora dizia, “olha, leva muitas saudades que é coisa que cá não deixas”.
O Presidente falou. Fez-me desejar de forma ainda mais veemente que em Belém esteja alguém que seja um Presidente da República e não o Presidente de parte da República, alguém que não considere que quem não vota em si e nos seus não pensa no interesse nacional, alguém que percebe que a diferença enriquece, alguém que pense que não existem donos da democracia, alguém que …
Alguém como Sampaio da Nóvoa.

A PANTANOSA PÁTRIA NOSSA AMADA

Grupo Amorim pagou 3,7 milhões para evitar acusação de fraude fiscal

Nada de surpreendente. Lamentavelmente estas notícias já são lidas por nós sem um sobressalto.
Na verdade, a roda livre de impunidade e incumprimento dos mais elementares princípios éticos quando não da lei, produziu nas últimas décadas uma família alargada que, à sombra dos aparelhos partidários e através de percursos políticos, se movimentam num tráfego intenso entre cargos, entidades e empresas públicas e entidades privadas, promovendo frequentemente negócios que nos insultam.
Esta família alargada envolve gente de vários quadrantes sociais e políticos com uma característica comum, os negócios, alguns obscuros, de natureza multifacetada e de escala variável, desde o jeitinho para o emprego para o amigo até aos negócios de muitos milhões.
Acontece ainda e isto tem tido efeitos devastadores que muitos dos negócios que esta família vai realizando envolve com frequência dinheiros públicos e com pesados encargos para os contribuintes.
Esta família conta ainda com a cooperação de um sistema de justiça talhado à sua medida pelo que raramente se assiste a alguma consequência decorrente dos negócios da família.
Curiosamente mas sem surpresa, todos os membros desta família, quando questionados sobre os seus negócios ou envolvimento em algo, afirmam, invariavelmente que tudo é feito tudo dentro da lei, nada de incorrecto e, portanto, estão sempre de consciência tranquila.
Veja-se este novo episódio, cometem um crime, pagam o dinheirinho e não acontece mais nada. Para a próxima terão cuidados redobrados e coisa compõe-se.
Alguém poderia explicar a esta gente que, primeiro, não somos parvos e, segundo, o que quer dizer consciência.

Esta é a pantanosa pátria nossa amada.

OS DONOS DAS CONSCIÊNCIAS

Ao que parece o acordo entre PS, BE e PCP que garanta apoio parlamentar a um Governo do PS está bem encaminhado.
A coligação insiste na indigitação de Passos Coelho para formar Governo com a esperança de que alguns deputados do PS não apoiem o acordo subscrito por António Costa. Aliás, são conhecidas opiniões de algumas figuras socialistas que contestam o acordo. A mudança assusta, sobretudo quem vive do “sempre foi assim”, a alternância do "arco da governação", porquê mudar e logo para a esquerda, a tenebrosa esquerda.
Registo também que várias figuras do PSD e CDS-PP têm vindo a insistir na possibilidade, a rebeldia de alguns deputados do PS contra o acordo à esquerda de alguns deputados do PS o que viabilizaria a continuidade do Governo da coligação. A essa eventual rebeldia não serão estranhos os ajustes nas lutas pelo poder interno no PS, também por aqui nada de novo, coisas do aparelhismo e da partidocracia.
O que me parece verdadeiramente espantosa e hipócrita é a argumentação. Assenta na ideia de que “as direcções políticas partidárias não são donas dos votos dos deputados.
Pessoalmente, concordo em absoluto com o enunciado mas ...
Existe um pormenor irrelevante, a mesma gente que afirma isto com um ar sério obrigou, é público, a que os deputados candidatos pela coligação às eleições de 4 de Outubro assumissem um contrato de “fidelidade” às decisões da direcção política que sendo rompido leva à sua substituição na AR.
Dito de outra maneira e como é habitual, os deputados deverão votar o que lhes for dito para votar. É claro que nas outras bancadas deve imperar a liberdade de voto. A hipocrisia e o despudor não têm limites.
Na verdade, assistir a algumas sessões e ao nível dos debates produzidos é, com frequência, um espectáculo deprimente. Os interesses dos cidadãos que os deputados representam são trocados pelos interesses da partidocracia de que os deputados se alimentam.
O recurso frequente à famigerada figura de "disciplina de voto" partidária é um ataque às consciências e, mais uma vez, à essência do papel de um deputado, representar os seus eleitores e não mostrar-se como um "yes man" que carrega no botão que lhe mandam sem um sobressalto de consciência ou de sentido ético. Nessas sessões torna-se claro que bastaria uma reunião da conferência de líderes para conhecer os resultados das votações, um deputado por partido seria suficiente para representar os resultados eleitorais. Aliás, a indecorosa narrativa das sucessivas Comissões de Inquérito sobre as mais diversas matérias que, invariavelmente, concluem pelos interesses de quem em cada momento governa, são um outro bom exemplo do descrédito a que genericamente esta gente condena a Assembleia da República e a classe política.
De tudo isto resulta, como muitas vezes refiro, o afastamento das pessoas pelo que a construção de outras formas de participação cívica parece ser a única forma possível de reformar o quadro político que temos, ou seja, os partidos ou definham ou mudam, pela pressão do exterior.
Veremos com irão decorrer as coisas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

TAL PAI, TAL FILHO

O Público faz referência a um estudo coordenado por Anália Torres, "Reproduzir ou contrariar o destino social?" que conclui, “A classe social de origem e a educação dos pais ainda têm muito peso no percurso escolar dos filhos. A origem social ainda pesa muito, apesar de os filhos com ensino superior terem triplicado em relação aos pais que tinham chegado a esse nível”,
Nada de novo, a capacidade preditora da variável escolaridade dos pais relativamente ao percurso escolar dos filhos é ainda muito significativa. A análise dos resultados escolares em exames nacionais cruzando com a habilitação escolar dos pais mostra isso mesmo. Como exemplo e considerando os exames de 2014, na escola pública melhor colocada, a Escola Raul Proença, nas Caldas da Rainha, a média das habilitações das mães, é de 12 anos e tem 8,6% dos seus alunos oriundos de famílias carenciadas apoiados no 1º escalão da acção social escolar.
Na Escola Secundária de Resende que apresenta a média mais baixa, 7,3 valores, as mães dos alunos têm, em média, apenas o ensino primário completo, 5,1 anos de estudo, e tem no escalão mais carenciado 30% dos alunos.
Recordo também uma análise da OCDE, cruzando os resultados escolares dos alunos de diferentes países no Estudo comparativo PISA relativos a 2012 com as profissões dos pais, mostra que em Portugal, mais do que noutros países, os filhos de pais mais qualificados têm melhores resultados.
Na verdade, desde sempre que os estudos, designadamente no âmbito da sociologia da educação, associam a carreira escolar e o estatuto profissional dos filhos ao nível de escolaridade e estatuto económico dos pais. Também sabemos que isto é tanto mais evidente quanto maiores são os níveis de desigualdade. Em Portugal verifica-se um dos maiores fossos entre ricos e pobres da União Europeia pelo que a relação entre os níveis escolar e salarial dos pais e os dos filhos é ainda mais forte. O trabalho agora apresentado vem, mais uma vez, confirmar a realidade que conhecemos, a incapacidade da escola de promover mobilidade social, ou seja, o nível de escolaridade dos pais marca de forma excessiva o nível atingido pelos filhos. A situação sempre assim foi, ainda me lembro de quando era pequeno, haver quem se admirasse do meu pai, um serralheiro, ter decidido que eu continuaria a estudar.
Acresce que as circunstâncias conjunturais, provavelmente estruturais, que vivemos permitem, aliás, admitir uma mobilidade social descendente produzindo uma classe de "novos pobres", que tendo anteriormente ascendido a patamares médios se sentem agora em processo significativo de degradação das condições e qualidade de vida. Neste contexto, a que se junta uma política educativa que parece ter como desígnio a promoção de uma espécie de darwinismo socioeducativo, em que por sucessivos processos de selecção que não garantem equidade nas oportunidades, a educação e a qualificação não promoverão mobilidade social ascendente.
Deste quadro, resulta uma complexa situação que poderemos de forma simplista colocar nestes termos, a escola ao acabar por reproduzir a desigualdade social à entrada, compromete o papel fundamental que lhe cabe na promoção da mobilidade social, ou seja, a escola que deveria ser parte da solução, na prática, corre o risco de continuar a ser parte do problema. No entanto e apesar disto, creio que muito poderá e deverá ser feito no sentido da promoção efectiva da chamada e distante equidade e igualdade de oportunidades.
Do meu ponto de vista, muitas vezes aqui afirmado, a questão central é a qualidade na escola pública. Esta qualidade deverá assentar em três eixos fundamentais, a qualidade considerando resultados, processos, autonomia e gestão optimizada de recursos, segundo eixo, qualidade para todos, a melhor forma de combater os mecanismos de exclusão e a desigualdade de entrada e, terceiro eixo, diferenciação de metodologias dos percursos de educação e formação. Esta diferenciação de percursos deve passar, e temos registado progressos nesta área, por uma oferta bastante mais variada ao nível do secundário possibilitando a muitas jovens completar este nível de ensino com competências profissionais, isto é que é fundamental. Também ao nível do ensino superior, com o trabalho no âmbito do ensino politécnico se criam condições para processos de qualificação mais curtos e mais diversificados.
No actual cenário, quando se entende e espera que a educação e qualificação possam ter um papel decisivo na minimização de assimetrias, as políticas, os custos e a dificuldade de acesso podem, pelo contrário, alimentar essas assimetrias e manter a narrativa, "tal pai, tal filho", pai letrado, filho letrado e pai pouco letrado, filho pouco letrado.
Assim sendo, urge a definição de uma política educativa para o médio prazo, estabelecida com base no interesse de todos, com definição clara de metas, recursos, processos e avaliação. A continuar na deriva a que nas última décadas nos entregamos, daqui a algum tempo um novo estudo ou a OCDE virá dizer exactamente o mesmo.

CHAME-SE ESTE HOMEM. JÁ!

Astrólogo Mestre Dabo Vidente

Um grande vidente espiritualista e conselheiro, conhecido por grandes personalidades no mundo inteiro pelos bons resultados obtidos nos problemas mais complicados nos últimos anos. Mestre Dabo é um dos mais apreciados em África e na Europa com poderes eficazes. Ajuda a resolver de imediato qualquer problema difícil ou grave com eficácia: amor, o seu casamento está em crise? Quer recuperar o seu marido/mulher, namorado/namorada ou amante, amarra a você quem desejar: marido/mulher, namorado/namorada ou amante e acabam-se os problemas, afastamento total de pessoas indesejadas e trata com sucesso problemas de saúde, familiares, negócios, impotência sexual, dificuldade de engravidar, heranças, sorte, futuro, vícios, infertilidade, emprego, casas assombradas, destrói bruxarias e mal de inveja, magia negra, etc.
Resultado positivo em 48 horas – Trabalho garantido na presença ou à distância com total eficácia e honestidade – consulta pessoalmente por marcação ou por telefone. Pagamento após resultado.

Chame-se este homem, já! Estamos à espera de quê?

ESTUDAR É UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE MAS MUITO CARO

Desculpem a insistência no tema mas creio que se justifica.
Segundo o relatório "Sistemas Nacionais de Propinas e Sistemas de Apoio no Ensino Superior 2015-16", da rede Eurydice da União Europeia apenas Portugal e a Holanda cobram propinas a todos os alunos do ensino superior, sendo também Portugal um dos países com valores de propina mais altos.
É verdade que também tem um valor de bolsas mais elevado mas que abrange um número mais baixo de estudantes que os apoios disponibilizados na generalidade dos outros países que desenvolvem sistemas mais globais de apoios dirigidos aos estudantes, alguns, e às famílias, outros.
Recordo que no início de 2014 um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar. É também preocupante o abaixamento que se tem vindo a verificar de procura de ensino superior apesar deste ano se ter registado uma pequena subida. As dificuldades económicas são a principal razão para não continuar.
Por outro lado, talvez seja de considerar o impacto da tão perversa quanto errada ideia do "país de doutores" que se foi instalando com o precioso auxílio de alguma imprensa preguiçosa e negligente pois não corresponde à verdade e que alimentando a ideia de que "estudar não vale a pena", representa um verdadeiro tiro no pé. Promove ainda o risco dos cidadãos desinvestirem em projectos de vida que passem pela qualificação, a verdadeira alavanca do desenvolvimento e, portanto, do futuro.
É ainda de relembrar que de acordo com o Relatório da OCDE, Education at a Glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias, cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia, 23,6%.
Esta informação não é nova. Na verdade e como é do conhecimento das pessoas mais perto deste universo, o ensino superior em Portugal, contrariamente ao que muita gente afirma de forma leviana, tem um dos mais altos custos de propinas da Europa. Já em 2011/2012 dados da rede Eurydice mostravam que Portugal tinha o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerassem as excepções criadas em cada país, tem efectivamente o terceiro custo mais alto no valor das propinas.
Ainda neste contexto, em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior particular o esforço é ainda maior. Percebe-se assim a taxa altíssima de jovens que exprimem a dificuldade de prosseguir estudos.
As dificuldades pelas quais passam muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado, são, do meu ponto de vista, considerados frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo pelo que ... quem não tem dinheiro não tem vícios.
Para reforçar a ideia de qua não somos, definitivamente, um "país de doutores" importa sublinhar que, apesar dos progressos dos últimos anos, estamos muito longe de poder vir a cumprir a meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos.
A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.
No entanto, os tempos que atravessamos e o vento que tem soprado da 5 de Outubro não parecem muito amigáveis.